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domingo, 20 de abril de 2025

As aparições

O Papa Francisco "apareceu" hoje na varanda da Basílica de São Pedro, no Vaticano - dizem as notícias. Nossa Senhora foi numa azinheira da Cova da Iria, Fátima, em 1917.

sábado, 20 de abril de 2024

Chamam-lhe train surfing

Foto Hernâni Von Doellinger

Acerca da insegurança no Metro do Porto, dos vários tipos de insegurança no Metro do Porto, escrevi aqui no dia 2 de Abril de 2015: "Eu se fosse segurança, palavra de honra, nem sequer me metia com os gandulos que agora viajam na esplanada das traseiras do metro sem que uma farda qualquer os arranque dali para fora pelas orelhas e, já agora, com um par de estalos. E antes que se aleijem."
Isto, portanto, há nove anos, altura em que a coisa terá começado. Os putos chamam a isto, cá em cima, "andar à guna". Entretanto, em Abril de 2019, quatro destes gabirus, com 15 ou 16 anos, caíram à linha em Rio Tinto quando andavam nestes perigosos preparos, foram atropelados e ficaram feridos, dois deles em estado grave. E em Maio do ano anterior morrera uma rapariga de 13 anos. De acordo com os mais recentes avistamentos, a toléria continua. Os jornais e as televisões chamam a esta merda train surfing, o que lhe empresta um ar desportivo, radical, aventureiro, jovem e dinâmico, desafiante, descontraído, nome de nova modalidade olímpica. Eu chamo-lhe estupidez. Estupidez natural.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Os telejornais

Imagem RTP

A RTP iniciou as suas emissões regulares, nos Estúdios do Lumiar, em Lisboa, no dia 7 de Março de 1957, faz hoje anos. E o primeiro Telejornal, o original e verdadeiro, cujo alinhamento está ali em cima, foi para o ar no dia 18 de Outubro de 1959. Os telejornais eram uma coisa porreira, feitos os devidos descontos, porque davam telenotícias - o que era então extraordinário. Agora os telejornais são uma treta. São a telenovela antes da telenovela. E eu não vejo. Há anos!

sábado, 20 de janeiro de 2024

O jornalismo e o seu fim

O que é curioso é que o jornalismo acabou, pelo menos em Portugal, quando toda a gente começou a saber de jornalismo, a ser especialista, exactamente no momento em que todos são jornalistas, menos nós os encartados, os jornalistas antigamente ditos.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Chegou a vez deles

Foto Hernâni Von Doellinger

Começava o ano de 2009 e o grupo Controlinveste, de Joaquim Oliveira, perpetrou o despedimento colectivo de 122 trabalhadores, mais de 50 dos quais eram jornalistas. A Controlinveste era dona do Diário de Notícias (DN), do Jornal de Notícias (JN), do 24horas e do desportivo O Jogo, além da rádio TSF, da revista Volta ao Mundo e dos canais televisivos SportTV. Desde os anos oitenta que não acontecia uma razia assim em Portugal, quando fecharam títulos como O Diário, o Diário Popular e o Diário de Lisboa.
Em Janeiro de 2009 eu era jornalista do 24horas no Porto e o 24horas no Porto acabou. O DN no Porto ficou reduzido ao osso e o JN passou mais ou menos incólume pelos pingos da chuva, fora o azar de uns poucos que decerto tinham a mania de desagradar às chefias, as quais, nestas coisas do salve-se quem puder, geralmente são piores do que os patrões.
Fez-se greve. Uma greve coitadinha, isto é, fizeram greve os que iam morrer, e poucos mais, embora tenha sido tentada uma coisa em grande, testicular, greve geral do grupo, num plenário que foi uma desgraça. Os jornalistas do JN, sobretudo os promissores jornalistas do JN, evidentemente na rampa de lançamento para voos que afinal nunca alcançaram, avisaram logo que não, que era preciso ver o quadro completo, não vamos agora prejudicar uns por causa dos outros, que já estão condenados e estão, as coisas são como são, sejamos realistas, é uma chatice, isso é, pá, acontece, solidariedade, sim, obviamente, para isso cá estamos, força!, mas uma palmadinha nas costas também já chega.
Eu disse: "para palermas não estais nada mal, meus refinados filhosdeputa, e ainda me vou rir quando chegar a vossa vez", e vim-me embora a meio da coisa. Vim-me mesmo embora. Literalmente. Definitivamente. Tiveram de me procurar, se quiseram "despedir-me"...
Termina o ano de 2023. A Controlinveste, de Joaquim de Oliveira, chama-se agora Global Media Group (GMG), detém os títulos JN, DN, TSF, O Jogo, Dinheiro Vivo, Notícias Magazine, Delas, N-TV, Motor24, Men's Health, Women's Health e Açoriano Oriental, e vai desempregar mais 150 trabalhadores, parece que 40 só na redacção do JN. Ó caralho! Aqui-d'el-rei, que isto agora é connosco, gritou-se ali para os lados do Monte dos Burgos, que a Torre foi vendida para hotel, o JN fez mesmo greve, e logo dois dias, viva o luxo!, não saiu à rua "pela primeira vez em 35 anos" e foi um sucesso.
Ou por outra, chegou a vez dos palermas de 2009 e eu, devo confessar, afinal não acho piada nenhuma...

P.S. - O Sindicato dos Jornalistas propõe uma paralisação de uma hora no próximo dia 6 de Janeiro em todas as redacções de Portugal continental e ilhas, "num abraço solidário a estes camaradas", isto é, aos jornalistas do GMG, isto é, aos "corajosos" jornalistas do JN. O que é porreiro e, por outro lado, não deixa de ser irónico.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Um ano negro para os artistas

O mundo estremeceu de comoção. E, se o mundo estremece, Portugal abana. Que tragédia, que cataclismo, que ano negro! Foi em 2016. Morreram, entre outros famosos mais-ou-menos, Prince, David Bowie, Leonard Cohen, George Michael, a Princesa Leia, e Bob Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura.
A comunicação social portuguesa ficou em choque: um annus horribilis para os artistas, Deus nos abençoe e guarde! E escreveu-se, e escreveu-se, e escreveu-se...
Ora, artistas - em bom e antigo português - são também os nossos trolhas, os nossos pedreiros e os nossos carpinteiros, por exemplo. Artistas, assim se dizia e eu continuo a dizer. Conversei na ocasião com Albano Ribeiro, o eterno presidente do Sindicato da Construção de Portugal, que me contou o seguinte:
Trinta e nove (39) operários da construção civil morreram a trabalhar, em Portugal, naquele ano. E, em quatro meses, morreram seis (6) trabalhadores portugueses em obras por essa Europa fora, número grande em tempo de drástica redução de empreitadas e ainda sem estádios para construir no Catar.
Albano Ribeiro queria falar com os senhores jornalistas acerca deste e de outros assuntos relativos aos nossos artistas. Convidou a comunicação social portuguesa para uma conferência de imprensa que deveria realizar-se numa sexta-feira a uma hora cómoda. Ninguém apareceu.

P.S. - Hoje é Dia do Trabalhador da Construção Civil. No Brasil.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Jornalistas

Perguntaram-lhe:
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.  

P.S. - Hoje, 2 de Novembro, é Dia internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes Contra Jornalistas.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

O filósofo Carrilho e o carralho do mediatismo

Manuel Maria Carrilho. A notícia dizia: "O antigo ministro da Cultura tem dado várias entrevistas ao longo dos últimos dias. No sábado, disse não saber como lidar com o mediatismo em torno da separação de Bárbara Guimarães." Eu ensino-o, Senhor Professor: deixe de dar entrevistas.

P.S. - Publicado no dia 4 de Novembro de 2013, e tudo continua na mesma. Já agora: Bárbara Guimarães faz hoje 48 anos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Assassinado por formigas

Quando saiu a notícia de que Cícero foi assassinado em Fórmias, edição de 7 Dezembro de 43 antes de Cristo, houve logo quem percebesse que o ilustre político, escritor, orador e filósofo romano fora devorado por formigas. Hoje em dia na nossa comunicação social o lamentável equívoco persiste. Porque os jornais digitais e até os analógicos não têm tempo para.  

domingo, 16 de agosto de 2020

Elvis não morreu, eu é que praticamente

"Cristo morreu, Marx também, e eu já não me sinto nada bem", dizia mais ou menos assim a famosa frase humorístico-panfletária das décadas de sessenta e setenta do século passado. Cristo morreu mas ressuscitou, Marx só não ressuscitou porque era materialista ateu e imprevidente, mas anda por aí como o nosso Santana Lopes, e eu, nesta historieta, não interesso para nada. Porém. Cultivo aqui no Tarrenego! uma comprovada teoria que se chama "Elvis não morreu e o 24horas também não". Assim. Elvis Presley morreu no dia 16 de Agosto de 1977. Ou, melhor dizendo, foi exactamente nesse dia que ele não morreu. Anda por aí, como Cristo, como Marx e como Santana Lopes. O jornal 24horas morreu oficialmente no dia 30 de Junho de 2010. Ou, melhor dizendo, foi exactamente nesse dia que ele não morreu. Também anda por aí: chama-se agora Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Sábado, Observador, Diário de Notícias, Sol, Record, A Bola, O Jogo e assim sucessivamente...

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Para quem não acredita em discos voadores

Foto Hernâni Von Doellinger

Uma vez eu vi um disco voador. Vi, fotografei e publiquei - porque estas coisas são como as partes baixas, não se dizem, mostram-se! Lembro-me como se fosse no dia 14 de Janeiro de 2013. Apresentei no Tarrenego!, em exclusivo mundial, o retrato indesmentível de um opni pairando sobre o mar do Porto, do lado direito do Castelo do Queijo, com o Parque da Cidade pelas costas. Ninguém quis saber.
Semana e meia depois, o Correio da Manhã, jornal de todos os espantos e outros antiportismos, viu um ovni na América. Um ovni que, devidamente esmiuçado, não passava de "um raio resultante de um efeito luminoso" - assim explicado por especialistas. E no entanto, graças ao Correio da Manhã, o ovni americano que nunca existiu foi um sobressalto nacional. O Correio da Manhã faz tudo de uma coisa de nada. E faz nada quanto a decoro, respeito e deontologia. Deixo de fora a compaixão, que realmente não é chamada aos jornais.
O meu opni passou incógnito. Não era Cascais, era no Porto, resvés com Matosinhos, e por isso ninguém ligou. Nem as agências internacionais nem o Correio da Manhã: não metia Pinto da Costa nem suicídios semelhantes, portanto não interessava para nada. E assim desperdiçamos o pouco que vamos tendo, até o que nos cai do céu, e é por estas e por outras que este país não vai para a frente.
É o que eu digo: dá Deus ovnis a quem não tem dentes.

P.S. - Hoje, 24 de Junho, é Dia Internacional do Disco Voador. A fotografia lá de cima é fidedigna e eloquente: repare-se que o mar até descai para a direita, o que normalmente acontece no decurso destes avistamentos.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A estupidez não é doença, mas é viral

A gripe espanhola, ou pneumónica, apareceu em 1918, e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Absolutamente viral, como hoje se diria. Viral. Isto é: um verdadeiro caso de sucesso, um êxito tremendo...

A gripe ou peste pneumónica foi uma pandemia provocada pelo vírus influenza. Só em Portugal continental matou mais de 60 mil pessoas. Um vírus é geralmente causador de doenças graves. A estupidez não é doença, mas é viral, e fica muito bem nas chamadas redes sociais, onde se rompem as palavras sem cuidar de se saber o que elas querem dizer. Viral acima, viral abaixo, tudo é viral, e os jornais todos iguais, que não querem ser menos estúpidos do que os outros, copiam e amplificam as tolérias da ditas redes sociais, tudo em nome de um clique, tudo em busca da audiência perdida. Agora, com o novo coronavírus à perna, pode ser que uns e outros, os simpatizantes e os encartados, aprendam - se souberem aprender e se conseguirem perceber o que se lhes passa à volta - o real poder da palavra viral e a guardem bem guardada para o que infelizmente lhe diz respeito.

P.S. - As primeiras sete linhas publiquei-as originalmente no dia 5 de Julho de 2016. É curioso...

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Cuidado, o Ferreira Fernandes faz-me falta!

Também acontece aos melhores
Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe se calhar os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre.

Entre piçada e pissada, que escolha quem puder
A palavra apareceu-me à esquina pela pena do cronista Ferreira Fernandes, que eu tando respeito e admiro, embora lastime que ele tenha amouchado perante o, por assim dizer, novo acordo ortográfico. A palavra é "pissada". Andei à procura dela e não a vi em sítio de respeito, em local de idoneidade gramatical que me obrigasse a pensar: sim, "pissada" é mesmo assim. Mas, pronto, que seja "pissada", porque, na verdade, encontrei duas ou três "pissas" em dicionários alternativos. Eu, pela parte que me toca, continuarei a piçar com toda a potência, sem medo de que me achem malcriado ou tarado da cedilha. Piçarei, aliás, até que a vós vos doa. Dar uma piçada, levar uma piçada, deixemo-nos de hipocrisias, bem sabemos de onde é que a coisa vem. De resto, confundir "pissada" com piçada pode, consoante as circunstâncias, ser até caso de extrema gravidez.

Aprendi a adivinhar Ferreira Fernandes
Os chamados jornais digitais, agora, para serem lidos, tem de se meter a moeda. Não sei achar a esse respeito. Os artigos considerados mais importantes vêm com etiqueta de "premium" e só saem à casa, se saírem, mas estão acima das minhas actuais possibilidades, e portanto não jogo. A verdade é que só me faz falta o Ferreira Fernandes, lamentavelmente pago à linha, embora director do Diário de Notícias.
O Ferreira Fernandes é o meu cronista preferido, já disse. E gosto tanto de o ler que creio que já lhe apanhei o lado para onde descai o bilhar. E então o que é que eu faço? Pego no engodo, aquele paragrafozinho inicial dado à babuge, leio-o uma, duas ou três vezes, que continua a ser de graça, e suponho o resto do texto, porque o Ferreira Fernandes, noves fora os truques comerciais, é o Ferreira Fernandes que eu sei.

P.S. - Jornais digitais eram os antigos, em papel, folheados com os dedos molhados com cuspe, ou desfolhados, como dizia e diz um certo jornalismo analfabeto que prospera.

O incrível Diário de Notícias
A Senhora Judite de Sousa deu uma entrevista à Senhora Fátima Lopes, na inauguração do programa "Conta-me como és", da TVI. O Diário de Notícias de Lisboa apresentou o seguinte título, espremendo o essencial do que a Senhora Judite de Sousa disse à Senhora Fátima Lopes: "Já passei dias sem tomar banho e já comi borrego com as mãos". O que é extraordinário! Nunca soube de ninguém que tivesse passado por tanto. Já se nota o dedo do Senhor Ferreira Fernandes...

No Diário de Notícias está tudo bêbado?
O jornal Diário de Notícias de Lisboa publica um artigo copiado do jornal New York Times da América, e publica-o em inglês. A interessante e extensa prosa, que infelizmente não sei o que quer dizer, chama-se de nome completo Spain and Portugal Play a Draw for the Ages, Starring a Player for All Time, e eu só percebi aquela parte do bítala da bateria, o Ringo Starring. Mais uma vez, já se nota o dedo do meu ídolo Ferreira Fernandes.

Desgraçadamente, o jornal Diário de Notícias de Lisboa está fechando portas, às prestações. De momento vai passar a semanário. Percebi isso numas declarações da directora executiva Catarina Carvalho em que ela parecia querer explicar que não.

P.S. - Textos publicados originalmente entre os dias 1 de Maio de 2012 e 3 de Fevereiro de 2019. Pareço bruxo! Ferreira Fernandes demitiu-se de director do DN. Aguentou apenas dois anos e faz-me lembrar uma pessoa que conheço como se me visse ao espelho. Saiu inteiro e de cara lavada, como gosta de dizer, mas durante dois anos o agora ex-director avalizou e acoitou uma gente que não respeita ninguém e que, por isso, mão merece o aval, o colo ou sequer o respeito de ninguém. Outra coisa é, Senhor Ferreira Fernandes: escreva! Continue a escrever-me, por favor.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O cancro, entre "vencedores" e "vencidos"

Um dos títulos mais useiramente infelizes na nossa comunicação social são dois: "Fulano venceu o cancro" e "Sicrano derrotado pelo cancro". Os heróis e os falhados. Ultrapassa-se o cancro simplesmente porque se faz muita força, morre-se de cancro por indecente e má figura.
Ora, a realidade lá fora dos teclados e da tabela de vendas não é assim. Sobreviver ao cancro está muito pouco nas mãos de quem o padece. Depende de tantas e tantas variáveis exteriores ao doente e à "coragem" do doente, que só vou citar duas, dinheiro e médicos, e nada é garantido, e tudo se resume, no final, a tempo, sorte ou azar. Não há fortes e fracos, competentes e incompetentes, lutadores e cobardes. Não há vencedores nem vencidos nisto do cancro, assunto sério. É a vida.

Imagine-se o ridículo que seria levar o jargão jornalístico até às últimas consequências e, em casos de atropelamento, escrevermos, elogiando os sobreviventes, "Fulano venceu a motorizada", aos pontos obviamente, ou, injustiçando os mortos, "Sicrano derrotado pelo motociclo". Horrível, não é? Pois com o cancro também.

P.S. - Não posso garantir que esta seja a última vez que republico este textinho de protesto. É a minha luta contra a estupidez.

domingo, 8 de dezembro de 2019

O Chico Gordo que agora é magro

Na década de 70 do século passado houve em Portugal um notável avançado chamado Chico Gordo. Bernardo Francisco da Silva passou pelo FC Porto, Tirsense, Lourosa, Braga (creio que ainda é o melhor marcador da história dos arsenalistas no campeonato) e Setúbal, tendo brilhado também a grande altura numa famosa equipa do FC Moxico que foi campeã de Angola na época de 1972/73, portanto no tempo ainda da Guerra Colonial, ao lado de outros craques como Varela, Valença (o Fafe) ou Seninho. Exactamente, esse Seninho supersónico que, anos mais tarde, deixou as Antas para se juntar a Pelé, Carlos Alberto, Beckenbauer, Chinaglia ou Neskeens nos galácticos originais, os New York Cosmos, nos EUA.
Mas estão a ver o Chico Gordo, que por acaso até era magro, não estão?
Pronto, não era dele que eu queria falar. Era de outro Chico, que, este sim, está gordo como um chino: o Francisco José Viegas, que parece rebentar pelas costuras. Vi-o ontem, por acaso, em Caminha, onde o novo secretário de Estado da Cultura teve de gramar a pastilha de servir de aio de honor ao Presidente da República, que visitava a vila alto-minhota.
O Chico está o mesmo: um tipo porreiro, sem peneiras de governante, de fato cinzento mas sem gravata (ele nunca foi de gravata e também não há para aquela tamanho), agarrado à cigarrilha porque ainda era cedo para o charuto, sem séquito de chegamissos, passando pelo meio do povo que aguardava Cavaco Silva, pedindo educada e discretamente "dá licença, dá licença" como outra pessoa qualquer. E isto é bom.
Mas está mais largo, muito mais largo. Para os lados e para a frente. E isto pode ser mau. O Chico, Deus o abençoe, gosta do melhor que a vida tem: da boa mesa, de um bom vinho, de um puro cubano, do FC Porto, de uma charla entretida. Mas tem de se pôr a pau. Não só por questões de saúde ou estética, nem por ter a obrigação de ser agora, mais do que antes, um exemplo para o País. É que ele já tem problemas que cheguem com o Fisco, e, nos tempos que correm, tanta gordura até pode ser considerada sinal exterior de riqueza e ainda acaba a pagar imposto.

Já agora: como gostei de ver a descontracção e o empenho com que Maria Cavaco Silva cantou o Hino Nacional tocado pela Banda de Lanhelas! O secretário de Estado da Cultura, nem nota...

P.S. - Texto escrito originalmente no dia 17 de Julho de 2011. Torno a ele porque acabo de ver o bom do Francisco José Viegas na entrevista do Júlio Magalhães do Porto Canal. E o Francisco agora é magro. Esqueçam portanto o Chico Godo na parte que toca ao Viegas. E estimo-lhe que seja saúde.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Assassinado por formigas

Quando saiu a notícia de que Cícero foi assassinado em Fórmias, edição de 7 Dezembro de 43 antes de Cristo, houve logo quem percebesse que o ilustre político, escritor, orador e filósofo romano fora devorado por formigas. Hoje em dia na nossa comunicação social o lamentável equívoco persiste. Porque os jornais digitais e até os analógicos não têm tempo para.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Breve

As televisões e os jornais e as revistas cor-de-rosa dos jornais e das televisões das revistas cor-de-rosa. Primeiro, Jorge Jesus e o Flamengo e a Taça Libertadores e o título brasileiro e a condecoração a haver. Agora, Greta Thunberg e a Doca de Alcântara e os deputados e o Zero e os títulos e a condecoração a haver. Um fartote, uma consumição. Porque é que não nos deixam em paz e não nos dão apenas a noticiazinha? Por outro lado. A jovem Greta Thunberg, dezasseis anos, tem advogado e, assim ditos, representantes, equipa, entourage, staff. O vetusto Jorge Jesus, sessenta e cinco anos, também. São realmente duas multinacionais e certamente ambas movimentam uns milhões valentes. Percebo.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Quando me mandaram oferecer vinho ao Saddam

Foto Hernâni Von Doellinger

Isto foi para aí em 2002, portanto um ano antes da invasão do Iraque, e aconteceu quando chegou a Portugal a inesperada porém impactante notícia de que Saddam Hussein se perdia de amores pelo nosso Mateus Rosé. O meu jornal mandou-me logo escrever uma artigalhada sobre o momentoso assunto e comprar uma caixa do mais famoso vinho português para oferecer, "com um cartãozinho simpático", ao ditador de Bagdade. Perante a minha perplexidade telefónica a propósito da segunda parte do serviço, Lisboa explicou-me o jornalístico intuito da genial ideia, sufocando-me à nascença todos os mas: "Se o gajo nos responder depois a agradecer, é o máximo, dá uma capa fantástica. Mas se não disser nada... também dá uma coisa gira. Então vá..."
E eu fui. Comprei o vinho e escrevi o texto. Um texto pequeno que andava à volta disto: o Saddam gosta de Mateus Rosé. Era capaz de ter também alguma graça, já não me lembro, mas quando digo andar à volta é mesmo andar à volta, fazer chouriço, meter palha, usar e abusar da técnica de composição musical da variação (e fuga), porque a "notícia" não tinha mais nada para dizer, era oca por dentro. E foi manchete no dia seguinte.

(Permitam-me abrir aqui um parêntese pedagógico, para proteger os caros leitores da tentação de conclusões precipitadas e injustas acerca do meu jornal. Deixem-me esclarecer o seguinte: num certo sentido, o 24horas foi o precursor do jornalismo que hoje se faz em Portugal - um jornalismo de títulos, colorido e imaginativo, a que, para ser perfeito, só falta o pequeno pormenor da informação, isto é, as noticiazinhas. Hoje os jornais portugueses são todos iguais ao 24horas. Uma diferença apenas os separa: o 24horas era, nos seus bons tempos, o melhor pior jornal do País, era um mau jornal muito bem feito. E ficava barato ao dono. Depois veio a rapaziada e tomou conta.)

Meti a caixa de vinho num armário da redacção. Eu já tinha aprendido que as geniais ideias vindas de Lisboa padeciam de tesão breve e alzheimer. Regra geral, no dia seguinte os nossos criativos e bem-intencionados chefes já não se lembravam das figuras tristes que nos tinham mandado fazer no dia anterior. E mandavam-nos fazer outras. Assim foi.
Em Dezembro de 2003 apanharam Saddam e eu pensei: "Agora é que era de lhe mandar o Rosé, para lhe animar o Natal na prisão". E deixei-me estar. O ex-presidente iraquiano foi executado três anos depois, como se viu no YouTube, e as garrafas lá continuaram no armário, até ao dia em que Lisboa veio ao Porto anunciar que o Porto ia fechar para salvar o jornal. Isto é, para salvar Lisboa. Começava o ano de 2009 e desfizeram-se de nós. Eu trouxe para casa duas garrafas do Mateus Rosé de Saddam Hussein, as do retrato.
O 24horas acabou por não se safar, mas "Lisboa" sim e é o que eu lhes estimo. Os alegados responsáveis estão agora a enganar noutro lugar. As duas garrafas de Mateus Rosé ainda cá estão, a fazerem de pai e mãe de uma outra, de aguardente do Salazar, parece que engarrafada pelo próprio, como me garantiu, no acto da oferta em Santa Comba Dão, o sobrinho-neto do nosso estimado ditador. Estão bem umas para as outras, as garrafas. E os outros também.

P.S. - Texto publicado originalmente no dia 9 de Março de 2012. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal. Quanto ao sanguinário e desgraçado Saddam, faz hoje treze anos que foi condenado à morte.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Os simples à hora dos telejornais

António Marinho e Pinto abriu esta manhã os trabalhos da Assembleia Nacional de Filiados do Partido Democrático Republicano (PDR) homenageando a simplicidade, conta o jornal Público. Cai-me bem isto de chamarem "trabalhos" a uma coisa que é só conversa. O PDR (como, aqui há uns anos, o PRD) não é como os outros. "Quem espera espectáculo, engana-se, vamos trabalhar", disse o líder que antes de o ser já o era.
"É ao fim da tarde, à hora dos telejornais, que o líder do PDR fará o que ele próprio definiu, ao Público, como uma declaração política importante."
À hora dos telejornais exactamente. Porque Marinho e Pinto e o PDR não querem espectáculo.

P.S. - Apontamento publicado originalmente no dia 24 de Maio de 2015. Hoje, 18 de Outubro de 2019, a RTP festeja os 60 anos do seu Telejornal, o inicial e verdadeiro. Os telejornais eram uma coisa porreira, feitos os devidos descontos, porque davam telenotícias - o que era então extraordinário. Agora os telejornais são uma treta. São a telenovela antes da telenovela.)