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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Homem que é homem joga "de mane"

Bilhar de bolso
O bilhar de bolso, é preciso que se note, não se chama assim por ser jogado numa mesa pequenina e talvez portátil.

Em Fafe jogava-se "de mane", e às vezes forte e feito. Desafiar alguém para um jogo "de mane", ó meus amigos, era caso sério, provocação do piorio, aviso de trovoada, podia-se até morrer, pelo menos de vergonha. Jogar "de mane" era assunto para homens de barba rija, nem que fossem crianças ou mulheres. E era também malandrice, sim. Era um repente, palavra de honra, mas que parecia uma eternidade. Um momento suspenso no tempo, é assim que me lembro e creio que digo bem. - Vai um joguinho? - dizia um, de olhos faiscantes, nervoso, coçando o coldre. - Contigo, só se for "de mane"... - respondia o outro, manhoso, pendurando o casado e ajeitando as partes, e fazia-se um silêncio inteiro na sala, um silêncio com fundo, até parecia que tocava "Il Triello" de Ennio Morricone mas só para dois mais eu, que, campeoníssimo dos acasos, estava sempre presente nestas ocasiões, quanto mais não fosse para ouvir a música imaginária, creio aliás que era o único que tinha essa estranha capacidade, e nesse sentido, às tantas, até fazia falta ao enredo. Para além disso, eu entendia-os como mais ninguém, legendava-lhes a conversa com pronúncia e entoação de livrinhos de cobóis, isto na minha cabeça, e depois contava assim aos adultos, que achavam um piadão ao "caralho do moço".
Jogava-se, portanto, a dinheiro. Era isso que "de mane" queria dizer. A expressão era auto-suficiente, valia só por si, mas era isso que implicada: dinheiro em jogo, aposta. Às vezes uma coroa, três tostões, cinco coroas, numa lerpa furtiva entre miúdos, ao domingo à tarde, atrás da esquina, só para começar carreira. Por norma vinte escudos, cinquenta ou cem, cada um, em todo o caso eram fortunas, para maiores de idade e chefes de família, uma nota em cima da outra, dobradas e depositadas maldisfarçadamente sob a tabela do bilhar, ali à vista de toda a gente e à espera do vencedor.
Que se segue. "Mane" afinal seria money, a palavra inglesa para dinheiro, aportuguesada às três pancadas, simplificada aos trambolhões para a nossa linguagem de rua, de feira, mas isso em Fafe não se sabia, não havia essa noção naquela época, era o que eu então supunha, porque a mim esta correspondência tão evidente passou-me completamente ao lado, e eu tinha a mania que era fino. E também não sei como é que se construiu a expressão completa "de mane", significando "a dinheiro", sendo certo que realmente me parece que agrada muito mais ao nosso ouvido ouvir dizer "de mane" do que "a mane".
Acredito que "de mane" era talvez fafês puro, original, e posso estar redondamente enganado. Não encontrei a expressão noutro lado, aliás em lado nenhum, nem em Fafe, verdade seja dita, mas também não me esforcei por aí além. Estou aberto ao desmentido e à correcção, se for esse o caso.
Eu era mocico, maluco por cinema e livros, sobretudo aos quadradinhos, entregava-me de alma e coração aos meus afazeres de mirone desimpedido, permanentemente em cima do acontecimento, fora as vezes em que a minha mãe me ia buscar pelas orelhas, e foram tantas. A minha mãe parecia que tinha radar. E eu tinha ideias e teorias. Para mim, na minha gloriosa ignorância, a expressão "de mane" vinha mas é de mano a mano, de homem para homem, cara a cara, face a face ou arca por arca, como também se falava antigamente. Indicava um confronto directo, proporcional, um duelo, uma luta ou uma competição entre duas pessoas em igualdade de condições, como anotam hoje os dicionários e tal qual como no desafio do bilhar, estais a ver, por isso, que, apesar de provavelmente errado, não era assim tão tolo o meu pensar naquela altura.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O boleto, como se fosse a consoada

O chichi do maestro
Nos grandes concertos sinfónicos, o maestro sai sempre no final de cada peça para ir à casinha mudar a água às azeitonas. Depois volta para as palmas, para as vénias e para as flores, sorridente e aliviado. E os músicos? Os músicos protestam batendo nas estantes e continuam em palco de perninhas apertadas e, quem sabe, a urinarem-se por elas abaixo...

O boleto é uma ordem oficial escrita que requisita alojamento para militares numa casa particular ou o próprio alojamento assim conseguido. É também salvo-conduto, a parte superior do carril sobre o qual rolam comboios e eléctricos, um género de cogumelos comestíveis e a articulação da perna do cavalo acima da ranilha, dizem uns, ou acima da quartela, dizem outros. No Brasil, boleto é ainda papelinho de aposta nas corridas de cavalos, registo de dados de uma operação bolsista, bilhete de acesso a espectáculos e similares ou impresso de factura-recibo.
Posto isto, que não interessa para nada, mudemos de assunto. Falemos de uma coisa completamente diferente. Falemos do boleto.
O boleto, que, pelo menos aqui há uns anos e em Fafe, era praticado pelas bandas de música e consistia numa módica quantia em dinheiro vivo que o contramestre da filarmónica distribuía pelos músicos provavelmente a título de ajuda de custo ou, talvez melhor dizendo, como subsídio de alimentação - o que salvava o dia sobretudo aos jovens aprendizes, que passeavam muito bem a farda e faziam número nas procissões e outras arruadas, mas "ainda não ganhavam". Funcionava, em todo o caso, como um prémio, um extra. Uma espécie de consoada recebida a prestações.
De uma certa maneira, o boleto era também uma das peças do concerto. Enfim, uma bagatela, como lhe chamariam os românticos. Peça curta e despretensiosa mas de sucesso garantido, faço questão de acrescentar, para contar tudo como deve ser contado. Beethoven, por exemplo, muito dado a repentinas modificações de humor, compôs algumas dezenas dessas miniaturas para piano, verdadeiras jóias, autênticas obras-primas, a mais famosa das quais será certamente "Für Elise", que toda a gente conhece. Tornando, porém, ao boleto: se não parecesse um rematado disparate, suponho até que seriam os próprios músicos a pedir bis. O dinheiro saía em notas puídas e renitentes de um gordo envelope cada vez mais magro e era entregue em mão, uma mão atrás da outra, no dia mesmo da "festa", em pleno coreto, com o povo ao redor, durante um intervalo que desse jeito, na vez da outra banda tocar.
Posso ter inventado esta memória, mas cuido que o mais das vezes o bodo era repartido já da parte da tarde do "serviço". E que se segue? Não sei porquê, mas desconfio, a minha cabeça começou então a associar boleto a merenda, como se fossem palavras sinónimas, e até hoje. Boleto igual a merenda. Exactamente. Merenda ao "balcão" de uma barraca beduína, periclitante e malcheirosa, espécie de estendal armado às três pancadas entre varas de choupo e toldos de pano, com bacalhau frito, orelheira salgada, frango abusivamente churrascado, moscas e sardinhas assadas que eram uma desgraça. Uma desgraça bem bebida, afogada em vinho até ao nariz.

Vinho, como quem diz. Bastas ocasiões bebia-se "receita", isto é, juntava-se cerveja e açúcar ao alegado vinho para disfarçar o pique a vinagre. Mas bebia-se. Porque beber fazia parte da arte, tinha o seu próprio solfejo. Como eu costumo dizer, e não me canso de repetir, a diferença entre uma colcheia e uma colmeia está na medida. Isto é: uma colmeia corresponde exactamente a uma semicolcheia. E deve servir-se de preferência numa seminfusa. Bem fresca...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. E não esquecer nunca: fafense ou merenda devem ler-se e dizer-se sempre fafénse ou merénda. E sémpre também. Hoje é Dia Mundial da Música. Viva Fafe! Viva o fafês! Viva a música! Vivam os nossos músicos!)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ele tinha um ouvido gourmet

Finura
Era de uma educação requintada. Dizia: "Tem progenitor que é invisual". Dizia: "Em terra de invisuais, quem possui um olho é monarca". Dizia: "O pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar". Dizia: "A palavras loucas, pavilhões auriculares insonoros".

Ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido conhecedor, apreciador, sofisticado, apurado, selectivo, esquisito, delicado, requintado. Requinta, por falar nisso, é pequeno clarinete ou flauta transversal, como a galega, ou viola braguesa de reduzida dimensão, mas desculpai-me o devaneio. Fixemo-nos no fundamental: ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido famoso, aclamado, respeitado, procurado, absoluto, definitivo. O esquerdo. Do direito, era magnificamente surdo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.

E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Quando os Tonys eram de Matos

Foto Hernâni Von Doellinger

O nosso homem no terreno
Quando ela falava do seu homem no terreno, havia logo quem imaginasse histórias de espiões, acção, aventura e romance. Mas não. Ela falava do marido e da hortazita que o desgraçado fabricava nas traseiras da casa em horário pós-laboral.

Sou de Fafe e sou dum tempo. Frequentei os campos de milho do Santo, de Cavadas e do Sabugal, vindimei e pisei uvas, fui a esfolhadas e malhadas, andei em carros de bois e na carroça do Moniz Azeiteiro, fui à merda para selar o forno de cozer broa, ajudei a matar porco, arranquei batatas, depenei frangos, montei jericos, andei aos ninhos e aos pardais, guardei cabras no monte, tínhamos quintal, galinheiro e coelheira, meia dúzia de olhos de couves no tempo delas e um céu com estrelas. Tive feira todas as quartas. Comi gafanhotos, vivos. Fui uma vez ao mar, à pesca da faneca, e trouxe também cavalas e respeito. Eu e a natureza sabemo-nos. Quero campo, montes e rio, se possível com o Atlântico debaixo de olho. Sou um rústico e disto não saio. A cidade foi-me modo de vida, mais nada.

Mas nem todos têm a minha sorte. Os lisboetas, por exemplo. Os lisboetas são uns infelizes, uns desgraçados, não sabem da vida, não sabem da terra, não sabem sequer de que terra são. Aqui atrasado, o Continente, esse, o dos supermercados, fazia de velho mestre-escola e, uma vez por ano, tomava conta dos lisboetas, assim ditos, e levava-os em gaiteira excursão de volta às suas raízes mais profundas. Às berças. Aos campos do Minho, de Trás-os-Montes, das Beiras, do Alentejo ou dos Algarves de onde eles partiram há duas ou três gerações, com a saca da merenda enfiada no cajado ao ombro, os pés descalços e as chancas nas mãos. Quer-se dizer: embora o ignorem, os lisboetas são tão parolos como os outros parolos todos à volta. Lisboa já não diferencia. Faz cada vez mais parte do resto que é paisagem neste país que não existe.

Naquele dia, os lisboetas, que são parolos mas não se lembram, aprendiam ou reaprendiam, por exemplo, que o leite não nasce em pacotes, que as galinhas estão vivas antes de estarem mortas, como diria a senhora dona Lili Caneças, que os ovos só podem ser produzidos com aquele feitio ou que o bife não é um animal, pelo menos um animal completo. E, com um bocadinho de sorte, até talvez pudessem descobrir o mais extraordinário segredo da vida, que é: a vaca não dá leite. Isso, a vaca não dá leite, ao contrário do que consta. A vaca não dá leite, não dá carne que serve para a nossa alimentação, não dá pele que serve para fazer sapatos nem dá chifres que servem para fazer pentes, como nos exigiam nas redacções da escola primária. A vaca não dá nada, porque a vida não é de graça. É preciso ir lá, à vaca, e dar-se ao trabalho e tirar e tratar e transformar e fazer - é assim que o Lopes ensina os netos.
Mas então, o Continente oferecia aos lisboetas uma espécie de circo rural onde não faltavam as vacas e os cavalos, os patos e os gansos, as ovelhas e os porcos, as avestruzes e os burros. E enfartava-os com um megapiquenique a que o analfabetismo vigente não se cansava de chamar "Mega Pic Nic". Um arraial dos antigos para recriar, em plena Avenida da Liberdade e no Parque Eduardo VII, o "espírito do campo", o "ambiente de uma grande quinta", com o patriótico desiderato - acrescentava a propaganda do Continente - de "chamar a atenção dos portugueses para a importância do apoio à produção nacional". Pois se calhar.
E os lisboetas juntavam-se aos milhares, aos milhares de milhares, de boca aberta, entusiasmados até mais não com a novidade, fresquinha e ao vivo, das cores, dos sabores e dos aromas do campo, como se o campo fosse aquilo. Mas, sobretudo, os lisboetas do país inteiro, do país que não existe, iam ao cheiro do concerto do Tony Carreira. À borla. Tony Carreira apresentado aos lisboetas como "o melhor da música portuguesa".
Ora bem. Honra lhe seja, Tony Carreira, isto é, António Manuel Mateus Antunes, 62 anos, natural de Pampilhosa da Serra, é um profissionalão, provavelmente o melhor do seu ofício, mas não é "o melhor da música portuguesa". Entendamo-nos: por mais multidões que congregue, por mais corações que despedace, por mais sutiãs ou cuecas de senhora que lhe atirem ao palco, Tony Carreira é apenas um cantor romântico com imeeeeeenso sucesso e acaba de fazer constar que o próximo disco pode ser o último, Deus o ouça. Mas a música portuguesa, desculpai-me a expressão, é outra coisa. E felizmente.

Depois o Continente trouxe o arraial para o Porto, para os lisboetas do Norte. O estardalhaço chama-se cá em cima Festival da Comida e invade e atafulha o martirizado Parque da Cidade, aproveitando uma ínfima parte da parafernália montada para o já de si devastador Primavera Sound. E com Tony Carreira sempre! Eu sou um ferrinho, todos os anos: nunca lá ponho os pés. Aliás, porque moro ao lado, nesses dias de confusão fujo para o sossego do Minho antigo, esse sim, quanto mais alto melhor. Já disse. Sou de Fafe e doutro tempo. Do tempo em que os Óscares eram Acúrsios. E os Tonys eram de Matos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Música Country.)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Daniel, dos leões às causas sociais

Aliás e há leões
Homem que é homem não teme leão. Já se forem ratos...

Daniel foi mediano profeta e consta da Bíblia no, exactamente, Livro de Daniel. Também lhe chamaram Beltessazar, mas um nome assim era uma desgraça para o marketing e foi imediatamente esquecido. Daniel trabalhou na Babilónia como vidente e porventura cartomante, interpretando sonhos e visões, e tinha três amigos esquisitamente chamados Sadraque, Mesaque e Abednego. Foi também domador de leões, com um anjo como partenaire, dando início a essa lamentável e actualmente proibida tradição circense.
Daniel estabeleceu-se em Fafe, com loja de fazendas, malhas, pronto-a-vestir e moda em geral, mesmo ao lado da tipografia do Sr. Dias do Tribunal, e dedicou-se, discreta e afincadamente, ao associativismo e às causas sociais. Se não estou em erro, foi um dos fundadores da Cercifaf e o seu primeiro presidente, e isto, creio, já é dizer alguma coisa acerca da sua bondade. A fama chegara-lhe em 1972, quando entrou numa canção de Elton John.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Leão.)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Que é feito do chi-coração?

Cuidado: frágil!
Éramos de abraço apertado, em Fafe, naquele tempo. Éramos rijos, feros e valentes, como então se dizia, mas de chi-coração. Agora querem-nos de abraço apartado, por confusão ou ignorância, parolice ou paronímia, têm talvez medo que a gente se escangalhe.

Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos factos, dos afectos, dos carinhos. Reparai. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Os beijos e os abraços faziam-se, realizavam-se, levavam-se a cabo, cumpriam-se. E éramos de abraço fácil. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. Prometem-se, ficam no ar. O gesto ancestral e puro, carnal, verdadeiro e consequente, foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - ao simulacro, à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", muha!, dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, empiscamos, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Emoji.)

terça-feira, 14 de julho de 2026

O sonho comanda a vida?

Cuidado com o que se deseja
Perseguir sonhos, às vezes, pode ser crime. Nesse caso chama-se "stalking".

Sonho. Bolinho muito fofo, de farinha e ovos, frito e depois geralmente passado por calda de açúcar ou polvilhado com açúcar e canela. Só isto. Agora: onde raio é que o poeta foi buscar a ideia de que "o sonho comanda a vida"? Se ainda fosse o pão-de-ló de Fornelos...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 21 de junho de 2026

Pro Bono

Disseram-lhe que ia trabalhar pro bono e ele rebentou de alegria. "Sou fã n.º 1 dos U2", exultou, excitadíssimo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu da Música.)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Trago uma Páscoa no ouvido

Já não chove!
Noé, como todos os homens especialmente abençoados por Deus, era um incorrigível optimista. De hora a hora, dia após dia, durante quarenta dias, espreitava à janela da Arca, desviando a cortininha de chita estampada em degradê, e dizia à mulher: "É só um aguaceiro"...

Seminário de Braga. Lembro-me de uma Páscoa e a memória até é fácil - foi em 1974, ano santo, e no sábado do Domingo de Ramos havia Festival da Eurovisão em Brighton, Reino Unido. Era a grande noite, a verdadeira, tempos outros. Os nossos "superiores", como impunham que lhes chamássemos, deixaram-nos ir para a sala da televisão: muito compostos, bico calado, ouvimos as cantigas a preto e branco. Paulo de Carvalho cantou "E Depois do Adeus". Esteve bem, muito bem, Paulo de Carvalho nunca soube cantar mal. Para mim, Portugal ia ganhar. Sem espinhas. Preparei-me para o melhor.
Só que. Já disse: era seminário, Braga e Semana Santa, véspera à noite do Domingo de Ramos. Portanto: só que, na hora da votação, a parte talvez mais emocionante, os do orfeão, à inapelável voz de comando, tocados como gado, desatámos a descer por umas escadas de que nem sabíamos a existência e, num lampo, chegámos à rua por uma porta dos fundos ou, por outra, dos lados. Ia passar a procissão. O Paulo de Carvalho que nos desculpasse, mas era a nossa vez de cantar. O estrado com degraus estava montado logo ao pé da porta, no cantinho do Largo de Santiago, defronte do Governo Civil. Cantámos o "Miserere", como mandava a tradição. E era digno de ser ouvido, minhas senhoras e meus senhores: nós cantávamos a cores.
"Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam"... Cantámos numa fervurinha mas como querubins, como querubins apressados, a procissão parou e passou, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo amém, e toca a galgar a escadaria (que já não era secreta) com o coração aos saltos, quem é que ganhou, quem é que ganhou, mas afinal quem é que ganhou? Foi o Paulo de Carvalho? Foi Portugal? Evidentemente que foi Portugal. Ganhámos, de certeza que ganhámos...

(Ao contrário do que alguém possa ainda pensar, por causa da história das senhas radiofónicas do 25 de Abril, "E Depois do Adeus" é apenas uma notável balada de dor de corno, sem qualquer submensagem política. Muito bem cantada, isso sim, letra de José Niza e com uma orquestração - do maestro José Calvário, também autor da excelentíssima música - do melhor que alguma vez se fez ou virá a fazer no nosso país.)

Mas não. Não ganhámos. Portugal não ganhou e Paulo de Carvalho também não. Ganharam os Abba, com "Waterloo". A nossa canção, "E Depois do Adeus", desenrascou apenas três pontos e ficou em último lugar, empatada com a Alemanha, a Suíça e a Noruega. E vá lá, que a companhia podia ser pior.

Que se segue. Há cinquenta anos que ando com esta Páscoa no ouvido. E não por causa dos Abba nem pela bela canção do Paulo de Carvalho. É o "Miserere". O "Miserere" ensinado e dirigido pelo bom padre José Sousa Marques, se não erro no nome, chamado entre nós o Galinhola por causa dos seus meneios e ademanes. O "Miserere" que ainda sei de cor aos retalhos e com o qual, volta e meia, puxando pelo lamentável baixo-barítono que sobrevive dentro de mim, atazano o orelhame do pessoal cá de casa.
As saudades fizeram-me isto: lancei-me à procura do meu "Miserere" no YouTube e não o encontrei. Quem sou eu para desgostar do sublime "Miserere" de Allegri, que está em todo o lado como Deus Nosso Senhor e a CMTV, mas - deu-me para aqui -, de momento o "Miserere" bracarense, completo, integral, pungente, é que me convinha. E não sei dele.

E que mais? O maestro José Calvário, que morreu em 2009, com apenas 58 anos. Extraordinária figura, conhecido sobretudo da televisão, cheguei a vê-lo algumas vezes em Fafe, o que me enchia de orgulho e emoção. Eu era fã, sabia-o de cor. Sabia das suas gravações com a London Philharmonic Orchestra, com a London Symphony Orchestra, com a Orquestra Sinfónica do Estado Húngaro. Eu sabia do jazz, dos Psico, dos trabalhos com ou para Adriano Correia de Oliveira, António Gedeão, Carlos Mendes, Fernando Tordo, Tonicha, da sua pluralidade e excelência musical. Via-o a passar de carro, sem parar e evidentemente sem me reparar, mas para mim bastava. A família - "os Calvários", que creio que eram do Porto - tinha uma fábrica em Fafe, na Recta, actual Avenida de São Jorge, um pouco depois da Parefa, como quem vai para Armil sem cruzamentos rotundos e semáforos preguiçosos. Eu ligava aquela gente, não sei dizer porquê, ao nosso Jardim do Calvário, e por isso achava que eles, apesar de ricos, famosos, distantes e inacessíveis, também eram nossa gente, embora todas as noites fossem dormir a casa, pelo menos nunca se me constou o contrário nem lhes sei de filhos suplementares e fafenses. A fábrica chamava-se Coral, Malhas Coral, e mandou uma equipa ao primeiro torneio de futebol de salão de Fafe, em 1977, organizado de raiz pelo Grupo Nun'Álvares, com o Chester à frente. E a equipa deu nas vistas vestindo camisola e calção numa cor nova e inusitada para o tempo, algo entre o vermelho, o laranja e o rosa, certamente coral como o próprio nome indica, espero não estar a dizer asneira, ou então sonhei isto tudo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. José Calvário morreu no dia 17 de Junho de 2009, aos 58 anos.)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A nossa Câmara de Fafá

Facebook do Município de Fafe

Há pelo menos dia e meio que Fafe é Fafá na página oficial do Município de Fafe no Facebook, isto é, no Facebook do Município de Fafá. Sem culpa nenhuma, o grande Vitorino, que vem sábado cantar a Fafe, quer-se dizer, a Fafá, fez um simpático vídeo, apenas uns segundos, a promover o espectáculo, e o Município de Fafe, aliás, Fafá, fino como uma alho, moderníssimo, cosmopolita até dizer basta, ferrou-lhe com a alegada inteligência artificial em cima, e as legendas fonéticas e automáticas, e analfabetas, deram na tristeza que aqui se apresenta e parece que só eu é que vi. Dei tempo ao tempo, porque isto são pentelhices, nada mais do que uma pequena anedota, coisas que acontecem e se remedeiam, mas não há pachorra que aguente. Atenção, repito, já lá vai dia e meio, e o fenómeno continua lá, sem uma crítica, um reparo, uma emenda, parece que ninguém lê o Facebook da Câmara de Fafe, mesmo ninguém, nem sequer os que lá escrevem, começo a ficar envergonhado comigo mesmo por ir lá espreitar os títulos de vez em quando.

(Do meu blogue Fafismos)

Aqui jazz, ali blues

A diferença entre uma colcheia e uma colmeia está na medida. Isto é: uma colmeia corresponde exactamente a uma semicolcheia. E deve servir-se de preferência numa seminfusa. Bem fresca...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Jazz.

O cantor Gershwin, dizia a rádio da especialidade

Ouço rádio. Prefiro a rádio à televisão e os jornais em papel ao online. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Tirando David Ferreira, às vezes o futebol e a meia hora a seguir ao meio-dia, que me ligam religiosamente à Antena 1, a minha rádio de companhia era a Smooth FM. Gostava da música que por lá passava, música da minha idade, e ria-me com o que diziam os locutores. Ignorância em frequência imoderada era ali - das bojardas gramaticais nas "notícias" aos spots publicitários que primavam pela asneira. Uma vez, na promoção a um concerto de Anthony Strong no lisboeta Centro Cultural de Belém, dizia-se assim:
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Fim de citação. Exactamente, sobretudo Gershwin, esse extraordinário cantor...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Jazz.