domingo, 8 de dezembro de 2019

Os três reis magos afinal eram quantos?

Os três reis magos eram não se sabe quantos, e na verdade nem eram reis nem eram magos. Provavelmente inexistiram. Ou então seriam moët & chandon. Mas isso não interessa. O certo é que, depois de terem adorado o Menino Jesus, em Belém, e de lhe terem oferecido ouro, incenso, mirra, um tambor e um carrinho de bombeiros, dedicaram-se à bola: Gaspar brilhou no Rio Ave, Baltasar fez seis épocas no Sporting e Belchior jogou na selecção de futebol de praia.

Também faço isto muito bem 294

Foto Hernâni Von Doellinger

Florbela Espanca 7

Passeio ao campo

Meu Amor! meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...

Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! -

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...

"Charneca em Flor", Florbela Espanca

(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)

Dorme, dorme, meu menino

Foto Hernâni Von Doellinger

Fernanda de Castro 6

Os anos são degraus

Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?


"Asa no Espaço", Fernanda de Castro

(Fernanda de Castro nasceu no dia 8 de Dezembro de 1900. Morreu em 1994.)

Rompe o mar tamarindos pela espuma

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 7 de dezembro de 2019

Assassinado por formigas

Quando saiu a notícia de que Cícero foi assassinado em Fórmias, edição de 7 Dezembro de 43 antes de Cristo, houve logo quem percebesse que o ilustre político, escritor, orador e filósofo romano fora devorado por formigas. Hoje em dia na nossa comunicação social o lamentável equívoco persiste. Porque os jornais digitais e até os analógicos não têm tempo para.

Leden 747

Foto Hernâni Von Doellinger

Dezassete magníficos e um atrevido

Já restavam poucos, cada vez menos, mas juntavam-se ano após ano, vindos do país inteiro: o Aguiar da Beira, o Ferreira do Alentejo, o Vieira do Minho, o Miranda do Douro, o Castanheira do Ribatejo, o Costa da Caparica, o Nogueira da Maia, o Oliveira de Azeméis, o Vale de Cambra, o Canas de Senhorim, o Leça da Palmeira, o Figueira de Castelo Rodrigo, o Freixo de Numão, o Sobral de Monte Agraço, o Lajes do Pico, o Santiago do Cacém, o Vila Nova de Cerveira e o Antunes de Pevidém, que nem sequer foi à tropa e ninguém sabe como é que começou a aparecer...

Na minha rua passa o mar 70

Foto Hernâni Von Doellinger

Ary dos Santos 8

Nona Sinfonia

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.


"O Sangue das Palavras", Ary dos Santos

(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)

Também faço isto muito bem 293

Foto Hernâni Von Doellinger

Soledade Summavielle 8

Paz

Não a dou, não a tenho, nem a quero.
A vida é lume, é luta permanente.
Prefiro, à paz e à calma, um marulhar,
uma inquietação de água corrente.
Sem combate, sem anseio e sem paixão,
descansarei na morte eternamente.

"Tumulto", Soledade Summavielle

(Soledade Summavielle nasceu no dia 7 de Dezembro de 1907. Morreu em 2000.)

Menina de bicicleta

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Quando Bento XVI escangalhou o presépio

Joseph Ratzinger tinha 85 anos quando, em 2012, resolveu escangalhar o presépio. Tirou a vaca e o burro, porque - dizia o então papa e actual contrapapa - no local do nascimento de Jesus "não havia animais". Portanto também não havia ovelhinhas, o que quer dizer que também não houve pastorinhos do deserto. Sobravam, isso sim, os três reis magos. Gente fina, vinho de outra pipa. Reis. E magos (porque o champanhe ainda não tinha sido inventado). Esses, é certo, estiverem lá, em representação de toda a humanidade - segundo Bento XVI. Estiveram os reis magos e os anjos cantadores.
Eu por acaso até era mais dado a acreditar no burro e na vaca do que na mirabolante história de Gaspar, Melchior e Baltasar, uma boa linha média para quem jogue em 4-3-3, mas que se há-de fazer? Mais de dois mil anos a aquecerem o Menino com os respectivos bafos e é este o pagamento que o burrinho e a vaquinha recebem.
Sempre atento às verdadeiras e mais urgentes necessidades do mundo e da cristandade, Ratzinger, o reaccionário e intriguista, resolveu escangalhar o presépio. Estaria no seu direito. Mas no meu não mexe! Tarrenego!

Ausento-me de mim por ti, mar

Foto Hernâni Von Doellinger

José Carlos Schwarz 4

Os novos heróis

Digo-te que os novos heróis chegarão
Marchando ao compasso do nosso hino
Em que se entoam as esperanças,
Daqueles que com o seu sangue generoso regaram
A Pátria que hoje pisam os seus continuadores
Chegarão vindos dos campos, das bolanhas, das minas
A terra será livre na sua entrega amorosa e fecunda
Sem temer a violação de bombas criminosas,
A conspurcação de botas mercenárias.
Chegarão, a paz temperando-se no sal do seu suor
Dentre os tempos novamente pioneiros
- Pois que serão as metas atingidas
Senão novos pontos de partida, novos desafios? -
Dentre ventos soalheiros a aumentar a produção,
Virão verticais e seguros das suas raízes
Das fábricas modelando novos horizontes às tabancas,
Para que as culturas ancestrais transbordando as nascentes
Galguem novos espaços, ganhem novas alturas.
Estes homens serão colheita e sementeira, gérmen e fruto
Da sociedade nova porque se forjam e morrem os heróis!

"Momentos Primeiros da Construção", José Carlos Schwarz 

(José Carlos Schwarz nasceu no dia 6 de Dezembro de 1949. Morreu em 1977.)

Vida de cão 490

Foto Hernâni Von Doellinger

Joanyr de Oliveira 3

Quase à guisa de Bertolt Brecht 

Os donos da indústria bélica
louvam a destreza das máquinas
em seus partos desvairados
de canhões, morteiros, bombas,
fuzis, metralhas e lâminas
nos campos da guerra.

Aplaudem os genocídios,
freneticamente. Brindam à saúde
de suas contas bancárias.
Os donos da indústria bélica,
sem olhos para os órfãos,
sem tímpanos sensíveis
ao clamor lancinante
das noivas e viúvas.

Os donos da indústria bélica,
parceiros de corvos, de abutres,
brindam ao regozijo das trevas
nos campos de batalha,
a sorver na mais funda sofreguidão

o sangue dos mortos.
 

"Tempo de Ceifar", Joanyr de Oliveira 

(Joanyr de Oliveira nasceu no dia 6 de Dezembro de 1933. Morreu em 2009.)  

Vojo 746

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A língua brasileira

A língua brasileira, também designada brasileiro, é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o brasileiro é a quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.
A língua portuguesa, também designada português, é falada e escrita por uns quantos velhos e irredutíveis como eu.

Do tempo em que havia Correios e ardinas

Foto Hernâni Von Doellinger

Walt Disney, o da carona

Conheci muito bem Walt Disney. Falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café. Nos livros aos quadradinhos é que já era a cores e ensinou-me a palavra carona, de que eu gostava muito, quase tanto como da palavra parreca, que eu já sabia das feiras e romarias. Se fosse vivo, o velho Walt faria hoje 118 anos, o que, convenhamos, constituiria façanha digna de registo.

Sou todo ouvidos

Foto Hernâni Von Doellinger

Poesias completas e praticamente reunidas (vol. XVI)

25 de Abril
Vinte e cinco de Abril
sempre,
nem que seja
só às vezes. 

A minha cara
Ofereceram-me um livro.
"É a tua cara", disseram-me.
O livro resumia-se
a uma fotografia.
E era realmente
a minha cara.

Allegro ma non troppo
Deu-lhe um baque. Ele agradeceu, mas preferiria um rimsky-korsakov.


Burro
Era burro,

muito burro.
Era tijolo,
e convinha-lhe. 

A minha língua é a minha língua
Fernando, pessoa?
Florbela espanca?
Cesário, verde?
Gomes, leal?
António, nobre?
José, régio?
Ary, dos santos?
Manuel, alegre?
Ruy, belo?
Manuel, bandeira?
Álvaro, guerra?
Arnaldo saraiva?
António Ramos, rosa?
Valter Hugo, mãe?
Manuel, maria?
António José, forte?
Camilo Castelo, branco?
Jorge, amado?
Hélder Gomes cancela?
Amílcar Ramalho, curto?
António, ferro?
Vinicius, de moraes?
Fernando namora?
Manuel António pina?
Pois não sei com exactidão, e as opiniões dividem-se, mas é o que consta.

Quando eu era pequenino

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu seja invisualzinho!

As árvores. As árvores acendem-se, tremeluzem como se estivessem bêbadas, e é o que ouço na rua às pessoas que comem palavras como o nosso querido e obeso primeiro-ministro, ainda que no caso das pessoas sejam palavras pequenas, palavras ínfimas, praticamente de dieta, come-se o artigo definido à falta de alimento substantivo, catam-se migalhas, palavras de uma letra só, e mais vale comer palavras, ainda que resumidas e insossas, do que não comer nada. Ouço, como se fossem dois pré-cegos:
- Então, se não voltar a ver, um bom Natal e feliz ano novo...
- Para si também, se não voltar a ver, um Natal feliz e muitas prosperidades...

The Way 745

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Frank Zappa, coincidência fatal

No dia 4 de Dezembro de 1971, em Montreux (Suíça), um incêndio provocado pelo disparo de um foguete de localização destruiu o casino onde tocavam Frank Zappa e os Mothers of Invention. A visão do incêndio foi fonte de inspiração da icónica canção "Smoke on the Water" dos Deep Purple, que assistiam ao concerto de Zappa, na plateia, mesmo em frente ao palco.
No dia 4 de Dezembro de 1993, Frank Zappa morreu vítima de cancro na próstata, pouco antes de completar 53 anos.

Interlúdio fotográfico 197

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos Magno, filho da Berta dos Pés Grandes

Carlos Magno nasceu em 742, filho de Pepino o Breve e de Berta de Laon, também conhecida como Berta dos Pés Grandes. Foi rei dos Francos e imperador do Ocidente, entre outros empregos e honrarias. Mais papista do que o Papa quando lhe dava jeito, conquistou meia Europa e teve, que se saiba, pelo menos quatro mulheres: Desiderata, Hildegarda de Vinzgouw, Fastrada e Luitgarda. Parece impossível que em Portugal não tenha passado de presidente da ERC, a imprestável Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

P.S. - No dia 4 de Dezembro de 771, Carlos Magno, o filho da Berta, tornou-se rei de todo o Império Franco.

Ó minha branca e pequenina lua!

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 184

Einstein, o culturista
O Dia do Físico realiza-se sorrateiramente a 19 de Maio derivado a um tal Albert Einstein, alemão americanizado, guedelhudo e linguarudo, precursor dos Beatles e inventor dos Rolling Stones, do buraco negro, do bigode libertário e dos ginásios a céu fechado e céu aberto, amigo de Pôncio Pilates e sócio de Che Guevara num abastado negócio de T-shirts, tatuagens e posters. O Alberto era, com efeito, um gajo de abdominais bem definidos, muito dado à malhação, ao halterofilismo, ao triatletismo, ao lançamento do disco e do livro, ao culturismo e a todos os tipos de bombas, nomeadamente a atómica.
Einstein nasceu a 14 de Março e morreu a 18 de Abril. E por isso, feita a equação, noves fora, dá 19 de Maio. Científico.

Iniciação
Mandaram-no foder. E ele foi. E gostou bastante.

Riminha
O caracol
leva a casa
a tiracol.

Temperaturas
Diz o Fahrenheit ao Celsius, quero dizer, diz o físico alemão Daniel Gabriel Fahrenheit ao astrónomo sueco Anders Celsius: - Andas a ferver em pouca água, pá!...

Ele há dias
Há dias que mais valia não terem nascido.

O caguinchas e o chupista
Ora muito bem. O caguinchas é o cagarola, o não-se-astrebe, o medricas, o medroso, o merdoso, o maricas, o coninhas, o cobardolas, o caga-na-saquinha (cá está), o cagão, o varas-verdes, também o receoso, o temeroso, o fraco, o covarde ou o cobarde, mas esta parte já não tem piada nenhuma.
E o chupista? O chupista é o comedor, o parasita, o gosma, o chulo, o mamador, o mamão, o lambão, o sanguessuga, o rapador, o papa-jantares, o moina, o moinante, o chorinhas, o pedincha, o pedinchão, o videirinho, também o beberolas, o cachaceiro, o beberrão, o interesseiro, o extorsionário, o chantagista, o nosso banco, o oportunista ou o aproveitador, mas esta parte já não tem piada nenhuma.
Caguinchas e chupista. Feitios. Se estes dois desgraçados traços de carácter coincidirem numa mesma e única pessoa, então, consoante o feitio dominante, estaremos na presença de um chupinchas ou de um caguista.

P.S. - Chupiu era um tasco em Fafe, entre o Estádio e o Belinho, no gaveto do início do Picotalho com a Rua José Ribeiro Vieira de Castro, e evidentemente não tem nada a ver com esta história.

Os gatos conhecem a eternidade

Foto Hernâni Von Doellinger

Popota e Leopoldina vs. Pai Natal e Menino Jesus

A Popota e a Leopoldina já por aí andam, os amigos com quem não falamos há 351 dias ligam-nos repentinamente por causa do tal almoço, as ruas esburacadas ganham luzinhas pisca-pisca e continuam esburacadas, as castanhas assadas saíram este ano uma categoria, o José Marinho, graças a Deus, já só fala para benfiquistas, os filmes e séries de televisão começam a puxar à lágrima, chove que é uma desgraça, e se não chovesse também era, e portanto quer dizer que estamos no Natal. Tolero os amigos absentistas, as iluminações adventistas, os aquénios de ouriço cheios de bolor e bicho, que nem foi o caso, e até o superimbecil Marinho, se não o ouvir. Já quanto à Leopoldina e à Popota, que se me afiguram razoavelmente prostitutas, eu continuo a preferir o Menino Jesus.

Também faço isto muito bem 292

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Naquele tempo o Menino Jesus era nosso

As coisas em que a gente acredita quando é miúdo! Eu, por exemplo, acreditava piamente que o Menino Jesus era português - morra já aqui se estou a mentir. Eu ia à missa, ajudava, ouvia com gosto aqueles bocadinhos de Bíblia e fazia a conexão que se impunha: se a Samaritana é de Coimbra, se os apóstolos são todos portugueses - João e Tiago, filhos de Zebedeu, Pedro, André, Mateus, Tomé, Bartolomeu, e por aí fora -, se o Jordão é em Guimarães e o Calvário em Fafe, se Roma é uma avenida em Lisboa, se Nazaré e Belém são nossos, então o Menino Jesus também é. Deus é nosso. Se Deus quiser até joga na Selecção e marca os golos que Lhe apetecer. Já grande, e após alguns anos de reeducação nos trabalhos forçados do seminário, passei a olhar com um certo carinho e determinada melancolia para esta minha crença infantil e patriótica. Depois veio Cavaco Silva, em 2006, e eu deixei finalmente de acreditar. Dediquei-me à exegese, à hermenêutica, à toponímia, à geografia e à natação sincronizada sob chuveiro, sem ofensa para os presentes e apenas às primeiras quartas-feiras de cada mês, de três em três meses, dez minutos antes de me deitar.

E parece que foi ontem... 6

Foto Hernâni Von Doellinger

Lamparina

Quando, no meio da discussão e dos encontrões, lhe ofereceram uma lamparina, ele aceitou de bom grado e deitou abaixo a ligação à EDP.

Quero o coreto com a banda!

Foto Hernâni Von Doellinger

Cruzeiro Seixas 3

Poema da profundidade horizontal

Pintem uma paisagem dentro de outra
porque nisso está a verdade.
Olhem como avançam cautelosamente
pela falésia a pique;
uma curta aprendizagem
na agulha da torre
bastou.
Olho-te como para uma lente de aumentar,
uma luz para mais iluminar,
como se fosses antes de haver luz
uma pedra preciosa,
a causa das guerras:
dorme sobre os joelhos
e sente
revir ao mesmo tempo
automaticamente
os braços superiores laterais
enferrujados,
como a luz do velho farol.
Beija os dez cães que há dentro de um cão vadio,
os cem homens que há dentro de um homem,
de tal maneira que
o ar fique em chamas
e seja a única salvação
a mão do mar eternamente
na nossa fronte.


Cruzeiro Seixas

(Cruzeiro Seixas nasceu no dia 3 de Dezembro de 1920)

Há casas que são um poema

Foto Hernâni Von Doellinger

Adeodato Barreto 3

As azinheiras

São como eu aquelas azinheiras
do montado...


Como o verão alegre põe doçuras
e sorrisos no côncavo estrelado,
aprestam, em sorrisos, seu toucado
e vão erguendo ao céu os galhos novos.


Mas sob o verde-claro dos renovos
o negro da tristeza
se lhes adensa, em rama, tristemente

nos abrigos;

e quem as vê por dentro já pressente
o inverno que ameaça a Natureza:
- igual ao que se adensa na minha alma,
igual ao que não vêem meus amigos...


"O Livro da Vida", Adeodato Barreto 

(Adeodato Barreto nasceu no dia 3 de Dezembro de 1905. Morreu em 1937.)

Bate-boca, bate-bola

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Callas e os homens

Aristóteles nasceu exactamente fará 112 anos no próximo dia 15 de Janeiro, ou então no próximo dia 20 de Janeiro também exactamente - os historiadores ainda não se entenderam quanto ao assunto. Aristóteles era grego e uma grande cabeça. Fundador da escola peripatética e do Liceu, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, foi talvez o maior e certamente o mais rico empresário do mundo, teve um romance com a famosa cantora lírica americana Maria Callas e casou com Jacqueline Kennedy, viúva de John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos assassinado dizem que por um ex-fuzileiro naval chamado Lee Harvey Oswald, a quem, por causa das coisas, também tiraram a tosse. Fora do seu círculo restrito de amigos, Aristóteles era conhecido como Onassis: Aristóteles Onassis. 

Hermógenes era um filósofo grego que viveu nos séculos V e IV antes de Cristo. Filho de Hipónico e de Cálias III, pertencentes à abastada família Cálias da qual viria a sair a soprano Maria, frequentou Platão e são-lhe atribuídas tiradas tão extraordinárias como, por exemplo: "Quem fica deitado pode não cair, mas não aprende a andar" ou "O viajante nunca está só. Anda com ele o desejo de chegar". A crítica da época não lhe reconhecia grande génio.
Se calhar por isso, anos mais tarde, isto é por volta de 1970, Hermógenes dedicou-se ao futebol. Foi um honesto defesa direito sobretudo ao serviço do seu Rio Ave, onde jogou mais de dez épocas, e ainda teve tempo de passar pelo meu Fafe, em 1982-1983, antes de terminar a carreira novamente em casa, Vila do Conde, por volta de 1986.

P.S. - Maria Callas, a diva, nasceu no dia 2 de Dezembro de 1923. Chamava-se María Kekilía Sofía Kalogerópulu. Hermógenes, o nosso, Hermógenes de Oliveira Morim, 66 anos, ex-futebolista e arrumador de carros no activo, foi um destes dias notícia de polícia.

Também faço isto muito bem 291

Foto Hernâni Von Doellinger

Poesias completas e praticamente reunidas (vol. XV)

Sexto sentido
Ele tinha
um sexto sentido
extremamente apurado.
Mas não sabia.

Dúvida metódica
Era uma dúvida
realmente metódica.
Ignorante, mas muitíssimo organizada.

Os simples
Era um pregador
muito terra a terra.
Proclamava:
- Bem-aventurados
os bem-aventurados
porque serão
bem-aventurados.

Na cama
Ela disse que se sentia cómoda.
Ele, mesinha-de-cabeceira.

O vira-cu
O vira-cu é muito pior
do que o vira-casaca.
O vira-cu pode aleijar.

Poesia a peso
- Era dois poemas de trinta gramas, se faz favor!
- Os dois?
- Cada.
- Sessenta gramas de poemas...
- Exactamente.

A volta ao quarteirão
Por mais voltas que desse
ao quarteirão,
eram sempre vinte e cinco,
e não saía dali.

Quem dá o pão...
Amadeu, amatirou.
Pois é: quem dá o pão,
também dá a criação.

E junto ao coração... o cão

Foto Hernâni Von Doellinger

Algo de pacífico

Havia algo de pacífico no que ele dizia. Ele dizia: - Oceano...

Droga 744

Foto Hernâni Von Doellinger

Fidel Castro, a História e a Geografia

"A História absolver-me-á", disse Fidel Castro em 1953. Os Americanos não ligaram. Preocupava-os, era, a Geografia.

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Março de 2019. No dia 2 de Dezembro de 1956, Fidel Castro desembarcou em Cuba à frente de um pequeno exército de 72 homens. Atacados pelas forças do ditador Fulgencio Baptista, apenas doze sobreviveram.

Foi um ar que lhe deu

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 1 de dezembro de 2019

Breve

As televisões e os jornais e as revistas cor-de-rosa dos jornais e das televisões das revistas cor-de-rosa. Primeiro, Jorge Jesus e o Flamengo e a Taça Libertadores e o título brasileiro e a condecoração a haver. Agora, Greta Thunberg e a Doca de Alcântara e os deputados e o Zero e os títulos e a condecoração a haver. Um fartote, uma consumição. Porque é que não nos deixam em paz e não nos dão apenas a noticiazinha? Por outro lado. A jovem Greta Thunberg, dezasseis anos, tem advogado e, assim ditos, representantes, equipa, entourage, staff. O vetusto Jorge Jesus, sessenta e cinco anos, também. São realmente duas multinacionais e certamente ambas movimentam uns milhões valentes. Percebo.

As ondas quebravam uma a uma

Foto Hernâni Von Doellinger

Goze o feriado

Aproveite o feriado do 1.º de Dezembro, que ainda por cima é domingo: fique em casa e durma um sono, ou dois, consoante a disposição e a companhia. E ouça a chuva a bater à janela. Mas não abra se bater leve, levemente, que a chuva não bate assim: é de certeza o Neves, e o Neves é um chato do caralho.

Levando a sua tristeza no quadro da bicicleta

Foto Hernâni Von Doellinger

Fernanda Botelho 5

Poema

Negue-se o mundo a me dizer: sim!
Negue-se o ar da serra aos meus pulmões!
Fechem-se as janelas porque vim
interromper os solheiros e os pregões!
Neguem-me o passaporte
pra o estrangeiro!
Encontre-se sem norte
e sem dinheiro
(e desprevenidamente des-emotiva!)
frente às rodas paralelas
duma qualquer locomotiva,
ou entre elas,
ou melhor: debaixo delas!
- Por tudo encolherei os ombros
que, em suma, dizem crentes e descrentes
a vida é feita de rombos e de tombos,
doença, hostilidade e guinchos de serpentes.

Mas tu - (Homem! Garra!
Sucesso! ou Vento! ou Amarra!
Vício alegre! ou Labirinto!
Bebedeira de absinto
Filhos!
E Deus neles!)
- não me negues o tom simples
e às vezes reles
da tua voz pura-impura
com que seques
a minha vil e vã desenvoltura.


Fernanda Botelho 

(Fernanda Botelho nasceu no dia 1 de Dezembro de 1926. Morreu em 2007.)

Havia um cão de permeio

Foto Hernâni Von Doellinger

Guerra da Restauração

Quando a Guerra da Restauração entre Portugal e Espanha terminou e pediu a continha, em 1668, foi deveras porreiro. Os espanhóis começaram a vir comer bacalhau a Valença e os portugueses passaram a ir às bandejas de marisco a Vigo. Foi bom para o negócio e, entre mortos e feridos, salvaram-se consideráveis estabelecimentos.

Interlúdio fotográfico 196

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 30 de novembro de 2019

Mário Soares e a afundação

Uma vez era campanha eleitoral e saí do trabalho, na tripeiríssima Rua de Santa Catarina, para apanhar o autocarro 37 no Largo dos Lóios. E quando cheguei à Avenida dos Aliados, que é a meio caminho, esbarrei num enorme ajuntamento que rodeava e seguia um Carocha de tecto de abrir. Era muito povo, agitando bandeiras e gritando palavras de ordem tão desordenadas que eu não percebia o que as pessoas diziam. Aproximei-me, chamado pela curiosidade ou não sei por quê, furei pelo meio daquele fervor todo e consegui chegar ao carro. Quem é que lá estava de cabeça de fora e braço pré-presidencial em aceno à multidão? Mário Soares em pessoa. Era ele!
Eu fiquei a um metro do homem. E deixei-me ficar. O Volkswagen careca andava devagar. E eu deixei-me ir. Mas só percebi depois, muito depois. O cortejo desceu à Praça, subiu a Rua dos Clérigos, passou pelos Leões e pelo Hospital de Santo António, entrou na Rua D. Manuel II e quando dou fé Mário Soares está em frente ao Palácio de Cristal. O esquisito, o inexplicável, é que eu também lá estava. A um metro do homem. Eu fui atrás dele e não sabia.
Foi no ano de 1986 e é a história que eu costumo contar quando quero explicar o que é o carisma. Carisma é aquilo: aquele íman, aquele poder sobre as massas, mesmo sem abrir a boca, aquela força invisível que uns poucos têm de aglutinar e empolgar tudo e todos à sua volta, até a mim, que sou um cínico.

A Vida, que me tem sido tão boa, concedeu-me vinte anos mais tarde, nas Presidenciais de 2006, a prenda extraordinária de poder acompanhar no terreno, profissionalmente, a última verdadeira campanha eleitoral de que Portugal deve ter memória. E seguindo Mário Soares, que se borrifava cada vez mais para os soundbites, para os assessores de imprensa e até para o seu ausente director de campanha, que ele frequentemente não sabia muito bem quem era. Em vez de apelar ao voto, em vez de criticar a concorrência, Soares contava histórias em pequenos auditórios vagamente frequentados, falava de António Sérgio, de Álvaro Cunhal, de Agostinho da Silva, de Camilo Castelo Branco (lembro-me, em Famalicão), de Antero de Quental. Contava Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Carlos Queiroz, Adolfo Casais Monteiro, Manuel da Fonseca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Alberto Lacerda, Ruy Belo, amigos ou conhecidos em graus diversos. E eu regalado.
Ora bem. Mário Soares morreu fará apenas três anos em Janeiro. A fundação que leva o seu nome, e à qual ele deu os seus últimos anos de vida, acumula prejuízos, perde mecenas e patrocínios, qualquer dia alguém terá de apagar a luz. Agora eu outra vez: não me interessa a fundação e para onde vai, incomoda-me é que leve o nome de Mário Soares...

Interlúdio fotográfico 195

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 183

O homem que sabia de codornizes
José Mário Branco. Conta a jornalista Catarina Carvalho, do DN, que José Mário Branco lhe disse uma vez, durante a produção de um disco para uma fadista famosa, que aquilo era trabalho de rigor, de filigrana. "É chupar os ossinhos da codorniz", explicava o mestre.
Fiquei contente. José Mário Branco sabia de quase tudo e, tomem lá, até sabia de codornizes. E eu não sei de nada, mas desunho-me satisfatoriamente com as codornizes. A minha platónica relação com José Mário Branco era de admiração e reverência. Sobretudo respeito: silêncio, que se vai ouvir José Mário Branco. A partir de hoje a nossa relação é de camaradagem, acho que tenho esse direito. Que ninguém separe o que a codorniz uniu. E era mais duas bifanas e dois fininhos, se faxavor!

P.S. - No mesmo DN escreve-se sobre "tetos" para os sem-abrigo em Lisboa. Tetos, pois. Quando forem horas de mamar, chamem-me.

Ele há dias
Há dias que são noites.

O Zarco do Castelo do Queijo
João Gonçalves Zarco, da nobre família dos Zarcos de Valdevez, foi um navegador português e cavaleiro fidalgo da Casa do Infante D. Henrique, que o encarregou de organizar o povoamento e administrar a zona funchalense da Ilha da Madeira enquanto Alberto João Jardim não chegasse. Dito e feito. Quando se reformou, o velho Zarco, que não era tolo e tinha agasalhado uns cobres, abriu uma escola em Matosinhos mas escolheu a Foz, no Porto, para morar, instalando-se desafogadamente na famosa Rotunda do Castelo do Queijo, a que também chamam Praça de Gonçalves Zarco exactamente em homenagem à estátua equestre de D. João VI.

Nem sempre carne ou peixe
Como diz a minha sogra. "Nem sempre carne ou peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau." 

Marx, o da harpa
Depois de ter inventado o comunismo, Marx fez comédia em Hollywood, cantou "A mula da cooperativa", foi candidato à Presidência da República e abriu um restaurante em Fafe. Actualmente diz piadas na rádio e joga a defesa direito no FC Porto.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Março de 2014. O comediante Harpo Marx, que se chamava de baptismo Adolph Arthur Marx, nasceu no dia 23 de Novembro de 1888. Não era mudo, mas em cena só comunicava por gestos, buzinas e assobios. E tocava muito bem harpa. Exactamente: Harpo, o da harpa.

Ai flores do verde pino

Foto Hernâni Von Doellinger

Anderson de Araújo Horta 3

Descoberta 

Neste lar, nosso amor, pobre de arneses,
foi prenúncio feliz de um grande dia.
E refletia-se em nós dois, às vezes,
calmo porto a que Deus nos conduzia.

Você nasceu nos meios montanheses,
tendo o brasão apenas da Poesia...
sem lanças, sem broquéis e sem paveses,
mas tendo o grande amor dos pais por guia!

Quando você nasceu, nasceu gritando,
como quem toma posse, de repente,
de uma terra inda há pouco conquistada...

De modo que eu me vi também chorando,
sem saber traduzir corretamente
a sua primeiríssima balada!


Anderson de Araújo Horta 

(Anderson de Araújo Horta nasceu no dia 30 de Novembro de 1906. Morreu em 1985.)

O dono da bola

Foto Hernâni Von Doellinger

Fernando Pessoa 9

[Dá a surpresa de ser]

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

"Cancioneiro", Fernando Pessoa

(Fernando Pessoa nasceu no dia 13 de Junho de 1888. Morreu no dia 30 de Novembro de 1935.)

Que perfeito coração

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Black Friday: leve cinco e pague seis!!!

Era comprador compulsivo e fanático por promoções, adorador de sextas-feiras negras. Um relâmpago que entrava, escolhia, pagava e saía das grandes, pequenas e remediadas superfícies num abrir e fechar de olhos das câmaras de vigilância, que realmente nunca o viram. Acreditava que 13,99 são treze e não catorze euros. Se lhe aparecesse à frente "Leve cinco e pague seis!!!", letreiro jeitoso em vermelho e amarelo rematado por veementes pontos de exclamação, ele aproveitava logo...

Interlúdio fotográfico 194

Foto Hernâni Von Doellinger

Poesias completas e praticamente reunidas (vol. XIV)

Santinho!
Viva!
Viva Portugal!
Viva a República e a Monarquia!
Viva a Igreja e a Maçonaria!
Viva a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Real de Santo António, não desfazendo de todas as outras associações humanitários de bombeiros voluntários do resto do País que têm nome mais curto, como, por exemplo, Fão ou Freixo de Espada à Cinta!
Viva!

Viva císsimo!
Viva mente!
Viva quente!
Vá para dentro!

Viva cidade!
Viva Villa!
Viva Zapata!
Viva México!
Arriba, arriba! Ándale, ándale!
Viva Las Vegas!
Ó Elvis, ó Elvis, bisavós à vista!
Viva!

Santinho!

Insondabilidade
Quando tirou
a última pedra
do caminho,
enterrou-se em lama
até aos tornozelos.

Alvíssaras
Perdeu a cabeça
e pôs anúncio no jornal.

Faz-lhe muita falta.

Fábula do cão ão ão e do gato poliglota
No tempo em que
os animais falavam,
o cão disse:
ão, ão, ão.
E o gato perguntou:
és gago ou quê,
ó chien de merde?

O gato era, com efeito, um chat.

Caracol
Ca... ra... col... ... ...

Riminha
O caracol
leva a casa
a tiracol.

Vá lá, façam as pazes!...

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu morra aqui

"Eu morra aqui se não é verdade", disse. E morreu. E era verdade. A vida às vezes parece parva.

Vai um picolé?

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Era uma vez um assessor

Era uma vez um assessor que tinha uma deputada. Quando percebeu que a deputada diletante gostava de dar tanto nas vistas como ele petulante, o assessor opinioso despediu a deputada exibicionista e comprou um saia-casaco lindo de morrer.

Também faço isto muito bem 290

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 182

Relativamente a essa matéria
- Relativamente a essa matéria, senhor deputado, devo esclarecer que não tenho nada a acrescentar relativamente a essa matéria.
- E relativamente à outra matéria, senhor primeiro-ministro?
- Relativamente à outra matéria, senhor deputado, devo esclarecer que não tenho nada a acrescentar relativamente à outra matéria.
- Bem me parecia, senhor primeiro-ministro!
- Ainda bem que nos entendemos, senhor deputado!

Lições de História: Albert Hofmann 
Atenção ao dia 16 de Novembro, muita atenção! Neste dia, mas em 1938, o químico suíço Albert Hofmann sintetizou pela primeira vez na História o LSD. E sintetizou desta maneira: baixem o volume ao amarelo, que eu não consigo ouvir o azul...

E os amigos do Pina, que é deles?
Quando Manuel António Pina morreu, por assim dizer, em Outubro de 2012, os amigos de Manuel António Pina fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina. Outros amigos de Manuel António Pina fundaram o Círculo Literário e Artístico Manuel António Pina. Sinceramente achei então que o Pina não merecia tanto. Quero dizer: não merecia tanta vaidade e inveja, tanto umbiguismo, tanto acotovelamento, tanta sede de aparecer à pala do desaparecido, vamos um supor. O Pina de certeza que não sabia que tinha tantos amigos. E ainda por cima amigos desavindos, dissidentes. Que fartura! Duas-colectividades-duas em nome do Pina, no Porto que ainda há pouco enterrara e responsara a Fundação Eugénio de Andrade, com o descaramento de quem limpa as mãos à parede depois de limpar o cu sem papel. Eugénio de Andrade, esse - não sei se tem amigos ou se alguém espera por ele...
Ignoro o que se passa hoje em dia com aquelas duas pressurosas e exclusivas agremiações pinaculares. Desconheço se ainda existem, se bolem, se fazem saraus literários ou pelo menos almoço de Natal, se são nenhuma ou se se multiplicaram por vinte. O Pina é grande e chega para todos: para os compinchas de verdade e para os simpatizantes, curiosos, atrevidos e outros aproveitadores. Eu sou um simples admirador das palavras de Manuel António Pina, só lhe conhecia a voz da televisão e da rádio, naquele falar de quem fala, e do olá no elevador do Edifício JN, e parece que o estou a ouvir dizer: - Sirvam-se.

P.S. - Escrito a partir de um texto publicado originalmente no dia 26 de Novembro de 2013.

Ambos os dois
A minha sogra tem oitenta e sete anos e padece de um apetite voraz. Prato, sopa e sobremesa em quantidades que eu aqui não digo para evitar a abertura de um conflito diplomático com a Somália. Digamos apenas que a minha sogra é uma multidão a comer. No outro dia perguntei-lhe:
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim.

Colombo, o do ovo
Quando Colombo pôs o ovo, foi o assombro geral. O respeitável público ainda esperou por um coelho da cartola ou, vá lá, um par de pombas brancas de um lenço. Mas nada. O ovo era número único e foi assim que ficou na História.

P.S. - No dia 19 de Novembro de 1493, Cristóvão Colombo desembarcou numa ilha chamada Borinquen, que ele vira pela primeira vez de véspera e que hoje é Porto Rico. Anos mais tarde Colombo construiu um centro comercial e duas torres de escritórios na zona de Benfica, em Lisboa.

Luiz Ruas 3

[...]
discurso

faz mistério palhaço
e ri teu riso esbandalhado.
gargalha palhaço e faz sofrer
os que contigo riem e sofrem
e vivem.
canta a tua ideologia tirânica
ó clown sentenciado
para fazer chorar os que riem.
ninguém entende tua vida mascarado
que se esconde atrás da cortina
das pinturas e das vestes.
onde está tua face palhaço onde?
além do além do horizonte
nas nuvens ou atrás da máscara?
onde está teu riso palhaço onde?
no pranto que improvisas
ou na dor que não gargalhas?
palhaço.
interrogação verde no cenário de carmim.
palhaço. olha o palhaço.
havia inocência e terror pureza e crime
em teus olhos abertos para o mundo.
luzes.
as luzes da ribalta não revelam
o que não dizem também
nem as cores nem os saltos nem as cambalhotas

que fazes no trapézio longínquo.
palhaço. quem já viu tua face
tua única face?
aquela que não é partida
aquela que não é pintada?
quem já beijou tua boca verdadeira?

[...]

"Aparição do Clown", Luiz Ruas

(Luiz Ruas nasceu no dia 28 de Novembro de 1931. Morreu em 2000.)

Cão de olhos que afligem

Foto Hernâni Von Doellinger

O caguinchas e o chupista

Ora muito bem. O caguinchas é o cagarola, o não-se-astrebe, o medricas, o medroso, o merdoso, o maricas, o coninhas, o cobardolas, o caga-na-saquinha (cá está), o cagão, o varas-verdes, também o receoso, o temeroso, o fraco, o covarde ou o cobarde, mas esta parte já não tem piada nenhuma.
E o chupista? O chupista é o comedor, o parasita, o gosma, o chulo, o mamador, o mamão, o lambão, o sanguessuga, o rapador, o papa-jantares, o moina, o moinante, o chorinhas, o pedincha, o pedinchão, o videirinho, também o beberolas, o cachaceiro, o beberrão, o interesseiro, o extorsionário, o chantagista, o nosso banco, o oportunista ou o aproveitador, mas esta parte já não tem piada nenhuma.
Caguinchas e chupista. Feitios. Se estes dois desgraçados traços de carácter coincidirem numa mesma e única pessoa, então, consoante o feitio dominante, estaremos na presença de um chupinchas ou de um caguista.

P.S. - Chupiu era um tasco em Fafe, entre o Estádio e o Belinho, no gaveto do início do Picotalho com a Rua José Ribeiro Vieira de Castro, e evidentemente não tem nada a ver com esta história.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Seios (sei-os)

Foto Hernâni Von Doellinger

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo pela manhã?

Alexandre O'Neill, "No Reino da Dinamarca"

Temperaturas

Diz o Fahrenheit ao Celsius, quero dizer, diz o físico alemão Daniel Gabriel Fahrenheit ao astrónomo sueco Anders Celsius: - Andas a ferver em pouca água, pá!...

P.S. - Anders Celsius nasceu no dia 27 de Novembro de 1701.

E parece que foi ontem... 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Riminha

O caracol
leva a casa
a tiracol.

Aos bons velhos tempos 7

Foto Hernâni Von Doellinger

Mas para quem fica os tempos são realmente outros: mais abertos, flexíveis quanto baste. Os novos ingleses entraram na vida dos portuenses e os portuenses conseguiram salvo-conduto para aceder às impenetráveis fortalezas britânicas de antigamente. Os estilos de vida acomodaram-se, as instituições desmistificaram-se. Mantêm-se, of course, os rituais e os sports no clube, as festas na Feitoria, as recepções de Junho no Consulado, pelo aniversário da Rainha, e a emoção dos momentos de glória vividos nas raras visitas da realeza das Ilhas. Isabel II esteve no Porto em 1957 e voltou, por consoladoras quatro horas, em 1985. E o herdeiro, príncipe Carlos, deslocou-se à Invicta em 1987, para inglês ver mas agora também para português ver.
Perdido o império do vinho - hoje com lucros vindimados meio por meio com os portugueses -, serão apenas vinte e cinco as famílias súbditas de Sua Majestade a manterem-se no negócio que mais fortemente ligou os ingleses ao Porto, num total aproximado de quatrocentas famílias e cerca de mil e duzentos cidadãos.
Resta a memória de néon na noite do Douro gaiense em nomes de marca... inglesa. E dos bons velhos tempos, para a História e para a cidade do Porto, perduram as obras, as instituições as lembranças e a tradição. E, em exclusivo para o portuense de calção, chinelo e bronzeador - a Praia, na Foz, baptizada dos Ingleses.
Que longe vai o tão acercado ano de 1895, em que o de referencíssima The Lavadores Review - The Only Organ of English Opinion in Lavadores publicava os resultados do críquete e contava as últimas das society and miscellany news.

P.S. - Sétima e última parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.

Vida de cão 489

Foto Hernâni Von Doellinger

Iniciação

Mandaram-no foder. E ele foi. E gostou bastante.

Do alto desta pirâmide...

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Mário Cesariny 9

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!


"Pena Capital", Mário Cesariny

(Mário Cesariny nasceu no dia 9 de Agosto de 1923. Morreu no dia 26 de Novembro de 2006.)

Interlúdio fotográfico 193

Foto Hernâni Von Doellinger

Ele há dias 4

Há dias que se não nascessem tinham de ser inventados.

Também faço isto muito bem 289

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Pacheco 3

Canto da lavadeira do rio

Bate roupa, bate sol
bate fome, bate peitos
bate carne descarnada
na pedra, no coarador.

 
Precisa anil para a roupa
do patrão ficar branquinha
tinindo na estearina.

 
Bate vida, a vida toda
bate a morte, a juventude
fica no rio, na pedra
se esgarça na correnteza
a pureza de menina
o sonho simples (de pobre)
os meninos espiando
ela só não vendo nada.

 
Precisa roupas, fiapos
um fiapinho de nada
pra chegar no céu enxuta.


Álvaro Pacheco 

(Álvaro Pacheco nasceu no dia 26 de Novembro de 1933)

Aos bons velhos tempos 6

Foto Hernâni Von Doellinger

"Como são outros os tempos!...", desabafa Mr. Jennings, que somente abandonou o Porto para terminar os estudos em Inglaterra e para ajudar o seu país servindo na RAF (Força Aérea) durante a II Grande Guerra, no que foi secundado pela esposa, Lilan, que se alistou na WRAF. Ambos nascidos em Portugal, os seus três filhos e os nove netos estão todos em Inglaterra, trabalhando ou estudando.
Ainda existem ingleses de quarta e de quinta gerações estabelecidos no Porto, naturalmente cada vez menos. Mas agora, numa comunidade que ocupa na cidade o terceiro lugar em número, depois dos franceses e dos alemães, e com outros e diversificados negócios - ensino, bancos e seguros, têxteis e finalmente vinho do Porto -, são cada vez mais os que aqui chegam apenas para comissões de serviço de dois ou três anos ou os que, sem nunca cá terem estado antes regularmente, nos escolhem como parceiros de reforma.
É a educação dos filhos que faz com que, antes do desejado, muitos jovens casais ingleses regressem à pátria. Conta David Bain que são poucos os compatriotas que acreditam no ensino português e lhe confiam a descendência. E a Escola Inglesa do Porto - diz - pratica preços (cerca de 600 contos/ano por aluno) que fazem com que os pais que não desistem de cá ficar prefiram enviar as crianças, logo aos oito anos, para escolas internas inglesas. Foi o que ele próprio fez com os seus dois filhos.

P.S. - Sexta parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.  

Um minuto o nosso beijo

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Einstein, o culturista

O Dia do Físico realiza-se sorrateiramente a 19 de Maio derivado a um tal Albert Einstein, alemão americanizado, guedelhudo e linguarudo, precursor dos Beatles e inventor dos Rolling Stones, do buraco negro, do bigode libertário e dos ginásios a céu fechado e céu aberto, amigo de Pôncio Pilates e sócio de Che Guevara num abastado negócio de T-shirts, tatuagens e posters. O Alberto era, com efeito, um gajo de abdominais bem definidos, muito dado à malhação, ao halterofilismo, ao triatletismo, ao lançamento do disco e do livro, ao culturismo e a todos os tipos de bombas, nomeadamente a atómica.
Einstein nasceu a 14 de Março e morreu a 18 de Abril. E por isso, feita a equação, noves fora, dá 19 de Maio. Científico.

P.S. - Publicado originalmente no dia 19 de Maio de 2019. No dia 25 de Novembro de 1915, Albert Einstein apresentou a formulação das equações de campo da sua Teoria Geral da Relatividade em quatro páginas publicadas numa revista da Academia de Ciências da Prússia.

Também faço isto muito bem 288

Foto Hernâni Von Doellinger

Ele há dias 3

Há dias que mais valia não terem nascido.

Menino, eu queria patinar em tuas ondas

Foto Hernâni Von Doellinger