domingo, 10 de maio de 2026
O cotrinismo 2
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Aí para as curvas
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| Foto Tarrenego! |
O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.
Uma vez, em 1991, Basílio Horta foi candidato à Presidência da República e fazia frio em Portugal, porque era Janeiro e o tempo naquela altura não era ainda tão tolo e incerto como é agora. O tempo. O Doutor Horta, que já vai nos oitenta e, entre outros afazeres, é um filósofo, quero dizer, um filósofo praticamente como eu, explicou em entrevista ao Expresso que realmente "há quem olhe para a vida como uma linha reta", mas ele não. "Eu não abdiquei das curvas", enfatizou o ex-União Nacional do tempo do fascismo, fundador do CDS e actual militante do PS, ministro em quatro governos, pela direita, conselheiro de Estado, deputado, embaixador na OCDE, presidente da AICEP, pela esquerda, e hoje em dia presidente da Câmara de Sintra em final do terceiro e último mandato, dizia eu, enfatizou, como quem não quer a coisa, como quem oferece ao jornalista o título para a prosa e não se fala mais nisso.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
A seguir, se bem me lembro, abandonei discretamente a "caravana" basilista e fui ao velho Restaurante Maia, no Sameiro, comer por minha conta e consolar-me com o inevitável bacalhau com natas, que era então uma verdadeira especialidade.
Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.
domingo, 26 de outubro de 2025
São Balsemão
Não me lembro de alguma vez ter falado com Francisco Pinto Balsemão (1937-2025). Nada tenho a contar a meu respeito, a propósito da sua morte. Sei que sou o único, mas é assim. Conheci-o, evidentemente. Sempre me pareceu um político sério e, como pessoa, um tipo porreiro. Sobretudo, eu gostava de o ouvir dizer "tamém" em vez de também, porque berço é berço, que se lixe a gramática. Dizem que era um bom patrão, quem me dera tê-lo tido. Agora, se bem conheço o Francisco Pinto Balsemão com quem parece que nunca falei, não creio que ele aprecie particularmente a canonização bacoca que se lhe sucedeu.
domingo, 27 de julho de 2025
As linhas vermelhas
sábado, 8 de fevereiro de 2025
Jornais, eram bons mas acabou-se?
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
Os tascos e as tascas, questão de género
Aqui o género interessa. Embora ninguém me leve a sério (ou à séria, se por acaso lido em Lisboa), tenho passado a vida a pregar a respeito da irreconciliável diferença entre tasco e tasca (ou tasquinha). Prego aos peixes e prego a fundo. Mas é como já disse: tasco é tasco, sítio do povo com povo dentro, e tasca ou tasquinha é... outra coisa, coisa fina, sítio de moda. O tasco é jurássico, a tasca é cosmopolita. O tasco é rasca, a tasca é chique. A tasca é in, o tasco é out. Sei do que falo. Sou de um tempo e sou de Fafe, terra de tascos e com muito gosto. Eu prefiro os tascos. Só para dar mais um exemplo, hoje não vou mais longe: no tasco bebe-se verde tinto e come-se bolo com sardinhas ou bacalhau frito; na tasca, bebe-se ginjinha e come-se caril de lavagante, como acabo de ver no Expresso. Percebem o que eu quero dizer?
E sim, é provável que já quase não haja tascos, que os tascos puros e duros estejam em vias de extinção, mas isso, de momento, não é para aqui chamado.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2024
Quando os bombeiros, palermas, eram voluntários
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| Foto Miguel A. Lopes/Lusa - Expresso |
O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. É uma questão de marialvismo, orgulho macho. E então arrebitam e continuam a arder lampeiramente uma semana depois de terem sido decretados dominados aos microfones da CMTV, e a CMTV fica toda contente, porque a CMTV é do ramo do sarrabulho e do fumeiro - disso vive, em lume brando. Os oficiais da Protecção Civil, doutores da mula ruça, porém pessoas muito honradas e de boina, que antes deste rico emprego nunca tinham posto os pés num incêndio, tiraram um curso relâmpago de Teatro de Operações, vulgo TO, Forças no Terreno, Frentes Activas, Meios Aéreos & Pontos de Ignição e gostam de dar na televisão: o mais que dizem é que os incêndios de manhã, se não estão já dominados, vão entregar-se às autoridades a meio da tarde. Os oficiais da Protecção Civil e os políticos que os pariram inventaram um novo dicionário, especializaram-se em semântica, graduaram-se em eufemística e falam muito do que não sabem.
Os bombeiros estão lá no centro do vulcão a derreter, mas a eles agora ninguém lhes pode perguntar. E ainda bem, porque lá dentro faz muito calor e o calor dilata os copos. O senhor da boina e galões no camião de Fórmula 1 com ar condicionado é que sabe, e bebe águas das pedras. Geladas. E há briefings bidiários com groselha.
Quando o monte ardia, os bombeiros iam e pronto. Os bombeiros voluntários. Naquele tempo ninguém sequer sonhava ganhar dinheiro por fazer de conta que apaga incêndios - eram uns tolos. Tolos, porém despachados e íntegros. Não havia rede, satélites, parabólicas ou fibra óptica, ainda não havia radiotelefones ao serviço, os telemóveis ainda não tinham sido inventados e nem sequer havia cabinas telefónicas nos montes. Parece impossível, mas lá em cima, no meio da penedia e das giestas, no Portugal das cabras e dos cabrões, não havia telefone de espécie nenhuma. E não havia SIRESP, graças a Deus. Que se segue: se eram precisos reforços, alguém vinha de motorizada dar o recado ao quartel.
Pelo menos em Fafe era assim, e não havia razão de queixa.
O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. Freud explicaria muito melhor do que eu, mas eu, de momento, não tenho o Freud aqui à mão, perdi-lhe o número do telemóvel. Por outro lado, os incêndios estão desgostosos por lhes terem trocado o nome e mudado o objecto social. Objecto social, sim: o fogo é hoje em dia um negócio como outro qualquer - como a guerra, como a droga ou como a cirurgia plástica, por exemplo -, com múltiplas plataformas de exploração e sinergias que não param de exponenciar-se, a jusante e a montante, um extraordinário negócio que distribui transversalmente milhões e milhões e milhões de euros ou dólares consoante o paraíso, uma indústria em que todos ganham e em que apenas Portugal e os portugueses do rés-do-chão ficamos a perder.
Chamavam-se fogos antigamente e eram para apagar. Exactamente, fogos. E para apagar. Velhos tempos, coisas simples: Portugal ardia menos e não havia tanto teatro... de operações.
domingo, 31 de março de 2024
O ministro que foi à tropa
Nuno Melo tem tudo para correr bem como novo ministro da Defesa, porque andou na tropa. "Cumpriu o serviço militar obrigatório e foi comandante de pelotão, deu instrução como alferes e exerceu como polícia militar", leio no Expresso e ouvi numa televisão, talvez na SIC, por ser da família. Gosto das palavras "cumpriu", "comandante", "instrução" e sobremaneira "exerceu". Para além disso, João Nuno Lacerda Teixeira de Melo "sabe manejar vários tipos de armas - aliás, colecciona armas de caça e armas antigas". Portanto, ministro da Defesa, só podia. Que mais se pode pedir a um ministro da Defesa, o qual, ainda por cima, foi ó meu deus "alferes"? Nuno Melo está preparado, capacitado, sabe de ordem unida, é pelas armas, dá os seus tirinhos, é "brigão", isto é, "tem um conjunto de características que, à partida, podem agradar aos militares", assinala o articulista. Espero que, por este andar, o novo ministro da Agricultura tenha trabalhado no campo em pequenino e saiba plantar nabiças e que o novo ministro da Educação tenha andado na escola e pelo menos saiba ler e assinar o nome. E ficamos muito bem servidos.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024
Uma questão de potência
Mr. Bean estampou-se contra uma árvore. A cena tem piada, mas não é para rir. O comediante britânico Rowan Atkinson teve mesmo um acidente, em Agosto de 2011, e quase desfez o carro, que por acaso não era o Mini 1976 amarelo com volante removível e aloquete (cadeado, se lido em Lisboa) da famosa série de televisão, mas um McLaren F1 que, segundo leio, é caro que eu sei lá e dá mais de 380 à hora. Tento imaginar que 380 à hora deve ser muito à hora, à hora demais, mas não consigo, não faço ideia. A reparação do automóvel - se é que se pode chamar automóvel a este avião de calças curtas - custou à companhia de seguros mais de um milhão de euros. E eu também não sei quanto é um milhão de euros. Não faço ideia, por mais que tente imaginar.
A história tem muito que se lhe diga e realmente já tem barbas, mas a problemática que lhe subjaz está outra vez na ordem do dia, como adiante se verá.
A inveja é uma cena que não me assiste. Mr. Bean que tenha o carro que quiser e os jogadores de futebol também. Ganham bom e merecido dinheiro, melhor para eles. Que o gastem como quiserem e que gastem muito, que é óptimo para nós todos, até para as oficinas, seguradoras e outros intermediários - que eles espetam-se como tordos. Do fundo do coração, o que lhes estimo é o que lhes desejo. E que, com a graça de Deus, seja sempre só chapa. Mas, tenho de confessar, não percebo a queda desta gente para carros de mil à hora só para ir de casa ao café e do café para casa. Sabem o que se diz, aparentemente comprovado por estudos científicos: grande bomba, pila pequena? Pois se calhar. Não estudei para isso nem fui estudado, não faço a mínima. E mais até estou à vontade para falar sobre o assunto: não tenho carro e nem sequer sei conduzir...
P.S. - O primeiro jornal humorístico português foi lançado, em Lisboa, no dia 9 de Fevereiro de 1856. Chamava-se "Asmodeu" e há quem diga que afinal foi o segundo jornal humorístico português, a seguir ao "Suplemento Burlesco de O Patriota".
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
Em sede própria
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
Não, não é o único
| Foto Tarrenego! |
E isso revolta-me. Revolta-me tanto!
Tanto, que em 2018, mais ou menos por esta altura do ano, não consegui conter a minha indignação após nova ronda de declarações avulsas e falsas sobre o assunto, creio que por parte da Conferência Episcopal, e, em desespero de causa, cedi à ingenuidade momentânea de enviar um email a um bispo amigo a quem eu devotava o maior respeito e admiração. Era um apelo.
"Caro [...],
Perdoe-me o atrevimento. Em nome da nossa amizade antiga, infelizmente breve, porém limpa, quero fazer-lhe um pedido urgente:
Por favor, não deixe que os seus colegas bispos digam que não têm denúncias sobre casos de pedofilia. Têm. Têm. E o jogo semântico da afirmação hipócrita é de uma habilidade patética e criminosa. Os bispos não precisam de denúncias, os bispos sabem. Sabem. Sabem.
Caro [...],
Rogo-lhe: diga, faça alguma coisa. Em nome das vítimas e dos que, como eu, e eu sou o menos, ainda esperam uma igreja justa, misericordiosa, amparo dos pobres e fracos. Seja, por favor, a voz do Papa em português, já que os seus colegas bispos fazem questão de desperceber o que ele diz."
Convenientemente de férias, o bispo amigo teve, ainda assim, a amabilidade de responder-me.
"Do Algarve, apenas te diria que teria muito gosto em falar contigo. Não tenho problemas em abordar qualquer assunto. Aparece ou diz-me onde te poderei encontrar para conversarmos."
Estão a ver? Percebem o que eu quero dizer quando falo em hipocrisia? Eu não precisava de encontrar-me com o bispo nem gosto que me mandem calar. E conversarmos o quê? Eu não fui vítima de pedofilia ou de qualquer outro abuso sexual, felizmente não careço desse exorcismo. Eu, na minha boa intenção, só pedi ao bispo que fizesse ouvir a sua influente voz, que chamasse os seus colegas bispos ao bom caminho. Enfim, eu só implorei ao meu amigo bispo que ele revelasse o que eu sei que ele sabe. Mas quanto a isso, nem um pio...
P.S. - A propósito das notícias do Expresso de hoje, repito o texto que publiquei no passado dia 29 de Julho. Mais sobre o assunto, aqui.
terça-feira, 12 de abril de 2022
Uma questão de potência
A história tem que se lhe diga e está muito bem contada na edição online do Expresso de ontem. De ontem. Foi em Agosto de 2011.
A inveja é uma cena que não me assiste. Mr. Bean que tenha o carro que quiser e os jogadores de futebol também. Ganham bom e merecido dinheiro, melhor para eles. Que o gastem como quiserem e que gastem muito, que é óptimo para nós todos, até para as oficinas, seguradoras e outros intermediários - que eles espetam-se como tordos. Do fundo do coração, o que lhes estimo é o que lhes desejo. E que, com a graça de Deus, seja sempre só chapa. Mas, tenho de confessar, não percebo a queda desta gente para carros de mil à hora só para ir de casa ao café e do café para casa. Sabem o que se diz: grande bomba, pila pequena? Pois se calhar. Não estudei para isso, não faço a mínima ideia. E mais até estou à vontade para falar sobre o assunto: não tenho carro e nem sequer sei conduzir...
terça-feira, 3 de março de 2020
A patroa de Rui Rio
Aqui há uns anos, durante a chatíssima presidência de Rui Rio na Câmara do Porto, os jornalistas foram chamados a acompanhar Sua Excelência numa visita à piscina municipal da Pasteleira. Decerto houvera melhoramentos, e Florbela Guedes lá estava a tomar conta. Das obras, do presidente e de nós. No decorrer da desinteressante conversa, e não me lembro a propósito de quê, Rio fez a extraordinária revelação de que não sabia nadar. Para mim, que ia pelo 24horas, já chegava. Na verdade o meu jornal tinha-me mandado lá para conferir se o cinzentão autarca portuense calçava meias da mesma cor, e de que cor, mas aquilo de não saber nadar, no pico de carreira dos Black Company e da campanha contra o afogamento das gravuras do Côa, saíra-me melhor do que a encomenda. Satisfeitos, pedimos a continha e pusemo-nos a andar sem pagar, eu mais o meu camarada da fotografia.
Ainda não tínhamos chegado à Junta de Lordelo do Ouro e já tocava o telemóvel do meu camarada da fotografia, por acaso amigo de infância de Rui Rio. Era a Florbela a dar-lhe o recado que me desse o recado que aquilo de Sua Excelência não saber nadar era a brincar, que ele uma vez até esteve quase a ser Tarzan num filme, que não era notícia, que não valia a pena, que não tinha jeito nenhum, que valha-me Deus! Eu, que também pensava que não era notícia, e confesso que nem ia escrever, resolvi então oferecer à Dra. Florbela Guedes o mesmo tratamento que ela nos dispensava sistematicamente a nós, jornalistas, não nos atendendo sequer o telefone e fechando-nos todas as portas e janelas. Mandei-a por isso dar uma curva com os quatro piscas ligados e, em dois ou três históricos parágrafos, antológicos e imortais, denunciei ao mundo e arredores o escândalo do século - Rui Rio não sabe nadar, yo! -, que eu não sou para brincadeiras. E ia-me saindo o Pulitzer daquele ano...
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Os benfiquistas bem e o xenófobo Ventura
"O Benfica ganhou muito bem o campeonato, mas levou uma coça nas eleições. Um e meio por cento - isto é, 45 mil votos - não chega nem basta sequer para encher o estádio. Depois da merecida festa do título, as Europeias resultaram numa escusada humilhação para o partido dos seis milhões de adeptos. Mas lá está, como preconiza o doutor Ventura: quem com ferros ferros, com ferros ferros."
Que o doutor Ventura usou o Benfica - e o Benfica deixou e deixa - para chegar aonde queria, estava à vista de todos, embora pareça que só eu é que vi, e mais nem sou benfiquista. Na televisão, o doutor Ventura é o Benfica e o Benfica é o doutor Ventura. E nada. Agora que a criatura chegou ao Parlamento, um pequeno e incomodado grupo de benfiquistas bem achou definitivamente mal e resolveu dizer basta!, escrevendo uma carta aberta de denúncia, indignação, desabafo e protesto dirigida a Luís Filipe Vieira, que não sei se lê o Expresso. Olhem: mais vale tarde que noite...
domingo, 23 de junho de 2019
Não, o planeta é que já está a destruir o clima
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Nuno Brederode dos Santos 2
A longa querela dos zoólogos para o classificarem não terá contribuído também para lhe insuflar o pundonor. Afinal, decidiram que ele era um mamífero, mas sob um rótulo que não é propriamente uma comenda: 'monotrémato'. E o nome que reservaram para a espécie evoca-lhe a ave que ele talvez tenha querido ser mas não foi: 'ornitorrinco'. Discutem se a espécie está extinta ou em vias de extinção. Procuram-no em cada moita ribeirinha dessa Austrália dos paradoxos naturais. Ele espreita as expedições científicas e oculta-se, resvalando no lodo até à água. Não quer ser visto nem estudado, nem compreendido. [...]
Nuno Brederode dos Santos (no Expresso)
(Nuno Brederode dos Santos nasceu no dia 14 de Dezembro de 1944. Morreu em 2017.)
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda...
(As fajãs de São Jorge, nos Açores, são desde o passado mês de Março património da biosfera da UNESCO e pelos vistos estão na moda: a televisão SIC dedica-lhes uma Reportagem Especial, de que o semanário Expresso faz eco. Adiantado no tempo sem saber, tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de 25 anos e contei na revista Tempo Livre o que então senti e vi naqueles édenes ao deus-dará. A UNESCO não me leu, a televisão também não. Perdeu-se um quarto de século, mas mais vale tarde do que mal acompanhado. A SIC chama à sua reportagem "Isto não é um segredo mas é sagrado", eu, como não descobri a pólvora, chamei à minha:)
Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas
Aprender dos 92 anos da Tia Maricas que aqueles ares saram maleitas, apaladar a conversa com um gostoso café roubado ao quintal, torrado, moído e coado: tudo na hora, quase, e - insondáveis são os desígnios do Senhor - ao domingo ir à igreja rezar a missa pelo rádio. Milagres das fajãs de São Jorge, nos Açores, paraísos perdidos à beira da desertificação. Ali o tempo não parou. Voltou para trás.
São, ao todo, quarenta e seis. Bordam toda a costa da ilha, mas em maior número na costa norte, mais escarpada. São as fajãs de São Jorge, terras baixas e chãs, de um modo geral formadas por derrocadas de grandes massas ou pela acumulação de materiais de aluvião, ali onde o monte acaba e o mar começa.
Pobremente semeados de casas simples, pequenas adegas rústicas ou palheiros, estes nacos de terreno de excepcional qualidade são um luxo para a vista mas também para os primores da Natureza. Um microclima especial oferece-lhes culturas tão variadas como a da vinha (o singular e controverso vinho-de-cheiro), da batata, da batata-doce, do milho, da banana, entre outros frutos, do inhame, nas encostas, e até do café.
Dois ou três casebres, construídos em pedra solta, quintais em socalcos, aproveitando todas as ribanceiras e os retalhos do solo, uma igreja modesta ou singela ermida, pintam a fajã por sobre o verde luxuriante e imponente da serra e o azul temperamental do oceano. Ambos parecem querer, à uma, engolir aquela indefesa língua de terra.
Parecem retalhos de paraíso, de um paraíso perdido, alheio ainda ao turismo por grosso (para gozo do passante solitário), um espaço esquecido no tempo no meio do arquipélago dos Açores. E, no entanto, são cada vez menos os jorgenses que escolhem a fajã como sítio de vida. O êxodo multiplica-se, as adegas arruinam-se. Sobra um ar de abandono, de vinhas mal cultivadas, de terras deixadas.
(continua)
domingo, 11 de janeiro de 2015
sábado, 13 de dezembro de 2014
Sócrates escutado a pedir dinheiro a amigo
Confesso a minha triste venalidade. Não sou como o alegado primeiro-ministro de Portugal, que nunca na vida fez ou pediu favores a ninguém. Na minha terra não se diria melhor para definir um pequeno filho da puta: nunca pediu ajuda nem nunca ajudou ninguém. Eu, ao contrário do alegado primeiro-ministro de Portugal, peço favores, que remédio, e creio que também já fiz alguns. Também já pedi dinheiro a amigos. Aliás, farto-me de pedir dinheiro à minha mulher, e a minha mulher é minha amiga. A sorte que tenho é que não sou escutado (por acaso até sou, somos todos; quase todos), e decerto por isso é que ainda não estou no xelindró nem na manchete do Expresso. Eu e o alegado e imaculado primeiro-ministro de Portugal temos tecnoformas de vida completamente diferentes. Provavelmente antagónicas.
Eu sempre acreditei que os amigos são para as ocasiões. E que quem tem amigos não morre na cadeia.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Grande bomba, pila pequena?
A história tem que se lhe diga e está muito bem contada na edição online do Expresso de ontem. De ontem. Foi em Agosto de 2011.
A inveja é uma cena que não me assiste. Mr. Bean que tenha o carro que quiser e os jogadores de futebol também. Ganham bom e merecido dinheiro, melhor para eles. Que o gastem como quiserem e que gastem muito, que é bom para nós todos, até para as oficinas, que eles espetam-se como tordos. Do fundo do coração, o que lhes estimo é o que lhes desejo. E que, com a graça de Deus, seja sempre só chapa. Mas, tenho que confessar, não percebo a queda desta gente para carros de mil à hora só para ir de casa ao café e do café para casa. Sabem o que se diz: grande bomba, pila pequena? Pois se calhar. Não estudei para isso, não faço ideia. E mais até estou à vontade sobre o assunto: não tenho carro nem sequer sei conduzir...
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