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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Capoeirista, eu?...

Banho de sangue
Mandaram-no fechar a matraca e ele fechou. Fechou também a ponta-e-mola, a borboleta e a porta.

A sério. Não sei se posso ser considerado um verdadeiro capoeirista. A minha mãe mandava-me realmente dar de comer às galinhas e ver se havia ovos, recomendando-me sempre todo o cuidado ao entrar e ao sair do galinheiro, mas será isso suficiente?
E que se segue? O Dia do Capoeirista está aí à porta, e eu, sinceramente, não sei se deva festejar...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Capoeirista.)

domingo, 2 de agosto de 2026

Com cem mil coiotes!

Branca e radiante
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões ela brincava aos médicos. Mas não sei se, hoje em dia, isto se pode dizer.

Conheci muito bem Walt Disney. Ele falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café Peludo, em Fafe. O Sr. Walt Disney, que tinha um bigodinho à Peter Sellers com bigode, isto é, à inspector Clouseau, não só falava muito bem brasileiro como, para mim, era mesmo brasileiro, por isso é que se chamava Walt Disney, nome próprio de jogador de futebol, talvez centroavante, e podia muito bem ter vindo jogar para Portugal, mas parece que não veio. Uma coisa é certa: foi ele quem me apresentou a figuras extraordinárias e tão importantes para a minha vida como o Zé Carioca, o Professor Pardal e o Lampadinha, os Irmãos Metralha, o Tio Patinhas, o Pato Donald e os sobrinhos trigémeos Huguinho, Zezinho e Luisinho, todos também a falarem muito bem a língua portuguesa, quero dizer, o brasileiro, o que me enchia realmente de orgulho.
Tive bons mestres. O Sr. Walt Disney e o nosso Marreca, é esse o nome que trago na memória, esperto alfarrabista das mil e uma coboiadas estabelecido naquele "coté" encravado debaixo das escadas da Arcada, do lado do Club Fafense, minúsculo quiosque de um janelo só que era porta aberta para o mundo. "Mundo de Aventuras", "Condor Popular", "Ciclone", "O Falcão". Luís Euripo, Mandrake e Lotário, Tarzan, Kalar, Cisco Kid, Texas Kid, Kit Carson, Fantasma, Buck Jones, Major Alvega, Matt Dillon e Chester, velhos companheiros de jornada, heróis de trazer para casa. Os livrinhos, depois de lidos e relidos, levávamo-los de volta, para a troca, em perfeito estado de conservação, o que só os valorizava, num sistema que funcionava muito bem, entregávamos, por exemplo, seis e trazíamos, por exemplo, três, o negócio era feito a olho, mas mesmo assim valia a pena, principalmente para o quiosqueiro, isso também era fácil de ver.
Aprendi bastante. Foi por estas e por outras que eu fiquei a saber que forasteiros são pessoas que vêm de fora, no faroeste, e portanto deviam era ser faroesteiros, deve ter havido engano, fiz a proposta de alteração aos dicionários, em devido tempo, mas, como sempre, ninguém me ligou. Foi nestas leituras que eu me enriqueci com expressões tão magníficas e úteis ao nosso dia-a-dia como, para não irmos mais longe, "Por Manitu!", "Saca, cão!" ou "Com cem mil coiotes!", e está é a minha preferida. Nos livros aos quadradinhos, Walt Disney já era a cores e ensinou-me, por outro lado, palavras bem portuguesas e bonitas como cadê, sgrunf!, pilantra e sobretudo carona, de que eu gostava muito, quase tanto como gosto ainda hoje da palavra parreca, que eu já conhecia de ginjeira das nossas feiras e romarias, desde pequenino, parece impossível...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Livro de Colorir.)

sábado, 1 de agosto de 2026

Uma coisa ruim

O estresse
"O estresse provoca o câncer!", não se cansava de repetir o clarividente defensor do acordo ortográfico.

Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Evidentemente eu não posso dizer se Fafe era uma terra mais ou menos hipócrita do que as outras terras, porque eu só conhecia Fafe, mas que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita, disso tenho a certeza absoluta, porque eu estava lá e não sou parvo. Provavelmente Portugal completo era um país um bocadinho hipócrita, se calhar inteiramente hipócrita, mas disso eu não sabia ainda, não fazia sequer ideia, porque, é como digo, eu estava em Fafe, e em Fafe desconhecia-se o mundo abaixo de Arões, sobretudo derivado àquilo de que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Mas, verdade seja dita, éramos razoavelmente felizes e saudáveis.
Em Fafe, por exemplo, ninguém padecia de cancro. Ninguém morria de cancro. Porque em Fafe não existia a palavra cancro. Cancro. A palavra cancro não se dizia. O cancro era crime e castigo. Pecado e culpa. Vergonha, tabu. O cancro estava proibido. Dizia-se que Fulano ou Sicrana tinham - aqui baixando a voz ao nível do cicio, do sussurro, do segredo ao ouvido, do cochicho maledicente, da coscuvilhice beata - um bzzzbzzz. Um bzzzbzzz murmurado com sinal da cruz e tudo. Sim, estava no hospital, no Porto, com um bzzzbzzz, muito malzinha ou malzinho, consoante fosse Sicrana ou Sicrano, Deus lhe perdoe. Muitos fafenses morreram, naquele tempo, com bzzzbzzz, mas nunca ninguém morreu com cancro. E não havia Sicranes. E, aliás, nem se morria, falecia-se, que era uma situação muito mais cómoda, muito menos dolorosa, muito menos definitiva...
E mamas? Mamas, dizia-se. Havia mama e havia mamas em Fafe, embora não fosse geral, como já aqui informei com todo o rigor. Tanto quanto me lembro, predominava um certo convencimento de que as raparigas e mulheres de Fafe possuíam realmente mamas, porém nem todas queriam que isso se soubesse. Mas cancro e mamas ou mama é que nunca poderiam coincidir numa mesma frase: cancro da mama, vamos um supor, seria impossível, desde logo porque é obsceno, e a pornografia constava que era só em Guimarães, e, em todo o caso, como se viu, a palavra cancro não existia em Fafe. Bzzzbzzz da mama, com todo o respeito, até admito que possa ter havia, mas eu nunca ouvi dizer, devo confessar.
E depois do cancro, a sida, a mesma hipocrisia, a mesma pequena hipocrisia, a mesma enorme ignorância. Ignorância e indizível maldade. Naquele tempo, o cancro esteve para a sida como João Baptista serviu para Jesus Cristo, mas não adiantou, ninguém acreditou, essa parte não vinha no catecismo de sacristia, rançoso e cruel, e bondade e compaixão eram apenas palavras da boca para fora. Como bzzzbzzz ou, deixemo-nos de merdas, "uma coisa ruim", "uma doença má", "doença prolongada"...
Assim eram as coisas nos bons velhos tempos, e eu limito-me a contá-las tal qual as sei. Fafe está aqui como mero pretexto, mais nada. Fafe é hoje uma terra completamente diferente e absolutamente igual. Porque Fafe, sendo talvez às vezes uma terra um bocadinho hipócrita, é com certeza e sempre a melhor terra do mundo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cancro do Pulmão.)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

As Turicas e um par de mamas

Poema
Seios
sei-os
ceio-os.

Situemo-nos: Fafe, finais da década de sessenta do século passado. A cidade triste e ausente de hoje em dia era então uma vila buliçosa, boémia e próspera. As Turicas moravam numa enorme e decadente casa aburguesada da Rua Monsenhor Vieira de Castro, mesmo em frente ao Toninho da Luísa, do lado direito de quem desce para o Picotalho ou para a Recta, depois do cruzamento do Santo Velho e, infalivelmente, dos tascos do Paredes e do Zé Manco. Nem cinquenta metros antes, resvés com o prédio do Café Chinês em construção e a longa entrada para a casa das Jerónimas na outra berma da estrada, perigosamente sem passeio, moravam as Grilas. Irmãs, duas, se não me engano, velhas no meu critério de criança, solteironas, desgrenhadas, professoras e misteriosas. Raramente vistas na rua, espreitavam apenas à porta, defendida por um portão baixinho em ferro forjado, e quando meteram telefone em casa ligaram ao meu avô a perguntar se o telefone dos Bombeiros "também tocava em português" como o delas. Que se segue: derivado à proximidade geográfica entre as duas distintas famílias, havia e há quem, mesmo entre os especialistas e seus sucedâneos, confunda as Turicas com as Grilas - o que é uma vergonha e de uma intolerável ignorância numa terra tão prenhe de historiadores e simpatizantes como a nossa.
Mas as Turicas, que foi ao que eu vim. As Turicas também eram irmãs e também eram duas, tanto quanto me lembro. Pequeninas e idosas, talvez surdas, beatas, resmungonas e prendadas para os mais delicados lavores, faziam renda de bilros sentadas num banquinho junto às imponentes portadas que davam para a rua. Rendas de bilros em Fafe, isso mesmo. No rés-do-chão do ancestral casarão, as Turicas entretinham-se com uma loja mais antiga do que elas e que cheirava a um mofo muito bom. Subornada e ensaiada pela Maria Barraca, a moçarada do Santo costumava ir lá espreitar à porta e gritar "Quatro tostões de turicas e o resto de catarruchas!", fugindo depois a sete pés, às vezes catorze.
As Turicas vendiam botões e tafetás, fitas de nastro, fechos, colchetes, linhas, lãs, chitas, agulhas e flanelas, sobretudo monos, tudo armazenado há que séculos numas prateleiras altas, enegrecidas e carunchosas. E davam conselhos. Sorrateiramente, vendiam também vinho ao garrafão nas traseiras do estabelecimento, com vistas para um exuberante quintal sem fundo. Era um vinho muito fraquinho, aguado, "fisga" mas "purinho", como se dizia no nosso falar, e devia ficar em conta. As boas senhoras, certamente latifundiárias não sei onde, mantinham uma criadita que abria a porta a quem ia comprar vinho. E a miúda tinha umas mamas. Uma vez a minha mãe mandou-me ao vinho com dinheiro certo e tempo contado, e eu pedi à rapariga se me deixava apalpar-lhe as mamas numa pressinha. Ela não deixou e eu apalpei. As mamas eram de papel e foi-me um desgosto muito grande. Até hoje.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi Dia Mundial do Bordado. E hoje é, pela primeira vez, Dia Nacional da Vinha e do Vinho.)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Carolino, sempre!

Os amigos são para as ocasiões
Um amigo de infância, em Fafe, mandou-me uma SMS. Dizia-me que precisava de falar urgentemente comigo. Moro em Matosinhos, mas não pensei duas vezes. Nem três. Meti-me no carro e lancei-me na auto-estrada a mais de 180 à hora. Só ao chegar a Arões é que me lembrei que não tenho carro nem sei conduzir...

O Naninho Carolino, que é solteiro militante e uma jóia de moço, chama-se Carolino por causa da avó, que era a Senhora Carolina, casada com o extraordinário Zé de Castro, o nosso poeta cauteleiro, que uma vez mandou a mulher para o hospital com uma sacholada na cabeça, excessos de artista. E teve a sorte de nascer filho da querida São Machica, que era um furacão, e do Sr. Zé Manel, que era um anjo, isso mesmo, um anjo, e talvez também o melhor calceiro de Fafe. Calceiro, para quem não sabe, é o alfaiate especializado em fazer calças. O Naninho, os avós, os pais, os irmãos, o tio Luís Mário, meu amigo, tudo gente de categoria do nosso Santo Velho. De resto, o Naninho até se chama Hernâni Ferreira Castro, pertenceu à ínclita geração dos Sexy Rannas e era um dos heróicos resistentes que iam mantendo viva a Associação Desportiva de Fafe, o seu verdadeiro caso de amor, e digo "era" e "iam" porque, tanto quanto julgo saber, o Fafe faleceu aqui atrasado e agora é outra coisa. E o que é que acontece? Quando se fala em arroz, lembro-me sempre do Naninho a soprar pelo canto da boca ao peidinho do penteado. Carolino ou agulha, eis geralmente a questão, e eu, palavra de honra, não percebo onde é que está a dúvida.
Tomai nota, antes de mais, desta pescadinha de rabo na boca: o arroz carolino é um produto português, nado e criado nos estuários dos rios Sado, Tejo e Mondego, e Portugal é auto-suficiente na produção de arroz carolino. Já o arroz agulha é de origem asiática, quase todo importado. Não vou entrar em contradição com o que já escrevi outras vezes noutros lados, não tenho nada contra o que é estrangeiro, sobretudo se for melhor. Mas a verdade é que, se todos comêssemos do nosso arroz, e nós comemos arroz como se fôssemos chineses, dávamos um bom empurrão aos produtores nacionais e até podia ser que o preço ao consumidor baixasse.
Mas, patriotismos à parte, o fundamental é que o carolino é o arroz ideal para os pratos tradicionais da cozinha portuguesa. Com uma cozedura mais demorada e a exigir maior presença e atenção, é certo, mas mais cremoso e aveludado na calda final, e absorvendo melhor os condimentos e os paladares dos outros ingredientes, o carolino é a base indispensável para os nossos mais deliciosos arrozes, os malandros: do arroz de polvo ao arroz de tomate, do arroz de marisco ao arroz de bacalhau, do arroz de feijão ao arroz de peixe, do arroz de grelos ao arroz de cabidela, do arroz de sarrabulho ao arroz de lampreia, e fico-me por aqui, que isto assim também é um castigo...
Quanto ao agulha, é absolutamente recomendado para quem não sabe cozinhar (por exemplo, os novíssimos chefs do arroz de atum, de lata, que lata!) ou para quem, como agora se diz, não tem tempo para estar na cozinha, que é a mesma coisa.
Portanto: carolino, sempre! E um grande abraço para o Naninho!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Amigo ou Dia Internacional da Amizade. E Dia Mundial do Bordado.)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Moelas de coelho só no Peixoto!

O requinte e o requente
A diferença entre requintado e requentado passa quase despercebida. No arroz de marisco é que se nota mais. E na sanita, consequentemente.

Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, devo informar que ninguém as cozinhava tão bem como o meu amigo Peixoto, em Fafe. Uma verdadeira especialidade! O Peixoto tinha mãozinha amestrada para a plancha e para a cozinha em geral. Eram famosos os seus pregos, em pão ou aos trambolhões, as suas francesinhas chamavam pessoas de fora, o seu marisco, ou "meterial", estava sempre muito bem trabalhado, uma categoria, mas as moelas de coelho suplantavam tudo o que é possível imaginar. Eram incomparáveis, exclusivas, únicas, um pitéu digno de deuses, indesmentível ambrosia do ramo dos salgados e afins. As moelas de coelho e os ovos cozidos, ovos de galo, às vezes, mas que na semana da Páscoa eram evidentemente ovos de coelha, e lá estavam expostos em cima do balcão, com o cu enfiado em sal grosso como manda a tradição, ao lado da terrina das moelas prontas a aquecer.
Eu ia a Fafe e ia ao Peixoto, como se fosse uma religião. A Mi também ia e era muito bem tratada. E o nosso filho foi ensinado a ir ao Peixoto desde pequenino. Quando eu ia lá com amigos, tantas e tantas vezes, geralmente a horas escusadas, o Peixoto perguntava-me sempre pela família e mandava-me trazer "cumprimentos para a esposa e para o menino". E eu trazia.
(E é curioso. Porque, pensando bem, o Sr. Peixoto dispensava-nos, a mim e à minha família, um certo tratamento de excepção, uma gentileza indubitavelmente sincera mas que, na verdade, não era lá muito do seu feitio...)
Pois aqui há coisa de quatro ou cinco anos, talvez mais ou talvez menos, eu e o tempo agora não andamos certos, fui a Fafe e fui ao Peixoto, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. Foi um choque muito grande, uma tristeza que ainda me dói. Porque o Peixoto faz-me falta. O malandro passou o negócio, e decerto encheu-se de massa, mas não me avisou. Na verdade, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição, dizia eu.
Mas lá está, o que eu digo não se escreve, e muito menos em Fafe, a não ser que seja eu próprio a fazê-lo. E portanto cá está.

Por outro lado. A ciência ainda não encontrou uma resposta plausível e, pelo menos, isenta de misoginia acerca de porque é que os ovos de galo são maiores do que os ovos de galinha, mas não é isso que interessa aqui agora. Lembrei-me foi do seguinte: se existe o Dia Internacional do Coelho, que se assinala anualmente no último sábado de Setembro, eu acho que Fafe, pelo menos Fafe, devia festejar o Dia Mundial das Moelas de Coelho, já que as inventámos. E a criação de uma, digamos assim, Confraria Gastronómica das Moelas de Coelho à Moda de Fafe, o seu a seu dono, também não estaria mal vista. A minha terra, diga-se em abono da verdade, é muito dada a isto das confrarias e dos dias internacionais ou mundiais. Lembro-me, por exemplo, que o Dia Internacional do Tigre, que não sei se já tinha sido descoberto para o dia 29 de Julho, era celebrado quando calhava, exactamente no Peixoto, pela madrugada dentro e já com as portas encerradas e vidros tapados. Íamos do Porto, de propósito, eu e a minha equipa, depois do fecho do jornal, e não podia ser de outra forma. O "meterial" era um bom "meterial", mas o molho secreto do Peixoto fazia-o ainda melhor. É claro que estou a falar de camarões, dos enormes, tigres, abertos em dois, grelhados na chapa, e o Peixoto, que me avisava quando os recebia, era realmente um desembaraçado domador. Na hora de pagar, por minha conta e com todo o gosto, lá se ia praticamente a entrada para a compra de uma casa, mas éramos novos e tolos, e o que é que se havia de fazer?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Tigre. E Dia Mundial da Lasanha.)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O esperanto em português suave

A mim ninguém me leva!
Quem frequenta regularmente oftalmologistas, optometristas e oculistas, sabe muito bem: os óculos estão pela hora da morte. Um par de óculos de apenas razoável qualidade custa-nos os olhos da cara. O que se paga por uns óculos dá para comprar um carro em segunda mão. Ou, em alguns casos, até dois carros em segunda mão. E foi o que eu fiz: desisti dos óculos, que a mim ninguém me leva, peguei no dinheiro que lhes tinha destinado e adquiri pela internet uma viatura "em razoável estado de conservação e óptimo consumo". Fiquei muito bem servido. Por outro lado, não sei conduzir, o automóvel nem sequer pega e eu praticamente não vejo.

O turista estrangeiro aproximou-se do vendedor de óculos de sol de beira de praia. Era obviamente um turista estrangeiro, só eu e os turistas estrangeiros é que sabemos malvestir tão bem, nunca me engano a esse respeito. O vendedor de óculos de sol de beira de praia é português dos quatro costados, conheço-o de ginjeira, Verão atrás de Verão, monta banca todos os dias ali em baixo e quando chove é vendedor de guarda-chuvas de beira de praia. É, além disso, ambulante, mas apenas para fugir à polícia municipal, e um grande fala-barato, fala que se desunha, inclusive pelos cotovelos, é um chato, "Olha os óculos, freguês, toalhinha prà praia, olha os óculos, olha a toalhinha, óculos, toalhinha, freguês...", e faz gestos explicativos, como quem comunica com índios ou talvez com surdos. Ele também percebeu logo que o cliente era estrangeiro. Mas pensais que se atrapalhou, que se encolheu? Era o que faltava! Nós os portugueses temos connosco esta habilidade extraordinária de nos desenrascarmos sempre, seja em que situação for, cá em casa, lá fora ou pelo caminho, mesmo debaixo de água ou na estratosfera, aprendemos línguas, copiamos hábitos, camaleonizamo-nos, universalizamo-nos, se calhar nós é que inventámos o esperanto, não foi nada o polaco Ludwig Zamenhof, que por acaso também era oftalmologista. Possuímos, sem dúvida, este superpoder de desembaraço, improvisação e adaptação que tomaram muitos, até os americanos, e que fez dos portugueses assim ditos um povo das sete partidas do mundo por excelência. E nem é preciso ir mais longe: olhemos por nós abaixo, os fafenses, nesta acalorada época do ano, as nossas esplanadas rebentam pelas costuras e a língua oficial é o francês, toda a gente fala francês, mesmo quem não sabe falar francês, e até parece que estamos na Póvoa de Varzim.

Ou por outra. Era no passeio à beira-mar, mas podia ser em Cima da Arcada. Portanto, o turista estrangeiro abeirou-se do vendedor de óculos português e perguntou: - The glasses, how much?... (Estais a ver como eu tinha razão? Era ou não era um turista estrangeiro?).
E foi um clique, um cagagésimo de segundo bastou para que o rapidíssimo cérebro do nosso vendedor português mudasse o chip, fazendo um entre parênteses na língua do Camões e virando-se imediatamente para Shakespeare, para a língua inglesa. Cheio de segurança e enorme poliglotismo, respondeu ao camone, marcando ostensivamente as sílabas no mais escorreito acento oxfordiano: - Quali? Quali qui tu quieres?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi Dia do Esperanto. E hoje é Dia de Levar as Plantas a Passear, palavra de honra.)

domingo, 26 de julho de 2026

Molhar a palavra tem que se lhe diga

Sob pressão
Ele escrevia muito bem sob pressão. Cinco ou seis fininhos bebidos de penálti, e era um Saramago.

"Molhar a palavra" é uma expressão idiomática que significa beber vinho, cerveja ou outra bebida, geralmente num contexto de conversa, convívio ou pausa. É sinónimo de molhar a palheta, acepção eventualmente mais musical, sendo utilizada para indicar o acto de ingerir líquidos no acompanhamento ao sacrossanto paleio. E isto assim dito, tão direitinho, tão dentro dos conformes, tão gramatical, até tem uma certa classe, arremeda talvez erudição, como se falássemos de alta cultura. E no entanto, e era aqui que eu queria chegar, "molhar a palavra" dizia respeito ao povo, era patoá de tasco, conversa nossa, terra a terra, espécie de modo de vida dos simples.
Lá isso era. As pessoas gostavam realmente de dar duas de letra e beber o seu copito entre histórias, para que o discurso fluísse, e fluía. Falava-se e bebia-se como quem não quer a coisa. Quanto mais conversa, mais vinho, partilhava-se, convivia-se, bebia-se mais uma pinga para limpar a garganta, soltar a língua, encarreirar as ideias, "Deixe-me só molhar a palavra, que já lhe conto o resto...", bebericava-se fluentemente.
Porque "molhar a palavra" era praticamente uma ciência, estava a esse nível, tinha solfejo, a sua própria escala. Começava-se por "molhar a boca", iniciação, brincadeira de crianças, e depois era sempre a subir - ou a descer, consoante o ponto de vista. Vinham então, por ordem, degrau a degrau, o "beijinho", o "golinho", o "gole" ou "golo", o "trago", a "golada", a "pescoçada" e o "penálti". Para quem não é destes andamentos e portanto não sabe, "beber de penálti" queria dizer esvaziar o copo ou a garrafa de uma assentada, isto é, emborcar todo o conteúdo de uma vez só, sem interrupções nem juízo, e "mandar uma pescoçada" era beber um grande gole, prolongado mas viável, com conta, peso e medida, um gole de bandeira, degustado, arrebatado, com prazer evidente, levando a caneca ou malga quase até ao fim. O restinho que ficava no fundo, escorropichava-se logo a seguir. Escorropichava-se e, naturalmente, mandava-se encher.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 25 de julho de 2026

Do normal ou do bô?

Buuu!
Tínhamos a bó e tínhamos o bô. Eu e os meus irmãos tivemos bó e bô vezes dois, pela mãe e pelo pai, sorte a nossa! Bozinha era a bisavó, e tínhamos, em Basto, uma, muito velhinha, muito vestidinha de preto, que certa vez deu-me uma batata assada no borralho que era muito saborosa, e é essa a extraordinária memória que guardo dela. Bô, na nossa terra, queria também dizer bom: binho bô; bô moço; estás bô? Depois, se calhar por soar a parolo não sei a que finaços de carregar pela boca, o bô de avô mudou para bu. Bu também mete medo, é susto. Buuu! Mas quem caralho teve a ideia?...

Para mim, e defendo-o de graça há muitos anos, o Minho começa em Fafe e acaba em Santiago de Compostela. E a Galiza também. Isto é: Galiza e Minho são-me o mesmo, chamem-lhe o que quiserem, mas Minho decerto fica-lhe melhor derivado ao rio que nos une. Somos a cara chapada uns dos outros, os minhotos e os galegos destes limites, labregos envernizados, crescemos das mesmas raízes, aprendemos da mesma língua, padecemos ainda hoje do mesmo ancestral atraso de vida, desfrutamos do mesmo amor à comida e à bebida, à água benta e à festa, partilhamos a maneira de falar, cheia de "ches", de "inhas" e de "inhos", de "xes" em vez de "ses", de "bes" em vez de "ves", não raro falamos até o mesmo idioma, consoante os sítios e a idade, repetimos nomes, palavras pândegas, debitamos caralhos atrás de caralhos como não há memória de tanto caralhar noutras latitudes deste mundo e de outros. Nós, os galegos do lado de cá, e eles, os minhotos do lado de lá, assim somos.
Em Fafe e nas terras de Basto chegadas a Fafe falava-se esse conversar comum quando eu era pequeno, aprendi-o naturalmente com os meus avós maternos, em Passos, Cabeceiras, com a minha mãe e com os meus tios. A querida tia Margarida ainda agora o usa a cotio, com uma graça que me encanta e comove, e eu dou-lhe serventia da língua para fora sempre que posso, e hoje em dia, sem obrigações profissionais, posso quase sempre. Este modo de falar faz parte do nosso fafês.
E o fafês é a minha língua. Nasci no fafês, sou do fafês desde pequeninho, agora tanto ou mais do que naquele tempo.

Imaginai então a minha alegria com o que se passou aqui atrasado, numa das nossas habituais saltadas ao lado do Minho a que outros chamam Galiza. Foi assim. Como de costume, aproveitámos para atestar o depósito do carro, ali à entrada de Tui, logo depois da velha ponte de Valença, a chamada ponte rodoferroviária com desenho Eiffel. "Ga-só-le-o!", digo eu ao senhor gasolineiro. E o senhor gasolineiro, nunca tal nos tinha acontecido, pergunta-me sem mais nem menos, como se anunciasse pipa nova: - Normal ou do bô?...
Caralho! "Do bô", o senhor gasolineiro perguntou-me se o gasóleo era "do bô", palavra de honra, "do bô", perguntou, como fosse a minha avó, o meu avô, a minha mãe ou a tia Margarida a perguntar-me. E eu fiquei tão contente, tão criança, de repente tão outra vez abraçado ao avental da minha mãe a cheirar tão bem a sabão e felicidade, a casa, a nós, a Fafe antigo, fiquei tão comovido que quase me descompus. Apetecia-me abraçar o homem...
Por outro lado, o gasóleo era do normal e fedia indecentemente. Mas o senhor gasolineiro perguntou se era "do bô", foi o que ele disse, e disse tão bem, e eu gostei tanto. "Do bô", caralho!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Santiago. E, para a viagem, Dia de São Cristóvão.)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A Milinha Modista

Em zona de construção
Perder a bola em zona de construção é uma chatice. São os taipais, os andaimes, a maquinaria, os buracos, a lama, ferros mais ou menos retorcidos, a obrigatoriedade de uso de capacete, colete de sinalização e botas de biqueira de aço, e ainda por cima é "proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço". Mais vale dizer adeus à bola...

A Milinha Modista era uma instituição no Santo Velho. Chamava-se Milinha Modista, Milinha Costureira ou Milinha Parola, e esta parte do Parola eu nunca percebi porquê, não sei de onde veio, porque a Milinha vestia elegantemente e era uma senhora cheia de classe, sobretudo se não abrisse a boca. Esta Milinha chamava-se estes nomes todos para se distinguir da outra Milinha da nossa rua, a Milinha Vaqueiro, que eu suspeitava, com fundamentadas razões, que fosse dona de uma empresa de margarinas, entre outros negócios mais ou menos secretos. Ela e o Sr. Manuel, o marido, de quem se dizia que era o sapateiro de Salazar e que realmente saía muito, de comboio, com um embrulho debaixo do braço, e voltava uns dias depois carregado de coisas, e sempre se me afigurou um homem misterioso, gentil e triste.

Durante muitos anos eu confundi Agatha Christie com Miss Marple. Quero dizer, a cara de Agatha Christie era, para mim, a cara da veterana actriz inglesa Margaret Rutherford, e só já em adulto é que desfiz o equívoco, perante o verdadeiro retrato da famosa autora de romances policiais, porventura descoberto na badana de um livro. Mais curioso ainda é que, em Fafe, eu mantinha sob apertada vigilância meia dúzia de velhas senhoras que eram Miss Marple de certeza absoluta, por mais que tentassem disfarçar. Senhoras antigas, amiúde intrometidas, vestindo com quase cinquenta anos de atraso, senhoras assim como a minha Milinha Vaqueiro ou como as manas Grilas em dias de maior asseio. Fafe era uma fartura, havia de tudo. Fafe era o mundo inteiro, e essa foi a minha sorte.

A Milinha Modista morava por baixo do Chico Varandas, o herói da nossa rua, o vizinho que uma vez, pelas Festas da Vila, desafiou para a pancada o macaco do Homem Mais Forte do Mundo em pessoa. O prédio do Chiquinho era mesmo encostado à nossa casinha amarela, do lado direito de quem olha para fora. No lado esquerdo era a Milinha Vaqueiro. Os três quintais também eram contíguos e aos olhos uns dos outros. As Milinhas não se davam e a minha mãe é que intermediava.
A Milinha era uma excelente costureira, renomada, muito procurada e disputada pelas mais finas damas da melhor sociedade fafense, que, com excepção da Nicinha, tinham de mandar recado, marcar vez e ir para a fila. A Nicinha, mãe do ilustre Eugénio Marinho, era uma jóia de pessoa e como se fosse família da Milinha.
A Milinha era mestra. E tinha aprendizas. Isto é, aceitava aprendizas, e também era imensa a lista de candidatas e pedidos metidos pelos pais, com recomendações, empenhos, peitas e tudo, mas só três ou quatro, à vez, seriam as infelizes contempladas. Infelizes, de facto. Não eram empregadas nem recebiam salário, pelo contrário, eram crianças e aprendizas para todo o serviço, mulheres a dias, cozinha incluída. E eram também senhoras da limpeza, à força de vassoura, esfregão e espanador, com especial cuidado ao pó sobre os grossos figurinos marcados com nomes, medidas, datas e amostras de tecidos, autênticos calhamaços da penúltima moda criteriosamente dispostos em cima da mesa da sala de entrada. A Milinha era uma mestra enciclopedista, exigente e severa com as suas pupilas.
Na sala de costura, as aprendizas aprendiam sentadas em banquinhos ou cadeirinhas de madeira e infantário, trabalhando em cima de uma tábua ou prancha tenteada em cima dos joelhos, uma tábua ou prancha digamos, hoje em dia, ergonómica, com recorte em meia-lua para a reentrância da barriga, e que decerto até teria nome técnico mas eu não sei qual. Na cozinha, as aprendizas cozinhavam todos os dias na máquina a petróleo e faziam pelo menos uma vez por semana fanecas fritas com batatas fritas, um oxímoro culinário, a bem dizer, cozinhavam mas não comiam, e sei disto tudo porque era visita regular talvez para recados e porque a minha irmã Nanda também por lá andou, coitadinha, antes de ir para a Fábrica do Ferro, que, por estranho que possa parecer, foi a sua salvação.
A Milinha era "dos do Santo", irmã do Sr. José e do Sr. António, lavradores filósofos e meus mestres de vida, e tia do David Alves. Tinha um feitio desgraçado, a mulher. Mal ouvia uma bola a pinchar da rua, saía como um raio de tesoura de costura em riste, a tesoura maior, de corte, e com metros e metros de caralhadas na ponta da língua, ameaçando estraçalhar o esférico à menor tangente, à mínima corrente de ar que sentisse ou adivinhasse junto aos seus vidros, pelos quais nutria uma estima que efectivamente só vista. Se por acaso me descortinava lá no meio da moçarada e do jogo, eu a tentar esconder-me, a Milinha ficava um tudo-nada constrangida, notava-se, mas o que estava dito, estava dito, virava costas e ia para dentro, não sem antes nos lançar um derradeiro e definitivo - Fodei-vos!...

A Milinha adorava-me e eu gostava muito dela. Convidei-a e ela compareceu ao meu casamento, no Porto. Quando, nos anos seguintes, a minha mulher e eu íamos a Fafe, e íamos frequentemente, não tornávamos a casa sem antes passarmos pelo Santo e visitarmos a Milinha, que nos recebia cheia de orgulho e com uma alegria imensa, sentando-nos à volta da velha mesa dos antigos figurinos. A alegria era recíproca, nós também tínhamos muito gosto em estar com a Milinha. Uma vez, nesses reencontros, estive para lhe explicar que fanecas fritas com batatas fritas não é coisa que se faça, mas contive-me e preferi falar do tempo, que estava um rico dia. Fiz bem. Às tantas, ainda era corrido à vassourada...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Alfaiate e da Modista.)

Os tirones de Fafe

Diz-me o que vestes
A forma de vestir diz tudo acerca das pessoas. Vejamos, por exemplo, os nudistas.

Um homem saía de casa com fato novo, sapato engraxado, talvez flor na lapela e até chapéu, que eu ainda sou desse tempo, e na rua diziam-lhe - Eh pá, estás todo tirone! E quereis saber? Era um elogio, melhor cumprimento era impossível para começar bem o dia. Falava-se assim em Fafe, mas este aqui não era um falar exclusivo nosso, fafês autêntico, seria, antes, de uso particularmente nortenho, isso estou em crer que digo bem.
O termo, tirone, remonta certamente a meados do século passado e virá do cinema, do famoso e elegantérrimo actor americano Tyrone Power, que fazia então um enorme sucesso sobretudo entre o público feminino. A estrela apagou-se, o galã acabou por desaparecer, mas ficou o nome, a alcunha, esta espécie de adjectivo a calhar tão bem aos vaidosos sessentões fafenses, tirone, sinónimo de elegante, bem-posto, aprumado, chique, catita, peralta, peralvilho, casquilho, janota, pimpão, boneco, emperiquitado, dândi, indivíduo bem vestido com o seu quê de preciosismo, bem ajambrado, que veste à moda, nos trinques, como se diz agora no português das telenovelas brasileiras.
Em Fafe, naquele tempo, as pessoas ricas vestiam muito bem. Ou então as pessoas ricas vestiam bem em todo o lado, mas eu não sabia, porque eu só conhecia Fafe e, como mundo, Fafe bastava-me. A minha mulher ri-se quando repetidamente lhe conto, com todos os pormenores e mais um, como as pessoas ricas de Fafe vestiam bem, os casacos assertoados ou em tweed ou em linho, os blazers azuis, as calças em lã, com pinças e dobra em baixo, muito vincadinhas, ou em terilene cinzento, que era uma novidade, as camisas triple marfel, os sapatos italianos clássicos, com sola alta de Inverno e com sola baixa de Verão, os sobretudos impecáveis, esculturais, colados ao corpo, as gabardinas double-face, o guarda-chuva irrepreensivelmente enrolado, londrino até dar com um pau, porém comprado na selecta Chapelaria Antunes, e os lenços e as gravatas e os perfumes e a cigarreira e o isqueiro pelo menos de prata e às vezes a boquilha, eles realmente todos tirones, como mandava o figurino, e nós de calças de cotim remendadas no cu e nos joelhos, os pés arrastando chancas e uma vergonha enorme de sermos pobres.
Regra geral, os homens de Fafe eram uns fidalgos, por assim dizer ou parecer, pelo menos aos domingos, feriados e dias santos, casamentos, comunhões e baptizados, ida às sortes, idas à feira, visitas à madrinha, idas às putas, excursões a Fátima e ao Portugal dos Pequenitos, e muito particularmente, por maioria de razão, nos 16 de Maio e pela Senhora de Antime. Aí então, não é para os gabar, apresentavam-se com todos os matadores e roupa geralmente a estrear.
É preciso que se diga que Fafe tinha uma colecção de alfaiates de altíssimo coturno, e espero falar deles com mais vagar um destes dias. Os nossos tirones iam ao alfaiate, tinham alfaiate privativo, escolhiam modelo, cor e tecido, e vestiam-se por medida. Mas não iam à Riopele comprar o corte, atenção, isso era para os remediados. Por outro lado, os fatos prontos a vestir chegaram às excelentíssimas Lobas já em plena década de setenta, eram Corte Inglés, eu bem lhes namorava a montra, como boi olhando para palácio, mas aquilo também ainda não era para nós. Nem para os tirones fafenses, que, classe acima de tudo, continuaram a preferir a exclusividade, o serviço personalizado e impecável da nobre alfaiataria local, honra lhes seja. Só depois é que vieram as calças vermelhas, os pulôveres cor-de-rosa ou amarelos pelos ombros e os sapatos com berloques. Isto é, o betismo...

Em todo o caso, Tirone também foi um nome regularmente usado em Fafe para cães. Mas, quanto a isso, não sei que diga.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Alfaiate e da Modista.)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Cogumelos e outras alucinações

Regresso às raízes
Chegou à idade, meteu os papéis, reformou-se e resolveu voltar às raízes. Mandioca, cenoura, beterraba, batata-doce, inhame, gengibre, nabo, rabanete - à base disso.

Falava-se de cogumelos à porta do café. Os montes e bouças da zona são dados à fungaria, apanhada por quem quer e vendida por bom preço. Faz jeito o livre empreendedorismo: por falar em cogumelos, a rapaziada da terra fuma por ali a céu aberto umas coisas todas bem dispostas que também não devem ser baratas. Uma mão lava a outra, como se costuma dizer, e é a vida.

Dei-lhes valor. Saber de cogumelos não é para qualquer um, e aqueles jovens pareciam saber mesmo do que falavam, e quanto mais mágicos ou psicadélicos, certamente melhor. Lembro-me da Bó de Basto, que era uma especialista muito procurada, sabia muito bem distinguir os venenosos dos comestíveis, que trazia para casa na abada do velho avental e que depois aparava e assava, a meio da tarde, nas brasas preguiçosas da lareira, só com uma mancheia de sal grosso por cima. E uma malga de vinho, evidentemente.
Em Fafe, no tempo em que Fafe tinha montes, os mais antigos dos antigos, gente do campo, também conheciam cogumelos e sentieiros, mas só eles. E a minha sorte é que foi por aquelas cozinhas que eu me criei.

À porta do café, dizia, falava-se de cogumelos. Eram três entendidos. O dono de um daqueles extraordinários telemóveis que têm outro nome e são de esfregar com o dedo como quem acende um fósforo sem cabeça, dá-me lume faxavor?, mais dois compenetrados e doutos colegas. No ecrã do aparelho passavam-se decerto pequeninas imagens e pertinentes informações micológicas, eles de cabeças juntas - porque duas cabeças pensam sempre melhor do que uma, e então se forem três é como se fosse um cientista - e um explicava este é "mediúcre", mas tens a certeza que é "mediúcre" perguntava o outro, é "mediúcre" de certeza absoluta, diz aí em baixo "mediúcre," então não se vê logo que é "mediúcre", sentenciava o que estava para não entrar pessoalmente na história, mas resolvi dar-lhe esta oportunidade de carreira.
O meu telemóvel é um telefone e foi por causa disso que o comprei. Para fazer e receber chamadas. Portanto só quando cheguei a casa é que pude vir aqui ao ilustre computador procurar os cogumelos de raça "mediúcre". Ou da espécie "mediúcre". Ou marca "Mediúcre", com 25 por cento de desconto em cartão. Não encontrei. Mas fiquei a saber que, tecnicamente falando, haverá cogumelos mortais e cogumelos tóxicos, cogumelos aptos para consumo ou cogumelos não aptos para consumo, cogumelos excelentes ou cogumelos... medíocres. Medíocres! Então era isso que a moçarada queria dizer. Medíocre.
Os rapazes não têm culpa. Eles fumam umas coisas e até sabem de cogumelos, honra lhes seja! Mas ouvem na televisão os doutores e governantes a encheram a boca de "mediúcres" e "periúdos" e acreditam que é assim que se diz. Mas não é. Na verdade, nada é como os doutores e governantes dizem na televisão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Comida Não Saudável.)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

As couves da Dona Maria Margarida

Se um elefante
Aproveite o Dia Mundial do Elefante, que é em Agosto. Pegue no seu, tire-o da sala, faça-o sair de casa, leve-o a apanhar ar, a dar um passeio, a ver as montras. O dia é dele, caramba! Deixe-o entrar numa loja de porcelanas. Os elefantes adoram.

Do outro lado da minha rua havia uma daquelas pequenas lojas tipo "regional gourmet". Azeitonas em frasco, cogumelos em frasco, meles em frasco, geleias em frasco, licores em frasco, frascos em frasco, dois presuntos em fraco, azeites e vinhos em caro, prateleiras de pele e osso. Num benévolo gesto de boas-vindas, mal abriu o estabelecimento fui lá cheirar e avisar que o conceito é uma treta e que gourmet a sério é em minha casa, mesmo em frente, porque aqui a comida é muito boa, sou eu que faço, e gourmet deveria ser isso, mas não estamos abertos ao público. O gourmet - a ver se eu me sei explicar - quer-se da boca para dentro e não da boca para fora.
Estas lojinhas abrem mas não vendem, não entra quem compre. Abrem por abrir. E sobretudo fecham. Fecham muito bem. São "regionais" porém franchising, very tipical e very vazias, de produtos e clientes. O toque de "qualidade" é dado em palavras "estrangeiras", o que só abona a favor do produto made in Portugal. A loja da minha rua tinha primeiro uma menina, que passava a vida na ombreira da porta a fumar, a fumar, a fumar. E de repente hibernou. A loja. Mês e meio depois reabriu, já sem a menina mas com um rapaz. Que passava a vida na ombreira da porta a fumar, a fumar, a fumar. Nas costas, os dois presuntos pendurados numa espécie de cabide tisicavam e agradeciam - e assim se produz o genuíno fumeiro nacional.
Andou-se uma semana e a lojinha encerrou de vez: veio uma carrinha limpar as escanzeladas prateleiras, três sacos de plástico bastaram e lá se foi mais um posto de trabalho, por assim dizer, que é o que a mim me importa e o que, a sério, lamento. Fico infeliz por ter razão: o conceito era realmente uma treta. Esta gente não sabe o que é massa com bacalhau e o prato a esbordar...

Entretanto. Antes e depois da sua lastimável fase "regional gourmet", a lojinha do outro lado da minha rua foi quase tudo, por breves períodos e com fracasso garantido, isto durante mais de vinte anos. Butique de média costura, sapataria fina, loja de animais, bijuteria e outras inutilidades, escritório, despensa, garrafeira e outros souvenirs, recepção de alojamento local e até agência de viagens que nunca abriu, mas a mim cheirou-me sempre ao mesmo: lavandaria de dinheiro.

Nem de propósito, a lojinha foi depois um posto de lavagem self-service para cães. E na porta ao lado abriu um estabelecimento para venda de "cannabis legal" e outros "produtos derivados de cânhamo", como, por exemplo, "creme de avelãs para barrar". Reconheci a mudança de paradigma: eram dois negócios com irreprimíveis potencialidades. Via-lhes futuro. Principalmente ao dos cães, porque nasceu no tempo e no país certos. Um tempo e um país em que os animais são de estimação, mas as pessoas não. Já quanto à canábis, vamos lá ver: não sei se o pessoal aqui da zona não andará de momento mais interessado em algo, como é que se diz, mais pesado e ilegal, mano.
Mas o posto de lavagem self-service para cães também fechou. O espaço voltou a estar uma longa temporada em pousio e é agora uma lojinha de artigos de decoração, bem bonitos, por acaso com muito bom gosto, e ainda não sei o que vai ser a seguir.
Estas coisas passam-se à minha volta, e eu dá-me para ter saudades de Fafe e daquele tempo em que as lojas eram para toda a vida, eternas pelo menos enquanto duravam. A Chapelaria Antunes, os Armazéns Cunha, o Rates, o João Carlos da Conceição, a Loja Nova, a Loja dos Retalhos, a Singer, as Lobas, o Martins da Avenida, o Américo das Bicicletas, o Mário da Louça, a Electra, o Rabeca, as Turicas, o Peludo, o Zé da Menina, estabelecimentos paleolíticos, tradicionais, fiéis às pessoas, ainda lá estão ao dispor, fantásticos e irredutíveis, só não os vê quem não quer.

Já sabeis. Sou de Fafe e sou da terra. Mas moro em Matosinhos há muitos anos, junto ao mar, encostado à famosa zona dos restaurantes e marisqueiras, aos fogareiros de assar peixe que se acotovelam porta a porta. E pensava que não lembraria ao diabo o próprio diabo estabelecer-se aqui no meu território com uma dessas autoproclamadas hamburguerias gourmet, mas a alguém lembrou. Quando, ainda de vidros tapados, vi cá fora os letreiros, pensei: isto nem sequer vai abrir. Mas abriu, e tornei a pensar: daqui a quantos dias é que isto vai fechar? Porque a verdade é esta: não sei o que tenho, mas o gourmet não se dá à minha beira, e juro que a culpa não é minha. Evidentemente não o frequento, mas, tirando isso, mais nada.
Fui espreitando os desenvolvimentos. As única vezes que vi "clientela" lá dentro, os "clientes" eram o pessoal da casa, à mesa, comendo a sopinha. Até que um dia, talvez nem um mês decorrido, fatal como o destino e com ponto de exclamação e tudo, lá estava afixado o aviso na porta fechada: "Trespasse!"
E foi o fim.

Sinais dos tempos. E é geral. Tudo se perde, nada se transforma. A proximidade agora chama-se E.Leclerc, Intermarché, Continente, Auchan, Lidl, Aldi ou Pingo Doce, e o que mais há-de vir por aí, pelo menos enquanto couber, porque não somos menos que os outros - ou, como diz o povo, ninguém diga que está bem. Fafe, a terra da melhor vitela assada do mundo, do bolo com sardinhas fritas, da punheta de bacalhau e do anho pela Senhora de Antime, aderiu ao workshopping, ao showcasing, ao showcooking, à street fooding e evidentemente ao brunching, ao gourmeting e ao sunseting. Fafe até já tem o seu próprio McDonald's, ainda por cima num terreno que, no tempo da Dona Maria Margarida, dava umas couves que eram uma categoria. Quer-se dizer: é só prejuízo...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Rabichas, foguetes e foguetões

Cheira a Natal
Já cheira a Natal - alguém disse. Ele, atrapalhado, explicou - Não fui eu.

Não sei se vos lembrais: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica, e creio que ainda é, embora já não exerça por razão de força maior. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se entre nós como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem. O primeiro passo de Neil Armstrong também deu na televisão e, eu bem vi, a Lua era em câmara lenta.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão - na televisão evidentemente a preto e branco do café Peludo - que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como o velho comboio Porto-Lisboa que era praticamente um luxo e chegava aos cem à hora. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por cá se chamavam. Foguete. E outro especialista em foguetes e apetrechos correlativos era o nosso Rates, raríssimo cromo de almanaque. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo, coisa gasosa, eventualmente sonora e, por norma, fedorenta. Quer-se dizer: um peido, uma bufa, um traque, um flato, uma farpa, um pum, com vossa repetida licença, e isso já seria matéria da alçada do nosso Moisés...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Lua. E Dia Internacional do Xadrez. E Dia do Amigo.)

domingo, 19 de julho de 2026

De bucho cheio

Pela família, tudo!
Convidou a parentela considerada mais próxima, vinte pessoas e treze crianças. Marcou restaurante para as duas em ponto. Encomendou azeitonas, bacalhau assado no forno e tripas à moda do Porto, bebidas e sobremesa à escolha de cada qual. Pediu pratos de plástico, copos de plástico, talheres de plástico, correntes de ar, moscas e se possível formigas. Era a sua vez de organizar o tradicional piquenique de família e ele queria tudo como deve ser.

O bucho é muito importante. Alguns dirão, discordantes e escatológicos, eventualmente especulativos, que o bucho é uma merda, falso e impante, como se tivesse o rei na barriga, e vai-se a ver são gases. Respeito as opiniões. Eu, porém, cinjo-me aos factos, e não há muita volta a dar. E o que sabemos e está provado é o seguinte: o bucho é tão importante que até tem dia internacional. Exactamente. O dia 24 de Outubro, por acaso também adstrito a outras celebrações talvez mais atinadas, é Dia Internacional do Bucho. Pelo menos no Brasil, que tem dias para quase tudo, até tem o Dia do Pirulito, mas não é por aí que vamos agora. Assim simplesmente chamado, bucho, o bucho é bucho de porco. E que mais? O bucho serve para a nossa alimentação, como se dizia antigamente nas redacções da escola primária, e reconheço-o arranjado de três maneiras diferentes. Estufado como se fosse tripas, isto é, dobrada, mas sem outro acompanhamento senão o molho, tipo moelas nomeadamente de coelho. Recheado, como no Florêncio, em Guimarães, mas aviso já os principiantes que pode ser uma tremenda desilusão e uma despesa escusada e chorada. Ou com molho verde, como eu prefiro guiá-lo cá em casa, embora já não o faça há muito tempo.
A solo, como petisco, para picar, o bucho nunca foi presença habitual nos balcões e escaparates das casas de pasto fafenses. Os nossos tascos, cafés, restaurantes ou pensões, que eu me lembre, que eu tivesse alguma vez provado, nunca estiveram para aí virados. Moelas, iscas de fígado, polvo em molho verde, codornizes, ovos cozidos, filetes ou postas de pescada frita, sardinhas e fanecas fritas, bacalhau frito, pataniscas, bolinhos de bacalhau, punheta de bacalhau, chicharro de cebolada, chispe ou rabo do porco, até ossinhos da suã, isso sim, eram o pão nosso de cada dia, urbi et orbi, mas bucho não, pelo menos não tenho na ideia. Talvez, por extravagância, possa ter acontecido, uma ou outra vez, aqui ou ali, sem o meu conhecimento, sem a minha autorização, mas é como digo, senhor doutor juiz, com os meus olhos eu nunca vi.

Quem lhe dava bom uso, ao bucho, era a querida Tia Laura, que era uma cozinheira de mão-cheia e fazia uma feijoada com tripas de porco tão extraordinária e constada que até os sinos da Igreja Nova tocavam à hora certa só para avisar que a comida estava pronta, meninos à mesa! As "tripas" tradicionais, com sola e folhada de bovino, também lhe saíam às mil maravilhas, e não apenas sete, aliás tudo em que as mãos da tia tocassem, na cozinha, nem que fosse batatas cozidas com bacalhau, transformava-se imediatamente em ouro, era de comer e chorar por mais, de lamber o beiço e ver estrelas. Isso, estrelas, disse bem.
E a Tia Laura guardava sempre um bocadinho para mim, contava sempre comigo após as refeições. Logo desde o princípio, quando casou com o Tio Mérico, e começou, ipso facto, a ser minha tia. Era ainda o tempo da Bomba, eu rapazito mas nunca faltava, e havia um mosqueiro na cozinha, logo à entrada, no canto do lado esquerdo, quem ia por dentro, quase em cima da banca. Mosqueiro, para quem não saiba, era um pequeno armário feito em madeira e com portinhola de rede fina, colocado na parede geralmente ao nível dos olhos de um adulto, e servia para guardar alimentos já cozinhados, mantendo-os arejados e, principalmente, protegidos das moscas. Era desse cofre-forte de miminhos requintados que a minha tia retirava, mal eu chegasse, e só nós dois, um bolinho de bacalhau, um taquinho de bacalhau frito, um filetinho de pescada, duas ou três sardinhinhas, um toquinho de frango ou uma mãozinha de coelho, um rojãozinho, umas lasquinhas de vitela, o que fosse naquele dia, e, apanhando o meu avô de costas, punha-me também uma pinguinha. Eu, valha-me Deus, ficava no céu!
Quando os tios foram para o Lombo, eu segui-os, evidentemente. Era já adulto, passara pelo seminário e pelos Comandos, trabalhava na Marigam, namorava no Porto aos fins-de-semana, mas o meu bocadinho e a minha malguinha estavam sempre lá à minha espera. Quando a Tia Laura fazia a famosa feijoada com bucho e tripas de porco, coisa rara, é verdade, mas creio que geralmente à quarta-feira, ao almoço, no anexo multiusos, garagem, cozinha rústica e salão de refeições, convidava-me de véspera, e isso, na nossa família, era uma distinção inigualável, uma quase medalha, uma coisa, enfim, para ser levada muito a sério, e não se fala mais nisso, senão ficamos todos a chorar...
E eu ia. Dos Fiéis de Deus ao Lombo e vice-versa, sempre a dar-lhe, a penantes, que é a única carta de condução que tenho, ainda hoje, aproveitando todos os atalhos e a inexistência de semáforos, saindo um bocadinho mais cedo do trabalho, chegando um bocadinho mais tarde, a suar por todos os poros, por todos os lados, feito num oito, com os bofes de fora, no limiar da congestão, nem sei como nunca morri e mais do que uma vez. E, no entanto, morreria satisfeito.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Mostrar a Língua, outra especialidade...)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Que é feito do chi-coração?

Cuidado: frágil!
Éramos de abraço apertado, em Fafe, naquele tempo. Éramos rijos, feros e valentes, como então se dizia, mas de chi-coração. Agora querem-nos de abraço apartado, por confusão ou ignorância, parolice ou paronímia, têm talvez medo que a gente se escangalhe.

Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos factos, dos afectos, dos carinhos. Reparai. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Os beijos e os abraços faziam-se, realizavam-se, levavam-se a cabo, cumpriam-se. E éramos de abraço fácil. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. Prometem-se, ficam no ar. O gesto ancestral e puro, carnal, verdadeiro e consequente, foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - ao simulacro, à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", muha!, dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, empiscamos, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Emoji.)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Quando os médicos fumavam

Impressionante!
É impressionante a quantidade de gente que se junta à porta do IPO-Porto para... fumar. À porta do IPO, Instituto Português de Oncologia. Para fumar. Impressionante...

Sou do tempo em que os médicos fumavam. Fumavam durante as consultas, quero dizer, ostensivamente, abundantemente, como chaminés, cigarro atrás de cigarro, cinzeiros cheios, dedos castanhos de nicotina, auscultavam, palpavam, mediam a tensão, espiavam as costas, espreitavam os olhos, os ouvidos e a garganta, martelavam os joelhos, desciam aos tornozelos, engasgavam-se no fumo, tossiam e lançavam cinza para cima do paciente, mas o Dr. Antunes não, o nosso bom Dr. Antunes fumava cachimbo, exibia aliás uma pequena colecção de bonitos cachimbos em cima da secretária de trabalho no consultório da Rua General Humberto Delgado, por baixo da residência, ao lado da loja do Nélson, que tinha uma voz mansa e vendia electrodomésticos. Com o Dr. Antunes, em Fafe, era realmente outro asseio, outra categoria.
E que se segue. Os médicos fumavam e isso, a mim, parecia-me bom sinal. Eu acreditava na imortalidade dos médicos e na santidade dos padres.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 14 de julho de 2026

As lambanas

Atrás de um grande homem
Atrás de um grande homem às vezes vem a polícia.

As lambanas são pequenas fadas aladas, parece que vindas da mitologia filipina. Lambana é também, como acabo de descobrir, nome de um resort na Índia. Em Fafe, porém, lambana era o feminino acusativo de lambão, portanto queria dizer o mesmo que lambona ou lambareira, talvez com um significado mais abrangente e desdenhoso. Mas era lambana que dizíamos, é lambana que eu ainda digo. Lambana. Comilona, glutã, gulosa, tolinha por doces ou simplesmente açúcar, larpeira, alarve, egoísta, regalona, interesseira, invejosa, sovina, açambarcadora, lavajona, sebastião come, tudo, tudo, tudo, mas em sebastiana. "Fulana é uma lambana", "És muito lambana", "Naquela casa é só lambanas". A lambana, as lambanas. Mas cuidado, muita atenção: é preciso não confundir lambanas com begueiras. As begueiras, que também as há, são outro assunto.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 12 de julho de 2026

Os dias da Senhora de Antime

Anjinhos, não!
Deveria querer dizer alguma coisa a nosso respeito, agora que penso nisso, mas não sei se diz. Já reparastes, certamente. Não há procissão no mundo que leve e chame tanto povo como a procissão da Senhora de Antime, em Fafe. Um mar de gente, povo atafulhado, a rebentar pelas costuras, sem espaço sequer para descruzar os braços e coçar repentinas aflições. Isso, povo em barda e de todos os feitios. Nós. O povo da terra, inteiro e simples, ali na procissão como na vida. Povo, povo, povo. Mas anjinhos, não...
 
Mete-se o mês de Julho, chega o calor, e Fafe vive os seus dias mais extraordinários. É tempo de Senhora de Antime. São as Festas de Fafe, que já foram da Vila, do Concelho e da Cidade. Os senhores da Câmara podem chamar-lhe o que quiserem, e até já lhe chamaram "certame", santa ignorância, mas toda a gente sabe que é a Senhora de Antime e o resto é conversa. Toda a gente, quero eu dizer, os fafenses do rés-do-chão, o povo, que é quem realmente sabe das coisas. Lá em cima, há evidentemente uma "organização", que antigamente era comissão de festas, e a "organização" apresenta um programa com muitos bombos, cabeçudos e gigantones, bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, fado de Coimbra, nunca percebi porquê, e um considerável naipe de artistas mais ou menos musicais, à dúzia, de dentro e de fora, do TikTok e da televisão, famosos regra geral, excelentes às vezes, para quase todos os gostos. Três ou quatro desses artistas, a "organização" é que escolhe quais, são anunciados como "cabeças de cartaz".
A Senhora de Antime, no entanto, é a procissão. E isto é tão básico, valha-me Deus! Há séculos que o digo, mas afinal não adianta: a procissão é que é cabeça de cartaz das nossas festas. Domingo, o segundo domingo de Julho é a Senhora de Antime, a Senhora de Antime é esse domingo exacto, o nosso domingo mais fafense, o domingo mais esperado do ano. O dia único de ir "ver a Senhora", que coisa tão linda de dizer! O domingo da procissão que me leva às lágrimas, que quase me sufoca num soluço sacrista, palerma, aperto a mão da Mi, que já sabe do que a casa gasta, despejo a água dos óculos, de sol, para a próxima trago óculos de mergulho, rio-me desajeitadamente para o Kiko, com legendas de cinema mudo, não ligues, filho, é a velhice, não vem mais vinho para esta mesa. O Kiko sorri, faz sinal que percebe, que me compreende, parece que me promete um abraço para melhor altura. Tem razão. A Senhora está mesmo à nossa frente. Foi ao cabeleireiro, penso todos os anos, e aproveito para recompor-me. Não tem nada a ver com fé, religião ou família, é sentimento, fafismo tão-somente, fafismo puro e duro, e fafismo não se explica, vive-se, e nem é preciso ter nascido em Fafe para sentir fafismo, também dou isso de barato.
A procissão é que é. A procissão e a explosão do encontro das duas senhoras, das Dores e da Misericórdia, no Lombo ou na Ponte de São José. A sirene que toca à tradicional paragem dos dois andores no cruzamento do Santo Velho, junto ao Palacete, o nosso sítio combinado, como se os Bombeiros antigos ainda ali estivessem ao pé. E a sirene não toca, é um pranto. As pombas largadas e atordoadas e os salamaleques e foguetes excessivos e emproados à porta dos Paços do Concelho.
A procissão da Senhora de Antime, costumo ensinar a quem não sabe, é provavelmente a melhor procissão do mundo e certamente uma das maiores do mundo. Alguns palavrosos chamam-lhe até "Majestosa Procissão", mas ela é tudo menos majestosa. É popular, é simples, espontânea e incomensurável - a olhos de fora, impreparados, poderá até parecer desorganizada, mas não. É o povo que desce inteiro com as duas senhoras até à vila a que agora chamam cidade, não vejo com que vantagem. O povo de pé-descalço e bico calado, respeitoso, talvez com um flor nos lábios fechados para garantir fidelidade ao silêncio juramentado. Milhares de pagadores de promessas furando em marcha lenta pelo meio de milhares e milhares de devotos de bancada, apreciadores, preguiçosos, retardatários, ressacados, curiosos ou simples mirones, famílias inteiras, reunidas, carteiristas, apalpadores e empernadores que se atravancam nas beiras da estrada e nos passeios das ruas. É uma procissão tremenda e comovente, multitudinária e única, uma procissão a sério - A Procissão -, como tenho a mania de explicar aqui aos meus vizinhos que ficam banzados com a meia dúzia de almas penadas e a dúzia e meia de figurões autárquicos e outras autoridades civis, militares e religiosas, assim catalogadas, que todos os anos acompanham a imagem do Senhor de Matosinhos pelas ruas desta cidade que me acolhe, num deserto que só visto.
A procissão da Senhora de Antime é que é. Por mais dias que metam nas festas, por mais estrelas que chamem ao palco, a procissão será sempre cabeça de cartaz. Em Fafe, ano após ano, a Senhora é que arrasta multidões.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é dia da Senhora de Antime.)

O melhor dia do anho

É preciso ter lata
O confinamento da pandemia fez dele um verdadeiro especialista em atum, preparando-o para toda a espécie de apagões. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

Quatro ou cinco dias antes do domingo da Senhora de Antime, que é o segundo domingo de Julho, um pastor mailo seu rebanho davam entrada no largo do Santo Velho, mesmo em frente a nossa casa, e ali se estabeleciam, montando pasto, posto de venda e açougue, até que o último anho fosse despachado, isto é, até ao extermínio total. O pastor tinha cajado de pastor e cão de pastor, mas não era um verdadeiro pastor, era um senhor creio que da Rua de Baixo ou Santo Ovídio com faro para o negócio e habilidade para matar cabritos. Só era pastor, quer dizer, cabriteiro, naquela época do ano. E o rebanho também era um falso rebanho, os animais não se conheciam de lado nenhum, juntavam-se apenas para aquilo, naquela ocasião, mal eles sabiam com que fim, eram recrutados nos lavradores das redondezas e levados ao engano e ao altar do sacrifício, quer-se dizer, ao forno do fogão a lenha, de preferência, com batatinha dourada e arroz seco e solto, tudo muito bem comido e regado, na mesa grande e em família alargada, logo a seguir à procissão mas sem pressas. O fogão era amiúde na vizinha, por favor, bastava ir lá às horas certas para dar as devidas voltas à pingadeira.
Antes que me esqueça, para os de fora: o cabrito, generalizemos assim por bondade, era e suponho que ainda é o prato oficial das Festas de Fafe, isto é, da Senhora de Antime. O que não deixa de ser irónico, na terra da vitela assada. Naquele tempo, o cabrito entrava em nossa casa apenas uma vez por anho, e, é preciso que se note, em anhos bons...
No Santo Velho acontecia tudo, o Santo era um largo multiusos. Portanto também servia de matadouro e talho, escancarado e a céu aberto. O Santo era o centro do mundo. Os clientes vinham de toda a parte, da Feira Velha, da Fábrica do Ferro, do Retiro, da Ponte do Ranha, da Fonte da Cana, de onde calhasse. As pessoas escolhiam o animal que queriam levar para casa, maior ou mais pequeno, vivo ou morto, como os bandidos procurados no Velho Oeste americano. O peso e o preço eram combinados a olho, entre vendedor e comprador, e mais tarde eventualmente ajustados, coisa de nada, após pesagem da carcaça numa balança de mola propriedade do magarefe e viciada com toda a certeza.
Se era para seguir cadáver, o bicho morria logo ali, encostado ao muro do quintal da Senhora Carolina, avó do Naninho. O matador tinha um tenebroso conjunto de facas ou navalhas de diversos tamanhos e feitios, mas todas muito bem afiadas. E tinha também um pequeno tubo de cana que usava para, soprando-lhe do fundo da alma, com a cara a passar perigosamente pelas três cores dos semáforos, amarela, verde e vermelha, por esta ordem, inflar grotescamente a pele do animal, separando-a da carne e dobrando-lhe o tamanho, aquilo tudo quase a rebentar, o homem e o odre, cuidava eu, e era realmente uma coisa extraordinária de se ver, para depois proceder à esfola, facilmente, com uma perna às costas, como quem limpa o cu a meninos. E antes assim.
Era uma mortandade que só vista, caíam uns atrás dos outros. O chão do Santo enchia-se de vísceras e tripas e peles vazias e varejas grandes, feias e verdes. O Santo era uma poça de sangue, uma vala comum, uma estrumeira. O ar do Santo tornava-se irrespirável, cheirava a erva, a merda, a palha, a sebo, a azedo, a peste, e até as tílias se afligiam. O Santo fedia. Mas era por uma boa causa...
Por pobreza ou conveniência, havia quem comprasse o cabritinho a meias, ou até em quartos, mas quanto a isso os clientes é que se entendiam. Quem tivesse um galinheiro de vago ou um bocadinho de quintal, aproveitava para comprar o anho mais cedo, quando a possibilidade de escolha era maior, e levava o anho vivinho da silva para dois ou três dias de engorda. Na sexta-feira e não sei se ainda no sábado, o matador ia a casa e acabava de vez com a conversa.
Cá fora, o refugo aguardava pelos retardatários do costume.
Quem tinha de aparecer, por aqueles dias, era o Landinho, o Nosso Menino. E aparecia, porque o Landinho aparecia sempre. O Landinho andava de porta em porta e navalha na mão oferecendo os seus préstimos como matador de cabritos. Isso. O nosso Landinho, que era, entre outros afazeres delirantemente encartados, fiscal da câmara, polícia de trânsito, passador de multas e até padre, também matava muito bem cabritos, embora nunca o tivesse feito nem chegou a fazer, para sorte dele, dos cabritos e de nós todos.

Portanto, meus amigos fafenses, o segundo domingo de Julho, dia da Senhora de Antime, é agnus day, quer-se dizer, dia do anho. Mas também da vitela. E, se calhar, das tripas, aquele meio tachinho que sobra estrategicamente do almoço de sábado. E atenção: onde escrevi "tripas" e "vitela assada", deve falar-se "tripasss" e "bitela assada", com os ésses muito bem condimentados. Vitela e falar à moda de Fafe, sempre! Isto é, "sémpre"! A vitela assada à moda de Fafe, minhas senhoras e meus senhores, é provavelmente a melhor vitela assada do mundo. E isso nem tem discussão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é dia da Senhora de Antime.)