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quarta-feira, 15 de abril de 2026

A pintura do Mané

Artista compulsivo
Pintou a manta. A manta, as fronhas e os lençóis. Quando lhe vinha a musa, não tinha mão no pincel.

A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Isto é. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejolas bem bebidas e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo aos domingos de manhã, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Arte.)

quinta-feira, 13 de abril de 2023

O office-boy

No tempo em que havia trolhas em Portugal, os trolhas tinham um moço. Para além de levarem umas valentes e educativas chapadas para aprenderem nunca se soube bem o quê, os moços faziam recados:
- Moço, traz a massa!
- Moço, vai ao tasco!
- Moço, cata-me os chatos!
- Moço, toma conta se o mestre vem!
- Moço, anda cá que já vais treinar!
- Moço, agarra-me este peido e põe-mo a corar!
Era assim naquele tempo. Hoje os trolhas chamam-se pintores de construção civil, como se trolha fosse defeito. Não sei.

P.S. - Hoje é Dia do Office-Boy. No Brasil, evidentemente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Desconstrução civil

Perguntavam-lhe pela profissão e ele respondia, orgulhoso, "operário da desconstrução civil". Era um especialista, com efeito. Ele e mais dois camaradas chegavam, de marreta e pé-de-cabra, picareta pneumática e um ror de sonoras caralhadas, e num mês, mês e meio, escavacavam completamente uma casa, esvaziando-a de pavimentos, divisórias, tectos, portas, janelas, memórias e telhados. Só ficavam os alicerces ao baixo e as paredes exteriores ao alto. Depois vinham os outros, os da construção civil, e faziam mais um alojamento local.

Um ano negro para os artistas

O mundo estremeceu de comoção. E, se o mundo estremece, Portugal abana. Que tragédia, que cataclismo, que ano negro! Foi em 2016. Morreram, entre outros famosos mais-ou-menos, Prince, David Bowie, Leonard Cohen, George Michael, a Princesa Leia, e Bob Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura.
A comunicação social portuguesa ficou em choque: um annus horribilis para os artistas, Deus nos abençoe e guarde! E escreveu-se, e escreveu-se, e escreveu-se...
Ora, artistas - em bom e antigo português - são também os nossos trolhas, os nossos pedreiros e os nossos carpinteiros, por exemplo. Artistas, assim se dizia e eu continuo a dizer. Conversei na ocasião com Albano Ribeiro, o eterno presidente do Sindicato da Construção de Portugal, que me contou o seguinte:
Trinta e nove (39) operários da construção civil morreram a trabalhar, em Portugal, naquele ano. E, em quatro meses, morreram seis (6) trabalhadores portugueses em obras por essa Europa fora, número grande em tempo de drástica redução de empreitadas e ainda sem estádios para construir no Catar.
Albano Ribeiro queria falar com os senhores jornalistas acerca deste e de outros assuntos relativos aos nossos artistas. Convidou a comunicação social portuguesa para uma conferência de imprensa que deveria realizar-se numa sexta-feira a uma hora cómoda. Ninguém apareceu.

P.S. - Hoje é Dia do Trabalhador da Construção Civil. No Brasil.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

O office-boy

No tempo em que havia trolhas em Portugal, os trolhas tinham um moço. Para além de levarem umas valentes e bem merecidas chapadas para aprenderem nunca se soube o quê, os moços faziam os recados: - Moço, traz a massa!; - Moço, vai ao tasco!; - Moço, cata-me os chatos!; Moço, toma conta se o mestre vem!; - Moço, anda cá que já vais treinar!; - Moço, agarra-me este peido e põe-mo a corar! Era assim.
Hoje os trolhas chamam-se pintores de construção civil, como se trolha fosse defeito. Não sei.

P.S. - Hoje é Dia do Office-Boy. No Brasil.