| Foto Hernâni Von Doellinger |
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sexta-feira, 17 de julho de 2026
sexta-feira, 10 de julho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Portugal segundo Alexandre O'Neill
Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill, "Feira Cabisbaixa"
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
P.S. - Hoje é Dia da Geografia Portuguesa.
terça-feira, 24 de março de 2026
sábado, 21 de março de 2026
Vai-me a essas rimas
Bom e Expressivo
Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.
Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: - Não é poesia!,
diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-
dra que rola na pedra...
Mas também da rima "em cheio"
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...
Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.
Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,
tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: - Não é poesia!,
diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-
dra que rola na pedra...
Mas também da rima "em cheio"
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,
a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...
Alexandre O'Neill, "De Ombro na Ombreira"
P.S. - Hoje é Dia Mundial da Poesia.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
domingo, 18 de maio de 2025
sábado, 5 de abril de 2025
Ó Montenegro, e se fosses...
Luís Montenegro, que é a pessoa mais série do mundo logo a seguir a Cavaco Silva, levou muito a mal que o comparassem com José Sócrates, uma comparação "vergonhosa" e "difamatória" que o prejudica "como cidadão, marido e pai". Até fez queixa ao Tribunal. E portanto hoje comparou Pedro Nuno Santos a José Sócrates.
Pedro Nuno Santos, diga-se a este respeito, tem documentação em dia, mulher e filho.
domingo, 29 de setembro de 2024
quinta-feira, 12 de setembro de 2024
Palavra do senhor
![]() |
| Foto Hernâni Von Doellinger |
A senhora sentada à minha frente faz croché - que raro! Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Croché.
Etiquetas:
A estouvaca,
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Dia Mundial do Croché,
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Metro do Porto
segunda-feira, 26 de agosto de 2024
sábado, 8 de abril de 2023
quinta-feira, 17 de março de 2022
quarta-feira, 2 de março de 2022
terça-feira, 1 de março de 2022
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022
domingo, 19 de dezembro de 2021
Olha o caixadòclos todo satisfeito a ler
A
senhora sentada à minha frente faz croché - que raro! Eu leio um livro.
O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve
no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O
metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois
refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora
sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia
um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a
cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num
misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos
Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill,
calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço
que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma
bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.
P.S.
- Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2018, então sob o
título "Há palavras que nos beijam como se tivessem boca", segundo
Alexandre O'Neill. Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões nasceu no dia 19 de Dezembro de 1924 e nunca mais morreu.
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