Acontecimentos
Há acontecimentos épicos e acontecimentos hípicos. Às vezes coincidem.
domingo, 10 de maio de 2026
O dérbi eterno, em 96 ponto 7
quinta-feira, 30 de abril de 2026
O cantor Gershwin, dizia a rádio da especialidade
Ouço rádio. Prefiro a rádio à televisão e os jornais em papel ao online. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Tirando David Ferreira, às vezes o futebol e a meia hora a seguir ao meio-dia, que me ligam religiosamente à Antena 1, a minha rádio de companhia era a Smooth FM. Gostava da música que por lá passava, música da minha idade, e ria-me com o que diziam os locutores. Ignorância em frequência imoderada era ali - das bojardas gramaticais nas "notícias" aos spots publicitários que primavam pela asneira. Uma vez, na promoção a um concerto de Anthony Strong no lisboeta Centro Cultural de Belém, dizia-se assim:
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Fim de citação. Exactamente, sobretudo Gershwin, esse extraordinário cantor...
P.S. - Hoje é Dia Internacional do Jazz.
sábado, 11 de outubro de 2025
Entre átonas e tónicas, eu é com gin
A fama tem um preço
Na rádio, Renascença por acaso, o reclame a uma telenovela da SIC avisa: - A fama tem um preço! Pois tem. E o arroz carolino também. E a massa-cotovelo e as batatas e os alhos e o azeite, que está pela hora de morte. As próprias pessoas, diz-se, também têm um preço. Algumas, melhor colocadas na vida, têm dois ou três...
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
Aproveite para namorar...
domingo, 9 de fevereiro de 2025
Ray Charles morreu?
domingo, 13 de outubro de 2024
Os "aitens" da Senhora Presidenta
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Comentava-se o Orçamento de Estado na rádio Antena 1, à hora do almoço. Luísa Salgueiro, presidenta da Câmara de Matosinhos, foi convidada a dar a sua opinião, na qualidade de também presidenta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses - ANMP. Como se tivesse lido o documento de ponta a ponta mesmo antes de ele ter sido entregue na Assembleia da República, a autarca de todos os autarcas falou, falou, falou, aliás como costuma falar. E referiu-se, nomeadamente, aos "aitens" do Orçamento, aos diversos e variados "aitens", eu ia buscar uma maçã à cozinha, o rádio estava aceso e, palavra de honra, obliterei-me como que por relâmpago, trouxe mais um jarro de água, porque entretanto perdi-me, e eu queria comer, não era beber. Perdi-me nos "aitens" da Senhora Presidenta.
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Filipe La Féria, o supersupremo
segunda-feira, 7 de novembro de 2022
Descendo ao topo da hora
Na rádio, o "topo da hora" é o sítio onde estão colocados os noticiários. Os noticiários alargados, entenda-se, porque também há as edições apertadinhas, às meias. Doses. "Notícias no topo da hora", costumam dizer-nos os locutores ou jornalistas, remetendo-nos, por exemplo, para as 11 horas, para o noticiário das 11 horas. E aqui é que bate o ponto. Porque (sigam o meu raciocínio, por favor), se o noticiário das 11 horas for no "topo da hora", ele deverá ir para o ar às 11h59m59s, porque aí é que é o topo da hora 11. Isto é: para estarem no "topo da hora", as notícias das 11 só são ao meio-dia; porque, na verdade, as 11 são o topo da hora, mas das 10, da hora 10. O que quer dizer que temos andado estes anos todos com os noticiários trocados.
Que não restem dúvidas: topo, neste contexto, quer dizer a parte mais elevada, o cume. E o cume de uma hora é o último segundo antes de ela entrar na hora seguinte. É certo que topo também pode significar extremidade, mas, se forem por aí, recomenda-se aos senhores locutores, jornalistas e radialistas em geral que apontem sempre as notícias para o topo de baixo.
domingo, 1 de agosto de 2021
No tempo da rádio a preto e branco
Na verdade - e aqui que ninguém nos vê -, o melhor da televisão é que agora dá rádio.
Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas.
"Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta". Ouço portanto rádio. Sou antigo, sou do tempo da rádio a preto-e-branco. Sou um prezado ouvinte e com muito gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries televisivas "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada. A dominical Tarde Desportiva, David Ferreira sempre e aquela meia hora dos dias da semana a seguir ao meio-dia ligam-me sacramentalmente à Antena 1.
O rádio faz parte da minha vida, acompanha-me desde que me lembro de mim, conserva-me as mais doces memórias, frescas ou em banho-maria consoante a época do ano. Como por exemplo:
Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.
sábado, 26 de junho de 2021
Entre átonas e tónicas, a rádio perde-se
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.
sábado, 7 de novembro de 2020
Alô, alô, Senhora Rosa, Senhora Rosa, Senhora Rosa, alô, alô!
O rapaz que lê as notícias na rádio Smooth FM nunca me deixa ficar mal. Diz-me ele esta manhã (às 9h30 e às 10 horas) que "José Sócrates garante que nunca "interviu" na Caixa Geral de Depósitos para que fosse concedido qualquer crédito". Pois não "interviu", não. Aliás, como é que o antigo primeiro-ministro poderia "interver"?...
E se fossem traduzir o... Jorge Jesus?
Julen Lopetegui, o basco, chega à famosa "zona da flash interview", no final do jogo com o SC Braga. Nos estúdios da rádio Antena 1, o pivot da emissão avisa que vai traduzir as declarações do treinador do FC Porto. Lopetegui, o estrangeiro, diz: "Esta noite estoi muito muito orgulhoso pelos meus jogadores, muito orgulhoso de nuestros adeptos, isto és el Porto, és el Porto, dentro e fuera de campo". Da cabine de Marechal Gomes da Costa, em Lisboa, sai a tradução simultânea e reveladora, legendas sonoras em português suave: "Esta noite estou muito muito orgulhoso pelos meus jogadores, muito orgulhoso dos nossos adeptos, isto é o Porto, é o Porto, dentro e fora do campo". Extraordinário! Sem a ajuda da Antena 1, como é que teríamos percebido?
O cantor Gershwin, anunciava a rádio
Ouço rádio. Prefiro a rádio à televisão e os jornais em papel ao online. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Tirando David Ferreira, o futebol e a meia hora a seguir ao meio-dia, que me ligam religiosamente à Antena 1, a minha rádio é a Smooth FM. Gosto da música que por lá passa, música da minha idade, e rio-me com o que dizem os locutores. Ignorância em frequência imoderada é ali - das bojardas gramaticais nas "notícias" aos spots publicitários que primam pela asneira. O último, de promoção ao concerto de Anthony Strong aprazado para o dia 28 de Outubro no lisboeta Centro Cultural de Belém, diz assim:
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Exactamente, sobretudo Gershwin...
Radiofonicamente falando
Tinha dois rádios muito jeitosos. Depois de um acidente em Vigo, o rádio do braço esquerdo, coitadinho, só apanha a onda curta.
Entre átonas e tónicas, a Antena 1 não sabe
Dizer que. Já tinham o Trófense, por causa de ser da Trofa, e agora inventaram os ávenses, derivado a serem das Aves. Os rapazes do desporto da Antena 1, que é praticamente a única rádio que eu ouço, e gosto, têm um problema, eventualmente uma disfunção, com a maneira de dizer palavras. Eles, cuja profissão é, fino modo, dizer palavras. Um destes dias ainda os escutarei a falarem dos fárenses, por serem de Faro, dos pôrtuenses por serem do Porto, dos brácarenses por serem de Braga, dos pácenses por serem de Paços de Ferreira ou, puxando a brasa à minha sardinha, dos fáfenses, por serem de Fafe.
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.
Já me tinhas dito!
E diz o repórter: "As urnas fecharam e a contagem dos votos começou há cerca de dois minutos atrás". Ah!, sim, o rigor na informação! É que a contagem podia ter começado "há cerca de dois minutos à frente". E não era a mesma coisa.
Felizmente dispensa apresentações
O anúncio da rádio Smooth FM atira à queima-roupa: "Um dos maiores guitarristas contemporâneos, dispensa apresentações. Al Di Meola ao vivo. [blá... blá... blá...] Al Di Meola, uma extraordinária fusão de sons latinos e jazz. Al Di Meola. Ao vivo."
"Dispensa apresentações". Al Di Meola! Exactamente o grande Al Di Meola. Tomem nota: o extraordinário Al Di Meola,"um dos maiores guitarristas contemporâneos", alquimista do riff, sumo-sacerdote da "fusão de sons latinos e jazz". Ainda bem que Al Di Meola não precisa de apresentações...
O anúncio é como o outro, o que diz "Não há palavras" e depois passa meia hora a perorar sobre o assunto. E ai de quem lhe tente tirar o microfone das unhas!...
(Moral da história: quando não se quer falar, o melhor é estar calado.)
Conduza com cuidado, aproveite para namorar!
Antena 1, a nossa rádio pública, pouco depois das 21h15 de ontem, Dia de São Valentim. O locutor, voz excelentíssima, põe ao lume os chouriços do costume, prepara a entrada de Sérgio Godinho mas escorrega na burilada bucha de ligação. Diz ele: "Se vai na estrada, conduza com cuidado. Olhe, aproveite para namorar"...
Bienal, como o próprio nome indica
Era a melhor das intenções. Na sua voz maviosa, a locutora da rádio fazia o elogio e o convite à visita à Bienal de Cerveira - "há 17 anos" a levar ao Alto Minho a nata da arte plástica nacional e internacional. Pois. Dezassete anos, contas bem feitas, porque este ano é a décima sétima edição do evento e portanto não há que enganar. A locutora da voz maviosa (já disse que a voz era maviosa, não já?) ignora que a Bienal de Cerveira começou em 1978 - há 35 anos, assim é que está certo - e que as bienais, como o próprio nome indica, realizam-se de dois em dois anos. Mas isso são pormenores.
Perdoo a ignorância da locutora. Eu próprio já escrevi que Vila Nova de Cerveira perde muito por não fazer a Bienal todos os anos. Mas era uma laracha das minhas: tenho a mania da piada fina, não falo na rádio e raramente falo a sério. Perdoo a locutora por causa da sua voz definitivamente maviosa, minha companhia pelos nevoeiros matinais na beira-mar matosinhense, e porque a seguir ela me deu "Purple Rain", versão Urselle. Claro que era muito melhor o extraordinário original de Prince, mas se calhar não é suficientemente smooth.
Os mundialmente famosos pastéis de Oeiras
O relatador da Antena 1, rádio nacional, não se cansava de dizer, ontem à noite, directamente do Estádio do Dragão: "os azuis de Belém", "a equipa de Belém", "os homens de Belém". Do Restelo é que nunca, que ele tinha tudo pensado. Mal pensado. Eu também pensei, e concluí que "os azuis de Belém", "a equipa de Belém", "os homens de Belém" são um honrado grupinho de futebol de um grande clube que joga actualmente na 1.ª Divisão Distrital de Lisboa. Para não asnear, o relatador da Antena 1, rádio nacional, deveria ter dito, ontem à noite, directamente do Estádio do Dragão: "os azuis de Oeiras", "a equipa do Jamor", "os homens de Algés, Linda-a-Velha e Cruz Quebrada-Dafundo".
Palavra de honra, pensava que esta calinada, esta em concreto, já estivesse erradicada das nossas rádios, mas afinal ainda não está. Ouvi um destes dias, na Star FM, e nem queria acreditar: forçando a nota local, dando conta do novo horário das bibliotecas de Valongo e Ermesinde, o locutor do noticiário fez questão de asnear com todo o garbo metendo lá pelo meio o inexplicável "meio-dia e meio". "Meio-dia e meio"? Mas que raio de hora é isso?
Cá vai, portanto, mais uma borla, esta directamente dirigida ao senhor locutor do noticiário da rádio Star FM. Quando diz "meio-dia e meio", o senhor locutor do noticiário está na verdade a dizer, das duas uma, ou 24 horas (isto é: meio-dia mais outro meio-dia) ou 18 horas (isto é: meio-dia mais meio meio-dia), e não 12h30.
O senhor locutor do noticiário, falando de horas, nunca diz onze e meio, nem duas e meio, ou diz? O que diz é: onze e meia e duas e meia. Pois tome nota: com o meio-dia é exactamente a mesma coisa: meio-dia e meia. Isto é, meio-dia (12 horas) mais meia hora. Isto é, 12h30. Estamos entendidos? Meio-dia e meia! E meia!!
A problemática da sinalética
Não sei em que ponto exacto da moderna história do desporto e do jornalismo nacionais o sinal foi substituído pela sinalética. Mas sei que, como todas as asneiras, a sinalética pegou de estaca e hoje em dia até parece mal dizer outra coisa. Agora, segundo os nossos doutos comentadores e relatadores desportivos, os árbitros e os jogadores de futebol, por exemplo, já não fazem sinais uns aos outros ou uns para os outros - fazem ou dão sinalética.
Ouvi ontem na Antena 1: "Rui Patrício levanta os dois braços, dando sinalética aos seus companheiros". Dando sinalética? A rádio é para imaginar, e portanto eu imaginei o jovem guarda-redes do Sporting a desembrulhar-se com brilhantismo no uso da complexa mas bonita linguagem gestual, fazendo manguitos atrás de manguitos até ser compreendido pelo colegas.
E mais à frente ouvi: "O árbitro auxiliar a ter que dar sinalética". E veio-me à cabeça a imagem de um homenzinho em calções, munido não com uma mas com duas bandeirinhas, uma em cada mão, a fazer sinais ao navio-almirante, anunciando a iminente invasão das Berlengas.
Já que não há quem os ensine ou corrija, recomenda-se aos nossos comentadores e relatadores desportivos uma visita, ainda que breve, a um dicionário. Qualquer um, por mais modesto que seja, lhes demonstrará que um sinal continua a ser um sinal: uma indicação, um aviso, um meio de transmitir, à distância mas à vista, ordens ou avisos. E que a sinalética, quando muito e neste contexto, é um conjunto de sinais, o uso de sinais.
Daqui para a frente, e para nunca mais asnearem, peço aos nossos queridos comentadores e relatadores desportivos que se lembrem sempre da Lena d'Água, a cantora filha do mítico José Águas e irmã do famoso Rui Águas, figuras grandes do Benfica. Lembrem-se das primeiros versos da cantiga e vejam lá se isto tem algum jeito: "Sempre que o amor me quiser, basta fazer-me uma sinalética".
Estão a ver? Tem algum jeito? Sinalética? Até parece badalhoquice, pouca-vergonha. Faz-me uma!, disse o outro...
A capella, ma non troppo
A rádio Smooth FM anunciava a vinda a Portugal dos Manhattan Transfer. Fazia a apresentação, e é justo, de "um dos mais famosos grupos de jazz a cappella". Em fundo passava um jingle: os Manhattan Transfer, "um dos mais famosos grupos de jazz a cappella", cantando muito bem acompanhados por orquestra. Perdoa-lhes, Senhor, eles não sabem o que é cantar a capella...
Topo da hora, o raio que os parta
Ora cá está mais uma interessantíssima problemática. A problemática do "topo da hora", esse escusado e equívoco bordão radiofónico que hoje me proponho dissecar com a seriedade intelectual e a profundidade filosófica do costume.
Na rádio, o "topo da hora" é o sítio onde estão colocados os noticiários. Os noticiários alargados, entenda-se, porque também há as edições apertadinhas, às meias... doses. "Notícias no topo da hora", costumam dizer-nos os locutores ou jornalistas, remetendo-nos, por exemplo, para as 11 horas, para o noticiário das 11 horas. E aqui é que bate o ponto. Porque (sigam o meu raciocínio, por favor), se o noticiário das 11 horas for no "topo da hora", ele deverá ir para o ar às 11h59m59s, porque aí é que é o topo da hora 11. Isto é: para estarem no "topo da hora", as notícias das 11 só são ao meio-dia; porque, na verdade, as 11 são o topo da hora, mas das 10, da hora 10. O que quer dizer que temos andado estes anos todos com os noticiários trocados.
Que não restem dúvidas: topo, neste contexto, quer dizer a parte mais elevada, o cume. E o cume de uma hora é o último segundo antes de ela entrar na hora seguinte. É certo que topo também pode significar extremidade, mas, se forem por aí, recomenda-se aos senhores locutores e jornalistas que apontem sempre as notícias para o topo de baixo.
Quantos são exactamente cerca de 44?
Ouvi esta manhã na rádio que "cerca de 44 senadores" já tinham votado a favor da destituição de Dilma Rousseff do cargo de presidente da República do Brasil (o tal de impeachment, em brasileiro correcto). Gostaria de pedir ao rapaz que lê as notícias na Smooth FM que, por favor, e se possível, fosse um bocadinho mais preciso. Isto é: quantos são exactamente "cerca de 44 senadores"? Serão 43,75 senadores? Serão 44,15?...
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Entre átonas e tónicas, a Antena 1 não sabe
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.
P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Janeiro de 2019. Hoje, 8 de Setembro, é Dia Mundial ou Dia Internacional da Alfabetização (ou da Literacia).
sábado, 11 de julho de 2020
O cantor Gershwin, anunciava a rádio
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Exactamente, sobretudo Gershwin...
P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Agosto de 2017. George Gershwin, nascido Jacob Gershowitz, morreu no dia 11 de Julho de 1937.
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Quando a rádio era a preto e branco
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. Estava a ser um derby de arromba, bola cá, bola lá, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, faltava-lhes o ar, que jogatana, que jogatana! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, porventura por civilidade anfitriã, entregavam a bola aos do Benfica, política de boa vizinhança, ao contrário do que nos querem fazer crer. Entre estas cortesias a meio campo, e sempre e ainda no dito miolo do terreno, sarrafava-se a bom sarrafar, mas dentro do protocolo estabelecido. Que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, liguei outra vez o rádio: o prélio tornou a ser uma categoria, um frémito, um frenesim, só não era golo porque não calhava. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, só se jogava nas áreas. Fiquei-me portanto pelos 96.7, que até podia ter sido o resultado final, tantas as oportunidades radiofónicas, e regalei-me. Que jogaço, que jogaço! Esqueçam a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá espectáculos deprimentes. O futebol, para ser bom, deve ser visto na rádio Antena 1. A rádio conta-nos o que não é, mas alegra-nos a vida. A rádio tem futuro. Os dias da rádio são os dias que hão-de vir.
Na verdade - e aqui que ninguém nos vê -, o melhor da televisão é que agora dá rádio.
Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas.
"Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta". Ouço portanto rádio. Sou antigo, sou do tempo da rádio a preto-e-branco. Sou um prezado ouvinte e com muito gosto. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries televisivas "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada. A dominical Tarde Desportiva, David Ferreira sempre e aquela meia hora dos dias da semana a seguir ao meio-dia ligam-me sacramentalmente à Antena 1.
O rádio faz parte da minha vida, acompanha-me desde que me lembro de mim, conserva-me as mais doces memórias, frescas ou em banho-maria consoante a época do ano. Como por exemplo:
Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.
P.S. - O físico e inventor italiano Guglielmo Marconi, também conhecido como Guilherme Marconi, patenteou o rádio no dia 2 de Julho de 1897.
segunda-feira, 29 de junho de 2020
Entre átonas e tónicas, a Antena 1 não sabe
É o falso dilema entre sílabas átonas e tónicas. Eu resolvo-o com gin.
P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Janeiro de 2019. Agora, um pedido de desculpas: esqueci-me completamente do Dia Nacional do Gin Tónico, celebrado sempre no primeiro sábado do Verão. Foi há pouco mais de uma semana, pode ser que ainda vá a tempo...
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Diz que faz falta precipitação
Espera: afinal, percebo agora, precipitei-me: precipitação queria dizer chuva. Chuva é que faz falta. Chuva! E o raisparta a mania do eufemismo...
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Boa tarde, senhores ouvintes. Boa noite, meninos.
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. Estava a ser um derby de arromba, bola cá, bola lá, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, faltava-lhes o ar, que jogatana, que jogatana! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, porventura por civilidade anfitriã, entregavam a bola aos do Benfica, política de boa vizinhança, ao contrário do que nos querem fazer crer. Entre estas cortesias a meio campo, e sempre e ainda no dito miolo do terreno, sarrafava-se a bom sarrafar, mas dentro do protocolo estabelecido. Que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, liguei outra vez o rádio: o prélio tornou a ser uma categoria, um frémito, um frenesim, só não era golo porque não calhava. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, só se jogava nas áreas. Fiquei-me portanto pelos 96.7, que até podia ter sido o resultado final, tantas as oportunidades radiofónicas, e regalei-me. Que jogaço, que jogaço! Esqueçam a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá espectáculos deprimentes. O futebol, para ser bom, deve ser visto na rádio Antena 1. Conta-nos o que não é, mas alegra-nos a vida.
Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); não fora o rádio e só saberíamos o resultado a altas da madrugada, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas.
"Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escuta". Ouço portanto rádio. Sou antigo. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Prefiro o éter à água oxigenada. A dominical Tarde Desportiva, David Ferreira sempre e aquela meia hora dos dias da semana a seguir ao meio-dia ligam-me sacramentalmente à Antena 1.
E tenho mais memórias:
Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos com a nossa mãe, era "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa alimentação, que era assim que a coisa se rematava.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.
(Excertos e mistura de três ou quatro velhos textos do Tarrenego! ligados à rádio. Há muitos mais. Hoje é Dia Mundial da Rádio.)
domingo, 25 de novembro de 2018
Os mundialmente famosos pastéis de Oeiras
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
O cantor Gershwin, anuncia a rádio Smooth FM
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Exactamente, sobretudo Gershwin...
P.S. - Mais sobre a minha estação de rádio favorita em Bienal, como o próprio nome indica, Felizmente dispensa apresentações, Quantos são exactamente cerca de 44?, Sócrates não "interviu", diz a Smooth FM e A capella, ma non troppo.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Em defeso do futebol 10
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Para ser bom, o futebol deve ser visto na Antena 1
Comecei a ver o Sporting-Benfica na cozinha, ouvindo o relato na rádio Antena 1. Estava a ser um derby de arromba, bola cá, bola lá, quase-golos uns atrás dos outros, os relatadores esganiçados com tanta emoção, faltava-lhes o ar, que jogatana, que jogatana! Fui a correr para a sala e liguei a televisão, para ver com os meus próprios olhos: o jogo era fraquinho, não havia dois passes seguidos certos, os do Benfica entregavam a bola aos do Sporting e os do Sporting, porventura por civilidade anfitriã, entregavam a bola aos do Benfica, política de boa vizinhança, ao contrário do que nos querem fazer crer. Entre estas cortesias a meio campo, e sempre e ainda no dito miolo do terreno, sarrafava-se a bom sarrafar, mas dentro do protocolo estabelecido. Que merda! Voltei, desiludido, para a cozinha, liguei outra vez o rádio: o prélio tornou a ser uma categoria, um frémito, um frenesim, só não era golo porque não calhava. Eram defesas impossíveis, eram perdidas inacreditáveis, só se jogava nas áreas. Fiquei-me portanto pelos 96.7, que até podia ter sido o resultado final, tantas as oportunidades radiofónicas, e regalei-me. Que jogaço, que jogaço! Esqueçam a televisão por cabo, que nos custa os olhos da cara e só nos dá espectáculos deprimentes. O futebol, para ser bom, deve ser visto na rádio Antena 1. Só nos contam mentiras, mas sabe bem...
Eu sou pela Antena 1 desde pequenino, ainda a Antena 1 se chamava Emissora Nacional e dava os resultados da 3.ª divisão e dos distritais já pela noite dentro e era uma comoção tremenda ouvir dizer Fafe, Associação Desportiva de Fafe, no Philips da mesinha de cabeceira dos meus pais. Ficávamos ali todos à espera, a família, como se estivéssemos a rezar o terço mas de boca calada, angustiados e alerta, porque aquilo era dito uma só vez, como no "Alô, Alô", e com a rapidez do "não dispensa a consulta do prospecto". Vamos supor: o jogo do Fafe tinha sido em Arcos de Valdevez, que naquela altura era muito longe e não havia telemóveis (eu sei que é difícil de acreditar); se não fosse o rádio, só saberíamos o resultado a altas horas, se tivéssemos vagar para isso, quando a excursão regressasse ao Largo, e não era certo. O resultado. Porque o vinho também é bom, mas às vezes atrapalhava as contas...