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domingo, 13 de setembro de 2026

Os fujões

O fim do mundo
Como diziam os antigos, e os antigos é que sabem: "Aos dois mil chegarás, dos dois mil não passarás". E que se segue? Há 26 anos que o mundo acabou, e eu, francamente, não me parece que isto tenha melhorado...

Os fujões fugiam. E até mais do que uma vez. Fugiam sempre que podiam. Por isso é que eram fujões, frequentemente apontados a dedo. Fugiam do seminário, que é o que eu sei, ou de colégios internos, rígidos, eram alunos do primeiro ano, crianças de dez ou onze anos em choque de desmame, longe de casa, cheios de saudades, inadaptados à severidade das regras, à disciplina apertada, musculada, ao silêncio, aos horários, à solidão, à exigência escolar, à comida, à cama, ao gozo e abuso dos mais velhos ou mais fortes, à mão lampeira e pesada de professores, prefeitos ou outros alegados guardiões ou superiores.
Aproveitavam geralmente a confusão do recreio para fugir, escalando o portão escondido atrás da esquina, sem vigilância, e até era um portão que metia respeito. Chegavam à rua e não sabiam o que fazer à vida. Não iam longe. Choravam baba e ranho, perdidos, atarantados, assustados, culpados, como se levassem ao peito um enorme letreiro a dizer "Fujão", os vizinhos já sabiam o que ali se passava, tantas vezes que viram, e corriam logo a tocar à sineta da portaria, a avisar quem de direito, geralmente não chegava a ser preciso organizar grandes operações de busca.
Imaginai: um puto de São Lourenço da Montaria, Viana do Castelo, entregue a si próprio em plena Rua de São Domingos, esconsa mas quase no centro da cidade de Braga, sem dinheiro nem mundo, e sem sentido de orientação, os pequenos olhos turvos, pisqueiros, rasos de água, como é que ele havia de saber o caminho para casa, para a serra?
Depois de apanhado, o fujão era exibido no salão de estudo e castigado em público para servir de exemplo. Um bom fujão, é preciso que se diga, normalmente insistia no dia seguinte, nos dias seguintes. E as cenas tristes repetiam-se, cada vez piores. Após a segunda ou terceira tentativa de fuga e consequentes sovas, os pais do fujão eram também chamados à pedra. Vinham de camioneta, fazia-lhes diferença. Chegavam envergonhados, num desgosto que só visto, e ouviam das que não queriam. Que resolvessem de vez o assunto, à pancada era o mais indicado! Às vezes, porém, os pais condoíam-se da evidente infelicidade do filho, daquela dor de alma, principalmente a mãe, pediam muitas desculpas aos senhores padres, tão bons educadores, pagavam "a conta" com língua de palmo e levavam a criança enfim para casa. Era mais uma "vocação" que se perdia.

Isto os fujões. Claro que também havia os mijões, que por acaso, não raras vezes, coincidiam, isto é, acumulavam. Os mijões eram mijões porque faziam chichi na cama, e também havia normas quanto a eles. Eram vários e cheiravam bastante. À noite, no enorme dormitório, quando, após as orações, as luzes se apagavam de vez e os fujões e candidatos a fujões se entregavam finalmente à liberdade, na paz dos sonhos, os meninos que faziam chichi na cama davam um nó à toalha na cabeceira de ferro e esse era o sinal para o senhor guarda-nocturno saber que ali estava mais um que necessitava de ser chamado, nas rondas habituais. O senhor guarda-nocturno nascera realmente para aquilo ou então alguém o ensinou muito bem, era meticuloso e eficiente, chegava-se à beira da cama marcada, abanava o desgraçado aos safanões e rosnava, palavra de honra: - Ó mijão, acorda!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quem sai aos seus

Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cérebro.)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Quem me dera ser cão

Cadela
As palavras têm vida, acusam a idade. Há palavras que enrijecem com o tempo e há outras que se amaciam. Cadela, por exemplo. A palavra cadela, antigamente, tinha uma pesada carga pejorativa, era um nome do piorio para se chamar a uma mulher, era um insulto violentíssimo, degradante. Em Fafe, era a bomba atómica das ofensas. Cadela! Queria dizer prostituta, vadia, safada, desavergonhada, traiçoeira, vagabunda, tola, toleirona, má, malvada, crua. Mas hoje em dia, não. Hoje, as meninas e senhoras passeiam os seus cãezinhos e dizem-lhes que são a "mãe", a "mamã", a "mamãe". E dizem-no a toda a gente. Quer-se dizer: as meninas e senhoras reclamam a maternidade canina, apresentam-se como legítimas progenitoras dos seus cães-filhos, apregoam aos quatro ventos esse incontroverso estatuto. E está certo. Neste novo contexto, chamar-lhes cadelas, às meninas e senhoras mães dos cães, só pode ser, agora, um elogio, um simpático reconhecimento.

Três mulheres à mesa na pequena esplanada da confeitaria da moda, gozando uma falsa fresca de fim de tarde no Verão impiedoso da cidadezinha baixo-minhota. São jovens, alegres, morenas, as mulheres, e têm um cão. Um cão pequeno, rechonchudo, de focinho amarrotado, caricatura de um velho boxista na reforma. Será talvez um pug. Leio na Wikipédia que o pug tem "personalidade", que é "encantador, brincalhão, astuto, sociável, arteiro, dócil, afectuoso, teimoso, amoroso, atento, tranquilo, calmo". Pois. Será. O estupor do cão, o sortudo do cão, passeia-se irrequieto de colo em colo, de mama em mama, esfregando-se ao comprido na brancura sedosa de seis seios quase ao léu, lambendo, lambendo e mais não sei quê, e as mordomas ali na rua sem pudores, crescentemente excitadas, vermelhas, aos gritinhos, aos saltinhos, num fuzuê que só visto.
Ora bem. Foi na parte do mais não sei quê - e digo mais não sei quê porque realmente não faço ideia, o assunto interessou-me sobremaneira, eu estava ali concentradíssimo como o Futre, sócios, invejoso, confesso, mas não consegui perceber o que se passava até às últimas consequências -, portanto, foi na parte do mais não sei quê que a mulher menos jovem, com evidente cara de dona, largou os suspiros, ganhou fôlego, esganiçou ainda mais a voz e disse ao cão, imperativa: - Frederico! Não! Não! Não! Mamãe já falou! Isso não, Frederico!
Fiquei fodido! Não tanto por causa da indivídua chamar Frederico ao cão. Também chamo Frederico ao meu filho Kiko e isso nunca me incomodou, antes pelo contrário, até porque é o nome dele. O que me confundiu foi aquilo de ela ser mãe do cão. Estou velho para estas merdas. Fico baralhado com estas modernices sorrateiramente edipianas mas ao contrário. Não consigo acompanhar estes tempos malucos em que a nova ordem parece ser tratar os animais como pessoas, como filhos, e tratar as pessoas como animais. Como animais que não são tratados como pessoas. Como pessoas que não são de estimação. Os portugueses já gastam mais com cães do que com bebés, dizem as notícias de confiança. Não percebo. Estou definitivamente fora de prazo. E fiquei fodido!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Criança ou Dia da Criança e Dia Mundial do Leite, porque isto anda tudo ligado. É também Dia Mundial dos Pais ou Dia Global dos Pais e Dia Nacional do Sobreiro e da Cortiça, que não vem aqui ao caso.)

Pai que é pai

Português, desempregado, 45 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um part-time como homem-sanduíche, chegou a casa à noite e deu-se de comer aos filhos.

P.S. - Hoje é Dia Mundial dos Pais ou Dia Global dos Pais. E é também Dia Mundial da Criança ou Dia da Criança.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O mundo é pequeno (e um bocado parvo)

- Perdoar-me-á que o interpele assim sem mais nem menos, sem o conhecer de lado nenhum, mas o caro senhor é um bocado parvo, não é?
- Sou, com efeito, um bocado parvo, mas como é que o caro senhor adivinhou?
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado parvo.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente família...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado parvo por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado parvo por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado parvo mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! De repente, quase que éramos irmãos, não é?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Família.)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O cãozinho passeava pelas mamas das senhoras

Três mulheres à mesa na pequena esplanada da confeitaria famosa, gozando uma amostra matinal de sol de Inverno. São jovens, alegres, morenas, e têm um cão. Um cão pequeno, rechonchudo, de focinho amarrotado, caricatura de um velho boxista na reforma. Será talvez um pug. Leio na Wikipédia que o pug tem "personalidade", que é "encantador, brincalhão, astuto, sociável, arteiro, dócil, afectuoso, teimoso, amoroso, atento, tranquilo, calmo". Pois. Será. O estupor do cão, o sortudo do cão, passeia-se irrequieto de colo em colo, de mama em mama, esfregando-se ao comprido na brancura sedosa de seis seios quase ao léu, lambendo, lambendo e mais não sei quê, e as mordomas ali na rua sem pudores, crescentemente excitadas, vermelhas, aos gritinhos, aos saltinhos, num fuzuê que só visto.
Ora bem. Foi na parte do mais não sei quê - e digo mais não sei quê porque realmente não faço ideia, o assunto interessou-me sobremaneira, eu estava ali concentradíssimo como o Futre, invejoso, confesso, mas não consegui perceber o que se passava até às últimas consequências -, portanto, foi na parte do mais não sei quê que a mulher menos jovem, com evidente cara de dona, largou os suspiros, ganhou fôlego, esganiçou ainda mais a voz e disse ao cão, imperativa: - Frederico! Não! Não! Não! Mamãe já falou! Isso não, Frederico!
Fiquei fodido! Não tanto por causa da indivídua chamar Frederico ao cão. Também chamo Frederico ao meu filho e isso nunca me incomodou, antes pelo contrário, até porque é o nome dele. O que me confundiu foi aquilo de ela ser mãe do cão. Estou velho para estas merdas. Fico baralhado com estas modernices sorrateiramente edipianas mas ao contrário. Não consigo acompanhar estes tempos malucos em que a nova ordem parece ser tratar os animais como pessoas, como filhos, e tratar as pessoas como animais. Como animais que não são tratados como pessoas. Estou definitivamente fora de prazo. E fiquei fodido!

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Criança ou Dia da Criança e Dia Mundial do Leite, porque isto anda tudo ligado. É também Dia Mundial dos Pais ou Dia Global dos Pais e Dia Nacional do Sobreiro e da Cortiça, que não vem ao caso.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

O problema dos meios-irmãos

O problema dos meios-irmãos é que, por exemplo, pegamos em dois e não conseguimos fazer um irmão inteiro. O que é realmente aborrecido.

domingo, 14 de agosto de 2022

Uma questão de respeito

- Nunca fumei à frente do meu pai.
- Porquê?
- Por uma questão de respeito.
- Mas o teu pai sabe que tu fumas?
- Sempre soube. Há que anos...
- E então?
- É uma questão de respeito.
- E o teu filho sabe que tu fumas?
- Claro que sabe.
- E tu fumas à frente do teu filho?
- Claro que fumo. Desde sempre...
- Porquê?

P.S. - Hoje é Dia dos Pais. No Brasil.

Filho és, pai serás (regra geral)

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Quem sai aos seus

Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O problema dos meios-irmãos

O problema dos meios-irmãos é que, por exemplo, pegamos em dois e não conseguimos fazer um irmão inteiro. O que é realmente aborrecido.

O mundo é pequeno. E um bocado bacoco...

- Perdoar-me-á que o interpele assim sem mais nem menos, sem o conhecer de lado nenhum, mas o caro senhor é um bocado parvo, não é?
- Sou, com efeito, um bocado parvo, mas como é que o caro senhor adivinhou?
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado parvo.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente primos...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado parvo por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado parvo por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado parvo mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! Afinal quase que éramos irmãos, não é?... 

P.S. - Hoje é Dia dos Irmãos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Quem sai aos seus

Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Uma questão de respeito

- Nunca fumei à frente do meu pai.
- Porquê?
- Por uma questão de respeito.
- Mas o teu pai sabe que tu fumas?
- Sempre soube. Há que anos...
- E então?
- É uma questão de respeito.
- E o teu filho sabe que tu fumas?
- Claro que sabe.
- E tu fumas à frente do teu filho?
- Claro que fumo. Desde sempre...
- Porquê?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Anoréctica, 17 anos, 25 quilos e os pais não sabiam

A notícia diz que uma miúda inglesa de 17 anos foi encontrada morta em casa. Pesava 25 quilos e "há quatro anos que escondia dos seus pais que sofria de anorexia". É o que diz a notícia. Há aqui qualquer coisinha que não bate certo, não há?