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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O novo velho FC Porto

O FC Porto, o meu FC Porto, afinal voltou aos últimos tempos de Pinto da Costa e Francisco J. Marques: joga poucochinho mas produz bastantes comunicados. Recebe mal, porta-se mal, e atira a tudo, mexa ou não mexa, cheio de ódios, ressentimento e provocação, manhosice e pequenez. A culpa é sempre dos outros, da cabala. Isto é: o FC Porto, o meu FC Porto, creio que contra a vontade da imensa maioria de portistas "moderados" que escolheu André Villas-Boas, continua a ser mandado pela lógica terrorista das claques. E eu já disse: "Mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, as claques vão conseguir acabar com o futebol. Para mim, já acabaram. Há anos."

P.S. - Eu sei que os outros também são assim. Mas Villas-Boas tinha prometido que ia ser melhor.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Espírito construtivo (à Benfica)

O "encontro" de hoje, no Seixal, entre "um grupo de adeptos" descontentes e os responsáveis e capitães da principal equipa de futebol do Benfica "decorreu num ambiente de enorme respeito, cordialidade e espírito construtivo, terminando com a garantia de reforço do compromisso de união", afirma o clube. Aliás, estas reuniões vão passar a realizar-se pelo menos uma vez por semana.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A Esquiça e a efeméride

Efeméride. Quer dizer: acontecimento ou facto importante que ocorreu em determinada data. Ou por outra: celebração de um acontecimento ou de uma data importante. A agência de notícias Lusa, a maior em língua portuguesa, disponibiliza diariamente no seu serviço uma lista dos "principais acontecimentos registados", desde sempre, no dia em questão, em Portugal e no mundo inteiro. Acontecimentos tipo a descoberta da pólvora, a invenção da roda, o início da I Guerra Mundial, a chegada do homem à Lua, o 25 de Abril ou a queda do Muro de Berlim. Os jornais replicam mais ou menos esta lista, consoante o espaço disponível e a respectiva "orientação editorial", há quem lhe chama assim.
Ora bem. Andava eu, ontem, à procura das "Efemérides Lusa" para hoje, 2 de Abril, quando, por engano na busca, coisas da idade, dou de caras, no jornal Sol, com as "Efemérides de 2 de Março" de 2021. E para esse dia, no ano de 2017, o Sol aponta, resplandecente: "A taberna do pai de Jorge Ferreira, árbitro que tinha apitado o Estoril-Benfica, foi vandalizada há 4 anos, durante a noite."
Caramba! Fafe nas "Efemérides"! Eu não fazia ideia da importância para a Humanidade da ocorrência em questão, mas talvez mereça. Merece certamente. Não, de caras, no que diz respeito à façanha pífia da claque antiportista Super Dragões, mas, por outro lado, quanto à Esquiça instituição, a taberna do pai do filho, ela, sim, um acontecimento digno de registo, sobretudo derivado às tripinhas e à vitela, que já lá não vou há que tempos, caseiras, honestas e acessíveis, merecedoras realmente de figurarem nos anais da História. E, até à próxima, daqui vai um abraço para o Armindo!

P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Fafismos.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

O fim do futebol

Mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, as claques vão conseguir acabar com o futebol. Para mim, já acabaram. Há anos.

sábado, 21 de dezembro de 2024

Super Dragões, uma claque de desapoio

Ligo pouco ao futebol, actualmente. Por isso suponho, e não mais do que isso, que o FC Porto seja o único clube do mundo que tem e mantém uma claque de desapoio. Os Super Dragões, conhecida claque anti-FC Porto, claque evidentemente antiportista. Agora expliquem-me, por favor: o FC Porto paga e oferece facilidades aos Super Dragões para ser desapoiado? Porquê?

sábado, 14 de dezembro de 2024

Macaco

Macaco, o termo assim dito, abrange todos os primatas, sem cauda, com cauda curta ou longa, pertencentes às famílias dos cebídeos, hapalídeos, cercopitecídeos, hapalídeos, cercopitecídeos e antropomorfos. São animais que habitam geralmente as regiões quentes do Globo. Nas regiões frias, o macaco é carranho, quer-se dizer, monco seco e solidificado, ou aparelho mecânico para levantar coisas muito pesadas, como por exemplo automóveis. É também um gajo astuto ou feio. Ou um imitador. No seu estado superior de desenvolvimento, o macaco pode ser mandante de bando de arruaceiros, isto é, Macaco Líder.

P.S. - Publicado exactamente há um ano. Hoje é Dia Mundial do Macaco.

domingo, 12 de maio de 2024

A problemática da bilhética

Dizem-me que as claques têm um lado bom. Eu nunca o vi.
Dizem-me que as claques fazem falta ao futebol. Que tolos! O futebol é que faz falta às claques, mas não por causa do futebol. São outros negócios...
Dizem-me que as sades têm um lado bom. Eu nunca o vi.
Dizem-me que as sades fazem falta, são essenciais ao futebol. Que tolos! O futebol é que é essencial às sades, aos senhores das sades, mas não por causa do futebol. São outros negócios...
Lembro-me. Ia-se à bola. O futebol era onze contra onze e uma bola que é redonda, luta brava, em campo. Agora. O futebol é um negócio, dizem-me. Indústria. De moagem e charcutaria. Sades e claques, organizações amiúde criminosas, são farinha do mesmo saco, chafurdam no mesmo charco, cagam na mesma latrina, comem da mesma gamela. Andam ao mesmo. Os marqueses das sades e os cabecilhas das claques não sobrevivem uns sem os outros, entredependem-se, entrecobrem-se, entredefendem-se, entrepenetram-se até aos mais respectivos e obscuros entrefolhos. São indivíduos de pouco respeito e vastos recursos, frequentadores habituais e diletantes de esquadras, tribunais e cadeias. Mestres do crime e aprendizes de feiticeiro, padrinhos e afilhados, candongueiros, vigaristas encartados e trafulhas simpatizantes, vidas de nababos com atestado de pobreza passado pela junta, navalhistas, gorilas, mandantes, mercenários, milicianos, matadores e enterradores do futebol. Castigadores e gozadores de quem gosta. É este o negócio. A indústria.

Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava sobremaneira a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, e eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no claustrofóbico campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as sades e as claques "organizadas", como se diz para o crime, para a Máfia, para os ganguesteres, para os bandidos, para as associações de malfeitores - e eu vim-me embora!

Às vezes tenho saudades. Tenho saudades do tempo do futebol ingénuo, em estado quase puro, sem sades, sem ceos e sem administradores e consultores e assessores pornograficamente remunerados e premiados no final do ano ainda que não ganhem nada em campo, ainda que destruam a equipa de futebol e ainda que levem o clube à bancarrota. Do tempo em que os clubes de futebol eram clubes de futebol, associações, colectividades, agremiações. Do tempo em que os presidentes e os directores dos clubes de futebol punham dinheiro do próprio bolso e ainda biscatavam graciosamente ou, como o Fernando da Sede ou o Chester, carregavam botijas de gás às costas até aos balneários para que nada faltasse aos seus "meninos". Do tempo em que dirigentes pagavam bifes a jogadores à rasca da vida. Do tempo dos espectadores, da massa associativa, dos adeptos, dos apaniguados, dos grupos excursionistas, das comissões de auxílio, dos grupos de apoio espontâneos, com bombos e até gigantones e cabeçudos, que não eram poucos. Era o futebol, e o futebol era uma festa! Por outro lado, a partir das claques, que são um verdadeiro negócio dentro do outro tal negócio, ser-se mero espectador transformou-se em actividade de risco elevado. Vai-se à bola como quem vai à guerra. E eu tenho medo. Agora o futebol está de pernas para o ar, chama-se "o jogo" e tem transições e momentos e adn e claques profissionais pagas a peso de ouro (ou ao peso do que o receptador aceitar), sades com contas mal contadas, accionistas de encomenda, histórias de polícia, claques armadas, drogadas e perigosas, talvez assassinas, ninguém é de ninguém, os frequentadores de estádios, pagantes e deslavados, viram as costas ao campo e tiram-se selfies, e eu não percebo nada disto. Confesso: às vezes tenho saudades - mas não torno!

P.S. - Hoje há mais buscas e arguidos no Dragão e, com a derrota de Pinto da Costa, a procissão decerto ainda vai no adro. Escrevo e republico no Tarrenego! sobre a perniciosidade das claques no futebol desde o dia 1 de Setembro de 2012. E nunca é demais!

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

O Correio da Manhã aquece

O Correio da Manhã escreve, em título: 'Buraco' de 191 milhões aquece Assembleia-Geral do FC Porto. É falso! Prematuro e falso. O Correio da Manhã é que aquece a assembleia geral do FC Porto.

sábado, 18 de novembro de 2023

A próxima assembleia é que é ordinária!

O Dr. Lourenço Pinto, que está vivo, marcou para o próximo dia 29 uma assembleia geral ordinária do FC Porto. Ordinária. Lembram-se da merda que foi o simulacro de assembleia geral extraordinária da passada segunda-feira? E, mais, era para ser extraordinária, isto é, admirável, maravilhosa, fabulosa, grandiosa, sensacional, excelente, esplêndida, brilhante, insigne, magnífica, notável, óptima, elevada, como a própria palavra indica. Agora imaginem a merda que vai ser a próxima, convocada, logo à partida, como ordinária...

terça-feira, 14 de novembro de 2023

E não morreu ninguém...

Acabou por correr bem o simulacro de assembleia geral do FC Porto, esta madrugada. Afinal, que se saiba para já, parece que não há mortes a registar. Talvez para a próxima.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

As claques, essa perigosa desnecessidade

Dizem-me que as claques têm um lado bom. Eu nunca o vi.
Dizem-me que as claques fazem falta ao futebol. Que tolos! O futebol é que faz falta às claques, mas não por causa do futebol.

Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, e eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no claustrofóbico campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as claques "organizadas", como se diz para o crime, para a Máfia, para os ganguesteres, e eu vim-me embora.

Às vezes tenho saudades. Tenho saudades do tempo do futebol ingénuo, em estado quase puro, sem sad, sem ceo e sem administradores e consultores e assessores pornograficamente remunerados e premiados no final do ano ainda que não ganhem nada em campo, ainda que destruam a equipa de futebol e ainda que levem o clube à bancarrota. Do tempo em que os presidentes e os directores punham dinheiro do próprio bolso e ainda biscatavam graciosamente ou, como o Fernando da Sede, carregavam botijas de gás às costas até aos balneários para que nada faltasse aos seus "meninos". Do tempo em que dirigentes pagavam bifes a jogadores à rasca da vida. Do tempo dos espectadores, da massa associativa, dos adeptos, dos apaniguados, dos grupos excursionistas, das comissões de auxílio, dos grupos de apoio espontâneos, com bombos e até gigantones e cabeçudos, que não eram poucos. Era o futebol, e o futebol era uma festa! Por outro lado, a partir das claques, que são um negócio dentro do outro negócio, ser mero espectador transformou-se em actividade de risco elevado. Agora o futebol está de pernas para o ar, chama-se "o jogo" e tem transições e momentos e adn e claques profissionais pagas a peso de ouro (ou ao peso do que o receptador aceitar), claques armadas, drogadas e perigosas, talvez assassinas, ninguém é de ninguém, o Benfica ganha há cinco anos e eu sinto-me perdido. Às vezes tenho saudades - mas não torno!

P.S. - Escrevo no Tarrenego! sobre a perniciosidade das claques no futebol desde o dia 1 de Setembro de 2012.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

As claques, essa perigosa desnecessidade

Dizem-me que as claques têm um lado bom. Eu nunca o vi.
Dizem-me que as claques fazem falta ao futebol. Que tolos! O futebol é que faz falta às claques, mas não por causa do futebol.

Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, e eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no claustrofóbico campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as claques "organizadas", como se diz para o crime, para a Máfia, para os ganguesteres, e eu vim-me embora.

Às vezes tenho saudades. Tenho saudades do tempo do futebol ingénuo, em estado quase puro, sem sad, sem ceo e sem administradores e consultores e assessores pornograficamente remunerados e premiados no final do ano ainda que não ganhem nada em campo, ainda que destruam a equipa de futebol e ainda que levem o clube à bancarrota. Do tempo em que os presidentes e os directores punham dinheiro do próprio bolso e ainda biscatavam graciosamente ou, como o Fernando da Sede, carregavam botijas de gás às costas até aos balneários para que nada faltasse aos seus "meninos". Do tempo em que dirigentes pagavam bifes a jogadores à rasca da vida. Do tempo dos espectadores, da massa associativa, dos adeptos, dos apaniguados, dos grupos excursionistas, das comissões de auxílio, dos grupos de apoio espontâneos, com bombos e até gigantones e cabeçudos, que não eram poucos. Era o futebol, e o futebol era uma festa! Por outro lado, a partir das claques, que são um negócio dentro do outro negócio, ser mero espectador transformou-se em actividade de risco elevado. Agora o futebol está de pernas para o ar, chama-se "o jogo" e tem transições e momentos e adn e claques profissionais pagas a peso de ouro (ou ao peso do que o receptador aceitar), claques armadas, drogadas e perigosas, talvez assassinas, ninguém é de ninguém, o Benfica ganha há cinco anos e eu sinto-me perdido. Às vezes tenho saudades - mas não torno!

P.S. - Escrevo no Tarrenego! sobre a perniciosidade das claques no futebol desde o dia 1 de Setembro de 2012.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

As claques mataram-me a bola

Dizem-me que as claques têm um lado bom. Eu nunca o vi.
Dizem-me que as claques fazem falta ao futebol. Que tolos! O futebol é que faz falta às claques, mas não por causa do futebol.

Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, e eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no claustrofóbico campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as claques "organizadas", como se diz para o crime, e eu vim-me embora.

Às vezes tenho saudades. Tenho saudades do tempo do futebol ingénuo, em estado quase puro, sem sad, sem ceo e sem administradores e consultores e assessores pornograficamente remunerados e premiados no final do ano ainda que não ganhem nada em campo, ainda que destruam a equipa de futebol e ainda que levem o clube à bancarrota. Do tempo em que os presidentes e os directores punham dinheiro do próprio bolso nos clubes e ainda biscatavam graciosamente ou, como o Fernando da Sede, carregavam botijas de gás às costas até aos balneários para que nada faltasse aos seus "meninos". Do tempo em que dirigentes pagavam bifes a jogadores à rasca da vida. Do tempo dos espectadores, da massa associativa, dos adeptos, dos apaniguados, dos grupos excursionistas, das comissões de auxílio, dos grupos de apoio espontâneos, com bombos e até gigantones e cabeçudos, que não eram poucos. Era o futebol, e o futebol era uma festa! Por outro lado, a partir das claques, que são um negócio dentro do outro negócio, ser espectador transformou-se em actividade de risco elevado. Agora o futebol está de pernas para o ar, chama-se "o jogo" e tem transições e momentos e adn e claques profissionais pagas a peso de ouro (ou ao peso do que o receptador aceitar), claques armadas, drogadas e perigosas, talvez assassinas, ninguém é de ninguém, o Benfica ganha há cinco anos e eu sinto-me perdido. Às vezes tenho saudades - mas não torno!

P.S. - Escrevo no Tarrenego! sobre a perniciosidade das claques no futebol desde o dia 1 de Setembro de 2012.

sábado, 17 de maio de 2014

Ò tempo que eu não via um guarda-redes de boné


Ei, ò tempo que eu não via um guarda-redes de boné!, disse eu quando olhei, admito que com algum fastio, para o Holanda-Equador que estava pendurado na televisão. Mas imediatamente aqueloutrei: pois, se os jogos agora são à noite, para que é que o guarda-redes precisa do boné se não for também treinador do Paços de Ferreira? E assim acrescentei mais uma às duas razões que já tinha para não ir ao futebol.
Deixei de ir à bola porque os clubes agora são sades e porque os adeptos agora são claques. E também - foi a revelação de há pouco - porque os jogos passaram para a hora do cinema. Futebolzinho é à tarde, é à tarde, é à tarde - as televisões que se arresolvam, mas o futebolzinho é à tarde. Ao sol. Outra coisa eram as famosas quartas-feiras europeias, nocturnas por definição, mas até isso aldrabaram: as quartas-feiras europeias agora vão de terça a quinta, e não há fígado que aguente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Vítor Pereira & Jorge Jesus: a arte da ventriloquia

O treinador do FC Porto e o treinador do Benfica "falaram" acerca do jogo de amanhã. Disseram duas ou três coisas a respeito de futebol e no resto limitaram-se a mexer a boca enquanto ouvíamos disparates e alfinetadas de ida e volta. Não eram eles a falar. Era alguém por eles, alguém que não dá a cara e se serve da cara deles para fazer a guerra da estupidez. O ex-jornalismo nem sempre é honesto. E os dois treinadores, maiores de idade e com as fortunas que ganham, bem podiam ter mais juízo e amor-próprio. Mas pronto: se amanhã houver merda, a culpa é da polícia.

sábado, 1 de setembro de 2012

Às vezes, o futebol


Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha bancada e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa! Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, mas eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e empregados. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as claques. E eu vim-me embora.

Às vezes tenho saudades. Tive saudades anteontem ao ver as imagens da Sport TV em Alvalade, momentos antes do início do jogo do Sporting para a Liga Europa. Tocou-me: um avô e dois netos (foi o que me pareceu) agarrados à marmita com o apetite a cem e o sportinguismo a mil. Ali os três que apanhei por acaso, puros, em paz, com espaço, calmamente à espera da capilota prometida, felizes da vida como era eu nos domingos à tarde do Campo da Granja ou nas ceias com a minha mulher lá no degrau mais alto da Superior Norte das Antas. Claro que anteontem em Alvalade era jogo de meia casa e com um adversário de boas-festas. Claro que agora nos estádios só se pode comer plástico. E claro que já não se ouve The Stars and Stripes Forever e o Toni Dantas também não. Mas o resto aqueles três tinham.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O homem para certas e determinadas coisas

Paulo Pereira Cristóvão demitiu-se da vice-presidência do Sporting. Dois meses depois de ter sido constituído arguido no chamado "caso Cardinal", de ter pedido a suspensão do mandato e de, passados dias, ter feito marcha-atrás, agora parece que é. A SIC Notícias está a informar que Pereira Cristóvão vai ser ouvido por um juiz, depois de amanhã, por suspeitas de burla, fraude fiscal, participação económica em negócio e peculato. O ex-dirigente sportinguista, segundo aquela televisão, é suspeito de desviar dinheiro do clube.
Godinho Lopes fez asneira quando "escolheu" este vice-presidente e lhe encomendou o pelouro das infra-estruturas e património do Sporting. Sobretudo das "infra-estruturas". Fortemente ligado às claques, Pereira Cristóvão terá parecido ao presidente o homem certo para tratar de certas e determinadas coisas. O Sporting quis ser como "os outros" e não foi campeão. Os tribunais decidirão o resto.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O Sporting? Não acredito!

Há quem diga que as claques de futebol têm um lado bom. Eu nunca o vi. Mas a verdade é esta: as claques chegaram e eu deixei de ir aos estádios como espectador. O que conheço é o lado mau - imbecil, arruaceiro e perigoso -, que passa a péssimo se for reconhecido e premiado pelos clubes. O Sporting resolveu exaltar o lado mais violento das suas claques, distinguindo-as com um corredor da fama repleto de imagens agressivas e intimidatórias. As imagem, conta o jornal Público, que as viu, foram estrategicamente colocadas, esta época, no acesso aos balneários da equipa visitante, no Estádio de Alvalade.
O caminho que os jogadores visitantes têm de percorrer para se equiparem e depois para irem e virem do relvado tem as paredes forradas com fotografias gigantes de adeptos das claques em poses hostis, desafiando os seguranças. Outros de cara tapada e com tochas na mão. Outro numa pose que sugere uma saudação fascista. Outro ainda com um tatuagem com a cruz de ferro, um símbolo que, não sendo exclusivo do nazismo, está muito associado a movimentos da extrema-direita.
O Sporting! O clube diferente. O clube dos viscondes e outros aristocratas. O clube dos doutores e engenheiros. O clube de um ex-polícia.