quarta-feira, 1 de abril de 2026
Brincar em serviço
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Diversão no Trabalho.
Aldrabons e aldramaus
Mal agradecidos
O homem-estátua foi despedido. Por falta de produtividade. Logo ele que tinha sido contratado para não mexer uma palha.
Por que razão medram tanto os aldrabões em Portugal? Por que razão vamos a votos e mandamos para o poleiro os aldrabões, de variada cor, como se por acaso acreditássemos neles, regra geral? Os aldrabões que antes e/ou depois estão nos bancos, nas edepês, nas caixas, nas renes, nas cepês, nas referes, nas misericórdias, nos metros, nos centímetros, nas construtoras, nas destrutoras, nos superescritórios de advogados, nos supermercados de escravos, nas fundações, nas afundações, nas jotas, nas motas, nas assessorias, nas tias, nas televisões e nos jornais, no parlamento, no barlavento e no sotavento, e têm do povo uma vaga ideia. Por que razão, se nos queixamos tanto deles?
Andava com esta dúvida fisgada nem sei há que tempos, mas no outro dia tive a inesperada revelação, quase sem querer, ao ouvir um minhoto retinto a falar. Um minhoto de Fafe, evidentemente, dos nossos. O homem antigo falava de não sei quem e chamava-lhe aldrabom. Isso, aldrabom. Os minhotos de cá de baixo agarramo-nos ao pouco que já nos resta do galego purinho e falamos assim, trocamos o excêntrico ão pelo ancestral om, daí a confusom, e se calhar acreditamo-nos: ora aí está um aldra que é bom, pensamos na melhor das nossas intenções e caímos na esparrela. Porque "eles" não são aldrabons. São aldramaus.
Sinceramente
"Mente-me, que eu gosto", disse ela. "Por isso é que te amo tanto", disse ele.
P.S. - Hoje é Dia das Mentiras.
Arreganha a tacha!
terça-feira, 31 de março de 2026
O mistério dos ovos da Páscoa
Turismo de carregar pela boca
A perna extra
"Fiambre da perna extra", como diz a etiqueta do produto, faz lembrar a "quinta pata do cavalo". O que, convenhamos, é desagradável.
Nos preguiçosos semáforos do frequentadíssimo cruzamento de Valença, na Estrada Nacional 13, como quem vai mas não vai para a estação da CP, dois indivíduos vestidos à empregado de mesa distribuem panfletos aos ocupantes dos carros que param desprecatados e de vidros abertos. À empregado de mesa, quero dizer, com sapatos desengraxados, calças pretas sebosas e camisas que parece que já foram brancas. São propagandistas, angariadores, embora não aparentem. Serão talvez empregados de mesa, mas em comissão de serviço. Serviço externo. Os panfletos com letras azuis e tamanhos desaparelhados fazem reclame a um restaurante, a uma churrasqueira, ou mais concretamente a um "asador", como lá diz em título garrafal, e justamente "asador" à espanhola ainda que o estabelecimento se localize em pleno território nacional, a largos três quilómetros da antiga fronteira com Tui e "com amplo parque de estacionamento", mas é assim que as coisas são. E uma coisa desta categoria e dimensão haveria de ter dado imenso jeito no tempo em que o meu avô da Bomba organizava sensacionais excursões fafenses ao Alto Minho, dois-dias-dois, e se fosse a Fátima eram três, porque Portugal era realmente muito longe de si mesmo.
Duas das principais especialidades da casa, do tal "asador", são o "pollo na brasa" e a "costilla de cerdo". Para além dos mais emblemáticos pratos da cozinha tradicional portuguesa, do cozido e da picanha aos diversos bacalhaus e pescada cozida com todos, passando pelo cabrito, pelo leitão, pela vitela, pelo arroz de tamboril e pelo polvo, e com capacidade para 400 - sim, quatrocentas - pessoas, há também "francezinhas, pizzas e hamburguers". É a promessa de todo um mundo, posto que regional e com ar condicionado. A quem aceitar o papelinho no cruzamento e se apresentar com ele na mão, o imenso restaurante diz que regala "una botella de viño para levar p/ casa".
Enquanto isso, duas da tarde, o sol a pique nos semáforos do cruzamento cosmopolita. Um dos dois emissários do "asador" farto, generoso, climatizado, bilingue e extraordinário, numa palavra, pantagruélico, um dos dois desgraçados, por acaso o mais velho, abre um pequeno saco se papel castanho que trazia no bolso das calças e rapa de um lanche já encetado. Dá uma, duas dentadas e volta a guardar a sande pré-fabricada e dura no saco gorduroso e nas calças sebentas. Limpa a boca com as costas da mão, sacode as migalhas da camisa suada e continua a distribuir papéis. Assim, a seco.
segunda-feira, 30 de março de 2026
O típico caso de transtorno bipular
Ele padecia de evidente transtorno bipular. Diziam-lhe, às vezes, fosse a respeito do que fosse, mas sobretudo em caso de necessidade, porém sem urgência, "quando puderes, dá cá um salto" - e ele dava dois.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Transtorno Bipolar.
O Ativista maiúsculo mas sem cê
Proibições que são convites
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Embora já andassem de Mercedes e/ou BMW, aqui há uns anos os senhores empreiteiros viam-se à rasca para perceberem onde podiam despejar o lixo que faziam nas demolições ou esburacamentos de início de obra. Não havia sítios de lei, largavam-no onde calhava, à noite, e fugiam. Atentas à insustentável situação e superpreocupadas com a defesa do ambiente e o bem-estar das populações, as autarquias portuguesas correram a criar uma rede de locais apropriados para o efeito nos montes à roda das vilas e cidades, de norte a sul do País. Em cada um desses locais jeitosos, os nossos preclaros autarcas mandaram colocar uma placa que avisava mais ou menos assim: "Proibido lançar entulho neste local - Coima até duzentos contos". E, pronto, os senhores empreiteiros ficaram a saber que era ali mesmo que podiam deitar o lixo.
Agora. Os meus amigos que batem umas cartas ali em baixo, naquela cantinho abrigado à beira-mar, têm uma preocupação naftalínica que eu compreendo. Arriscar bisca com cheiro a mijo deve ser uma merda. Por isso puseram um letreiro novo, melhoramento infelizmente sem inauguração pela senhora presidenta da Câmara de Matosinhos, mas "sinalética" em material nobre, upgrade como manda a sapatilha, passando do cartão canelado para a esferovite, e com uma mensagem indubitavelmente mais assertiva e acutilante. E no entanto, como na história dos senhores empreiteiros, "Atenção - Não urinar neste local - Obrigado", se formos a ver, só quer dizer, pelo contrário, WC...
domingo, 29 de março de 2026
O PS em mudança (fim)
E pronto! Como previsto, bastou um congresso, um simples fim-de-semana, e o PS deu uma espectacular volta de 360 graus. Isto é, continua tudo na mesma. Foi baralhar e dar de novo - o PS igual a si próprio, nos últimos anos, velho e podre, sem noção, autofágico, irrelevante, e já nem faz por disfarçar.
O PS em mudança 11
O PS em mudança 10
O PS em mudança 9
"Carneiro integra Ana Jorge, Luísa Salgueiro e Eduardo Cabrita na comissão nacional", Público.
O carregador de piano
Atenção!
O carregador de piano não se liga à electricidade.
sábado, 28 de março de 2026
O PS em mudança 3
O PS em mudança 2
A diferença
A diferença entre os centros históricos e os centros histéricos está sobretudo na compostura. E na vogal do meio.
P.S. - Hoje é Dia Nacional dos Centros Históricos.
Centros históricos
P.S. - Hoje é Dia Nacional dos Centros Históricos.
sexta-feira, 27 de março de 2026
O viagra ao poder!
Mas o máximo era conseguirmos um borguista tipo Silvio Berlusconi, o octogenário italiano que, segundo o língua-de-trapos do seu médico pessoal, ainda aqui atrasado podia "ter, sem exagero, seis relações sexuais por semana", desde que descansasse ao domingo, derivado à religião.
Um homem assim é que era bom. Alguém que se concentrasse realmente no essencial - a mulherenguice - e que, por favor, nos saísse de cima.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Junho de 2011, mal eu sabia o #MeToo que por aí vinha. O viagra foi aprovado para uso nos Estados Unidos em 27 de Março de 1998.
Vai-se o Minho, passo a passo...
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Fontes & fontesFonte baptismal, fonte de vida, fonte luminosa, fonte milagrosa, fonte de alimentação, fonte de ignição, fonte da juventude, fonte de inspiração, fonte de transpiração, fonte termal, fonte de tráfego, fonte tipográfica, Fontes de Onor, Fonte Arcada, Sete Fontes, Fonte da Telha, Fonte das Sete Bicas, Fonte da Moura, Fonte do Bastardo, Fonte do Santo, Fonte da Cana, Fonte de Jacob, José Fonte, Fontes Pereira de Melo, Fontes Rocha, Fontes de Alencar, Águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar, Adios rios adios fontes.
As pancadas de Jean-Baptiste Poquelin
Quando elas morriam de pé
"Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores", dizia a Senhora Dona Palmira Bastos, batendo altaneira com a bengala no tablado, na beleza insubstituível do preto e branco da televisão antiga. A queridíssima Senhora Dona Palmira Bastos tinha quase noventa anos e ainda não sabia das motosserras, do urbanismo autárquico em Portugal e da Amazónia no Brasil.
O francês Jean-Baptiste Poquelin inventou as famosas pancadas de Jean-Baptiste Poquelin, as quais, secas e consecutivas, batidas no piso do palco, anunciavam ao público o início de um espectáculo teatral. Alguém alvitrou, no entanto, que chamar pancadas de Jean-Baptiste Poquelin às pancadas de Jean-Baptiste Poquelin não tinha jeito nenhum, até soava mal ao ouvido, e que chamar-lhes, por exemplo, pancadas de Molière seria muito mais engraçado. Tinha razão. As pancadas mudaram então o nome para Molière e Jean-Baptiste Poquelin também. Assim se passaram as coisas.
A primeira vez que eu as ouvi, às pancadas, foi em Fafe, no nosso Teatro-Cinema, há bem mais de meio século. Teatro amador, mas pancadas profissionais, competentes. Era a récita de "Selo de Chumbo", um dramalhão em três actos de Armando Tavares, levado à cena pela prata da casa, com, entre outros e outras que infelizmente me fugiram da memória, Nélson Fafe e o Sr. Moreira, enormes actores e ensaiadores, o Tónio da Legião, estou em crer, e até o meu padrinho Américo terá tido um pequeno papel, coisa de uma deixa, duas palavras, mais não, entrada por saída, numa interpretação que ficou para a posteridade. O final da peça, se bem me lembro, era de fazer chorar as pedras da calçada...
As pancadas de Molière foram entretanto substituídas por apitos ou campainhas e por uma voz de altifalante que manda desligar os telemóveis.
quinta-feira, 26 de março de 2026
Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades
quarta-feira, 25 de março de 2026
O bom ladrão
A dúvida dos conspiradoresOs conspiradores tinham apenas uma dúvida: para que dia marcar o 25 de Abril.
Fafe, algures pelos finais da década de sessenta do século passado. Na sala de aula da agora desaparecida Escola da Feira Velha, no meio da parede, por cima do quadro negro, um Cristo crucificado. Carmona à direita da cruz, Salazar ironicamente à esquerda. Eu, que naquela altura já tinha umas luzes bíblicas, nunca percebi qual destes dois era o bom ladrão...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado originalmente no dia 26 de Julho de 2018. No dia 25 de Março de 1928 o general Óscar Carmona foi eleito presidente da República. Era candidato único. A oposição estava proibida. Curiosamente, o dia 25 de Março é dedicado pela Igreja Católica a São Dimas, o bom ladrão.)
terça-feira, 24 de março de 2026
Pagar o patau
Do piorio!A vingança serve-se fria. E, se possível, salgada. E em pratos esbotenados e sebentos...
segunda-feira, 23 de março de 2026
O contador de anedotas
Macaquinhos no sótãoEle tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.
domingo, 22 de março de 2026
A vidinha a andar para trás
Em dois sítios
Ele era um tipo manifestamente azarado. Caiu e partiu o braço em dois sítios: mais precisamente em Mirandela, há coisa de dez anos, e no Sabugal, fará amanhã quinze dias.
sábado, 21 de março de 2026
"Racistas", sim, "vocês" é que não!
Vai-me a essas rimas
Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.
Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: - Não é poesia!,
diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-
dra que rola na pedra...
Mas também da rima "em cheio"
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...
Quando, de Sophia
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
"Dia do Mar", Sophia de Mello Breyner Andresen
(Embora não pareça, hoje, 21 de Março, é Dia Mundial da Poesia)
Por una cabeza
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Cavalinho da chuva
Mandaram-no tirar o cavalinho da chuva, e ele tirou. E no entanto estava um rico dia de sol.
"Por una cabeza" é talvez o velho tango mais conhecido dos tempos modernos. A sua versão instrumental é tocada a torto e a direito nas séries de televisão e no cinema, não só pela sua indiscutível beleza e porque entretanto caducaram os respectivos direitos autorais, mas sobretudo depois de ter sido utilizada com o sucesso que se viu no filme "Perfume de Mulher", de 1992, que valeu a Al Pacino o Óscar de melhor actor. Eu trago-o no ouvido desde o tempo do Belinho e do seu acordeão, no palco do salão dos Bombeiros de Fafe, lá pelas décadas de 60 e 70 do século passado. A autoria deste tango é muitas vezes erradamente atribuída a Astor Piazzolla, o mestre do bandoneon. Na verdade, o tango "Por una cabeza" foi composto em 1935 com música de Carlos Gardel, o mais famoso dos cantores de tango da história, e letra de Aldredo Le Pera.
Perfume de mulher
E foi lavar-seA velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...
A n.º 10 de Tomás Ribeiro Street
| Foto Hernâni Von Doellinger |
À porta do meu prédio tenho uma árvore, tenho uma árvore à porta do meu prédio. Nunca poderei esquecer este acontecimento, com licença de Carlos Drummond de Andrade. A minha árvore é a número 10. Não sei por que razão as árvores são agora numeradas e etiquetadas. Nem percebo como é que as florestas antigas conseguiram salvar-se sem serem numeradas e etiquetadas. Sou um simples: acredito que tudo tem o seu propósito e contento-me com as coisas conforme elas se me apresentam. Para além disso, o número 10 parece-me um bom número.
Um dia em cheio
Mexendo os cordelinhos
sexta-feira, 20 de março de 2026
A felicidade acaba à meia-noite
Hoje, 20 de Março, é Dia Internacional da Felicidade. Eu sei que é uma chatice, mas são ordens da ONU.
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.
Dia da Felicidade e assim sucessivamente
Hoje é Dia da Felicidade. E também da Clementina, da Adelaide, da Iracema, da Adosinda, da Felisberta, da Miquelina, da Leocádia, da Emerenciana, da Umbelina, da Hortênsia da Perpétua e assim sucessivamente. Aquele gajo tem uma agenda realmente de fazer inveja...
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.
Eis a (verdadeira) questão
A felicidade é questão de um gajo se habituar.
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.
Ao virar da esquina
A Felicidade estava sempre ao virar da esquina. Depois, pumba!, hospital...
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.
A felicidade agarra-se pelos tomates
Jasmina era uma mulher feliz. Fazia o que queria do marido. Em casa
mandava ela, e mandava nele também. O homem gostava assim. As vizinhas e
amigas de Jasmina - à qual, pelas costas, chamavam Felismina -
perguntavam-se, roídas de inveja: "Como é que ela consegue, como é que
ela consegue?!..."
E um dia Jasmina explicou: "Trago-o bem preso pelos tomates, um bocadinho mais acima..."
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.
quinta-feira, 19 de março de 2026
Já me tinhas dito
Do tempo dos jornais
Era um homem muito antigo. Do tempo em que os jornais escreviam notícias. E ele percebia. Depois os jornais começaram a publicar vídeos. E ele deixou de perceber.
O passeio do jovem ciclista em cuecas
| Foto Hernâni Von Doellinger |
O ciclista isolado
Era um ciclista que se isolava com frequência. E também com fita preta Advance desde 1,44 sem IVA.
quarta-feira, 18 de março de 2026
A Póvoa agora é em Fafe
A melhor altura para ir ver a neve à serra da Estrela, acho eu, é agora, no Verão, se possível em pleno Agosto, quanto mais sol, melhor. Não há neve, mas pode-se passar.
É extraordinário o que se passa em Fafe por estes dias. Finalmente sem precisar da Póvoa de Varzim para nada, quem havia de dizer, Fafe tem a sua própria época balnear, de papel passado, reconhecida pelo notário, anunciada em edital, com bandeira e diploma, talvez até com batata frita à inglesa, bolas de Berlim, língua da sogra e caladinhos, nadadores-salvadores, mirones, pedintes e carteiristas. Serviço completo. Que coisa tão estranha para um tipo antigo como eu! Sobral de Monte Agraço teve, à altura, o seu parque infantil, que saiu no Tide e dava na televisão, e Fafe agora também tem época balnear, como os outros brasis e algarves da concorrência, sem lhes ficar atrás. Que sainete! Foi preciso esperar pelo século XXI, aguentar pacientemente as patifarias das alterações climáticas, inclusive correntes de ar, mas valeu a pena: Fafe está realmente mais fresco.
O meu irmão Nelo bem dizia, em pequeno, que, quando fosse grande, ia mandar construir uma praia em Fafe, uma praia com mar e tudo. E a verdade é só uma. Não foi o nosso Nelo, por acaso, mas alguém a construiu, e em boa hora, ela aí está, a praia da Barragem de Queimadela, ele aí está, o nosso mar, o sexto oceano, aberto ao expediente e em glorioso funcionamento. O nome "de Queimadela", para praia, se calhar não será o mais feliz, o mais acolhedor, por assim dizer, antes pelo contrário, mas, pronto, já constava, vinha de trás e, portanto, não havia volta a dar, esqueçamos o pormenor. Qualquer dia, estamos mas é a receber camionetas de poveiros, que vêm à procura do que é bom.
Para mim, no meu tempo, antes da construção do nosso mar, Fafe tinha três esplêndidas estâncias balneares: o Poço da Moçarada, em Docim, o Comporte, na Fábrica do Ferro, e Calvelos, em Golães, pelos campos de Sá, atravessando a linha do comboio. Eu e os rios éramos unha com carne. O rio São Roque, no Poço da Moçarada, explorando montes e leiras, com as suas belas cachoeiras e penedos polidos pela apressada e antiga passagem da água, foi onde aprendi a nadar, a fumar e várias outras parvoíces, mas nunca tive coragem para me atirar sequer do "segundo penedo", quanto mais do "terceiro", lá nas alturas do céu. O rio Ferro, mais à mão, no Comporte, secando ao sol no pequeno areal junto ao pontão que ligava ao Bairro de Antime. O rio Vizela, em Calvelos, uma curva selvagem, escondida no meio de impenetráveis milheirais, silvedos jurássicas e outra vegetação manifestamente africana, eu, palavra de honra, ouvia batuques ao longe e via macacos saltando de choupo em choupo, como se fossem artistas de circo, trapezistas voadores evadidos da Feira Velha. Três oásis que eu, na minha boa fé ou ingenuidade infantil, supunha longínquos, praticamente inacessíveis e secretos. Sítios de banhos, puros e duros, sem facilidades, só para homens de barba rija. E nós, os putos, sorrateiramente desenfiados, lingrinhas de pé descalço e pila ao léu, autoprojectos assumidos de futuros ecoturistas, hippies sem sequer fazermos ideia, íamos para lá treinar para a Póvoa de que ouvíamos falar, porque algum dia havia de ser. O pior era a minha mãe, que parecia que tinha radar e, uma desgraça nunca vem só, sabia sempre por onde é que eu andava e o que fazia. E, portanto, ia-me buscar. Pelas orelhas. Eu chorava e prometia que nunca mais, pelo menos até à tarde do dia seguinte.
Eu sou, aliás, especialista em épocas e instalações balneares. Não ouso colocar Fafe no topo da lista nacional de estâncias termais, seria porventura um exagero, e eu não sou disso, mas a verdade é que conheci muito bem os balneários do Campo da Granja e ainda cheguei a entrar nos balneários do Campo de São Jorge, então já oficialmente desactivado, mas funcional para jogos escolares ou de solteiros contra casados. Eu seria miúdo de escola primária. Três ou quatro anos depois, quando o Estádio começou a ser construído, nas vésperas da década de setenta, os vestiários foram provisoriamente montados na cave do quartel dos Bombeiros e eu passei a ser freguês diário do Senhor Zé Manquinho, o roupeiro dos roupeiros, numa amizade sem fim. Como decerto sabeis, eu era neto do quarteleiro, estava sempre ali de plantão, era só descer as escadas. Nas férias do seminário, não tínhamos água quente em casa, e era no balneário da AD Fafe que eu tomava banho duas ou três vezes por semana, antes dos jogadores chegarem para os treinos e sem estorvar o despacho. Levava toalhão, sabonete e roupa interior para mudar. Por sugestão do Senhor Zé Manquinho, eu era conhecido nas catacumbas como "o homem que adormece no chuveiro", tamanho era o prazer que o duche me dava e o tempo que eu lá passava, debaixo de água, nem sei como é que nunca engelhei da cabeça aos pés. Era uma espécie de Homem da Atlântida ou Aquaman, mas às pinguinhas.
Com o banho, eu tinha direito a uma bebida. Isto é, não tinha direito a bebida nenhuma, mas fazia-me e ela. Inventava um ligeiro afrontamento, queixava-me de uma pontada de azia, e o Senhor Zé já sabia. Mandava-me esperar pelo João Americano, o massagista, o único que tinha a chave da "Farmácia", palavra escrita a esferográfica azul no adesivo colado na testa do pequeno armário branco e vidrado com três prateleiras que era a própria "Farmácia" e pouco maior do que uma mesinha-de-cabeceira. O João chegava da fábrica, gozava comigo, falava muito alto, esganiçado, parecia a cantadeira de um rancho folclórico, mas também já sabia: dava-me um copo de água com uma colher de "sais de fruto", Eno, se bem me lembro, eu adorava aqueles piquinhos, bebia regalado, uma, duas goladas sem deixar cair, arrotava com toda a categoria e, boa tarde e muito obrigado, estava pronto, estava feito.
Admito que foi ali que o João Americano, o Senhor Zé Manquinho e eu inventámos o spa com champanhe, conceito hoje em dia tão coisa e tal, mas evidentemente não sabíamos.
De Portugal, dos Algarves e da Póvoa de Varzim
| Foto Hernâni Von Doellinger |
EscarmentadoEstou mortinho pelo Verão. O calor, a praia, o mar, a areia, os biquínis, as sungas, as bolas, o Algarve. Uma vez fui ao Algarve. Fui, palavra de honra, em 1981, se não estou em erro. E, quer-se dizer, fiquei servido.
A Póvoa de Varzim, que era Fafe no Verão, enormou-se sem rei nem roque. Cresceu a torto e a direito - e digo bem, literalmente a torto e a direito. Cuido que a culpa não é só dos fafenses apartamenteiros, que, na verdade, são mais que as mães. Outros culpados haverá, por exemplo derivados de Famalicão ou de Felgueiras, gente igualmente de mostrar e com fábricas e ferraris que entretanto faliram. As fábricas. E os operários respectivos e indefesos. Os ferraris estão bem, graças a Deus, na garagem disfarçada de lavandaria atrás do lago do menino que mija e da piscina de plástico. Os da Póvoa de todo o ano só agora deram fé que foram encabados. Arruinaram-lhes os quartinhos de aluguer e as vistas. São prisioneiros domiciliários, vedados por um colossal muro de betão que lhes rouba a praia, o ar e a vida. A cidade dos empreiteiros aluga-se. É o que diz nas janelas desesperançadas.
Fafe mudava-se no Verão para a Póvoa. E de que falavam os fafenses, uns com os outros, nas vésperas de irem de férias? Falavam de sectores. Era importante saber, os fafenses perguntavam-se reciprocamente "em que sector estás?", "para que sector vais?", enquanto metiam a mobília de casa na mala do carro, na camioneta de aluguer ou no autocarro do João Carlos Soares, e a conversa entrava numa onda, parecia, de quem discute números de porta ou terminações de lotaria, mas eles lá se entendiam e marcavam encontros, se calhar só da boca para fora.
Quer-se dizer, Fafe mudava-se no Verão para a Póvoa, e eu agora também. Não cuideis que estou no gozo. À falta de posses para outros algarves, eu próprio passei a fazer férias na Póvoa de Varzim, todos os anos, geralmente à terça-feira à tarde.
As minhas férias deste ano foram temporãs, gozei-as no passado dia 8 de Abril, depois de irmos ao Correio levantar a reforma. Peguei na mulher e ala para a Póvoa, com transbordo na Senhora da Hora. Saímos depois de almoço, mas para mim o almoço já conta como férias. Comemos em casa dois bijus, um para cada, levantámos a mesa, varremos a sala, lavámos a louça, regámos os vasos, desligámos a água, a luz e o gás, fechámos a porta com três chaves e uma tranca, pedimos à vizinha que deitasse os olhos e lá fomos apanhar o metro. A viagem correu muito bem.
A Póvoa estava um bocado ao deus-dará, praticamente de vago, decerto derivado à chuva que caía desalmadamente, uma falta de respeito para veraneantes que, como nós, não gostam de confusões e tomam horas para o Verão. Mas há cada vez mais andares e apartamentos para vender e quartos por alugar, de acordo com os letreiros que se acotovelam. A língua oficial da Póvoa de Varzim, entre os meses de Junho e Agosto, é o francês com caralhos no meio. No resto do ano também. Eu e a minha mulher foi como se estivéssemos no estrangeiro, embora com caralhos no meio e bastante molhados, e ainda há um bocadinho tínhamos saído de casa com um rico dia de sol. Por falar nisso, liguei à vizinha para saber se estava tudo bem. Estava.
Aproveitámos as férias em cheio. Olhámos para o casino e para o Cego do Maio, fomos espreitar as montras com bolas de berlim, a praia, os banhos e as banhas. Não havia. Fomos às piscinas, ao museu, à biblioteca, à praça de toiros demolida e ao estádio que qualquer dia também, mas fomos sempre pelo lado de fora, para não incomodar. Não percebo quem diz que não tem dinheiro para ir de férias. Eu e a minha mulher fomos e às 17h45 já estávamos outra vez no lar doce lar, encharcados como pitos mas felizes da vida. Mais: resolvi fazer um prolongamento extraordinário das férias, e demo-nos ao luxo de jantar. Dois bijus, um para cada, e uma colher de xarope para a tosse bebida a meias.
As minhas férias ficaram-me por 10,65 euros. Ora portanto, 24 cêntimos dos dois pães do almoço, dez euros de dois andantes Z5 (cartões incluídos) para as viagens Matosinhos-Póvoa de Varzim e Póvoa de Varzim-Matosinhos, mais os 24 cêntimos dos papos-secos do jantar, uma extravagância, e 17 cêntimos da chamada para a vizinha. Total: 10,65 euros, com todas as tarifas incluídas, o xarope para a tosse tinha-me sido dado como amostra. Quase onze euros, um bocado puxado, é certo, e não dá para descontar no IRS, mas é uma questão de nos organizarmos durante o resto do ano.
A minha mulher ainda quis ir a uma agência de viagens, para ver se a coisa nos saía mais em conta - como se nós fôssemos uns necessitados! Mandei-a dar uma volta e ela passou as férias todas sem me falar.
terça-feira, 17 de março de 2026
A tensão, muita a tensão!
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe, da série Diálogos fafenses. Hoje é Dia da Confiança Entre Médico e Paciente.)
O dia em que envelheci
Já não vamos para velhos
A verdade é esta: biblicamente falando, Moisés viveu até aos 120 anos, Jacob até aos 147, Abraão até aos 175, Adão até aos 930, Noé até aos 950, e Matusalém, filho de Enoque, pai de Lameque e avô de Noé, faleceu de repente aos 969 anos. Antigamente era assim. E agora? Agora andamos à rasca para chegarmos aos 60 e damos graças a Deus se alcançarmos os 70, embora a esperança média de vida na Europa ronde os 82. Regra geral, metemos os papéis para a reforma e morremos logo a seguir. O que estará por trás desta alteração tão radical? Glaciares, asteróides, falta de médicos de família ou tão-só falta de fé, não tenho a certeza, mas creio que a segurança social também já não aguentava tanto profeta...
Sei muito bem o dia em que envelheci. Foi de repente. Sei o ano, sei o mês, sei o dia e até sei a hora, mas tanta exactidão não vem aqui ao caso. Sei o local e sei as circunstâncias. Foi de manhã. Foi no Hospital de Gaia, numa consulta de medicina do sono, creio que a coisa se chamava ou chama assim. A dado passo da bateria de exames e do minucioso inquérito, a médica perguntou-me, surpreendentemente: - Quando era novo, o Sr. Américo já sentia este cansaço?...
Mas não adiantou. Pelo contrário. A doutora insistia, parecia-me agora que com algum prazer, com uma certa maldade, "quando era novo" para aqui, "quando era novo" para ali, "quando era novo" acima, "quando era novo" abaixo, e quem sou eu para contrariar o veredicto da medicina, a sábia decisão da ciência?
E foi assim. Nesse dia, naquele preciso momento, fiquei velho para toda a vida, por indicação médica e sem remédio. Eu acabara de fazer 41 anos.
O último dos Bernardinos
Pianíssimo...
Estou como diz o outro: Bach leve, levemente...
Eu não posso andar na rua e ver bandas de música ou grupos de zés-pereiras, sobretudo zés-pereiras, que me passo, que me perco! Vou atrás, armado em cabeçudo, feito em gigantone, como aprendi com o Pimenta, e sigo-lhes a arruada como se fosse do grupo, um deles, acabadinho de sair da camioneta, esqueço-me da vida, já não sei que recado ia fazer. Eram quatro ou cinco pães? Ou seriam bananas? Ou era para dar a contagem da luz? Quando a Mi me liga, preocupada, eu já estou em Carrazeda de Ansiães e ainda tenho de ir fazer o almoço a Matosinhos. Os "trampolineiros" da minha infância alegram-me os dias da madureza, descompassam-me o bater do coração, tornam-me a Fafe e à pureza original, fazem-me chorar, comovem-me quase até ao ranho. Que quereis? Eu queria que houvesse discos pedidos para poder encomendar todos os dias o "Resineiro", cantado de mansinho mas muito bem picadinho, com aqueles rufos nervosos e valentes da caixaria no final de cada estrofe, como era antigamente de tasco em tasco, da Cumieira à Fábrica, da Rua de Baixo à Ponte do Ranha, do Retiro à Recta de Armil - e eu atrás. O Picotalho, tomo agora inesperada nota, não tinha tascos, passado o Chupiu, pelo menos tascos que se dissessem assim, e portanto, ainda por cima sendo hoje em dia uma rua troca-tintas, que se passou sem vergonha para o lado das vias-rápidas, acaba de dar-me um desgosto considerável. E queria pedir muitas e sentidas desculpas, a todos os zés-pereiras em geral e a cada zé-pereira em particular, por, ignorante e tolo, lhes ter chamado "trampolineiros", coisa feia. Eram, são, tamborileiros. Os tamborileiros da minha alegria triste. E da saudade.
O meu avô Bernardino Neques, que nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria, tinha o seu lado musical. Era de Passos, Cabeceiras de Basto, logo abaixo de Várzea Cova, caminho que se fazia a pé, e desunhava-se satisfatoriamente com a concertina e o acordeão, isto é, o "acórdeo", e já velho e doente veio-lhe a mania do violão, lembro-me que com alguma falta de jeito, Deus me perdoe se estou a ser injusto. Esqueçamos, porém, o violão, o acordeão e a concertina, que foram só para meter conversa. Tornemos aos bombos, à caixaria.
O Neques do meu avô Bernardino não era de baptismo. O verdadeiro nome do meu avô de Basto era Amigo Pereira - assim lhe chamava toda a gente por essas feiras e romarias ali à beira, a começar pela Lagoa, onde ele varria o terreiro com o varapau de lódão girando por cima da cabeça como ventoinha de helicóptero, e suponho que não é preciso dizer mais nada para que se perceba de que marca era o homem. (Mas vou dizer: quando fazia de jogador do pau e estava decentemente avinhado, o meu avô tinha um grito de guerra que era "Olraitecamoniésse!". E tinha um cão de pele e osso ao qual dera o nome de Tuísta, que queria dizer Twist. O meu querido avô, que aprendeu a escrever na tropa, era anglófilo americanado e não sabia. De americano, o Bô só conhecia o vinho, quer-se dizer, o binho, e talvez o João Massagista, aliás, João Americano, mas desta parte não tenho a certeza.) A alcunha que ficou famosa, Neques, veio-lhe do seu tempo de moço, contava-se, quando rufava a bom rufar na caixa, honesto instrumento por onde começou na arte. E tocava naquele ritmo manso e exacto que ele gostava de explicar, maestro, como neque-neque-neque, neque-neque, neque-pum. Neques, pois.
O meu avô era apaixonante, por correspondência. Para quem não sabe, os apaixonantes são pessoas, geralmente homens, que gostam muito de bandas de músicas, que as seguem, e têm paixão por uma em especial, como se fosse o seu Porto ou o seu Benfica. No caso do meu avô, obviamente Banda Revelhe, por causa do meu pai e por bom gosto natural. E o toque de caixa, para o Amigo Pereira, tinha ciência, solfejo. Nas minhas inesquecíveis férias grandes, na aldeia, o Bô gostava de perguntar-me, por exemplo, "Quantas pranas tem uma rana?", como se estivéssemos a elaborar sobre fusas e semifusas. Eu dizia que não sabia, que era o que o velho Neques queria ouvir, para logo a seguir me ensinar, matreiro e mais uma vez, "Conta-as, rapaz: rana-catrapana-catrapana-pana-pum; quantas são?..."
É. Já não há Bernardinos assim. E faz-me diferença. Pum!
(Do meu blogue Mistérios de Fafe)
segunda-feira, 16 de março de 2026
Dia de parecer pobre
Hoje é Dia do Panda. Amanhã voltamos ao Mercedes.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Panda.
Cara de cu à paisana
Penso então ali, respeitosamente: há que dar valor ao rapaz - para se atingir semelhante grau de perfeição, isto é preciso muito treino, muito ano, muita selfie!..
O rapaz saiu no Parque de Real, duas paragens acima, viagem de três minutos. Serviço feito, ala para casa, que se faz tarde! Nem tive tempo para lhe dar os parabéns.
Os monos
Mulher amiga...
Com aquela caloraça, a mulher comprou-lhe um pijama de Verão, levezinho, de calça curta, por acaso bem jeitoso. Chamou-o ao quarto, abriu o gavetão e disse-lhe: - Estás a ver? Gostas? Fica aqui guardado para quando fores para o hospital...
domingo, 15 de março de 2026
Os meus óculos de sol
Onde é que eu vou?
A minha mulher vestiu o meu roupão, vi-a sair mansamente do quarto, e pensei: - Porra!, onde é que eu vou, assim pequenino, que estava tão bem aqui na cama?...
Vilar de Mouros, pode dizer-se?
E Vilar de Mouros, que está agora outra aí vez na berra, ainda pode dizer-se? Ou, lisboetismos à parte, será melhor passar a chamar-lhe, sem ofensa, Vilar de Árabes ou Vilar de Muçulmanos ou Vilar de Magrebinos ou Vilar de Norte-Africanos ou Vilar de Berberes, embora berberes, verdade seja dita, também já possa cheirar um bocadinho a esturro?...
P.S. - Hoje é Dia Internacional de Combate à Islamofobia.
O consumidor
Foi toda a vida um consumidor. Desde que nasceu. Consumiu a mãe e consumiu o pai, consumiu os avós, maternos e paternos, consumiu os irmãos e as irmãs, os tios e as tias, os sobrinhos e as sobrinhas, os primos e as primas, consumiu os filhos, consumiu os netos e os bisnetos, consumiu as meninas do lar até morrer. Era realmente a consumição da família, um verdadeiro consumidor de almas. Quer-se dizer, há feitios assim.
P.S. Hoje é Dia Mundial dos Direitos do Consumidor.sábado, 14 de março de 2026
Ordem unida
A incontinência urinária, tomai bem sentido, não é uma cortesia militar!
P.S. - Hoje é Dia da Incontinência Urinária.
Mijado mas com aprumo
As begueiras
Dia da MulherNo Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Esplanada, de Manuel António Pina
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Esplanada
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Manuel António Pina, "Um Sítio Onde Pousar a Cabeça"
quinta-feira, 12 de março de 2026
Querem é sexo
Há outros leitores, igualmente solitários e amantes dos trabalhos
manuais, porém de hábitos um pouco mais arejados e produtivos (a
jardinagem ou a culinária, por exemplo), que contactam comigo através de
senhas como "Alberto João", "o seringador", "arroz de polvo carolino ou
agulha", "esquerda caviar", "onde comer sardinhas", "Anthony Bourdain",
"ah faneca!", "tomates" e "moelas de coelho".
Sobretudo "moelas de coelho". Percebo também que fiquem desconsolados
com o que tenho para lhes dar e não posso levar a mal o raspanete que
achem por bem,
embora eu não lhes faça caso. Já agora: para o polvo,
arroz carolino. Foda é o cordeiro assado no forno em Monção. E é claro
que os coelhos não têm moelas, mas o meu amigo
Peixoto, em Fafe, cozinhava-as muito bem.
Quase que só sobram então os americanos, os russos e os alemães, que são
sempre os primeiros a chegar e, honra lhes seja, não me largam. E
é muito fácil mantê-los interessados. Basta-me meter um texto
qualquer com uma ou mais destas inocentes palavras: "terrorismo", "EUA",
"Putin", "Trump", outro que o que quer é sexo, "Obama", "Biden", "Saddam Hussein", "Al-Qaeda", "Estado
Islâmico", "Israel", "Afeganistão", "Irão", ainda que do verbo ir,
"Merkel", "Papa", "armas" ou "Bomba", ainda que seja eu ou o meu avô, e
meia dúzia de segundos depois já cá estão eles a bater-me à porta. É
automático.
O que eles querem sei eu. No fundo, anda tudo ao mesmo: querem sexo,
como os das "mamas" e das "prostitutas". Querem ver se me fodem, com
licença da palavra. Mas também vêm ao engano.
(E depois há os casos que podem ser sérios. Como ainda aqui atrasado, quando alguém cai no Tarrenego! com a terrível conjugação de palavras-chave "quero denunciar o meu pai que me maltrata". Peço desculpa pela inadvertida pista falsa e espero sinceramente que quem estava aflito, se assim era, tenha encontrado noutro sítio, nos sítios certos, que os há, a ajuda de que precisava.)
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Março de 2012 e posteriormente acrescentado e actualizado. Hoje é Dia Mundial Contra a Censura na Internet ou Dia Mundial Contra a Cibercensura, o que teria muito que se lhe dissesse.
