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sábado, 22 de agosto de 2026

Mestre Nelo Barros

Tácticas
- Olhe que eu meto-lhe um processo!
- Defensivo ou ofensivo?
- De transição...

Tive a sorte de conhecer Nelo Barros. Manuel Coelho de Barros (1917-2007) foi um grande treinador de futebol e um mestre de treinadores de futebol. Nunca fez primeiras páginas de jornais, porque sempre se recusou a deixar o emprego no escritório da que era então a maior fábrica de Fafe e uma das maiores do País. Equipas da 1.ª divisão chamavam por ele, ano após ano, pediam-lhe disponibilidade total, trabalho a tempo inteiro, mas ele nunca quis ir por aí. O Nelinho era assim.
Pessoa excelentíssima, homem elegante, distinto, culto, carismático, Nelo Barros era reconhecidamente um catedrático da táctica, sabia muito de bola e dava gosto ouvi-lo falar de futebol. Ele entusiasmava-se e entusiasmava. O futebol de Nelo Barros tinha pessoas e histórias dentro. O futebol contado por Nelo Barros era simples, percebia-se à primeira vista, batia certo, era lindo!
Uma noite, no velho salão dos Bombeiros, então ainda instalados na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes, o mestre encantou uma plateia à pinha que o foi ouvir falar de desporto e de futebol, de jogadores e de jogos, de treinadores e de tácticas, como nunca se tinha ouvido falar por estas bandas. O Nelinho falou como de costume, sem tabus, sem grandes teorias, sem peneiras, falou simples mas com convicção. Até eu, que era um rapazola, entendi tudo. E fiquei a gostar ainda mais de futebol.
Perguntaram-lhe o que é que era preciso para se ser um bom treinador. Nelo Barros, provavelmente um dos melhores treinadores portugueses de todos os tempos, respondeu assim lapidarmente, que esta cá me ficou: "Não há bons treinadores. Os bons jogadores é que fazem os bons treinadores". E depois desenvolveu, desmontou a aparente contradição, mas nem era preciso.
Eu gostava tanto de ouvir Nelo Barros, que ia assistir a todos os treinos, que eram sempre ao fim da tarde, por causa do tal emprego do treinador na fábrica. Uma vez, o jogo em preparação era contra o Riopele. E digo contra de propósito, porque aquele era um tempo de rivalidades à moda antiga, dentro e fora do campo, acabando quase sempre tudo à trolha.
Mas, voltando ao treino, o Nelinho reuniu os jogadores à sua volta e deu a táctica. E eu por perto, de radar ligado. Fiquei deslumbrado: eram indicações precisas para cada um dos jogadores, para o funcionamento da defesa, para o desempenho do meio-campo, para o trabalho dos avançados, para as movimentações da equipa como um todo, as trocas, as compensações, até o Berto Magalhães ia jogar como médio vadio para secar os criativos riopelenses. O Berto era um suplente muito fraquinho, mas generoso e com um pulmão se faz favor, para além disso mandava-me cá um bigode que metia realmente respeito. Nas palavras do mestre, tudo encaixava, tudo fazia sentido. E tudo dito com tanta certeza, que no domingo só podia dar certo.
Mas não deu. Do outro lado estava uma equipa poderosíssima, histórica. Se a memória não me atraiçoa, no Riopele jogariam, por essa altura, o Piruta, o Vital, o Barros, o Albano, o João e o Luís Pereira, todos craques, treinados por outro que também a sabia toda: Ferreirinha. Saímos de Pousada de Saramago vergados a uma pesada derrota, já não sei por quantos, mas eu não perdi a fé no nosso Nelo Barros. Pelo contrário. Na humilhação da goleada, aprendi a beleza original do futebol, tal como o mestre o ensinava: onze contra onze e uma bola que é redonda. O resto é treta.

Hoje, uma nova raça de treinadores, colunistas, comentadores, ex-treinadores-comentadores e ex-comentadores-treinadores, todos paineleiros enfim, quer fazer-nos acreditar que o futebol é praticamente uma ciência oculta, só percebida por uns poucos predestinados que, modéstia à parte, são eles próprios. E inventam palavras e expressões para complicar o que é simples. E já não há bola nem futebol. Eles, que sabem inglês, "inventaram" o jogo. O jogo. Pois, pela parte que me cabe, parabéns à prima! Sou um simples já com razoável uso. E tenho é saudades de ouvir o Nelinho, treinador e cavalheiro, a falar de bola. De bola simplesmente.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A ordem natural das coisas

Entre linhas
O casal Antunes apresentou-se como de costume: deslumbrante, no seu habitual 4-4-2 losango.

O Paços de Ferreira de José Mota, o Rio Ave de Carlos Brito, o Vitória de Setúbal de Manuel Fernandes, o Nacional de Manuel Machado, o Aves do Professor Neca, o Boavista de Manuel José, a Académica de Vítor Manuel, o Varzim de Henrique Calisto, o Marítimo de Nelo Vingada, o Salgueiros de Filipovic, o Vitória de Guimarães de Jaime Pacheco, o Chaves de Raul Águas, o Belenenses de Marinho Peres, o Farense de Paco Fortes, o Portimonense de Vítor Oliveira, o Gil Vicente de Álvaro Magalhães, o Beira Mar de António Sousa, o Braga de Manuel Cajuda, o Felgueiras de Jorge Jesus, parece impossível, o Riopele e o Tirsense de Ferreirinha, o Infesta de Augusto Mata, o Fafe de Nelo Barros, e o FC Porto campeão. Assim eram as coisas e estava tudo certo, ninguém ia para o Brasil ou para as Arábias abanar a árvore das patacas, eu entendia-me com o futebol e era feliz. Era adepto. Agora? Agora o futebol está de pernas para o ar, chamam-lhe "o jogo" e tem polícia de choque, cordões de segurança, jaulas, petardos, periodizações tácticas e claques profissionais, bandidas e amiúde assassinas, os treinadores duram dois ou três jogos, ninguém é de ninguém, o meu Fafe anda pela terceira divisão e equipa de azul, o Sporting foi campeão, rebentaram com o FC Porto e eu também já não estou grande coisa...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

As doze vidas de Mourinho, o imortal

Depois de ter morrido pelo Benfica, pelo Leiria, pelo Porto, pelo Chelsea duas vezes, pelo Inter de Milão, pelo Real Madrid, pelo Manchester United, pelo Tottenham, pela Roma e pelo Fenerbahçe, o treinador de futebol José Mourinho prometeu hoje "dar a vida pelo Benfica". Outra vez.

P.S. - Publicado no dia 24 de Janeiro de 2026. E vão treze.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Mourinho e André Ventura

Com a vinda de José Mourinho para o Benfica, ao menos já temos quem divida com André Ventura o protagonismo e tempo de antena nas televisões.

sábado, 19 de julho de 2025

O trunfo Sérgio Conceição

Foto Hernâni Von Doellinger

Sérgio Conceição era o trunfo de Pinto da Costa para as eleições no FC Porto e foi noticiado como trunfo de Luís Filipe Vieira para as eleições no Benfica. Cotrim de Figueiredo, antigo presidente da Iniciativa Liberal, está a ponderar candidatar-se à Presidência da República. Será que já tem acordo com Sérgio Conceição?

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Um gajo para o escrete

Tomai nota, que esta é de graça. No dia 24 de Novembro de 2012, escrevi aqui no Tarrenego!, sob o título "O escrete precisa de um treinador português":

"O treinador Mano Menezes foi despedido da selecção brasileira. O substituto deverá ser anunciado no início de Janeiro e entre os principais candidatos ao lugar parece que estão Muricy Ramalho (técnico do Santos), Tite (do Corinthians) e Luiz Felipe Scolari (sem clube, depois de ter mandado o Palmeiras para a segunda divisão).
Mas do que é que o Brasil está à espera para contratar um treinador português? Não percebo a hesitação. Os brasileiros são os melhores jogadores do mundo? Também os portugueses são os melhores treinadores do mundo, como Jorge Jesus ainda ontem voltou a dizer.
É certo que, quando assim fala, o míster do Benfica é para o espelho que olha, e nem é bem ele a falar, é apenas o umbigo, are you talking to me?, you talking to me? Mas o umbigo de Jesus não deixa de ter razão. E o Brasil só ganhava se se deixasse descobrir de novo."

Vistes? Exactamente, Novembro de 2012, ó santa clarividência! Sete anos depois, em Junho de 2019, Jorge Jesus foi contratado pelo Flamengo e teve o sucesso que se sabe. Foi Jorge Jesus, Abel Ferreira e agora são uns atrás dos outros, qualquer dia não há treinadores portugueses a treinar em Portugal, foram todos para o Brasil.
E finalmente, Abril de 2025, outra vez sem seleccionador, após o despedimento de Dorival Júnior, o Brasil pensa num treinador português para os comandos do escrete. Fala-se em Jesus, fala-se em Abel e até se fala em Mourinho. Eu avisei - e foi há treze anos.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Vítor Bruno tem piada

Tem piada Vítor Bruno, o actual treinador da principal equipa de futebol do FC Porto. Tem piada porque, quando fala, fala como se estivesse a escrever no Facebook ou num blogue qualquer, como eu, cheio de redondismos e de outras habilidades linguísticas e semânticas, mas nunca sei do que é que ele está realmente a falar quando fala, quem dera que os seus jogadores saibam, e isso é que interessa.
Também não sei, ninguém sabe, como é que Vítor Bruno prepara os jogos com os seus jogadores, mas sei como é que ele os desprepara e comenta. Comenta-os como comentador, assertivo, com distância e oportuna opinião, e não como actual treinador da principal equipa de futebol do FC Porto, parte da coisa. Ele não tem nada a ver com o assunto, se o assunto correu mal.
Ainda há pouco, na Madeira, após mais uma magnífica exibição de incompetência, explicou: "Se uma equipa como o FC Porto quer ser campeão, tem de ter outra mentalidade e perceber que só com talento não se ganha jogos. Entregámos o jogo praticamente na primeira parte". Mais: "Primeira parte desastrosa. Com uma entrada totalmente ao lado, o Nacional marca na primeira jogada, começou a ganhar duelos e nós com dificuldade a ligar o jogo". E ainda: "Fomos macios perante um Nacional que quis ganhar mais do que nós". E é verdade, tem toda a razão. De Vítor Bruno ainda um dia se há-de dizer que, como treinador, era uma jóia de pessoa.
Agora: o que é que Vítor Bruno, não o bloguista ou influencer, mas o actual treinador da principal equipa de futebol do FC Porto, fez com os seus jogadores, antes e durante o jogo, já avisado pelo humilhante quarto de hora de nevoeiro de outro dia, para que o jogo não fosse assim? E de onde raio lhe veio a ideia de meter um meio-campo de anões, mais de meia equipa, quando o futebol, hoje em dia, é cada vez mais físico, de impacto e bola alta, e os defesas centrais de que dispõe são cada vez mais mecos? "Tudo o que é pequenino é bonito", disse a mulher, irrelevando, quando o homem baixou as calças - mas isto não é "O Senhor dos Anéis", valha-me Deus!...

P.S. - Digo "actual treinador da principal equipa de futebol do FC Porto", à hora em que escrevo.

domingo, 22 de setembro de 2024

Portugal num guardanapo

Foto Glórias do Passado

Por volta de 1980, Mário Wilson (1929-2016) era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiinho Municipal vimaranense, o Vitória vinha treinar a Fafe geralmente às quartas ou quintas-feiras, fazendo connosco o chamado jogo-treino. Connosco, quero dizer, com a Associação Desportiva de Fafe, que costumava ter uma equipa competente de segunda divisão - hoje é a desgraça que se sabe. Eu trabalhava na AD Fafe: tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis, é preciso que se note.
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em acto de confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi-o assim muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no minúsculo gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me elegantemente como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar para Lisboa, para a Federação Portuguesa de Futebol. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, vamos um supor, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para a capital o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - O Vitória Sport Clube, Vitória de Guimarães, foi fundado no dia 22 de Setembro de 1922.

Artur Jorge, o circunspecto

Foto Lusa

Antigamente não havia Liga Revelação nem equipas B, tínhamos, era, às quartas-feiras à tarde, o campeonato de reservas. Nas reservas jogavam os mais fraquinhos da equipa principal, que raramente entravam em campo ao domingo, duvidosas aquisições à experiência, ex-lesionados em fase final de recuperação e jovens promessas recrutadas aos juniores para fazerem número. Não existia treinador das reservas. A equipa era, por assim dizer, orientada pelo treinador do primeiro time, que geralmente delegava num dos seus adjuntos. Lembro-me vagamente de jogos de reservas em Fafe, ainda no tempo do Campo da Granja, mas sobretudo do FC Porto, quase duas décadas mais tarde, no campo de treinos n.º 1 do Estádio das Antas, entalado entre as costas da "maratona" e a zona de pavilhões e piscina, onde passei tardadas a ensinar portismo ao meu filho recém-nascido. Muitos dos grandes craques azuis e brancos, futuras estrelas mundiais, vi-os ali em início de carreira, ou, em todo o caso, antes da afirmação definitiva, medindo forças desiguais com as poderosíssimas equipas do Senhora da Hora, do Candal, do Infesta ou, vá lá, do Salgueiros, do Leixões ou do Boavista.
Uma vez, Artur Jorge (1946-2024) era treinador do FC Porto e foi para o banco num desses jogos de reservas. A certa altura do encontro, resolveu fazer uma substituição e deu ordens a um jogador para aquecer. O jogador, e nem lhe recordo o nome, tirou o blusão para vestir a camisola, colocou as caneleiras com adesivo e tudo, puxou as meias para os joelhos, calçou-se e estava a começar a atar os cordões das chuteiras quando o treinador olhou para trás, estendeu o dedo apontando dali para fora e mandou-o tomar banho, isto é, recolher aos balneários, assim a frio. Alteração táctica na substituição? Nada disso. Apenas castigo. Artur Jorge, que não raras vezes fazia substituições logo nos primeiros minutos de jogo, se pressentia alguém em dia não ou a dormir na forma, queria os seus homens sempre prontos para o que desse e viesse. Preparados e alerta, permanentemente disponíveis para o imediatamente. Mesmo os que ficavam no banco, que era local de trabalho. Isso. O banco de suplentes, com Artur Jorge, não era beira de piscina.

Artur Jorge era homem de poucas falas. Distante, dizia-se. Exigente, duro, mantinha realmente distância em relação aos seus jogadores, que fazia questão de só "conhecer" no emprego, isto é, no balneário e no campo. De resto, nada de convívio, nada de confianças. Cá fora, na vida real, até os cumprimentos só se fossem por telepatia. Era assim nas Antas, onde os vi chegar e sair, treinador e jogadores, tantas e tantas vezes, passando um pelos outros como se nem os visse. Tinha sido assim na sua época de Vitória de Guimarães, como adjunto ou treinador de campo de José Maria Pedroto, por volta de 1980, se não estou em erro. O Vitória ia regulamente treinar a Fafe, às vezes, na preparação de jogos nocturnos, ia ao final do dia, daqueles dias curtos e agrestes do antigo Inverno minhoto, acendia-se a iluminação que havia, fraquinha mas de boa vontade, e o Estádio ficava à média-luz, como se fosse casa de fado. Eu por acaso até gostava. Artur Jorge no meio do pelado, voz potente e rara, explicando a jogada, corrigindo posições, dando nas orelhas aos jogadores enregelados, e mestre Pedroto seguindo o treino da bancada, de pé, bem agasalhado, à civil, contando piadas finas para a corte babada à sua volta, palavra de honra. O deus Pedroto. Chamavam-lhe então manager. E eu achava que deviam ir chamar manager a outro...

P.S. - O Vitória Sport Clube, Vitória de Guimarães, foi fundado no dia 22 de Setembro de 1922.

sábado, 1 de junho de 2024

Às vezes o Sérgio Conceição

Foto Hernâni Von Doellinger

(O texto que se segue, escrevi-o e publiquei-o aqui no passado domingo, dia 26 de Maio, mais de duas horas antes do início do jogo da final da Taça de Portugal, entre Sporting e FC Porto. E, apostasse eu no Euromihões, acertei em tudo: na conquista da Taça, que mais uma vez agradeço ao Sérgio Conceição, e na merda que ele e os seus logo aprontaram, e que não havia necessidade.)

Sérgio Conceição, a quem, desde já, agradeço a Taça de Portugal de mais daqui a um bocado, continua a falar demais e a ser indelicado com André Villas-Boas, que faz de conta que é surdo e parvo e tem-no trazido nas palminhas. Esta bronquice do treinador, esta em particular, é extraordinariamente desnecessária. Parece que o Sérgio, que quer sair do FC Porto e não é de agora, tem medo que o André não o deixe ir embora, que pretenda ficar com ele a todo o custo, e então desata a ser inconveniente com o novo presidente do FC Porto e a repetir juramentos de eterna e inconsequente vassalagem a Jorge Nuno Pinto da Costa, a ver se o "libertam".
Tolice. O desconfiado Sérgio Conceição, que atira a tudo o que mexe, mexa-se ou não, não precisa de inventar casos para sair, pode ir à sua vida em paz, sem crises, com sentimento de missão cumprida e de alma limpa, como decerto deseja. André Villas-Boas não o quer, já tem treinador, outro, e se ainda não o disse publicamente foi só para proteger o FC Porto neste atribulado final de época.
Ao Sérgio, que só lhe ficava bem abster-se de debitar mais picardias tontas, mas não acredito, cabe-lhe, por ora, ganhar a Taça e mais nada. E muito obrigado por tudo! O resto depois é com mestre André. Se ainda houver depois, se ainda houver resto e se ainda houver pelo menos um bocadinho de FC Porto...

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Treinadores portugueses no Brasil

Tomai nota, que esta é de graça. No dia 24 de Novembro de 2012, escrevi aqui no Tarrenego!, sob o título "O escrete precisa de um treinador português":

"O treinador Mano Menezes foi despedido da selecção brasileira. O substituto deverá ser anunciado no início de Janeiro e entre os principais candidatos ao lugar parece que estão Muricy Ramalho (técnico do Santos), Tite (do Corinthians) e Luiz Felipe Scolari (sem clube, depois de ter mandado o Palmeiras para a segunda divisão).
Mas do que é que o Brasil está à espera para contratar um treinador português? Não percebo a hesitação. Os brasileiros são os melhores jogadores do mundo? Também os portugueses são os melhores treinadores do mundo, como Jorge Jesus ainda ontem voltou a dizer.
É certo que, quando assim fala, o míster do Benfica é para o espelho que olha, e nem é bem ele a falar, é apenas o umbigo, are you talking to me?, you talking to me? Mas o umbigo de Jesus não deixa de ter razão. E o Brasil só ganhava se se deixasse descobrir de novo."

Vistes? Exactamente, Novembro de 2012, ó santa clarividência! Sete anos depois, em Junho de 2019, Jorge Jesus foi contratado pelo Flamengo e teve o sucesso que se sabe. Foi Jorge Jesus e agora são uns atrás dos outros, qualquer dia não há treinadores portugueses a treinar em Portugal, foram todos para o Brasil. Hoje soube-se de Petit, que vai para o Cuiabá, que Álvaro Pacheco e João Pedro Sousa não quiseram - pelo menos para já...

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Jesus, o melhor do mundo

Meditemos por momentos em Jesus. Fernando Nogueira, o famoso Bruxo de Fafe, confidente especial do jornalista Eugénio Queirós, actualmente aposentado e feliz, disse uma vez, em 2015, que o Benfica tinha naquela altura "o melhor treinador do mundo". E parecia bruxo o bruxo. Basta ver. Comparando com Jesus, quantos campeonatos ganharam até hoje treinadores como Buda, Maomé ou até o teutónico Lutero?

P.S. - Jorge Fernando Pinheiro de Jesus, aliás Jorge Jesus, ou Míster, como prefere, faz hoje 69 anos. E já vai em 28 títulos, se não estou em erro, entre campeonatos, taças, supertaças, copas, recopas, supercopas e torneios, para além de 16 prémios ou honrarias individuais. José Mourinho, por exemplo, tem mais de tudo, mas que é que isso intressa?...

domingo, 3 de outubro de 2021

O Captain! My Captain!

Por volta de 1980, Mário Wilson era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiíssimo Municipal vimaranense, o Vitória ia às quartas ou quintas-feiras treinar a Fafe, fazendo o chamado jogo-treino com os da casa. Eu trabalhava em casa, na Associação Desportiva de Fafe, tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis, e preciso que se note.
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar à Federação. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para Lisboa o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Junho de 2016. Mário Wilson, o Velho Capitão, morreu no dia 3 de Outubro de 2016, prestes a fazer 87 anos.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Um guardanapo para a Selecção

Por volta de 1980, Mário Wilson era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feiíssimo Municipal vimaranense, o Vitória ia às quartas ou quintas-feiras treinar a Fafe, fazendo o chamado jogo-treino com os da casa. Eu trabalhava em casa, na Associação Desportiva de Fafe, tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis...
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar à Federação. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo como só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para Lisboa o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Junho de 2016.

sábado, 3 de outubro de 2020

Mário Wilson tinha a Selecção no guardanapo

Por volta de 1980, Mário Wilson era o seleccionador nacional e também treinador do Vitória de Guimarães, por onde passava pela segunda vez, se não me engano. No Inverno, para poupar o relvado, único, do velho e feio Municipal vimaranense, o Vitória ia às quartas ou quintas-feiras treinar a Fafe, fazendo o chamado jogo-treino com os da casa. Eu trabalhava em casa, na Associação Desportiva de Fafe, tratava dos papéis, de alguns inocentes papéis...
Mário Wilson era uma jóia de pessoa e foi um treinador sobretudo afectivo. Gostava de falar com os seus jogadores um a um, como em confissão mas passeando, colocando-lhes o braço paternal por cima dos ombros - vi muitas vezes.
Um dia, numa daquelas quartas ou quintas-feiras, o Senhor Wilson entrou-me no gabinete, que era por baixo das bancadas e por cima dos balneários, cumprimentou-me como se eu fosse alguém e pediu-me se podia usar o telefone para ligar à Federação. Eu teria para aí uns 21 ou 22 anos e "dei-lhe" autorização, armado em parvo com só naquela idade. Depois de conseguir resposta do lado de lá da linha, o Velho Capitão pigarreou, cofiou a barbicha, foi ao bolso do casacão de cabedal, rapou de um guardanapo de papel marcado com beiçadas de verde tinto, estendeu-o em cima da minha secretária, alisou-o o melhor que pôde e começou a ditar para Lisboa o que lá escrevera eventualmente ao almoço. Eram nomes, uma lista, a convocatória para a Selecção Nacional na campanha de apuramento falhado para o Europeu de 1980, em Itália. Exactamente: a Selecção de Portugal estava no guardanapo de Mário Wilson...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Junho de 2016. Mário Wilson morreu no dia 3 de Outubro desse mesmo ano.

sábado, 24 de novembro de 2012

O escrete precisa de um treinador português

O treinador Mano Menezes foi despedido da selecção brasileira. O substituto deverá ser anunciado no início de Janeiro e entre os principais candidatos ao lugar parece que estão Muricy Ramalho (técnico do Santos), Tite (do Corinthians) e Luiz Felipe Scolari (sem clube, depois de ter mandado o Palmeiras para a segunda divisão).
Mas do que é que o Brasil está à espera para contratar um treinador português? Não percebo a hesitação. Os brasileiros são os melhores jogadores do mundo? Também os portugueses são os melhores treinadores do mundo, como Jorge Jesus ainda ontem voltou a dizer.
É certo que, quando assim fala, o míster do Benfica é para o espelho que olha, e nem é bem ele a falar, é apenas o umbigo, are you talking to me?, you talking to me? Mas o umbigo de Jesus não deixa de ter razão. E o Brasil só ganhava se se deixasse descobrir de novo.