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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O dérbi eterno, em 96 ponto 7

Acontecimentos
Há acontecimentos épicos e acontecimentos hípicos. Às vezes coincidem.

Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. O Sporting-Benfica ou o Benfica-Sporting, nem que seja em damas ou dominó, é o melhor espectáculo do mundo, assim aprendemos em Portugal desde pequeninos. E realmente. Estava a ser um dérbi de arromba, um clássico dos antigos, uma partida palpitante, de categoria superior, talvez bancada ou até camarote, bola cá, bola lá, sempre nas áreas, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, sobejavam-lhes os adjectivos, faltava-lhes o ar, que jogaço, que loucura! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, uma tristeza, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica, sem tino, entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, atrapalhados, devolviam o esférico aos do Benfica, pareciam tolinhos, desajeitados, ignorantes das balizas, por banda de um e de outro lado. Entre cortesias tontas a meio campo, isso, no miolo do terreno, como nos dizem, sarrafava-se a bom sarrafar, é verdade, mas dentro de um protocolo aparentemente estabelecido e mutuamente aceite, combinado. Que pobreza, que sensaboria, que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, provei e pus sal no arroz de grelos, liguei outra vez o rádio: o prélio levantou imediatamente fervura, tornou a ser sublime, frenético, sensacional, fantástico, formidável, alucinante, arrepiante, épico, dantesco, um frémito, um frenesim, um AVC em potência, só não era golo porque não calhava e o INEM estava de prevenção. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, a bola sempre a rasar o poste, a bater insistentemente na trave, até parecia, mas saiu pela bandeirola de canto, foi para o quintal, mais três pontos para o País de Gales. Fiquei-me, portanto, pelos 96.7, que também podia ter sido o resultado final, tantos os golos cantados que contei, e, confesso, fiquei de barriga cheia, regalei-me. Que fartote! Tanto drama, tanta comédia, apesar do formidável zero-zero. Digo-vos. Esquecei a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá entretimentos deprimentes. O futebol, para ser bom, para valer a pena, deve ser visto na rádio Antena 1. 

Sou pela Antena 1 desde que nasci, no tempo em que a rádio era a preto e branco e a Antena 1 chamava-se Emissora Nacional e aos domingos dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais, ainda o pai era vivo e fazia-nos rir. Ficávamos ali todos à espera, a família, prezados ouvintes, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar), não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas horas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a camioneta da excursão regressasse ao Largo, cheia de sono e de vinho, "bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta".
Sou, portanto, antigo, e faço gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada, a rádio à televisão. O melhor que a televisão tem, para mim, é que agora também dá relato. Quer-se dizer: é outra vez a velha rádio, lá com caras tipo passe, mas escusamos de olhar para ela.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem. E já agora: o melhor relatador de jogos de futebol na rádio portuguesa é de Fafe e chama-se Carlos Rui Abreu. Ouve-se na Antena 1.)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Também acontece aos melhores

Os favoritos
E diz o comentador, no final do jogo do campeonato inglês: "Vitória mais que justa da equipa que não reunia qualquer tipo de favoritismo". Sim, é verdade, ele há favoritismos das mais variadas espécies. Mas quase nunca reúnem.

Abril passava para Maio no ano de 2012. O FC Porto sagrou-se campeão nacional. O grande jornalista Ferreira Fernandes escrevia então no DN. E escreveu. Eu, armado em carapau de corrida, "respondi-lhe" no meu blogue Tarrenego!, metendo-lhe o título acima e a foto de uma caixa de Kompensam-S, medicamento indicado para o alívio dos sintomas de azia, enfartamento e acumulação de gases. O textinho era assim:
"Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe, se calhar, os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre."

Ferreira Fernandes, de quem sinto uma saudade imensa na chamada "imprensa nacional", mas provavelmente ele não, teve a bondade de dar-me troco, com a ironia, a sabedoria e a elegância do costume. Escreveu:
Caro Hernâni Von Doellinger,
leu mal, não quis fugir à vitória do FCP. Mais um campeonato do FCP não é notícia. Não escrevi sobre ela pela razão idêntica à dada por Liz Taylor por não ter ido ao funeral de Richard Burton: "Se eu fosse a todos enterros dos meus ex-maridos não fazia outra coisa."
Abraço, Ferreira Fernandes."

Eu, evidentemente, fiquei num sino por Ferreira Fernandes me ter lido, ainda por cima agraciando-me com um comentário, uma medalha. E rematei, dono da bola, até parecia que estava a adivinhar os festejos extraordinários deste ano:
"Muito obrigado, caro Ferreira Fernandes, pela gentileza da visita e do comentário. Que vou encaixilhar. Mas voltou a descair-lhe o pé na metáfora, meu amigo: os títulos do FC Porto não são funerais. Ou, pelo menos, não são um funeral para toda a gente. São uma festa, não viu?
Abraço,
h."

Isto é. O cronista Ferreira Fernandes, à mão, todos os dias, faz-me falta. Faz-nos falta. O País, se tivesse salvação, deveria reclamá-lo. E eu tinha alguma urgência de dizer isto outra vez.

(Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe, na passada segunda-feira. O cronista Ferreira Fernandes "regressou" ontem ao Público. Não tendes de quê...)

sábado, 16 de maio de 2026

Mestre José Mourinho

Metodicamente, com competência, igual a si próprio, José Mourinho continua a preparar e a pretextar a sua saída do Real Madrid. Como, de resto, já fez nos outros sítios por onde passou. Começou por se queixar dos jornalistas espanhóis, que lhe quereriam fazer a folha, e agora queixa-se dos assobios dos próprios adeptos merengues, colocando-os de sobreaviso: "Pode ser que um dia eu responda e eles fiquem tristes"...
Pois é. Mourinho é um mestre. Mestre na arte de criar cenários para rupturas, como aqui escrevi a 29 de Agosto de 2011 e agora recordo:

"Uma câmara para Mourinho
José Mourinho diz que há uma campanha contra ele em Espanha. Eu não costumo ligar ao que Mourinho diz, porque ele nunca diz nada sem uma segunda intenção, não dá ponto sem nó, e eu tenho mais que fazer do que perder tempo a tentar perceber aonde é que ele quer chegar. Mas abro aqui uma excepção, porque me parece que, desta vez, o homem é capaz de ter razão.
Ontem, durante a transmissão do jogo Saragoça-Real Madrid (0-6), o treinador luso teve direito a uma câmara, em exclusivo, que lhe seguiu todos os movimentos no banco de suplentes. Uma distinção digna do imenso umbiguismo de El Especial, mas que trazia água no bico. Depois do turbulento episódio final do último Barcelona-Real Madrid, o que a realização espanhola procurava era apanhar Mourinho novamente em falso. O português estava sob vigilância.
Numa transmissão paralela à transmissão do próprio jogo (três golos de Cristiano Ronaldo), todos os gestos mais bruscos de Mourinho, os gritos, as caras feias, os protestos, os enfados, os desapontamentos, foram passados a pente fino e repassados em câmara lenta, para que Espanha e o mundo se convençam de uma vez que realmente está ali um homem mau. Sim, Mourinho é capaz de ter razão. Às tantas, eles estão a ver se o tramam. Se calhar há mesmo uma campanha contra ele em Espanha. No entanto,

convém não esquecer que José Mourinho é mestre na arte de criar cenários para rupturas. Foi assim em Portugal, foi assim em Inglaterra, foi assim em Itália. Atentemos primeiro no seu "desabafo" de ontem ao jornal espanhol El Mundo. Diz Mourinho: "Ao contrário de outros países onde treinei, aqui sinto que estão a fazer uma campanha contra mim. Um amigo chegou a dizer-me que, com as pedras que me lançam, conseguia construir um monumento".
Um monumento a Mourinho, claro. Um Mourinho com queda para retocar a história. Porque, se formos um pouco atrás, ao tempo em que ele era Il Speciale e treinava o Inter, vamos encontrá-lo, em Novembro de 2008, a dar azo ao seguinte título na imprensa italiana: "A Itália não gosta de mim". Ou, em Março de 2010, já a preparar o salto para Madrid e a afirmar: "Não gosto do futebol italiano e o futebol italiano não gosta de mim".
Pois é. Ele sabe-a mesmo toda!"

P.S. - Publicado no dia 24 de Janeiro de 2012. Mais do mesmo, portanto.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

As doze vidas de Mourinho, o imortal

Depois de ter morrido pelo Benfica, pelo Leiria, pelo Porto, pelo Chelsea duas vezes, pelo Inter de Milão, pelo Real Madrid, pelo Manchester United, pelo Tottenham, pela Roma e pelo Fenerbahçe, o treinador de futebol José Mourinho prometeu hoje "dar a vida pelo Benfica". Outra vez.

P.S. - Publicado no dia 24 de Janeiro de 2026. E vão treze.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A mãozinha encarnada

Hoje é Dia da Mão Vermelha. E muita gente considera que a efeméride comemora a "mão de Vata" com que o Benfica derrotou o Marselha (1-0), apurando-se para a final da Taça dos Campeões Europeus de 1990. Mas não. O Dia da Mão Vermelha, exigência mundial a todos os líderes políticos e militares para deixarem de recrutar crianças para a guerra, é assinalado a 12 de Fevereiro, foi o que eu disse, enquanto o golo de Vata com a mão, que valeu, festeja-se a 18 de Abril. Uma coisa, porém, é certa: naquele tempo não havia VAR, mas havia respeito.

P.S. - Hoje é Dia da Mão Vermelha.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Espírito construtivo (à Benfica)

O "encontro" de hoje, no Seixal, entre "um grupo de adeptos" descontentes e os responsáveis e capitães da principal equipa de futebol do Benfica "decorreu num ambiente de enorme respeito, cordialidade e espírito construtivo, terminando com a garantia de reforço do compromisso de união", afirma o clube. Aliás, estas reuniões vão passar a realizar-se pelo menos uma vez por semana.

sábado, 25 de outubro de 2025

Os 160 mil benfiquistas

Que seis milhões de portugueses são benfiquistas, isso toda a gente sabe. Fomos assim ensinados desde os bancos da escola de cartilha fascista e, hoje em dia, temos aí as televisões democráticas, de manhã à noite, a baterem no ceguinho, para que não nos esqueçamos de quem realmente manda. Desses inquestionáveis seis milhões de benfiquistas, 400 mil são mesmo benfiquistas, isto é, sócios. Desses exactamente mais de 400 mil benfiquistas, mesmo benfiquistas, 160 mil são mesmo mesmo benfiquistas, isto é, pagam quotas. Destes 160 mil benfiquistas com os papéis em ordem, 7.572 de carne e osso votaram hoje "nas primeiras duas horas", de acordo com a SIC Notícias, e mais de 21 mil "votaram até ao meio-dia", segundo a TVI, provavelmente à boca das urnas, logo à noite então é que vai ser. Há recorde na costa! Um sucesso para o País e, verdade seja dita, isto é melhor do que ver autocarrões de clubes de futebol a irem de um lado para o outro na auto-estrada com os alegados jornalista atrás, a fazerem o relato da viagem, geralmente em nome dos seis milhões de portugueses que são benfiquistas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Mourinho e André Ventura

Com a vinda de José Mourinho para o Benfica, ao menos já temos quem divida com André Ventura o protagonismo e tempo de antena nas televisões.

sábado, 19 de julho de 2025

O trunfo Sérgio Conceição

Foto Hernâni Von Doellinger

Sérgio Conceição era o trunfo de Pinto da Costa para as eleições no FC Porto e foi noticiado como trunfo de Luís Filipe Vieira para as eleições no Benfica. Cotrim de Figueiredo, antigo presidente da Iniciativa Liberal, está a ponderar candidatar-se à Presidência da República. Será que já tem acordo com Sérgio Conceição?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

A sorte do Benfica foi a baleia

Jonas era profeta com escritório em Israel e Deus mandou-o a Nínive passar umas gáspeas aos assírios, que eram maus como as cobras e de uma crueldade bíblica para com inimigos e povos vencidos em geral. Jonas acagaçou-se com os perigos da demanda e tentou desobedecer a Deus, fugindo, disfarçado de Hercule Poirot, numa viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo. Bons tempos! Deus levou a mal tamanha manifestação de cobardia e diletantismo, caiu-lhe em cima com uma tempestade de criar bicho e atirou-o borda fora. Jonas foi engolido por uma baleia e por lá se acomodou durante três dias e três noites. Ao fim da terceira noite, isto é, ao quarto dia, depois do pequeno-almoço, a baleia deu à Costa da Caparica e o resto da história é bem conhecido: Jonas assinou pelo Benfica e em cinco épocas e muitas lesões fez 183 jogos e marcou 137 golos. O que convenhamos.

Jonas, o pistoleiro, pendurou as botas aos 35 anos e com as costas num frangalho. Tipo raro este Jonas, que também me incomodou bastante. Estimo-lhe as melhoras.
Por outro lado. Hermann Melville, autor do romance "Moby Dick", nasceu no dia 1 de Agosto de 1819 e morreu no dia 28 de Setembro de 1891, aos 72 anos. Dois interesses muito especiais do meu pai: clássicos da literatura mundial e o Benfica, Deus lhe perdoe.

O apontamento acima foi publicado aqui, no Tarrenego!, em Junho de 2018 - muito à frente! Numa entrevista ao canal de Youtube Cartoloucos, replicada recentemente na nossa imprensa mais ou menos desportiva, Jonas, o jogador de futebol, recorda o fim no Benfica e conta: "A questão da saúde passa-me muito pela cabeça, principalmente a coluna, porque hoje não consigo ficar de pé mais do que 40 minutos, uma hora... Terminar a carreira? Para mim, não foi tão difícil por causa dessas questões de lesão. Houve um ano em que levei 42 injeções de Voltaren. Isso aqui está tudo corroído por dentro". No Brasil, Jonas é actualmente dono de uma farmácia, e só lhe faz bem.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Baleia.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Hugo Viana, o gentleman

Estou extremamente vaidoso com este acontecimento de uma pessoa que me conhece ir para director desportivo do importante clube de futebol Manchester City, de Inglaterra. Note-se, eu não conheço o Sr. Hugo Viana de lado nenhum, senão como figura pública, mas ele diz que me conhece. Ou pelo menos disse que me conhecia lá pelos primeiros anos deste século, estando ele como jovem jogador do Sporting e eu como velho jornalista do jornal 24horas, no Porto. O rapaz tinha uma questão familiar qualquer, que eu não quero trazer agora aqui ao caso, e o meu jornal mandou-me explorar a coisa. Do meu ponto de vista, o assunto era irrelevante e sobretudo particular, íntimo, tipo ninguém tem nada com isso, mas as minhas chefias, de Lisboa, invocaram o sagrado "interesse público e jornalístico" para me encostar à parede.
Fiz alguns contactos exploratórios, falei com duas ou três pessoas mais ou menos envolvidas ou sabedoras, e de repente recebi uma chamada do próprio Hugo Viana, que tinha e tem idade para ser meu filho, e atirou-se assim: - Ouve lá, estás avisado! Eu conheço-te, pá, sei onde trabalhas e os teus horários, sei onde moras e onde comes. Se escreves alguma coisa sobre mim, estás lixado comigo, faço-te a folha, pá!...
Eu, se querem saber, ri-me. Aquilo era tão infantil, tão coisa de miúdo, que não só não levei a sério como nem sequer levei a mal. A verdade é que, naquela altura, nem eu sabia os meus horários e amiúde não acertava com a porta de casa. Trabalhava pelo menos treze ou catorze horas por dia, sem hora de entrar ou de sair, muitas vezes na rua, e comer era só depois do serviço arrumado e onde calhasse...
Em todo o caso, não cheguei a escrever o artigo, que, repito, realmente não interessava nem ao Menino Jesus, era essa definitivamente a minha opinião, e ainda é. Mas não foi por causa do telefonema pândego e das ameaças de Hugo Viana que a "notícia" não saiu. Não. Acontece que, por aquela maré, as camisolas do Sporting (e do Benfica e do FC Porto) eram patrocinadas pela PT - Portugal Telecom, que por acaso era também a dona do grupo de comunicação que detinha, entre outros títulos, o jornal 24horas. Quer-se dizer: era como se eu e o Hugo Viana, deixem-me exagerar um bocadinho, tivéssemos o mesmo patrão. O Sporting mexeu-se. O imbróglio foi tratado ao nível das mais altas esferas, disseram-me, e os meus ilustres chefes, sempre sábios e cheios de razão, mandaram imediatamente às malvas o inefável "interesse público e jornalístico" e recebi ordens expressas para abortar um trabalho que, em bom rigor, nem sequer tinha começado. O jornalismo, quer queiram quer não, meus amigos, era e ainda é, se o houvesse, uma coisa muito bonita.

Resumindo e concluindo: se precisarem de alguma coisa do Sr. Hugo Viana, agora que ele é gentleman por geografia e está no topo do mundo, digam, que eu trato disso. Ele conhece-me.

P.S. - Publicado no dia 14 de Outubro de 2024.

sábado, 28 de dezembro de 2024

O dia de amanhã

Cheguei há bocado a casa e dei uma vista de olhos à televisão. Fiquei satisfeito com o que vi, as nossas televisões de olhos postos no futuro. As televisões estão realmente preocupadas com o dia de amanhã. Com o Sporting-Benfica. Até parece que o FC Porto não joga hoje com o Boavista.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

O Monstro Sagrado

Foto Wikipédia

Hoje é Dia Mundial da Coluna. Se fosse Dia Mundial do Coluna, também era merecido.

Mário Coluna (1935-2014) jogou no Benfica entre 1954 e 1970 e venceu duas Taças dos Clubes Campeões Europeus, actual Liga dos Campeões ou "Champions", em 1961 e 1962. Ganhou dez campeonatos nacionais e sete Taças de Portugal. Jogou 57 vezes pela Selecção Nacional e foi capitão de equipa no Campeonato do Mundo de 1966, em Inglaterra, onde Portugal alcançou o 3.º lugar.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

A história de João Feliz

Foto Wikipédia

Era um vez e depois foi várias. O jovem jogador de futebol João Félix era do FC Porto e deixou o FC Porto porque no FC Porto perdera "a alegria de jogar". João era infélix. Por isso foi para o Benfica, onde voltou a ganhar a alegria de jogar. E então, sim, João era félix. Por isso deixou o Benfica. Foi para o Atlético de Madrid, que lhe acenou com seis milhões de euros por ano. Mas passaram sete anos e quarenta e dois milhões, empréstimos macambúzios ao Chelsea e ao Barcelona, e João está outra vez e como sempre infélix e, quando for grande, quer deixar definitivamente os colchoeiros, como muito bem lhes chamam os nossos compatriotas galegos. Quer-se dizer: João quer ser outra vez félix, se possível ainda mais félix, tão félix como certamente nunca foi. E o comissionista Jorge Mendes também.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Outros tempos, outra limpeza...

Foto Hernâni Von Doellinger

Os matraquilhos foram inventados pelo galego Alexandre Campos Ramires ou Alexandre de Fisterra, que também era editor e escritor. O nome mais bonito dos matraquilhos é, digo eu, pseberico. Assim se falava pelo menos em Fafe.
Por outro lado, hoje é dia de ir outra vez ao psiquiatra, à terapiazinha...

domingo, 28 de maio de 2023

Ferreira Fernandes, a respeito do Benfica

O Benfica é campeão e é muito bem feito! A mim até me dá jeito, que não gramo o Benfica nem à lei da bala e aliás sou portista. Que sejam, pois, campeões e lampiões, a ver se aprendem! Por outro lado e para quem não sabe, e serão, há quem diga, mais de sete milhões de benfiquistas ignorantes, o nosso falecido Estádio das Antas foi inaugurado no dia 28 de Maio de 1952, uma data por acaso um bocado fascista, e faz hoje anos, mas isso não interessa, e portanto eu até tinha aqui assunto de desconversa para fazer render até ao quinto caralho, desviando as atenções do principal, mas não vou por aí. Por uma boa razão. Uma excelentíssima razão chamada Ferreira Fernandes. Eu não sei dele, do Ferreira Fernandes, e tenho muitas saudades.

Ferreira Fernandes faz-me falta. Por causa dele, escrevi aqui, armado em carapau de corrida, no dia 1 de Maio de 2012, sob o título "Também acontece aos melhores" e com a reprodução de uma caixa de Kompensam-S, medicamento indicado para o alívio dos sintomas de azia, enfartamento e acumulação de gases:

Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe se calhar os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre.

Ferreira Fernandes faz-me falta. No dia 15 de Setembro de 2015 tornei a ele, aqui, por razão de força maior. E escrevi - "Entre piçada e pissada, que escolha quem puder":

A palavra apareceu-me à esquina pela pena do cronista Ferreira Fernandes, que eu tando respeito e admiro, embora lastime que ele tenha amouchado perante o, por assim dizer, novo acordo ortográfico. A palavra é "pissada". Andei à procura dela e não a vi em sítio de respeito, em local de idoneidade gramatical que me obrigasse a pensar: sim, "pissada" é mesmo assim. Mas, pronto, que seja "pissada", porque, na verdade, encontrei duas ou três "pissas" em dicionários alternativos. Eu, pela parte que me toca, continuarei a piçar com toda a potência, sem medo de que me achem malcriado ou tarado da cedilha. Piçarei, aliás, até que a vós vos doa. Dar uma piçada, levar uma piçada, deixemo-nos de hipocrisias, bem sabemos de onde é que a coisa vem. De resto, confundir "pissada" com piçada pode, consoante as circunstâncias, ser até caso de extrema gravidez.

Ferreira Fernandes faz-me falta. Fui sempre atrás dele, só não lhe pedi a camisola, mas apenas por vergonha. De resto, sujeitei-me a tudo, a quase tudo. Os jornais deixaram de ser jornais, e eu, que remédio, contentei-me com as migalhas, "Aprendi a adivinhar Ferreira Fernandes":

Os chamados jornais digitais, agora, para serem lidos, tem de se meter a moeda. Não sei achar a esse respeito. Os artigos considerados mais importantes vêm com etiqueta de "premium" e só saem à casa, se saírem, mas estão acima das minhas actuais possibilidades, e portanto não jogo. A verdade é que só me faz falta o Ferreira Fernandes, lamentavelmente pago à linha, embora director do Diário de Notícias.
O Ferreira Fernandes é o meu cronista preferido, já disse. E gosto tanto de o ler que creio que já lhe apanhei o lado para onde descai o bilhar. E então o que é que eu faço? Pego no engodo, aquele paragrafozinho inicial dado à babuge, leio-o uma, duas ou três vezes, que continua a ser de graça, e suponho o resto do texto, porque o Ferreira Fernandes, noves fora os truques comerciais, é o Ferreira Fernandes que eu sei.

E era mais ou menos isto que eu tinha para dizer. O Benfica é campeão, e estimo-lhe as melhoras. Os carros andam lá fora a apitar e suspeito que as televisões também. Chove copiosamente, o que não deixa de ter piada, mas suponho que é do tempo, e eu lembrei-me do jornalista Ferreira Fernandes. O Ferreira Fernandes faz-me muita falta.

sábado, 28 de janeiro de 2023

O altar é uma pechincha

O Sporting só vende Porro por 45 milhões de euros, isto é, por nove altares do Papa. A pronto. E o Benfica só deixa sair Enzo por 120 milhões de euros, isto é, por 24 altares do Papa. A pronto. E ainda dizem que o altar do Papa é caro...

domingo, 6 de novembro de 2022

Rafa, tira, deixa, põe

Há cada vez mais portugueses pobres ou no limiar da pobreza e da exclusão social. São quase metade da população. Os mais ricos estão mais ricos e os mais pobres estão mais pobres. O número de pessoas em situação de sem-abrigo também aumentou: são agora quase dez mil, só os de papel passado, mandará o bom senso de quem anda todos os dias na rua que lhes acrescentemos pelo menos outros tantos. A fome é o pão nosso de cada dia. O desemprego é um modo de vida. Sobreviver está pela hora da morte. Não há dinheiro para a electricidade, não há dinheiro para o gás, não há dinheiro para a água, não há dinheiro para a farmácia, não há dinheiro para a lata de atum. Nos transportes públicos são cada vez mais os passageiros que, apanhados pela fiscalização, exibem imediatamente e por iniciativa própria o cartão de cidadão em vez do título de viagem que não têm, para serem competente e inutilmente identificados e multados, e querem lá saber. Os governantes atolam-se em patranhas e trafulhices, e querem lá saber. As oposições organizam torneios internos de tiro aos pés, e querem lá saber. O Presidente da República fala geralmente sem saber do que fala, e quer lá saber. Os portugueses só têm quem os foda, e querem lá saber. O que os portugueses querem saber é: e o Rafa, como é que vai ser? 

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Luís Filipe Vieira, arrepiante!

"Luís Filipe Vieira corta o bigode", proclama o Correio da Manhã, com fotografia e tudo. "Ex-presidente do Benfica muda radicalmente de visual", acrescenta o atentíssimo periódico, revelando todos os secretos pormenores da incrível aventura. Isto é: o homem foi ao barbeiro, rapou o bigode e é agora completamente outro. Arrepiante!

domingo, 2 de janeiro de 2022

Zita Seabra e as correntes de ar no PCP

Foi um tremendo escândalo, a que só eu liguei. Lembram-se, em 2012, quando Zita Seabra denunciou na televisão as técnicas de espionagem usadas pelo Partido Comunista Português? Do piorio! A espionagem do PCP através dos aparelhos de ar condicionado durante a década de oitenta do século passado era um prática bem conhecido por todos os ex-comunistas e sobretudo pelos ex-comunistas que foram expulsos do partido e arranjaram bom emprego no PSD. Mas moita-carrasco! Aliás, demonstrando grandeza intelectual e enorme sentido de responsabilidade, Zita Seabra esperou mais de vinte anos para pôr a boca no trombone com Mário Crespo, na SIC. O que só lhe fica bem.
Lembram-se? O PCP negou imediata e relutantemente o óbvio, como lhe está na natureza, mas já não engana ninguém. É um facto: depois de comidas as criancinhas, os comunistas portugueses meteram mesmo anões nos aparelhos de ar condicionado "em tudo o que era ministério, em sítios nevrálgicos e em órgãos de poder". Anões especialistas, ouvidores, descriptadores e onzeneiros, que porém saíam do serviço às 19h45, por imposição sindical. O PCP ainda hoje não sabe o que é que o Governo tramava ao serão.
Percebem agora de onde vêm as expressões tão nossas e tão dos nossos medos de que "o ar condicionado tem ouvidos" e "cuidado com as correntes de ar"?
Dir-me-ão as boas almas, os simples: mas ainda bem que o PCP pelo menos arranjou emprego a essa minoria da população portuguesa, uma vez que ainda não havia Bloco de Esquerda. Ora aí é que a porca torce o rabo: porque estes anões não eram anões desde o princípio. Eram todos matulões com mais de um metro e noventa que foram mingar durante quatro anos (o curso completo) num campo de treino da antiga União Soviética. Saíram de lá anões como manda a sapatilha, regressaram a Portugal e foram introduzidos nos aparelhos da FNAC, que antigamente queria dizer outra coisa e patrocinou as camisolas do Sporting e do Benfica. Assim corria. Até um deles, anões, por causa de um peido - um peidinho anão -, ter sido descoberto pela senhora da limpeza do Governo, que foi logo meter no cu da editora Zita.
E lá se acabou o que era bom para os anões: o fresquinho no Verão e o quentinho no Inverno. Hoje trabalham nas máquinas multibanco. Sem ar condicionado.

P.S. - Publicado originalmente, mais ou menos assim, no dia 11 de Agosto de 2012, sob o título "Zita Seabra e os 777 anões". FNAC era a Fábrica Nacional de Ar Condicionado, do exótico empresário Alexandre Alves, que chegou a ser candidato a presidente do Benfica e, também por ser comunista, mereceu o cognome de Barão Vermelho. No dia 2 de Janeiro de 1906, nos EUA, foi atribuída a patente ao primeiro "sistema de tratamento de ar", pai do ar condicionado.