quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Ser pobre é deveras desagradável

Foto Hernâni Von Doellinger

Ser pobre é fodido. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O jornal Público anunciava no tempo da troika e de Pedro Passos Coelho: os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vejam bem o que se escrevia e escreve em Portugal e já vamos no século vinte e um, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles. Os pobres não são leitores do Público.

Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é muito dada a certas e determinadas promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha, por alma de quem lá tem". Porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.

Sei muito bem como tudo isto já funcionou em Portugal. Antes do 25 de Abril de 1974, lembram-se? E era desde os bancos da escola - da Escola Primária - que se aprendia, na carne, e com a crueldade própria daquela idade, a diferença entre ricos e pobres. A diferença entre os que tinham tudo e os que não tinham nada. A diferença entre a pasta de cabedal e a sacola de pano. A diferença entre os que escreviam em cadernos e os que ainda usavam a lousa. A diferença entre os meninos ricos que nunca apanhavam do professor e os miúdos pobres que levavam pancada de criar bicho. A diferença entre o sapatinho de verniz e as chancas ou o pé descalço. A diferença entre os que traziam lanchinho com pãezinhos com manteiga e marmelada e os que pediam a senha para ir comer uma sopinha. Pediam.
Exactamente: a sopa e a senha. Naquele tempo - no tempo em que os rapazes não se misturavam com as raparigas e os ricos também não se misturavam com os pobres -, as escolas não tinham cantina e havia muita fome. Havia uma espécie de cozinha, às vezes num edifício anexo ou próximo, e ali servia-se uma sopa. Assim era na minha Escola Conde Ferreira, em Fafe.
Para terem direito à sopa, os miúdos pobres pediam todos os dias uma senha, que era um pequeno quadrado de papel com um carimbo e um sarrabisco feito pelo professor ou pela professora. Aqui há uns anos sugeri que o Governo de Passos Coelho deverá copiar tão peregrina ideia para os dias de hoje: um carimbo na testa de todos os pobres, dos pobres pobres, para que o aparelho do Estado saiba imediata e inequivocamente quem pode comer a sopa.
Claro que já então havia quem tivesse vergonha de ser pobre, quem tivesse vergonha de ser apontado publicamente como pobre, e preferia passar fome. Eu sei que não falta por aí quem sustente que fome é um conceito muito relativo, mas eu acho que é cada vez mais uma realidade copulativa. E só peço que, quando chegar a minha vez, quando me vierem entregar a minha dose de "alimentação, vestuário e medicamentos", façam o favor de me deixar também os caixotes de cartão. É que as noites estão cada vez mais frescas.

P.S. - Salada de textos publicados originalmente em 2011 e 2012. Hoje, 17 de Outubro, é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Diz o Presidente da República que Portugal tem quase dois milhões de pobres. Eu digo que, infelizmente, tem mais. Os quase dois milhões de Marcelo Rebelo de Sousa são os pobres de papel passado, mas há por aí muita pobreza clandestina, muita fome escondida, como diz a minha mãe.

Interlúdio fotográfico 163

Foto Hernâni Von Doellinger

Bolinha baixa

Mandaram-no baixar a bola e ele baixou. Mas o relvado era uma lástima...

Também faço isto muito bem 276

Foto Hernâni Von Doellinger

António Ramos Rosa 9

[Este homem que esperou]

Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto

Este homem que esperou
à sombra duma árvore
mudar a direcção
ao seu pobre destino


Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra


"Obra Poética I", António Ramos Rosa 

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

A motoqueira, o motocão e o motoqueiro

Foto Hernâni Von Doellinger

Chinesices

Os chineses têm razão: entre tratos de polé e tratos de puré não vai assim tanta diferença...

E parece que foi ontem... 2

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Pãozinho do Senhor, dizia a Bó de Basto

Vi num programa de televisão, daqueles que temperam o turismo com gastronomia, vi que na Turquia, esse país belicamente na moda, há um respeito muito grande pelo pão. Um respeito tão grande que bocado que cai ao chão não vai para o lixo. É apanhado, guardado e comido na refeição seguinte. Não sei se é bem assim, mas assim me foi contado há anos, e eu gostei do que ouvi, falou-me à memória.
Desconheço que influências culturais trocaram entre si Portugal e o Império Otomano, e se essas influências foram tão longe que chegaram à bucólica freguesia de Passos, Cabeceiras de Basto, propriamente à casa da minha querida avó materna. Sei é que foi neste fim de mundo que eu também aprendi a reverência pelo pão.
Na Casa do Carreiro comia-se na cozinha, à volta da lareira. Os adultos sentavam-se em compridos preguiceiros, apetrechados com uma conveniente tábua-mesa de levantar e baixar, e os moços ajeitávamo-nos em pequenos bancos de três pernas, os mochos, obra de carpintaria simples e doméstica. Os cães também tomavam posição, anorécticos involuntários, à espera dos ossos que não havia. Levavam troços de couves, cascas de batatas, espinhas de bacalhau de quarto e era um pau.
O chão da cozinha era mesmo chão, rupestre, uma terra negra do fumo e da fuligem, dos anos e vidas de uso e das águas entornadas que lhe davam uma consistência de betão. Sim, as águas dos potes ferventes ou da banca de lavar louça (atenção!, uma banca de madeira), quando já desnecessárias, eram ali mesmo esparramadas, voltando a reunir-se, acho que me estou a lembrar bem, numa espécie de rego que as levava finalmente até lá fora, até ao carreiro que dava o nome à casa. Como bilhar viciado, o chão da cozinha descaía para o lado do carreiro, e tudo ajudava à limpeza. Depois era só esperar que secasse um pouco e varrer com uma vassoura de giestas apanhadas no monte. (E já lá iremos, ao monte.)
Era neste chão que eu às vezes deixava cair o meu megalítico naco de pão, quase sempre um bom pedaço de côdea, que era do que eu mais gostava. A minha avó, mansamente, para que o meu avô não se zangasse comigo, dizia apenas:
- Apanha o pão. É pãozinho do Senhor. Dá-lhe um beijinho e já o podes comer...
E eu beijava o pão e comia-o, com todo o respeito, como se estivesse na igreja a comungar.
(O meu avô nunca se zangou comigo. Ele, que tinha um zangar tão fácil com toda a gente...)
Na nossa casa, em Fafe, a minha mãe insistia nestes ensinamentos. Dizia-nos, a mim e aos meus irmãos, que o chão não suja, que o beijo purifica, que não se pode estragar pão, é pecado, porque há muita gente com fome, pessoas mais pobres do que nós. E se o pão ficava intragável e tinha mesmo de ir para a estrumeira, só depois de um beijinho de adeus, porque, exactamente, era pãozinho do Senhor.
Em minha casa também não se estraga pão, não se estraga nada. E, se se estraga, estragado fico eu.
Não sei de onde veio esta ideia antiga, se estará mesmo ligada à fé, à religiosidade popular, ao pão que é o corpo de Cristo. Acredito mais que era sobretudo a pobreza a defender-se, consciente da importância do pão na mesa, o pão que, ontem como hoje, era a única fartura, a última fronteira para a fome. O respeito pelo pão era o respeito pela fome. E ninguém respeita tanto a fome como os pobres.

Vou contar-vos o seguinte: fui muitas vezes à merda. E gostava. A Bó mandava-me com uma telha à procura de poios de bosta fresca, que depois servia para calafetar o forno onde se cozia a broa. Eu passava sempre uma temporada das férias grandes na aldeia e ir à merda era o meu modesto contributo para que tivéssemos pão à mesa. Isso e às vezes ir à fonte buscar água, coisa de menina, só para se rirem de mim.
(Para a aldeia ia-se na carreira da "Empresa", que saía de uma grande garagem à beira da Igreja Matriz, mesmo em frente à Rua do Assento. Nessa enorme garagem também se construíram carros para a Marcha Luminosa das Festas da Vila, "um espectáculo de luz, cor e som", mas isso é assunto que não vem ao caso. Era desengonçada e cinzenta a carreira. Cheirava mal, espevitava enjoos. Ia-se com o nariz enfiado em meio biju para não gomitar e mesmo assim gomitava-se - falo por mim. Ia-se na carreira até Várzea Cova, e ali acabava a estrada, acreditem no que eu digo: o mundo acabava mesmo em Fafe. Dali já só faltavam mais cerca de cinco quilómetros a pé, em monte de sobe e desce, fizesse sol ou diluviasse, certa vez até passando a vau o ribeiro que a força de um inverno estoura-vergas desencaminhara e transformara em rio violador de margens. Chegávamos então à aldeia, como nunca na vida lhe chamámos. Era Basto. Freguesia de Passos, concelho de Cabeceiras de Basto, mas simplesmente Basto, para nós.)
A minha avó Emília, que era pequerricha e bondosa com um anjo, e era um anjo, fazia uma broa escura, muito saborosa, que se mantinha fresca durante dias e dias. Naquele tempo, o pão era o principal alimento dos portugueses. O pão e o vinho, como fazia questão de frisar, de forma propositadamente ambígua, a propaganda salazarista. Por ordem expressa de Salazar, beber vinho, naquela altura, era "dar de comer a um milhão de portugueses", e o patriótico e honrado povo de Passos podia não saber o que era bife nem tinha electricidade nem água, mas sempre deu o litro para que o resto do País não passasse fome. E o resto do país já então era Lisboa.
Beber era um honesto modo de vida. Podia faltar tudo na casa da Bó de Basto, e às vezes faltava muito, mas havia sempre broa com fartura e umas imensas malgas de "amaricano" às quais eu gostava de mandar umas pescoçadas até dizer ahhhhhh!...
Em Basto, as visitas eram recebidas com malgas de vinho e aparas de bacalhau salgado e falava-se como se fôssemos galegos, e a querida Tia Margarida felizmente ainda fala. O almoço era o "jentar", e o jantar era a ceia. E bebiam-se a acompanhar umas valentes pingoletas. Também se bebia durante a merenda, que era aquela meia dúzia de horas de sol que vai desde o "jentar" até à ceia. Bebia-se, portanto, apenas às refeições - quer-se dizer, o dia inteiro. E já agora: o almoço, assim dito, era o café da manhã. E a manhã era madrugada, com música de galos tenores e carros de bois deslubrificados. O café era cevada, feita ao borralho, numa velha chocolateira de barro e tampa tamborileira e dançarina. Que saudades tenho dessa vida e dessa idade, dessas ideias que graças a Deus me ficaram, ainda no outro dia o "dixe" outra vez ao meu tio Al Pacino, o meu querido tio "Jé".

Enciclopedista fortuita e inocente, involuntária, alma fora da geografia e do tempo, a querida Bó de Basto alimentava-nos também o espírito. Lendas, contava-as que era uma categoria. Eram lendas mansas, de embalar, metiam mouras encantadas, príncipes, penedos. Penedos de morar, lembro-me bem e eu queria um. Eram contadas à lareira, depois da ceia, com o vermelho do fogo a bailar-nos nas caras espectrais, eu de olhos arregalados e boca aberta, uma e outra vez, como se fosse sempre a primeira. Os efeitos especiais das histórias da avó - esperta, santa sem diploma, anjo sem asas à vista - foram muitos anos mais tarde copiados pelo cinema americano. Até aquele famoso jogo de sombras manipulado pela irrequieta chama da candeia, coisa extraordinária e assustadora - era das histórias da minha avó. E o vinhinho aquecido ao borralho com uma maçã assada lá dentro também, mas isso parece que os filmes não aproveitaram.
Na manhã seguinte, pela fresca, íamos à lenha ao monte. Eu e e minha avó, maravilhosa guardadora de lendas e tudo. E a Bó mostrava-me o penedo, o exacto penedo da moura encantada, a frincha de entrada, não havia dúvidas. Ainda por cima, até as lendas da minha avó eram verdade. Como poderia mentir-se acerca do pão?

P.S. - Esta é uma salada de textos publicados originalmente entre 2011 e 2017. Hoje, 16 de Outubro, é Dia Mundial do Pão, Dia Mundial da Alimentação e, já agora, Dia Mundial da Coluna, que não vem ao caso. Resolvi que seja também Dia Mundial da Bó de Basto.

Também faço isto muito bem 275

Foto Hernâni Von Doellinger

Ricardo Guilherme Dicke 3

Na rede Lázaro. Zumbidos. O irmão morto na rede. O mundo rodeando sua roda indiferente. As moscas voavam lentas e pousavam na cara dele. Não se importava, Lázaro morto, narinas paradas. Todos os telégrafos diziam: Lázaro morreu e vai ser enterrado. Para sempre. Antigamente, diziam, havia a ressurreição. Agora não. Agora a sombra que abandona este reino de sombras, caminha para sempre só, num outro reino de sombras ainda mais solitárias. Só, como um rei perdido, só, sem reinado, na essência redonda da morte. Tão fácil, morrer. Como acontecera que guiara aquele ferro frio nas entranhas de outro filho, o mais querido de sua mãe? Lázaro, morrer e ser enterrado.
Agora, se entristecia a pensar. Homem morto. Rato morto. Um cheiro de figos maduros incendiava-lhe as narinas, forte, penetrante, morcegos andavam de dia?

"Deus de Caim", Ricardo Guilherme Dicke

(Ricardo Guilherme Dicke nasceu no dia 16 de Outubro de 1936. Morreu em 2008.)

Só destes, tenho sete 116

Foto Hernâni Von Doellinger

Saúde e segurança no trabalho

"Em que ramo é que trabalhas?", perguntaram-lhe. E o macaco respondeu: "No de baixo, derivado às vertigens..."

E parece que foi ontem...

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Golo de bicicleta

Que extraordinário golo de bicicleta! Um golo estratosférico, sensacional, fabuloso, espectacular, fenomenal, incrível, magnífico, maravilhoso, brutal - consoante os comentadores. Mas não valeu. "Futebol é uma coisa e ciclismo é outra" , explicou o árbitro, sinaleticamente falando, e nem precisou do VAR.

Também faço isto muito bem 274

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel da Fonseca 7

Poema da menina tonta

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...

E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.


"Rosa dos Ventos", Manuel da Fonseca

(Manuel da Fonseca nasceu no dia 15 de Outubro de 1911. Morreu em 1993.)

Vida de cão 476

Foto Hernâni Von Doellinger

Agustina Bessa-Luís 3

As coisas feias são tão próprias do mundo como as bonitas. Tu és muito nova, menina, e, no colégio, não fazem outra coisa senão tapar-te os olhos - o que é um engano, menina. Conhecer o mal é já uma defesa. Onde não há inocência, pode haver pecado; mas onde não há sabedoria, há sempre desgraça.

"A Sibila", Agustina Bessa-Luís

(Agustina Bessa-Luís nasceu no dia 15 de Outubro de 1922. Morreu no passado mês de Junho.)

Radical... íssimo

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

A sagrada comunhão

A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvemos ainda assim perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-nos com rispidez, como se por um segundo lhe tivéssemos interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se meterem rancho. Levantou-se então do trono e ordenou: - Vamos mas é comer, que isto é povo que nunca mais acaba para a sagrada comunhão!...

Interlúdio fotográfico 162

Foto Hernâni Von Doellinger

Diz-me o que vestes

A forma de vestir diz muito acerca das pessoas. Por exemplo, os nudistas: creio que está tudo dito.

Trotinetando 26

Foto Hernâni Von Doellinger

Artur Augusto da Silva 3

Morreu o homem

Mamadú Baldé, filho de Salifo, filho de lndjai, filho de Tchamo, filho de Monjur, filho de Mutari, cuja linhagem se perde há mais de dois mil anos nas terras do Egipto e de quem os antepassados remotos viram Moisés e Maomé e com eles conversaram sobre o tempo e as colheitas.
Mamadú Baldé morreu. Mamadú Baldé, o sábio que falava com Alá e era bom e era justo, morreu.
Cavaleiros e tambores levaram a notícia a toda a parte: subiram as encostas do Futa-Djalon e desceram para o mar. Percorreram o Sudão até Cao e Tombucutú e desceram ao lago Tchade.
E toda a terra dos fulas repetiu: morreu Mamadú Baldé:
O sol parou o seu caminho, espreitou para Labé, viu Mamadú morto, e continuou. A lua parou também o seu caminho, espreitou e continuou.
Os rios que nascem no tecto do mundo pararam na sua corrida para o mar e prosseguiram. E o poeta pegou num pedaço de papel e escreveu.

"E o Poeta Pegou Num Pedaço de Papel e Escreveu", Artur Augusto da Silva

(Artur Augusto da Silva nasceu no dia 14 de Outubro de 1912. Morreu em 1983.)

The Way 723

Foto Hernâni Von Doellinger

Begoña Caamaño 4

Saír de Tintaxel fíxome ben. Abandonar a paisaxe das miñas propias ruínas estimuloume. Espertou ansias que xulgaba definitivamente perdidas.

"Morgana en Esmelle", Begoña Caamaño

(Begoña Caamaño nasceu no dia 14 de Outubro de 1964. Morreu em 2014.)

Só destes, tenho sete 115

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 13 de outubro de 2019

O povo cheira mal. Quer-se dizer: cheira a povo.

Figurão, o governante que gabava muito o Serviço Nacional de Saúde e, mal lhe ocorria uma singela caganeira, desembestava em oficial aflição para o hospital privado. Figurinha, a autarca redundante em mui propagandeadas e frequentadas sessões de caracacá para o bem-estar físico dos seus munícipes, mas que, para si própria - mantendo uma higiénica distância do suor do povo -, não dispensa a exclusividade e chiqueza ostensiva do personal trainer.

P.S. - No que me diz respeito, só tenho a dizer bem do SNS. E, modéstia à parte, sou o meu próprio personal trainer.

Interlúdio fotográfico 161

Foto Hernâni Von Doellinger

Banho de sangue

Mandaram-no fechar a matraca e ele fechou. Fechou também a ponta-e-mola, a borboleta e a porta.

Também faço isto muito bem 273

Foto Hernâni Von Doellinger

Paulo Marques 4

Em todos os seus gestos lia-se patentemente a sede dos prazeres. Arfavam-lhe os seios cetinosos e alvos, recipientes dos beijos vaporosos do deputado que conhecia a fundo o segredo de atear impetuosamente as chamas candentes das comoções amorosas. Túlia sentia um bem estar incrível, somente ao lembrar-se das cenas que se iam dar daí a uma hora.

"Vênus ou o Dinheiro", Paulo Marques

(Paulo Marques nasceu no dia 13 de Outubro de 1857. Morreu em 1884.)

Só destes, tenho sete 114

Foto Hernâni Von Doellinger

O erro de Casting

O principal erro de Casting foi não ter mudado de nome quando chegou à idade adulta.

Interlúdio fotográfico 160

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 12 de outubro de 2019

Na cama com Carolina Deslandes

Estou farto de ver Carolina Deslandes na cama! Nua, após noite de, a dar de mamar ao filho, com o namorado, a aparar as unhas dos pés, a tosquiar os sovacos, e agora "doente". Quer-se dizer: eu não sou casado com ela, não lhe estou amantizado, não a conheço de lado nenhum e nem sequer me apetece - para que é que eu a quero na cama?

P.S. - Quem não sabe quem é Carolina Deslandes, procure. Ela é a que está na cama.

Ciclista dourado

Foto Hernâni Von Doellinger

Brincar em serviço

Ele nunca brincava em serviço. O que, para um palhaço de circo, era talvez contraproducente.

Também faço isto muito bem 272

Foto Hernâni Von Doellinger

Leon Eliachar 4

Acho a rosa uma mensagem definitiva, porque custa menos que um telegrama e diz muito mais.

"O Homem ao Zero", Leon Eliachar

(Leon Eliachar nasceu no dia 12 de Outubro de 1922. Morreu em 1987.)

Estou mesmo a ver o filme 111

Foto Hernâni Von Doellinger

Helena Kolody 4

Poeta

O poeta nasce no poema,
inventa-se em palavras.

"Infinito Presente", Helena Kolody

(Helena Kolody nasceu no dia 12 de Outubro de 1912. Morreu em 2004.)

Caminho 722

Foto Hernâni Von Doellinger

Paco Souto 4

Metamorfose

vivo nun país de marea baixa
entre argazos e agullas de coral
construímos a ilusión do solpor
mentres
o sol debruza con quietude
os seus pés
na lagoa da tarde
de enchermos a lúa
o noso país cativo
afogaría en sal océana
apenas é un baixo a romper
a pedra azul das augas
un salseiro de cobalto
sen terra para a labranza
sen augas de beber
sen respiro apenas
só nos queda arrincar a pel
e que veñan as escamas
empeñar brazos e pernas por aletas
e iluminar
coa tuberculose
as galadas que nos dean alento
maradentro

"e Caín", Paco Souto

(Paco Souto nasceu no dia 12 de Outubro de 1962. Morreu em 2017.)

Água vai!...

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Os benfiquistas bem e o xenófobo Ventura

Escrevi aqui no Tarrenego!, no passado dia 27 de Maio, sob o título "Benfica humilhado nas eleições":
"O Benfica ganhou muito bem o campeonato, mas levou uma coça nas eleições. Um e meio por cento - isto é, 45 mil votos - não chega nem basta sequer para encher o estádio. Depois da merecida festa do título, as Europeias resultaram numa escusada humilhação para o partido dos seis milhões de adeptos. Mas lá está, como preconiza o doutor Ventura: quem com ferros ferros, com ferros ferros."
Que o doutor Ventura usou o Benfica - e o Benfica deixou e deixa - para chegar aonde queria, estava à vista de todos, embora pareça que só eu é que vi, e mais nem sou benfiquista. Na televisão, o doutor Ventura é o Benfica e o Benfica é o doutor Ventura. E nada. Agora que a criatura chegou ao Parlamento, um pequeno e incomodado grupo de benfiquistas bem achou definitivamente mal e resolveu dizer basta!, escrevendo uma carta aberta de denúncia, indignação, desabafo e protesto dirigida a Luís Filipe Vieira, que não sei se lê o Expresso. Olhem: mais vale tarde que noite...

Interlúdio fotográfico 159

Foto Hernâni Von Doellinger

Atraso de vida

Mandaram-no dar uma curva e ele foi. Deu uma curva, duas rectas, seis esses, meia rotunda e três cruzamentos. Chegou obviamente atrasado.

Caminho 721

Foto Hernâni Von Doellinger

Ramiro Fonte 2

Perséguenos a máscara baleira

O símbolo, columna que se ergue
Como de nós ó deus, ó seu dominio
Quen nos refai no espello vai negando
Cidades ou xardíns, praias ou azas.
Nós conquerimos sedes ou esteiros,
Algún lugar incerto na memoria
No que a chorar estamos longamente,
Facedores de lumes, condeados
A poñer nome ás cousas e deixalas
Neutros ríos do tempo máis inmensas.
Xa sabedor de illas tan feridas
Ó recibi-los ventos na fronteira
Has te-la fronte clara, os ollos grandes.


"As Cidades do Nada", Ramiro Fonte 

(Ramiro Fonte nasceu em 1957. Morreu no dia 11 de Outubro de 2008.)

Vida de cão 475

Foto Hernâni Von Doellinger

Susto de morte

Era um defunto que dava gosto: parecia que estava a dormir. E estava. Quando acordou, morreu do susto.

Só destes, tenho sete 113

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O Nobel de Lobo Antunes

Este ano também não. Hoje era dia de jackpot do Prémio Nobel da Literatura, com o acumulado de 2018 e 2019, mas nem assim. António Lobo Antunes, nada, nem sequer a terminação. Cada vez mais acredito que os membros da Academia Sueca jogam muito bem às cartas mas não lêem, consomem briefings de modas políticas e tendências sociológicas, emborcam uns brännvins, e depois - bêbados, de olhos vendados e de costas - atiram um dardo ao mapa-múndi e onde calhar calhou. Já disse que cada vez mais, não disse? Pois então repito: cada vez mais estou como o nosso Lobo Antunes - quero que o Nobel se foda. E se a puta da seta com o prémio, para o ano, acertar aos trambolhões na minha casa, eu não estou, eu não quero.

Eu sou a vela do meu barco

Foto Hernâni Von Doellinger

Rogério Rodrigues

Stabat Mater

Mãe, não me lembro dos teus olhos.
Mãe, só me lembro do teu olhar.
Do esquecimento do tempo já não sei
os anos. Exaustos fixamos o futuro
com tantas amarguras do passado
que o sorriso é a última flor
que apertamos de mãos dadas
numa indiscreta ilusão. Somos dois
como "sino dolente na tarde calma".
Vestimos as palavras com trajes decentes
não vá o futuro pesar-nos na memória.

Mãe, quantos dos ecos não respondem à voz
apenas falsos simulacros do que quisemos
dizer? Não ligues, mãe, ao som do pássaro
desavindo com os seus. Errante ao crepúsculo.

Qualquer dia faz anos que a morte nos
ensombrou. Qualquer dia é sempre
um dia em que não sabemos porque
esse dia foi. Esperei esmagado que
os mortos ressuscitassem. Vem aí
o frio. Mãe, aconchega-me no teu
regaço flácido, como se houvera ainda
esperança que a neve nos tornasse
puros e isentos da morte do futuro.

Mãe, não me olhes como se não olhasses.
Deixo nas tuas mãos a última mágoa
de não ter sido feliz. Fui justo para contigo, Mãe.


"(Re)Cantos d'Amar Morto", Rogério Rodrigues

(Rogério Rodrigues, que usava o pseudónimo poético de Pedro Castelhano, nasceu no dia 17 de Fevereiro de 1947. Morreu na passada terça-feira.)

Adieu, gentille Alouette

Foto Hernâni Von Doellinger

Poesias completas e praticamente reunidas (vol. XIII)

Questões entre parênteses
Quando
os parênteses
lhe caíram
na lama
substituiu-os
por vírgulas.

Para cima e para baixo
Para baixo
todos os Santos
ajudam.
Para cima
são os Antunes.

No restaurante
Mandou vir
umas postas
de pescada.
A gerência
chamou
a polícia.

Like an angel
Canta como um anjo
toca como um anjo
dança como um anjo -
Dizem.

Digo:
quem já viu
um anjo a cantar
a tocar
ou a dançar
faça o favor
de se acusar!...

Pecando por defeito
Pecava muito
por defeito.
E que queriam?
Que pecasse
por virtude?...

Ano novo e inconsciente
Era um ano
muito novo.
Não sabia nada
da vida.

O cão de Astérix
O cão de Astérix
chamava-se
Jolly Jumper.
E uma vez 
foi ao país
dos sovietes.

O burro
Era burro
muito burro.
Tão burro
que não sabia...

Caminho 720

Foto Hernâni Von Doellinger

Francisco Tettamancy 5

As nosos

Tan sô n-esas terras
de Dios bendizón
que España n-outrora
criou con amor
de nai garimosa...
os gallegos bôs
que n-elas traballan
lembran aos de acó. 

Tan sô n-eses eidos
onde a emigración
á miles botóunos
deixando con door
a terra gallega...
os gallegos bôs
se d'ela alongados,
non a esquencen, non. 

Na terra arxentina

non ven por aló
a xente mandona
facer irrisión
da patria adourada...
virtudes... amor...
hachan á cotío
os gallegos bôs.

"Enredadas", Francisco Tettamancy

(Francisco Tettamancy nasceu no dia 10 de Outubro de 1854. Morreu em 1921.)

Gato vadio animal da vida

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O homem que era incapaz de matar moscas

Avelino Ferreira Torres morreu. Tinha 74 anos. Personalidade polémica, com coutadas no futebol e na política, provável introdutor do "populismo" em Portugal, foi presidente da Câmara do Marco de Canaveses durante mais de duas décadas. Teve nome em estádio, participou no reality show Quinta das Celebridades, da TVI, e esteve envolvido no processo Apito Dourado.
Paradigma rústico do quero, posso e mando, irascível, provocador, feitio rufião, sempre com uma ameaça na ponta da língua e disponível para resolver todas as questões à estalada, suspeito de ligação à rede bombista de extrema-direita (MDLP) no pós-Abril de 1974, Ferreira Torres passava a vida nos tribunais, acusado de tudo e de mais alguma coisa. De incitar à violência no futebol, de peculato e peculato de uso, com condenação, de falsificação de assinatura, de abuso de poder, de gestão danosa, de enriquecimento ilícito, de corrupção, de extorsão e até de ter ordenado a morte, não concretizada, de um ex-colaborador.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe de chofre para o jornal 24 horas, em Abril de 2008. "Que me mostrem onde é que eu mandei matar alguém. Eu sou incapaz de matar uma mosca. A partir de certa altura deixei de poder ver sangue. Quando era criança via e até ajudava a matar as galinhas e os porcos, mas agora, se vejo sangue, viro logo a cara para o lado", respondeu-me Avelino, numa exaltação de faz de conta e ditando cuidadosamente as palavras. Realmente, uma figura. E deixa-me saudades.

Interlúdio fotográfico 158

Foto Hernâni Von Doellinger

Um dia um grande homem

Escreveu um dia um grande homem. Leu em voz alta. Gostou do que ouviu: "um dia um grande homem".

Vida de cão 474

Foto Hernâni Von Doellinger

Ismael Nery 4

A noiva do poeta

A minha noiva se reparte toda nas minhas quatro amantes,
Sarah, Esther, Ruth e Rachel.
Sarah tem o seu ar e o seu corpo,
Esther tem a sua cor e seus cabelos,
Ruth tem o seu olhar e seu andar,
Rachel tem sua boca e sua voz.
A minha noiva magnífica só existe
Na minha imaginação.


Ismael Nery

(Ismael Nery nasceu no dia 9 de Outubro de 1900. Morreu em 1934.)

Só destes, tenho sete 112

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário de Andrade 7

Moça linda bem tratada

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
Uma bomba.

"Poesias Completas", Mário de Andrade 

(Mário de Andrade nasceu no dia 9 de Outubro de 1893. Morreu em 1945.)

Caminho 719

Foto Hernâni Von Doellinger

Francisco Añón 4

A Galicia

[...]
E dimpois un-a endrómena rara
Vin moverse con agoa fervente
E silvando com'unha serpente,
Como un lóstrego os campos cruzou.


Era aquel o porvir que xa soa
E d'as probes aldeas fay vilas...
Adios cantos e Musas tranquilas!
O imperio d'a industria empezou.

Acordey... O meu soño dourado,
Como fume pasou de repente,
E magoado o meu peito se sente
De soidades e amor palpitar.


Marmurey - ¡adorada Galicia!...
(E d'os ollos chovíanme as bágoas).
¡Quén pudera beber tuas agoas,
E teus aires feliz respirar!!!

[...]

"Poesías Varias", Francisco Añón

(Francisco Añón nasceu no dia 9 de Outubro de 1812. Morreu em 1878.)