domingo, 20 de abril de 2025
As aparições
sábado, 20 de abril de 2024
Chamam-lhe train surfing
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Isto, portanto, há nove anos, altura em que a coisa terá começado. Os putos chamam a isto, cá em cima, "andar à guna". Entretanto, em Abril de 2019, quatro destes gabirus, com 15 ou 16 anos, caíram à linha em Rio Tinto quando andavam nestes perigosos preparos, foram atropelados e ficaram feridos, dois deles em estado grave. E em Maio do ano anterior morrera uma rapariga de 13 anos. De acordo com os mais recentes avistamentos, a toléria continua. Os jornais e as televisões chamam a esta merda train surfing, o que lhe empresta um ar desportivo, radical, aventureiro, jovem e dinâmico, desafiante, descontraído, nome de nova modalidade olímpica. Eu chamo-lhe estupidez. Estupidez natural.
quinta-feira, 7 de março de 2024
Os telejornais
| Imagem RTP |
A RTP iniciou as suas emissões regulares, nos Estúdios do Lumiar, em Lisboa, no dia 7 de Março de 1957, faz hoje anos. E o primeiro Telejornal, o original e verdadeiro, cujo alinhamento está ali em cima, foi para o ar no dia 18 de Outubro de 1959. Os telejornais eram uma coisa porreira, feitos os devidos descontos, porque davam telenotícias - o que era então extraordinário. Agora os telejornais são uma treta. São a telenovela antes da telenovela. E eu não vejo. Há anos!
sábado, 20 de janeiro de 2024
O jornalismo e o seu fim
O que é curioso é que o jornalismo acabou, pelo menos em Portugal, quando toda a gente começou a saber de jornalismo, a ser especialista, exactamente no momento em que todos são jornalistas, menos nós os encartados, os jornalistas antigamente ditos.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
Chegou a vez deles
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Começava o ano de 2009 e o grupo Controlinveste, de Joaquim Oliveira, perpetrou o despedimento colectivo de 122 trabalhadores, mais de 50 dos quais eram jornalistas. A Controlinveste era dona do Diário de Notícias (DN), do Jornal de Notícias (JN), do 24horas e do desportivo O Jogo, além da rádio TSF, da revista Volta ao Mundo e dos canais televisivos SportTV. Desde os anos oitenta que não acontecia uma razia assim em Portugal, quando fecharam títulos como O Diário, o Diário Popular e o Diário de Lisboa.
quarta-feira, 26 de outubro de 2022
Um ano negro para os artistas
A comunicação social portuguesa ficou em choque: um annus horribilis para os artistas, Deus nos abençoe e guarde! E escreveu-se, e escreveu-se, e escreveu-se...
Ora, artistas - em bom e antigo português - são também os nossos trolhas, os nossos pedreiros e os nossos carpinteiros, por exemplo. Artistas, assim se dizia e eu continuo a dizer. Conversei na ocasião com Albano Ribeiro, o eterno presidente do Sindicato da Construção de Portugal, que me contou o seguinte:
Trinta e nove (39) operários da construção civil morreram a trabalhar, em Portugal, naquele ano. E, em quatro meses, morreram seis (6) trabalhadores portugueses em obras por essa Europa fora, número grande em tempo de drástica redução de empreitadas e ainda sem estádios para construir no Catar.
Albano Ribeiro queria falar com os senhores jornalistas acerca deste e de outros assuntos relativos aos nossos artistas. Convidou a comunicação social portuguesa para uma conferência de imprensa que deveria realizar-se numa sexta-feira a uma hora cómoda. Ninguém apareceu.
segunda-feira, 26 de setembro de 2022
Profissão, jornalista
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.
terça-feira, 2 de novembro de 2021
Jornalistas
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.
quarta-feira, 21 de abril de 2021
O filósofo Carrilho e o carralho do mediatismo
Manuel Maria Carrilho. A notícia dizia: "O antigo ministro da Cultura tem dado várias entrevistas ao longo dos últimos dias. No sábado, disse não saber como lidar com o mediatismo em torno da separação de Bárbara Guimarães." Eu ensino-o, Senhor Professor: deixe de dar entrevistas.
P.S. - Publicado no dia 4 de Novembro de 2013, e tudo continua na mesma. Já agora: Bárbara Guimarães faz hoje 48 anos.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
Assassinado por formigas
Quando saiu a notícia de que Cícero foi assassinado em Fórmias, edição de 7 Dezembro de 43 antes de Cristo, houve logo quem percebesse que o ilustre político, escritor, orador e filósofo romano fora devorado por formigas. Hoje em dia na nossa comunicação social o lamentável equívoco persiste. Porque os jornais digitais e até os analógicos não têm tempo para.
domingo, 16 de agosto de 2020
Elvis não morreu, eu é que praticamente
quarta-feira, 24 de junho de 2020
Para quem não acredita em discos voadores
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Uma vez eu vi um disco voador. Vi, fotografei e publiquei - porque estas coisas são como as partes baixas, não se dizem, mostram-se! Lembro-me como se fosse no dia 14 de Janeiro de 2013. Apresentei no Tarrenego!, em exclusivo mundial, o retrato indesmentível de um opni pairando sobre o mar do Porto, do lado direito do Castelo do Queijo, com o Parque da Cidade pelas costas. Ninguém quis saber.
Semana e meia depois, o Correio da Manhã, jornal de todos os espantos e outros antiportismos, viu um ovni na América. Um ovni que, devidamente esmiuçado, não passava de "um raio resultante de um efeito luminoso" - assim explicado por especialistas. E no entanto, graças ao Correio da Manhã, o ovni americano que nunca existiu foi um sobressalto nacional. O Correio da Manhã faz tudo de uma coisa de nada. E faz nada quanto a decoro, respeito e deontologia. Deixo de fora a compaixão, que realmente não é chamada aos jornais.
O meu opni passou incógnito. Não era Cascais, era no Porto, resvés com Matosinhos, e por isso ninguém ligou. Nem as agências internacionais nem o Correio da Manhã: não metia Pinto da Costa nem suicídios semelhantes, portanto não interessava para nada. E assim desperdiçamos o pouco que vamos tendo, até o que nos cai do céu, e é por estas e por outras que este país não vai para a frente.
É o que eu digo: dá Deus ovnis a quem não tem dentes.
P.S. - Hoje, 24 de Junho, é Dia Internacional do Disco Voador. A fotografia lá de cima é fidedigna e eloquente: repare-se que o mar até descai para a direita, o que normalmente acontece no decurso destes avistamentos.
segunda-feira, 27 de abril de 2020
A estupidez não é doença, mas é viral
A gripe ou peste pneumónica foi uma pandemia provocada pelo vírus influenza. Só em Portugal continental matou mais de 60 mil pessoas. Um vírus é geralmente causador de doenças graves. A estupidez não é doença, mas é viral, e fica muito bem nas chamadas redes sociais, onde se rompem as palavras sem cuidar de se saber o que elas querem dizer. Viral acima, viral abaixo, tudo é viral, e os jornais todos iguais, que não querem ser menos estúpidos do que os outros, copiam e amplificam as tolérias da ditas redes sociais, tudo em nome de um clique, tudo em busca da audiência perdida. Agora, com o novo coronavírus à perna, pode ser que uns e outros, os simpatizantes e os encartados, aprendam - se souberem aprender e se conseguirem perceber o que se lhes passa à volta - o real poder da palavra viral e a guardem bem guardada para o que infelizmente lhe diz respeito.
P.S. - As primeiras sete linhas publiquei-as originalmente no dia 5 de Julho de 2016. É curioso...
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Cuidado, o Ferreira Fernandes faz-me falta!
Ferreira Fernandes é um dos mais brilhantes cronistas do jornalismo português. E é o meu preferido. Todos os dias procuro o cantinho que lhe dão no Diário de Notícias e todos os dias me delicio e aprendo alguma coisa com ele. Ferreira Fernandes é informado, é culto, é estiloso, é escorreito, é claro, é corajoso, é honesto, é sensato, é sucinto, é simples, é assertivo. E também é benfiquista.
Ferreira Fernandes escreve de tudo, não por armanço idiota, mas porque verdadeiramente sabe de quase tudo. Escreve, por exemplo, de futebol, sem que lhe caiam as medalhas ao chão, e continua a ser um prazer lê-lo. O Barcelona e o Real Madrid, Messi e Cristiano Ronaldo, Guardiola e Mourinho devem-lhe se calhar os mais perfeitos textos que sobre eles foram escritos a nível mundial.
Ferreira Fernandes tornou ao tema do pontapé na bola na edição de ontem do DN, mas inesperadamente com uma cirúrgica preocupação doméstica. Na noite em que Rio Ave e Benfica entregaram ao FC Porto mais um título de campeão que, desta vez, parece que mais ninguém queria, o meu cronista favorito esqueceu-se do facto e resolveu escrever sobre os desarranjos intestinais do futebol português. É. Realmente, ninguém está livre.
Entre piçada e pissada, que escolha quem puder
A palavra apareceu-me à esquina pela pena do cronista Ferreira Fernandes, que eu tando respeito e admiro, embora lastime que ele tenha amouchado perante o, por assim dizer, novo acordo ortográfico. A palavra é "pissada". Andei à procura dela e não a vi em sítio de respeito, em local de idoneidade gramatical que me obrigasse a pensar: sim, "pissada" é mesmo assim. Mas, pronto, que seja "pissada", porque, na verdade, encontrei duas ou três "pissas" em dicionários alternativos. Eu, pela parte que me toca, continuarei a piçar com toda a potência, sem medo de que me achem malcriado ou tarado da cedilha. Piçarei, aliás, até que a vós vos doa. Dar uma piçada, levar uma piçada, deixemo-nos de hipocrisias, bem sabemos de onde é que a coisa vem. De resto, confundir "pissada" com piçada pode, consoante as circunstâncias, ser até caso de extrema gravidez.
Aprendi a adivinhar Ferreira Fernandes
Os chamados jornais digitais, agora, para serem lidos, tem de se meter a moeda. Não sei achar a esse respeito. Os artigos considerados mais importantes vêm com etiqueta de "premium" e só saem à casa, se saírem, mas estão acima das minhas actuais possibilidades, e portanto não jogo. A verdade é que só me faz falta o Ferreira Fernandes, lamentavelmente pago à linha, embora director do Diário de Notícias.
O Ferreira Fernandes é o meu cronista preferido, já disse. E gosto tanto de o ler que creio que já lhe apanhei o lado para onde descai o bilhar. E então o que é que eu faço? Pego no engodo, aquele paragrafozinho inicial dado à babuge, leio-o uma, duas ou três vezes, que continua a ser de graça, e suponho o resto do texto, porque o Ferreira Fernandes, noves fora os truques comerciais, é o Ferreira Fernandes que eu sei.
P.S. - Jornais digitais eram os antigos, em papel, folheados com os dedos molhados com cuspe, ou desfolhados, como dizia e diz um certo jornalismo analfabeto que prospera.
O incrível Diário de Notícias
A Senhora Judite de Sousa deu uma entrevista à Senhora Fátima Lopes, na inauguração do programa "Conta-me como és", da TVI. O Diário de Notícias de Lisboa apresentou o seguinte título, espremendo o essencial do que a Senhora Judite de Sousa disse à Senhora Fátima Lopes: "Já passei dias sem tomar banho e já comi borrego com as mãos". O que é extraordinário! Nunca soube de ninguém que tivesse passado por tanto. Já se nota o dedo do Senhor Ferreira Fernandes...
No Diário de Notícias está tudo bêbado?
O jornal Diário de Notícias de Lisboa publica um artigo copiado do jornal New York Times da América, e publica-o em inglês. A interessante e extensa prosa, que infelizmente não sei o que quer dizer, chama-se de nome completo Spain and Portugal Play a Draw for the Ages, Starring a Player for All Time, e eu só percebi aquela parte do bítala da bateria, o Ringo Starring. Mais uma vez, já se nota o dedo do meu ídolo Ferreira Fernandes.
Desgraçadamente, o jornal Diário de Notícias de Lisboa está fechando portas, às prestações. De momento vai passar a semanário. Percebi isso numas declarações da directora executiva Catarina Carvalho em que ela parecia querer explicar que não.
P.S. - Textos publicados originalmente entre os dias 1 de Maio de 2012 e 3 de Fevereiro de 2019. Pareço bruxo! Ferreira Fernandes demitiu-se de director do DN. Aguentou apenas dois anos e faz-me lembrar uma pessoa que conheço como se me visse ao espelho. Saiu inteiro e de cara lavada, como gosta de dizer, mas durante dois anos o agora ex-director avalizou e acoitou uma gente que não respeita ninguém e que, por isso, mão merece o aval, o colo ou sequer o respeito de ninguém. Outra coisa é, Senhor Ferreira Fernandes: escreva! Continue a escrever-me, por favor.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
O cancro, entre "vencedores" e "vencidos"
Ora, a realidade lá fora dos teclados e da tabela de vendas não é assim. Sobreviver ao cancro está muito pouco nas mãos de quem o padece. Depende de tantas e tantas variáveis exteriores ao doente e à "coragem" do doente, que só vou citar duas, dinheiro e médicos, e nada é garantido, e tudo se resume, no final, a tempo, sorte ou azar. Não há fortes e fracos, competentes e incompetentes, lutadores e cobardes. Não há vencedores nem vencidos nisto do cancro, assunto sério. É a vida.
Imagine-se o ridículo que seria levar o jargão jornalístico até às últimas consequências e, em casos de atropelamento, escrevermos, elogiando os sobreviventes, "Fulano venceu a motorizada", aos pontos obviamente, ou, injustiçando os mortos, "Sicrano derrotado pelo motociclo". Horrível, não é? Pois com o cancro também.
P.S. - Não posso garantir que esta seja a última vez que republico este textinho de protesto. É a minha luta contra a estupidez.
domingo, 8 de dezembro de 2019
O Chico Gordo que agora é magro
Mas estão a ver o Chico Gordo, que por acaso até era magro, não estão?
Pronto, não era dele que eu queria falar. Era de outro Chico, que, este sim, está gordo como um chino: o Francisco José Viegas, que parece rebentar pelas costuras. Vi-o ontem, por acaso, em Caminha, onde o novo secretário de Estado da Cultura teve de gramar a pastilha de servir de aio de honor ao Presidente da República, que visitava a vila alto-minhota.
O Chico está o mesmo: um tipo porreiro, sem peneiras de governante, de fato cinzento mas sem gravata (ele nunca foi de gravata e também não há para aquela tamanho), agarrado à cigarrilha porque ainda era cedo para o charuto, sem séquito de chegamissos, passando pelo meio do povo que aguardava Cavaco Silva, pedindo educada e discretamente "dá licença, dá licença" como outra pessoa qualquer. E isto é bom.
Mas está mais largo, muito mais largo. Para os lados e para a frente. E isto pode ser mau. O Chico, Deus o abençoe, gosta do melhor que a vida tem: da boa mesa, de um bom vinho, de um puro cubano, do FC Porto, de uma charla entretida. Mas tem de se pôr a pau. Não só por questões de saúde ou estética, nem por ter a obrigação de ser agora, mais do que antes, um exemplo para o País. É que ele já tem problemas que cheguem com o Fisco, e, nos tempos que correm, tanta gordura até pode ser considerada sinal exterior de riqueza e ainda acaba a pagar imposto.
Já agora: como gostei de ver a descontracção e o empenho com que Maria Cavaco Silva cantou o Hino Nacional tocado pela Banda de Lanhelas! O secretário de Estado da Cultura, nem nota...
P.S. - Texto escrito originalmente no dia 17 de Julho de 2011. Torno a ele porque acabo de ver o bom do Francisco José Viegas na entrevista do Júlio Magalhães do Porto Canal. E o Francisco agora é magro. Esqueçam portanto o Chico Godo na parte que toca ao Viegas. E estimo-lhe que seja saúde.
sábado, 7 de dezembro de 2019
Assassinado por formigas
domingo, 1 de dezembro de 2019
Breve
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Quando me mandaram oferecer vinho ao Saddam
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Isto foi para aí em 2002, portanto um ano antes da invasão do Iraque, e aconteceu quando chegou a Portugal a inesperada porém impactante notícia de que Saddam Hussein se perdia de amores pelo nosso Mateus Rosé. O meu jornal mandou-me logo escrever uma artigalhada sobre o momentoso assunto e comprar uma caixa do mais famoso vinho português para oferecer, "com um cartãozinho simpático", ao ditador de Bagdade. Perante a minha perplexidade telefónica a propósito da segunda parte do serviço, Lisboa explicou-me o jornalístico intuito da genial ideia, sufocando-me à nascença todos os mas: "Se o gajo nos responder depois a agradecer, é o máximo, dá uma capa fantástica. Mas se não disser nada... também dá uma coisa gira. Então vá..."
E eu fui. Comprei o vinho e escrevi o texto. Um texto pequeno que andava à volta disto: o Saddam gosta de Mateus Rosé. Era capaz de ter também alguma graça, já não me lembro, mas quando digo andar à volta é mesmo andar à volta, fazer chouriço, meter palha, usar e abusar da técnica de composição musical da variação (e fuga), porque a "notícia" não tinha mais nada para dizer, era oca por dentro. E foi manchete no dia seguinte.
(Permitam-me abrir aqui um parêntese pedagógico, para proteger os caros leitores da tentação de conclusões precipitadas e injustas acerca do meu jornal. Deixem-me esclarecer o seguinte: num certo sentido, o 24horas foi o precursor do jornalismo que hoje se faz em Portugal - um jornalismo de títulos, colorido e imaginativo, a que, para ser perfeito, só falta o pequeno pormenor da informação, isto é, as noticiazinhas. Hoje os jornais portugueses são todos iguais ao 24horas. Uma diferença apenas os separa: o 24horas era, nos seus bons tempos, o melhor pior jornal do País, era um mau jornal muito bem feito. E ficava barato ao dono. Depois veio a rapaziada e tomou conta.)
Meti a caixa de vinho num armário da redacção. Eu já tinha aprendido que as geniais ideias vindas de Lisboa padeciam de tesão breve e alzheimer. Regra geral, no dia seguinte os nossos criativos e bem-intencionados chefes já não se lembravam das figuras tristes que nos tinham mandado fazer no dia anterior. E mandavam-nos fazer outras. Assim foi.
Em Dezembro de 2003 apanharam Saddam e eu pensei: "Agora é que era de lhe mandar o Rosé, para lhe animar o Natal na prisão". E deixei-me estar. O ex-presidente iraquiano foi executado três anos depois, como se viu no YouTube, e as garrafas lá continuaram no armário, até ao dia em que Lisboa veio ao Porto anunciar que o Porto ia fechar para salvar o jornal. Isto é, para salvar Lisboa. Começava o ano de 2009 e desfizeram-se de nós. Eu trouxe para casa duas garrafas do Mateus Rosé de Saddam Hussein, as do retrato.
O 24horas acabou por não se safar, mas "Lisboa" sim e é o que eu lhes estimo. Os alegados responsáveis estão agora a enganar noutro lugar. As duas garrafas de Mateus Rosé ainda cá estão, a fazerem de pai e mãe de uma outra, de aguardente do Salazar, parece que engarrafada pelo próprio, como me garantiu, no acto da oferta em Santa Comba Dão, o sobrinho-neto do nosso estimado ditador. Estão bem umas para as outras, as garrafas. E os outros também.
P.S. - Texto publicado originalmente no dia 9 de Março de 2012. O jornal 24horas nasceu em 1998 e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a sangue frio a Redacção do Porto. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito, e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal. Quanto ao sanguinário e desgraçado Saddam, faz hoje treze anos que foi condenado à morte.
sexta-feira, 18 de outubro de 2019
Os simples à hora dos telejornais
"É ao fim da tarde, à hora dos telejornais, que o líder do PDR fará o que ele próprio definiu, ao Público, como uma declaração política importante."
À hora dos telejornais exactamente. Porque Marinho e Pinto e o PDR não querem espectáculo.
P.S. - Apontamento publicado originalmente no dia 24 de Maio de 2015. Hoje, 18 de Outubro de 2019, a RTP festeja os 60 anos do seu Telejornal, o inicial e verdadeiro. Os telejornais eram uma coisa porreira, feitos os devidos descontos, porque davam telenotícias - o que era então extraordinário. Agora os telejornais são uma treta. São a telenovela antes da telenovela.)

