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terça-feira, 3 de março de 2026

As orelhas andam aos pares

Gastrónoma
Ouviu falar em molho-verde, e disse logo que não. Ela era "ter-mi-nan-te-men-te contra os corantes"...

As orelhas. As orelhas são muito úteis. E andam geralmente aos pares, como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos e os cornos. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro, de preferência apagado, e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é mas que se usava muito em Fafe, sobretudo nas tardadas de romaria. As orelhas ficam muito bem com brincos, argolas e outros tipos de piercing. De acordo com a banda desenhada antiga, os pigmeus e outras tribos mais ou menos canibais usavam ossos espetados nas orelhas. Era a moda. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas, que era um método de ensino muito recomendado, praticado com todo o zelo e com provas dadas no meu tempo. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para as chamadas redes sociais. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram nas chamadas redes sociais.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a orelha direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a orelha esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. É o que diz o povo. Se arderem as duas orelhas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
Existem várias qualidades de orelhas, como por exemplo orelhas de elfo, orelhas de abano, orelhas de rato, orelhas de gato, orelhas-de-lebre, orelhas-de-ovelha, orelhas de macaco, orelhas-de-abade, orelhas-de-judas, orelhas moucas, orelhas-de-mula e, passando à política, orelhas de burro.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. O Vasquinho da Anatomia era o Vasco Santana a fazer de estudante-fadista na "Canção de Lisboa" à séria, o filme de 1933, co-estrelado, não a cavalo, com Beatriz Costa e António Silva. As orelhas, em situações extremas, servem também para a nossa alimentação. Neste caso, para disfarçar, chamam-se orelheira. Em tempos de crise como os que vivemos, e agora com a entrada do Verão, é preferível que se sirva fria, como a vingança, mas com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é quase sempre bom e é derivado às orelhas, com ou sem sonotone. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)

Aguardente? Ouvi perfeitamente!

No reino dos eufemismos
Se o cego é invisual, então o surdo é insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual.

Sabeis, uma daqueles carrinhas tipo rulote transformada em consultório para testes auditivos? Era uma dessas, logo pela manhã, e cá fora um jovem técnico vestindo bata branca, telemóvel na mão esquerda e papeleta na mão direita, afanava-se à procura de insonoros candidatos, mas sem sorte nenhuma. Eu terminava o meu footing diário e o meu caminho habitual até passava pelas traseiras da carrinha, mas de repente resolvi fazer um desvio para alegrar o dia ao diligente porém desanimado funcionário.
Fui-me a ele. Mal me viu assim nesta idade, até os olhos se lhe riram, abeirando-se-me imediata e decididamente:
- Bom dia. Então como é que estamos de audição? - perguntou ele.
- Faz favor de dizer... - disse eu.
- A audição como está? - perguntou ele.
- Desculpe, eu não... - disse eu.
- A audição. Ouve bem? - perguntou ele.
- Como disse?... - perguntei eu.
- A audição! - disse ele.
- O quê?... - perguntei eu.
- Tem uma boa audição? - perguntou ele.
Não é que eu estivesse com pressa, mas desisti, sorrindo:
- Não ligue, eu estava a brincar. O amigo não percebeu?...
- Percebi. E a audição como é que está?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)

quarta-feira, 3 de março de 2021

As orelhas

As orelhas. As orelhas são muito úteis. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para o YouTube. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram no YouTube.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. Se arderem as duas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. As orelhas, em casos extremos, servem também para a nossa alimentação. Em tempos de crise como os que vivemos recomenda-se com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é bom e deve-se às orelhas. Há governantes que não são governantes porque não ouvem. Por exemplo: as orelhas dos alegados presidentes dos Estados Unidos da América e do Brasil são orelhas a fingir, orelhas de mercador. As orelhas do deputado Ventura, outro por exemplo, são orelhas de burro. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Maio de 2012. Hoje, 3 de Março, é Dia Mundial da Audição ou Dia Mundial do Cuidado Auditivo ou Dia Mundial do Cuidado do Ouvido.