Era polícia municipal e media quase dois metros. Chamavam-lhe Alta Autoridade.
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Vicente Risco 8
Chubu fíxoll'unha siñal ô Dr., e chegarons'ond'a momia de Tothankhamon. Alveiros sacou o muiño d'oraciós, expilicou por brevis et breve o seu funcionamento, y-escomenzou a lle dar voltas.
A momia comenzou a remexer. Viaselle na face a forza que faguía ô rebulir antr'as faixas. O fin, as faixas escomenzaron a s'esgazar y-a cair como farrapos desfeitos tod'o longo do corpo. O faraon sacou os brazos, logo as pernas, y-escomenzou a faguer fexios pra se desentomecere... As momias que s'achaban perto dos operadores, tamen s'iban desempanicando...
Ouviuse en tod'o recinto coma se batísen taborelas que faguían un estrondo de cincoentamil tronos: eran os esqueletes qu'aplausaban ô Alveiros. A orquesta comenzou unha xigantesca marcha trunfal, y-os esqueletes arrodeand'ô Dr. erguérono no lombo é deron volta â sala antromedio d'unha ovación delirante.
"D'o Caso que Ll'aconteceu ô Doutor Alveiros", Vicente Risco
(Vicente Risco nasceu no dia 1 de Outubro de 1884. Morreu em 1963.)
A Bíblia, aos bocadinhos
Isaías escreveu um livro para a Bíblia chamado especificamente Livro de Isaías para não ser confundido com o Deuteronómio. A crítica não lhe foi favorável. Diversos especialistas descrêem que a obra tenha um único autor, Isaías ele próprio, vendo-a, antes, como um trabalho a várias mãos e de diferentes épocas, coligido eventualmente no ano 400 a.C, ou até mais tarde. Isaías seria assim uma espécie de escritor dos nossos dias, nome de capa, escritor do que já foi escrito. Por outros.
Amuado com semelhante desmerecimento público, Isaías deixou-se de profecias, abandonou o reino de Judá e veio jogar futebol para Portugal, em 1987. Começou pelo Rio Ave, brilhou no Boavista e foi para o Benfica, onde fez cinco épocas, 178 jogos e 71 golos, ganhou dois campeonatos e uma Taça. Passou pelo Coventry City, de Inglaterra, e tornou cá em 1999, para representar o Campomaiorense. Regressou ao Brasil em 2000 e pendurou as botas em 2003.
Ficaram célebres os seus dizeres numa por acaso flash interview: "Ouvi a palavra do Senhor, príncipes de Sodoma, escutai a lei do nosso Deus, povo de Gomorra."
O livro vendeu razoavelmente. Arquivistas, bibliotecários e documentalistas catalogaram-no com o assertivo nome de Livro de Ezequiel, para que não houvesse enganos futuros. Respeitado tanto pelo cristianismo como pelo judaísmo, e talvez até pelo islamismo, Ezequiel era porém um infeliz feliz, sentia que lhe faltava algo. Por não ser época de Ferrero Rocher, resolveu então mudar de vida: deixou o negócio das visões, inscreveu-se numa escolinha de futebol e fez-se jogador. Vi-o algumas vezes em campo, pelado, mas sobretudo com a camisola do Lusitânia de Lourosa, corria para o fim o século XX depois de Cristo.
A fama chegou-lhe apenas em 1973, quando entrou numa canção do Elton John.
O papa que me escangalhou o presépio
Joseph Ratzinger tinha 85 anos quando, em 2012, resolveu escangalhar o presépio. Tirou a vaca e o burro, porque - dizia o então papa e actual contrapapa - no local do nascimento de Jesus "não havia animais". Portanto também não havia ovelhinhas, o que quer dizer que também não houve pastorinhos do deserto. Sobravam, isso sim, os três reis magos. Gente fina, vinho de outra pipa. Reis. E magos (porque o champanhe ainda não tinha sido inventado). Esses, é certo, estiverem lá, em representação de toda a humanidade - segundo Bento XVI. Estiveram os reis magos e os anjos cantadores.
Eu por acaso até era mais dado a acreditar no burro e na vaca do que na mirabolante história de Gaspar, Melchior e Baltasar, uma boa linha média para quem jogue em 4-3-3, mas que se há-de fazer? Mais de dois mil anos a aquecerem o Menino com os respectivos bafos e é este o pagamento que o burrinho e a vaquinha recebem.
Sempre atento às verdadeiras e mais urgentes necessidades do mundo e da cristandade, Ratzinger, o reaccionário e intriguista, resolveu escangalhar o presépio. Estaria no seu direito. Mas no meu não mexe! Tarrenego!
P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Novembro de 2012. No dia 30
de Setembro de 1452 começou a ser impressa a chamada Bíblia de
Gutenberg, considerada o primeiro livro do mundo. Hoje é Dia da Bíblia
Católica, crê-se que em homenagem a São Jerónimo, doutor da Igreja e
conhecido por ser o primeiro tradutor das Escrituras para o latim
vulgar, popularizando assim o seu conteúdo. Já agora, e só para que
conste: a minha Bíblia é protestante.
E o porquinho pode?...
O pecado original
Corria tudo bem no Paraíso. Quer-se dizer: corria tudo na paz do Senhor. Poder-se-ia até afirmar, creio que sem forçar demasiado a nota, que o Paraíso era, naquele tempo, um autêntico paraíso. Estava escrito, porém, que Adão e Eva tinham de asnear. Podiam ter cometido um pecado qualquer, um pecadinho de nada, um pecado repetido, copiado, um que estivesse na moda. Mas não! - quiseram ser originais. E deu na merda que deu. Até hoje.
O reino dos céus por uma mobília de sala
Andam aos pares, como o Senhor mandou para a arca, aos pares e de Bíblia na mão, e vê-se logo que são boas pessoas. Missionam a bom missionar, de porta em porta, no meio da rua, sujeitam-se a malcriadezas em nome da fé que têm para dar e vender, e dou-lhes valor por isso. Um par interpelou-me um destes dias, ali em baixo, no passeio à beira-mar onde às vezes montam banca:
- Um minutinho, por favor, já pensou no que lhe acontecerá quando morrer? E porque morremos? Não quer saber a verdade acerca da morte?
Eu, que achei a abordagem um bocado desajeitada e tétrica, desnecessariamente radical, resolvi dar-lhes uma ajuda, recentrando o assunto:
- Não é nada da morte que me querem falar, pois não? A morte até poderia ser um bom princípio, em termos de marketing, de aproximação tablóide à clientela, quero dizer, mas vocês querem é falar-me da vossa Igreja, querem converter-me à vossa Igreja, querem anunciar-me Deus, o único verdadeiro, Jeová, é ou não é?
Era.
- Então, em verdade vos digo, assim será feito - disse eu, com voz de sarça ardente ditando leis -, ouço-vos, vocês falam-me da vossa Igreja e de Jeová, mas só se também me derem tempo de antena para eu vos falar de uma mobília de sala de jantar muito jeitosa que tenho para vender.
- Mas para que queremos nós ouvi-lo falar acerca da mobília de sala de jantar, se temos uma praticamente nova, estamos tão bem servidos e não precisamos de mudar? - respondeu o par em coro e percebi logo que, para além de par, formava também casal.
A resposta era mesmo a que me calhava, portanto sentenciei:
- Pois, caríssimos irmãos, eu e Deus é a mesma coisa: já tenho um e estou muito contente com Ele. Vou agora trocar, porquê? E amém.
Eu sei que fui (sou) um bocado parvo. Mas correu bem. Vendi-lhes duas mobílias de sala de jantar.
P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Dezembro de 2015. No dia 30 de Setembro de 1452 começou a ser impressa a chamada Bíblia de Gutenberg, considerada o primeiro livro do mundo. Hoje é Dia da Bíblia Católica, crê-se que em homenagem a São Jerónimo, doutor da Igreja e conhecido por ser o primeiro tradutor das Escrituras para o latim vulgar, popularizando assim o seu conteúdo. Já agora, e só para que conste: a minha Bíblia é protestante.
Quando a Bíblia bate à porta
Bateram à porta e Dona Amélia abriu. Pensava que era o carteiro. Eram duas senhoras muito simpáticas com uma revista nas mãos. A revista chamava-se A Sentinela e as duas senhoras muito simpáticas queriam falar, mas Dona Amélia não as queria ouvir. Que não tinha vagar para revistas nem para jornais, que fizessem o favor de ir andando, que ela tinha mais que fazer. As pessoas com 84 anos e sós são mesmo assim, estão sempre muito ocupadas. As duas senhoras muito simpáticas, e pacientes, insistiam de pé enfiado na porta e revista em riste, falavam do fim do mundo, da Bíblia, de profecias, do Reino de Deus, de Jesus Cristo, de religião, e aqui, alto e pára o baile, Dona Amélia arrebitou as orelhas e perguntou: - Ai vocês são da religião?...
- Somos Testemunhas de Jeová - responderam as duas senhoras muito simpáticas e pacientes.
- Olha, ainda por cima jeovás! Rua, andor daqui para fora! - mandou Dona Amélia, sacando do toco de vassoura, mais rápida que a própria sombra. - Eu não acredito nessas lérias. Eu não acredito na religião católica, que é a verdadeira, e ia agora... Xô, xô, xô, já disse!
P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Abril de 2016. No dia 30 de Setembro de 1452 começou a ser impressa a chamada Bíblia de Gutenberg, considerada o primeiro livro do mundo. Hoje é Dia da Bíblia Católica, crê-se que em homenagem a São Jerónimo, doutor da Igreja e conhecido por ser o primeiro tradutor das Escrituras para o latim vulgar, popularizando assim o seu conteúdo. Já agora, e só para que conste: a minha Bíblia é protestante.
terça-feira, 29 de setembro de 2020
Vai uma voltinha?...
Volta a Portugal em bicicleta
- Volta a Portugal em bicicleta! - recomendaram-lhe de casa. E ele voltou. Estava sem gasolina no carro e sem dinheiro no cartão e na carteira. Em Tui. Foi um tirinho...
A arte do sarapint
Era um extraordinário ciclista e não fazia caso à gramática. Dizia que gostava de correr "isolado, sozinho, sem mais ninguém", porque depois, na meta, "cada cal é cada cal e cada um sarapinta como pode". Venceu uma Volta a Portugal e era do meu FC Porto e das minhas memórias. Carlos Carvalho. Tive o privilégio de conhecê-lo anos mais tarde, eu moço, ele já reformado do pelotão mas não das bicicletas. E então o meu gigante das estradas era aquele homenzinho? Aquilo é que era o colosso de rodas? Era. E fiquei a admirá-lo ainda mais, como quem admira um deus de impossíveis.
Golo de bicicleta
Que extraordinário golo de bicicleta! Um golo estratosférico, sensacional, fabuloso, espectacular, fenomenal, incrível, magnífico, maravilhoso, brutal - consoante os comentadores. Mas não valeu. "Futebol é uma coisa e ciclismo é outra" , explicou o árbitro, sinaleticamente falando, e nem precisou do VAR.
O Grosso da Coluna e o Maciço Central
A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.
Espírito de contradição
Ao contrário de todos os outros ciclistas, ele gostava de correr da frente para trás. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas, lá está, cada um é como cada qual.
O primeiro pódio
Era a primeira vez que subia ao pódio. Chegou-se ao microfone e disse, pigarreando, "Chape, chape, um, dois; um, dois, três; um, dois, três, quatro, experiência". Que pena ser num comício...
Mal comparando
A lampreia é um ciclóstomo. O Amaro Antunes é um ciclístomo.
O Velho Lau e o Lausperene
Que fique assente de uma vez por todas: o Velho Lau e o Lausperene não são uma única e mesma pessoa, como muito boa gente cuida, e, aliás, Lausperene nem sequer é pessoa. O Lausperene, ou Sagrado Lausperene, é a exposição e adoração permanente do Santíssimo Sacramento nas igrejas ou capelas. O Velho Lau é Venceslau Fernandes, ex-ciclista realmente de longeva carreira e pai da triatleta Vanessa Fernandes, Velho porque ganhou a Volta a Portugal de 1984, tinha então 39 anos, e correu até aos 46, derivando talvez daí a compreensível confusão...
As despesas da corrida
Fez todas as despesas da corrida. Quando no fim lhe apresentaram a conta, ia morrendo do coração...
A volta ao quarteirão
Por mais voltas que desse ao quarteirão, eram sempre vinte e cinco, e não saía dali.
O ciclista isolado
Era um ciclista que se isolava com frequência. E também com fita preta Advance desde 1,44 sem IVA.
O fugitivo
Era um atacador nato, o primeiro a arrancar e a assumir a liderança de todas as etapas em que participava, apenas uma por prova. Na meta, 170 km depois, tinha desistido 169 km antes.
Paulo Bomfim 4
Poema das grandes catedrais
As grandes catedrais ressurgirão das águas,
E as aves da floresta conhecerão
A linguagem dos peixes noturnos...
As grandes catedrais ressurgirão das ondas,
Trazendo para o mundo das nuvens
As princesas sem reino coroadas de coral...
As grandes catedrais ressurgirão dos tempos,
E os homens serão crianças,
Contemplando o mar pela primeira vez!
"Poema do Silêncio", Paulo Bomfim
(Paulo Bomfim nasceu no dia 30 de Setembro de 1926. Morreu em 2019.)
De Lotário a Mandrake
Lotário era neto de Carlos Magno e primeiro foi o terceiro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, isto pelos inícios do século nono. Só muitos muitos anos depois, exactamente em 1934, é que se tornou ajudante do mágico Mandrake.
P.S. - Lotário I, o príncipe romano-germânico e não o príncipe e hércules africano, morreu no dia 29 de Setembro de 855.
Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista e visitava-o de quatro em quatro meses. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto. E media a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista e fiquei-me apenas com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados. É a crise, é a vida. Um destes dias morro e vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.
P.S. - Publicado originalmente no passado dia 14 de Agosto. Hoje, 29 de Setembro, é Dia Mundial do Coração.
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
O que é preciso é saber pedir
Luís Miguel Nava 5
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.
"Vulcão", Luís Miguel Nava
(Luís Miguel Nava nasceu no dia 29 de Setembro de 1957. Morreu em 1995.)
Elvira Vigna 3
(Elvira Vigna nasceu no dia 29 de Setembro de 1947. Morreu em 2017.)
Xosé Trapero Pardo 4
"Lóstregos e Moxenas", Xosé Trapero Pardo
Alexandre Cribeiro 5
[Tremendamente triste vouche pedir]
Tremendamente triste vouche pedir
que me deala man, compañeiro,
que eu sinvo pra loitar
i-o meu sangue é do teu.
Por onde fuxe a libertade
estaremos hirmán
pra recolle-lo plomo.
Pero resulta verdadeiramente importante
que tu me deala man,
pois que de duas xuntas i-agarradas
quedan ceibes outras duas,
fortes e seguras
como a fame que a Terra exporta.
Vente compañeiro,
vamos ó regueiro onde ferve o sangue
que xa non debe ser inútil.
Vente, compañeiro, que por máis que maten
o acougo mais valerá.
Vamos pola beira
que inda somos poucos:
o frente xa se encherá.
"Acoitelado na Espera", Alexandre Cribeiro
(Alexandre Cribeiro nasceu no dia 29 de Setembro de 1936. Morreu em 1995.)
Será que o metro está certo?
- A almudes, se faz favor...
Os homens não se medem aos palmos. Medem-se aos furcos.
P.S. - O comprimento do metro-padrão foi definido pela Conferência Geral de Pesos e Medidas no dia 28 de Setembro de 1889.
domingo, 27 de setembro de 2020
António Jacinto 8
Declaração
As aves, como voam livremente
num voar de desafio!
Eu te escrevo, meu amor,
num escrever de libertação.
Tantas, tantas coisas comigo
adentro do coração
que só escrevendo as liberto
destas grades sem limitação.
Que não se frustre o sentimento
de o guardar em segredo
como liones, correm as águas do rio!
corram límpidos amores sem medo.
Ei-lo que to apresento
puro e simples - o amor
que vive e cresce ao momento
em que fecunda cada flor.
O meu escrever-te é
realização de cada instante
germine a semente, e rompa o fruto
da Mãe-Terra fertilizante.
António Jacinto
(António Jacinto nasceu no dia 28 de Setembro de 1924. Morreu em 1991.)
O gesto é tudo (e nós não sabemos)
sábado, 26 de setembro de 2020
O tamanho importa (falemos de barcos e de cus)
Foto Hernâni Von Doellinger |
Moro mesmo em frente ao mar, se for para a varanda e me puser de lado. É o que costumo dizer: na minha rua passa o mar. No meu quintal estacionam navios de passeio mediterranicamente atlânticos, paquetes carregados, descarregados e outra vez carregados de turistas rotundos e supersónicos que conseguem turistar o Norte de Portugal inteiro em menos de oito horas. Há quem chame ao meu quintal, por inveja, Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões. Mas não: é o meu quintal!
Noutro dia estacionou-me ali em baixo o Costa Pacifica, o da fotografia. São mais de 290 metros de navio para 3.780 passageiros. Os paquetes que me batem regularmente à porta têm-me dado que pensar, suscitam-me reflexões de pequena e média profundidade que aqui humildemente partilho com os meus queridos leitores. E daquela vez vieram-me à cabeça os cus. Os cus que os cruzeiros descarregam e recarregam.
Cu de turista não é brincadeira, já repararam? É traseiro de bitola larga e se for cu americano então ocupa o mundo inteiro, incluindo o México e o Brasil, menos a Alemanha e a Rússia. Até parece que para se ser turista - turista encartado - é preciso ter um cu daqueles. E o cu alemão e o próprio cu russo também para lá caminham, não querem ficar atrás. O que diz tudo a respeito dos cus.
Imagino que sejam muito ricos os camones com que me cruzo nas bordas do Porto de Leixões - eles a saírem todos cheios de good morning e eu, de passagem, "desculpem lá a shit de dog na sola da sandália, é good luck, com os cumprimentos de Matosinhos City". Tão turistas e tão prendados de cu, têm de ser muito ricos. Engordam e viajam porque podem. Se calhar são todos reformados da administração do Millennium BCP ou do BES mas não querem que se saiba.
Os turistas. Chegam e parece-me sempre um congresso de cus com sala de espera no Passeio Atlântico, que se vê à rasca para aguentar semelhante pesadelo. Toneladas e toneladas de bagagem extra em traseiros colossais e gingões mesmo à frente do meu nariz e que até naufragam tuque-tuques. Confesso: é um espectáculo que não pára de maravilhar-me. Olho para os cus e olho para o barco, e só me apetece elogiar o génio humano, os avanços da ciência, os milagres da indústria, a arte e o engenho dos modernos fazedores de navios, supremos desafiadores das leis da física. Fascina-me aquilo que não consigo compreender. Para os cus e para o barco, olho. Olho para o barco e penso: como é que aquilo não vai ao fundo com tanto cu descomedido lá enfiado?
P.S. - Publicado originalmente no dia 4 de Novembro de 2012. Hoje, 27 de Setembro, é Dia Mundial do Turismo. Derivado à pandemia, Matosinhos está actualmente sem barcos, sem turistas e portanto sem cus. Sobram os alojamentos locais e os espanhóis, que são outra coisa.
Bernardino Graña 4
O gato da tasca mariñeira
Aquí non hai silencio porque hai homes
falan os homes falan
aquí non pasa o vento esa fantasma
os homes falan falan
e fórmase outro vento outro rebumbio
unha fantasma feita deste fume
este fumar sen tino estas palabras
e pasa un suave gato que é da casa.
Beben viño coñac
berran discuten contan chistes mascan
un pouco de xamón tal vez chourizo
o gato ulisca cheira mira agarda
vai á cociña vense ao mostrador quixera
un anaquiño de boa carne un chisco
de tenrura algún queixo unha migaIla.
Aquí non hai vagadas nin roncallos
non se ven os cabezos nin as praias
o taberneiro bole saúda cobra serve fala
cambea mil pesetas chama á muIler á berros
e contesta ao teléfono ás chamadas
e os homes berran moito cheos de ira
e rin e danse a man e nada pasa.
O gato calandiño ergue as orellas
tan maino tan suavísimo sen gana
cruza por entre as pernas entre as botas
altas botas de caucho contra as augas co seu rabo
arriquichado e duro e tan en calma
e aquí non hai silencio que hai vinte homes
e están ben lonxe os mares que arrebatan.
Se acaso o gato mira os ollos do borne
guicha en suspenso escoita en paz agacha
unha orelliña aguda e indiferente
lambe teimudo e calmo unha das patas
e se acaso durmiña e abre un olIo
e ve que os homes beben fuman discuten moito non se cansan
de ensaladilla callos mexilóns anchoas
e viño e viño e viño tinto e branco en tantas tazas
e esgarran cospen entran saen empuxan brindan cantan
e a radio está acendida e óese música
e o gato pasa indemne comprendendo ten costume son os homes
non se espanta.
"Profecía do Mar", Bernardino Graña
(Bernardino Graña nasceu no dia 27 de Setembro de 1932)
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
Quando chorei por Marcelo
Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes. Eu nem queria acreditar. Os meus olhos viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me em choro. Chorei de raiva. Como se atreviam?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final.
No regresso a Lisboa, Marcelo foi graças a Deus surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem preparada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra a manifestação de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas...
Marcelo dizia, da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!: - Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a. - E depois falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, agora de auto-satisfação patriótica, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se querem que lhes diga (e ainda que não queiram), também eu algo desagravado.
Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu era um palerma.
P.S. - Marcello José das Neves Alves Caetano, jurista, professor universitário, delfim do Estado Novo, sucessor de Salazar e último chefe do Governo antes do 25 de Abril de 1974, foi nomeado presidente do Conselho de Ministros no dia 26 de Setembro de 1968.
Eu só queria ir à farmácia...
17h15. Fui à farmácia e perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim assim e queria ver se me podiam dar qualquer coisa". O meu problema era no olho. Direito. "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "ui, vai ter de ir ao médico", e eu fui. A pé, da Rua Brito Capelo até ao Centro de Saúde de Matosinhos, que é um pedaço acima da Câmara Municipal.
No centro de saúde fui atendido em menos de uma hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, e eu vim". "Ora mostre lá o olho", e eu mostrei, "vai ter de ir imediatamente ao oftalmologista, mas, como no Hospital Pedro Hispano não há urgência da especialidade, pegue lá esta carta e vá ao Hospital de Santo António", e eu fui. A pé até à Avenida Serpa Pinto, apanhei o 500 até ao Castelo do Queijo, esperei uma hora pelo 200 e lá cheguei ao Santo António quando o trânsito me deixou.
Na urgência fui atendido em menos de um quarto de hora. Perguntaram-me "então o que é que o traz por cá" e eu expliquei "aconteceu-me isto assim assim, fui à farmácia, na farmácia mandaram-me ao médico, o médico mandou-me aqui, e eu vim". "Ora mostre lá o olho, encoste aí o queixo e olhe para esta luzinha", e eu mostrei, encostei e olhei. "Tome lá esta receita, são umas gotas para colocar de duas em duas horas, vá já à farmácia", e eu fui. Estava de volta à casa de partida, passava pouco das 21h45.
E tudo isto pelos cinco euros da taxa moderadora que paguei no centro de saúde, mais as viagens e os quase catorze euros das gotas, que afinal nem precisavam de receita médica, e que estou a pensar meter como despesas de representação.
Sei que tenho o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Raramente lhe dou uso, mas frequento-o assiduamente e vivo de olhos abertos. Querem saber o que é o nosso Serviço Nacional de Saúde? Não são taxas e isenções. São as pessoas: os auxiliares, os médicos e os enfermeiros, que todos os dias trabalham no arame e sem rede, que já lhes tiraram há muito, e fazem funcionar uma coisa que na verdade já nem existe, ou, se quisermos ser bondosos, vai morrendo aos bocadinhos. A minha urgência pareceu-me uma desnecessidade, mas as pessoas quiseram fazer bem - são profissionais. E faço figas para que me tratem sempre assim mas palminhas. Em todo o caso, palavra de honra, eu só queria ir à farmácia.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Setembro de 2014. Quer-se dizer: uma homenagem aos profissionais do SNS com quase seis anos de avanço em relação ao novo coronavírus. E continuo sem arrepender-me de ter razão. Hoje, 26 de Setembro, é Dia Nacional do Farmacêutico.
A língua portuguesa...
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. Hoje, 26 de Setembro, é Dia Europeu das Línguas.
Não me dê lume, por favor
Foto Tarrenego! |
Havia algo de definitivo no que ele dizia. Ele dizia: - Já não se fazem cigarros como antigamente...
- Porquê?
- Por uma questão de respeito.
- Mas o teu pai sabe que tu fumas?
- Sempre soube. Há que anos...
- E então?
- É uma questão de respeito.
- E o teu filho sabe que tu fumas?
- Claro que sabe.
- E tu fumas à frente do teu filho?
- Claro que fumo. Desde sempre...
- Porquê?
Tinha sonhos mas comeu-os
Tinha muitos sonhos. Comei-os todos de enfiada e ocorreu-lhe uma caganeira das antigas. É para aprender a não ser lambão...
P.S. - Hoje, 25 de Setembro, é Dia Mundial do Sonho.
Tinha um sonho mas já não tem
Tinha um sonho muito antigo. Levou-o à Feira da Vandoma. Deram-lhe euro e meio por ele.
P.S. - Hoje, 25 de Setembro, é Dia Mundial do Sonho.
Eles não sabem que o sono
Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?...
P.S. - Hoje, 25 de Setembro, é Dia Mundial do Sonho.
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
Num certo sentido
- Num certo sentido, o caro amigo é um bocado parvo!
- Mas em que sentido, concretamente?
- No sentido Lisboa-Porto.
- Ao quilómetro 143?
- Nem mais.
- Também já andava desconfiado...
Daniel Pernas Nieto 6
"Fala das Musas e Outros Poemas", Daniel Pernas Nieto
(Daniel Pernas Nieto nasceu no dia 25 de Setembro de 1884. Morreu em 1946.)
Augusto Casas 5
O sol, abella d'ouro, funga na lonxanía,
a escoar sangue riba das terras fartas;
i unha velliña pastoreando ovellas
faille camiño â noite nas searas.
"O Vento Segrel", Augusto Casas
(Augusto Casas nasceu no dia 25 de Setembro de 1906. Morreu em 1973.)
O Euromilhões em memória do Totobola
É certo que não recebi mensagem nenhuma, não fui contactado do além, mas saiu-me o Euromilhões: dois números e uma estrela, qualquer coisa como sete euros e trinta e nove cêntimos, que valem muitíssimo mais assim por extenso. Com o devido respeito, e se não for abuso, peço aos meus idos um maior empenho na pontaria para a próxima. Entretanto, vou pôr uma esmolinha nas alminhas e continuo à escuta.