Artista compulsivo Pintou a manta. A manta, as fronhas e os lençóis. Quando lhe vinha a musa, não tinha mão no pincel.
A pintura do Mané não lhe dizia grande coisa. Isto é. Asseguravam-lhe que o Mané era um grande artista, falavam-lhe do impressionismo francês, até do realismo, dos jogos de luz e de sombra, dos nus, mas ele não se deixava convencer. O Mané era um gajo porreiro, isso nem se discute, pagava umas cervejolas bem bebidas e desenrascava satisfatoriamente o lugar de defesa-esquerdo aos domingos de manhã, mas, quer-se dizer, era apenas um trolha regular e à beira da reforma. Como ele...
Um monte de fardos de palha foi, no ano de 2012, a grande atracção da
Capital Europeia da Cultura que montou tenda em Guimarães. Parece que a palha, segundo contava então o jornal Público,
não deixou ninguém indiferente à passagem pela Cidade Berço. "Há quem
abrande ou conduza com a cabeça de fora da viatura", precisava o jornal.
A mim, no entanto, tocou-me muito mais o projecto "Vi:Ela Sentada", da autoria do escultor sonoro e plástico João Ricardo de Barros Oliveira.
A instalação constava de 20 cadeiras e 40 camisas brancas penduradas
num estendal. As camisas. As cadeiras, desta vez, não. Um trabalho sem
objectivo e sem mensagem, nas esclarecedoras palavras do artista. A
inspiração veio-lhe obviamente do dióspiro, numa ocasião em que passou
por uma viela, ouviu uma conversa entre mulheres e uma sardinha caiu de
uma varanda e escorregou num guardanapo que estava a secar, afogando-se,
a sardinha, num balde de lampreias. Depois foi só pesquisar a alma
acústica e a obra nasceu.
A lógica é uma batata e a arte pode ser um dióspiro. A palha é apenas
palha. Abro aqui uma excepção no Tarrenego! e condescendo ao YouTube.
Aproveitem estes intensos dez minutos. Até ao fim, até ao tutano. Às
vezes a cultura é uma coisa muito bonita.
P.S. - Publicado originalmente no dia 15 de Agosto de 2012. Hoje, 15 de Abril, é Dia Mundial da Arte.