sábado, 28 de fevereiro de 2026

Engolidor de espadas

Era engolidor de espadas e foi proibido de jogar à sueca.

P.S. - Hoje é Dia do Engolidor de Espadas.

O faquir

Homem que é homem não dorme. Passa pelas brasas. E sem ais nem uis!

P.S. - Hoje é Dia do Engolidor de Espadas.

Os engolidores

Engolidores, há-os. Como por exemplo engolidores de sapos, metaforicamente falando, engolidores de fogo, que na verdade não engolem mas borrifam, e engolidores de espadas. Engolidores de copas e engolidores de ouros não sei, mas engolidores de paus também há-os.

P.S. - Hoje é Dia do Engolidor de Espadas.

Baralhar e dar de novo

Era um baralho com cinco ases. Ás de espadas, ás de paus, ás de copas, ás de ouros e ás do pedal.

P.S. - Hoje é Dia do Engolidor de Espadas.

Quem com ferros ferros, com ferros ferros

O grande problema do engolidor de espadas era a azia. Mudou de ofício, por indicação médica...

P.S. - Hoje é Dia do Engolidor de Espadas.

Por falar em espadas

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Fafe e a Guerra dos Cem Anos

Desarmado em parvo
Era tão pacifista, tão pacifista, tão objector de consciência, tão objector de consciência, tão não-violento, tão não-violento, que havia quem dissesse que ele andava constantemente desarmado em parvo.

A Batalha de Castillon foi levada a efeito no dia 17 de Julho de 1453 e ficou para a História como a derradeira e decisiva batalha da Guerra dos Cem Anos, que decorreu razoavelmente entre franceses e ingleses. A França ganhou, e félicitations à la cousine. A Guerra dos Cem Anos chama-se Guerra dos Cem Anos porque durou cento e dezasseis anos, mas chamar Guerra dos Cento e Dezasseis Anos à Guerra dos Cem Anos não dava jeito nenhum aos historiadores e contabilistas bancários, e assim começaram os arredondamentos, que saem sempre à casa. Por outro lado, a Guerra dos Cem Anos ostenta este curioso e inusitado nome, Guerra dos Cem Anos, para se distinguir da Guerra dos Oitenta Anos, que se verificou não sem alguns sobressaltos entre os futuros holandeses, actuais neerlandeses ou, quiçá, países-baixistas, e Espanha, com a Guerra dos Dez Anos, entre cubanos e espanhóis, com a Guerra dos Treze Anos, entre prussianos e teutónicos, com a Guerra dos Trinta Anos, entre a Alemanha e quem lhe aparecesse à frente, com a Guerra dos Sete Anos, entre França mais aliados e Inglaterra mais aliados (incluindo Portugal), com a Guerra dos Seis Dias, entre árabes e israelitas, com a Guerra das Audiências, entre a SIC e a TVI, e até com a Guerra das Rosas, entre a Rosa Maria e a Rosa Beatriz, que não se dão nem à lei da bala e andam sempre à trolha uma contra a outra derivado ao Anacleto Lingrinhas, que por acaso é pintor de automóveis e aquece a cama a ambas. A História, assim maiusculada, não se compadece realmente com equívocos.

E quereis saber como é que começou a Guerra dos Cem Anos? Então, cá vai.
Era um encontro previsto para ser aprazivelmente diplomático e discutido à melhor de três sets, quando Mister Cheddar, pela Inglaterra, e Monsieur Camembert, pela França, reuniram em Sherwood, sob os auspícios do Robin dos Bosques e a bênção de Frei Tuck, tendo sobre a mesa, já naquele tempo, a delicada questão das quotas leiteiras. Estava tudo a correr bem, estava-se até bastante agradável, entre uísques e champanhes perfeitamente bebidos, mas era um cheiro a chulé que não se podia. Foi então que o inglês, já com um grãozinho na asa e uma mola de roupa no nariz, não aguentou mais e questionou o francês, com a ajuda do José Milhazes, que fazia as traduções: - Porque é que o caro amigo (old chap, no original) não vai mas é lavar os pés no Sena?...
O franciú levou a mal e foi assim que começou a Guerra dos Cem Anos. Até hoje.

Ora bem. Eu cuido que a Batalha de Castillon ocorreu em Fafe, exactamente em Fafe, aqui mesmo nas nossas barbas, numa antiga elevação situada entre a Ponte do Ranha, o Socorro, a Alvorada, a Fábrica do Papelão, a casa da Dona Aurora e o Estádio, com o rio Ferro a passar e os campos e bouças de Cavadas aos pés. Ali se alcandorava, com efeito, o famoso monte de Castelhão, como se diz em português corrente, ou Castilhom, como se diz em fafês correcto - e portanto está fácil de ver onde franceses e ingleses foram buscar local e nome para a refrega. O monte de Castelhão era, na verdade, um sítio aprazível para a realização de todo o tipo de batalhas, como por exemplo brincar aos cobóis, e tinha um belíssimo pionono, de que infelizmente não há muita certeza. Mas isso é outra história.

Em todo o caso, não será certamente despiciendo relembrar que Fafe, o seu centro histórico e arredores consuetudinários, sempre dispôs das melhores e mais vantajosas condições naturais e estruturais para a realização de grandes eventos e mesmo certames de índole nacional e, como se vê, até internacional ou mais, nomeadamente batalhas e guerras de uma forma geral e dos mais diversos feitios. É uma terra que fica à mão e onde medram e farturam equipamentos a esse respeito e subsídios camarários. Não por acaso, suspeito e defendo que a própria Batalha de São Mamede, fundadora da nacionalidade, foi em Fafe que realmente se desenrolou, pelo menos um bocadinho, e ainda ninguém me conseguiu provar o contrário.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Contar Um Conto de Fadas.)

Uma mulher de barba rija

Idade Média
A Idade Média, ao contrário do que o próprio nome parece indicar, foram duas: a Baixa Idade Média e a Alta Idade Média. Diferenciam-se, evidentemente, pela altura.

Era a chamada mulher de barba rija. Feia, grande, cabelos espetados, seis dedos em cada mão e forte como um cavalo, sem ofensa para os presentes. E o nome, Brites de Almeida, também lhe ficava de modo, tal como um certo comportamento masculino e o bigode de que ninguém fala mas que certamente. Assim seria a Padeira de Aljubarrota, segundo a tradição popular, porém já se sabe: quem conta um conto acrescenta um ponto, e dessarte nasce o mito.
Esta padeira realmente nunca existiu. Ainda assim, a lenda liga-a à Batalha de Aljubarrota e ao massacre que se lhe teria seguido, mas que também nunca aconteceu. Brites seria a líder de um grupo de populares, tipo claque de futebol, que perseguiu os castelhanos em fuga. Brites emboscou-se, fez-lhes espera, aos desgraçados dos espanhóis, e matou com as próprias mãos uns tantos, se por acaso fosse verdade e o Benfica tivesse claques.
Nessa noite de 14 de Agosto de 1385, a padeira chegou a casa tarde e a más horas, talvez com os copos, como de costume, ou pelo menos maldisposta, e descobriu sete espanhóis escondidos no forno onde cozia o pão às sextas-feiras. Ela percebeu logo que eles eram espanhóis porque diziam muito "qué rico!", "vale, vale!", "qué tal, qué tal?" e outros nomeadamentes. Sem pestanejar, ou ainda que pestanejando derivado à farinha que andava pelo ar, Brites pegou na pá e bateu-lhes até os matar bem mortos, um atrás do outro, à medida que os infelizes iam saindo do forno gritando "olés" e tocando castanholas. Foi muito bem feito, dizem os nacionalistas, e desde esse dia glorioso e imaginário nunca mais ninguém viu a padeira em Portugal.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Contar Um Conto de Fadas.)

Era uma vez um príncipe talvez

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Portugal segundo Alexandre O'Neill

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, "Feira Cabisbaixa"

P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa.

Noventa mil quilómetros quadrados

A geografia

Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:

A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,

Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pegadas da aventura.


"Recolha Poética (1954-2017)", António Arnaut

P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa. E ontem fez anos 48 anos que António Arnault, então ministro dos Assuntos Sociais, apresentou o Serviço Nacional de Saúde. O Estado português consagrava, pela primeira vez, o acesso universal aos cuidados de saúde, de acordo com a Constituição de 1976.

Queria que os portugueses

Queria que os portugueses
 

Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.


"Poemas", Agostinho da Silva

P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa.

Ó Portugal, toca a gaita triste e faz a festa!

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Lembrando David Mourão-Ferreira

Inscrição estival

Ó grande plenitude!

E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.

Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...

Este cacho de curvas que é o teu corpo.


David Mourão-Ferreira

(David Mourão-Ferreira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927)

Mural da história

Foto Hernâni Von Doellinger

Pela medida grande

Uma infusa de satisfatórias dimensões. Vinho, branco ou tinto, e açúcar, de preferência amarelo, à moda de Fafe. Mexe-se com uma colher, se houver, ou com os dedos. Da mão. Junta-se-lhe cerveja ou, para coninhas, seven up. O equilíbrio das quantidades fica ao gosto do fabricante. Chama-se a isto "receita" ou "remessa" e deve beber-se bem fresco, mas sem gelo, porra! Os coninhas podem chamar-lhe cocktail...

Ora bem. Hoje é Dia Internacional das Remessas Familiares, e neste caso as quantidades devem ser calculadas, ajustadas e acrescentados em função do número de parentes presentes. Se, em famílias mais numerosas e capazmente apreciadoras, uma infusa não for suficiente, então a remessa pode muito bem ser elaborada e servida num cântaro, num balde, num alguidar, numa bacia, no depósito da água, no tanque ou na banheira, se estiver de vago.

P.S. - Publicado a propósito do Dia Internacional das Remessas Familiares, que ocorre a 16 de Junho. Hoje é Dia Internacional do Bartender.

Lua humanizada: tão igual à Terra.

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Contra a discriminação do mercurocromo

Foi notícia: em 2015 Portugal ocupava um honroso nono lugar ex aequo no ranking mundial dos países com maior consumo de álcool. Feitas as contas, cada português (incluindo os portugueses que não bebem) bebeu naquele ano uma média de 12,5 litros de álcool. O relatório da Organização Mundial da Saúde então divulgado era uma vez mais omisso no que diz respeito aos números do consumo de mercurocromo. O que se lamenta.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Compromisso para o Controlo do Mercúrio.

A ciência

Cientificamente provado: o álcool afecta de forma diferente o homem e a mulher. O mercurocromo não.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Compromisso para o Controlo do Mercúrio.

O selim e a mulher

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Assassinato de carácter

Cada vez que um carreirista denunciado por indecente e má figura ou apanhado em falso diz de está a ser vítima de "assassinato de carácter", eu geralmente pergunto-me: mas qual carácter?

O mal de Paulo Raimundo

Foto Partido Comunista Português

O mal de Paulo Raimundo é ser parecido com ele próprio. Isto é, o grande defeito de Paulo Raimundo é não ser parecido com ninguém. E o que é que se segue? Para a imensa maioria dos portugueses, mais do que uma incógnita, o secretário-geral do PCP continua a ser um incógnito.
Ainda anteontem. Eu e o Lopes vínhamos a sair da Conga, em direcção à Câmara do Porto, e passámos por três indivíduos conversando, um dos quais, dissemos nós um ao outro praticamente ao mesmo tempo, "Olha um tipo parecido com o Paulo Raimundo...", rimo-nos um bocadinho com a coincidência, porque é uma coisa que gostamos muito de fazer, rir um bocadinho, e seguimos com a nossa vidinha, que naquela tarde era entrarmos no carro e o Lopes trazer-me a Matosinhos, à porta.
À noite, em casa, varejando os títulos das notícias, é que eu dei fé que o líder comunista tinha andado de facto pela Invicta, o tipo parecido com o Paulo Raimundo era mesmo o Paulo Raimundo e os outros dois indivíduos afinal não eram indivíduos mas camaradas, evidentemente. E fiquei deveras aborrecido, porque faria muito gosto em ter-lhe dado uma mãozada, ao bom do Raimundo, até porque acho que o homem merece.
Merece, mas! Aquela aspecto de pessoa normal não o recomenda. Aquele ar mancebo, aquela cara de boa gente, aquele sorriso tímido e verdadeiro, aquela presença asseada, limpinha, aquela estampada honestidade, aquele porte de 16.º na lista de candidatos à assembleia de freguesia, aquele terra-a-terrismo, aquela normalidade toda, diria eu, só o desabonam. Invisibilizam-no. Apagam-no aos olhos e à memória dos demais. Na rua, Paulo Raimundo passa ao lado de si próprio, como se nada fosse. E, se for distraído, às tantas nem se reconhece. Paulo Raimundo devia ser parecido com outra pessoa qualquer, por exemplo Jerónimo de Sousa, para se saber imediatamente que aquele que ali está é o Paulo Raimundo em pessoa.
Ou então o secretário-geral do PCP devia ir muito mais às televisões e aos jornais e às chamadas redes sociais, montar lá banca, dizer uns tremendismos quaisquer, chamar nomes às pessoas, como os líderes do Chega e da Iniciativa Liberal (IL), que esses dois, assim, toda a gente sabe quem são.
Toda a gente, mas não é geral. Eu, por exemplo, se me pusessem o da IL numa fila de identificação policial, palavra de honra que não saberia apontá-lo. Assim de repente não faço ideia da cara dele, precisaria talvez de uma cábula, uma fotografia daquelas "Procura-se", porque, a verdade também é só uma, esse, o tal liberal, sem a máquina do Correio da Manhã por trás como o outro, nem sei o que me parece...

P.S. - Publicado originalmente no dia 14 de Dezembro de 2023. Ontem parti-me a rir com Paulo Raimundo, que comentava, a pedido dos jornalistas, o parlapiê de Luís Montenegro acerca do alegado programa de ajudas pós-tempestade, muito boas intenções, palavrinhas a abater e vou ali e venho já. "Para sermos correctos e rigorosos, não há nada para comentar da resposta que não foi dada pelo primeiro-ministro, que tem realmente esta característica, consegue falar meia hora sem dizer nada", apontou, mais ou menos nestes termos, o líder comunista. Para rematar: "Se perguntassem assim: um comentário ao plano, não há plano; um comentário às medidas; não houve medidas; um comentário à gravata do senhor primeiro-ministro, isso posso comentar, é a única coisa possível de comentar". Raimundo no seu melhor, e ouvido na rádio, naquele tom simpático, agradável, mas cheio de malandrice, ainda teve mais piada.

Os cinemas também se abatem

Fitas...
Não vá em fitas! Máscara de ferro é uma coisa, testa-de-ferro é outra.

O cinema foi sempre a coisa mais importante da minha vida, até deixar de ser. Creio que a última vez em que entrei numa sala de cinema convencional levava pela mão o meu filho, ou vice-versa, para vermos "O Rei Leão", portanto no Verão de 1994 e, lamentavelmente, era a versão portuguesa.
Comecei cedo, ainda de calças curtas e a dar uso nas legendas às primeiras letras que trazia aprendidas da escola. Era o tempo do cinema ao ar livre na parada das traseiras dos velhos Bombeiros, na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes. Debaixo da escadaria do quartel foi montada uma espaçosa e saudabilíssima cabina de projecção toda ela construída em lusalite, e o terreiro enchia-se de cadeiras e bancos corridos com costas. O operador era o Porinhos, se não me engano, eu via os filmes da janela do quarto do meu padrinho e tio Américo, derivado à falta de idade, depois o cinema acabou sem mais nem menos, sem me avisarem ou explicarem, a parada lá ficou, como o próprio nome indica, e o barraco, de tão jeitoso, aproveitou-se para arrecadação das tralhas do meu avô.
Ainda em Fafe, mais tarde, tornei-me ferrinho do Teatro-Cinema, andei pelas aldeias com o Pimenta, de catrel e altifalantes, a anunciar os "ma-gní-fi-cos" filmes que, pelo Verão, passavam no campo de futebol e eram tão fraquinhos, frequentei bissextamente o salão inacabado do Martinho da Granja, se a memória não me atraiçoa, e fui uma ou duas vezes ao Estúdio Fénix. Entretanto, levado pela vida, tinha-me virado para Braga - São Geraldo e Teatro-Circo -, e para Guimarães - São Mamede e Jordão. Vi cinema, de forma avulsa e por exemplo, em Vila Real, Figueira da Foz, Amadora, Lisboa, Dublin, Roma, Manchester ou Bordéus, onde de momento estivesse e pudesse.
Instalei-me no Porto e não me escapou um: Águia D'Ouro, Batalha, Carlos Alberto, Charlot, Coliseu, Estúdio, Estúdio Foco, Estúdio 400, Júlio Dinis, Lumière, Nun'Álvares, Passos Manuel, Olímpia, Pedro Cem, Rivoli, Sá da Bandeira, Terço, Trindade, Vale Formoso, Chaplin, em Leça da Palmeira, e até o Vitória, na Circunvalação, mas tecnicamente do lado de Rio Tinto, Gondomar.
E agora, que é deles? Onde estão os velhos cinemas do Porto? Fecharam todos? A cadeado? Foram todos ao shopping e perderam-se? Eu sei que também não vou ao cinema há mais de um quarto de século, mas a culpa não é minha: é do meu filho, que cresceu, e isso realmente faz-me diferença.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Falo disto, aqui no Tarrenego!, pelo menos desde Fevereiro de 2019. Em 2026, que ainda não chegou aos dois meses, Portugal perdeu 112 salas de cinema, conta o Expresso.)

O sobrevivente

- Que grande tragédia, meu senhor: morreram todos e só fiquei eu para contar...
- E então como é que foi?
- Matei-os.

P.S. - Hoje é Dia Europeu da Vítima de Crime.

Uns para os outros

José deu uma facada a António. António deu um tiro a José. É a vida! Temos de ser uns para os outros.

P.S. - Hoje é Dia Europeu da Vítima de Crime.

Vamos ao circo... do amor

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A Bó de Basto e o pãozinho do Senhor

Os mórreres
Sim, os víveres, evidentemente os víveres. E os mórreres?...

Foi num programa de televisão, daqueles que temperam o turismo com gastronomia. Vi que na Turquia, esse lamentável lapso da União Europeia, há um respeito muito grande pelo pão. Um respeito tão grande que bocado que cai ao chão não vai para o lixo. É apanhado, guardado e comido na refeição seguinte. Não sei se é bem assim, mas assim me foi contado na TV, e eu gostei do que ouvi, falou-me à memória.
Desconheço que influências culturais trocaram entre si Portugal e o Império Otomano, e se essas permutas foram tão longe que chegaram à bucólica freguesia de Passos, logo a seguir a Várzea Cova, quem desce, mas já Cabeceiras de Basto, propriamente à casa da minha querida avó materna. Sei é que foi neste fim de mundo que eu também aprendi a reverência pelo pão.
Na Casa do Carreiro comia-se na cozinha, à volta da lareira. Os adultos sentavam-se em compridos preguiceiros, apetrechados com uma conveniente tábua-mesa de levantar e baixar, e as crianças ajeitávamo-nos em pequenos bancos de três pernas, os mochos, obra de carpintaria simples e doméstica. Os cães também tomavam posição, anorécticos involuntários, à espera dos ossos que não havia. Levavam troços de couves, cascas de batatas, espinhas de bacalhau de quarto e era um pau.
O chão da cozinha era mesmo chão, rupestre, uma terra negra do fumo e da fuligem, dos anos e vidas de uso e das águas entornadas que lhe davam uma consistência de betão. Sim, as águas dos potes ferventes ou da banca de lavar louça, quando já desnecessárias, eram ali mesmo esparramadas, voltando a reunir-se, acho que me estou a lembrar bem, numa espécie de rego que as levava finalmente até lá fora, até ao carreiro que dava o nome à casa. Como bilhar viciado, o chão da cozinha descaía para o lado do carreiro, e tudo ajudava à limpeza. Depois era só esperar que secasse um pouco e varrer com uma vassoura de giestas apanhadas no monte. A banca era feita em madeira, velha, de pernas trôpegas, pacientemente calafetada pela gordura acumulada ao longo de décadas de serventia.
Era naquele chão que eu às vezes deixava cair o meu megalítico naco de pão, quase sempre um bom pedaço de côdea, que era do que eu mais gostava. A minha avó, mansamente, para que o meu avô não se zangasse comigo, dizia apenas:
- Apanha o pão. É pãozinho do Senhor. Dá-lhe um beijinho e já o podes comer...
E eu acreditava. Apanhava o pão, beijava-o e comia-o, com todo o respeito, como se estivesse na igreja a comungar. Até parecia que me sabia melhor.
Curiosamente, o meu avô nunca se zangou comigo. Ele, que tinha um zangar tão fácil com toda a gente...
Na nossa casa, em Fafe, a minha mãe insistia nestes ensinamentos. Dizia-nos, a mim e aos meus irmãos, que o chão não suja, que o beijo purifica, que não se pode estragar pão, é pecado, porque há muita gente com fome, pessoas mais pobres do que nós. E se o pão ficava intragável e tinha mesmo de ir para a estrumeira, só depois de um beijinho de adeus, porque, exactamente, era pãozinho do Senhor.
Em minha casa também não se estraga pão, não se estraga nada. E, se se estraga, estragado fico eu.
Não sei de onde veio esta ideia antiga, se estará mesmo ligada à fé, à religiosidade popular, ao pão que é o corpo de Cristo. Acredito mais que era sobretudo a pobreza a defender-se, consciente da importância do pão na mesa, o pão que, ontem como hoje, era a única fartura, a última fronteira para a fome. O respeito pelo pão era o respeito pela fome. E ninguém respeita tanto a fome como os pobres.

Por causa do pão, fui muitas vezes à merda. E gostava. Ir à merda, naquele tempo e naquelas circunstâncias, era satisfatoriamente adequado. E necessário. A Bó mandava-me com uma telha à procura de poios de bosta fresca, que depois servia para vedar a tampa do forno onde se cozia a broa. Eu passava sempre uma temporada das férias grandes na aldeia e ir à merda era o meu modesto contributo para que tivéssemos pão à mesa. Isso e, às vezes, ir à fonte buscar água, coisa de "menina", só para se rirem de mim.
Para a aldeia ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento. Nessa enorme garagem também se construíram carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira. Cheirava mal, espevitava enjoos. Ia-se com o nariz enfiado em meio biju para não gomitar e mesmo assim gomitava-se - falo por mim. Ia-se na carreira até Várzea Cova, e ali terminava a estrada, acreditem no que eu digo: o mundo acabava mesmo em Fafe, basta pensar também na antiga linha do comboio. Dali, depois do cu tremido, violentamente tremido, já só faltavam mais cerca de cinco quilómetros a pé, em monte de sobe e desce, fizesse sol ou diluviasse, certa vez até passando a vau o ribeiro que a força de um inverno estoura-vergas desencaminhara e transformara em rio violador de margens. Chegávamos então à aldeia propriamente dita, como nunca na vida lhe chamámos. Era Basto. Freguesia de Passos, concelho de Cabeceiras de Basto, mas simplesmente Basto, para nós.

A minha avó Emília, que era pequerricha e bondosa com um anjo, e era um anjo, fazia uma broa escura, muito saborosa, que se mantinha fresca durante dias e dias. Naquela maré, o pão era o principal alimento dos portugueses. O pão e o vinho, como fazia questão de frisar, de forma propositadamente ambígua, a propaganda salazarista. Por ordem expressa de Salazar, beber vinho, naquela altura, era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o patriótico e honrado povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade nem água nem estradas nem sequer caminhos decentes, sem pedras, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. E o resto do país já então era Lisboa.
Beber era um honesto modo de vida. Podia faltar tudo na casa da Bó de Basto, e às vezes faltava muito, mas havia sempre broa com fartura e umas imensas malgas de "amaricano" às quais eu gostava de mandar umas pescoçadas até dizer ahhhhhh!...
Em Basto, as visitas eram recebidas com malgas de vinho e aparas de bacalhau salgado e falava-se como se fôssemos galegos, e a querida Tia Margarida felizmente ainda fala. E sempre broa, sem outros mimos. O almoço era o "jentar", e o jantar era a ceia. E bebiam-se, a acompanhar, umas valentes pingoletas. Também se bebia durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebia-se, portanto, apenas às refeições - quer-se dizer, o dia inteiro. E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada, com música de galos tenores e carros de bois vagarentos e deslubrificados, rabugentos. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina. Que saudades tenho dessa vida e dessa idade, dessas ideias que graças a Deus me ficaram, ainda no outro dia o "dixe" outra vez ao meu tio Al Pacino, o meu querido tio "Jé".

Enciclopedista fortuita e inocente, involuntária, alma fora da geografia e do tempo, a querida Bó de Basto alimentava-nos também o espírito. Lendas, contava-as que era uma categoria. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem, e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das histórias da avó - esperta, santa sem diploma, realmente anjo sem asas à vista - foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das histórias da minha avó, foi aqui que Hitchcock o veio buscar. E o vinhinho aquecido ao borralho com uma maçã assada lá dentro, também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó, maravilhosa guardadora de lendas e tudo. E a Bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, a frincha de entrada, não havia dúvidas. Ainda por cima, até as lendas da minha avó eram verdade. Como poderia mentir-se acerca do pão?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje tem início a Semana do Pão de Verdade.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O que é que ele diz: "mono" ou "maricón"?...

Foto Leonardo Negrão / DN

Desejar venturas

Antigamente desejavam-se venturas. Pelo nascimento, pelo aniversário, no final do curso, no casamento, no divórcio, pela casa a estrear, no novo negócio ou emprego, em cada passagem de ano. "Desejar venturas" era uma expressão nobre e clássica na língua portuguesa que significava fazer votos de boa sorte, felicidade, prosperidade e sucesso para alguém. Era sinónimo de gentileza e bondade. Hoje em dia, desejar venturas é sinal de mau gosto, maldade, ameaça, ódio, um perigo, uma desgraça, é como se rogássemos pragas a alguém. Não se deve desejar venturas nem ao nosso pior inimigo. Olhai, não vamos mais longe: desejar venturas, actualmente, é o mesmo que desejar salazares.

Há barcos para muitos portos

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Era uma vez em Fafe

Marcos históricos
Marco Polo, Marco Aurélio, Marco António, Marco de Canaveses, Marco do Big Brother, Marco dos Apeninos aos Andes, Marco Caneira, Marco Chagas, Marco Pantani, marco miliário, marco quilométrico, marco geodésico, marco temporal, Marco do Correio, Marco ni, Marco Bellini e João Simão da Silva, aliás, Marco Paulo.

Se me dais licença, eu creio que não está devidamente estudado o papel de Fafe e dos fafenses ou protofafenses na fundação da nacionalidade. E esta é uma lacuna particularmente repreensível numa terra que exabunda de historiadores e simpatizantes, amiúde galardoados.
Entendamo-nos. A mim nem me passa pela cabeça que Portugal tenha nascido em Guimarães, aqui a menos de três léguas ou, vá lá, digamos a quatrocentos tiros de besta, em qualquer caso perto e bom caminho, e quase sempre a descer depois de Paçô Vieira, nem me passa pela cabeça, dizia, que Portugal tenha nascido em Guimarães, que é do que eles se gabam, e que em Fafe, ao mesmo tempo, não tenha acontecido nada, eles lá em baixo à batatada, à grandessíssima trolha, um vasqueiro desgraçado, e nós aqui como se nada fosse, a vermos a Gabriela na televisão a preto e branco. É impossível. Portugal de certeza que nasceu também em Fafe, nem que tenha sido só um bocadinho, mas os historiadores - são, infelizmente, os historiadores que temos - ainda não deram fé. Esta é a minha ideia.
Eu lembro-me muito bem, e posso testemunhar, em tribunal se for preciso, que, enquanto jovens e antes do futebol e outras vidairadas, os manos Pimenta Machado, ilustres fidalgos vimaranenses, passavam a vida em Fafe. Ora, se os Pimenta Machado, que eram quem eram, uma ínclita geração praticamente, e, para além de outros cabedais, possuíam um considerável estabelecimento em frente às camionetas do João Carlos Soares, cujo escritório ficava praticamente ao lado do Café do Franklin que é o Café Vitória, na parte de fora do mercado de Guimarães, se os Pimenta Machado, enfatizo, não nos desamparavam a loja, o mais certo é que, antes deles, o próprio Afonso Henriques desse também as suas voltas pelos nossos lados, nem que fosse só para desenfastiar ou beber um copo no Nacor, nada mais natural.

Afonso Henriques, esse gabiru de estilo motoqueiro que gostava de vestir saias e há quem diga que batia na mãe, tinha uma espada que pesava toneladas e não cabia no guarda-vestidos e, em rigor, nem sequer existiu. O espadalhão, quero eu dizer. Já o jovem Afonso ficou na história da moda por ter sido o criador da maxissaia. Morava geralmente no austero Castelo de Guimarães e tinha um anexo charmoso chamado Paço dos Duques onde dava as suas festas que eram sobremaneira constadas. No dia 24 de Junho de 1128, tomai nota, depois de uma dessas iglantónicas farras, noitada de São João ainda por cima, Afonsinho do Condado acordou digamos maldisposto, bebeu um copo de água da mina com bicarbonato, mandou chamar o pessoal e os cavalos e derrotou a progenitora, Dona Teresa de Leão, mailo seu amante galego, Fernão Peres de Trava, na Batalha de São Mamede, levada a efeito ali mesmo nos arredores, para evitar deslocações e despesas, que o País ainda estava a começar.

Acontece que a Batalha de São Mamede, aviso já, nunca me convenceu. Custa-me a aceitar que sítios como Creixomil ou Cano (Cáno, como dizem os locais) possam ser mais importantes no que nos é contado como sendo a História de Portugal do que, por exemplo, e não vamos mais longe, Arões ou Cepães, ali mesmo ao pé, mas do lado de Fafe, do nosso lado. Duvido, de resto, que Guimarães tivesse naquele tempo equipamentos, nomeadamente hoteleiros, para acomodar aquela espanholada toda e ainda por cima recinto preparado e certificado para a pancadaria. É que, parecendo que não, um evento desta natureza, uma batalha com cavalos e tudo, implica muita logística. Olhai só a confusão que são hoje em dia as chamadas feiras medievais! Por outro lado, o Multiusos vimaranense funciona apenas desde 2001 e o Estádio, embora chamado D. Afonso Henriques, só ficou uma coisa em condições para o Euro 2004.

Eu cuido que Fafe teria recebido muito mais condignamente a Batalha de São Mamede. Não é por acaso que chamamos a nós próprios, embora sem razão que se perceba, Sala de Visitas do Minho. Olho para a zona de Rilhadas, vamos um supor, e vejo a batalha ali. Vejo claramente vista. Uma zona devidamente infra-estruturada e onde sobejam as condições e comodidades para a organização de uma batalha com todos os matadores e que certamente não envergonharia ninguém.
As pistas estão aí. Há que repor a verdade dos factos. Fafe não pode continuar à porta, nas bordas da História. De uma vez por todas, Fafe deve ocupar o lugar a que tem direito. Se São Mamede foi em Rilhadas, isto é, se a Batalha de São Mamede foi de facto levada a efeito em Rilhadas? Não sei. Esse é o desafio que eu deixo de borla aos historiadores encartados, particularmente aos intrépidos historiadores fafenses, se a tanto os ajudar o engenho e arte. E não me venham dizer que, a esse respeito, a História é omissa. Omissa? Homessa!

P.S. - Em nome do rigor histórico, refira-se que, regra geral, os vimaranenses de bom beber e satisfatório comer vinham muito a Fafe e, lá com aquelas manias deles, chamavam Toninho dos Canários ao tasco do Nacor.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A vila de Guimarães, com foral desde 1128, foi elevada a cidade no dia 19 de Fevereiro de 1853.)

À bolina

Foto Hernâni Von Doelinger

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Somos pó

"Lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó hás-de voltar", diz a Bíblia logo na terceira página, ainda as coisas estavam a começar a compor-se. Convenhamos: a Bíblia não é lá muito inspiradora para os cocainómanos em recuperação...

Católico, abstinente e automortificante

É um católico à moda antiga: abstinente, observante, penitente e automortificante. Por isso não vai a Fátima no próximo 13 de Maio. Ir a Fátima todos os 13 de Maio seria para ele um enorme prazer, mas o prazer é pecado...
E na Quaresma? Quarta-Feira de Cinzas e todas as sextas-feiras, de castigo, come bife com batatas fritas ao almoço e bife com batatas fritas ao jantar. É que ele gosta mais de peixe. Com batatas cozidas...

Quadragésimo dia

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O novo velho FC Porto

O FC Porto, o meu FC Porto, afinal voltou aos últimos tempos de Pinto da Costa e Francisco J. Marques: joga poucochinho mas produz bastantes comunicados. Recebe mal, porta-se mal, e atira a tudo, mexa ou não mexa, cheio de ódios, ressentimento e provocação, manhosice e pequenez. A culpa é sempre dos outros, da cabala. Isto é: o FC Porto, o meu FC Porto, creio que contra a vontade da imensa maioria de portistas "moderados" que escolheu André Villas-Boas, continua a ser mandado pela lógica terrorista das claques. E eu já disse: "Mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, as claques vão conseguir acabar com o futebol. Para mim, já acabaram. Há anos."

P.S. - Eu sei que os outros também são assim. Mas Villas-Boas tinha prometido que ia ser melhor.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?

Foto Hernâni Von Doellinger

Um Carnaval bem passado

Um Carnaval bem passado precisa de pelo menos dois minutos de cada lado.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Rates vendia ratoeiras

Na ambulância
A montanha pariu um rato. Que miséria, realmente. Se ainda ao menos parisse um elefante! Ou dois - que incomodam muito mais...

O Rates vendia ratoeiras para ratos. Também vendia armadilhas para pardais e toupeiras. E chumbos para espingardas de pressão. E fisgas. E vendia foguetes, rabichas, estalinhos, caretas de Carnaval, calçadeiras, fio do Norte, lixa, colchetes, gaiolas para grilos e furões, anzóis e sedielas, chapéus de palha, palha de aço fina e grossa, sandálias de plástico, socos, galochas, velas, DDT, solarine, vassouras, lousas e lápis de ardósia, coadores, funis, navalhas, agulhas para desentupir máquinas a petróleo, peidos-engarrafados, garrafões e pelo menos um exemplar de todas as bugigangas e quinquilharias alguma vez inventadas no mundo inteiro, com ou sem serventia, tudo aparentemente ao monte porém segundo uma ordem que ele lá sabia, mas eu, na minha ideia de miúdo, achava era um piadão àquilo de o Rates vender ratoeiras para ratos. Para além disso, o Rates vendia rolhas. E já sabeis: as palavras sempre me interessaram muito, e essa mania tola, que eu tanto estimo, felizmente não me larga - o Rates roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia...
Rates era o proprietário mas também o sítio, lojinha de uma porta só, minúscula, escura, esconsa, tipo vão de escada. O dono servia à pinta, vestia uma bata de sarja cinzenta, barriguda como ele, e usava óculos na testa e manguitos negros. O Rates era uma verdadeira instituição fafense, ali à beira de outras duas não menos notáveis instituições fafenses, o Marinho e o Miranda das famosas pataniscas, memórias infelizmente perdidas, parece que esquecidas de propósito, por vergonha, numa praça nova e consta que muito concorrida derivado à Justiça de Fafe e às vezes aos Correios.

Mas vergonha de quê, ó gente da minha terra? Devíamos era ter orgulho do nosso passado tasqueiro e similar. Fafe daquele tempo era muito avançado, não penseis o contrário. Era até muito à frente, tomara Fafe de agora! Reparai que, com mais de cinquenta anos de avanço em relação à guerra de sexos e de géneros que aí vai e à disfunção gramatical entre masculinos e femininos e assim-assim que nos arrelia as meninges, nós já praticávamos a solução redentora e neutral hoje em dia advogada pelas mentes brilhantes do politicamente correcto. Nem ratos nem ratas. Rates é que era! Rates, e tínhamos pelos menos dois: o das ratoeiras propriamente dito e o da bola, que era outro espectáculo!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Armado em parvo até aos dentes

Era carnaval. Mascarou-se de Vladimir Vladimirovitch Putin e saiu a lançar bombinhas...

Um homem e seu carnaval, segundo Drummond

Um homem e seu carnaval

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.


O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.


Deus me abandonou
no meio do rio. 

Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.


"Brejo das Almas", Carlos Drummond de Andrade

Samba pa ti

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 15 de fevereiro de 2026

E hoje é o quê?...

Ontem foi o Dia dos Namorados. E hoje? Com a velocidade a que os tempos correm e mudam as vontades, nunca sei como é que se diz: se hoje é o ex-Dia dos Namorados ou o Dia dos ex-Namorados.

P.S. - Para que conste, hoje é Dia Internacional da Criança com Cancro.

Palavras, leva-as o vento

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Apaixonados pelo telemóvel

Eu não percebo porque é que ele leva a namorada a almoçar. Ele também leva o telemóvel. Eu não percebo porque é que ela leva o namorado a almoçar. Ela também leva o telemóvel. Ele e ela, à mesa, ignorantes um do outro, calados um contra o outro, passam o almoço de mãos dadas. Mãos dadas ao telemóvel, ele ao dele, ela ao dela. E nem sequer ligam um ao outro.

P.S. - Hoje é Dia dos Namorados ou Dia do Amor ou Dia de São Valentim.

Os livros, nossos amigos

Gosto de afagar os livros que leio. Aliso-os. Cheiro-os. Protejo-os. Guardo-os com mil cuidados. E deixei de emprestá-los!

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Doação de Livros.

Apocalypse Now

Atenção, muita atenção! Emprestei o meu "Apocalypse Now" não sei quando nem a quem nem porquê. Não me lembro! Sei é que o estupor do DVD nunca mais me tornou a casa, e, aos anos que vai, já deve andar no liceu, senão na universidade. Ao sacrista que se está a aproveitar de mim e da minha franqueza, digo apenas o seguinte: não foi uma doação, pá, devolve-me essa merda, pá, devolve, e até pode ser sob anonimato, porque, se te descubro, se te adivinho sequer - não sei se estás a ver o filme...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Doação de Livros.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Simplesmente Simplício

Foto Tarrenego!

Alentejo profundo
O Ti Odoro, o Ti Noco, o Ti Móteo, a Ti Betana, o Ti Morato, o Ti Ófilo, o Ti Jolo, a Ti Ara, o Ti Pógrafo, o Ti Mor, o Ti Juca, a Ti Midez, o Ti Quetaque, o Ti Búrcio, a Ti Biotársica. Enfim, era a típica aldeia alentejana.

Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Mérico, Pobre, Seminarista, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Mancebo, Careca, 05613478, Amélia, Fafe, Fafense, Filósofo, Palerma, Parolo, Palhaço, Drogado, Comunista, Socialista, Anarquista, Violoncelista (é a brincar - nunca ninguém teve a coragem de me chamar Violoncelista, pelo menos na cara!), Caixa-de-Óculos, Ó Tio Ó Tio, Ó Jovem, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Erménio, Nenuco, Aquele Senhor, O Senhor das Barbas, O Senhor dos Calções, O Senhor do Rodovalho, O Senhor da Mochila, O Senhor do Cachimbo, O Senhor é Parvo?, Você, Doente da Cama 2, Utente, Paciente, Beneficiário, Cliente, Contribuinte, Eleitor, Utilizador, Passageiro, Ouvinte, Telespectador, Participante, Visitante, Sexagenário, Indivíduo, Velho, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Galinhas, Dillinger, Dilingue, Volkswagen.
Eu, sinceramente, prefiro que me chamem Simplício. Ou então, vá lá, Agá Ramos - já disse.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Ter Um Nome Diferente.)

O meu primo Abenedego

Mais leve que o ar
Há quem seja magro, mas Hélio realmente abusava. Um dia levantou voo...

Diz que há um australiano que detém o recorde mundial do nome mais comprido do mundo, um nome com mais de duas mil palavras, é preciso um camião para andar com o nome às costas e leva quinze dias a assinar, adeus ó vai-te embora. O nome mais comprido de Portugal é reclamado pelos admiradores do rei D. Manuel II (1889-1932), que se chamava, completamente, Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio, e há quem acrescente, de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha.
Em Itália, um casal foi proibido de dar o nome de Sexta-Feira ao filho, mas na China, aqui atrasado, havia quase seis mil pessoas que se chamam Ano Novo. Em Portugal, país de brandos costumes, parece que ainda ninguém foi tão longe, mas apenas porque não é, ou não era, permitido. No Ministério da Justiça existia mesmo uma lista negra de mais de 2.500 nomes próprios e esquisitos que já tinham sido pedidos e recusados.
E alguns deles nem lembrariam ao diabo, como, vede lá, Jesus Cristo, Deusa, Adoração, Imaculada, Cristão, Cristo ou Maria da Aleluia. Pérolas que constavam na lista de "Vocábulos Não Admitidos como Nomes Próprios" do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) e que estavam lá porque, exactamente, houve pais que tiveram a peregrina ideia de chapá-los da testa dos respectivos filhos. Não sei se ainda existe tal lista, que já estava há alguns anos sem qualquer tipo de actualização.
Os pais italianos queriam ser "originais", disseram aos jornais, mas o tribunal considerou, talvez acertadamente, que Sexta-Feira traria uma carga de "vergonha" e de "ridículo" à criança que fosse marcada para toda a vida com semelhante nome.
Ora, se os portugueses têm muitos defeitos, um deles não será certamente a falta de originalidade. E também aqui, no ramo dos nomes mais ou menos patetas, não ficamos a dever nada a ninguém.
Duvidais? Tomai então nota dos seguintes: Abenedego, Brilhantina, Consolino, Divinando, Estaline, Girina, Ismanuel, Jacquelino, Magnífica, Maxfredo, Ovnis, Paliologo, Romã, Sete, Togarma, Viking ou Zuzidine. Tudo nomes que alguém quis pôr aos filhos, mas que o bom senso da lei proibiu.

A sorte, para nós, fafenses à moda antiga, é que não há, nunca houve, norma para a atribuição de alcunhas, que nisso somos campeões. Ninguém nos bate na arte de crismar o parceiro, às vezes famílias inteiras, com apodos porventura espertos e patuscos, quando não carregados de desprezo e maldade, inveja e vingança, quase sempre explorando acintosamente particularidades físicas ou morais dos indivíduos em questão. Eu, por herança, sou "Perna-de-Pau" e "Bomba", amiúde "Dezassete", e também "Neques", mas pela costela de Basto. E, se quereis saber, tenho muito gosto!

Quando, há uns anos, fiz um pequeno trabalho jornalístico sobre nomes, o IRN esclareceu-me, cheio de a propósito, que o nome próprio das "crianças nascidas em Portugal que sejam portuguesas" deve ser "português, de entre os constantes da onomástica nacional ou adaptados graficamente à língua portuguesa, não devendo suscitar dúvidas quanto ao sexo". Filhos de jogadores de futebol e de artistas da televisão são casos à parte, foi o que então concluí.
Por outro lado, e voltando ao princípio, à questão do tamanho, o IRN informou-me que o nome completa de cada pessoa deve compor-se, no máximo, de seis vocábulos, isto é, até dois nomes próprios e quatro apelidos. Como, por exemplo, Duarte Nuno Fernando Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco Xavier Raimundo António de Bragança. Não é?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje, vede bem, é Dia de Ter Um Nome Diferente.)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Aí para as curvas

Foto Tarrenego!

O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.

Uma vez, em 1991, Basílio Horta foi candidato à Presidência da República e fazia frio em Portugal, porque era Janeiro e o tempo naquela altura não era ainda tão tolo e incerto como é agora. O tempo. O Doutor Horta, que já vai nos oitenta e, entre outros afazeres, é um filósofo, quero dizer, um filósofo praticamente como eu, explicou em entrevista ao Expresso que realmente "há quem olhe para a vida como uma linha reta", mas ele não. "Eu não abdiquei das curvas", enfatizou o ex-União Nacional do tempo do fascismo, fundador do CDS e actual militante do PS, ministro em quatro governos, pela direita, conselheiro de Estado, deputado, embaixador na OCDE, presidente da AICEP, pela esquerda, e hoje em dia presidente da Câmara de Sintra em final do terceiro e último mandato, dizia eu, enfatizou, como quem não quer a coisa, como quem oferece ao jornalista o título para a prosa e não se fala mais nisso.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
A seguir, se bem me lembro, abandonei discretamente a "caravana" basilista e fui ao velho Restaurante Maia, no Sameiro, comer por minha conta e consolar-me com o inevitável bacalhau com natas, que era então uma verdadeira especialidade.

Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A mãozinha encarnada

Hoje é Dia da Mão Vermelha. E muita gente considera que a efeméride comemora a "mão de Vata" com que o Benfica derrotou o Marselha (1-0), apurando-se para a final da Taça dos Campeões Europeus de 1990. Mas não. O Dia da Mão Vermelha, exigência mundial a todos os líderes políticos e militares para deixarem de recrutar crianças para a guerra, é assinalado a 12 de Fevereiro, foi o que eu disse, enquanto o golo de Vata com a mão, que valeu, festeja-se a 18 de Abril. Uma coisa, porém, é certa: naquele tempo não havia VAR, mas havia respeito.

P.S. - Hoje é Dia da Mão Vermelha.

Planeta dos macacos

Uma equipa de cientistas britânicos descobriu aqui há anos que os ninhos dos orangotangos são autênticas obras de engenharia. E de "engenharia complexa", é preciso que se note. Em retaliação, uma equipa de engenheiros argentinos descobriu que um casal de chimpanzés do Uganda estava a trabalhar numa nova vacina contra a covid.
Entretanto, na pacata vila de Borneo Apes, na Indonésia, chorava-se baba e ranho pela partida de Pony, a prostituta preferida que durante anos a fio satisfez os, por assim dizer, homens da população. Pony era uma orangotanga, se me permitem a expressão, estrela da casa de putas da terreola e finalmente resgatada pela Associação Protectora dos Orangotangos, após um ano intenso de tentativas frustradas de salvamento.
Darwin tinha razão. O que ele certamente não sabia é que era tanta e tão retorcida.

P.S. - Hoje é Dia de Darwin.

Atão, mano...

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Lágrimas por Marcelo

A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a, por assim dizer, política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes de más-vindas. Eu nem queria acreditar. Fiquei de todo. Os meus olhos, virgens e patrióticos como eu inteiro, viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela clandestina hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me inesperadamente em choro. Chorei de raiva, dorido pelo Senhor Presidente do Conselho. Como se atreviam aqueles gajos?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final, ainda que o caso fosse particularmente Moçambique.

No regresso a Lisboa, Marcelo foi, graças a Deus, surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas.
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se quereis que vos diga (e ainda que não queirais), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, miúdo, ignorante, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Fazendo pela vida

O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.
 
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Doente. E Dia Europeu do 112.

Doentinhos, graças a Deus!

O Homem-Prazol
Os super-heróis. Fui apreciador, confesso. Em miúdo, à pala da televisão do Peludo, das borlas no Cinema ou dos livrinhos de cobóis levados à troca no quiosque do postigo por Baixo da Arcada, já disse. O homem-aranha, o homem-formiga, o homem elefante, o homem que é homem, o homem-rã, o homem de gelo, o homem de ferro, o homem de lata, o homem-bala, o homem-estátua, o homem invisível, o homem que veio de longe, o homem-sanduíche, o homem-crocodilo, o homem-tocha, o homem-máquina, o homem dos sete instrumentos e até o homem-bata, que quase existia. Apreciava, é verdade. Mas. Derivado a pecados velhos e por indicação médica, hoje em dia sou mais dado ao homem-prazol.

Há uma longa e honrosa tradição familiar no nosso lado Von Doellinger: somos umas pessoas muito doentes, que foi a única herança que o meu avô da Bomba nos deixou, aos de nossa casa. De resto, nem um tostão, nem um penico partido e colado com adesivo, tampouco uma corrente de ar. A minha mãe costuma dizer que, em questão de doenças, nós, os Bombas, "não damos vez uns aos outros". A minha mãe, é preciso que se note, é do lado Pereira, que lamentavelmente não me chegou ao nome, Pereira do meu avô de Basto, decilitrador pertinaz que, porém, nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria. Este meu querido avô, antigo mineiro e mestre pedreiro de primeira água, era, pelo contrário, um mãos-largas. Tudo o que tinha, dava. E se o que tinha à mão era o varapau de lódão, então era de esgaça-pessegueiro, sem olhar a quem. A mim, deu-me o meu primeiro relógio de pulso e, numa noite de Natal, ofereceu-me inesperadamente o seu próprio relógio de bolso, um magnífico e infalível Omega talvez centenário que me escangalhou em lágrimas e que há coisa de vinte anos passei ao meu filho, que bem o merece e não lhe liga nenhuma nem sequer lhe dá corda. Eu? Fiquei-me com as memórias. Do choro também.
Já agora. O meu rijo avô de Basto esteve doente uma única vez, se não me engano. E morreu. Com os pulmões vagarosamente estraçalhados pelos anos longínquos do trabalho nas minas e uma vida no aparelho da pedra.

Mas o lado Bomba. As doenças. Neste campo, como em mais um ou dois, ou três, sou a ovelha negra da família. Doentemente falando, sou uma treta, uma nódoa, um ignorante, uma vergonha para a classe dos doentes em geral e da minha família em particular. Não dou uma para a caixa. Às vezes até penso que devia ser expulso. Da classe e da família.
Os Bombas, por definição, são entusiásticos consumidores de medicamentos e canjas de galinha. Só estão bem quando estão doentes. Conhecem todas as doenças e os dois volumosos tomos da Farmacopeia Portuguesa por ordem alfabética, de cor e salteado, da frente para trás e de trás para a frente, índices e apêndices incluídos, automedicam-se e só precisavam da consulta e da assinatura do médico - "especialista!", sempre "especialista!", e "do Porto!" - para autenticar o internamento a troco de um bom quilinho da melhor vitela de Fafe, traço seleccionado e cortada pelas sábias mãos do Senhor Abreu do Talho Novo, embrulhado em imaculado papel costaneira e impecavelmente atado e laçada com fio norte de qualidade superior. Justificava-se a despesa dos unhas-de-fome: o internamento em hospital era a sorte grande, a realização de um sonho. Recorrente. Para que o povo soubesse que!
Os meus queridos avós da Bomba, ninguém me tira da ideia, não morreram da doença. Faleceram da mania. Deus os tenha.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Doente e Dia Europeu do 112.)

The dark side

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O nosso homem no terreno

Quando ela falava do seu homem no terreno, havia logo quem imaginasse histórias de espiões, acção, aventura e romance. Mas não. Ela falava do marido e da hortazita que o desgraçado fabricava nas traseiras da casa em horário pós-laboral.

P.S. - Hoje é Dia Mundial das Leguminosas.

Regresso às raízes

Chegou aos 66 anos e nove meses, reformou-se e resolveu regressar à terra, voltar às raízes. Mandioca, cenoura, beterraba, batata-doce, inhame, gengibre, nabo, rabanete - à base disso.

P.S. Hoje é Dia Mundial das Leguminosas.

O agricultor excêntrico

Ele era um lavrador um bocadinho excêntrico. Semeava ventos e colhia tempestades. E depois vendia-as ao preço da chuva...

P.S. - Hoje é Dia Mundial das Leguminosas.

Ei boi, a lavrar!

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Também não exagéremos!

Horas limpas
Ouça lá: quando mudar a hora, não se esqueça de a pôr para lavar.

O casal passeava o cãozinho de quarto de quilo pela manhã soalheira e ventosa do Parque da Cidade. Nisto, o fraldiqueiro, que é como as pessoas, só lhe falta falar, apertou-se-lhe a vontade e urinou com assinalável pertinácia mesmo em frente à porta principal do magnífico Pavilhão Multiusos. O pai do cão, quero dizer, o homem, olhou ao redor e resolveu dar uma lição de civilidade a quem por ali passava àquela hora de quem não tem palha no ninho. Quer-se dizer: a mim. E mandou à mulher, quero dizer, à mãe do cão: - Trazes o saquinho? Apanha o chichi!
- O chichi? - chispou a madama. - Então eu vou apanhar mijo? Com as mãos? Também não exagéremos!
E eu dei razão à senhora. Realmente, também não exagéremos..

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Kãomasutra

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Contra fatos não há argumenctos

Desorientação sexual
A verdade é só uma: ele ainda não consegue distinguir um tecto de um teto. E elas levam a mal...

Eu tenho um fato. Um. Comprei-o pronto a vestir em 1987, se não me engano, para um casamento, isso é certo, e ficava-me muito bem. O casamento para o qual eu comprei o meu fato já teve pelo menos dois divórcios, só do lado do noivo, e outras complicações. O meu fato, não. Mantém-se fiel e simples. Eu tenho um fato que é um facto à moda antiga. E nem sei se ainda me serve, sequer se estará em condições de ser vestido. Mas é o meu fato. E contra fatos não há argumenctos.

Sou esbraguilhado por opção. Ao longo de quase quarenta anos, usei o meu fato mais quatro ou cinco vezes nos casamentos de mais quatro ou cinco amigos, sobrinhos e primos, e deram também já quase todos em divórcios, num par de ocasiões solenes em Fafe, para agradar à minha mãe, que gostava de me ver todo tirone, numa excursão copofónica a Lisboa para acompanhar o Prémio Gazeta do nosso Agostinho Santos, entregue pelo Presidente Mário Soares, e numa ou duas idas à televisão para aparecer bem por dever de ofício. É, portanto, um fato praticamente novo, mas ando agora preocupado: o casaco é de trespasse. Sem chave na mão.

Para quem se interesse por estatísticas: também tenho um par de sapatos. Um. E também não sei se ainda caibo lá. De resto, é com botas e sapatilhas que me governo. E tenho quatro bonés e três mochilas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Casamento.)

O casal Carter e o Casal Garcia

Homem de famílias
O casamento, para ele, era tudo. Aliás, tinha dois. Ao mesmo tempo.

Os americanos têm muito orgulho no casal Carter, Jimmy e Rosalynn, que estiveram casados durante 77 anos. Jimmy Carter e Rosalynn Smith Carter protagonizaram o matrimónio mais duradouro de toda a história presidencial dos Estados Unidos. E os americanos estão todos contentes, porque acham sempre que são os maiores. Os americanos nunca vieram a Fafe, ao Peludo, no tempo do Sr. Avelino, o nosso "Hoss". Eles não sabem que, em Portugal, temos o Casal Garcia, since 1939, é só fazer as contas, já lá vão 87 anos...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Casamento.)

Até que a morte

O casamento, para ele, era tudo. Aliás, já ia no sexto...

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Casamento.

Depressa, que o amor

Foto Tarrenego!

Quero me casar


Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.

Depressa, que o amor
não pode esperar!

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Uma coisa ruim

O estresse
"O estresse provoca o câncer!", não se cansava de repetir o clarividente defensor do acordo ortográfico.

Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Evidentemente eu não posso dizer se Fafe era uma terra mais ou menos hipócrita do que as outras terras, porque eu só conhecia Fafe, mas que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita, disso tenho a certeza absoluta, porque eu estava lá e não sou parvo. Provavelmente Portugal completo era um país um bocadinho hipócrita, se calhar inteiramente hipócrita, mas disso eu não sabia ainda, não fazia sequer ideia, porque, é como digo, eu estava em Fafe, e em Fafe desconhecia-se o mundo abaixo de Arões, sobretudo derivado àquilo de que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Mas, verdade seja dita, éramos razoavelmente felizes e saudáveis.
Em Fafe, por exemplo, ninguém padecia de cancro. Ninguém morria de cancro. Porque em Fafe não existia a palavra cancro. Cancro. A palavra cancro não se dizia. O cancro era crime e castigo. Pecado e culpa. Vergonha, tabu. O cancro estava proibido. Dizia-se que Fulano ou Sicrana tinham - aqui baixando a voz ao nível do cicio, do sussurro, do segredo ao ouvido, do cochicho maledicente, da coscuvilhice beata - um bzzzbzzz. Um bzzzbzzz murmurado com sinal da cruz e tudo. Sim, estava no hospital, no Porto, com um bzzzbzzz, muito malzinha ou malzinho, consoante fosse Sicrana ou Sicrano, Deus lhe perdoe. Muitos fafenses morreram, naquele tempo, com bzzzbzzz, mas nunca ninguém morreu com cancro. E não havia Sicranes. E, aliás, nem se morria, falecia-se, que era uma situação muito mais cómoda, muito menos dolorosa, muito menos definitiva...
E mamas? Mamas, dizia-se. Havia mama e havia mamas em Fafe, embora não fosse geral, como já aqui informei com todo o rigor. Tanto quanto me lembro, predominava um certo convencimento de que as raparigas e mulheres de Fafe possuíam realmente mamas, porém nem todas queriam que isso se soubesse. Mas cancro e mamas ou mama é que nunca poderiam coincidir numa mesma frase: cancro da mama, vamos um supor, seria impossível, desde logo porque é obsceno, e a pornografia constava que era só em Guimarães, e, em todo o caso, como se viu, a palavra cancro não existia em Fafe. Bzzzbzzz da mama, com todo o respeito, até admito que possa ter havia, mas eu nunca ouvi dizer, devo confessar.
E depois do cancro, a sida, a mesma hipocrisia, a mesma pequena hipocrisia, a mesma enorme ignorância. Ignorância e indizível maldade. Naquele tempo, o cancro esteve para a sida como João Baptista serviu para Jesus Cristo, mas não adiantou, ninguém acreditou, essa parte não vinha no catecismo de sacristia, rançoso e cruel, e bondade e compaixão eram apenas palavras da boca para fora. Como bzzzbzzz ou, deixemo-nos de merdas, "uma coisa ruim", "uma doença má", "doença prolongada"...
Assim eram as coisas nos bons velhos tempos, e eu limito-me a contá-las tal qual as sei. Fafe está aqui como mero pretexto, mais nada. Fafe é hoje uma terra completamente diferente e absolutamente igual. Porque Fafe, sendo talvez às vezes uma terra um bocadinho hipócrita, é com certeza e sempre a melhor terra do mundo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Luta Contra o Cancro.)

Para desanuviar

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Prò maneta

Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.

P.S. - Hoje é Dia de São Brás. São Brás é padroeiro para as doenças da garganta. Quando alguém se engasga ou tosse, não faz mal nenhum dizer-lhe, como os antigos: - São Brás! Os rebuçados de mentol e eucalipto S. Braz estão a bombar no mercado desde 1928.

Torna! Torna! Torna!

Dizia o povo antigo, na sua proverbial sabedoria, que os de Guimarães esfolam gatos e matam cães. Eu parece-me que devia ser proibido...

Torna! Torna! Torna! - gritava-se quando o gado fugia, implorando o socorro de quem por ali andasse e ouvisse e, de braços abertos balançantes e palavras mansas, pudesse suster, sossegar e encarreirar de volta os animais. Tornar era mandar para trás. Era como quem dizia "Cerca! Cerca! Cerca!", versão mais em uso pela moçarada para animar as hostes, convocar reforços e impedir a fuga dos da outra rua, em plena emboscada à coiada por causa do golo que não valeu, e mais ainda nem havia VAR. "Torna! Torna! Torna!" era também grito de guerra dos equívocos caça-cães fafenses, armados de redes, laços de contenção e palavrões de diversos calibres, levando a eito para o matadouro canídeos ostensivamente vadios ou, por azar, apenas sem dono à vista.
Para apanhar perigosos fujões, isto é, crianças com medo da pancada em casa ou bandidos sem medo nenhum, berrava-se igualmente "Torna! Torna! Torna!", como aconteceu daquela vez com o desgraçado oficial de justiça a correr atrás do preso que se lhe escapuliu à porta do Tribunal, de mãos algemadas mas pé ligeiro, e só foi agarrado já no nosso Santo, à força da ajuda do povo, quase em frente às Ferreira Leite e à Milinha Vaqueiro, que também saltaram para a molhada. "Torna! Torna! Torna!" era, em Fafe, o clamor de recaptura pelos tresmalhados em geral. Claro que também havia o "Toma! Toma! Toma!", que eu sabia dos robertos na televisão e uma maré, pelas feiras ou festas, vi ao vivo num biombo montado em Baixo da Arcada. E o "Tora! Tora! Tora!", mas isso, evidentemente, já é outro filme.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Noite do Encontro Canino.)

Venham daí esses ossos!

Foto Hernâni Von Doellinger

Não os vejo já há uns tempos, provavelmente por desfasamento de horários, mas estes dois amigos cumprimentavam-se assim todos os dias.