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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Quem me dera ser cão

Cadela
As palavras têm vida, acusam a idade. Há palavras que enrijecem com o tempo e há outras que se amaciam. Cadela, por exemplo. A palavra cadela, antigamente, tinha uma pesada carga pejorativa, era um nome do piorio para se chamar a uma mulher, era um insulto violentíssimo, degradante. Em Fafe, era a bomba atómica das ofensas. Cadela! Queria dizer prostituta, vadia, safada, desavergonhada, traiçoeira, vagabunda, tola, toleirona, má, malvada, crua. Mas hoje em dia, não. Hoje, as meninas e senhoras passeiam os seus cãezinhos e dizem-lhes que são a "mãe", a "mamã", a "mamãe". E dizem-no a toda a gente. Quer-se dizer: as meninas e senhoras reclamam a maternidade canina, apresentam-se como legítimas progenitoras dos seus cães-filhos, apregoam aos quatro ventos esse incontroverso estatuto. E está certo. Neste novo contexto, chamar-lhes cadelas, às meninas e senhoras mães dos cães, só pode ser, agora, um elogio, um simpático reconhecimento.

Três mulheres à mesa na pequena esplanada da confeitaria da moda, gozando uma falsa fresca de fim de tarde no Verão impiedoso da cidadezinha baixo-minhota. São jovens, alegres, morenas, as mulheres, e têm um cão. Um cão pequeno, rechonchudo, de focinho amarrotado, caricatura de um velho boxista na reforma. Será talvez um pug. Leio na Wikipédia que o pug tem "personalidade", que é "encantador, brincalhão, astuto, sociável, arteiro, dócil, afectuoso, teimoso, amoroso, atento, tranquilo, calmo". Pois. Será. O estupor do cão, o sortudo do cão, passeia-se irrequieto de colo em colo, de mama em mama, esfregando-se ao comprido na brancura sedosa de seis seios quase ao léu, lambendo, lambendo e mais não sei quê, e as mordomas ali na rua sem pudores, crescentemente excitadas, vermelhas, aos gritinhos, aos saltinhos, num fuzuê que só visto.
Ora bem. Foi na parte do mais não sei quê - e digo mais não sei quê porque realmente não faço ideia, o assunto interessou-me sobremaneira, eu estava ali concentradíssimo como o Futre, sócios, invejoso, confesso, mas não consegui perceber o que se passava até às últimas consequências -, portanto, foi na parte do mais não sei quê que a mulher menos jovem, com evidente cara de dona, largou os suspiros, ganhou fôlego, esganiçou ainda mais a voz e disse ao cão, imperativa: - Frederico! Não! Não! Não! Mamãe já falou! Isso não, Frederico!
Fiquei fodido! Não tanto por causa da indivídua chamar Frederico ao cão. Também chamo Frederico ao meu filho Kiko e isso nunca me incomodou, antes pelo contrário, até porque é o nome dele. O que me confundiu foi aquilo de ela ser mãe do cão. Estou velho para estas merdas. Fico baralhado com estas modernices sorrateiramente edipianas mas ao contrário. Não consigo acompanhar estes tempos malucos em que a nova ordem parece ser tratar os animais como pessoas, como filhos, e tratar as pessoas como animais. Como animais que não são tratados como pessoas. Como pessoas que não são de estimação. Os portugueses já gastam mais com cães do que com bebés, dizem as notícias de confiança. Não percebo. Estou definitivamente fora de prazo. E fiquei fodido!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Criança ou Dia da Criança e Dia Mundial do Leite, porque isto anda tudo ligado. É também Dia Mundial dos Pais ou Dia Global dos Pais e Dia Nacional do Sobreiro e da Cortiça, que não vem aqui ao caso.)

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O cãozinho passeava pelas mamas das senhoras

Três mulheres à mesa na pequena esplanada da confeitaria famosa, gozando uma amostra matinal de sol de Inverno. São jovens, alegres, morenas, e têm um cão. Um cão pequeno, rechonchudo, de focinho amarrotado, caricatura de um velho boxista na reforma. Será talvez um pug. Leio na Wikipédia que o pug tem "personalidade", que é "encantador, brincalhão, astuto, sociável, arteiro, dócil, afectuoso, teimoso, amoroso, atento, tranquilo, calmo". Pois. Será. O estupor do cão, o sortudo do cão, passeia-se irrequieto de colo em colo, de mama em mama, esfregando-se ao comprido na brancura sedosa de seis seios quase ao léu, lambendo, lambendo e mais não sei quê, e as mordomas ali na rua sem pudores, crescentemente excitadas, vermelhas, aos gritinhos, aos saltinhos, num fuzuê que só visto.
Ora bem. Foi na parte do mais não sei quê - e digo mais não sei quê porque realmente não faço ideia, o assunto interessou-me sobremaneira, eu estava ali concentradíssimo como o Futre, invejoso, confesso, mas não consegui perceber o que se passava até às últimas consequências -, portanto, foi na parte do mais não sei quê que a mulher menos jovem, com evidente cara de dona, largou os suspiros, ganhou fôlego, esganiçou ainda mais a voz e disse ao cão, imperativa: - Frederico! Não! Não! Não! Mamãe já falou! Isso não, Frederico!
Fiquei fodido! Não tanto por causa da indivídua chamar Frederico ao cão. Também chamo Frederico ao meu filho e isso nunca me incomodou, antes pelo contrário, até porque é o nome dele. O que me confundiu foi aquilo de ela ser mãe do cão. Estou velho para estas merdas. Fico baralhado com estas modernices sorrateiramente edipianas mas ao contrário. Não consigo acompanhar estes tempos malucos em que a nova ordem parece ser tratar os animais como pessoas, como filhos, e tratar as pessoas como animais. Como animais que não são tratados como pessoas. Estou definitivamente fora de prazo. E fiquei fodido!

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Criança ou Dia da Criança e Dia Mundial do Leite, porque isto anda tudo ligado. É também Dia Mundial dos Pais ou Dia Global dos Pais e Dia Nacional do Sobreiro e da Cortiça, que não vem ao caso.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Mãe há só uma

Chamavam-lhe filho desta e filho daquela, chamavam-lhe filho de muitas mães. Ele defendia-se, num suspiro: - Mãe há só uma...

Por outro dado, a mitologia nórdica assinala hoje o Dia de Heimdall, deus que tem como missão guardar a ponte Bifrost, um arco-íris ligando o Céu à Terra, e deve tocar o retumbante chifre Gjallarhorn, quando da aproximação do fim do mundo. Só para que conste, Heimdall é filho de Odin e de nove mães.

sábado, 15 de outubro de 2022

Mãe querida, mãe querida

Era uma mãe à moda antiga, pobre, viúva, severa e de mão lesta, e foi chamada à escola derivado ao filho do meio. Eram nove. Na escola ouviu o que não queria, enfunou, e ligou ao miúdo logo ali, à frente de quem de direito, para que soubessem, gritando, cheia de nervos: - Vais ver quando eu chegar a casa! O filho, que era cego, ficou todo contente.

P.S. - Agora a sério (à séria, se lido em Lisboa), hoje é Dia Mundial da Bengala Branca.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Mãe há só uma

Chamavam-lhe filho desta e filho daquela, chamavam-lhe filho de muitas mães. Ele defendia-se, num suspiro: - Mãe há só uma...

P.S. - A mitologia nórdica assinala hoje o Dia de Heimdall, deus que tem como missão guardar a ponte Bifrost, um arco-íris ligando o Céu à Terra, e deve tocar o retumbante chifre Gjallarhorn, quando da aproximação do fim do mundo. Heimdall é filho de Odin e de nove mães.