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domingo, 26 de abril de 2026

O tempo da fressura e dos verdinhos

Um povo que só dá despesa
São cada vez mais os portugueses que procuram a sobrevivência no fundo de um contentor do lixo. As pessoas precisam de ajuda, pedem. Para a escola, para a farmácia, para o emprego, para a casa, para a boca. Os políticos têm razão: somos um povo que só dá despesa.

As pessoas compram fressura como se fosse para dar de comer aos cães. Mas é para a mesa das pessoas. Pessoas de pele e osso. São os novos velhos tempos. As pessoas andam com fome e, no anonimato das grandes superfícies, pedem a fressura. E na peixaria compram verdinhos, "para os gatos", mas é para a mesa das pessoas, não há dinheiro para marmotas. Nas lojas de congelados, as cabeças de pescada foram cortadas ao meio e as caras de bacalhau saem como pãezinhos quentes. As pessoas, que andam com fome e nunca na vida cozinharam (e não sabem cozinhar), agora olham para umas postas esquisitas, de peixes nunca vistos, perguntam "que peixe é este?, é bom para quê?", os funcionários dos frigoríficos fazem o papel que lhes compete, para isso é que são pagos se também querem comer, inventam no momento um nome qualquer para o peixe em apreço e dizem que "é bom para o forno, para fritar, para a brasa, para estufar, para caldeirada, é bom, muito bom", e o peixe é realmente uma merda mas as pessoas querem acreditar que é bom, muito bom, porque é multifunções e muito mais barato do que peixe a sério e estão com fome. E levam. E são levadas. E está bem: o polvo e as lulas agora são potas. Filhos da puta que nos puseram assim. Nos talhos, o fígado para iscas e os ossos da suã são hits nacionais. Os pescoços de frango também e as patas e as asas é um ar que se lhes dá. As pessoas estão sem dinheiro e têm fome. As pessoas não têm emprego e, as que têm, trabalham para pagar impostos e remédios e jogar na raspadinha.

A ver se me faço compreender: sempre fui praticante de asas e pescoços de frango, de ossos da suã, de iscas de fígado, de caras de bacalhau e de cabeça de pescada, se for inteira. Fui e sou. Sei dar-lhes o valor e as voltas: cá em casa são petiscos. Ainda não necessidade. À fressura é que nunca mais tornei. Ainda não precisei de tornar.
E em miúdo até era eu quem ia ao talho, bem ensaiado pela minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Sabeis: fressura são as vísceras comestíveis de um animal. Éramos pobres, já vos disse. Tão pobres, que a nossa fressura só tinha um esse, não havia dinheiro para mais. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. E casava muito bem com massa, que era também alimento de quem apenas sobrevivia. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, microbife, é preciso que se note, ainda assim bife, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de multiplicação, operava milagres domésticos. A minha mãe, do nada, fazia comida muito boa e, não vamos mais longe, devia ter sido aproveitada para ministra das Finanças e da Economia, talvez governadora do Banco de Portugal.

A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que nos aconteceu a todos. Isso e os títulos do FC Porto, que antes eram, a bem dizer, proibidos. A minha mãe não admite marcha-atrás no regime, apesar de todas as dificuldades. "O povo é tolo! Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. A minha mãe defende a democracia com unhas e dentes. Estamos de volta à fressura e aos verdinhos, é verdade, mas a minha mãe garante que a democracia não tem culpa. Diz que é preciso ser muito burro e ter muita lata para atirar pedras à democracia e ao 25 de Abril, com o povo que somos e os políticos que temos e escolhemos. E se a minha mãe o diz...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

E o 25 de Abril?

- E o 25 de Abril?
- Está feito.
- E agora?
- Só para o ano...

sábado, 25 de abril de 2026

25 de Abril sempre!

Vinte e cinco de Abril sempre, nem que seja só às vezes. 

O defeito do 25 de Abril

O mal do 25 de Abril é ser só um dia. Uma efeméride.

Isto está perigoso

De repente parece que o 25 de Abril não presta. Parece que ser pelo 25 de Abril é defeito. Parece que fomos enganados durante estes anos todos a respeito do 25 de Abril. Parece que, afinal, o 25 de Novembro é que é bom. E parece que o 24 de Abril, que está aí outra vez, ainda é melhor. Caralho, meus senhores, isto anda realmente perigoso...

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Novembro de 2023.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Assassinato de carácter

Cada vez que um carreirista denunciado por indecente e má figura ou apanhado em falso diz de está a ser vítima de "assassinato de carácter", eu geralmente pergunto-me: mas qual carácter?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A Bó de Basto e o pãozinho do Senhor

Os mórreres
Sim, os víveres, evidentemente os víveres. E os mórreres?...

Foi num programa de televisão, daqueles que temperam o turismo com gastronomia. Vi que na Turquia, esse lamentável lapso da União Europeia, há um respeito muito grande pelo pão. Um respeito tão grande que bocado que cai ao chão não vai para o lixo. É apanhado, guardado e comido na refeição seguinte. Não sei se é bem assim, mas assim me foi contado na TV, e eu gostei do que ouvi, falou-me à memória.
Desconheço que influências culturais trocaram entre si Portugal e o Império Otomano, e se essas permutas foram tão longe que chegaram à bucólica freguesia de Passos, logo a seguir a Várzea Cova, quem desce, mas já Cabeceiras de Basto, propriamente à casa da minha querida avó materna. Sei é que foi neste fim de mundo que eu também aprendi a reverência pelo pão.
Na Casa do Carreiro comia-se na cozinha, à volta da lareira. Os adultos sentavam-se em compridos preguiceiros, apetrechados com uma conveniente tábua-mesa de levantar e baixar, e as crianças ajeitávamo-nos em pequenos bancos de três pernas, os mochos, obra de carpintaria simples e doméstica. Os cães também tomavam posição, anorécticos involuntários, à espera dos ossos que não havia. Levavam troços de couves, cascas de batatas, espinhas de bacalhau de quarto e era um pau.
O chão da cozinha era mesmo chão, rupestre, uma terra negra do fumo e da fuligem, dos anos e vidas de uso e das águas entornadas que lhe davam uma consistência de betão. Sim, as águas dos potes ferventes ou da banca de lavar louça, quando já desnecessárias, eram ali mesmo esparramadas, voltando a reunir-se, acho que me estou a lembrar bem, numa espécie de rego que as levava finalmente até lá fora, até ao carreiro que dava o nome à casa. Como bilhar viciado, o chão da cozinha descaía para o lado do carreiro, e tudo ajudava à limpeza. Depois era só esperar que secasse um pouco e varrer com uma vassoura de giestas apanhadas no monte. A banca era feita em madeira, velha, de pernas trôpegas, pacientemente calafetada pela gordura acumulada ao longo de décadas de serventia.
Era naquele chão que eu às vezes deixava cair o meu megalítico naco de pão, quase sempre um bom pedaço de côdea, que era do que eu mais gostava. A minha avó, mansamente, para que o meu avô não se zangasse comigo, dizia apenas:
- Apanha o pão. É pãozinho do Senhor. Dá-lhe um beijinho e já o podes comer...
E eu acreditava. Apanhava o pão, beijava-o e comia-o, com todo o respeito, como se estivesse na igreja a comungar. Até parecia que me sabia melhor.
Curiosamente, o meu avô nunca se zangou comigo. Ele, que tinha um zangar tão fácil com toda a gente...
Na nossa casa, em Fafe, a minha mãe insistia nestes ensinamentos. Dizia-nos, a mim e aos meus irmãos, que o chão não suja, que o beijo purifica, que não se pode estragar pão, é pecado, porque há muita gente com fome, pessoas mais pobres do que nós. E se o pão ficava intragável e tinha mesmo de ir para a estrumeira, só depois de um beijinho de adeus, porque, exactamente, era pãozinho do Senhor.
Em minha casa também não se estraga pão, não se estraga nada. E, se se estraga, estragado fico eu.
Não sei de onde veio esta ideia antiga, se estará mesmo ligada à fé, à religiosidade popular, ao pão que é o corpo de Cristo. Acredito mais que era sobretudo a pobreza a defender-se, consciente da importância do pão na mesa, o pão que, ontem como hoje, era a única fartura, a última fronteira para a fome. O respeito pelo pão era o respeito pela fome. E ninguém respeita tanto a fome como os pobres.

Por causa do pão, fui muitas vezes à merda. E gostava. Ir à merda, naquele tempo e naquelas circunstâncias, era satisfatoriamente adequado. E necessário. A Bó mandava-me com uma telha à procura de poios de bosta fresca, que depois servia para vedar a tampa do forno onde se cozia a broa. Eu passava sempre uma temporada das férias grandes na aldeia e ir à merda era o meu modesto contributo para que tivéssemos pão à mesa. Isso e, às vezes, ir à fonte buscar água, coisa de "menina", só para se rirem de mim.
Para a aldeia ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento. Nessa enorme garagem também se construíram carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira. Cheirava mal, espevitava enjoos. Ia-se com o nariz enfiado em meio biju para não gomitar e mesmo assim gomitava-se - falo por mim. Ia-se na carreira até Várzea Cova, e ali terminava a estrada, acreditem no que eu digo: o mundo acabava mesmo em Fafe, basta pensar também na antiga linha do comboio. Dali, depois do cu tremido, violentamente tremido, já só faltavam mais cerca de cinco quilómetros a pé, em monte de sobe e desce, fizesse sol ou diluviasse, certa vez até passando a vau o ribeiro que a força de um inverno estoura-vergas desencaminhara e transformara em rio violador de margens. Chegávamos então à aldeia propriamente dita, como nunca na vida lhe chamámos. Era Basto. Freguesia de Passos, concelho de Cabeceiras de Basto, mas simplesmente Basto, para nós.

A minha avó Emília, que era pequerricha e bondosa com um anjo, e era um anjo, fazia uma broa escura, muito saborosa, que se mantinha fresca durante dias e dias. Naquela maré, o pão era o principal alimento dos portugueses. O pão e o vinho, como fazia questão de frisar, de forma propositadamente ambígua, a propaganda salazarista. Por ordem expressa de Salazar, beber vinho, naquela altura, era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o patriótico e honrado povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade nem água nem estradas nem sequer caminhos decentes, sem pedras, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. E o resto do país já então era Lisboa.
Beber era um honesto modo de vida. Podia faltar tudo na casa da Bó de Basto, e às vezes faltava muito, mas havia sempre broa com fartura e umas imensas malgas de "amaricano" às quais eu gostava de mandar umas pescoçadas até dizer ahhhhhh!...
Em Basto, as visitas eram recebidas com malgas de vinho e aparas de bacalhau salgado e falava-se como se fôssemos galegos, e a querida Tia Margarida felizmente ainda fala. E sempre broa, sem outros mimos. O almoço era o "jentar", e o jantar era a ceia. E bebiam-se, a acompanhar, umas valentes pingoletas. Também se bebia durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebia-se, portanto, apenas às refeições - quer-se dizer, o dia inteiro. E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada, com música de galos tenores e carros de bois vagarentos e deslubrificados, rabugentos. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina. Que saudades tenho dessa vida e dessa idade, dessas ideias que graças a Deus me ficaram, ainda no outro dia o "dixe" outra vez ao meu tio Al Pacino, o meu querido tio "Jé".

Enciclopedista fortuita e inocente, involuntária, alma fora da geografia e do tempo, a querida Bó de Basto alimentava-nos também o espírito. Lendas, contava-as que era uma categoria. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem, e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das histórias da avó - esperta, santa sem diploma, realmente anjo sem asas à vista - foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das histórias da minha avó, foi aqui que Hitchcock o veio buscar. E o vinhinho aquecido ao borralho com uma maçã assada lá dentro, também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó, maravilhosa guardadora de lendas e tudo. E a Bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, a frincha de entrada, não havia dúvidas. Ainda por cima, até as lendas da minha avó eram verdade. Como poderia mentir-se acerca do pão?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje tem início a Semana do Pão de Verdade.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Desejar venturas

Antigamente desejavam-se venturas. Pelo nascimento, pelo aniversário, no final do curso, no casamento, no divórcio, pela casa a estrear, no novo negócio ou emprego, em cada passagem de ano. "Desejar venturas" era uma expressão nobre e clássica na língua portuguesa que significava fazer votos de boa sorte, felicidade, prosperidade e sucesso para alguém. Era sinónimo de gentileza e bondade. Hoje em dia, desejar venturas é sinal de mau gosto, maldade, ameaça, ódio, um perigo, uma desgraça, é como se rogássemos pragas a alguém. Não se deve desejar venturas nem ao nosso pior inimigo. Olhai, não vamos mais longe: desejar venturas, actualmente, é o mesmo que desejar salazares.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Lágrimas por Marcelo

A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a, por assim dizer, política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes de más-vindas. Eu nem queria acreditar. Fiquei de todo. Os meus olhos, virgens e patrióticos como eu inteiro, viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela clandestina hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me inesperadamente em choro. Chorei de raiva, dorido pelo Senhor Presidente do Conselho. Como se atreviam aqueles gajos?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final, ainda que o caso fosse particularmente Moçambique.

No regresso a Lisboa, Marcelo foi, graças a Deus, surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas.
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se quereis que vos diga (e ainda que não queirais), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, miúdo, ignorante, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

As paredes tinham ouvidos

Isto sou eu a falar

"Mas isto sou eu a falar", disse inesperadamente. E era. Realmente era ele a falar, sem qualquer sombra de dúvida. Mas que revelação extraordinária!

No tempo em que as pessoas falavam, as paredes tinham ouvidos. E os soalhos também. E os tectos. Mas as pessoas falavam, mulheres e homens, porque era preciso, falar era respirar, era prova de vida, e não vai assim há tanto tempo. Os cafés, as mesas de restaurante costumavam ser sítios de conversa, de tertúlia, de crítica, de protesto, de esgrima de argumentos. De vida. Ainda os nunos rogeiros e os marcelos rebelos de sousas não tinham sido inventados pela televisão e já nós sabíamos tudo de tudo, primeiro no Peludo e depois no Peixoto, cafés evidentemente em Fafe, que era o centro do mundo. Guerra, França, futebol, política, Mário Soares e Álvaro Cunhal, pesca e caça, religião, padres fodilhões, música, alterações climáticas, vinho, teoria da relatividade, teorias da conspiração, medicamentos, bolo com sardinhas, gajas e automóveis, festival da canção, rácios bolsistas e sobretudo motorizadas, Zundapp vs. Sachs, sabíamos na ponta da língua e cada qual dava a opinião que se impunha, a opinião definitiva. Fumava-se provisórios.

Tínhamos pontos de vista, prismas, ópticas, enfoques, perspectivas e até ângulos. Amontoávamo-nos em duas ou três mesas, perdíamo-nos noite dentro naquela conversa transversal, ecuménica, polifónica, finamente regada, em que toda a gente metia o bedelho, até os filhos da puta dos bufos da Pide, que aproveitavam para incendiar o assunto a ver o que aquilo dava. De uma forma geral, os bufos da Pide não eram nada bufos da Pide: autoproclamavam-se, gabavam-se, ameaçavam, faziam-se passar por bufos da Pide, salazares dos pequeninos, três em cada esquina, só para meterem medo, que era a coisa mais parecida com sexo que conheciam, ou para pavonearem um poder que nunca tiveram, nem em casa, onde levavam nos cornos e bico calado. Eram filhos da puta, isso é certo, e em Fafe havia diversos.
O 25 de Abril de 1974 veio realmente liberalizar o paleio à roda do cimbalino, mas nós nem precisávamos. Já há muito que falávamos pelos cotovelos e comíamos tremoços. Ou cascas, cascas de tremoços, à falta de conteúdo e de dinheiro no bolso. Mas não interessava - a conversa, para nós, era tudo.
Portanto, agora dá-me pena: de conversa, que é livre e de graça, estamos conversados - acabou-se, até no café, parece-me impossível. Eu, que actualmente não frequento, passo pelas montras e vejo: uma pessoa em cada mesa, cabeça enfiada no computador portátil, telemóvel colado ao ouvido ou à frente dos queixos, como se fosse um microfone, dedo saltitante a gatafunhar mensagens analfabetas e com carinhas redondas e amarelas e corações e dedos assim ou assado, ninguém conhece ninguém, ninguém fala com ninguém, parece que estão todos proibidos uns dos outros. Que desperdício de liberdade!
Nos restaurantes, o mesmo desconsolo. A família senta-se à mesa e ninguém pia. Vai-se ao bolso, rapa-se do telemóvel (permiti-me que continue com a generalização, para mim aqueles aparelhos que não distingo são todos telemóveis) e ignora-se com assinalável obstinação o irmão do lado direito, o padrinho do lado esquerdo, o pai e a mãe em frente, a avó na cabeceira para pagar a conta, ainda por cima. E não são só os miúdos. Também os graúdos, nomeadamente graúdas, cinquentonas, casadas assim assim ou tias praticamente por estrear, esfregando, esfregando o ecrã da lamparina mágica à procura de namoro e talvez sexo, vai ser desta que vão ser felizes.
É. As pessoas julgam que falam umas com as outras, mas não falam. Aquela ideia romântica de conversa morreu e foi enterrada. As pessoas hoje em dia são perfis, esgotam-se na "conversa" com os "amigos" do Facebook que não conhecem de lado nenhum, talvez valha uma saltada à cama. As pessoas esbanjam todas as suas doutas opiniões, todos os seus espertíssimos achismos, na Antena Aberta da rádio Antena 1 e no Fórum Sport TV. (Desculpai-me o parêntese: para mim nem é dia nem é nada se não ouço o que têm a dizer o senhor José Fonseca, 45 anos, informático, da Amadora, sobre a problemática do Cristiano Ronaldo e da Selecção Nacional, ou o senhor Afonso Palheta, 53 anos, aposentado, do Marco de Canaveses, a propósito da política de reflorestação do País.). Depois, as pessoas chegam ao café, chegam à mesa do restaurante, ou chegam a casa, à família, sítios da conversa antiga, cara a cara com outras pessoas de carne e osso, e ficam caladas e sós. Sós umas das outras. São criaturas sem assunto, estão vazias: já disseram tudo e não era nada.

Mas tornando à mesa do café. As cascas de tremoços eram roubadas da mesa do lado e são, é preciso que se note, o melhor que há logo a seguir aos tremoços propriamente ditos, sobretudo em caso (e era o caso) de cotão nos bolsos. Melhor, só mesmo lamber e raspar com os dentes o papel do pão-de-ló, que era a segunda coisa melhor logo a seguir ao pão-de-ló propriamente dito, que eu via ao longe uma ou duas vezes ao ano.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Liberdade.)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O trabalhista Castro Mendes

25 de Abril sempre, nem que seja só às vezes.

Sei de um fafense antigo que, se fosse vivo, andaria ainda agora por aí todo contente a festejar de porta em porta a vitória dos Trabalhistas ingleses, embora as eleições já tenham sido há mais de meio ano. O famoso Castro Mendes de Travassós, o Velhinho, figura incontornável e carismática do antes e após 25 de Abril de 1974, desses intensos, gloriosos e dramáticos dias fafenses, era o nosso "trabalhista" de estimação e gritava "ganhámos!", "ganhámos!" sempre que o Labour vencia as eleições ou formava governo no Reino Unido, mesmo no tempo da outra senhora.
O nosso herói era "trabalhista" porque, sendo intrinsecamente salazarista, era trabalhador e pelos trabalhadores, isto é, pelo corporativismo fascista, o raciocínio pode parecer demasiado elaborado ou, por outro lado, simplista em excesso, mas não é, nem uma coisa nem outra. Vejamos: Trabalhistas portanto trabalhadores, viva Salazar!, e não era preciso ir mais longe.
A evangélica frase, na hora dos festejos, "Ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e... pagai!" é historicamente atribuída a este extraordinário Castro Mendes, que eu ainda contactei no Liceu de Braga, onde ele era funcionário, se não estou em erro, e aliás acamaradei no seminário com um dos seus filhos.
O Velhinho era um figurão. Irredutível nas suas convicções, fiel aos seus inegociáveis princípios, toda a vida foi da situação, fosse qual fosse a situação. Ganhasse quem ganhasse, ele ganhava sempre, estava sempre ao lado dos vencedores. Era, a esse propósito, um intrépido praticante de varandismo e inflamado mandador de Vivas! Já no tempo da democracia, cheguei a vê-lo actuar na varanda do PS, em Fafe, pouco tempo depois de ter brilhado a média altura nas janelas do PSD. Para além disso, sabia muito bem o que fazia e porquê, tinha um enorme sentido de humor e eu achava-lhe um piadão.

O varandista Castro Mendes era irmão do professor António Castro Mendes, considerado uma das maiores autoridades nacionais no ensino do Português, Latim, Grego ou Aramaico. Eram muito parecidos fisicamente, na marotice e até na tessitura vocal, abrangente, metálica, megafónica. Antigo padre e pregador afamado, o Dr. Castro Mendes foi meu mestre e amigo no Liceu de Guimarães. Falava, cheio de orgulho, do seu "melhor aluno de sempre", que não era eu, obviamente, eu era uma nódoa a Latim, mas um "rapazinho" também de Fafe chamado Luís Marques Mendes e a quem o experimentado professor, há quase 50 anos, augurava um grande futuro, apontando-o aos lugares mais altos da Nação. E estava certo.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. O Partido Trabalhista Independente foi fundado no dia 13 de Janeiro de 1893.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Os do 28 de Maio

Há os do 25 de Abril. E há os do 25 de Novembro. Uns são donos do 25 de Abril, os outros são donos do 25 de Novembro. E todos apresentam argumentos de propriedade sobre a data respectiva e coisa e tal, alguns por herança, outros por usucapião, uns tantos por revelação divina, certos e determinados por puro e simples assalto, sendo curioso notar que abundam, enfim, os que por acaso até dão para os dois lados. É a vida. Os do 25 de Abril cantam bonitas cantigas. Os do 25 de Novembro, regra geral, são do 28 de Maio. E estão de volta.

P.S. - Publicado originalmente no dia 24 de Novembro de 2024.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

O telefonema do padrinho

Foto Tarrenego!

O meu padrinho era sempre o primeiro. Entrávamos no mês de Dezembro, logo nos dias iniciais, o telefone cá de casa tocava e eu sabia mesmo antes de atender: era o meu padrinho, para nos desejar boas festas. E confirmava-se. Eu retribuía ligando-lhe duas ou três semanas depois, ao cair da noite de 24, precisamente, já nos prolegómenos da ceia de Natal. O meu padrinho bem percebia a minha malandrice, mas fazia de conta que não. E no ano seguinte lá tornava ele à jogada de antecipaçãozíssima.
O meu padrinho era um homem muito bom. Quem o conheceu, sabe que não estou a mentir. Era tão profundamente bom, que não sabia ser mau, mesmo quando queria ou precisava de arriar a giga. Nessas ocasiões, raríssimas, faltava-lhe a voz, a fúria sumia-se como se por falta de comparência, soava a falso, creio até que funcionava ao contrário, parecia que era a mangar, e eu, se por acaso estivesse por perto, desmanchava-me a rir. E respeitava-lhe a bondade.
O meu padrinho chamava-se Américo, Tio Mérico, Américo da Bomba, Sr. Américo, Comandante, e certamente por causa dele é que carrego este extraordinário nome de Américo Hernâni, que devia ganhar um prémio pelo menos nacional de esdruxulice. Mas eu perdoo-lhe. Por outro lado, com um nome próprio assim redundante, Américo e Hernâni, naquele tempo de benfiquismo a bem da Nação, eu só podia dar portista - e dei. Foi a minha sorte. E agradeço ao meu padrinho. Felizmente, o meu coração é desde nascença de uma só cor, azul e branco, às vezes também rosa bebé, outras ocasiões amarelo desbotado, conforme o equipamento do adversário, enfim, o que for melhor para o negócio das camisolas.
O meu padrinho era o irmão do meio do meu pai, que era o mais velho. Lá em cima, no retrato antigo, estão os dois, fardados de músicos da Banda de Revelhe, suspeito que posando ao lado do então novo Tribunal de Fafe. O padrinho é o do casaco e boné, todo tirone. Depois havia o mais novo, o meu tio Zé da Bomba, a quem os amigos e colegas de estudos chamavam "Fone", mas que, no nosso caso concreto, precisava mesmo de ser "da Bomba" para o distinguirmos do meu tio Zé de Basto.
O meu pai morreu num Natal gelado e francês, muito antes do tempo e sem aviso. E os irmãos resolveram ir ter com ele, uns anos mais tarde, primeiro um, depois o outro, como se também não tivessem mais nada para fazer por cá, e estavam redondamente enganados. Os três. Ainda hoje nos fazem faltam.
Que se segue? Eu já estava afeito a ele. Sem o telefonema do padrinho, tão fiável, antecipado e cómico, como que a abrir o calendário do Advento sem o saber, os meus natais já não são o que foram, perderam muita da sua graça. O primo Miguel, filho do tio Zé e também afilhado do tio Américo, ainda agarrou a pasta, durante uma temporada, e passou a ser o primeiro. Remediava enquanto durou, sou sincero. Porque, a verdade é só uma, tinha de ser um Bomba, e dos assumidos. E eu gosto do Miguel! Mas não era a mesma coisa.

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Ser pobre é uma chatice

A gula é pecado. Mas a fome não. O catecismo só pode estar errado.

Ser pobre é lixado. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, vaga ideia, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O respeitável jornal Público anunciava, no tempo da troika: os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vede bem o que se escrevia e escreve em Portugal e já vamos no século XXI, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles, culpa deles, fossem para a Universidade, aprendessem Inglês. Os pobres não são leitores do Público.

Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é deveras dada a promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha por alma de quem lá tem". Pediam-nos a nós, porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.

Sei muito bem como tudo isto já funcionou em Portugal. Antes do 25 de Abril de 1974. E era desde os bancos da escola - da Escola Primária - que se aprendia, na carne, e com a crueldade própria daquela idade, a diferença entre ricos e pobres. A diferença entre os que tinham tudo e os que não tinham nada. A diferença entre a pasta de cabedal e a sacola de pano. A diferença entre os que escreviam em cadernos e os que ainda usavam a lousa. A diferença entre os meninos ricos que nunca apanhavam do professor e os miúdos pobres que levavam pancada de criar bicho. A diferença entre o sapatinho de verniz e as chancas ou o pé descalço. A diferença entre os que traziam lanchinho com pãezinhos com manteiga e marmelada e os que pediam a senha para ir comer uma sopinha. Pediam.
Exactamente: a sopa e a senha. Naquele tempo - no tempo em que os rapazes não se misturavam com as raparigas e os ricos também não se misturavam com os pobres -, as escolas não tinham cantina e havia muita fome. Havia uma espécie de cozinha, às vezes num edifício anexo ou próximo, e ali servia-se uma sopa. Assim acontecia na minha Escola Conde Ferreira. Era só atravessar a estrada, mesmo em frente.
Para terem direito à sopa, os miúdos pobres pediam todos os dias uma senha, que era um pequeno quadrado de papel com um carimbo e um sarrabisco feito pelo professor armado em médico. Pôr um  carimbo vitalício na testa de todos os pobres, dos pobres pobres, para que o aparelho do Estado pudesse saber imediata e inequivocamente quem podia ou não comer a sopa, teria sido talvez uma melhor ideia, mas a verdade é que a coisa não foi por aí.
Claro que já então - no antes do 25 de Abril de 1974, repito, que de verdade existiu - havia quem tivesse vergonha de ser pobre, quem tivesse vergonha de ser apontado publicamente como pobre, e preferia passar fome. Eu sei que não falta por aí quem sustente que fome é um conceito muito relativo, mas eu acho que é cada vez mais uma realidade copulativa, não sei se me faço entender.

Para quem não sabe ou não se lembra. No casarão onde era servida a sopa às crianças pobres da escola de Fafe, em condições sem condições nenhumas, funcionaram também, que me lembre e não sei se coincidindo, a Câmara Municipal, o centro de saúde e os serviços municipalizados de água e electricidade. Fui lá uma vez, à sopa, para ver como era. E não gostei.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios der Fafe. Hoje é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Chancas à porta

Foto Hernâni Von Doellinger

Gato-sapato
Faziam dele gato-sapato. Quarenta e dois, biqueira larga.

As chancas eram de pobres. De gente do campo, rota e remendada. Suja. E de choro e ranho em casa, ó mãe eu tenho vergonha de ir assim para a escola, quero uns sapatos como os outros meninos. Efectivamente, os meninos ricos tinham sapatos, botas e sandálias, consoante a estação do ano no tempo em que havia estações do ano, e os paizinhos dos meninos ricos, depois de razoavelmente gastos os sapatos, as botas e as sandálias dos filhos, vendiam o calçado aos pais dos meninos pobres. Vendiam. Na minha terra, os paizinhos dos meninos ricos eram muito ricos e muito da religião e da santamissinha e das procissões e vicentinos, mas vendiam aos pobres - não davam. Vendiam. Se calhar por isso é que eram ricos. Quem dá aos pobres empresta a Deus, quem vende aos pobres é que se safa. Alguns safaram-se, amém.

Chancas é calçado de pau, valha-me Deus! E, no entanto, chancas era bom. Porque abaixo de chancas eram socos, ainda mais miseráveis e lavradorescos, e abaixo de socos era descalço. Sim, descalço. Andava-se descalço no Portugal pré-25 de Abril. Andava-se descalço por necessidade, e quem andasse descalço era multado pela polícia, ia para o posto e até podia acabar na Pide e na cadeia.
Ora, as chancas. As chancas, exactamente como as galochas, estão agora na moda e caras. Suponho que os netos, as netas, os bisnetos e as bisnetas dos ricos da minha terra correm todos a comprar chancas, envergonhando os antepassados que faziam pouco dos pobres chancudos e antigos. Anacrónicos por maldição, os pobres da minha terra calçarão modernamente sapatinho dirópito - e choram por andarem toda a vida ao contrário. Choram. E eu só me dá para rir.

À conclusão: ao andar, as chancas e os socos, batendo em cheio no chão, faziam um basqueiro desgraçado. Dentro de casa, naqueles velhos soalhos gastos, carunchosos e periclitantes, então era um autêntico terramoto, aliás muito bem aproveitado como fundo musical pelos ranchos folclóricos. Mas no dia-a-dia antigo, doméstico, as chancas e os socos ficavam à porta, do lado de fora. Por causa do banzé, da lama e da terra que traziam agarradas dos campos e do quintal, e evidentemente derivado ao insuportável chulé. Insuportável mas honrado.

P.S. - Versão publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Mulher Rural.

domingo, 22 de junho de 2025

Montenegro, a "raça" e o racismo

Luís Montenegro vir agora com a conversa da "raça lusitana" a propósito de vitórias desportivas, ontem pelo canoísta Fernando Pimenta e hoje pelo ciclista João Almeida, assim do nada e reiteradamente, é de uma insensatez olímpica. E escandalosa lambidela ao Chega. E sentido de oportunidade digno de um incêndio florestal. E insulto a todos os desportistas portugueses que já parabenizou por extraordinários feitos mas, vá-se lá saber porquê, não incluiu na "raça lusitana". E ignorância a toda a prova. Ele está de primeiro-ministro e alguém já lhe devia ter ensinado que a história dos portugueses-lusitanos ou dos lusitanos-portugueses é apenas isso, uma história, uma treta. Raça lusitana, há-a, mas para cavalos. Deu-lhe agora para a raça, ao Montenegro? Se ainda ao menos se chamasse Montebranco...

P.S. - Eu sei que não é o Montenegro que escreve as merdas que o Montenegro escreve. O que ainda é mais triste.

sábado, 10 de maio de 2025

Os enxotadores

Hoje é Dia Mundial das Aves Migratórias. "Ide para a vossa terra!", grita-se em Portugal.

P.S. - Hoje é o 2.º Dia Mundial das Aves Migratórias. O Dia Mundial das Aves Migratórias é duas vezes por ano, no segundo sábado de Maio e no segundo sábado de Outubro, coincidindo com as duas principais épocas de migração aviária.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Grândola é na Galiza

Houve quem ficasse muito admirado, mas sem razão. No último sábado, em Vigo, na Galiza, num jogo de futebol da primeira divisão espanhola, adeptos do Bétis, de Sevilha, entoaram cânticos fascistas e fizeram a saudação nazi. À saída, para além da derrota por 3-2 com o Celta, levaram também com "Grândola, Vila Morena" e a voz de Zeca Afonso ecoando no Estádio de Balaídos.
Não foi por acaso. Para começar, é tido como certo que a canção "Grândola, Vila Morena" foi estreada por Zeca Afonso, isto é, cantada em público pela primeira vez, exactamente na Galiza, em Santiago de Compostela, no Burgo das Naçons, no dia 10 de Maio de 1972. O Zeca, é também assim que ele é conhecido e referido pelos galegos de média cultura, passou largas temporadas na Galiza, deu por lá inúmeros concertos, andou e cantou por Lugo, Ourense, Pontevedra, Vigo e outros adiantes, fez imensos amigos, tinha e tem uma legião de fiéis admiradores, as comemorações e homenagens sucedem-se ainda hoje. Em Compostela há o Parque José Afonso e mantém-se em actividade a AJA Galiza - Associaçom José Afonso. Nos bares e ruas de Compostela canta-se e festeja-se "Grândola" como quem canta e festeja a "A Rianxeira". Não sei como é agora, mas ainda aqui há uns anos havia um pub lá para as traseiras da famosa catedral, a Casa das Crechas, que passava constantemente a música de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Francisco Fanhais, Luís Cília, Fausto, Vitorino e por aí fora, mas Zeca Afonso sempre! Porque na Galiza pensa-se e sente-se que o 25 de Abril também lhes pertence.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

A saudação nazi

A saudação nazi que o impagável deputado Arruda fez ontem no Parlamento não foi, como dizem, uma saudação nazi. Foi, isso sim, uma saudação nazi, disse ele, quando repetiu.