sábado, 20 de julho de 2019

Foguetes, rabichas e foguetões

Não sei se se lembram: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se, entre nós, como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua, há 50 anos, que por estes dias se celebram, e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por lá se chamavam. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo coisa gasosa, eventualmente sonora e por norma fedorenta. Quer-se dizer: um peido, com vossa licença...

Lá me esqueci das chaves outra vez...

Foto Hernâni Von Doellinger

Iguais perante Deus

Somos todos iguais aos olhos de Deus. Cada qual no seu lugar.

Que estás pensando, mar dos veranistas?

Foto Hernâni Von Doellinger

O último comunicador

A minha missinha das oito é ouvir o Prof. José Hermano Saraiva a contar histórias na RTP Memória. Já o sei de cor como ao padre-nosso, mas gosto de o ter ali, exactamente ali, a servir de música de fundo ao meu jantar. Aqui que ninguém nos ouve, o homem tem tanto de historiador como eu de monge tibetano, o que lhe dá ainda mais valor: porque não há quem invente História tão bem como ele, não há quem estraçalhe com tanto panache tudo o que os verdadeiros especialistas escreveram com rigor, substituindo-o num estalar de dedos pelos seus próprios supores, e não há quem depois diga tudo o que acha com tanta graça, com tanta clareza, com um português tão perfeito e tão acessível e com tanta convicção. José Hermano Saraiva é único. Ele é o comunicador.
O professor sabe compor os "factos" como ninguém, sabe pintar a "realidade", consegue fazer com que a sua História seja sempre melhor e mais bonita do que aquilo que de facto se passou. E é cativante a contar. Vende bem. Muitas vezes não é verdade o que ele diz, mas podia ter sido, e a sua versão é sempre muito mais interessante do que a verdade ela mesma. Quase que se poderia dizer que, inadvertidamente, José Hermano Saraiva foi o inventor do moderno jornalismo português.

Ministro da Educação de Salazar, José Hermano Saraiva esteve no centro do vulcão que foi a crise académica de 1969. Figura polémica, criticado nos meios intelectuais e políticos, o professor ganhou o coração de sucessivas gerações de portugueses através dos programas que faz para a RTP. Penso, porém, que o fantasma do seu passado fascista às vezes ainda o incomoda. Num episódio onde revisitava os retratos dos vários presidentes da República, no Palácio de Belém, o professor deixou cair um curioso comentário sobre Canto e Castro, creio, que era monárquico convicto e assumido, que foi mesmo deputado no tempo da monarquia (eu percebi "ministro"), mas que ocupou depois, ainda que por pouco tempo, o cargo de chefe de Estado no novo Portugal republicano. "Fez a transição com elegância...", concluiu José Hermano Saraiva, e foi óbvio para mim que ele estava era a falar de si próprio, aproveitando para meter a ficha, como quem não quer a coisa, em mais um pouco de Omo.

José Hermano Saraiva foi considerado, sem favor, uma das "dez caras mais emblemáticas da RTP", num ranking que há uma dúzia de anos elaborei para a revista de fim-de-semana do jornal 24horas. O humorista Nilton dizia-me então que "nem o Google sabia tanto de História". Saraiva era um fenómeno de popularidade em Portugal e em todo o mundo onde se falasse e ouvisse português. Os seus programas na RTP - O Tempo e a Alma, A Alma e a Gente e Horizontes da Memória - foram anos a fio o menos e o mais que muito e bom povo aprendeu da história de Portugal.
Jurista de formação e historiador por vocação, antigo embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva era personalidade sem consenso sobretudo ao nível das chamadas elites pensantes. Os que não gostavam dele criticavam-lhe uma certa visão fantasista da História e o facto de não possuir qualquer grau académico superior nesta área do saber. Os seus defensores preferiam enfatizar as suas inegáveis capacidades de comunicador e de divulgador cultural junto das camadas menos instruídas da população. Alheio a estas guerras do alecrim e da manjerona, Saraiva continuava a ser uma presença assídua, entusiasta e apreciada na TV.

Comecei por dizer que gosto de ouvir o professor na RTP Memória. Ali, onde ele é ainda um jovem de 80 anos cheio de genica. Incomoda-me ver os seus novos episódios na RTP 2. Não consigo. Não lhe deviam fazer isto. Não o deviam deixar fazer isto.
José Hermano Saraiva tem 92 anos e continua na TV. É uma boa notícia em absoluto, apesar dos meus incómodos, que para o caso são irrelevantes. Hoje como ontem, novas gerações poderiam continuar a aprender com ele, se não História a sério, pelo menos a falar bom português e a respeitar e a amar o nosso património. Mas era preciso que se percebesse o que o homem diz naqueles monólogos inenarráveis!
Já não há Vitorino Nemésio, lembram-se? E acreditem no que eu digo: isto, sim, são comunicadores. O resto são habilidosos, meros entertainers. No dia em que José Hermano Saraiva, não o de agora, sair de vez dos ecrãs, acabou o que era bom. Destes já não há mais!

(Publicado originalmente no dia 11 de Outubro de 2011. José Hermano Saraiva nasceu no dia 3 de Outubro de 1919 e morreu no dia 20 de Julho de 2012.)

sexta-feira, 19 de julho de 2019

In american way

Foto Hernâni Von Doellinger

O livro

Chegou à última página com o coração partido entre a euforia e o desalento. Que mundo extraordinário, o livro. Quinhentas e sessenta e três páginas cheias de mistério, de sonho, de imaginação, de fantasia, certamente romance, amores e desamores, aventuras e desventuras, acção, suspense, final inesperado. Por outro lado, pensou, acariciando-lhe vagarosamente a lombada, num gemido mal disfarçado de suspiro: - Ah, se eu soubesse ler!...

Trotinetando 17

Foto Hernâni Von Doellinger

Rosário Fusco 3

Paisagem n.º 2

Uma hora.
O dia parou com o meu relógio.
 
Nem uma folha só planta ruídos.
Nada.
 
E eu fico pensando na ingenuidade daquele homem alto
que fala muito rouco
tosse
tosse
tosse
e vive a vida à toa 
quentando sol o dia inteiro. 

Rosário Fusco

(Rosário Fusco nasceu no dia 19 de Julho de 1910. Morreu em 1997.)

Interlúdio fotográfico 127

Foto Hernâni Von Doellinger

Infinito mas com limites

Deus é infinitamente bom. Mas convém não abusar.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Nas nuvens

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 155

Portugal manda tanques para o Irão
Portugal está a mandar tanques para o Irão. Para além de tanques, Portugal está a vender também estendais, cestos e molas.

Santa culpa
A culpa morreu solteira, virgem e pura tal qual veio ao mundo. Aguarda canonização.

Período de compensação de neutralizações
Esgotados, os seis minutos de descontos pediram ao árbitro que acabasse o jogo.

Fonte próxima
A abençoada borla da água fresquinha escorrendo cristalina da bica. Um consolo nas tardes de Verão, lavagem do carro nas manhãs de sábado. E a dois passos de casa...

Fonte confidencial
Descobriu-a sem querer aí num sítio, dá-lhe setenta e três garrafões por dia, e mais não diz.

Fonte limpa
Dois banhos por semana: à terça e à sexta. Não esquecer atrás das orelhas!...

Fontes & fontes
Fonte baptismal, fonte de vida, fonte luminosa, fonte milagrosa, fonte de alimentação, fonte de ignição, fonte da juventude, fonte de inspiração, fonte de transpiração, fonte termal, fonte de tráfego, fonte tipográfica, Fontes de Onor, Fonte Arcada, Fonte da Telha, Fonte das Sete Bicas, Fonte da Moura, Fonte do Bastardo, Fonte do Santo, Fonte da Cana, José Fonte, Fontes Pereira de Melo, Fontes Rocha, Fontes de Alencar, Águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar, Adios rios adios fontes.

Também faço isto muito bem 230

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Ferreira 3

De manhã a sol pôr, e pela noite dentro, andava tudo num sobressalto. Os tambores rufavam num rumor de luta que repercutia pelos subúrbios e se perdia para lá das redondezas da cidade. O impulso a loucura vinham daí. Do anúncio madrugador do troar ininterrupto que galgava de lés a lés e sobre a noitinha galvanizava novos e velhos, sobretudo as mulheres que pulavam gritavam felizes e azougadas.
Era. Quando em dias de São João os tambores irrompiam, de madrugada, dos acumes do Mindelo, vibrando pelos recantos da cidade, o povo ficava em pé de guerra.
Isto nos tempos antigos. Ou mais propriamente, como vão ter ocasião de ver, nos tempos da mocidade de nhô João. No tempo desse velho tão velho que pode contar histórias inverosímeis que fala de gente que muitos já não conhecem porque ele é dos mais velhos se não o mais velho de todos os velhos ali da Ribeira Bota.

"Morna", Manuel Ferreira

(Manuel Ferreira nasceu no dia 18 de Julho de 1917. Morreu em 1992.)

Só destes, tenho sete 94

Foto Hernâni Von Doellinger

Visão divina

Deus vê tudo. Mas fecha os olhos.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Batalha de Castillon, Fafe e os piononos

Foto Hernâni Von Doellinger

A Batalha de Castillon foi levada a efeito em 1453, faz hoje exactamente 566 anos, e ficou na História como a derradeira e decisiva batalha da Guerra dos Cem Anos, que decorreu razoavelmente entre franceses e ingleses. A França ganhou, e félicitations à la cousine. A Guerra dos Cem Anos chama-se Guerra dos Cem Anos porque durou cento e dezasseis anos, mas chamar Guerra dos Cento e Dezasseis Anos à Guerra dos Cem Anos não dava jeito nenhum aos historiadores e contabilistas bancários, e assim começaram os arredondamentos.
Eu cuido que a Batalha de Castillon se efectivou em Fafe, numa antiga elevação entre a Ponte do Ranha, o Socorro, a Fábrica do Papelão, a casa da Dona Aurora e o Estádio. Ali se situava, com efeito, o famoso monte de Castelhão, como se diz em português, ou Castilhom, como se diz em fafês. O monte de Castelhão era um sítio aprazível para a realização de todo o tipo de batalhas, como por exemplo brincar aos cobóis, e tinha um belíssimo pionono, de que infelizmente não há muita certeza. Mas deixemo-nos de ciência. Apontemos, antes, aos piononos de Fafe, que já aqui contei:

No monte de São Jorge havia um pionono. E constava que havia outro no monte de Castelhão. Fui testemunha de ambos, embora o segundo possa não ter existido. O pionono, para mim, era uma espécie de meco que ajudava montes de pouca monta a porem-se em bicos de pés, a chegarem-se a uma certa altura, a uma altura certa, a um número redondo que desse jeito falar. Quero dizer: era uma espécie de sapato de salto alto para caga-tacos, porém ao contrário, com o tacão virado para cima e usado na cabeça. Depois tomei conhecimento do Pio IX, mas nunca percebi a relação, e acho um insulto chamar-lhe marco geodésico. Ao papa.
Assim com maiúscula, o Pionono era exactamente em São Jorge, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. Ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se aos fentos para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem conseguir alcançar o que ela quereria dizer.
(As giestas também davam umas vassouras de categoria e o Trancadas era um barbeiro mesmo ao lado do tasco do Neca do Hotel, o que se revelava de uma comodidade extrema. Por falar nisso, lembro-me de descer um degrauzinho, mais cá para o centro da vila, ali entre a sombria loja da Rosindinha Catequista e a Cafelândia, mas esse era o Sr. António Grande, o segundo barbeiro do meu padrinho Américo. Eu ia lá com o meu padrinho mais o meu tio Zé da Bomba, aos sábados de manhã, que naquele tempo eram sempre de sol. Na espera lia-se "O Primeiro de Janeiro", mal eu sabia que ainda o havia de fazer. O meu padrinho Américo e o meu tio Zé da Bomba eram irmãos do meu pai, o grande Lando Bomba, e depois foram meus pais, à falta do propriamente dito, por razão de força maior.)
Hoje os montes de São Jorge e de Castelhão são casas e é o progresso. Fafe já não tem piononos. Mas, dizem-me, tem ainda a "Garrafinha" e historiadores até dar com um pau. Um deles, quem dera que não chova, ainda há-de contar esta como deve ser.

P.S. - Pio-nono será a forma "correcta" de escrever, se nos referirmos ao meco. Mas pionono pode ser também nome de doce muito popular em Espanha, na América Latina e nas Filipinas.

Na minha rua passa o mar 62

Foto Hernâni Von Doellinger

Para falar com Deus

Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...

Os meus cromos 67: Nuno Fernandes

Foto Hernâni Von Doellinger

João José Cochofel 4

Álcool

Partir,
sim, mas partir realmente,
definitivamente,
cobra que deixa a pela já crestada dos sóis
e se empoleira nas árvores como um pássaro.

Partir,
mas com a espontaneidade de quem sente que parte,
e não com o desespero
de quem quer fazer-se partir.
Partir,
que os hotéis de luxo têm seus quartos guardados para mim,
e os salões embandeirados de luz
esperam-me
Partir para Jungfraus e Niagaras,
e à noite embriagar-me entre cristais e mulheres!

Depois,
raspar com as unhas no chão e enterrar-me,
deixando os olhos de fora
para que neles poise
o último orvalho da manhã.

"Breve", João José Cochofel

(João José Cochofel nasceu no dia 17 de Julho de 1919. Morreu em 1982.)

Offshore se fashavore 262

Foto Hernâni Von Doellinger

Dirceu Quintanilha 3

A noite

No exato momento do grito
janelas e portas
amedrontadas,
fecham-se -
na noite do grito.

Na noite interna dos trincos
paredes, petrechos,
móveis-sombra,
vestem-se de silêncio.

Homens-mulheres-família
encolhem-se como vermes:
  - Estátuas
onde o sangue flui, o gelado -
em desamparo.

No exato momento do grito
noturno.

Dirceu Quintanilha

(Dirceu Quintanilha nasceu no dia 17 de Julho de 1918. Morreu em 1994.)

Estou mesmo a ver o filme 109

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 16 de julho de 2019

Microcontos & outras miudezas 154

Ponto de honra
Licenciou-se. Fez três mestrados, uma pós-graduação, uma pós-produção e uma pós-tulação. Arranjou trabalho num call center. O pai, preocupava-o o pai: certamente desiludira o cota. O cota dizia-lhe que não: - Meu filho, qualquer emprego é bom e digno desde que seja honesto. Ainda que assaltes bancos ou roubes velhinhas, se o fizeres honestamente, serás sempre o meu orgulho.

Estereofonia
- Agora os auriculares: este tem um L, de left, e é para a orelha esquerda...
- E o outro?...

Mais leve que o ar
Há quem seja magro, mas Hélio abusava. Um dia levantou voo.

À vez
A casa dos sete anões era tão pequena que só lá cabia um. Com os pés de fora. 

À vez 2
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões brincava aos médicos, há quem diga. 

Lições de História: Isaías
Isaías era profeta. Filho de Amoz, nasceu por volta de 765 a.C., acompanhou os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, uma linha média de se lhe tirar o chapéu quando disposta em 4-4-2 losango, casou com uma mulher conhecida apenas pelo nome de Profetisa, que o marido lhe pôs, e tiveram dois filhos: Sear-Jasube e Maer-Salal-Hás-Baz. Está-se a ver, portanto, aonde é que os brasileiros e a Luciana Abreu vão buscar os nomes para os  seus rebentos.
Isaías escreveu um livro para a Bíblia chamado especificamente Livro de Isaías para não ser confundido com o Deuteronómio. A crítica não lhe foi favorável. Diversos especialistas descrêem que a obra tenha um único autor, Isaías ele próprio, vendo-a, antes, como um trabalho a várias mãos e de diferentes épocas, coligido eventualmente no ano 400 a.C, ou até mais tarde. Isaías seria assim uma espécie de escritor dos nossos dias, nome de capa, escritor do que já foi escrito. Por outros.
Amuado com semelhante desmerecimento público, Isaías deixou-se de profecias, abandonou o reino de Judá e veio jogar futebol para Portugal, em 1987. Começou pelo Rio Ave, brilhou no Boavista e foi para o Benfica, onde fez cinco épocas, 178 jogos e 71 golos, ganhou dois campeonatos e uma Taça. Passou pelo Coventry City, de Inglaterra, e tornou cá em 1999, para representar o Campomaiorense. Regressou ao Brasil em 2000 e pendurou as botas em 2003.
Ficaram célebres os seus dizeres numa por acaso flash interview: "Ouvi a palavra do Senhor, príncipes de Sodoma, escutai a lei do nosso Deus, povo de Gomorra."

Caminho 683

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Dionísio 6

Uma mulher quase nova

uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora


"O Riso Dissonante", Mário Dionísio

(Mário Dionísio nasceu no dia 16 de Julho de 1916. Morreu em 1993.)

Interlúdio fotográfico 126

Foto Hernâni Von Doellinger

Omnipotente

Deus pode tudo. O bem e o mal?...

Também faço isto muito bem 229

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Rosalía de Castro 8

Bos amores

Cal olido de rosas que sai de antre o ramaxen
nunha mañán de maio, hai amores soaves
que n'inda vir se sinte, nin se ve cando entraren
pola mimosa porta que o corazón lles abre
de seu, cal se abre no agosto
a frol ó orballo da tarde.

E sin romor nin queixa, nin choros, nin cantares,
brandos así e saudosos, cal alentar dos ánxeles,
en nós encarnan puros, corren coa nosa sangre
i os ermos reverdecen do esprito onde moraren.

Busca estes amores..., búscaos,
si tes que chos poida dare;
que éstes son sóio os que duran
nesta vida de pasaxen.
 

"Follas Novas", Rosalía de Castro

(Rosalía de Castro nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1837. Morreu no dia 15 de Julho de 1885.)

Chovera em Santiago

Foto Hernâni Von Doellinger

Dama com armário

Pediu ao amante um armário. E o amante comprou-lho. Quando o móvel lhe entrou em casa é que ela deu fé do engano. Ela queria um arminho...

Trotinetando 16

Foto Hernâni Von Doellinger

Henriqueta Lisboa 3

Noturno

Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.


"Prisioneira da Noite", Henriqueta Lisboa

(Henriqueta Lisboa nasceu no dia 15 de Julho de 1901. Morreu em 1985.)

Interlúdio fotográfico 125

Foto Hernâni Von Doellinger

Anilda Leão 3

À procura da infância

Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.

 "Chão de Pedras", Anilda Leão

 (Anilda Leão nasceu no dia 15 de Julho de 1923. Morreu em 2012.)

Na minha rua passa o mar 61

Foto Hernâni Von Doellinger

Luísa Villalta 4

A estación
 
Onda nós nunca pasan os trens.
só chegan ou parten.
Por iso tamén somos nós
a nosa última estación
o noso amor definitivo.


Así podemos marchar
no único sentido posibel
ou esperar o avalo dos viaxeiros
para sentirnos expandidos nas miradas extrañas
que chegan arrastrando as bambalinas do mundo.


Onde nós non hai nunca outro destino
que ser un anónimo fin
ou un glorioso comezo.


Máis alá
máis alá somente o mar
e a incertidume da luz
o extremo
o abismo
o espello detido en nós.


"En Concreto", Luísa Villalta 

(Luísa Villalta nasceu no dia 15 de Julho de 1957. Morreu em 2004.)  

Caminho 682

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 14 de julho de 2019

O dia do anho

Os domingos tinham esse pequeno problema, e quem for de Fafe e antigo sabe do que falo: tripas ou vitela assada? Era a verdadeira questão, o dilema do almoço dominical. Os fafenses, gente de bom comer e satisfatório beber, resolveram facilmente o assunto, há muito, muito tempo: isto é, em vez de tripas "ou" vitela assada, o almocinho de domingo passou a ser tripas "e" vitela assada. Nem Salomão, no seu ancestral e sábio critério, tomaria decisão mais acertada.
A vitelinha guiava-se em casa, com vagar e carinho, com as voltinhas todas, e as tripas, regra geral, iam-se buscar num tachinho à Esquiça ou à Pacata, consoante a ideia que cada um tinha acerca da sua própria posição social.
Começava-se portanto pelas tripas, e a seguir vinha a vitela. O apetite era gerido ao milímetro, mais ou menos um bocadinho daquelas, mais ou menos um bocadinho desta - porque, como determina o princípio da impenetrabilidade da matéria, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e as vacas é que têm felizmente quatro estômagos. Ora bem: a malta nova, pouco dada à tripalhada, reservava-se para a chicha com batatinha de ouro e arroz de forno. Mas de quando em quando reservava-se mal. Como daquela vez em que o nosso Zé não tocou no feijão. Perguntaram-lhe se estava doente, se tinha fastio, se queria um caldinho branco, se queria meter o termómetro. Que não, que não, que não e que não, respondeu respectivamente, e explicou todo gaiteiro: - Estou a guardar-me para a vitela!
Naquele domingo não havia vitela. E as tripas já tinham saído da mesa...

Moral da história: contar com a vitela no cu da galinha, por assim dizer, e com licença de vossências, pode ser uma merda.

Mas hoje, 14 de Julho de 2019, o dilema gastronómico nem se coloca, em Fafe. Hoje é dia da extraordinária procissão da Senhora de Antime, tremenda e comovente, multitudinária e única. E a seguir à procissão é agnus day, quer-se dizer dia do anho. E da vitela. E eventualmente das tripas, aquele meio tachinho que ficou guardado de ontem... 

(Onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada". À moda de Fafe. A vitela assada à moda de Fafe, quando bem feita, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo. A confraria da dita não veio ajudar nada, antes pelo contrário, mas veste que é uma categoria.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 125

Foto Hernâni Von Doellinger

A lebre de serviço

Os principais favoritos organizaram uma tainada e comeram a lebre. Depois fizeram tempos de merda.

Vida de cão 457

Foto Hernâni Von Doellinger

Demóstenes Cristino 2

Raça

O Brasileiro traz dentro de si
Um Português, um Negro e um Índio Guarani.
O Luso deu-lhe a fibra audaz, arrojadiça
O bugre a natureza apática, a preguiça,
O amor à pesca, a inclinação à caça.


No excesso de carinhos e de zelos,
Reflecte do africano o doce coração
E, às vezes, dos cabelos, aquela permanente ondulação...
Em harmonia vivem sempre os três;
Enquanto o Negro bebe e o Guarani batalha,
O pobre Português trabalha.

Mas ai! Se no esplendor da graça,
Quebrando as ancas em lascivo jogo,
Uma morena passa:
O Negro dança,
O bugre pega fogo,
E o Português... avança!


"Musa Bravia", Demóstenes Cristino

(Demóstenes Cristino nasceu no dia 14 de Julho de 1894. Morreu em 1962.)

Offshore, se fashavore 261

Foto Hernâni Von Doellinger

Omnipresente

Deus está em toda a parte. Mas não é geral.

Potente

Foto Hernâni Von Doellinger

O encontro das duas senhoras

- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas ladainhas altifalantadas, estes tambores, este sol, este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas, vá indo que eu vou do meu vagar...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.

sábado, 13 de julho de 2019

Quando o Texas era um tasco e era em Fafe

Foto Hernâni Von Doellinger

O Texas era um tasco e era em Fafe. Chamava-se também Quiterinha, derivado ao nome da dona, senhora respeitável, ou Pensão Império, e eu nunca soube derivado a quê. Estão a ver a Rua Monsenhor Vieira de Castro, quem vai para o Picotalho, do lado do Cinema, depois da padaria e encostado ao Noré, mesmo em frente à cabine, antes de chegar às Grilas e ainda mais às Turicas, nas barbas da procissão da Senhora de Antime? O Texas era exacta e geograficamente aí, previamente a ter-se instalado de armas e bagagens no sul dos Estados Unidos da América, resvés com o México, segundo vi depois nos filmes a cores.
O Texas, o nosso Texas, o verdadeiro Texas, era a preto e branco e tinha, após o balcão, um reservado com vista para a cozinha e para os campos do Santo, onde hoje se ergue o cimento do Pavilhão Municipal. Foi no nosso Texas, na sala da frente, que eu vi na televisão os jogos de Portugal no Mundial de 1966. Eu e a RTP éramos miúdos da mesma idade. Ao Texas fui com o meu pai, no Texas confraternizei com os músicos antigos da Banda de Revelhe, que tinha casa de ensaio ali a dois compassos, coisa tão a calhar, com o querido Senhor Ferreira do Hospital ou com o Queirós, meu camarada bissexto na fábrica e provavelmente o melhor tintureiro do mundo, desse-se o caso extraordinário de ele aparecer ao trabalho...
Vamos dizer, então, que o Texas, o nosso, era uma casa de pasto - sem ofensa para todos os verdadeiros americanos do faroeste, incluindo gado cavalar e vacum. As portas do Texas eram verdes, mas não eram de saloon. Cobóis, apareciam alguns, sobretudo às quartas-feiras, porém não me lembro de tiros. Naquele tempo em Fafe, terra de paz e amor, matava-se mais à sacholada e a Justiça de Fafe era um postal com quadras bairristas do Zé de Castro, poeta-cauteleiro, o nosso Aleixo. Borracheiras havia-as, e eram acontecimento de alta patente, é preciso que se note. Não tínhamos xerife, mas tínhamos o Chester, tínhamos o regedor de pistolete à cinta e tínhamos o Miguel Cantoneiro, que tinha uma questão com os erres e, para todos os efeitos, também era autoridade. Às vezes, quando não era precisa, também tínhamos polícia...
Em todo o caso: no Texas, no nosso Texas, um pascácio do calibre de Donald Trump nunca seria eleito sequer para fazer a escrita da sueca...

P.S. - A sueca é realmente boa como o milho, tem umas mamas que eu sei lá e um rabo que não desfazendo, mas, para que conste, já está servida de contabilista.

Interlúdio fotográfico 124

Foto Hernâni Von Doellinger

O benfeitor

Era um recatado benfeitor: não queria que se soubesse que ele queria que se soubesse.

Um gato no altar

Foto Hernâni Von Doellinger

José Agrippino de Paula 2

As vitrinas e os bares estavam iluminados e a multidão transitava em todos os sentidos cercando os carros que se amontoavam ao lado dos outros. Estava frio e eu segurava Marilyn pelo ombro. Marilyn estava protegida por um casaco de lã e caminhava absorvida em si mesma olhando para o chão. Ela aprovava ternamente a atitude que eu tinha tomado em relação a ela; Marilyn Monroe repetiu que eu não era culpado, mas que o erro era dela de não ter sido como eu pretendia. Eu continuava segurando fortemente Marilyn pelo ombro como se pretendesse protegê-la e pretendesse me desculpar da minha atitude em relação a ela...
Eu e ela fomos encontrar Clark Gable, que nos esperava sob o Arco do Triunfo. Eu cumprimentei Clark Gable e nós saímos passeando os três, eu e Clark Gable abraçados a Marilyn. Marilyn Monroe caminhava silenciosa e infantil entre nós dois, e naquele instante eu senti uma grande ternura por ela e beijei sua boca. A ternura que eu sentia por Marilyn Monroe se transmitiu para Clark Gable, que sorriu grave e beijou Marilyn na face. Eu e Clark Gable nos sentíamos bem ao lado de Marilyn. Marilyn Monroe encontrou uma amiga e parou para conversar na frente da vitrina. Eu me introduzi na conversa falando com a amiga de Marilyn, enquanto procurava esconder com o corpo o índio brasileiro enfeitado de penas que estava nu exposto na vitrina. O enorme e mole pênis do índio caía até o joelho e eu não queria que Marilyn Monroe visse o tamanho do sexo do índio brasileiro...

"PanAmérica", José Agrippino de Paula 

(José Agrippino de Paula nasceu no dia 13 de Julho de 1937. Morreu em 2007.)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 124

Foto Hernâni Von Doellinger

Fontes & fontes

Fonte baptismal, fonte de vida, fonte luminosa, fonte milagrosa, fonte de alimentação, fonte de ignição, fonte da juventude, fonte de inspiração, fonte de transpiração, fonte termal, fonte de tráfego, fonte tipográfica, Fontes de Onor, Fonte Arcada, Fonte da Telha, Fonte das Sete Bicas, Fonte da Moura, Fonte do Bastardo, Fonte do Santo, Fonte da Cana, José Fonte, Fontes Pereira de Melo, Fontes Rocha, Fontes de Alencar, Águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar, Adios rios adios fontes.

Na minha rua passa o mar 60

Foto Hernâni Von Doellinger

Omnisciente

Deus sabe tudo. Mas às vezes esquece-se.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Se cá nevasse, fazia-se cá ski

Foto Hernâni Von Doellinger

O papel

Conseguiu finalmente acabar com o papel na sua empresa. Nas casas de banho notou-se logo.

Também faço isto muito bem 228

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Antonio 3

Navy Bar

Este bar ten balances
E tamén está listo
pra se facer á vela

Enchéronnos o vaso
con toda a auga do Mar
pra compor un cocktail de horizontes

Pendurados das horas
atlas xeográfico de esperantos
están sen tradución
E tatexan as pipas
co ademán políglota das bandeiras

Ese cantar improvisado
é o mesmo
que xa se improvisou nalgures

Quen chegou avisándonos
desa cita nocturna que temos
co vento ao NE
na encrucillada das estrelas apagadas?

Aquí bebe de incógnito
o Mariñeiro Desconecido
- sen xeografía nin literatura -
A noite dos naufraxios
co seu brazo salvavidas
aferrará connosco unha vela de chuvascos

O vaso derradeiro
estaba cheo de despedidas 


Polas rúas dispersas
íamonos fechando
cada un dentro da súa alta mar

No repouso dalgún vaso
tódalas noites naufraga o Bar.


"De Catro a Catro", Manuel Antonio

(Manuel Antonio nasceu no dia 12 de Julho de 1900. Morreu em 1930.)