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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Os nossos velhinhos, coitadinhos

Quando for pequeno
"Quando for pequeno, quero ser palhaço e astronauta", disse o ancião, sonhador e triste. Com efeito, aquela sociedade funcionava às arrecuas: nascia-se velho e morria-se a chupar no dedo. Era naturalmente governada por garotos.

Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade, dia dos nossos velhinhos, coitadinhos. Que festa tão bonita! Levantar cedo, roupinha de domingo, pó de talco e perfume, chá e bolachas e ala para a camioneta, nem que não queiram. Lá vão os nossos velhinhos de cu tremido, cantando bonitas cantigas do Quim Barreiros ditadas ao microfone pela senhora doutora da Junta, que até já foi ao Preço Certo e agora é candidata. Missinha, santa missinha, um regalo, nem que não queiram, e Quinta da Malafaia para enfartar a mula, nem que não queiram, tantos velhinhos, tantos velhinhos, ó que extraordinário velhódromo, velhinhos de tantos lados, atordoados, perdidos, sem saberem de que terra são, tantos senhores presidentes de câmara, sorridentes e abraçadeiros, de mesa em mesa, e os fotógrafos solícitos e oficiais sempre atrás, acotovelando-se, ai que dinheiro tão bem empregue pelo orçamento municipal, vêm aí as eleições! Os velhinhos sobreviventes, nem que não queiram, regressam ao sol-pôr com o saco cheio, nem sempre entregues na terra certa. De volta à naftalina, à indiferença e ao esquecimento, até daqui a um ano, se Deus quiser.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade.)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O cotrinismo 3

"Isto do movimento cívico-político "apartidário", o Movimento 2031, lançado ontem por Cotrim de Figueiredo à pala dos 900 mil votos que recolheu nas eleições presidenciais do passado domingo, cheira-me que vai acabar mal. É apenas um palpite, mas logo se vê." Escrevi eu, aqui, no passado dia 24 de Janeiro.

"Mais de três meses após ter anunciado a criação de uma iniciativa cívico-política, no embalo das presidenciais, João Cotrim Figueiredo continua sem dar novidades sobre o movimento. Não há eventos previstos, nem tampouco são conhecidos os membros da direção que integram o movimento. O site está parado, sem mais informações - além do breve manifesto inicial e do espaço para inscrição -, e as redes sociais quase não são alimentadas com conteúdos." Escreveu nos primeiros dias de Maio o semanário Expresso.

"Anunciado em Janeiro, prometido para Setembro: movimento de Cotrim continua na gaveta. Em Julho, eurodeputado disse que o "Portugal em Frente", anunciado durante as presidenciais, seria apresentado "na rentrée política após o Verão", remetendo novidades para Setembro. Mas não chegaram." - Escreve hoje o jornal Público.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Atrás de Mário Soares

O candidato 
O candidato agarrou, pois, no microfone, coçou-lhe a cabecinha com a unhaca da cera, soprou-lhe o pó num imenso e sonoro perdigoto e, sem mais delongas, disse: - Alô, chape, chape, um, dois. Um, dois, três, microfone, experiência. Chape, chape, um, dois. Um, dois, três, quatro, microfone...
E a multidão irrompeu em aplausos.

Era uma vez campanha eleitoral e saí do trabalho, na tripeiríssima Rua de Santa Catarina, com a ideia de apanhar o autocarro 37, no Largo dos Lóios, com destino à Foz. Havia sol para mais meia dúzia de horas. E quando cheguei à Avenida dos Aliados, que era a meio caminho entre Santa Catarina e os Lóios, esbarrei num enorme ajuntamento que, percebi mais tarde, rodeava e seguia um Carocha de tecto de abrir, e aberto, aquilo parecia o cortejo da Queima das Fitas, mas em sóbrio, por assim dizer. Era muito povo, povo a dar com um pau, agitando bandeiras e gritando palavras decerto de ordem mas tão desordenadas e esdrúxulas que eu não percebia o que é que as pessoas diziam. Aproximei-me, chamado pela curiosidade ou não sei mais por quê, entranhei-me conforme pude, usei o cabedal e o treino dos Comandos, provoquei decerto várias baixas à passagem, furei pelo meio daquele fervor todo e consegui chegar ao carro. Quem é que lá estava de cabeça de fora e braço em modo limpa-pára-brisas acenando à multidão como se fosse Mário Soares ou talvez o Papa? Por acaso não era o Papa, palavra de honra, era mesmo ele, muito melhor, Mário Soares em pessoa.
Eu fiquei a um metro do homem. E deixei-me ficar. O Volkswagen careca andava devagar. E eu deixei-me ir. Mas só percebi depois, muito depois. O maralhal desceu à Praça, subiu a Rua dos Clérigos, passou pelos Leões e pelo Hospital de Santo António, entrou na Rua D. Manuel II e, quando dou fé, Mário Soares está em frente ao Palácio de Cristal, que era assim que se chamava. O esquisito, o inexplicável, é que eu também lá estava. Ainda a um metro do homem. Eu fui atrás dele e não sabia. E já não me lembro como é que afinal cheguei a casa, noite cerrada e atrasado para o jantar, o mais certo é que fosse de táxi, que remédio.
Foi no ano de 1986 e é a história que eu costumo contar quando quero explicar o que é o carisma. Carisma é aquilo: aquele íman, aquele poder sobre as massas, mesmo sem abrir a boca, aquela força invisível que uns poucos têm de aglutinar e empolgar tudo e todos à sua volta, até a mim, que sou um cínico e já tinha andado atrás de Soares pelo menos outra vez, moço ainda, em Fafe, do Largo para o Grémio da Lavoura e, por falta de espaço para tanta gente, do Grémio novamente para o Largo, à procura de sítio onde o comício coubesse.

A Vida, que me tem sido tão boa, concedeu-me, vinte anos mais tarde, nas Presidenciais de 2006, a prenda extraordinária de poder acompanhar no terreno, profissionalmente, a última verdadeira campanha eleitoral de que Portugal deve ter memória. E com Mário Soares, que se borrifava cada vez mais para os soundbites, para os assessores de imprensa e até para o seu ausente director de campanha, que ele frequentemente não sabia muito bem quem era. Em vez de apelar ao voto, em vez de criticar a concorrência, Soares contava histórias, contava História em pequenos auditórios vagamente frequentados, falava de António Sérgio, de Álvaro Cunhal, de Agostinho da Silva, de Camilo Castelo Branco (lembro-me, em Famalicão), de Antero de Quental. Contava Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Carlos Queiroz, Adolfo Casais Monteiro, Manuel da Fonseca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Alberto Lacerda, Ruy Belo, amigos ou conhecidos em graus diversos. E eu regalado. O meu jornal, que era o estrambólico 24horas, mandara-me à procura das proverbiais gafes e partes gagas do velho leão, então já com uns bem vividos 82 anos. Eu consolei-me com o resto.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. No dia 31 de Agosto de 2005, Mário Soares anunciou a candidatura à Presidência da República.)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Rangel, o descompostor

Com os ursos
Mandaram-no jogar ao pau com os ursos e ele foi. Nunca mais deu notícias.

Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, terá dado uma descompostura "semipública" a quatro deputados do PSD, chamando-lhes "terroristas anti-Hamas". O episódio foi contado pela revista Sábado, que recordava outro momento em que o governante exprimiu "desagrado de forma enfática", numa cena gaga com militares, incluindo altas patentes, na base de Figo Maduro.
O ministro dos Negócios Estrangeiros é, por antonomásia e dever de ofício, o chefe da diplomacia. E o diplomata é, por definição, um homem reservado e de fino trato, um indivíduo circunspecto, grave, cortês, cauteloso, prudente, ponderado, sensato, distinto, elegante, delicado, conciliador. "Ser diplomata é discordar sem ser discordante", sentenciou um dia Millôr Fernandes.
Posto isto, tenho de partilhar o seguinte, em defesa do ministro dos Negócios Estrangeiros: eu creio que Paulo Rangel não é descompostor por opção, malícia ou ódio, sequer por delírio de poder, agora que está no Governo. É-o por feitio, está-lhe no sangue. Em boa verdade, Rangel é um descompostor que vem de longe.
Algures pelos primeiros anos deste século, outro Paulo, Paulo Portas, foi ao Salão Árabe da Bolsa do Porto, convidado para fazer uma importante conferência sobre não sei quê. E fez. Uma conferência que objectivamente não ficou para a História, uma vez que, tirante a minha memória, não encontro na internet (desculpai-me o antiguismo) um único registo a esse respeito. Mas a coisa aconteceu, porque eu estive lá. Foi à noite. E Paulo Rangel marcou presença.
Portas foi apresentado pelo apresentador, para isso é que ele lá estava, disse o que achou que tinha a dizer, terminou, ouviram-se os aplausos da ordem, educados e bem medidos, não fosse haver malévolas interpretações, e Rangel, armado em Landinho do Club, agasalhado entre os jornalistas, sentenciou, sem que alguém lhe tivesse perguntado: - Que fraquinho! Se fosse meu aluno, dava-lhe negativa, reprovava...
Se ficou por aí? Não! Paulo Rangel, levantou-se, pegou na imprensa e foi ter com o conferencista, dando-lhe conta do seu desconsolo e das suas mais veementes discordâncias, derivado ao que acabara de sair daquele púlpito. Paulo Portas ouviu-o distraidamente e respondeu-lhe "já estou atrasado", como quem ouve e responde a um molho de palha de aço, virou costas e foi-se embora. E é assim que eu me lembro.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe, há quase ano e meio. Mas que não se pense: Paulo Rangel continua a descompostar, sempre que se propicia, e ultimamente foi na Universidade de Verão do PSD, onde, mais uma vez, quase empatava com Hugo Soares.)

Eleições, futebol, tropa e alguma batota

Dão-se alvíssaras
Perdeu a cabeça e pôs anúncio no jornal. Faz-lhe muita falta.

As eleições locais corriam sempre bem, chovesse ou fizesse sol. Com novas ou velhas freguesias, uniões de facto ou aldeias desavindas, o mapa oficial não interessava para nada, a logística era um pormenor, as chapeladas eram as do costume. Bebiam-se uns copos à boca das urnas e nas urnas propriamente ditas, fazia-se uma almoçarada com o pessoal de serviço de todos os partidos, que eram o PPD e o "da mãozinha", o snobe do CDS mais o comunista, que vinha de fora e era desconfiado e picuinhas. O pai votava pelo filho que, coitadinho, "é deficiente", o filho votava pelo pai que já morreu mas "fazia muito gosto de votar", pai e filho votavam pela avó que "está muito atacadinha" e não pôde vir, e depois a avó vinha, toda gaiteira, e votava também. Havia quem votasse em dois lados, havia quem votasse duas ou três vezes no mesmo lado, havia quem votasse em dois partidos, e valia, havia quem votasse em quantas freguesias fosse preciso, era só pedir, havia quem quisesse e pudesse votar mas não deixavam, havia quem se fizesse de ambulância, havia quem se fizesse de parvo, havia quem chamasse a polícia, havia quem chamasse o gregório, agarrado ao garrafão levado pelo presidente da mesa a mando do presidente da junta. Chegada a hora das contas, ia-se aos cadernos e à acta, acrescentava-se aqui, desarriscava-se ali, seguindo a lei dos vasos comunicantes, rasgavam-se uns papéis que só estorvavam, queimavam-se só para não fazer lixo, noves fora nada, o chato do PCP também assinava, e no fim batia tudo certo. Podeis crer: batia tudo certo. Eram trafulhicezinhas consensuais, amigáveis, vigaricezinhas proporcionais, comedidas, batotazinha no mais escrupuloso respeito pelo método D'Hondt. Ganhava quem tinha mesmo de ganhar. Era, ó meus amigos, a democracia a funcionar, a manifestar-se de dentro de si própria. Autêntica, transparente, normal. Participada.

As primeiras eleições livres, democráticas, com sufrágio universal, realizaram-se em Portugal no dia 25 de Abril de 1975, celebrando o primeiro aniversário da Revolução dos Cravos. Eram as eleições para a Assembleia Constituinte, para a organização da democracia nova em folha, tendo votado cerca de 92% dos eleitores, isto é, quase seis milhões de portugueses. Nunca mais houve uma participação assim.
O acto eleitoral foi vigiado urna a urna pelas Forças Armadas, que enviaram um pequeno destacamento para todos os concelhos do País sem guarnição. Em Fafe, os militares montaram posto de comando no quartel dos Bombeiros, suponho que para aproveitarem a incipiente central de comunicações já existente na corporação. E eu ali, mais uma vez no meio da História, embora correndo por fora, como sempre, rindo-me como um perdido dos velhos polícias fafenses, naquele tempo Fafe tinha PSP, batendo a pala desajeitadamente a um aspirante imberbe e com cara de copinho-de-leite, se bem que quem realmente mandava naquela tropa toda era o Dr. Parcídio Summavielle, em funções de presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Fafe, sempre de um lado para o outro, ele é que dava as ordens que eram para levar a sério, ele é que dizia onde se ia ou não ia, o que estava bem e o que estava mal, o que se fazia ou deixava de fazer.
Os soldados traziam rações de combate para o almoço, e foi o que comeram, coitados. A minha tia Laura é que não concordou com aquilo, "não tinha jeito nenhum", teve pena dos rapazes e fez-lhes um tachinho de comidinha boa, quanto mais não fosse para os desougar. Regalam-se os magalas que por ali estavam àquela hora. Já lhes valera a pena a vinda a Fafe. A Tia Laura era uma cozinheira de mão-cheia e, feitio e vocabulário à parte, tinha um enorme coração.

A tropa esteve em Fafe mais duas vezes naqueles tempos de festa e brasa, mas chamada de urgência para meter o povo na ordem. Logo em Maio de 74, com a revolução ainda no ar, o árbitro Porém Luís (1929-2010) só conseguiu sair do Estádio, escoltado por militares que vieram, creio, de Braga, três horas após o fim do jogo da AD Fafe com o Gil Vicente, que terminou 0-0. O Fafe lutava pela subida à primeira divisão e o trabalho do juiz de Leiria (nascido no Barreiro) deixou muito a desejar, principalmente junto dos adeptos fafenses, que, a verdade também é só uma, sentindo-se "roubados", e de cabeça perdida, queriam, a todo o custo, chegar-lhe a roupa ao pêlo. Pelo menos. Em todo o caso, ainda hoje estou convencido de que, se tivessem revistado Porém Luís à saída, as autoridades talvez lhe descobrissem dois penáltis nos bolsos. Um não marcado sobre o nosso Manuel Duarte e o outro não marcado sobre o nosso Valença. A AD Fafe ficou em segundo da zona, foi à liguinha nacional e não subiu.
No Verão Quente de 1975, logo em Junho, quando tudo começou, a sede do PCP de Fafe foi atacada, houve resposta, tiros, um morto, feridos, ameaças de nova investida e de destruição total. Durante a noite chegam os fuzileiros, cabeludos, barbudos, com autocolantes de esquerda nas fardas. Apartam águas, serenam os ânimos e protegem o edifício. O resto foi uma ferida que nunca mais sarou.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

domingo, 10 de maio de 2026

O cotrinismo 2

"Isto do movimento cívico-político "apartidário", o Movimento 2031, lançado ontem por Cotrim de Figueiredo à pala dos 900 mil votos que recolheu nas eleições presidenciais do passado domingo, cheira-me que vai acabar mal. É apenas um palpite, mas logo se vê." Escrevi eu, aqui, no passado dia 24 de Janeiro.

"Mais de três meses após ter anunciado a criação de uma iniciativa cívico-política, no embalo das presidenciais, João Cotrim Figueiredo continua sem dar novidades sobre o movimento. Não há eventos previstos, nem tampouco são conhecidos os membros da direção que integram o movimento. O site está parado, sem mais informações - além do breve manifesto inicial e do espaço para inscrição -, e as redes sociais quase não são alimentadas com conteúdos." Escreve este fim-de-semana o semanário Expresso.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Aí para as curvas

Foto Tarrenego!

O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.

Uma vez, em 1991, Basílio Horta foi candidato à Presidência da República e fazia frio em Portugal, porque era Janeiro e o tempo naquela altura não era ainda tão tolo e incerto como é agora. O tempo. O Doutor Horta, que já vai nos oitenta e, entre outros afazeres, é um filósofo, quero dizer, um filósofo praticamente como eu, explicou em entrevista ao Expresso que realmente "há quem olhe para a vida como uma linha reta", mas ele não. "Eu não abdiquei das curvas", enfatizou o ex-União Nacional do tempo do fascismo, fundador do CDS e actual militante do PS, ministro em quatro governos, pela direita, conselheiro de Estado, deputado, embaixador na OCDE, presidente da AICEP, pela esquerda, e hoje em dia presidente da Câmara de Sintra em final do terceiro e último mandato, dizia eu, enfatizou, como quem não quer a coisa, como quem oferece ao jornalista o título para a prosa e não se fala mais nisso.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
A seguir, se bem me lembro, abandonei discretamente a "caravana" basilista e fui ao velho Restaurante Maia, no Sameiro, comer por minha conta e consolar-me com o inevitável bacalhau com natas, que era então uma verdadeira especialidade.

Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 24 de janeiro de 2026

O cotrinismo

Isto do movimento cívico-político "apartidário", o Movimento 2031, lançado ontem por Cotrim de Figueiredo à pala dos 900 mil votos que recolheu nas eleições presidenciais do passado domingo, cheira-me que vai acabar mal. É apenas um palpite, mas logo se vê.

sábado, 25 de outubro de 2025

Os 160 mil benfiquistas

Que seis milhões de portugueses são benfiquistas, isso toda a gente sabe. Fomos assim ensinados desde os bancos da escola de cartilha fascista e, hoje em dia, temos aí as televisões democráticas, de manhã à noite, a baterem no ceguinho, para que não nos esqueçamos de quem realmente manda. Desses inquestionáveis seis milhões de benfiquistas, 400 mil são mesmo benfiquistas, isto é, sócios. Desses exactamente mais de 400 mil benfiquistas, mesmo benfiquistas, 160 mil são mesmo mesmo benfiquistas, isto é, pagam quotas. Destes 160 mil benfiquistas com os papéis em ordem, 7.572 de carne e osso votaram hoje "nas primeiras duas horas", de acordo com a SIC Notícias, e mais de 21 mil "votaram até ao meio-dia", segundo a TVI, provavelmente à boca das urnas, logo à noite então é que vai ser. Há recorde na costa! Um sucesso para o País e, verdade seja dita, isto é melhor do que ver autocarrões de clubes de futebol a irem de um lado para o outro na auto-estrada com os alegados jornalista atrás, a fazerem o relato da viagem, geralmente em nome dos seis milhões de portugueses que são benfiquistas.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

E viva o velho!

Quando for pequeno
"Quando for pequeno, quero ser palhaço e astronauta", disse o ancião, sonhador e triste. Com efeito, aquela sociedade funcionava às arrecuas: nascia-se velho e morria-se a chupar no dedo. Era naturalmente governada por garotos.

Estou mortinho que chegue o Dia Mundial da Terceira Idade, dia dos nossos velhinhos, coitadinhos, nem que tenha de ser antes. Que festa tão bonita! Levantar cedo, roupinha de domingo, pó de talco e perfume, chá e bolachas e ala para a camioneta, nem que não queiram. Lá vão os nossos velhinhos de cu tremido, cantando bonitas cantigas do Quim Barreiros ditadas ao microfone pela senhora doutora da Junta, que até já foi ao Preço Certo e agora é candidata. Missinha, santa missinha, um regalo, nem que não queiram, e Quinta da Malafaia para enfartar a mula, nem que não queiram, tantos velhinhos, tantos velhinhos, ó que extraordinário velhódromo, velhinhos de tantos lados, atordoados, perdidos, sem saberem de que terra são, tantos senhores presidentes de câmara, sorridentes e abraçadeiros, de mesa em mesa, e os fotógrafos solícitos e oficiais sempre atrás, acotovelando-se, ai que dinheiro tão bem empregue pelo orçamento municipal, vêm aí as eleições! Os velhinhos sobreviventes, nem que não queiram, regressam ao sol-pôr com o saco cheio, nem sempre entregues na terra certa. De volta à naftalina, à indiferença e ao esquecimento, até daqui a um ano, se Deus quiser.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

O passeio do idoso

O autocarro de aluguer levava à frente, à mão direita do motorista, uma tabuleta que dizia "Passeio do Idoso". Convenhamos: a tabuleta é necessária, porque uma câmara municipal ou uma junta de freguesia não se podem dar ao luxo de organizar um "Passeio do Idoso" e o mundo ficar sem saber que a câmara municipal ou a junta de freguesia organizaram um "Passeio do Idoso". Portanto, a tabuleta anunciava "Passeio do Idoso". Olhei com atenção para o interior do autocarro de 56 lugares, e lá no meio ia realmente um velhinho, só um, o resto eram bancos vazios. A tabuleta estava certa - era, com efeito, o passeio do idoso.

(Versão publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Para acabar com os mamões

É um homem que nunca reage a quente. Nem a frio. Isto é, mantém as decisões em banho-maria. Pesa os prós e os contras, mede os assim assins e pondera os vice-versas. A ele, ninguém o apanha em falso. Toda a vida andou por lá, e é ali que quer ficar. Foi comunista, militou no PS e aderiu ao PSD, passou pelo Livre e pelo Bloco de Esquerda, experimentou a Iniciativa Liberal, o ADN e o PAN, liderou uma lista de "independentes" e agora concorre pelo Chega. Para acabar com os mamões!

(Publicada originalmente no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 18 de maio de 2025

Eu não lhe admito, senhor deputado!

- Eu não admito que o senhor deputado diga que eu disse isso, senhor deputado!
- Então o que é que o senhor deputado disse, senhor deputado?
- Eu disse aquilo, senhor deputado.
- Aquilo, senhor deputado? E só agora é que o senhor deputado diz isso, senhor deputado?
- Eu não admito que o senhor deputado diga que eu disse isso, senhor deputado!

Relativamente a essa matéria

- Relativamente a essa matéria, senhor deputado, devo esclarecer que não tenho nada a acrescentar relativamente a essa matéria.
- E relativamente à outra matéria, senhor primeiro-ministro?
- Relativamente à outra matéria, senhor deputado, devo esclarecer que não tenho nada a acrescentar relativamente à outra matéria.
- Bem me parecia, senhor primeiro-ministro!
- Ainda bem que nos entendemos, senhor deputado!

sábado, 17 de maio de 2025

Reflexão ou refluxo?

Hoje é dia de reflexão tendo em vista o acto eleitoral de amanhã. Mais um. Mais um acto eleitoral e mais um dia de reflexão. E um dia assim não podia ser mais oportuno nem de maior utilidade. Sobretudo para as pessoas que, como eu, votaram no passado domingo.

domingo, 11 de maio de 2025

O homem do leme e o faroleiro

Cavaco Silva tinha a mania de que era "o homem do leme", lá pelos finais dos anos oitenta do século passado, e não lhe passou. Luís Montenegro, que ninguém diga que está livre, deu-lhe agora para se apresentar como "o farol deste país". Faroleiro, eu creio que ele queria dizer faroleiro. E, entretanto, estimo-lhes as melhoras.

O horário de Deus

Vínhamos de votar para as eleições do próximo domingo e resolvemos passar pela capelinha da Obra do Padre Grilo, como costumamos fazer muito amiúde. Fica-nos mais ou menos em caminho. Sentamo-nos lá um bocadinho a pensar na vida, a Mi e eu, aproveitando a fresca e o silêncio. Gostamos disso. Mas hoje batemos com o nariz na porta, a capelinha estava fechada, talvez melhor dizendo, ainda fechada. Eram para aí oito e meia. É o que eu já suspeitava: Deus dorme, e anda a acordar cada vez mais tarde.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

O Público pergunta

No seu extraordinário "Dating eleitoral 2025", o jornal Público pergunta aos seus leitores: "Com que partido sairia para jantar?" E eu pergunto: como é que se sai para jantar com um partido? E é lombo de porco assado, como o costume? O Público, às vezes, palavra de honra...

domingo, 4 de maio de 2025

Cuidado com as carteiras!

Os carteiristas. Perdoem-me que volte ao assunto, mas a verdade é que não saímos disto, de eleições, umas atrás das outras, como se Portugal não tivesse mais nada que fazer. E diz que hoje começa a campanha eleitoral. Os carteiristas, portanto. Para quem não saiba, passo a informar e é de graça: os carteiristas são presença habitual, diria até obrigatória, nas campanhas eleitorais. Fazem parte. Sim, os carteiristas! Sorrateiros como uma corrente de ar, rápidos como um piscar de olhos, trabalham aos pares, às vezes em trio, organizados, distribuindo tarefas, exponenciando sinergias, intercomunicando-se via telemóvel, tomando conta das costas uns dos outros, de bandeira ao ombro e autocolante na lapela, fazendo-se passar por militantes ou simpatizantes, acompanhando as caravanas em todas as paragens e aproveitando-se das feiras, dos mercados, das arruadas mais frequentadas ou comícios de maior aperto para então, como quem não quer a coisa, dar livre curso à insustentável arte do gesto leve. Sim senhor, os carteiristas! Eles andam por aí. Como se já não bastassem os políticos propriamente ditos.

P.S. - Números. A PSP deteve 149 carteiristas no ano passado, o que representa um aumento de 43 por cento em relação a 2023. Sobre o número de crimes de furto por carteiristas, a Polícia registou 5.762 ocorrências em 2024, uma média de cerca de 16 crimes por dia, mais 11 por cento do que no ano anterior. Nas eleições para a Assembleia da República vão ser eleitos 230 deputados.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Milagre de Fafe

Foto Ivo Borges / O Minho

"Um espetacular halo solar foi avistado, na manhã desta quinta-feira, a partir de Fafe, anunciando a aproximação da chuva", informa o jornal O Minho. Atenção, muita atenção! Aconteceu hoje, quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2025, dia em que Luís Marques Mendes apresenta a sua candidatura à Presidência da República. E a apresentação é exactamente em Fafe, o que me apraz registar. Melhor augúrio, creio, não podia haver. Em Fátima foi o milagre do Sol, em Fafe é o halo solar. Depois, quando forem as eleições, daqui a um ano, não fiquem admirados com o resultado, não cuidem que é milagre espontâneo, mesmo que não chova amanhã. Estava escrito nos astros...