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quarta-feira, 23 de abril de 2025

Fafe já não tem piononos

O senhor do monte
Era uma alma sensível e só. Comovia-se com a natureza. Gostava de subir ao monte para ver as vistas. E cheirar os olfactos. E ouvir as audições...

No monte de São Jorge havia um pionono. E constava que havia outro no monte de Castelhão. Fui testemunha de ambos, embora o segundo possa jamais ter existido. O pionono, para mim, era uma espécie de meco que ajudava montes de pouca monta a porem-se em bicos de pés, a chegarem-se a uma certa altura, a uma altura certa, a um número redondo de que desse jeito falar. Quero dizer: era uma espécie de sapato de salto alto para caga-tacos complexados, porém ao contrário, com o tacão virado para cima e usado na cabeça em vez dos pés, bem na crucha da cabeça. Depois tomei conhecimento do Pio IX, mas nunca percebi a relação, e acho um merecido insulto chamar-lhe marco geodésico. Ao papa. Ao sumo pontífice.
Assim com maiúscula, o Pionono era exactamente em São Jorge, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. Era topónimo com alvará. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. E ia-se muito. Ao Pionono ia-se ver "a paisage", ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se esgaçar umas pernadas de carvalho para o trono da cascata do Santo António da nossa rua, ia-se aos fentos ou ao mato para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem ainda conseguir alcançar o que ela quereria dizer. Nem de propósito, São Jorge parece que também tinha mamoas, eu confesso que não sabia, mas fiquei a saber aqui atrasado. Portanto, pionono e mamoas, para o que lhes havia de dar...
(As giestas, por falar nelas, davam umas vassouras de categoria e o Trancadas era um barbeiro mesmo ao lado do tasco do Neca do Hotel, proximidade que se revelava de uma comodidade extrema, sobretudo para os praticantes do desporto líquido, que eram naquele tempo, olimpicamente, mais de metade da população fafense. As memórias vêm umas atrás das outras, como as marias, lembro-me de descer um degrauzinho, mais cá para o centro da vila, ali entre a sombria loja da Rosindinha Catequista e a Cafelândia, mas esse era o Sr. António Grande, o segundo barbeiro do meu padrinho Américo. Eu ia lá com o meu padrinho mais o meu tio Zé da Bomba, aos sábados de manhã, que naquele tempo eram sempre de sol. Na espera lia-se "O Primeiro de Janeiro", mal eu sabia que ainda o haveria de fazer. O meu padrinho Américo e o meu tio Zé da Bomba eram irmãos do meu pai, o grande Lando Bomba, e depois foram meus pais, à falta do propriamente dito, por razão de força maior.)
São Jorge e Castelhão eram a nossa floresta, a nossa montanha, e tão ao pé da porta. Hoje os montes de São Jorge e de Castelhão são casas e é o progresso. Os montes foram capados, terraplenados, desarborizados, alcatroados, liquidados. Os montes morreram de morte matada e a culpa morreu solteira. Fafe já não tem piononos. Mas, dizem-me, tem ainda a "Garrafinha" e historiadores até dar com um pau. Um deles, quem dera que não chova, ainda há-de contar esta como deve ser.

E agora, só para que conste: pio-nono será a forma "correcta" de escrever, se nos referirmos ao meco. Mas pionono pode ser também nome de doce muito popular em Espanha, na América Latina e nas Filipinas. Por outro lado, Pio IX, que se chamava Giovanni Maria Mastai-Ferretti, teve o segundo maior pontificado da história da Igreja, logo a seguir a São Pedro. E foi o primeiro papa a ser fotografado. Foi também um sacana do piorio e o Vaticano fez dele santo. Pio IX, que tratava os judeus como "cães" e abaixo de cão, foi o responsável pelo rapto de Edgardo Mortara, um menino de seis anos baptizado em segredo e retirado à força da sua família judaica, história contada por Marco Bellocchio no filme "O Rapto".
 
P.S. - Publicado originalmente no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de São Jorge.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Fafe já não tem piononos

"O Rapto", de Marco Bellocchio

No monte de São Jorge havia um pionono. E constava que havia outro no monte de Castelhão. Fui testemunha de ambos, embora o segundo possa jamais ter existido. O pionono, para mim, era uma espécie de meco que ajudava montes de pouca monta a porem-se em bicos de pés, a chegarem-se a uma certa altura, a uma altura certa, a um número redondo que desse jeito falar. Quero dizer: era uma espécie de sapato de salto alto para caga-tacos complexados, porém ao contrário, com o tacão virado para cima e usado na cabeça, bem na crucha da cabeça. Depois tomei conhecimento do Pio IX, mas nunca percebi a relação, e acho um insulto chamar-lhe marco geodésico. Ao papa. Ao sumo pontífice.
Assim com maiúscula, o Pionono era exactamente em São Jorge, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. Era topónimo com alvará. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. Ao Pionono ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se esgaçar umas pernadas de carvalho para o trono da cascata do Santo António, ia-se aos fentos ou ao mato para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se brincar aos cobóis, ia-se cagar ao monte e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas, mesmo sem ainda conseguir alcançar o que ela quereria dizer. Nem de propósito, São Jorge parece que também tinha mamoas, eu confesso que não sabia mas fiquei a saber no final do ano passado.
(As giestas, por falar nelas, davam umas vassouras de categoria e o Trancadas era um barbeiro mesmo ao lado do tasco do Neca do Hotel, proximidade que se revelava de uma comodidade extrema. Por falar nisso, lembro-me de descer um degrauzinho, mais cá para o centro da vila, ali entre a sombria loja da Rosindinha Catequista e a Cafelândia, mas esse era o Sr. António Grande, o segundo barbeiro do meu padrinho Américo. Eu ia lá com o meu padrinho mais o meu tio Zé da Bomba, aos sábados de manhã, que naquele tempo eram sempre de sol. Na espera lia-se "O Primeiro de Janeiro", mal eu sabia que ainda o haveria de fazer. O meu padrinho Américo e o meu tio Zé da Bomba eram irmãos do meu pai, o grande Lando Bomba, e depois foram meus pais, à falta do propriamente dito, por razão de força maior.)
Hoje os montes de São Jorge e de Castelhão são casas e é o progresso. Os montes foram capados, terraplenados, desarborizados, alcatroados, liquidados. Os montes morreram de morte matada e a culpa morreu solteira. Fafe já não tem piononos. Mas, dizem-me, tem ainda a "Garrafinha" e historiadores até dar com um pau. Um deles, quem dera que não chova, ainda há-de contar esta como deve ser.

E agora, só para que conste: pio-nono será a forma "correcta" de escrever, se nos referirmos ao meco. Mas pionono pode ser também nome de doce muito popular em Espanha, na América Latina e nas Filipinas. Por outro lado, Pio IX, que se chamava Giovanni Maria Mastai-Ferretti, teve o segundo maior pontificado da história da Igreja, logo a seguir a São Pedro. E foi o primeiro papa a ser fotografado. Foi também um sacana do piorio e o Vaticano fez dele santo. Pio IX, que tratava os judeus como "cães" e abaixo de cão, foi o responsável pelo rapto de Edgardo Mortara, um menino de seis anos baptizado em segredo e retirado à força da sua família judaica, história contada por Marco Bellocchio no filme "O Rapto", estreado no Festival de Cannes do ano passado e que chega hoje às salas de cinema.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 7

Aqui ninguém morre. "Telefones há aí uns sete, mas não trabalham". No Posto e na Adega do Ferreira estão lá, mas apenas pintados em paredes de casas periclitantes. "Quando acontece qualquer coisa vou lá fora, subo aos Cubres para telefomar a chamar o médico, mas nunca aconteceu nada de grave", diz-nos o guardador de amêijoas. Quando foi do nascimento da filha, "era para sair para fora mas não houve tempo". Chamou uma tia. Quando a tia chegou, "já a rapariga berrava". Outra vez, uma moça estrangeira "trincou-se na cabeça e foi-se aos Cubres chamar o helicóptero". Estiveram a pé até às cinco da manhã à espera do que não veio, e o médico chegou apenas às seis. E mortes? E o cemitério ao deus-dará? "Não me lembro de alguém ter sido sepultado ali... a não ser um desconhecido que apareceu morto no mar. Do terramoto para cá, não morreu ninguém", presta contas o Senhor Luís.
A Caldeira teve em tempos o seu próprio pároco. Hoje recebe a visita de um padre uma semana em cada ano, a que antecede e prepara a solenidade do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no primeiro domingo de Setembro. Então, sim, a fajã enche-se dos naturais, há festa de arromba, "filarmónicas e tudo". Mas estes são católicos dos rijos e de expedientes. Não passam domingo sem missa, e na sua igreja. Um pouco antes das dez, o Senhor Luís pega no rádio e, com a família, cumpre o curto trajecto que o separa do templo. É geralmente acompanhado pelos outros três ou quatro vizinhos, mas já aconteceu muitas vezes estarem ali só os da casa. Sintoniza a RDP-Açores e preparam-se para a missa da Sé de Angra. Tudo ritualmente. "Como se tivéssemos padre à nossa frente, a mesma coisa". As respostas, os silêncios, os gestos, a reverência, a atenção. Justifica: "Gosto de ir à igreja. Nem a televisão me interessa, que dá a missa às três e meia da tarde, vejam lá!, e em casa eu não estou com atenção".

Ao fim da tarde, tempo apertado para mais um cafezinho, "da terra", e uma angélica, "aguardente da terra", que nos anima ao regresso. A hora é de pressas, pretendemos fazer a jornada até aos Cubres, pelo seguro, com a luz do sol. Deixamos para trás, queremos desconfiar que já com saudades, a intrigante Fajã da Caldeira, sítio de memória, do passado, onde a vida corre devagar e a morte parece não ter visto de entrada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 6

No meu tempo havia escola. Já foi uma grande aldeia, vê-se. Mil novecentos e oitenta, o terramoto de 1 de Janeiro, foi o tempo da viragem: teve já cerca de três centenas de habitantes regulares, e por ocasião do cataclismo aqui moravam para cima de cem pessoas. Mas esta foi uma das zonas mais flageladas, e o que hoje se vê, se sente, é uma fajã-fantasma. "Casas por consertar, caminhos por amanhar", mostra o nosso cicerone, o cemitério abandonado às silvas e às ervas, ruelas - muitas, ao contrário dos Vimes e de São João - desertas. São somente três as casas ocupadas durantes todo o ano e haverá aí mais uma dúzia em condições de habitabilidade. O resto é ruína.
Fica o cenário, belo, esmagador - a serra, luxuriante, disfarçada de tropical, caindo das nuvens a pique e apertando aquele espaço mínimo contra o mar. A unir as duas paredes, grossos fios de arame, espécie de teleféricos, por onde as lenhas, as mondas para estrumes e as ervagens ou folhagens eram lançadas em molhos, presas a um gancho, da montanha para a fajã.
Por causa das dificuldades de acesso, aqui não há permuta de Inverno com os de cima. Quem está, está; quem não está, não vem. São seis ou sete os habitantes a tempo inteiro, todos idosos, à excepção da casa do Senhor Luís. Passamos por dois deles: absortos, tristes, resignados.
O guarda da lagoa, nos quarenta, é casado e tem uma filha, Suzete Maria, a fazer dez anos. Cada segunda-feira leva-a "lá fora" à escola e vai por ela à sexta. Mas nem esta separação o impele a desertar. Só a tropa o arrancou da fajã onde nasceu, fez a escola - "no meu tempo havia escola!" - e cresceu. "Por ora não quero sair. Eu gosto de estar aqui, isto é um sossego. Se não gostasse - e remata, pragmático -, já tinha ido".
Luís tem o seu gerador privativo e outros apetrechos da civilização. Para além da função pública, governa-se também com as suas trinta, quarenta cabeças de gado. As provisões vai buscá-las à Calheta ou à Ribeira Seca. Tem dois barquitos, mas raramente são hipótese de transporte. É que, "mesmo quando o mar deixa, não há marinheiros, há pouca gente". Por isso abala com dois cavalos, inteligentemente alinhados e atentos, pelo perigoso caminho que horas antes percorrêramos, até à Fajã dos Cubres. Deixa ali os animais e segue viagem de camioneta. Regressa às vezes pela noite, ele e as bestas carregados. E repete todas as semanas.

sábado, 26 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 5


Luís, o guardador de amêijoas. É do outro lado da ilha, no norte. Atravessamos a serra de costa a costa e iniciamos a descida pela Ponta Norte Pequena, deslocando-nos para leste. Passamos ao de longe pela Fajã do Ouvidor e, apontados ao destino, obrigamo-nos à paragem para, por momentos, gozarmos uma paisagem verdadeiramente de postal ilustrado: à nossa frente, muito ao fundo, agasalhada pelo leve manto da transpiração da terra, a visão magnífica das fajãs dos Cubres, em primeiro plano, e da Caldeira, ao longe, adornadas pelas suas lagoas. O automóvel desce-nos até aos Cubres e por aí se fica.
A vista alcança a Graciosa e a Terceira, do lado de lá do canal, enquanto desafiamos - encosta acima, encosta abaixo - uma marcha forçada por carreiro tortuoso, íngreme, pedras soltas e traiçoeiras, lajedos puídos, um pé de cada vez. Penedia e mar espreitam perigosamente do abismo, numa companhia incómoda, quase até ao fim do percurso. Na fase terminal, então já ao nível do oceano, vistoriamos as ruínas das fajãs do Belo e dos Tijolos e, num pulo, pomo-nos na Fajã da Caldeira do Santo Cristo.
Fora uma bem suada hora de caminhada. Paramos e respiramos. Vemos, ouvimos, um espaço breve, belo, esquecido.
Passamos pelo exterior de uma lagoa subterrânea, dentro de uma furna abobadada, com acesso por um estreito corredor, também subterrâneo, dizem-nos, mas andamos é para a lagoa de água salgada, onde se reproduzem as célebres amêijoas da fajã. Pelo seu sabor, pelo seu tamanho, são prémio de excelência para o esforço da viagem. Ali nos encontramos com o Senhor Luís, o homem que há sete anos guarda a lagoa. Será o nosso guia e quem nos vai contar as singularidades da mais diferente, típica e misteriosa de todas as fajãs.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 4

Já aqui foram curadas muitas tuberculoses. Era a hora da subida. Próxima paragem na Fajã de São João. Muito mais afastada da estrada principal, alcatroada, para lá chegarmos teremos de percorrer uma considerável distância pelo pó de uma via em terra barrenta, mas ainda assim de carro. O pior é a descida propriamente dita. Íngreme de meter medo e, ainda por cima, escangalhada por uma das habituais derrocadas. Restava o velho caminho alternativo, que, logo no seu início, avisava em letreiro artístico: "Descidas: às horas. Subidas: às meias". Esperámos pela hora e descemos, obrigados a complicadas manobras e ao recurso à mais eficiente das perícias. E outra vez encontrámos o mesmo silêncio, o recolhimento de um templo.
A fajã já teve escola e padre, mas hoje não vivem aqui permanentemente mais do que vinte pessoas, velhas quase todas e sobreviventes de pensões e da agricultura. Uma parte importante das cerca de duzentas casas e respectivas propriedades pertence a famílias da freguesia de Santo Antão, da zona alta da ilha, que descem com tudo, haveres e gado, para se guardarem dos rigores de janeiros e fevereiros, ou no Verão para as vindimas. É que - explica-nos o Senhor Libório, conhecedor do que diz - "lá em cima o tempo mata tudo e cá em baixo é o melhor que há para as coisas do cedo".
É assim, divididos entre a fajã e a serra, que vivem os dos Vimes e de São João. Na serra do Topo têm a sua cooperativa de lacticínios, onde é produzido o excelente queijo de São Jorge, de características originais e famoso pela sua qualidade invulgar e sabor único. E cá em baixo estão as sua vinhas - designação genérica para os quintais em socalcos -, ricas em hortícolas e frutos temporãos. Mostra-nos, na Fajã de São João, o Senhor Libório: banana, vinho, tomate, tangerina, trigo, figo e, claro, café.
Terá vindo do Brasil, "há-de haver cem anos", diz-nos a Tia Maricas, que nos vai ensinar tudo sobre o café das fajãs. Num discurso simples mas fluente, inteligente, filosófico às vezes, quase sempre sábio. "O café há que apanhá-lo quando as bagas estão vermelhas, a caminhar para o castanho. É descascado à mão, mas antes disso, quando está bem seco, esfrega-se em cima de uma soleta". Depois vai a queimar, com todo o cuidado, porque não pode ficar "nem muito encruado nem muito torrado". Esta operação é geralmente feita numa meia esfera em ferro, serrada de uma das muitas bóias que vão dando à costa. "Leva-se um ou dois dias ao sol, a secar, senão amarga, e então pode-se relar". A seguir é bebê-lo e - mais pelo paladar do que pela cor ou pelo aroma - apreciá-lo como merece, calmamente, repetindo, enquando vamos aprendendo a vida com a Tia Maricas.
Também ela desce de "lá fora", Santo Antão, para as suas temporadas de fajã, porque "isto é melhor que um sanatório: já aqui foram curadas muitas tuberculoses". E passa às provas. Por exemplo, a história de "duas raparigas, rapariguinhas de 18 anos, tísicas, mal-enganadas pelo médico, que, ciente da falta de cura, as mandou por descargo" para a Fajã de São João. "O caso é que, tratadas pelo sol e pelos ares, bem comidas e resguardadas, ali ganharam cores e saúde e se apresentaram, tempos mais tarde e sem mancha de doença, ao doutor, que afinal já não as esperava ver vivas". A certidão do que diz atesta-a Tia Maricas com os seus bem vividos e lúcios 92 anos.
São horas e meia, tempo exacto para a subida e o regresso à Calheta. O dia seguinte está guardado para a Fajã da Caldeira do Santo Cristo, empreitada que nos reclama bem descansados.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 3

Já estive na América, mas ainda não vi sítio melhor que este. Preparamo-nos para baixar à Fajã dos Vimes, hoje em dia a mais populosa, nas suas perto de cem pessoas. Antes, paramos à beira da estrada e bebemos um pouco de "água azeda" numa nascente tida como de virtudes estomacais. O alcatrão continua, lento, descendo cada vez mais, quase até à fajã. Acompanhando estrada abaixo o Rio dos Inhames, vamos desaguar, agora por poeirento caminho de terra, a uma espécie de terreiro da igreja. Fechada.
Só para ver os inhames do Rio, vale a pena descer à fajã. Mas o que ali nos levara fora a fama das colchas de tear ou colchas de ponto alto, uma das manifestações mais características do artesanato dos Açores.
O inhame é um tubérculo, rico em amido e com um gosto ligeiramente adocicado, muito utilizado e apreciado na cozinha regional. E os dos Vimes são considerados os melhores de São Jorge, talvez do arquipélago. As plantas, de folhas enormes, verdíssimas, ocupam uma considerável porção de terreno encharcadiço - o Rio - situada a meio da fajã, na parte inclinada, regadas pelas águas esparramadas de uma nascente que brota a meio da encosta. Em tempos iam morrer a pitorescos moinhos de água, hoje parcialmente destruídos.
Mas fôramos pelas colchas. Feitas em pura lã, "lã da terra", de um colorido intenso, laboriosamente confeccionadas em toscos teares de madeira, utilizando técnicas ancestrais. Haveria que visitar as três tecedeiras da fajã, ou ali se arranjaria ciumeira desgraçada, entornar-se-ia todo aquele sossego, aquela paz de retiro. Cumprimos.
Dona Rosa passou já os 85 anos, que não lhe roubaram a beleza do rosto. Com impecável lucidez, conta que terá sido das primeiras, se não a primeira, a fazer as colchas da Fajã dos Vimes. Estabeleceu-se "há mais de 60 anos, era ainda solteira". Mas começou a tecer com 15. "Com isto", e desvenda, orgulhosa, a sua primeira peça, uma riquíssima colcha religiosamente guardada e a que o tempo parece ter concedido ainda mais encanto. E vai exibindo colchas e toalhas e tapetes e saias de padrões berrantes ou discretos, de ractângulos e quadrados, cornucópias ou flores. "Fiz muitos desenhos, cheguei a ter sete pupilas e três teares a trabalhar". Teares que ela própria alargou, para poder executar obras de maior  dimensão.
Lamenta-se é que a saúde que lhe falta a obrigue agora à inactividade. Mas também se queixa da fuga dos da sua fajã. "Até a escola, onde a minha filha é professora, vai fechar: já nem crianças há".
A prosperar está Dona Alzira Nunes. Tem três teares, trabalhados por três adultos mais uma miúda, e, garante, "a procura tem aumentado". Tudo o que faz é venda garantida e quase que não resta tempo para cumprir encomendas. Ideia que, de resto, a última das tecedeiras, Dona Maria Alexandrina, avaliza. "Haja quem teça, que quem compre há sempre", diz. Tece há pouco tempo e, numa sucessão pouco natural, continua a obra da sua filha, Jacinta, essa considerada como artista e por isso a trabalhar e a expor em Ponta Delgada, São Miguel.
Embora existam desenhos com mais de cem anos, que continuam a ser requisitados, cada tecedeira executa, as mais das vezes, as suas próprias criações. Maria Alexandrina folheia alguns dos seus feitios: "rosas e quadrados", "toda branca", "cinzento e branco", "novo", "da Calheta"... E também ela alterou os seus teares, "inventando" o pente alargado, para trabalhos de 2,5 por 3 metros.
Optimismo mora ali. A arte não vai morrer. Alexandrina tem três pessoas nos seus teares, mas "há-de vir mais gente para aprender, que a carreira já cá chega". Pelo que lhe toca, dá o exemplo: "Tenho uma amarração a estas coisas, que não as deixo". Como à fajã - que nem o facto de ter luz eléctrica (por gerador comunitário e de graça) somente duas a três horas por dia, e mais alguma por noite, a desconsola. "Olhe, já estive na América, mas ainda não vi sítio melhor que este".

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 2

Isolamento. Mas também aquilo não é para qualquer. Exige força, perseverança, saber estar só. É o valor dos resistentes. Ainda aqui há uns bons anos havia fajãs, como a do Cerrado das Silvas, habitadas todo o tempo por uma única família. Cultivavam as suas precisões, invernavam o gado, vendiam lenha a lapas, ali apanhadas no seu calhau. A ingratidão dos elementos, os frequentes sismos que sucessivamente apequenam o espaço, o isolamento do resto da ilha, puderam mais. E quase todos abalaram para as vilas ou para a serra.
As comunicações também não ajudavam. Sem telefone, com o mar imprevisível como derradeiro recurso de ligação, os caminhos não passavam de trilhos, por rochas, escarpas e ravinas desenhando a encosta. Em algumas fajãs foi até preciso construir um tipo especial de carro de bois, com um eixo mais curto. Mas nem assim se ultrapassavam vias constantemente cortadas por terras e pedras deslocadas. Hoje, de estradas melhoradas, há fajãs que servem às gentes serranas como casa de Verão, onde são passados os domingos e dias santos, ou sazões agrícolas, principalmente no Inverno.
As mais típicas e ainda activas fajãs de São Jorge pertencem ao concelho da Calheta, na parte oriental da ilha açoriana. Vamos conhecê-las. E, porque a jornada é dura, comecemos, para ambientar, pela mais fácil, mesmo à beira, a Fajã Grande, no mesmo plano e a continuação natural da pacata e bonita vila. Uma fajã urbana, sem os exotismo que iremos encontrar lá mais para diante, do lado de lá da sede concelhia. Por isso - pensou a Câmara - aqui haveria que criar condições de chamamento, inventar o turismo. E vai de construir, encostado ao mar, um parque de campismo com todas as condições tidas por necessárias e servido, como bónus, por uma piscina natural e uma visão ideal do Pico, "o ponto mais alto de Portugal", e do Faial.
Uma carrinha apetrechada para a venda, minimercado ambulante aparelhado de potentes altifalantes, distribui música, engodando os habituais clientes: tornámos à vila. E enquando vamos ouvindo as lamentações do povo da terra, por via do porto - que as obras do Governo Regional melhoraram para pior, tornando o cais quase inoperacional e impedindo por sistema a acostagem do Cruzeiro do Canal ou do Cruzeiro das Ilhas -, aprestamo-nos para o ataque às histórias das fajãs dos Vimes e de São João, ainda a sul, a caminho da ponta do Topo. Vamos de automóvel e subimos a serra por boa estrada alcatroada. À nossa direita vemos e ouvimos o mar, batendo, lá muito ao fundo, numa pequena fajã desabitada, abandonada em ruínas: a da Fragueira. Estão lá, marcados pelo tempo, os restos da casa onde nasceu o maestro Francisco de Lacerda, talento que prestigiou o País pela Europa e pela América.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda...


(As fajãs de São Jorge, nos Açores, são desde o passado mês de Março património da biosfera da UNESCO e pelos vistos estão na moda: a televisão SIC dedica-lhes uma Reportagem Especial, de que o semanário Expresso faz eco. Adiantado no tempo sem saber, tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de 25 anos e contei na revista Tempo Livre o que então senti e vi naqueles édenes ao deus-dará. A UNESCO não me leu, a televisão também não. Perdeu-se um quarto de século, mas mais vale tarde do que mal acompanhado. A SIC chama à sua reportagem "Isto não é um segredo mas é sagrado", eu, como não descobri a pólvora, chamei à minha:)

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas
Aprender dos 92 anos da Tia Maricas que aqueles ares saram maleitas, apaladar a conversa com um gostoso café roubado ao quintal, torrado, moído e coado: tudo na hora, quase, e - insondáveis são os desígnios do Senhor - ao domingo ir à igreja rezar a missa pelo rádio. Milagres das fajãs de São Jorge, nos Açores, paraísos perdidos à beira da desertificação. Ali o tempo não parou. Voltou para trás.

São, ao todo, quarenta e seis. Bordam toda a costa da ilha, mas em maior número na costa norte, mais escarpada. São as fajãs de São Jorge, terras baixas e chãs, de um modo geral formadas por derrocadas de grandes massas ou pela acumulação de materiais de aluvião, ali onde o monte acaba e o mar começa.
Pobremente semeados de casas simples, pequenas adegas rústicas ou palheiros, estes nacos de terreno de excepcional qualidade são um luxo para a vista mas também para os primores da Natureza. Um microclima especial oferece-lhes culturas tão variadas como a da vinha (o singular e controverso vinho-de-cheiro), da batata, da batata-doce, do milho, da banana, entre outros frutos, do inhame, nas encostas, e até do café.
Dois ou três casebres, construídos em pedra solta, quintais em socalcos, aproveitando todas as ribanceiras e os retalhos do solo, uma igreja modesta ou singela ermida, pintam a fajã por sobre o verde luxuriante e imponente da serra e o azul temperamental do oceano. Ambos parecem querer, à uma, engolir aquela indefesa língua de terra.
Parecem retalhos de paraíso, de um paraíso perdido, alheio ainda ao turismo por grosso (para gozo do passante solitário), um espaço esquecido no tempo no meio do arquipélago dos Açores. E, no entanto, são cada vez menos os jorgenses que escolhem a fajã como sítio de vida. O êxodo multiplica-se, as adegas arruinam-se. Sobra um ar de abandono, de vinhas mal cultivadas, de terras deixadas.

(continua)

terça-feira, 29 de março de 2016

Lugares-(in)comuns 155

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 7

Aqui ninguém morre. "Telefones há aí uns sete, mas não trabalham". No Posto e na Adega do Ferreira estão lá, mas apenas pintados em paredes de casas periclitantes. "Quando contece qualquer coisa vou lá fora, subo aos Cubres para telefomar a chamar o médico, mas nunca aconteceu nada de grave", diz-nos o guardador de amêijoas. Quando foi do nascimento da filha, "era para sair para fora mas não houve tempo". Chamou uma tia. Quando a tia chegou, "já a rapariga berrava". Outra vez, uma moça estrangeira "trincou-se na cabeça e foi-se aos Cubres chamar o helicóptero". Estiveram a pé até às cinco da manhã à espera do que não veio, e o médico chegou apenas às seis. E mortes? E o cemitério ao deus-dará? "Não me lembro de alguém ter sido sepultado ali... a não ser um desconhecido que apareceu morto no mar. Do terramoto para cá, não morreu ninguém", presta contas o Senhor Luís.
A Caldeira teve em tempos o seu próprio pároco. Hoje recebe a visita de um padre uma semana em cada ano, a que antecede e prepara a solenidade do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no primeiro domingo de Setembro. Então, sim, a fajã enche-se dos naturais, há festa de arromba, "filarmónicas e tudo". Mas estes são católicos dos rijos e de expedientes. Não passam domingo sem missa, e na sua igreja. Um pouco antes das dez, o Senhor Luís pega no rádio e, com a família, cumpre o curto trajecto que o separa do templo. É geralmente acompanhado pelos outros três ou quatro vizinhos, mas já aconteceu muitas vezes estarem ali só os da casa. Sintoniza a RDP-Açores e preparam-se para a missa da Sé de Angra. Tudo ritualmente. "Como se tivéssemos padre à nossa frente, a mesma coisa". As respostas, os silêncios, os gestos, a reverência, a atenção. Justifica: "Gosto de ir à igreja. Nem a televisão me interessa, que dá a missa às três e meia da tarde, vejam lá!, e em casa eu não estou com atenção".

Ao fim da tarde, tempo apertado para mais um cafezinho, "da terra", e uma angélica, "aguardente da terra", que nos anima ao regresso. A hora é de pressas, pretendemos fazer a jornada até aos Cubres, pelo seguro, com a luz do sol. Deixamos para trás, queremos desconfiar que já com saudades, a intrigante Fajã da Caldeira, sítio de memória, do passado, onde a vida corre devagar e a morte parece não ter visto de entrada.

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Termino hoje a repetição do texto então publicado.)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 6

Já foi uma grande aldeia, vê-se. Mil novecentos e oitenta, o terramoto de 1 de Janeiro, foi o tempo da viragem: teve já cerca de três centenas de habitantes regulares, e por ocasião do cataclismo aqui moravam para cima de cem pessoas. Mas esta foi uma das zonas mais flageladas, e o que hoje se vê, se sente, é uma fajã-fantasma. "Casas por consertar, caminhos por amanhar", mostra o nosso cicerone, o cemitério abandonado às silvas e às ervas, ruelas - muitas, ao contrário dos Vimes e de São João - desertas. São somente três as casas ocupadas durantes todo o ano e haverá aí mais uma dúzia em condições de habitabilidade. O resto é ruína.
Fica o cenário, belo, esmagador - a serra, luxuriante, disfarçada de tropical, caindo das nuvens a pique e apertando aquele espaço mínimo contra o mar. A unir as duas paredes, grossos fios de arame, espécie de teleféricos, por onde as lenhas, as mondas para estrumes e as ervagens ou folhagens eram lançadas em molhos, presas a um gancho, da montanha para a fajã.
Por causa das dificuldades de acesso, aqui não há permuta de Inverno com os de cima. Quem está, está; quem não está, não vem. São seis ou sete os habitantes a tempo inteiro, todos idosos, à excepção da casa do Senhor Luís. Passamos por dois deles. Absortos, tristes, resignados.
O guarda da lagoa, nos quarenta, é casado e tem uma filha, Suzete Maria, a fazer dez anos. Cada segunda-feira leva-a "lá fora" à escola e vai por ela à sexta. Mas nem esta separação o impele a desertar. Só a tropa o arrancou da fajã onde nasceu, fez a escola - "no meu tempo havia escola!" - e cresceu. "Por ora não quero sair. Eu gosto de estar aqui, isto é um sossego. Se não gostasse - e remata, pragmático -, já tinha ido".
Luís tem o seu gerador privativo e outros apetrechos da civilização. Para além da função pública, governa-se também com as suas trinta, quarenta cabeças de gado. As provisões vai buscá-las à Calheta ou à Ribeira Seca. Tem dois barquitos, mas raramente são hipótese de transporte. É que, "mesmo quando o mar deixa, não há marinheiros, há pouca gente". Por isso abala com dois cavalos, inteligentemente alinhados e atentos, pelo perigoso caminho que horas antes percorrêramos, até à Fajã dos Cubres. Deixa ali os animais e segue viagem de camioneta. Regressa às vezes pela noite, ele e as bestas carregados. E repete todas as semanas.

A descida para a Fajã da Caldeira

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Estou a repetir o texto então publicado e a fotografia de hoje é mais um extra. Continua amanhã.)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 5

O guardador de amêijoas. É do outro lado da ilha, no norte. Atravessamos a serra de costa a costa e iniciamos a descida pela Ponta Norte Pequena, deslocando-nos para leste. Passamos ao de longe pela Fajã do Ouvidor e, apontados ao destino, obrigamo-nos à paragem para, por momentos, gozarmos uma paisagem verdadeiramente de postal ilustrado: à nossa frente, muito ao fundo, agasalhada pelo leve manto da transpiração da terra, a visão magnífica das fajãs dos Cubres, em primeiro plano, e da Caldeira, ao longe, adornadas pelas suas lagoas. O automóvel desce-nos até aos Cubres e por aí se fica.
A vista alcança a Graciosa e a Terceira, do lado de lá do canal, enquanto desafiamos - encosta acima, encosta abaixo - uma marcha forçada por carreiro tortuoso, íngreme, pedras soltas e traiçoeiras, lajedos puídos, um pé de cada vez. Penedia e mar espreitam perigosamente do abismo, numa companhia incómoda, quase até ao fim do percurso. Na fase terminal, então já ao nível do oceano, vistoriamos as ruínas das fajãs do Belo e dos Tijolos e, num pulo, pomo-nos na Fajã da Caldeira do Santo Cristo.
Fora uma bem suada hora de caminhada. Paramos e respiramos. Vemos, ouvimos, um espaço breve, belo, esquecido.
Passamos pelo exterior de uma lagoa subterrânea, dentro de uma furna abobadada, com acesso por um estreito corredor, também subterrâneo, dizem-nos, mas andamos é para a lagoa de água salgada, onde se reproduzem as célebres amêijoas da fajã. Pelo seu sabor, pelo seu tamanho, são prémio de excelência para o esforço da viagem. Ali nos encontramos com o Senhor Luís, o homem que há sete anos guarda a lagoa. Será o nosso guia e quem nos vai contar as singularidades da mais diferente, típica e misteriosa de todas as fajãs.

Luís, guardador de amêijoas, é o senhor da direita

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Estou a repetir o texto então publicado e a fotografia de hoje é um extra. Continua amanhã.)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 4

Tia Maricas e o café. Era a hora da subida. Próxima paragem na Fajã de São João. Muito mais afastada da estrada principal, alcatroada, para lá chegarmos teremos de percorrer uma considerável distância pelo pó de uma via em terra barrenta, mas ainda assim de carro. O pior é a descida propriamente dita. Íngreme de meter medo e, ainda por cima, escangalhada por uma das habituais derrocadas. Restava o velho caminho alternativo, que, logo no seu início, avisava em letreiro artístico: "Descidas: às horas. Subidas: às meias". Esperámos pela hora e descemos, obrigados a complicadas manobras e ao recurso à mais eficiente das perícias. E outra vez encontrámos o mesmo silêncio, o recolhimento de um templo.
A fajã já teve escola e padre, mas hoje não vivem aqui permanentemente mais do que vinte pessoas, velhas quase todas e sobreviventes de pensões e da agricultura. Uma parte importante das cerca de duzentas casas e respectivas propriedades pertence a famílias da freguesia de Santo Antão, da zona alta da ilha, que descem com tudo, haveres e gado, para se guardarem dos rigores de janeiros e fevereiros, ou no Verão para as vindimas. É que - explica-nos os Senhor Libório, conhecedor do que diz - "lá em cima o tempo mata tudo e cá em baixo é o melhor que há para as coisas do cedo".
É assim, divididos entre a fajã e a serra, que vivem os dos Vimes e de São João. Na serra do Topo têm a sua cooperativa de lacticínios, onde é produzido o excelente queijo de São Jorge, de características originais e famoso pela sua qualidade invulgar e sabor único. E cá em baixo estão as sua vinhas - designação genérica para os quintais em socalcos -, ricas em hortícolas e frutos temporãos. Mostra-nos, na Fajã de São João, o Senhor Libório: banana, vinho, tomate, tangerina, trigo, figo e, claro, café.
Terá vindo do Brasil, "há-de haver cem anos", diz-nos a Tia Maricas, que nos vai ensinar tudo sobre o café das fajãs. Num discurso simples mas fluente, inteligente, filosófico às vezes, quase sempre sábio. "O café há que apanhá-lo quando as bagas estão vermelhas, a caminhar para o castanho. É descascado à mão, mas antes disso, quando está bem seco, esfrega-se em cima de uma soleta". Depois vai a queimar, com todo o cuidado, porque não pode ficar "nem muito encruado nem muito torrado". Esta operação é geralmente feita numa meia esfera em ferro, serrada de uma das muitas bóias que vão dando à costa. "Leva-se um ou dois dias ao sol, a secar, senão amarga, e então pode-se relar". A seguir é bebê-lo e - mais pelo paladar do que pela cor ou pelo aroma - apreciá-lo como merece, calmamente, repetindo, enquando vamos aprendendo a vida com a Tia Maricas.
Também ela desce de "lá fora", Santo Antão, para as suas temporadas de fajã, porque "isto é melhor que uma sanatório: já aqui foram curadas muitas tuberculoses". E passa às provas. Por exemplo, a história de "duas raparigas, rapariguinhas de 18 anos, tísicas, mal-enganadas pelo médico, que, ciente da falta de cura, as mandou por descargo" para a Fajã de São João. "O caso é que, tratadas pelo sol e pelos ares, bem comidas e resguardadas, ali ganharam cores e saúde e se apresentaram, tempos mais tarde e sem mancha de doença, ao doutor, que afinal já não as esperava ver vivas". A certidão do que diz atesta-a Tia Maricas com os seus bem vividos e lúcios 92 anos.
São horas e meia, tempo exacto para a subida e o regresso à Calheta. O dia seguinte está guardado para a Fajã da Caldeira do Santo Cristo, empreitada que nos reclama bem descansados.

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Estou a repetir o texto então publicado. Amanhã há mais.)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 3

As colchas dos Vimes. Preparamo-nos para baixar à Fajã dos Vimes, hoje em dia a mais populosa, nas suas perto de cem pessoas. Antes, paramos à beira da estrada e bebemos um pouco de "água azeda" numa nascente tida como de virtudes estomacais. O alcatrão continua, lento, descendo cada vez mais, quase até à fajã. Acompanhando estrada abaixo o Rio dos Inhames, vamos desaguar, agora por poeirento caminho de terra, a uma espécie de terreiro da igreja. Fechada.
Só para ver os inhames do Rio, vale a pena descer à fajã. Mas o que ali nos levara fora a fama das colchas de tear ou colchas de ponto alto, uma das manifestações mais características do artesanato dos Açores.
O inhame é um tubérculo, rico em amido e com um gosto ligeiramente adocicado, muito utilizado e apreciado na cozinha regional. E os dos Vimes são considerados os melhores de São Jorge, talvez do arquipélago. As plantas, de folhas enormes, verdíssimas, ocupam uma considerável porção de terreno encharcadiço - o Rio - situada a meio da fajã, na parte inclinada, regadas pelas águas esparramadas de uma nascente que brota a meio da encosta. Em tempos, iam morrer a pitorescos moinhos de água, hoje parcialmente destruídos.
Mas fôramos pelas colchas. Feitas em pura lã, "lã da terra", de um colorido intenso, laboriosamente confeccionadas em toscos teares de madeira, utilizando técnicas ancestrais. Haveria que visitar as três tecedeiras da fajã, ou ali se arranjaria ciumeira desgraçada. Entornar-se-ia todo aquele sossego, aquela paz de retiro. Cumprimos.
Dona Rosa passou já os 85 anos, que não lhe roubaram a beleza do rosto. Com impecável lucidez, conta que terá sido das primeiras, se não a primeira, a fazer as colchas da Fajã dos Vimes. Estabeleceu-se "há mais de 60 anos, era ainda solteira". Mas começou a tecer com 15. "Com isto", e desvenda, orgulhosa, a sua primeira peça, uma riquíssima colcha religiosamente guardada e a que o tempo parece ter concedido ainda mais encanto. E vai exibindo colchas e toalhas e tapetes e saias de padrões berrantes ou discretos, de ractângulos e quadrados, cornucópias ou flores. "Fiz muitos desenhos, cheguei a ter sete pupilas e três teares a trabalhar". Teares que ela própria alargou, para poder executar obras de maior  dimensão.
Lamenta-se é que a saúde que lhe falta a obrigue agora à inactividade. Mas também se queixa da fuga dos da sua fajã. "Até a escola, onde a minha filha é professora, vai fechar: já nem crianças há".
A prosperar está Dona Alzira Nunes. Tem três teares, trabalhados por três adultos mais uma miúda, e, garante, "a procura tem aumentado". Tudo o que faz é venda garantida e quase que não resta tempo para cumprir encomendas. Ideia que, de resto, a última das tecedeiras, Dona Maria Alexandrina, avaliza. "Haja quem teça, que quem compre há sempre", diz. Tece há pouco tempo e, numa sucessão pouco natural, continua a obra da sua filha, Jacinta, essa considerada como artista e por isso a trabalhar e a expor em Ponta Delgada, São Miguel.
Embora existam desenhos com mais de cem anos, que continuam a ser requisitados, cada tecedeira executa, as mais das vezes, as suas próprias criações. Maria Alexandrina folheia alguns dos seus feitios: "rosas e quadrados", "toda branca", "cinzento e branco", "novo", "da Calheta"... E também ela alterou os seus teares, "inventando" o pente alargado, para trabalhos de 2,5 por 3 metros.
Optimismo mora ali. A arte não vai morrer. Alexandrina tem três pessoas nos seus teares, mas "há-de vir mais gente para aprender, que a carreira já cá chega". Pelo que lhe toca, dá o exemplo: "Tenho uma amarração a estas coisas, que não as deixo". Como à fajã - que nem o facto de ter luz eléctrica (por gerador comunitário e de graça) somente duas a três horas por dia, e mais alguma por noite, a desconsola. "Olhe, já estive na América, mas ainda não vi sítio melhor que este".

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Estou a repetir o texto então publicado. Amanhã há mais.)

domingo, 31 de agosto de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 2

Isolamento. Mas também aquilo não é para qualquer. Exige força, perseverança, saber estar só. É o valor dos resistentes. Ainda aqui há uns bons anos havia fajãs, como a do Cerrado das Silvas, habitadas todo o tempo por uma única família. Cultivavam as suas precisões, invernavam o gado, vendiam lenha a lapas, ali apanhadas no seu calhau. A ingratidão dos elementos, os frequentes sismos que sucessivamente apequenam o espaço, o isolamento do resto da ilha, puderam mais. E quase todos abalaram para as vilas ou para a serra.
As comunicações também não ajudavam. Sem telefone, com o mar imprevisível como derradeiro recurso de ligação, os caminhos não passavam de trilhos, por rochas, escarpas e ravinas, desenhando a encosta. Em algumas fajãs foi até preciso construir um tipo especial de carro de bois, com um eixo mais curto. Mas nem assim se ultrapassavam vias constantemente cortadas por terras e pedras deslocadas. Hoje, de estradas melhoradas, há fajãs que servem às gentes serranas como casa de Verão, onde são passados os domingos e dias santos, ou sazões agrícolas, principalmente no Inverno.
As mais típicas e ainda activas fajãs de São Jorge pertencem ao concelho da Calheta, na parte oriental da ilha açoriana. Vamos conhecê-las. E, porque a jornada é dura, comecemos, para ambientar, pelo mais fácil, mesmo à beira, a Fajã Grande, no mesmo plano e a continuação natural da pacata e bonita vila. Uma fajã urbana, sem os exotismo que iremos encontrar lá mais para diante, do lado de lá da sede concelhia. Por isso - pensou a Câmara - aqui haveria que criar condições de chamamento, inventar o turismo. E vai de construir, encostado ao mar, um parque de campismo com todas as condições tidas por necessárias e servido, como bónus, por uma piscina natural e uma visão ideal do Pico, "o ponto mais alto de Portugal", e do Faial.
Uma carrinha apetrechada para a venda, minimercado ambulante aparelhado de potentes altifalantes, distribui música, engodando os habituais clientes: tornámos à vila. E enquando vamos ouvindo as lamentações do povo da terra, por via do porto - que as obras do Governo Regional melhoraram para pior, tornando o cais quase inoperacional e impedindo por sistema a acostagem do Cruzeiro do Canal ou do Cruzeiro das Ilhas -, aprestamo-nos para o ataque às histórias das fajãs dos Vimes e de São João, ainda a sul, a caminho da ponta do Topo. Vamos de automóvel e subimos a serra por boa estrada alcatroada. À nossa direita vemos e ouvimos o mar, batendo, lá muito ao fundo, numa pequena fajã desabitada, abandonada em ruínas: a da Fragueira. Estão lá, marcados pelo tempo, os restos da casa onde nasceu o maestro Francisco de Lacerda, talento que prestigiou o País pela Europa e pela América.

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Estou a repetir o texto então publicado. Amanhã há mais.)

sábado, 30 de agosto de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas

Aprender dos 92 anos da Tia Maricas que aqueles ares saram maleitas, apaladar a conversa com um gostoso café roubado ao quintal, torrado, moído e coado: tudo na hora, quase, e - insondáveis são os desígnios do Senhor - ao domingo ir à igreja rezar a missa pelo rádio. Milagres das fajãs de São Jorge, nos Açores, paraísos perdidos à beira da desertificação. Ali o tempo não parou. Voltou para trás.

São, ao todo, quarenta e seis. Bordam toda a costa da ilha, mas em maior número na costa norte, mais escarpada. São as fajãs de São Jorge, terras baixas e chãs, de um modo geral formadas por derrocadas de grandes massas ou pela acumulação de materiais de aluvião, ali onde o monte acaba e o mar começa.
Pobremente semeados de casas simples, pequenas adegas rústicas ou palheiros, estes nacos de terreno de excepcional qualidade são um luxo para a vista mas também para os primores da Natureza. Um microclima especial oferece-lhes culturas tão variadas como a da vinha (o singular e controverso vinho-de-cheiro), da batata, da batata-doce, do milho, da banana, entre outros frutos, do inhame, nas encostas, e até do café.
Dois ou três casebres, construídos em pedra solta, quintais em socalcos, aproveitando todas as ribanceiras e os retalhos do solo, uma igreja modesta ou singela ermida, pintam a fajã por sobre o verde luxuriante e imponente da serra e o azul temperamental do oceano. Ambos parecem querer, à uma, engolir aquela indefesa língua de terra.
Parecem retalhos de paraíso, de um paraíso perdido, alheio ainda ao turismo por grosso (para gozo do passante solitário), um espaço esquecido no tempo no meio do arquipélago dos Açores. E, no entanto, são cada vez menos os jorgenses que escolhem a fajã como sítio de vida. O êxodo multiplica-se, as adegas arruinam-se. Sobra um ar de abandono, de vinhas mal cultivadas, de terras deixadas.

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Repito no Tarrenego! o texto então publicado, mas vamos por partes. Amanhã há mais.)

domingo, 16 de setembro de 2012

Fafe já não tem piononos

Foto GASPAR DE JESUS

No monte de São Jorge havia um pionono. E constava que havia outro no monte de Castelhão. Fui testemunha de ambos, embora o segundo possa não ter existido. O pionono, para mim, era uma espécie de meco que ajudava montes de pouca monta a chegarem-se a uma certa altura, a uma altura certa, a um número redondo que desse jeito de dizer. Depois soube do Pio IX, mas nunca percebi a relação, e acho um insulto chamar-lhe marco geodésico. Ao papa.
Assim com maiúscula, o Pionono era exactamente em São Jorge, é justo que se diga. Pionono era nome próprio, sítio, geografia. "Vou ao Pionono". Ia-se ao Pionono. Ia-se aos pinheiros pelo Natal, ia-se aos fentos para o eido ou às giestas secas para espertar a lareira do chão da cozinha, ia-se cagar e ia-se dar umas trancadas, e o que eu gostava da palavra trancadas sem perceber um caralho do que ela queria dizer.
(As giestas também davam umas vassouras de categoria e o Trancadas era um barbeiro mesmo ao lado do tasco do Neca do Hotel, o que se revelava de uma comodidade extrema. Por falar nisso, lembro-me de descer um degrauzinho, mais cá para o centro da vila, ali entre a loja da Rosindinha Catequista e a Cafelândia, mas esse era o Sr. António Grande, o segundo barbeiro do meu padrinho Américo. Eu ia lá com o meu padrinho mais o meu tio Zé da Bomba, aos sábados de manhã, que naquele tempo eram sempre de sol. Lia-se "O Primeiro de Janeiro", mal eu sabia que ainda o havia de fazer. O meu padrinho Américo e o meu tio Zé da Bomba eram irmãos do meu pai, o grande Lando Bomba, e depois foram meus pais, à falta do propriamente dito.)
Hoje os montes de São Jorge e de Castelhão são casas e é o progresso. Fafe já não tem piononos. Mas, dizem-me, tem ainda a "Garrafinha" e historiadores até dar com um pau. Um deles, quem dera que não chova, ainda há-de contar esta como deve ser.

P.S. - Pio-nono será a forma "correcta" de escrever, se nos referirmos ao meco. Mas pionono pode ser também nome de doce muito popular em Espanha, na América Latina e nas Filipinas.