Faz hoje mil novecentos e quarenta e nove anos que Tito e as suas
legiões romanas derrubaram a segunda muralha de Jerusalém. Lá dentro, os
judeus fugiram à rasca para a primeira muralha, mas os romanos,
copiando o Porto de muitos séculos depois, construíram uma
circunvalação, cortando vazas aos sitiados e todas as árvores num raio
de quinze quilómetros, o que foi considerado um escândalo ambiental. A
circunvalação de Tito era também conhecida como muralha de cerco, mais
uma vez plagiando por antecipação a Invicta, mas sem bairro. Tito era o filho mais velho
de Vespasiano e foi imperador entre 79 e 81. A mãe de Tito chamava-se
Domitila, a Maior, para se diferenciar da filha Domitila, a Menor, irmã
de Tito.
Tito dedicou-se com sucesso à construção civil em Roma, à presidência da
antiga Jugoslávia e ao futebol no Atlético, onde começou a dar os
primeiros toques, em 1962. Esqueceu as obras e fez bem, aquilo está tudo
em ruínas, e abandonou a política. Deixou a Tapadinha e apostou a sério
na bola: mudou-se para o União de Tomar e depois, por quinhentos
contos, para o Vitória da Guimarães. É daí que o conheço.
Na década de setenta do século passado, Tito fez sete épocas na
Cidade-Berço e marcou 82 golos. Era, e não sei se ainda é, o melhor
marcador de sempre do Vitória na primeira divisão. Fisicamente falando,
Tito pode ser visto como um monovolumezinho, baixote, entroncado da
cabeça aos pés, uma espécie de Müller que os antigos percebem, uma
espécie de Miccoli que os menos antigos sabem, e aos mais novos não sei o
que lhes diga.
Tito, na área, era imperial. Fino. Até de cabeça. E de fora da área
também. Mas não de cabeça. Como muitos craques de hoje em dia, Tito
gostava de treinar livres e remates espontâneos atirados propositada e
directamente à barra. E tinha uma elevada taxa de acerto. O
extraordinário é que, mais difícil ainda, gostava de fazer o número
também de costas para a baliza ou de olhos fechados. E acertava. Palavra
de honra, acertava!
Claro, não havia YouTube. Conto assim tal qual porque eu vi. E de olhos bem abertos.
P.S. - O textinho acima foi escrito e publicado no passado dia 30 de Maio. Os chamados jornais desportivos portugueses estão hoje histericozinhos, à falta de melhores mamas, com um "concurso de habilidades" nos EUA abrilhantado, entre outros craques, pelo nosso Nani, do Orlando City, e pelo nosso João Félix, do Atlético de Madrid. Uma das habilidades era o "remate à barra"e foi um sucesso. Realmente a humanidade não se cansa de inventar a pólvora. E agora há YouTube.
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Escorpiões, gafanhotos e outros encabanços
O brasileiro José Graziano da Silva acaba esta semana o seu mandato de oito anos (quatro mais quatro) como director-geral da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), agência especializada das Nações Unidas. Na hora da saída, e perante o aumento da fome no mundo, ele deixa a sugestão: "Comemos tanta porcaria, porque não escorpião?"
Olha que bem lembrado: exactamente escorpião, porque não? Estaria o problema resolvido. Eu por exemplo: quando fiz 21 anos comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me queixo, embora tenha sido uma canseira andar a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos quando fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Eram assim os Comandos, para onde não fui voluntário. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugo descontrolado e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quarenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que às vezes "as coisas correm mal"...
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche talvez marchassem melhor. E depois um golinho de água, por favor...
Naquele tempo eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro (isto anda tudo ligado) Juca Chaves e que, indo directamente aos finalmentes, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando.
Olha que bem lembrado: exactamente escorpião, porque não? Estaria o problema resolvido. Eu por exemplo: quando fiz 21 anos comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me queixo, embora tenha sido uma canseira andar a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos quando fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Eram assim os Comandos, para onde não fui voluntário. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugo descontrolado e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quarenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que às vezes "as coisas correm mal"...
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor palerma. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche talvez marchassem melhor. E depois um golinho de água, por favor...
Naquele tempo eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro (isto anda tudo ligado) Juca Chaves e que, indo directamente aos finalmentes, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando.
Camilo Lara 3
se subimos
ao cume
ao lado
dos abismos
temos o direito
de cair
Camilo Lara
(Camilo Lara nasceu no dia 31 de Julho de 1959. Morreu em 2016.)
ao cume
ao lado
dos abismos
temos o direito
de cair
Camilo Lara
(Camilo Lara nasceu no dia 31 de Julho de 1959. Morreu em 2016.)
terça-feira, 30 de julho de 2019
A febre da Protecção Civil
Bem prega frei Tomás
Tomás era o faz-tudo do convento. Agricultor, apicultor, sacristão, chef de cozinha, porteiro, parteiro, telefonista, copista, contorcionista, iluminador, vendedor de imóveis, disc jockey,
picheleiro, Pai Natal, guarda-redes, mas sobretudo era um carpinteiro de mão cheia. Fosse o soalho
do refeitório ou empreitada mais modesta, de martelo em riste, pregador como ele não havia.
Mário Quintana 9
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
"A Rua dos Cataventos", Mário Quintana
(Mário Quintana nasceu no dia 30 de Julho de 1906. Morreu em 1994.)
Dou abraços em segunda mão
Caro Amigo,
Lembrei-me de te escrever hoje. Há que tempos, não é? Andei a mexer nas gavetas, faço-o uma vez por ano, sei lá eu porquê, e no meio da papelada encontrei meia dúzia de abraços antigos mas ainda em razoável estado de conservação. É o que me resta. Acho que é uma pena deitá-los fora. Vou mandar-te um. Espero que te sirva.
Paroles, paroles, paroles
Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos afectos, dos carinhos. Reparem: antigamente davam-se beijos, davam-se abraços; agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Dizemos. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um beijo", "Desejo-lhe um excelente abraço"...
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.
Devolveram-me o amplexo
O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço."
O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado."
E eu pensei: o abraço teria defeito?
Saudações amigas?
Escrevi aí a uma criatura e, no final, mandei-lhe um "grande abraço". A criatura despachou-me e, no final, mandou-me, para a troca, "saudações amigas". Saudações amigas? Mas, Senhor Bispo, o que raio são saudações amigas? Evidentemente serão o contrário de saudações inimigas, mas o que são saudações inimigas? Abraço, eu sei: o abraço é sólido, palpável, vê-se, sente-se, dá-se, recebe-se, aperta-nos, aproxima-nos, humaniza-nos. Agora, saudações amigas...
Amigo é a solidão derrotada
Dá-me para isto ultimamente. Pergunto aos meus amigos: - Andas feliz? És feliz? Pergunto-lhes acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas (há quem acumule), dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, da filosofia, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falamos de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha está a saber bem.
A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Os meus amigos são poucos e interessam-me muito e por isso é que são sem aspas e sem Facebook. Somos amigos cara a cara, de abraço de carne e osso. Deve ser da idade, ou então da falta de ar no armário, mas eu e os meus amigos andamos cada vez mais abraçadeiros uns com os outros. Os meus amigos sabem que eu cozinho e são meia dúzia deles. Às vezes frequentam-me a mesa ou o balcão da cozinha, por mor de umas fanecas com arroz de tomate ou de umas bifanas que me trazem quentinhas. E eu sou um felizardo por eles me frequentarem a vida.
P.S. - Hoje, 30 de Julho, é Dia Internacional da Amizade, por ordem da ONU.
Lembrei-me de te escrever hoje. Há que tempos, não é? Andei a mexer nas gavetas, faço-o uma vez por ano, sei lá eu porquê, e no meio da papelada encontrei meia dúzia de abraços antigos mas ainda em razoável estado de conservação. É o que me resta. Acho que é uma pena deitá-los fora. Vou mandar-te um. Espero que te sirva.
Paroles, paroles, paroles
Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos afectos, dos carinhos. Reparem: antigamente davam-se beijos, davam-se abraços; agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Dizemos. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um beijo", "Desejo-lhe um excelente abraço"...
É. Olhem bem à volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O que verdadeiramente está em crise é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer e são apenas... palavras, palavras, palavras.
Devolveram-me o amplexo
O meu amigo fazia anos e eu mandei-lhe uma SMS: "Parabéns. Abraço."
O meu amigo respondeu-me, também por SMS: "Devolvo o abraço. Obrigado."
E eu pensei: o abraço teria defeito?
Saudações amigas?
Escrevi aí a uma criatura e, no final, mandei-lhe um "grande abraço". A criatura despachou-me e, no final, mandou-me, para a troca, "saudações amigas". Saudações amigas? Mas, Senhor Bispo, o que raio são saudações amigas? Evidentemente serão o contrário de saudações inimigas, mas o que são saudações inimigas? Abraço, eu sei: o abraço é sólido, palpável, vê-se, sente-se, dá-se, recebe-se, aperta-nos, aproxima-nos, humaniza-nos. Agora, saudações amigas...
Amigo é a solidão derrotada
Dá-me para isto ultimamente. Pergunto aos meus amigos: - Andas feliz? És feliz? Pergunto-lhes acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas (há quem acumule), dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, da filosofia, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falamos de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha está a saber bem.
A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Os meus amigos são poucos e interessam-me muito e por isso é que são sem aspas e sem Facebook. Somos amigos cara a cara, de abraço de carne e osso. Deve ser da idade, ou então da falta de ar no armário, mas eu e os meus amigos andamos cada vez mais abraçadeiros uns com os outros. Os meus amigos sabem que eu cozinho e são meia dúzia deles. Às vezes frequentam-me a mesa ou o balcão da cozinha, por mor de umas fanecas com arroz de tomate ou de umas bifanas que me trazem quentinhas. E eu sou um felizardo por eles me frequentarem a vida.
P.S. - Hoje, 30 de Julho, é Dia Internacional da Amizade, por ordem da ONU.
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Dia Internacional da Amizade,
No Reino da Dinamarca,
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segunda-feira, 29 de julho de 2019
Microcontos & outras miudezas 158
Omnipotente
Deus pode tudo. O bem e o mal?...
Omnisciente
Deus sabe tudo. Mas às vezes esquece-se.
Omnipresente
Deus está em toda a parte. Mas não é geral.
Visão divina
Deus vê tudo. Mas fecha os olhos.
Infinito mas com limites
Deus é infinitamente bom. Mas convém não abusar.
Iguais perante Deus
Somos todos iguais aos olhos de Deus. Cada qual no seu lugar.
Cuidado ao lavar
Deus é justo, porém imenso.
Esperando deitado, amém
Deus tarda, mas não falha. Há quem diga.
O encontro das duas senhoras
- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas ladainhas altifalantadas, estes tambores, este sol, este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas, vá indo que eu vou do meu vagar...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.
Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...
O culpado
Estava de bem com Deus e com os homens. Ele sabia do fundo do coração: todo o mal que lhe caíra em cima - tanto, tanto! - foi sempre por culpa própria, asneira do momento ou em paga de pecados velhos. Com apenas alguns milhares e milhares de lamentáveis excepções.
Deus pode tudo. O bem e o mal?...
Omnisciente
Deus sabe tudo. Mas às vezes esquece-se.
Omnipresente
Deus está em toda a parte. Mas não é geral.
Visão divina
Deus vê tudo. Mas fecha os olhos.
Infinito mas com limites
Deus é infinitamente bom. Mas convém não abusar.
Iguais perante Deus
Somos todos iguais aos olhos de Deus. Cada qual no seu lugar.
Cuidado ao lavar
Deus é justo, porém imenso.
Esperando deitado, amém
Deus tarda, mas não falha. Há quem diga.
O encontro das duas senhoras
- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas ladainhas altifalantadas, estes tambores, este sol, este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas, vá indo que eu vou do meu vagar...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.
Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...
O culpado
Estava de bem com Deus e com os homens. Ele sabia do fundo do coração: todo o mal que lhe caíra em cima - tanto, tanto! - foi sempre por culpa própria, asneira do momento ou em paga de pecados velhos. Com apenas alguns milhares e milhares de lamentáveis excepções.
Aquilino Iglesia Alvariño 5
Esta é a mar dos solpôres
[...]
Un día
as pesadas cabezas
afundíronse para sempre pra máis aló do sono.
E daquela a súa sombra
foi xa amarguexo e cinza,
e oco sin consolo, e triste esquenzo.
Daquela foi a mar
as outas olas sin acougo.
No seu colo de tola sin mamoria
anaina os soles do solpôr
e as lúas novas coma nécoras pequerrechas
ô son do eco cóncavo e lonxano
daqueles altos montes tan velliños
que foron unha vez.
"Cómaros Verdes", Aquilino Iglesia Alvariño
(Aquilino Iglesia Alvariño nasceu no dia 12 de Junho de 1909. Morreu no dia 29 de Julho de 1961.)
[...]
Un día
as pesadas cabezas
afundíronse para sempre pra máis aló do sono.
E daquela a súa sombra
foi xa amarguexo e cinza,
e oco sin consolo, e triste esquenzo.
Daquela foi a mar
as outas olas sin acougo.
No seu colo de tola sin mamoria
anaina os soles do solpôr
e as lúas novas coma nécoras pequerrechas
ô son do eco cóncavo e lonxano
daqueles altos montes tan velliños
que foron unha vez.
"Cómaros Verdes", Aquilino Iglesia Alvariño
(Aquilino Iglesia Alvariño nasceu no dia 12 de Junho de 1909. Morreu no dia 29 de Julho de 1961.)
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Tenkiu verigude
É este Verão um bocado tolo, incerto, mas ainda assim assoberbado numa terra dita de horizonte e mar e que acordou ontem e à ganância para o golpe do alojamento local. A inglesinha abeirou-se-me sorridente e de mapa na mão, pedindo-me que
lhe dissesse onde estava. Indiquei-lhe: estávamos na Avenida de Serpa
Pinto, Matosinhos, que era o sítio que ela queria. Alargando o sorriso,
bonito, a inglesinha simpática fez "Hã... hã... hã...", à procura da
palavra certa, e, no seu melhor português, saiu-se finalmente, toda
satisfeita, "Grazie!"...
Vá lá, podia ter sido pior. Se me tivesse atirado "Muchas gracias!" eu ficaria realmente incomodado...
Vá lá, podia ter sido pior. Se me tivesse atirado "Muchas gracias!" eu ficaria realmente incomodado...
domingo, 28 de julho de 2019
Kits marados, golas inflamáveis e outras tolérias
O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso:
dominados. É uma questão de orgulho macho. E então arrebitam e continuam
a
arder lampeiramente uma semana depois de terem sido decretados dominados
aos microfones da CMTV, e a CMTV fica toda contente, porque a CMTV é do
ramo do sarrabulho e do fumeiro - disso vive, em lume brando. Os
oficiais da Protecção Civil, doutores da mula ruça porém pessoas muito
honradas e de boina, que antes deste rico emprego nunca tinham posto os
pés num incêndio, tiraram um
curso relâmpago de Teatro de Operações, Forças no Terreno, Frentes
Activas, Meios Aéreos & Pontos de
Ignição e gostam de dar na televisão: o mais que dizem é que os
incêndios de manhã, se não estão já dominados, vão entregar-se às
autoridades a meio da tarde. Os oficiais da Protecção Civil e os
políticos que os pariram inventaram um novo dicionário,
especializaram-se em semântica, graduaram-se em eufemística e falam
muito do que sabem nada...
(Minúsculo esclarecimento, provavelmente desnecessário para o cidadão comum: Teatro de Operações, vulgo TO.)
Os bombeiros estão lá no centro do vulcão a derreter, mas a eles agora ninguém lhes pode perguntar. E ainda bem, porque lá dentro faz muito calor e o calor dilata os copos. O senhor da boina no camião de Fórmula 1 com ar condicionado é que sabe, e bebe águas das pedras. Geladas. E há briefings bidiários com groselha.
Quando o monte ardia, os bombeiros iam. Os bombeiros voluntários. Naquele tempo ninguém sequer sonhava ganhar dinheiro por fazer de conta que apaga incêndios - eram uns tolos. Não havia rede, satélites, parabólicas ou fibra óptica, ainda não havia radiotelefones ao serviço, os telemóveis ainda não tinham sido inventados e nem sequer havia cabinas telefónicas nos montes. Parece impossível, mas lá em cima, no meio da penedia e das giestas, no Portugal das cabras e dos cabrões, não havia telefone de espécie nenhuma. E não havia SIRESP, graças a Deus. Que se segue: se eram precisos reforços, alguém vinha de motorizada dar o recado ao quartel. Ou por outra: o SIRESP vinha de motorizada. Ou por outra: o SIRESP era a motorizada.
O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. Freud explicaria muito melhor do que eu, mas eu, de momento, não tenho o Freud aqui à mão e perdi-lhe o número do telemóvel. Por outro lado, os incêndios estão desgostosos por lhes terem trocado o nome e mudado o objecto social. Objecto social, sim: o fogo é hoje em dia um negócio como outro qualquer - como a guerra, como a droga ou como a cirurgia plástica, por exemplo -, com múltiplas plataformas de exploração e sinergias que não param de exponenciar-se, a jusante e a montante, um extraordinário negócio que distribui transversalmente milhões e milhões e milhões de euros ou dólares consoante o paraíso, uma indústria em que todos ganham e em que apenas Portugal e os portugueses do rés-do-chão ficamos a perder.
Chamavam-se fogos antigamente e eram para apagar. Exactamente, fogos. E para apagar. Velhos tempos, coisas simples: Portugal ardia menos e não havia tanto teatro... de operações.
P.S. - O Governo comprou o SIRESP por sete milhões de euros. PCP e CDS, e o PSD a reboque, chamaram ao Parlamento os ministros da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e da Economia, Pedro Siza Vieira, para que os alegados governantes lhes expliquem a matreira engenharia do negócio. A grande preocupação deles - do PCP e do CDS e, que remédio, do PSD - é que, hoje em dia, sete milhões não chegam sequer para contratar um defesa esquerdo que não tropece no pé direito. Então, como é que foi possível a jigajoga do SIRESP por dez réis de mel coado?...
P.S. 2 - E agora o escândalo dos kits e das golas inflamáveis que afinal não são mas são outra coisa. As negociatas, as famílias, a pouca-vergonha e honra nenhuma. O Governo diz que a culpa é da Protecção Civil e a Protecção Civil diz que a culpa é do Governo. E eu pensava que a Protecção Civil era do Governo. O escusado Jaime Marta Soares, redundante presidente da Liga dos Bombeiros, diz que a culpa é da Protecção Civil, e eu pensava que os bombeiros eram Protecção Civil. Rui Rio, desgraçado líder do PSD, quer que o Ministério Público investigue. Assunção Cristas, líder catita do CDS, foi ao cabeleireiro. E eu exijo que os bombeiros pessoas sejam ignífugos desde pequeninos.
(Minúsculo esclarecimento, provavelmente desnecessário para o cidadão comum: Teatro de Operações, vulgo TO.)
Os bombeiros estão lá no centro do vulcão a derreter, mas a eles agora ninguém lhes pode perguntar. E ainda bem, porque lá dentro faz muito calor e o calor dilata os copos. O senhor da boina no camião de Fórmula 1 com ar condicionado é que sabe, e bebe águas das pedras. Geladas. E há briefings bidiários com groselha.
Quando o monte ardia, os bombeiros iam. Os bombeiros voluntários. Naquele tempo ninguém sequer sonhava ganhar dinheiro por fazer de conta que apaga incêndios - eram uns tolos. Não havia rede, satélites, parabólicas ou fibra óptica, ainda não havia radiotelefones ao serviço, os telemóveis ainda não tinham sido inventados e nem sequer havia cabinas telefónicas nos montes. Parece impossível, mas lá em cima, no meio da penedia e das giestas, no Portugal das cabras e dos cabrões, não havia telefone de espécie nenhuma. E não havia SIRESP, graças a Deus. Que se segue: se eram precisos reforços, alguém vinha de motorizada dar o recado ao quartel. Ou por outra: o SIRESP vinha de motorizada. Ou por outra: o SIRESP era a motorizada.
O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. Freud explicaria muito melhor do que eu, mas eu, de momento, não tenho o Freud aqui à mão e perdi-lhe o número do telemóvel. Por outro lado, os incêndios estão desgostosos por lhes terem trocado o nome e mudado o objecto social. Objecto social, sim: o fogo é hoje em dia um negócio como outro qualquer - como a guerra, como a droga ou como a cirurgia plástica, por exemplo -, com múltiplas plataformas de exploração e sinergias que não param de exponenciar-se, a jusante e a montante, um extraordinário negócio que distribui transversalmente milhões e milhões e milhões de euros ou dólares consoante o paraíso, uma indústria em que todos ganham e em que apenas Portugal e os portugueses do rés-do-chão ficamos a perder.
Chamavam-se fogos antigamente e eram para apagar. Exactamente, fogos. E para apagar. Velhos tempos, coisas simples: Portugal ardia menos e não havia tanto teatro... de operações.
P.S. - O Governo comprou o SIRESP por sete milhões de euros. PCP e CDS, e o PSD a reboque, chamaram ao Parlamento os ministros da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e da Economia, Pedro Siza Vieira, para que os alegados governantes lhes expliquem a matreira engenharia do negócio. A grande preocupação deles - do PCP e do CDS e, que remédio, do PSD - é que, hoje em dia, sete milhões não chegam sequer para contratar um defesa esquerdo que não tropece no pé direito. Então, como é que foi possível a jigajoga do SIRESP por dez réis de mel coado?...
P.S. 2 - E agora o escândalo dos kits e das golas inflamáveis que afinal não são mas são outra coisa. As negociatas, as famílias, a pouca-vergonha e honra nenhuma. O Governo diz que a culpa é da Protecção Civil e a Protecção Civil diz que a culpa é do Governo. E eu pensava que a Protecção Civil era do Governo. O escusado Jaime Marta Soares, redundante presidente da Liga dos Bombeiros, diz que a culpa é da Protecção Civil, e eu pensava que os bombeiros eram Protecção Civil. Rui Rio, desgraçado líder do PSD, quer que o Ministério Público investigue. Assunção Cristas, líder catita do CDS, foi ao cabeleireiro. E eu exijo que os bombeiros pessoas sejam ignífugos desde pequeninos.
Simplesmente Simplício (ou, vá lá, Agá Ramos)
Sou Bomba, Dezassete e Perna-de-Pau, por parte do meu pai, e sou Neques, por parte da minha mãe, com muito gosto. Já me chamaram Américo, Pobre, Padreca, Sacerdote, Profeta, Bítala, Cabeludo, Guedelhudo, Hippie, Careca, 05613478, Amélia, Drogado, Comunista, Socialista, Anarquista, Violoncelista (é a brincar - nunca ninguém teve a coragem de me chamar Violoncelista na cara!), Caixa-de-Óculos, Ó Tio Ó Tio, Gramático, Chefe, Doutor, Professor, Andrade, Pau de Virar Tripas, Gordo, Ex-Gordo, Hernano, Hermano, Herlânder, Hermo, Irrenane, Renane, Ranano, Renamo, Ernesto, Aquele Senhor, Doente da Cama 2, Próximo!, Nanes, Se'Nane, Belingue, Berlingue, Bilingue, Berlindes, Boelingue, Bolingue, Dillinger, Dilingue, Volkswagen. Eu sinceramente prefiro que me chamem Simplício. Ou então, vá lá, Agá Ramos.
Xesús Rodríguez López 4
Os solteirós
Fai xa tempo que me choca
porqu' é cousa d'estrañar
o ver tanto solteiron
como pol-o mundo hay
con posiceon e con cartos
sin trazas de se casar,
por mais qu'eles ben conozan
que lleis vai pasando á edá
habendo tantas solteiras
que podían amparar.
[...]
"Pasaxeiras", Xesús Rodríguez López
(Xesús Rodríguez López nasceu no dia 28 de Julho de 1859. Morreu em 1917.)
Fai xa tempo que me choca
porqu' é cousa d'estrañar
o ver tanto solteiron
como pol-o mundo hay
con posiceon e con cartos
sin trazas de se casar,
por mais qu'eles ben conozan
que lleis vai pasando á edá
habendo tantas solteiras
que podían amparar.
[...]
"Pasaxeiras", Xesús Rodríguez López
(Xesús Rodríguez López nasceu no dia 28 de Julho de 1859. Morreu em 1917.)
sábado, 27 de julho de 2019
Lições de História 47: os Dalton
Os irmãos Dalton eram oito, quatro de cada vez. Começaram por ser Bob, Grat, Bill e Emmet, mas morreram, faz de conta, e foram substituídos pelos primos mais à mão, os impagáveis Joe, William, Jack e Averell. Estes quatro eram bastante filhos da mãe, da Mãe Dalton, vestiam às risquinhas, deslocavam-se em escadinha, sempre do mais pequeno para o maior ou vice-versa, e Lucky Luke fazia-lhes a vida negra.
Houve também o bando dos Dalton a sério (à séria, se lido em Lisboa). Eram especialistas em bancos e comboios, actuaram com assinalável sucesso no Velho Oeste americano entre 1890 e 1892 e chamavam-se Tim Evans, Bob Dalton, Grat Dalton e Dick Broadwell. Foram abatidos pela polícia durante o assalto a uma dependência bancária em Coffeyville, Kansas, e tiveram todos um lindo enterro.
Há ainda a registar Timothy Dalton, aquele actor galês e fraquinho que fez por engano dois 007, o Dalton Ico e o Dalton Trevisan, famoso escritor brasileiro entendido em vampiros e ganhador dos prémios Camões e Machado de Assis, entre outros. O mais destacado membro da família terá sido, no entanto, o cientista inglês John Dalton (1766-1844), químico, meteorologista e físico, um dos primeiros a defender que a matéria é feita de pequenos nadas, os átomos, e inventor da "lei das proporções múltiplas", melhor chamada Lei de Dalton para não se confundir com a Lei de Ohm. O grande John faleceu faz hoje exactamente 175 anos. RIP.
Houve também o bando dos Dalton a sério (à séria, se lido em Lisboa). Eram especialistas em bancos e comboios, actuaram com assinalável sucesso no Velho Oeste americano entre 1890 e 1892 e chamavam-se Tim Evans, Bob Dalton, Grat Dalton e Dick Broadwell. Foram abatidos pela polícia durante o assalto a uma dependência bancária em Coffeyville, Kansas, e tiveram todos um lindo enterro.
Há ainda a registar Timothy Dalton, aquele actor galês e fraquinho que fez por engano dois 007, o Dalton Ico e o Dalton Trevisan, famoso escritor brasileiro entendido em vampiros e ganhador dos prémios Camões e Machado de Assis, entre outros. O mais destacado membro da família terá sido, no entanto, o cientista inglês John Dalton (1766-1844), químico, meteorologista e físico, um dos primeiros a defender que a matéria é feita de pequenos nadas, os átomos, e inventor da "lei das proporções múltiplas", melhor chamada Lei de Dalton para não se confundir com a Lei de Ohm. O grande John faleceu faz hoje exactamente 175 anos. RIP.
Microcontos & outras miudezas 157
A lebre de serviço
Os principais favoritos organizaram uma patuscada e comeram a lebre. Depois fizeram tempos de merda.
Dama com armário
Pediu ao amante um armário. E o amante comprou-lho. Quando o móvel lhe entrou em casa é que ela deu fé do engano. Ela queria um arminho...
O papel
Conseguiu finalmente acabar com o papel na sua empresa. Nas casas de banho notou-se logo.
O benfeitor
Era um recatado benfeitor: não queria que se soubesse que ele queria que se soubesse.
Lições de História: a Batalha de Castillon
A Batalha de Castillon foi levada a efeito em 1453, faz hoje exactamente 566 anos, e ficou na História como a derradeira e decisiva batalha da Guerra dos Cem Anos, que decorreu razoavelmente entre franceses e ingleses. A França ganhou, e félicitations à la cousine. A Guerra dos Cem Anos chama-se Guerra dos Cem Anos porque durou cento e dezasseis anos, mas chamar Guerra dos Cento e Dezasseis Anos à Guerra dos Cem Anos não dava jeito nenhum aos historiadores e contabilistas bancários, e assim começaram os arredondamentos.
Eu cuido que a Batalha de Castillon se efectivou em Fafe, numa antiga elevação entre a Ponte do Ranha, o Socorro, a Fábrica do Papelão, a casa da Dona Aurora e o Estádio. Ali se situava, com efeito, o famoso monte de Castelhão, como se diz em português, ou Castilhom, como se diz em fafês. O monte de Castelhão era um sítio aprazível para a realização de todo o tipo de batalhas, como por exemplo brincar aos cobóis, e tinha um belíssimo pionono, de que infelizmente não há muita certeza.
Gosto muito de o ver na televisão
- Gosto muito de o ver na televisão!
- E que tal aqui ao vivo, hã?...
- Gosto muito de o ver na televisão.
Os principais favoritos organizaram uma patuscada e comeram a lebre. Depois fizeram tempos de merda.
Dama com armário
Pediu ao amante um armário. E o amante comprou-lho. Quando o móvel lhe entrou em casa é que ela deu fé do engano. Ela queria um arminho...
O papel
Conseguiu finalmente acabar com o papel na sua empresa. Nas casas de banho notou-se logo.
O benfeitor
Era um recatado benfeitor: não queria que se soubesse que ele queria que se soubesse.
Lições de História: a Batalha de Castillon
A Batalha de Castillon foi levada a efeito em 1453, faz hoje exactamente 566 anos, e ficou na História como a derradeira e decisiva batalha da Guerra dos Cem Anos, que decorreu razoavelmente entre franceses e ingleses. A França ganhou, e félicitations à la cousine. A Guerra dos Cem Anos chama-se Guerra dos Cem Anos porque durou cento e dezasseis anos, mas chamar Guerra dos Cento e Dezasseis Anos à Guerra dos Cem Anos não dava jeito nenhum aos historiadores e contabilistas bancários, e assim começaram os arredondamentos.
Eu cuido que a Batalha de Castillon se efectivou em Fafe, numa antiga elevação entre a Ponte do Ranha, o Socorro, a Fábrica do Papelão, a casa da Dona Aurora e o Estádio. Ali se situava, com efeito, o famoso monte de Castelhão, como se diz em português, ou Castilhom, como se diz em fafês. O monte de Castelhão era um sítio aprazível para a realização de todo o tipo de batalhas, como por exemplo brincar aos cobóis, e tinha um belíssimo pionono, de que infelizmente não há muita certeza.
Gosto muito de o ver na televisão
- Gosto muito de o ver na televisão!
- E que tal aqui ao vivo, hã?...
- Gosto muito de o ver na televisão.
Salvador Golpe 5
Unha cita
Do crepúsculo â lus nacarada,
Mirando pr'a serra,
No curuto do monte mais alto
Lucía unha estrela.
¿Vel-a estrela da tarde? - lle dixen -
Se lonxe da terra
Os traballos y as loitas do mundo
Con vida me levan,
Mira a estrela que agora ch'amostro,
Que agora contempras,
Cal espello de amor, dos meus ollos
A lus verás n-ela.
E verás n-ese espello, duas almas
N-un solio de estrelas:
A tua alma co a miña, bicandose
Moi lonxe da terra.
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
Do crepúsculo â lus nacarada,
Mirando pr'a serra,
No curuto do monte mais alto
Lucía unha estrela.
¿Vel-a estrela da tarde? - lle dixen -
Se lonxe da terra
Os traballos y as loitas do mundo
Con vida me levan,
Mira a estrela que agora ch'amostro,
Que agora contempras,
Cal espello de amor, dos meus ollos
A lus verás n-ela.
E verás n-ese espello, duas almas
N-un solio de estrelas:
A tua alma co a miña, bicandose
Moi lonxe da terra.
"A Nosa Terra", Salvador Golpe
(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)
sexta-feira, 26 de julho de 2019
Matosinhos world’s bost fish
Matosinhos cheira mal. Faz parte. E aos domingos mete nojo. Os restaurantes de peixe rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom para o IVA, mas fedem e fumegam num alucinante aviso do que decerto será o fim do mundo de um modo geral. Aos domingos, Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem
água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo deitado alegremente à rua sem norma nem excepção. Cheira também aos
escapes bronquíticos dos incendiários autocarros da Resende. Quer-se dizer: Matosinhos cheira
mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupa de Heróis de França e faz um trabalho impecável, e com quem dou, sempre que podemos, dois dedos de conversa, pediu-me que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um destes dias lá estará ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta.
Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupa de Heróis de França e faz um trabalho impecável, e com quem dou, sempre que podemos, dois dedos de conversa, pediu-me que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um destes dias lá estará ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta.
Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.
O homem profundo 2
Era um homem profundo. Dizia com insistência: - O meu melhor presente é hoje. Agora.
Cassiano Ricardo 5
A orquídea
A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.
Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.
Já supõe palavra
embora muda.
Já supõe insídia.
Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?
"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo
(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu em 1974.)
A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.
Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.
Já supõe palavra
embora muda.
Já supõe insídia.
Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?
"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo
(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu em 1974.)
Altino do Tojal 3
Sim, abomino as crias dos homens - esses monstrozinhos vorazes e gesticulantes, sempre sentados nas próprias fezes, sempre de ranho no nariz, sempre de goela escancarada. Quão mais grácil e aprumado não é, por exemplo, um vitelo! Cumpre informar‑vos de que não sou de cá; sou de fora, do alto. Fui destinado a um cometa pantanoso, com muitas flores e um carvão aceso, gravitante, a alumiar. Afinal, eis‑me aqui. E sabeis porquê? Porque a garça de nívea plumagem que me trouxe suspenso do bico fazia o seu primeiro recado, era bisonha no mister, pouco entendia de orientação celeste.
Na minha qualidade de ente destinado a outro universo e posto aqui por engano, costumo vaguear a desoras pelas ruas menos frequentadas. Ora, certo anoitecer, deslizava eu ao acaso por uma cangosta dos arrabaldes, entre muros podres, verdosos, quando... - horror! - vi uma cria de homem, um monstro. Nem menos! De tarde chovera, chovera muito, e a dita cria estava sentada na lama, com as pernas cruzadas, nua como uma lesma, tremendo.
Estaquei. Ela ali estava, repelente, no meu caminho! Que fazer? Se eu conseguisse esgueirar‑me...
"Os Putos", Altino do Tojal
(Altino do Tojal nasceu no dia 26 de Julho de 1939. Morreu nem 2018.)
quinta-feira, 25 de julho de 2019
Lições de História 37: Constantino
Constantino era um tipo algo bizantino, porém completamente levado da
breca. Foi imperador romano nos anos trezentos e o seu nome deu nome à
cidade de Istambul, como o próprio nome indica. Andar à pancada era com
ele: derrotou Magêncio e Licínio, sovou francos e alanos, visigodos e
sármatas. Depois abrandou. Abrandou, e nos inícios do século passado
voltou à luta, agora sobretudo contra o Macieira, o 1920, o Croft e o
L34.
P.S. - Constantino foi proclamado imperador pelas suas tropas em 306, faz hoje exactamente 1713 anos. Sobre o outro Constantino, o camisa VII, aqui.
P.S. - Constantino foi proclamado imperador pelas suas tropas em 306, faz hoje exactamente 1713 anos. Sobre o outro Constantino, o camisa VII, aqui.
Día da Patria Galega 2019
O Día de Galiza
Non imos matar mouros,
meus irmáns, por favor,
(aínda que o consello nestes tempos
carece de valor)
non imos, non, tras un cabalo branco
e unha espada fulxente coma o sol,
un e outra guiados
polo brazo forzudo dun siñor
que amorado dos iberos guerreiros
as delicias do ceu abandonou
Deixemos que as mesetas,
irtas e trigueiras,
ergan roxas bandeiras
a toque de trompetas,
que pra nós abonda
un sinxelo altar
nunha furna fonda
da beira do mar,
ou na soberana
pas dunha montana.
Nosoutros imos por un vieiro,
nosoutros imos por unha estrada
que o paso lene dun viaxeiro
con sangue quente deixou marcada.
E hoxe facemos festa
no meio do camiño,
sin desarrear a besta
nin beber moito viño;
queremos celebrar o noso día
baixo o agarimo de benina estrela,
sin mentar vanamente a valentía
que soio na ocasión debemos tela.
Gonzalo López Abente, "Decrúa"
(Hoje, 25 de Julho, é Día Nacional de Galicia, também conhecido popularmente como Día Nacional da Galiza ou Día da Patria Galega)
Non imos matar mouros,
meus irmáns, por favor,
(aínda que o consello nestes tempos
carece de valor)
non imos, non, tras un cabalo branco
e unha espada fulxente coma o sol,
un e outra guiados
polo brazo forzudo dun siñor
que amorado dos iberos guerreiros
as delicias do ceu abandonou
Deixemos que as mesetas,
irtas e trigueiras,
ergan roxas bandeiras
a toque de trompetas,
que pra nós abonda
un sinxelo altar
nunha furna fonda
da beira do mar,
ou na soberana
pas dunha montana.
Nosoutros imos por un vieiro,
nosoutros imos por unha estrada
que o paso lene dun viaxeiro
con sangue quente deixou marcada.
E hoxe facemos festa
no meio do camiño,
sin desarrear a besta
nin beber moito viño;
queremos celebrar o noso día
baixo o agarimo de benina estrela,
sin mentar vanamente a valentía
que soio na ocasión debemos tela.
Gonzalo López Abente, "Decrúa"
(Hoje, 25 de Julho, é Día Nacional de Galicia, também conhecido popularmente como Día Nacional da Galiza ou Día da Patria Galega)
Dia do Escritor Brasileiro 2019
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade, "Alguma Poesia"
(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade, "Alguma Poesia"
(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)
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quarta-feira, 24 de julho de 2019
Víctor Campio Pereira
Elexía para un pobo asolagado
Espallabas o teu antiguo corpo, Alberguería,
polas anchas terras da Veiga, ó pé do río Xares,
como un vello león de Nubia dormido sobre o tempo.
Nas longas noites da invernía,
apiñado arredor da vella eirexe,
o teu casal erguía as súas torres fumegantes
cara un amable ceo coroado de nimbos.
O pobo era un doncel amante e sabio
que fatigaba a terra co legón e coa aixada,
acendía fogueiras no cruce dos camiños,
poboaba os sendeiros de voces e de risas
e cantaba as historias dos seus antepasados...
No regreso das feiras e das festas,
polas fondas congostras dos teus campos,
a mocidade ceibaba no aire da madrugada,
contra a luz das estrelas,
o largacío alalá dun aturuxo
que fendía en dous cachos o silencio.
Cando o verán estalaba no Azureiras,
acendíase o sol en toda a Veiga
e o aire traía arrecendos a terra perfumada
dos castaños en flor
das ribeiras do Xares.
Así eras ti, Alberguería,
nos teus felices tempos de esplendor e de gloria,
cando a luz transitaba os teus camiños
e florecía a vida nos teus eidos.
Pero chegou a hora da inxustiza
e cumpríronse en ti as leis de Leviatán
contra toda razón.
A besta de innumerables cabezas,
nos infames cabalos do Apocalipse,
agalloupou polo teu corpo malaventurado
e as túas xentes, en triste desbandada,
tiveron que iniciar o rumbo da diáspora
pola rosa dos ventos,
tan lonxe para sempre do teu amante colo,
do teu verde solar de choiva e pedra.
E tí estás agora a dormir, Alberguería,
baixo as augas do encoro,
o teu eterno sono de lembranzas e ausencias,
agardando o regreso dos teus fillos.
Espallabas o teu antiguo corpo, Alberguería,
polas anchas terras da Veiga, ó pé do río Xares,
como un vello león de Nubia dormido sobre o tempo.
Nas longas noites da invernía,
apiñado arredor da vella eirexe,
o teu casal erguía as súas torres fumegantes
cara un amable ceo coroado de nimbos.
O pobo era un doncel amante e sabio
que fatigaba a terra co legón e coa aixada,
acendía fogueiras no cruce dos camiños,
poboaba os sendeiros de voces e de risas
e cantaba as historias dos seus antepasados...
No regreso das feiras e das festas,
polas fondas congostras dos teus campos,
a mocidade ceibaba no aire da madrugada,
contra a luz das estrelas,
o largacío alalá dun aturuxo
que fendía en dous cachos o silencio.
Cando o verán estalaba no Azureiras,
acendíase o sol en toda a Veiga
e o aire traía arrecendos a terra perfumada
dos castaños en flor
das ribeiras do Xares.
Así eras ti, Alberguería,
nos teus felices tempos de esplendor e de gloria,
cando a luz transitaba os teus camiños
e florecía a vida nos teus eidos.
Pero chegou a hora da inxustiza
e cumpríronse en ti as leis de Leviatán
contra toda razón.
A besta de innumerables cabezas,
nos infames cabalos do Apocalipse,
agalloupou polo teu corpo malaventurado
e as túas xentes, en triste desbandada,
tiveron que iniciar o rumbo da diáspora
pola rosa dos ventos,
tan lonxe para sempre do teu amante colo,
do teu verde solar de choiva e pedra.
E tí estás agora a dormir, Alberguería,
baixo as augas do encoro,
o teu eterno sono de lembranzas e ausencias,
agardando o regreso dos teus fillos.
Víctor Campio Pereira
(Víctor Campio Pereira nasceu no dia 15 de Julho de 1928. Morreu no dia 24 de Julho de 2018.)
O culpado
Estava de bem com Deus e com os homens. Ele sabia do fundo do coração:
todo o mal que lhe caíra em cima - tanto, tanto! - foi sempre por
culpa própria, asneira do momento ou em paga de pecados velhos. Com apenas
alguns milhares e milhares de lamentáveis excepções.
Solano Trindade 3
Gravata colorida
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...
"O Poeta do Povo", Solano Trindade
(Solano Trindade nasceu no dia 24 de Julho de 1908. Morreu em 1974.)
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...
"O Poeta do Povo", Solano Trindade
(Solano Trindade nasceu no dia 24 de Julho de 1908. Morreu em 1974.)
Guilherme de Almeida 5
Infância
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
"Poesia Vária", Guilherme de Almeida
(Guilherme de Almeida nasceu no dia 24 de Julho de 1890. Morreu em 1969.)
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
"Poesia Vária", Guilherme de Almeida
(Guilherme de Almeida nasceu no dia 24 de Julho de 1890. Morreu em 1969.)
Eladio Rodríguez González 3
Malpocado!
(Eladio Rodríguez González nasceu no dia 24 de Julho de 1864. Morreu em 1949.)
[...]
Arrimado á un pau de toxo
vai por todol-os lugares.
Atravesa comareiros,
cruza brañas, sobe cumes e recorre piñeirales;
chama âs portas das casupas;
aquí pide i-alí danlle.
Se á mau vèn, inda o socorren,
e, se cadra, non atopa quen se doia dos seus males.
Viva estatua da pacencia,
leva a crus das súas mágoas coa maior conformidade.
Xa está afeito á que nas chouzas
unhas veces o acariñen i-outras veces o maltraten.
Todo é seu e non tèn nada.
Súa probeza ben a sofre, súa disgracia ben a sabe.
O infertunio asoballouno coas patoulas das inxurias,
i-a esventura malferíuno co fouciño dos aldraxes.
Non herdou dos seus maiores
nin xiquera un mal apaño pra podere gobernarse,
pero en troques, onde o enterren
en xamáis ha de faltarlle.
Un homilde cimeterio d'unha aldea silenciosa
terá sempre eterno acougo pr'os seus férvedos penares,
e no colo da Nai Terra
durmirá de cote o sono derradeiro dos mortales.
vai por todol-os lugares.
Atravesa comareiros,
cruza brañas, sobe cumes e recorre piñeirales;
chama âs portas das casupas;
aquí pide i-alí danlle.
Se á mau vèn, inda o socorren,
e, se cadra, non atopa quen se doia dos seus males.
Viva estatua da pacencia,
leva a crus das súas mágoas coa maior conformidade.
Xa está afeito á que nas chouzas
unhas veces o acariñen i-outras veces o maltraten.
Todo é seu e non tèn nada.
Súa probeza ben a sofre, súa disgracia ben a sabe.
O infertunio asoballouno coas patoulas das inxurias,
i-a esventura malferíuno co fouciño dos aldraxes.
Non herdou dos seus maiores
nin xiquera un mal apaño pra podere gobernarse,
pero en troques, onde o enterren
en xamáis ha de faltarlle.
Un homilde cimeterio d'unha aldea silenciosa
terá sempre eterno acougo pr'os seus férvedos penares,
e no colo da Nai Terra
durmirá de cote o sono derradeiro dos mortales.
[...]
"Oraciós Campesiñas", Eladio Rodríguez González
"Oraciós Campesiñas", Eladio Rodríguez González
(Eladio Rodríguez González nasceu no dia 24 de Julho de 1864. Morreu em 1949.)
terça-feira, 23 de julho de 2019
Agá Ramos
Gosto de palavras, gosto do falar antigo,
gosto de nomes, gosto de brincar com nomes. Gosto de me rir. E às vezes
rio-me com os nomes que me vêm à cabeça, por exemplo Al Mirante, Bill Tre, Sam
Dwich, Sara Pinto, Rick Ardo, Poly Ban, Bica Bornato, Bee Tock, Herr Nesto, Sade
Miranda, Bob Adela, Rui Barbo, Bib Alves, Ono Mástico, Ray Naldo, Ca Trel, Pio Nés, Kris Talino, Dick São, Tony Truante, Sal Amandra, Mick Ose, Lee Moens, Rita Lina, Aury Cular, Ted Io, Nick Utina, Otto Mano, Su Papo, Tuli Creme, Gal Déria, Philip Inas e Karl Inga. Rio-me também do
meu apelido, doellinger, que não levo a sério e só me arranja confusões. Silva servia-me muito bem. E sabem que mais? Quem se leva a sério é tolo.
Eu assino agá. Exactamente agá pequenino ponto, h., sei muito bem o meu lugar e o meu tamanho no mundo. É: agá, de hernâni, e pronto.
O meu sonho, um dos meus mais de mil inconsoláveis sonhos, era, porém, chamar-me e poder assinar H. Ramos. Quero dizer, agá ramos.
Eu assino agá. Exactamente agá pequenino ponto, h., sei muito bem o meu lugar e o meu tamanho no mundo. É: agá, de hernâni, e pronto.
O meu sonho, um dos meus mais de mil inconsoláveis sonhos, era, porém, chamar-me e poder assinar H. Ramos. Quero dizer, agá ramos.
Chagas Val 3
GP de San Marino, 94
Há uma curva em que a geometria em perfeição se excede
e contorná-la parece, em meio círculo,
que é o marco final de uma corrida.
E como se há de vencê-la agora
se a velocidade é apenas o expectante silêncio de quem morre?
"Anatomia do Escasso Cotidiano", Chagas Val
(Chagas Val nasceu no dia 23 de Julho de 1943. Morreu em 2016.)
(Chagas Val nasceu no dia 23 de Julho de 1943. Morreu em 2016.)
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segunda-feira, 22 de julho de 2019
Revista Alfa, número 11
Disse Jesus
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "No campo insultem, fora do campo acabou."
Gosto muito de o ver na televisão
- Gosto muito de o ver na televisão!
- E que tal aqui ao vivo, hã?...
- Gosto muito de o ver na televisão.
- E que tal aqui ao vivo, hã?...
- Gosto muito de o ver na televisão.
Lara de Lemos 3
Só
Como se nunca,
terrena e submissa,
recolhesse do amor
o fruto sazonado.
Como se os abraços
não fossem para
o homem e suas dores
acalanto e regaço
Como se não houvesse
riso e pranto
noite escura e dia
a canção e os mortos
Só. Como se o muro
surgisse inexplicável
e eu tivesse nascido
do outro lado.
"Amálgama", Lara de Lemos
(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)
Como se nunca,
terrena e submissa,
recolhesse do amor
o fruto sazonado.
Como se os abraços
não fossem para
o homem e suas dores
acalanto e regaço
Como se não houvesse
riso e pranto
noite escura e dia
a canção e os mortos
Só. Como se o muro
surgisse inexplicável
e eu tivesse nascido
do outro lado.
"Amálgama", Lara de Lemos
(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)
Enrique Labarta Pose 3
Ay por Dios, meus amiguiños
si por fado do Perello
morro lonxe da terriña
aunque sexa por correyo
mandádeme a miña aldea.
Si eiquí m' enterran toleo!
Non m' acostumo antre mortos
que non falan o gallego!
Enrique Labarta Pose
(Enrique Labarta Pose nasceu no dia 22 de Julho de 1863. Morreu em 1925.)
si por fado do Perello
morro lonxe da terriña
aunque sexa por correyo
mandádeme a miña aldea.
Si eiquí m' enterran toleo!
Non m' acostumo antre mortos
que non falan o gallego!
Enrique Labarta Pose
(Enrique Labarta Pose nasceu no dia 22 de Julho de 1863. Morreu em 1925.)
Antonio Bieito Fandiño 3
[...]
Ti sabes que he pertendida,
e dos mais guapos roldada,
con bos mozos moi rogada
e dos mais guapos roldada,
con bos mozos moi rogada
para casas de gran vida.
A sua xênte está frolida
desde que co-o crego entrou,
como que a ollo medrou,
e oxê he caniba escollida.
Déixâte de tolaxâdas,
non deas pesar a teu pai,
que sabe mais ben o que fai
que tí, co-as nemorícadas.
Que qués Técola ben sei,
e que tés amistá co-ela,
mais pra muller escollela,
Perucho nunca o pensei.
A sua xênte está frolida
desde que co-o crego entrou,
como que a ollo medrou,
e oxê he caniba escollida.
Déixâte de tolaxâdas,
non deas pesar a teu pai,
que sabe mais ben o que fai
que tí, co-as nemorícadas.
Que qués Técola ben sei,
e que tés amistá co-ela,
mais pra muller escollela,
Perucho nunca o pensei.
[...]
"A Casamenteira", Antonio Bieito Fandiño
(Antonio Bieito Fandiño nasceu no dia 22 de Julho de 1779)
domingo, 21 de julho de 2019
Quando eu era Hemingway (ou O Amigo Bastos)
Descíamos no nosso vagar a Rua Direita rumo ao Porto das Pipas, na velha
Angra do Heroísmo. Era aquela caloraça das ilhas, aquele esplêndido
exagero de luz, o ar quase sólido que sufoca a respiração dos menos
habituados, o bom odor de salsugem, que peço emprestado ao mestre. Eu de
barrete branco enfiado na cabeça e lenço tabaqueiro atado ao pescoço,
as barbas suando em bica, ele no seu fato impecável, o laço "de fazer"
milimetricamente composto, dizia-me "Oiça lá, você parece o
Hemingway!...", e soltava uma enorme gargalhada, exabundante, para ser
ouvida pelos passantes e sobretudo pelas passantes, porque, estivesse
onde estivesse, sempre fez questão de que se soubesse, sobretudo elas,
que por ali andava o famoso Baptista-Bastos.
Andávamos ambos, mas evidentemente eu era invisível. Tínhamo-nos conhecido alguns anos antes, numa viagem à Irlanda. Eu iniciante no ofício e ele O Grande BB, nesse tempo ainda intrépido "praticante do desporto líquido", como gostava de dizer, e contador ininterrupto de extraordinárias histórias que outros jornalistas da capital desmereciam por inveja. Diziam-lhe nas costas que ele inventava reportagens e entrevistas. Não sei se inventava ou não inventava - isto é, caguei! Eu queria era ouvir o Senhor Baptista-Bastos. Aprender. Ouvia-o embatocado, reverente, assombrado, deliciado. Ouvia-o enquanto ele me apresentava abundantemente à Guinness e ao Jameson, e os invejosos também à roda, onzeneiros e hipócritas. Ia eu apenas no segundo pint, ao balcão do Kitty O'Sheas's Bar, em Dublin, e já lhe pedia "E daquela vez?..."
Baptista-Bastos gostava, inchava. Dizia, como se estivesse a dar-me corda, "O puto vai longe". Enganou-se redondamente. O mais longe que fui foi aos Açores, e ali estávamos os dois, descendo no nosso vagar a Rua Direita rumo ao Porto das Pipas, na velha Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Eu num sino, se fosse visível, o coração aos saltos e a cabeça num turbilhão. "O Baptista não faz ideia da vaidade que tenho por ir aqui à sua beira", confessei-lhe de repente, atrapalhando palavras. "Baptista, não", corrigiu-me, "sou Armando para a família e amigos do peito ou Baptista-Bastos para o geral, mas você, que já é da minha equipa, chame-me Amigo Bastos, que é como eu prefiro". Percebi o generoso raspanete como se, para o BB, Amigo fosse nome próprio e Bastos o apelido. (Quer-se dizer: AB.) E creio que percebi bem.
- Mas oiça lá: à sua beira, foi o que disse? Que expressão tão bonita! À sua beira...
- É assim que se fala na minha terra. Sou de Fafe...
- Fafe? Justiça de Fafe, não é? Grande terra, terra de gente vertical...
Por aqueles dias mantivemos longas conversas em que eu só ouvia. Baptista-Bastos contou-me de Soares, de Cunhal, de Salazar, de Caetano, do PCP, do PS, do pai, de tipografia, de Lisboa, do Bairro Alto, de jornais, de jornalistas e "simpatizantes", de tertúlias, da boémia, da noite, de sábios, de analfabetos diplomados, de livros, de Aquilino, de Branquinho da Fonseca, de Carlos de Oliveira, de Manuel Mendes, de Eugénio de Andrade, do amigo Manuel da Fonseca. Da beleza da sua mulher, do orgulho nos filhos. E de freiras pentelhudas, e de mulheres, e de mulheres, e de mulheres...
Insistia nas suas basezinhas, que já então eram um clássico: que os jornalistas se tratam por tu e são camaradas, porque colegas são as putas, e tratava-me por você. E não me lembro se me perguntou se eu sabia onde estava no 25 de Abril, e eu por acaso sabia.
Já no aeroporto de Lisboa, no regresso a casa, Baptista-Bastos fez questão de apresentar-me à mulher, que era realmente uma senhora muito bela, e a um dos filhos. Quando nos despedimos ofereceu-me o seu excelentíssimo livro de reportagens "As Palavras dos Outros", com um recadinho escrito ali na hora, e, como se estivesse a chamar passageiros para o voo do Porto, repetiu tonitruante o essencial de tudo o que copiosamente me ensinara na ilha: - Doellinger, não se esqueça, ler e escrever todos os dias!...
Não esqueço, Amigo Bastos.
P.S. - Ernest Hemingway faz hoje 120 anos. E por isso.
Andávamos ambos, mas evidentemente eu era invisível. Tínhamo-nos conhecido alguns anos antes, numa viagem à Irlanda. Eu iniciante no ofício e ele O Grande BB, nesse tempo ainda intrépido "praticante do desporto líquido", como gostava de dizer, e contador ininterrupto de extraordinárias histórias que outros jornalistas da capital desmereciam por inveja. Diziam-lhe nas costas que ele inventava reportagens e entrevistas. Não sei se inventava ou não inventava - isto é, caguei! Eu queria era ouvir o Senhor Baptista-Bastos. Aprender. Ouvia-o embatocado, reverente, assombrado, deliciado. Ouvia-o enquanto ele me apresentava abundantemente à Guinness e ao Jameson, e os invejosos também à roda, onzeneiros e hipócritas. Ia eu apenas no segundo pint, ao balcão do Kitty O'Sheas's Bar, em Dublin, e já lhe pedia "E daquela vez?..."
Baptista-Bastos gostava, inchava. Dizia, como se estivesse a dar-me corda, "O puto vai longe". Enganou-se redondamente. O mais longe que fui foi aos Açores, e ali estávamos os dois, descendo no nosso vagar a Rua Direita rumo ao Porto das Pipas, na velha Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Eu num sino, se fosse visível, o coração aos saltos e a cabeça num turbilhão. "O Baptista não faz ideia da vaidade que tenho por ir aqui à sua beira", confessei-lhe de repente, atrapalhando palavras. "Baptista, não", corrigiu-me, "sou Armando para a família e amigos do peito ou Baptista-Bastos para o geral, mas você, que já é da minha equipa, chame-me Amigo Bastos, que é como eu prefiro". Percebi o generoso raspanete como se, para o BB, Amigo fosse nome próprio e Bastos o apelido. (Quer-se dizer: AB.) E creio que percebi bem.
- Mas oiça lá: à sua beira, foi o que disse? Que expressão tão bonita! À sua beira...
- É assim que se fala na minha terra. Sou de Fafe...
- Fafe? Justiça de Fafe, não é? Grande terra, terra de gente vertical...
Por aqueles dias mantivemos longas conversas em que eu só ouvia. Baptista-Bastos contou-me de Soares, de Cunhal, de Salazar, de Caetano, do PCP, do PS, do pai, de tipografia, de Lisboa, do Bairro Alto, de jornais, de jornalistas e "simpatizantes", de tertúlias, da boémia, da noite, de sábios, de analfabetos diplomados, de livros, de Aquilino, de Branquinho da Fonseca, de Carlos de Oliveira, de Manuel Mendes, de Eugénio de Andrade, do amigo Manuel da Fonseca. Da beleza da sua mulher, do orgulho nos filhos. E de freiras pentelhudas, e de mulheres, e de mulheres, e de mulheres...
Insistia nas suas basezinhas, que já então eram um clássico: que os jornalistas se tratam por tu e são camaradas, porque colegas são as putas, e tratava-me por você. E não me lembro se me perguntou se eu sabia onde estava no 25 de Abril, e eu por acaso sabia.
Já no aeroporto de Lisboa, no regresso a casa, Baptista-Bastos fez questão de apresentar-me à mulher, que era realmente uma senhora muito bela, e a um dos filhos. Quando nos despedimos ofereceu-me o seu excelentíssimo livro de reportagens "As Palavras dos Outros", com um recadinho escrito ali na hora, e, como se estivesse a chamar passageiros para o voo do Porto, repetiu tonitruante o essencial de tudo o que copiosamente me ensinara na ilha: - Doellinger, não se esqueça, ler e escrever todos os dias!...
Não esqueço, Amigo Bastos.
P.S. - Ernest Hemingway faz hoje 120 anos. E por isso.
Microcontos & outras miudezas 156
O dia de amanhã
"Nunca se sabe o dia de amanhã", dizia ele constantemente ao filho. E repetia e repetia e repetia. "Nunca se sabe o dia de amanhã". Cansado de ouvir o pai, o filho ofereceu-lhe um calendário.
Daltónicos Anónimos
Entrou, por engano, na reunião dos Daltónicos Anónimos. Compreende-se: estava um bocadinho turvo.
Motoristas de matérias perigosas, há-os
Condutores de autocarros das viagens de finalistas a Espanha e das claques de futebol em Portugal aderem à greve dos motoristas de matérias perigosas e exigem do Governo o reconhecimento da categoria profissional e salários mais dignos, pelo menos compatíveis com a responsabilidade que lhes cai em cima e o risco de vida que correm sobretudo aos fins-de-semana e antes que cheguem as eleições.
Última hora: Os motoristas dos autocarros da Resende, em Matosinhos, e os condutores de tractores agrícolas e os manobradores de empilhadores, em todo o país, ponderam entrar na luta.
Portugal à la minuta
"Somos menos e estamos mais velhos, casamos pouco e continuamos pobres" - este é, dizem os jornais, o "Retrato de Portugal" que a Pordata, base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, fez questão de revelar hoje, Dia da População.
Fico sempre de pé atrás com esta coisa do "somos" sem me terem perguntado nada. Lembra-me a história do frango para dois que um comeu e o outro viu comer, e portanto, cientificamente, cada qual comeu metade.
Resolvi por isso esmiuçar, item por item, as grandes conclusões dos dados analisados, que reportam aos anos de 2007 a 2018. E então: somos menos? Somos. O meu sogro morreu há coisa de quatro anos. Estamos mais velhos? Estamos, que remédio, à média de um ano por ano. Casamos pouco? Pois casamos, mas aí a culpa é minha, que só casei uma vez. Continuamos pobres? Cada vez mais, mas alegres, e seja por alma de quem lá têm. E a minha decisão é: ora aqui está um estudo que finalmente realmente.
"Nunca se sabe o dia de amanhã", dizia ele constantemente ao filho. E repetia e repetia e repetia. "Nunca se sabe o dia de amanhã". Cansado de ouvir o pai, o filho ofereceu-lhe um calendário.
Daltónicos Anónimos
Entrou, por engano, na reunião dos Daltónicos Anónimos. Compreende-se: estava um bocadinho turvo.
Motoristas de matérias perigosas, há-os
Condutores de autocarros das viagens de finalistas a Espanha e das claques de futebol em Portugal aderem à greve dos motoristas de matérias perigosas e exigem do Governo o reconhecimento da categoria profissional e salários mais dignos, pelo menos compatíveis com a responsabilidade que lhes cai em cima e o risco de vida que correm sobretudo aos fins-de-semana e antes que cheguem as eleições.
Última hora: Os motoristas dos autocarros da Resende, em Matosinhos, e os condutores de tractores agrícolas e os manobradores de empilhadores, em todo o país, ponderam entrar na luta.
Portugal à la minuta
"Somos menos e estamos mais velhos, casamos pouco e continuamos pobres" - este é, dizem os jornais, o "Retrato de Portugal" que a Pordata, base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, fez questão de revelar hoje, Dia da População.
Fico sempre de pé atrás com esta coisa do "somos" sem me terem perguntado nada. Lembra-me a história do frango para dois que um comeu e o outro viu comer, e portanto, cientificamente, cada qual comeu metade.
Resolvi por isso esmiuçar, item por item, as grandes conclusões dos dados analisados, que reportam aos anos de 2007 a 2018. E então: somos menos? Somos. O meu sogro morreu há coisa de quatro anos. Estamos mais velhos? Estamos, que remédio, à média de um ano por ano. Casamos pouco? Pois casamos, mas aí a culpa é minha, que só casei uma vez. Continuamos pobres? Cada vez mais, mas alegres, e seja por alma de quem lá têm. E a minha decisão é: ora aqui está um estudo que finalmente realmente.
Luz Pozo Garza 3
Páxina
atlántica
Vin a aldea arredada no seu propio segredo
Nin se perdeu o celme inxel do Beatus Ille
Pasei a contemplar tanta fidelidade
Vin burriños cargados de herba e de xestas vivas
alpendres que harmonizan cos aparellos rústicos
a humilde ferramenta trasnoitada
ou talvez encetar o pan de cada día signándolle
unha cruz por riba cun coitelo
Vin a camelia gaélica en Bínn Eadair
A paixón dos triskeles baixo o rigor dos liques e da chuvia insubmisa
Vin pallozas e torques
e os míticos tesouros daquel reino de Tara
A cerimonia erótica do arado
Vin revelarse as antas na afinidade da morte
todo se pode ler nesta páxina atlántica
na sustancia unitaria do narcisismo celta
Na camelia gaélica do xardín de Bínn Eadair
"As Arpas de Iwerddon", Luz Pozo Garza
(Luz Pozo Garza nasceu no dia 21 de Julho de 1922)
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