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domingo, 28 de julho de 2019

Kits marados, golas inflamáveis e outras tolérias

O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. É uma questão de orgulho macho. E então arrebitam e continuam a arder lampeiramente uma semana depois de terem sido decretados dominados aos microfones da CMTV, e a CMTV fica toda contente, porque a CMTV é do ramo do sarrabulho e do fumeiro - disso vive, em lume brando. Os oficiais da Protecção Civil, doutores da mula ruça porém pessoas muito honradas e de boina, que antes deste rico emprego nunca tinham posto os pés num incêndio, tiraram um curso relâmpago de Teatro de Operações, Forças no Terreno, Frentes Activas, Meios Aéreos & Pontos de Ignição e gostam de dar na televisão: o mais que dizem é que os incêndios de manhã, se não estão já dominados, vão entregar-se às autoridades a meio da tarde. Os oficiais da Protecção Civil e os políticos que os pariram inventaram um novo dicionário, especializaram-se em semântica, graduaram-se em eufemística e falam muito do que sabem nada...
(Minúsculo esclarecimento, provavelmente desnecessário para o cidadão comum: Teatro de Operações, vulgo TO.)
Os bombeiros estão lá no centro do vulcão a derreter, mas a eles agora ninguém lhes pode perguntar. E ainda bem, porque lá dentro faz muito calor e o calor dilata os copos. O senhor da boina no camião de Fórmula 1 com ar condicionado é que sabe, e bebe águas das pedras. Geladas. E há briefings bidiários com groselha.

Quando o monte ardia, os bombeiros iam. Os bombeiros voluntários. Naquele tempo ninguém sequer sonhava ganhar dinheiro por fazer de conta que apaga incêndios - eram uns tolos. Não havia rede, satélites, parabólicas ou fibra óptica, ainda não havia radiotelefones ao serviço, os telemóveis ainda não tinham sido inventados e nem sequer havia cabinas telefónicas nos montes. Parece impossível, mas lá em cima, no meio da penedia e das giestas, no Portugal das cabras e dos cabrões, não havia telefone de espécie nenhuma. E não havia SIRESP, graças a Deus. Que se segue: se eram precisos reforços, alguém vinha de motorizada dar o recado ao quartel. Ou por outra: o SIRESP vinha de motorizada. Ou por outra: o SIRESP era a motorizada.

O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. Freud explicaria muito melhor do que eu, mas eu, de momento, não tenho o Freud aqui à mão e perdi-lhe o número do telemóvel. Por outro lado, os incêndios estão desgostosos por lhes terem trocado o nome e mudado o objecto social. Objecto social, sim: o fogo é hoje em dia um negócio como outro qualquer - como a guerra, como a droga ou como a cirurgia plástica, por exemplo -, com múltiplas plataformas de exploração e sinergias que não param de exponenciar-se, a jusante e a montante, um extraordinário negócio que distribui transversalmente milhões e milhões e milhões de euros ou dólares consoante o paraíso, uma indústria em que todos ganham e em que apenas Portugal e os portugueses do rés-do-chão ficamos a perder.

Chamavam-se fogos antigamente e eram para apagar. Exactamente, fogos. E para apagar. Velhos tempos, coisas simples: Portugal ardia menos e não havia tanto teatro... de operações.

P.S. - O Governo comprou o SIRESP por sete milhões de euros. PCP e CDS, e o PSD a reboque, chamaram ao Parlamento os ministros da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e da Economia, Pedro Siza Vieira, para que os alegados governantes lhes expliquem a matreira engenharia do negócio. A grande preocupação deles - do PCP e do CDS e, que remédio, do PSD - é que, hoje em dia, sete milhões não chegam sequer para contratar um defesa esquerdo que não tropece no pé direito. Então, como é que foi possível a jigajoga do SIRESP por dez réis de mel coado?...

P.S. 2 - E agora o escândalo dos kits e das golas inflamáveis que afinal não são mas são outra coisa. As negociatas, as famílias, a pouca-vergonha e honra nenhuma. O Governo diz que a culpa é da Protecção Civil e a Protecção Civil diz que a culpa é do Governo. E eu pensava que a Protecção Civil era do Governo. O escusado Jaime Marta Soares, redundante presidente da Liga dos Bombeiros, diz que a culpa é da Protecção Civil, e eu pensava que os bombeiros eram Protecção Civil. Rui Rio, desgraçado líder do PSD, quer que o Ministério Público investigue. Assunção Cristas, líder catita do CDS, foi ao cabeleireiro. E eu exijo que os bombeiros pessoas sejam ignífugos desde pequeninos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

É preciso ter lata 3

Pedro Passos Coelho, a propósito da crise e da austeridade, saiu-se com esta: "Pobres já nós estamos. Há é pessoas que ainda não deram conta disso". Se calhar por pudor, o ajudante de Miguel Relvas no Governo não referiu nomes, mas eu posso adiantar alguns, de que me lembrei assim de repente: Cavaco Silva e os Cavaquistas Anónimos, Ângelo Correia e os Confrades dos Direitos Adquiridos, Eduardo Catroga, Braga de Macedo, Celeste Cardona, Paulo Teixeira Pinto, Rocha Vieira e Ilídio Pinho, Manuel Frexes e Álvaro Castello-Branco, Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República e ricamente reformada desde os 42 anos, ou Maria Teixeira da Cruz, irmã da ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, e que foi para directora-geral no Ministério da Agricultura e Etc. de Assunção Cristas. Estas são certamente pessoas que ainda não deram conta de que (nós) já estamos pobres. E era delas que provavelmente Passos Coelho estava a falar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Os felizes contemplados

Assunção Cristas, ministra da Agricultura e Etc., nomeou dois autarcas, um do PSD e outro do CDS, para a administração da empresa Águas de Portugal. A taluda saiu desta vez ao social-democrata Manuel Frexes, presidente da Câmara do Fundão, e ao democrata-cristão Álvaro Castello-Branco, vice-presidente da Câmara do Porto. E logo se levantou novo alarido contra esta espécie de é-fartar-vilanagem que na verdade não é: trata-se apenas, como sempre se tratou, de dividir os despojos da vitória e do País entre os vencedores, e a coisa aqui nas Águas até nem podia ter sido mais democrática, 50-50, como qualquer treinador ou comentador de futebol poderia explicar muito melhor do que eu.
Eu já disse: acho bem. Tivesse eu por onde, estivesse eu na mama da Assunção Cristas (é uma força de expressão), e fazia o mesmo, dava o melhor aos meus amigos. De resto, este Governo só se enganou quando prometeu, antes de ser Governo e para ser Governo, que nunca iria fazer isto, dar tachos à sua rapaziada. Porque, desde que se fez Governo e começou a distribuir os envelopes pela família, tem sido de uma coerência inatacável. Só nos últimos dias, foram os da luz, agora os da água, e estou mortinho por ver quem é que eles vão meter nos esgotos.

domingo, 21 de agosto de 2011

Vai lamber sabão!

Havia o sabão azul, o sabão rosa e o sabão amarelo. O sabão azul era o sabão macaco, para lavar roupa, o sabão rosa já naquele tempo era para peças mais delicadas e o sabão amarelo era para lavar as escadas e os soalhos, que, em muitas casas, depois eram encerados. E havia o sabão para lamber, que eu nunca soube de que cor era nem que sabor tinha, mas era o que a minha mãe me mandava fazer, "Vai lamber sabão!", quando eu andava à roda dela a arengar conversa sem assunto.

Aproveitando as férias do primeiro-ministro que disse que não ia de férias por causa do "trabalho colossal" que tem em cima da mesa, os ministros do Governo PSD/CDS têm-se fartado de dar água sem caneco, com dois deles, especialmente, a demonstrarem um enorme sentido de vacuidade.
Álvaro Santos Pereira, o Álvaro da Economia, deu o mote na sexta-feira, prometendo "reformas estruturais históricas" para o País. Assunção Cristas, do Ministério da Agricultura e etc., não lhe ficou atrás, ao revelar ontem que está "totalmente empenhada em aumentar a produção de cereais". E por aí se quedaram um e outra, sem explicarem aos portugueses do que é que estavam realmente a falar e o que é que vão realmente fazer, quando, como, onde e porquê. É a atracção fatal pelo sound bite. Largaram o bitaite e pronto, quem quiser que se deite a adivinhar. Vê-se logo que eles não sabem do que falam. Não resistiram aos microfones, falaram por falar, com uma profundidade e um conhecimento dignos de um professor Hernâni Gonçalves ou de uma Luciana Abreu.
E se o Álvaro e a Cristas fossem mas é lamber sabão?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

E depois das gravatas? Os capacetes?

A novidade tem quase um mês, mas foi hoje descoberta pelo Expresso. O Governo norte-americano gasta, por ano, 14 mil milhões de euros em ar condicionado, só para refrescar as tropas do Tio Sam no Iraque e no Afeganistão.

Mas que falta que faz em Washington a nossa Assunção Cristas!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Não sei se ria, não sei se chore*

Este Governo é um bocado serôdio. Faz-me lembrar os bons velhos tempos das homenagens singelas, porém cheias de significado. Ainda nem começou a governar, mas desdobra-se no espalhafato dos "pequenos gestos". Este Governo é moralista: gosta de "dar o exemplo". Este Governo é cabeça-de-giz: adora "dar sinais".
Para que o País aprenda, Passos Coelho reduziu o número de ministérios, escolheu uma equipa jovem, acabou com os governadores civis e até protagonizou a famosa rábula da viagem de avião em económica, que era de graça mesmo que fosse em executiva. Claro que todos nós sabemos que, no fundo, tudo continua na mesma, mas o gesto está lá, e "o gesto é tudo", como muito bem dizia o concurso da RTP a preto e branco.
Mas a ministra da Agricultura e etc. resolveu ir ainda mais longe. Num notável golpe de asa, Assunção Cristas anunciou, no seu primeiro comunicado à Nação, que decidiu acabar com a obrigação do uso de gravata no seu ministério (palavra de honra, não sabia que era obrigatório!). O objectivo da fracturante medida, a implementar doravante todos os verões, é "diminuir a factura da electricidade e preservar o ambiente".
No Ministério da Agricultura e etc. admite-se que, pela mesma razão, nos invernos, passe a ser obrigatório o uso de cachecol e sobretudo.

*Esclareço que, por motivo de boas práticas ambientais e internacionais, escrevi este texto completamente em pelote.