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sábado, 12 de setembro de 2026

O amoitado

Insondáveis são
Quando tirou a última pedra do caminho, enterrou-se em lama até aos tornozelos.

Amoitar quer dizer meter ou meter-se em moita, ocultar, esconder ou esconder-se. Isto é o geral, o que vem nos livros. Mas em Fafe, naquele tempo, amoitar era faltar à escola, fazer gazeta, gazetear, gazear, dar o tiro, matar as aulas, baldar-se. O rapazinho que saía de casa a tempo e horas para ir para a escola mas não chegava ao destino, desaparecendo algures a meio do caminho por vontade própria, era o amoitado. Isso, o amoitado. Talvez por medo ao professor, se calhar por causa de algum colega mais rufia ou simplesmente por preguiça ou toléria momentânea ou premeditada, o rapazinho escondia-se, não comparecia à lição. Nas aldeias e pequenas vilas do Minho antigo, rural, profundo, não havia transportes, cinemas, cafés, parques, jardins ou shoppings. Mas havia montes, bouças e campos. Havia caminhos de cabras, havia mato, havia moitas. E era aí que o rapazinho se enfiava, atrás dos arbustos, amoitava-se de tudo e de todos, calado como um rato, quieto como um retrato, deixando passar o tempo à sua livre vontade. Esta é a verdadeira origem da coisa, foi assim que começou a lenda. Dizia-se, por todo o lado, a esse respeito: - O estepor amoitou-se à escola!...
No fim do dia, à hora certa, o rapazinho voltava a casa como se nada fosse, apanhava a coça da ordem, de cinto, tivesse ele ido à escola ou não, portanto não lhe fazia diferença, e no dia seguinte, o tolo, se caía na asneira de apresentar-se arrependido ao professor, a pedir desculpa, "eu não fiz nada", e realmente não, levava com a segunda prestação no focinho, mas agora de régua e esquadro e talvez cana, diversos puxões de orelhas e múltiplos estaladões, que "era para aprender".
E assim foi. Quer-se dizer. Entre uma sova e outra, o rapazinho começou a perceber que, já agora, mais valia amoitar-se por uma boa causa, em vez de ficar ali aquelas horas todas encafuado, sentado no chão, tantas vezes húmido, de pernas cruzadas, sem fazer nada, como um rato, como um retrato, e em risco de constipar-se. Continuou a amoitar-se, evidentemente, mas daí em diante sempre com um propósito razoável, como, por exemplo, jogar à bola com outros que tais, ir para o rio dar banho à minhoca ou acompanhar a par e passo a instalação do circo. E deixou de ter problemas. Aquilo já não era amoitamento, eram faltas justificadas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 3 de março de 2026

As orelhas andam aos pares

Gastrónoma
Ouviu falar em molho-verde, e disse logo que não. Ela era "ter-mi-nan-te-men-te contra os corantes"...

As orelhas. As orelhas são muito úteis. E andam geralmente aos pares, como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos e os cornos. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro, de preferência apagado, e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é mas que se usava muito em Fafe, sobretudo nas tardadas de romaria. As orelhas ficam muito bem com brincos, argolas e outros tipos de piercing. De acordo com a banda desenhada antiga, os pigmeus e outras tribos mais ou menos canibais usavam ossos espetados nas orelhas. Era a moda. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas, que era um método de ensino muito recomendado, praticado com todo o zelo e com provas dadas no meu tempo. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para as chamadas redes sociais. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram nas chamadas redes sociais.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a orelha direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a orelha esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. É o que diz o povo. Se arderem as duas orelhas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
Existem várias qualidades de orelhas, como por exemplo orelhas de elfo, orelhas de abano, orelhas de rato, orelhas de gato, orelhas-de-lebre, orelhas-de-ovelha, orelhas de macaco, orelhas-de-abade, orelhas-de-judas, orelhas moucas, orelhas-de-mula e, passando à política, orelhas de burro.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. O Vasquinho da Anatomia era o Vasco Santana a fazer de estudante-fadista na "Canção de Lisboa" à séria, o filme de 1933, co-estrelado, não a cavalo, com Beatriz Costa e António Silva. As orelhas, em situações extremas, servem também para a nossa alimentação. Neste caso, para disfarçar, chamam-se orelheira. Em tempos de crise como os que vivemos, e agora com a entrada do Verão, é preferível que se sirva fria, como a vingança, mas com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é quase sempre bom e é derivado às orelhas, com ou sem sonotone. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

A polinheira e a trepa

Um par de estalos
Os estalos são como os óculos, as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, as alianças e até os cornos. Usam-se aos pares.

Uma polinheira era uma tareia, uma sova, uma surra, uma tunda, uma coça, um enxerto, um enxerto de porrada perpetrado amiúde com uma vara ou fustiga ou chibata ou vergasta, às vezes com um cinto e habitualmente de mãos estremes, ou até com o pé que estivesse mais à mão. Quer-se dizer, uma polinheira era uma trepa, que deve ler-se e dizer-se "trépa" e, neste caso, também podia significar folho de vestido. Polinheira e trepa, palavras nossas, antigas, questão cultural, do tempo em que o povo era muito honrado, um povo que dava, dava muito, dava tudo, era gente pobre mas de mãos largas, até dava polinheiras e trepas, dava porrada de criar bicho, era uma fartura, graças a Deus. E quem recebia, levava. Levava polinheiras, levava trepas, sempre pela medida grande, levava até para tabaco, mesmo que não fumasse, era o pão nosso de cada dia. Polinheira e trepa eram palavras com muito uso e imensa prática, no nosso Minho, em Fafe, metidas a cotio por uma questão de princípio, porque "quem dá o pão, dá a educação". E educar era bater. E aprender era levar, consoante o ponto de vista. Em casa, na escola e até na catequese, porque a pancada, naquela época, era como Deus nosso Senhor - estava em toda a parte.

(Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 27 de setembro de 2025

Vós não sabendes nada!

Gaba-te cesta
Era um homem muito antigo. Falavam-lhe em gigas e ele imaginava cestas...

Uma rapariga da minha idade, isto é, uma "idosa", descendo a Arcada em direcção ao Mário da Louça se ainda houvesse, em passeio, de braço dado e discutindo alegremente com o neto, moço com ares de universitário repetente e bem disposto, os dois perdidos de riso. Quadro bonito. Flagrante exemplar da harmonia familiar e do eterno conflito de gerações, a sabedoria dos antigos contra a ignorância de hoje em dia. E diz ela, toda despachada e gramatical, aritmética, falando para o rapaz, sim, mas sobretudo para o redor, para quem a quisesse ou não ouvir, e suspeito que especialmente para mim, que lhe pareço de igualha e vou em sentido contrário, apontado à memória do Américo das Bicicletas: - O quê? Eu até sei as letras romanas, quanto mais! Vós agora é que não sabendes nada...
E realmente.

Agora, uma revelação. O Sr. Américo das Bicicletas, que eu conheci muito bem, era, se não me engano, padrinho do meu padrinho e tio Américo. O que quer dizer que o Sr. Américo das Bicicletas era praticamente meu padrinho-avô, e eu nunca tinha pensado nisso, o que é extraordinário. Pensei hoje, agora, sem mais nem menos, ou por causa dos números romanos, e fiquei muito feliz. Porque eu gostava muito da figura do Sr. Américo das Bicicletas.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Respeitável público

Foto Hernâni Von Doellinger

Circo que é circo tem nome de circo. Ponto. Nome com pozinhos de perlimpimpim, nomes exóticos, estrambólicos, inventados à la minuta, nomes de fazer sonhar. Nomes à antiga: Arena, Brasil, Cardinali, Circolândia, Chen, Cristal, Dallas, Dragon, Eddy, Flic Flac, Império, Leunam, Luftman, Mariani, Mundial, Nederland, Nery Brothers, Oceanika, Soledad, Romero, Torralvo ou Twister. Ou Circo Royal, "com Pierre Ivanoff e os seus leões da Abissínia", ou o meu melhor circo do mundo, Circo Merito, que ia a Fafe todos os anos, sem animais acima de cão, mas com um incrível número de transmissão de pensamento operado pelo senhor Merito em pessoa e sua partenaire, e sobretudo uns palhaços como nunca mais ri na minha vida e que contavam sempre a anedota de que a nossa era a única terra à face da mesma mas com maiúscula onde dormiam dezoito numa cama: o meu avô da Bomba, que era o 17, mais a minha avó. O meu avô afinava e eu achava um piadão.
O senhor Merito, que eu conhecia fardado e à paisana, também era mestre-de-cerimónias do es-tra-or-di-ná-ri-ooo... ex-pe-ctá-cu-looo!!!... e padecia de uns óculos com lentes verdes de fundo de garrafa Carvalhelhos versão 1960 que, aos meus olhos infantis e crentes, justificavam à partida os poderes adivinhatórios de que ele estava evidentemente investido.
Coisas de outro mundo. No circo aprendi palavras sen-sa-ci-o-nais, que gostava de ouvir e de dizer e não sabia o que significavam: funambulista, malabarista, contorcionista, equilibrista, acrobata voador, faquir, trapezista, pirofagista, globista, faquista, mais engolidor de espadas, palhaço e ilusionista - estas três eu ia lá -, e que hoje percebo que todas são afinal meros adereços ou adjectivos para outra palavra do léxico circense que é a palavra... político.
Agora? Agora andam por aí circos com nomes paisanos, insossos, e a magia foi um ar que se lhe deu. Nomes de linha média em quatro-quatro-dois losango: Rúben, Cláudio, Leandro e Walter Dias. Nomes do dia-a-dia, corriqueiros, sem pés nem cabeça, como se fossem nomes de talhos ou retrosarias. Como se fossem: o Circo Ricardo, o Circo Pedro, o Circo Ferreira, o Circo Gomes, o Circo Lopes, o Circo Magalhães, o Circo Antunes. O Circo Maria das Dores. Sem o glamour de um Tony, sem o garbo de um Fredy, sem as lantejoulas de uma Nandy nem as meias de rede de uma Mirita no seu rola-rola, ainda que rotas, as meias, porque no circo é importante trabalhar com rede, posto que sem fio, portanto Wi-Fi.
E ainda haverá palhaços excêntricos musicais? E a profissão está devidamente reconhecida e enquadrada? Tem ordem? Carteira profissional? Tempo de serviço em recuperação?
O circo chegava e a vila espertava. A vila precisava. Fafe vivia intensamente os seus dias de circo, havia assunto, havia mundo, havia vida. Havia emoção, havia sonho, havia riso, havia medo, havia pena, tristeza, saudade antecipada, porque depois só para o ano. Era um deslumbramento vivermos - digo bem, vivermos -, de coração aos saltos e mãos a tapar os olhos, o perigosíssimo trabalho daqueles artistas cheios de is gregos e cabelo empastado, artistas in-tarrr-na-ci-o-nais de Ermesinde e Freamunde - Cuidado, Dany, cuidado! Res-pei-tá-vel público, silêncio, o mais completo silêncio, por favor, peço o silêncio dos senhores ex-pe-cta-do-reeesss... Vamos, Dany, cuidado, upa, ealé, bravo, bravo, Dany, bravo!...
Só o carro com altifalantes sobressaltando as pacatas ruas da vila antiga já era uma festa. "Hoje grátis às damas, damas grátis!", prometia-se ambiguamente na véspera da despedida. O circo era o melhor faz-de-conta de todos os tempos! O famoso Pierre Ivanoff chamava-se Pedro Piloña Reina e era um espanhol de Valência nascido em Casablanca, Marrocos. Na jaula, com os leões, vestia de tribuno romano que eu sabia dos filmes - e ficou-me até hoje. Tinha eu se calhar sete anos quando o Pedro, aliás Pierre, desafiou o meu pai, saxofonista desembaraçado na Banda de Revelhe, a fazer-se ao mundo a bordo da orquestra do Circo Royal, mas o meu pai não foi. Foi para mim um desgosto muito grande, que já me via palhaço, a morar na rulote, a faltar à escola e a rasgar completamente as meias de rede da Mirita...

O sítio do circo em Fafe era na Feira Velha, encostadinho à antiga escola primária cujas defuntas pedras depois se transformaram, por milagre, em capela de casa particular. E era porreiro o circo ali, porque vocês hoje em dia não fazem ideia dos deslimites do fedor a que pode chegar a jaula de um leão velho, mas eu e os da minha escola sabemos, graças a Deus. O circo creio que frequentou outros lugares da nossa vila, e lembro-me por exemplo de uma vez em que se instalou num terreno convenientemente devoluto ali para os lados da Recta, mas a Feira Velha é que era o sítio. Gosto de dizer, a Feira Velha, gosto de me ouvir dizer. Agora mesmo, escrevo e digo, vêm-me as lágrimas aos olhos por causa de duas palavras de nada, pareço tolo. Feira Velha. A Câmara Municipal, quando se tornou mercearia para não ficar atrás das outras câmaras municipais, meteu lá carros à hora e é o que temos.

Carlos Drummond de Andrade dizia: "Vou ao circo para me sentir em casa com o mundo". E Ferreira Gullar, no poema "Improviso para a moça do circo", do livro "Na Vertigem do Dia", lembrava a infância e contava: "é pouca a vida que a cidade oferece, até que aparece o circo". Por outro lado: o circo somos nós - camelos, ursos, jacarés em camisolas, asnos e leões mansos. Homens-bala de pólvora seca, malabaristas, contorcionistas, ilusionistas, equilibristas, palhaços - somos nós, porque nos mandam e porque somos o único circo a que temos direito. Vivemos na corda bamba e sem rede. Tiraram-nos a rede, esticam-nos a corda, sufocam-nos, caímos que nem tordos sem capacete.

P.S. - O circo aí está outra vez, e este apontamento também, mas com roupinha nova. Viva o circo! Viva o Natal!

domingo, 17 de novembro de 2024

Por obra e graça do espírito santo

Tenho de confessar o seguinte: como estudante, eu nunca fui. Quer-se dizer: aluno, aulista, frequentador habitual, discípulo, discente, aprendiz ou educando, ainda vá que não vá. Mas estaria a mentir se sequer admitisse que algum dia fui estudante. Quer-se dizer, eu nunca estudei, fiei-me sempre na intuição e no espírito santo de orelha.

P.S. - Hoje é Dia Internacional dos Estudantes. Apesar de mim.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

As orelhas andam geralmente aos pares

As orelhas. As orelhas são muito úteis. E andam geralmente aos pares, como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos e os cornos. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro de preferência apagado e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é mas que se usava muito em Fafe, sobretudo nas tardadas de romaria. As orelhas ficam muito bem com brincos, argolas e outros tipos de piercing. De acordo com a banda desenhada antiga, os pigmeus e outras tribos mais ou menos canibais usavam ossos espetados nas orelhas. Era a moda. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas, que era um método de ensino muito recomendado, praticado com todo o zelo e com provas dadas. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para as chamadas redes sociais. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram nas chamadas redes sociais.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a orelha direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a orelha esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. É o que diz o povo. Se arderem as duas orelhas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
Existem várias qualidades de orelhas, como por exemplo orelhas de elfo, orelhas de abano, orelhas de rato, orelhas de gato, orelhas-de-lebre, orelhas-de-ovelha, orelhas de macaco, orelhas-de-abade, orelhas-de-judas, orelhas moucas, orelhas-de-mula e, passando à política, orelhas de burro.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. As orelhas, em situações extremas, servem também para a nossa alimentação. Neste caso, para disfarçar a antropofagia, chamam-se orelheira. Em tempos de crise como os que vivemos, e agora com a entrada do Verão, é preferível que se sirva fria, como a vingança, mas com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é geralmente bom e é derivado às orelhas. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Piercing Corporal.

sábado, 15 de outubro de 2022

Mãe querida, mãe querida

Era uma mãe à moda antiga, pobre, viúva, severa e de mão lesta, e foi chamada à escola derivado ao filho do meio. Eram nove. Na escola ouviu o que não queria, enfunou, e ligou ao miúdo logo ali, à frente de quem de direito, para que soubessem, gritando, cheia de nervos: - Vais ver quando eu chegar a casa! O filho, que era cego, ficou todo contente.

P.S. - Agora a sério (à séria, se lido em Lisboa), hoje é Dia Mundial da Bengala Branca.

terça-feira, 15 de março de 2022

We don't need no education

Foto Hernâni Von Doellinger

Alegria, alegria a sério era aquilo: chegar à escola primária e a "empregada" mandar-me embora. Ordenava, porque naquele tempo as "empregadas" é que mandavam nas escolas, repito, ordenava: - Vai para casa, diz à tua mãe que a senhora professora está doente. E ordenava com o braço estendido e no fim do braço estendido tinha uma mão estendida com um dedo estendido que não admitia discussão e queria dizer "rua!"...
(Também poderia querer dizer "Salazar! Salazar! Salazar!", mas sem dedo.)
O coração rebentava-me pela boca mal saía o portão, aos gritos e aos saltos - Não há escola!, não há escola!, não há escola!, Rua Montenegro fora, enervando desnecessariamente o pobre Baptista do Asilo, que desatava às cabeçadas contra o gradeamento carcerário, e eu festejando efusivamente a dor de barriga da professorinha, dando a boa nova aos colegas retardatários, que faziam meia-volta-volver e também saltavam e gritavam - Não há escola!, não há escola!, não há escola!...
(Alegria ingénua, pura, intensa, física. Era evidentemente uma manifestação de profunda catarse, embora eu na ocasião não o soubesse, porque ainda não tínhamos chegado a essa palavra.)
Passávamos a Casa de Santa Zita, que caducou, a Cafelândia, que é um banco, a Rosindinha Catequista, que desapareceu, o Largo, que estreitou, a Loja Nova, que morreu de velha, o Peludo, que acabou, o Cinema, que é outra coisa, a Aurorinha Maia, que mudou de ares, a Padaria, que se foi, a Quiterinha, que é só memória, as Grilas, que Deus tem, o Funileiro, que já não há, quer-se dizer, alarmávamos a vila inteira - Não há escola!, não há escola!, não há escola!, eu chegava a casa, no Santo Velho, esbaforido e feliz, e a minha mãe, por tradição, dava-me logo à entrada dois ou três sopapos derivado àquele "espectáculo todo" e... "para aprender", mas não me roubava a alegria.

Aqui que a criançada não nos ouve, a verdade é esta: melhor do que ter escola (porque escola é bom!), só mesmo não ter escola. Ao longo da minha vida aconteceram-me outros momentos extraordinários, episódios marcantes, memoráveis, como, por exemplo, o nascimento do meu primeiro pentelho ou a descoberta do tesão, mas, palavra de honra: nada se compara com aqueles dias gloriosos em que chegava à Escola Conde Ferreira e me mandavam para trás. Lembro-me desses tempos e arrepio-me. Acho que vou vestir qualquer coisa mais quentinha...

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Fevereiro de 2017. Hoje, 15 de Março, é Dia da Escola. No Brasil. A minha escola, que era em Fafe, Portugal, é agora sede da Banda de Revelhe. E o recreio, à volta, da última vez que o vi era um prometedor matagal.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Vais ver quando eu chegar a casa!

Era uma mãe à moda antiga, pobre, viúva, severa e de mão lesta, e foi chamada à escola derivado ao filho do meio. Eram nove. Na escola ouviu o que não queria, enfunou, e ligou ao miúdo logo ali, à frente de quem de direito, para que soubessem: "Vais ver quando eu chegar a casa!", ameaçou cheia de nervos e até o telemóvel cor-de-rosa com florzinhas se assustou. O filho, que era cego, ficou todo contente.  

segunda-feira, 8 de março de 2021

Vais ver quando eu chegar a casa!

Era uma mãe à moda antiga, pobre, viúva, severa e de mão lesta, e foi chamada à escola derivado ao filho do meio. Eram nove. Na escola ouviu o que não queria, enfunou, e ligou ao miúdo logo ali, à frente de quem de direito, para que soubessem: "Vais ver quando eu chegar a casa!", ameaçou cheia de nervos e até o telemóvel cor-de-rosa com florzinhas lhe estremeceu. O filho, que era cego, ficou todo contente.