sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Golpe de estado, parecendo que não

Resolveu-se por um golpe de estado, mas com a máxima discrição. Queria-se uma coisa assim pelo soleno, a conta-gotas, parecendo que não, tipo estamos à espera dele e ele há que tempos! A sociedade Costa & Rio, Limitados tomou conta da empreitada. O Chega trata do resto.

Emílio Moura 4

Noiva 

Caminhas para mim como uma colegial em férias.
Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda.
És mito, mas toco-te;
realidade, te elevo e te transformo em sonho.

Por que não me revelas de onde surgiste e de que elementos te formaste?
Teus cabelos são nuvens?
Tua voz é de orvalho?

Quantas vezes me torturei inutilmente porque ainda estavas irrevelada,
- fonte oculta na mata, ária adormecida, estrela entre nuvens...

Dormias, Noiva?
Meu apelo te acorda e eis que sorris, de súbito.
E é como se eu nascesse agora.
 

"Itinerário Poético - Poemas Reunidos", Emílio Moura 

(Emílio Moura nasceu no dia 14 de Agosto de 1902. Morreu em 1971.)

Urgências

Foto Hernâni Von Doellinger

Pão, pão, queijo, queijo

Chegou e pôs tudo em pratos limpos. Aquela cozinha metia nojo...

I want to ride my bicycle 106

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Marega tem razão!

Não sei qual é o assunto, desconheço do que se trata. Mas. João Paulo Rebelo, o boneco de ventriloquia que faz de secretário de Estado da Juventude e Desportos, "discorda de Marega", dizem os jornais. Portanto Marega está certo!

Coitadinha!...

Foto Hernâni Von Doellinger

História e Geografia

"A História absolver-me-á", disse Fidel Castro em 1953. Os Americanos não ligaram. Preocupava-os, era, a Geografia.

P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Março de 2019. Fidel Castro nasceu no dia 13 de Agosto de 1926.

Interlúdio fotográfico 262

Foto Hernâni Von Doellinger

Os últimos serão os primeiros

Era sempre o último a chegar e o primeiro a falar. Dizia: - Falta alguém?...

Também faço isto muito bem 463

Foto Hernâni Von Doellinger

Ciro Palmerston Muniz 4

Origem

Minha origem
foi um ato sexual.
Fui durante tempos
um ventre redondo,
em minha mãe.
Minha origem
não é segredo.
É a origem de todo
animal, e é sublime,
e dá-me o encanto
de ter vivido
numa mulher.
Minha origem
foi gritada 

e quando nasci
houve dor e prazer.


"Do Elemento", Ciro Palmerston Muniz 

(Ciro Palmerston Muniz nasceu no dia 13 de Agosto de 1941. Morreu em 1996.)

Vidas... 12

Foto Hernâni Von Doellinger

Cala-te, boca

Se ele contasse tudo o que sabia a seu próprio respeito, estaria bem tramado. Por isso comprou um assobio...

Hodie mihi, cras tibi

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A juventude morreu de velha

Hoje, 12 de Agosto, é Dia Internacional da Juventude. Muitos parabéns a Alexandre Poço, 28 anos, líder da Juventude Social-Democrata! Viva! Muitos parabéns a Maria Begonha, 31 anos, secretária-geral da Juventude Socialista! Viva! Muitos parabéns a Francisco Mota, 31 anos, presidente interino da Juventude Centrista! Viva! Muitos parabéns a Alexandre Meireles, 39 anos, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários! Viva! E um grande forever young para ambos os quatro!...

O verde da desesperança

Foto Hernâni Von Doellinger

Era um homem muito antigo 10

Era um homem muito antigo e vivia agarrado a coisas que já não se usam. Vejam lá que quando precisava de um táxi chamava um táxi!...

Também faço isto muito bem 462

Foto Hernâni Von Doellinger

Miguel Torga 10

Livro de horas

Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.

E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


"O Outro Livro de Job", Miguel Torga

(Miguel Torga nasceu no dia 12 de Agosto de 1907. Morreu em 1995.)

Na minha rua passa o mar 86

Foto Hernâni Von Doellinger

Se soubesse o que sei hoje

- Tem razão, senhor doutor juiz: se eu soubesse o que sei hoje...
- E então o que é que sabe?...
- Eu, senhor doutor juiz? Eu? Eu não sei nada...

Vida de cão 514

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Quando o Algarve era na Póvoa de Varzim

A Póvoa de Varzim, que é Fafe no Verão, enormou-se sem rei nem roque. Cresceu a torto e a direito - e digo bem, literalmente a torto e a direito. Cuido que a culpa não é só dos fafenses apartamenteiros, que, na verdade, são mais que as mães. Outros culpados haverá, por exemplo derivados de Famalicão ou de Felgueiras, gente igualmente de mostrar e com fábricas e ferraris que entretanto faliram. As fábricas. E os operários. Os ferraris estão bem, graças a Deus, na garagem disfarçada de lavandaria atrás do lago do menino que mija e da piscina de plástico. Os da Póvoa de todo o ano só agora deram fé que foram encabados. Arruinaram-lhes os quartinhos e as vistas. São prisioneiros, vedados por um colossal muro de betão que lhes rouba a praia, o ar e a vida. A cidade dos empreiteiros aluga-se. Os autarcas também. Mas tornemos a Fafe. Quem fez ao Largo o que fez, quem fez ao Assento o que fez, quem fez ao Santo Velho o que fez, quem fez ao monte de São Jorge e a Castelhão o que fez, só pode ter construído também a Póvoa de Varzim moderna e encaixotada, é de justiça e entregue-se-lhes a medalha. E depois é mandá-los à merda pelo que fizeram da minha terra.

A Póvoa. Fafe muda-se no Verão para a Póvoa, e eu também. Não cuidem que estou a ser cínico. À falta de posses para outros algarves, eu próprio passei a fazer férias na Póvoa de Varzim, todos os anos, desde os tempos da troika - e troika, para mim, são estes três: Passos Coelho, Paulo Portas e Cavaco Silva.
As minhas férias deste ano foram no passado dia 1 de Agosto, uma terça-feira à tarde. Peguei na mulher e ala para a Póvoa, com transbordo na Senhora da Hora. Saímos depois de almoço, mas para mim o almoço já conta como férias. Comemos em casa dois bijus, um para cada, levantámos a mesa, varremos a sala, lavámos a louça, regámos os vasos, desligámos a água, a luz e o gás, fechámos a porta com três chaves e uma tranca, pedimos à vizinha que deitasse os olhos às janelas e lá fomos apanhar o metro. A viagem correu muito bem.
A Póvoa estava cheia, como costuma acontecer nesta época do ano, certamente por causa do tempo. Mas há cada vez mais andares e apartamentos para vender e quartos por alugar, de acordo com os letreiros. A língua oficial da Póvoa de Varzim, entre os meses de Junho e Agosto, é o francês com caralhos no meio. Eu e a minha mulher foi como se estivéssemos no estrangeiro, embora com caralhos no meio, e ainda há um bocadinho tínhamos saído de Matosinhos. Por falar nisso, liguei à vizinha para saber se estava tudo bem. E estava.
Aproveitámos as férias em cheio. Olhámos para o casino e para o Cego do Maio, fomos espreitar as montras com bolos, a praia, os banhos e as banhas. Fomos às piscinas, ao museu, à biblioteca, à praça de toiros e ao estádio, sempre pelo lado de fora, para não incomodar. Não percebo quem diz que não tem dinheiro para ir de férias. Eu e a minha mulher fomos e às 17h45 já estávamos outra vez em casa. Mais: resolvi fazer um prolongamento extraordinário das férias e demo-nos ao luxo de jantar. Dois bijus, um para cada.
As minhas férias ficaram-me por 10,65 euros. Ora portanto, 24 cêntimos dos dois pães do almoço, dez euros de dois andantes Z5 (cartões incluídos) para as viagens Matosinhos-Póvoa de Varzim e Póvoa de Varzim-Matosinhos, mais os 24 cêntimos dos papos-secos do jantar, uma extravagância, e 17 cêntimos da chamada para a vizinha. Total: 10,65 euros, com todas as taxas incluídas. Um bocado puxado, é verdade, e não dá para descontar no IRS, mas é uma questão de nos organizarmos durante o resto do ano. O que é preciso é saber fazer "uma boa aplicação dos recursos" que temos, como filhodaputamente dizia, no seu tempo de troika, o então alegado primeiro-ministro.
A minha mulher ainda quis ir a uma agência de viagens, para ver se a coisa nos saía mais em conta. Como se nós fôssemos uns necessitados! Mandei-a dar uma volta e ela passou as férias todas sem me falar.

A propósito de férias: as únicas pessoas que eu e a minha mulher conhecemos que nunca foram ao Brasil somos nós os dois. Mas já está resolvido: para o ano, se Deus quiser, vamos outra vez à Póvoa...

P.S. - Publicado originalmente no dia 23 de Agosto de 2013. Naquele tempo as minhas férias eram isto, e há sete anos que nem isto. Entretanto, com o novo coronavírus e sem os velhos ingleses, o Algarve descobriu que Portugal tem portugueses, os quais até serão desejados e bem-vindos ou bem-idos, consoante, agora que não há perigo de andarem a cheirar a chulé e a tirar carranhas do nariz à beira dos sofisticados turistas estrangeiros calçados de meias e sandálias. Fazem-se apelos patrióticos e de salvação nacional, das autoridades locais ao Presidente da República. Os portugueses devem, em todo o caso, aprender a falar inglês, para que o Algarve os entenda. Quanto à Póvoa, teremos sempre a Póvoa...

Interlúdio fotográfico 261

Foto Hernâni Von Doellinger

Tudo para o maneta

Com aquela generalizada mania de mandar tudo para o maneta, a verdade é que o Maneta já se ia abotoando com uma fortuna considerável.

Também faço isto muito bem 461

Foto Hernâni Von Doellinger

Ánxel Fole 6

A casa parecía máis tristenta que nunca. Resoaba a choiva nas follas das figueiras e dos magnolios. Pola outra banda do val, enriba dos montes cincentos, amosaba o arco da vella. Asubiaban as cochorras no xardín; chirlaban as anduriñas no aleiro do tellado. Sentimos os cornos dos pastores que levaban a avenza ó monte, antre penedías e piñeiraes. Arreitaban os canos do tellado faguendo un balbordo nas lousas do patio, que me traguían a lembranza dos días de choiva en Compostela. Un ballón iba, outro viña.

"Á Lus do Candil", Ánxel Fole

(Ánxel Fole nasceu no dia 11 de Agosto de 1903. Morreu em 1986.)

Caminho 825

Foto Hernâni Von Doellinger

Ponha-se no meu lugar

"Ponha-se no meu lugar, senhor doutor juiz", disse o réu. "Isso queria você", respondeu-lhe o meritíssimo.

Multidisciplinar

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Ser sequestrado é realmente uma chatice

O Verão Quente de 1975 entrava em brasa Outono adentro. Era dia 12 de Novembro. Uma manifestação dos trabalhadores da construção civil convocada pela CGTP, e com o então poderosíssimo PCP na régie, cercou o Palácio de São Bento e sequestrou a Assembleia Constituinte e o Governo, que também estava em casa. Durante 36 horas! Quem se lembra do primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo? "Estou farto de brincadeiras, ok? De brincadeiras, hã! Fui sequestrado, já duas vezes. Já chega! Não gosto de ser sequestrado! É uma coisa que me chateia, pá! E agora vou almoçar"... E foi.

P.S. - Publicado originalmente no dia 12 de Novembro de 2011. O almirante José Baptista Pinheiro de Azevedo, membro da Junta de Salvação Nacional, chefe do Estado-Maior da Armada e primeiro-ministro do VI Governo Provisório (1975-76), morreu no dia 10 de Agosto de 1983. Tinha 66 anos.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 191

Foto Hernâni Von Doellinger

Abdominais definidos

Tenho os abdominais muito bem definidos. Abdominais: referentes ao abdómen; músculos do abdómen; exercícios para fortalecer os músculos do abdómen; peixes teleósteos cujas barbatanas pélvicas estão inseridas no abdómen, atrás das peitorais; insectos coleópteros com abdómen muito desenvolvido; crustáceos cirrípedes, parasitas.

Também faço isto muito bem 460

Foto Hernâni Von Doellinger

Rui Knopfli 5

Uniforme de poeta

Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.


Rui Knopfli

(Rui Knopfli nasceu no dia 10 de Agosto de 1932. Morreu em 1997.)

Pódio

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos de Oliveira 9

Infância

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.


"Cantata", Carlos de Oliveira

(Carlos de Oliveira nasceu no dia 10 de Agosto de 1921. Morreu 1981.)

Caminho 824

Foto Hernâni Von Doellinger

Lorenzo Varela 5

Cantiga nova que se chama cadea

Esta é a cantiga nova que se chama cadea,
pois xa non hai ribeiras pras cantigas de amor.

Están os corazós nas cárceres, meu bén,
encadeados beizos,
ollos encadeados,
as longas cordas do terror abranguen
feixes de labradores, mariñeiros, xograres,
estudantes, obreiros, artesáns,
cregos do Papa Xoan,
rapazas que procraman a alborada do mundo.
Anda en canles de aceiro a sangue dos
irmáns,
e polos catro cantos, amurada,
asoballada, cuspida,
esnaquizada,
a libertade.
A libertade, amor, a libertade,
ise verdor perene que nin na morte morre.

[...]

"Homaxes", Lorenzo Varela 

(Lorenzo Varela nasceu no dia 10 de Agosto de 1916. Morreu em 1978.)

Music was my first love 74

Foto Hernâni Von Doellinger

Jorge Amado 8

Lívia olha de sua janela
o mar morto sem Lua.
Aponta a Madrugada.
Os homens,
que rondavam a sua porta,
o seu corpo sem dono,
voltaram para as suas casas.
Agora tudo é mistério.
A música acabou.
Aos poucos as coisas se animam,
os cenários se movem,
os homens se alegram.
A madrugada rompe
sobre o mar morto.

"Mar Morto",  Jorge Amado

 (Jorge Amado nasceu no dia 10 de Agosto de 1912. Morreu em 2001.)

Estás a olhar para onde?, perguntou-me o cão

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 9 de agosto de 2020

Ele há pegas e pegas

A notícia espalhou-se como fogo em mato seco: um automobilista acabara de atropelar mortalmente uma pega, toda esmigalhadinha. Assassino! Juntaram-se imediatamente o PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, dois dirigentes da Juve Leo, um dos Super Dragões, sete das inexistentes claques do Benfica, trinta e dois indignados das redes sociais, quatrocentos youtubers, seis cães que tinham levado os donos a almoçar fora e vários elementos do movimento cívico e espontâneo SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta, que está muito bem organizado para estas emergências. Rodearam o carro, arrancaram o automobilista cá para fora e encheram-no de carolos e caneladas, para ele aprender. Só não chegaram ao linchamento porque, regra geral, desconheciam a palavra, e os poucos que a conheciam de vista confundiam-na com lixamento e achavam que, para lixar o energúmeno, os carolos e as caneladas já estavam muito bem.
Apareceu a GNR. A autoridade aproveitou para também molhar a sopa, quer-se dizer, o automobilista caiu sozinho sobre duas secretárias e esbarrou-se sem ninguém lhe tocar num armário ali no meio da via, e, posto isto, foi-lhe ordenado que se explicasse. O automobilista explicou-se. E convenceu. O PAN, Os Verdes, a Quercus, a Zero, a Protectora dos Animais, a Greenpeace, os dirigentes da Juve Leo e dos Super Dargões e das inexistentes claques do Benfica, os trinta e dois indignados das redes sociais, os quatrocentos youtubers, os seis cães da vida airada, os espontâneos do SOS Grilo Careca de Asa Redonda e Perna Curta e a própria GNR fartaram-se de pedir desculpas ao homem e até lhe deram os parabéns e os primeiros-socorros. Tudo não passara de um pequeno mal-entendido, erro de comunicação. Afinal o automobilista não tinha morto uma pega ou Pica pica melanotos, seria uma tragédia, tinha apenas atropelado mortalmente uma pega meretriz de beira de estrada, Femina sapiens solteira e mãe de três filhos, toda esmigalhadinha. É chato, mas são coisas que acontecem...

P.S. - Publicado originalmente no dia 22 de Maio de 2016. No dia 9 de Agosto de 1938 o Governo português proibiu impede a abertura de novas casas de passe ou de prostituição. A prática foi oficialmente interdita em 1962.

E havia necessidade?...

Foto Hernâni Von Doellinger

No tempo das cervejas

Uma vez, em pleno pino de Verão, de férias, passeei Lisboa durante um dia inteiro sem beber uma cerveja, e bem era o tempo delas. Bati as capelas todas. Entrava aqui, entrava ali, e pedia "Uma Super Bock, se faz favor!", ou perguntava "Por favor, a imperial é Super Bock?", que não há e que não é - era Sagres e Sagres, respondiam-me invariavelmente, como se estivessem todos ensaiados e me desconhecessem de algum lado. Bebi água como a minha mulher, eu quase morria, e foi a maior e mais perigosa acção de protesto que levei a efeito em toda a minha vida.

Também faço isto muito bem 459

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Cesariny 10

Radiograma

Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar 

"Poemas de Mário Cesariny", Mário Cesariny

(Mário Cesariny nasceu no dia 9 de Agosto de 1923. Morreu em 2006.)

Travão afundo

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 8 de agosto de 2020

O melhor amigo da mulher

O cão é o melhor amigo do homem. Da mulher, há quem diga que é o gato.

Hoje, 8 de Agosto, é Dia Mundial do Gato ou Dia Internacional do Gato. Há quem diga que é no dia 17 de Fevereiro.

Aqui há gatos

Foto Hernâni Von Doellinger

Desarmado em parvo

Era tão pacifista, tão pacifista, tão objector de consciência, tão objector de consciência, tão não-violento, tão não-violento, que havia quem dissesse que ele andava sempre desarmado em parvo.

Barba e cabelo, se faxavor!

Foto Hernâni Von Doellinger

Armindo Rodrigues 8

O sol na água pousa

Alado, o sol na água pousa
e dele treme a água amedrontada,
que a ardente imagem lhe devolve em rosa
e em si própria um distante sonho ousa
de céu amargo, que não sonha nada.


"Sabor do Tempo (XVIII)", Armindo Rodrigues

(Armindo Rodrigues nasceu em 1904. Morreu em 1993.) 

À espera do Sebastião

Foto Hernâni Von Doellinger

Na ponta da língua

"Puta que pariu", desabafou a visita. "Sala 5, cama 3", indicou a auxiliar hospitalar.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Procura-se formiga!

Foto Hernâni Von Doellinger

O apelo está afixado num poste que costuma receber os tradicionais "Procura-se cão!", na estratégica Rotunda da Anémona, junto às praias, onde Porto e Matosinhos se encontram. E reza assim:
"Procura-se formiga!
- O Márcio é preto e tem cerca de 3 mm de comprimento;
- Responde a: Márcio, Docinho, Mor;
- Há uns tempos perdeu um pedaço da sua antena direita numa luta com um primo, mas nada que o fizesse perder o sorriso e a vontade de encarar a vida de forma positiva todos os dias;
- É muito amigável, dá-se bem com crianças e cães, mas não gosta de insecticida;
- Foi visto pela última vez na Av. do Brasil ao pé do Molhe a 25/07/20.
Por favor mande mensagem para @procura_se.formiga caso tenha alguma informação pertinente.
OFERECE-SE RECOMPENSA."
E digo eu: também está bem...

Bebo a isso!...

 Foto Tarrenego! 

A efeméride
Hoje, primeira sexta-feira de Agosto, é Dia Internacional da Cerveja. É um Dia De tão palerma e desnecessário como a maioria dos outros Dias De e foi inventado por uns maduros americanos de Santa Cruz, na Califórnia, em 2007. A efeméride deverá ser assinalada em meia centena de países de todo o mundo, incluindo Portugal, com todo o recato e sobriedade, no mais escrupuloso respeito pelas normas sanitárias em vigor. Isto até à primeira vomitadela ou até à segunda mijadela em público. Depois, é melhor chamar a polícia. O principal objectivo deste peculiar Dia De é, consta dos estatutos, estar com amigos para saborear a cerveja. Quer-se dizer, Dia Internacional da Cerveja é quando um homem quiser e a Direcção-Geral da Saúde deixar. E eu bebo a isso! Um quartilho de verde tinto, por exemplo...

O tempo das cervejas
Uma vez, em pleno pino de Verão, de férias, passeei Lisboa durante um dia inteiro sem beber uma cerveja, e bem era o tempo delas. Bati as capelas todas. Entrava aqui, entrava ali, e pedia "Uma Super Bock, se faz favor!", ou perguntava "Por favor, a imperial é Super Bock?", que não há e que não é - era Sagres e Sagres, respondiam-me invariavelmente, como se estivessem todos ensaiados e me conhecessem de algum lado. Bebi água como a minha mulher, eu quase morria, e foi a maior e mais perigosa acção de protesto que levei a efeito em toda a minha vida.

Quando a ilha do Sal ficou sem Super Bock
Ouço Tiago Nacarato no rádio. Canta "A Dança". Diz: "Mesmo que se acabe o stock / Da tão bem-vinda Super Bock / A vida é boa / A vida é tão boa / A vida é mesmo boa de se levar."
E lembro-me do Verão de 1990, na ilha do Sal, Cabo Verde. Agosto passava para Setembro, e a Super Bock esgotou sem remédio em toda a ilha. Fui eu.

A diferença
A diferença entre um embaixador da Unicef e um embaixador da Unicer é da ordem dos 5,2% vol.

O Zé Manel Carriço
O Zé Manel Carriço era um exagerado e provavelmente a pessoa mais extraordinária que conheci em toda a minha vida. O Zé Manel não comprava maços de tabaco, comprava volumes de tabaco, caixotes, camiões inteiros de tabaco, navios! O Zé Manel até comprou um jornal falido, até comprou um cinema, vejam lá! O Zé Manel comprava tudo, e a dinheiro, não acreditava no plástico. Por isso andava sempre com a carteira grotescamente amarrecada por um enorme molho de notas de conto como se fosse à feira do gado mercar uma junta de bois. Ou duas. Ou três. Ou. As notas chegavam e sobravam. O Zé Manel fazia questão que se soubesse. Ah!, e o Zé Manel Carriço era uma homem extremamente generoso.
Às vezes o José Manuel, que de baptismo era Rodrigues, levava-me a umas noitadas privadas (ele, o Pimenta e eu) no Peludo antigo, mesmo em frente ao seu excêntrico atelier, o que nos era de uma extrema comodidade. As noitadas entravam pela madrugada dentro, porque o Zé Manel tinha muito que contar e nós gostávamos de ouvir. O Sr. Avelino fechava para nós. Comia-se um marisquito, que àquelas altas horas estava nas últimas, e sobretudo bebia-se cerveja, finos, com tremoços, para fazer boca. Mais do que uma vez esgotámos o stock de copos, enchendo sete ou oito mesas à nossa volta, o café inteiro, porque o Sr. Avelino gostava de fazer a conta no fim. Partiam-se alguns, o Sr. Avelino afinava, tomava nota para acrescentar ao rol. Mas o pior era o desbaste nos tremoços, que pedíamos repetidamente por uma questão de princípio.
Uma noite o Sr. Avelino não aguentou e queixou-se: - Sr. Zé Manel, assim não pode ser, já comeram mais de dez pires de tremoços. É um prejuízo muito grande. Os tremoços custam-me dinheiro, valha-me Deus!...
O Zé Manel foi ao bolso do casaco, sacou da carteira marreca, tirou uma mão-cheia de notas e disse séria, calma e secamente: - Ó Avelino, traz-me cinco contos de tremoços! - e pousou o dinheiro como mão de póquer em cima da única mesa de vago, que era a nossa...

A receita
- Passa-me a receita, se faz favor?
- Mas com certeza, ora tome lá.
- Hummm... precisava de mais um bocadinho de cerveja e menos açúcar.

Anthony Bourdain não sabia
Numa das suas visitas oficiais ao Porto e Norte de Portugal, Anthony Bourdain (1956-2018) andou pela Invicta, deu um salto aos vales do Douro e do Tâmega, comeu umas especialidades de carregar pela boca e teve o duvidoso privilégio e manifesto incómodo de assistir a uma matança de porco e às litúrgicas operações de desmancho e salga, acabando o dia a jogar à bola com a bexiga do bicho, como mandava a tradição.
E depois foi-se embora. Atenção: foi-se embora sem antes ir à Conga comer uma bifana. Mas, desta ou doutra vez, comeu bifanas em Lisboa. Isto cabe na cabeça de alguém? As bifanas da capital sempre me mereceram as maiores reservas e, francamente, a equipa do No Reservations deveria estar na posse desta importante informação.
Bourdain disse que gostou muito das lisboetas "sanduíches gordurosas de porco", com carne "imunda e cortada em fatias finas". É uma definição elegante e que se aceita. Mas havia de ter provado as do Porto, na Rua do Bonjardim! E não me venham dizer que as bifanas são iguais em todo o lado. Porque não são. E não me venham dizer que é só temperar com vinho branco e mais não sei quê (o resto fica cá comigo, que também as faço uma categoria). Porque não é. É com o vinho (e com o resto), mas também com cerveja, ou para onde é que vocês cuidam que vão as sobras dos barris e a espuma que esborda dos finos (ou imperiais) mal tirados? Vai tudo lá para dentro, para o caldeirão da molhanga, e aqui é que bate o ponto. Aqui é que a porca torce o rabo. É que as bifanas do Porto chafurdam em Super Bock. E isso faz toda a diferença.

Cientificamente provado
O álcool afecta de forma diferente o homem e a mulher. O mercurocromo não.

Contra a discriminação do mercutocromo, sempre!
Foi notícia: em 2015 Portugal ocupava um honroso nono lugar ex aequo no ranking mundial dos países com maior consumo de álcool. Feitas as contas, cada português (incluindo os portugueses que não bebem) bebeu naquele ano uma média de 12,5 litros de álcool. O relatório da Organização Mundial da Saúde então divulgado era uma vez mais omisso no que diz respeito aos números do consumo de mercurocromo. O que se lamenta.

O intoterante
Era realmente uma pessoa com um feitio difícil. Tinha um problema com o álcool. E outro com o betadine.

Ó prima, ó rica prima!
Eu tinha umas primas de que não sabia. Foram-me apresentadas há coisa de dois ou três anos pelo meu amigo Paulo Silva, que as conhecia de ginjeira, e desde então não lhes largo as redondezas. Falei nelas no outro dia, disse ao Paulo que havíamos de ir às minhas primas e logo mentes perversas pensaram que eu estava a agendar uma noitada na casa da tia, melhor dizendo: em casa de tia. Mas nada disso. As primas de Leça do Balio são as Erdinger, as excelentíssimas cervejas alemãs que, como o seu próprio nome indica, são praticamente da minha família. E preciso urgentemente de fazer uma festa de despedida.
As Erdinger são infelizmente uma raridade nas prateleiras dos hipermercados. Descubro muito às vezes meia dúzia delas, e vêm logo todas comigo para casa. Mas há um certo sítio, uma esplanada num certo parque junto ao ex-rio mais poluído da Europa, onde costumo marcar encontro com elas e elas não costumam falhar. Parece traição à Pátria, mas é exactamente em Leça do Balio, o berço desse verdadeiro monumento nacional e património material da humanidade que é a Super Bock.
Para beber a Erdinger em casa como manda o figurino, até tive de comprar um copo, caro, enorme, bojudo e cheio de curvas, e é destas redondezas que eu falo. Estou a pensar vendê-lo, ao copo. As minhas primas que me perdoem, mas começam a estar muito acima das minhas posses. E não é que volte para os braços da Super Bock, não. Vou mesmo para a água, e da torneira, pelo menos enquanto não a vierem cá cortar. Portanto, adeus ó primas, ó ricas primas! 

Já há anos, seis ou sete, que não vou a casa das primas, ricas primas, e as raparigas, há quem me conte para fazer raiva, continuam boas como o trigo. Estou farto de dizer à minha mulher: a família devia dar-se mais!

Eflúvios amorosos
"Cheiras a cerveja", disse ela. "Aproveita", disse ele.

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Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Fleming, da penicilina ao martíni

Alexander Fleming - médico, farmacologista, biólogo e botânico britânico - foi o inventor da penicilina e ganhou o Prémio Nobel da Medicina em 1945. A questão ainda não está devidamente estudada e as razões continuam incógnitas, mas a verdade é que, a dado passo, possivelmente em 1952, Alexander mudou o nome para Ian e desatou a escrever livros sobre o 007.
Entre uma coisa e outra, Fleming, então chamada Rhonda, Rhonda Fleming, nome artístico de Marilyn Louis, foi actriz de filmes de aventuras e cantora em Hollywood e seus arredores. Baptizada pela imprensa especializada da época como a "rainha do Technicolor", era famosa mais pela sua beleza do que pelos seus dotes artísticos.

P.S. - Fleming, Alexander, o cientista e médico bacteriologista inglês, nasceu no dia 6 de Agosto de 1881.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 190

Foto Hernâni Von Doellinger

Ninguém fica para trás, mas

Dizia o governante, consciencioso: - Não deixaremos ninguém para trás. Apenas os que se atrasarem...

Moro aqui e ali. Eu sou de toda a parte!

Foto Hernâni Von Doellinger

Albano Martins 4

Flor da paixão

Sei agora
que a paixão
é azul e coroada
como o sangue e a cabeça
das rainhas. Que tem
nome de flor
e é ímpar. Porque,
se o não fosse,
não seria paixão.


"Castália e Outros Poemas", Albano Martins

(Albano Martins nasceu no dia 6 de Agosto de 1930. Morreu em 2018.)

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Foto Hernâni Von Doellinger

Walker Luna 4

Me ressinto de palavras.
Conserva o teu silêncio.
Em mim, os mares e os desertos

súbito se desgastam
só para te dar espaço.

Walker Luna

(Walker Luna nasceu no dia 6 de Agosto de 1925. Morreu em 2007.)

Mar, metade da minha alma é feita de maresia

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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Clemence, o guarda-redes

David Alves ensinava: o melhor guarda-redes do mundo era Clemence, o inglês. Nem o checo Plánicka, nem o russo Yashin, nem o alemão Sepp Maier, nem outros que tais - antes, durante e depois. Era Ray Clemence, que nos anos setenta e oitenta do século passado brilhou ao serviço do Liverpool e da selecção inglesa. E o David sabia do que falava: ele próprio fora guarda-redes, posto que de recatados recursos, e ainda o vi jogar pelo Desportivo das Aves, creio que no tempo em que por lá andava também (ou andou pouco tempo depois) um famoso defesa central chamado Kentucky, que só me lembrava os Definitivos, pecados velhos. Por outro lado, o David Alves foi o primeiro José Mourinho que eu conheci. O David era inteligente, culto e visionário, tinha mundo, era um estudioso e metódico transgressor, promovia a acção psicológica: com décadas de avanço, inventou em Portugal aquilo que hoje em dia é corriqueiro em todo o lado. Ele passava o futebol ao papel, e do papel passava o futebol ao campo. E no campo era bonito de se ver. O treino era ciência, os treinos eram aulas - ele levava-me muitas vezes. E era uma prazer ouvi-lo. Se não me engano, o David começou a carreira de treinador no Maria da Fonte, da Póvoa de Lanhoso, e eu pressentia que ele iria longe, muito longe, primeira divisão, estrangeiro até. A vida, porém, não lhe deu tempo para levantar voo...
Por aquela altura, o meu Fafe padecia de um guarda-redes suplentíssimo que tinha o insuspeito nome de Queimado. E, diga-se em abono da verdade, o rapaz era realmente um frangueiro de créditos firmados. Era uma acrobata voador, um contorcionista, um funambulista, um malabarista, um ilusionista até - guarda-redes é que não! O Queimado, que equipava muito bem, calção de licra comprido e justinho, à ciclista, e camisola verde dos pontos, voava de um poste ao outro leve como pluma em bico de pomba branca, pomba branca, inventava cabriolas impossíveis, pinchos sobejamente desnecessários, golpes de rins praticamente incapacitantes, e a bola, ignorada e ressentida, pimba!, sempre no fundo das redes. A baliza, com o Queimado, era um circo sem fundo.
Pois o inglês Clemence era exactamente como o nosso Queimado, mas ao contrário. Era esse o exemplo, era essa a comparação absurda que o David nos apresentava para explicar. Clemence vestia à antiga. Na baliza, era elegante, fleumático, sóbrio, poupado e sobretudo eficaz. Tinha a bola sempre debaixo de olho, e nunca ninguém o viu voar para ela se ele podia dar um passo ao lado e agarrá-la definitivamente e sem outros sobressaltos. "Um passo ao lado", esta me ficou. Fácil, não é? E era assim que o David Alves ensinava.
Raymond Neal "Ray" Clemence faz hoje 72 anos. E deram-me saudades do David Alves, que morreu estupidamente cedo, e ficámos todos a perder. Portei-me mal com o David, e nunca lhe agradeci como devia todo o bem que ele me fez, tudo o que me ensinou da vida, das vidas. É um dos meus maiores arrependimentos, e oh se tenho tantos! Ia escrever quatro linhas sobre o Clemence, e vejam no que isto deu...

Qualquer dia, quando eu estiver pronto, conto escrever a sério sobre David Alves, o português.

Mobiliário urbano (propriamente dito) 189

Foto Hernâni Von Doellinger

De cor e salteado

E finalmente conseguiu decorar o bolo. Era um bolo complicado, com milhões de ingredientes e passos, mas já está na ponta da língua.

I want to ride my bicycle 105

Foto Hernâni Von Doellinger

O reclamador

Reclamava Camões, reclamava Pessoa, reclamava Sophia, reclamava Eugénio, reclamava Drummond, reclamava Vinicius, reclamava Baudelaire, reclamava Lorca e reclamava Neruda, reclamava até Eliot e Shakespeare. Era, enfim, um grande reclamador.

Poesia e propaganda, segundo Alexandre O'Neill

Foto Hernâni Von Doellinger

Poesia e propaganda

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...


Alexandre O'Neill, "No Reino da Dinamarca"

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Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 4 de agosto de 2020

O Armstrong bom e o outro Armstrong

O cantor Gershwin, anunciava a rádio Smooth FM 
Ouço rádio. Prefiro a rádio à televisão e os jornais em papel aos jornais online. Prefiro os dicionários encadernados à Wikipédia e os livros de uma forma geral às séries "de culto". Tirando o futebol, a meia hora a seguir ao meio-dia e tudo o que for David Ferreira, que me ligam religiosamente à Antena 1, a minha rádio é a Smooth FM. Gosto da música que por lá passa, música da minha idade, e rio-me com o que dizem os locutores. Ignorância em frequência imoderada é ali - das bojardas gramaticais nas "notícias" aos spots publicitários que primam pela asneira. O último, de promoção ao concerto de Anthony Strong aprazado para o dia 28 de Outubro no lisboeta Centro Cultural de Belém, diz assim:
"Anthony Strong em Portugal, num tributo às grandes vozes masculinas do jazz. Anthony Strong: Tribute To The Great Male Jazz Vocalist Of All Times. Entre os quais, Louis Armstrong, Chet Baker, Gershwin e muitos mais, numa noite memorável". Exactamente, sobretudo Gershwin...

(Mais sobre a minha estação de rádio favorita, a seguir à Antena 1, em Bienal, como o próprio nome indica, Felizmente dispensa apresentações, Quantos são exactamente cerca de 44?, Sócrates não "interviu", diz a Smooth FM e A capella, ma non troppo.)

Armstrong & Oprah, the show must go on
Lance Armstrong fez muito pelo ciclismo. Mas não era preciso fazer tanto. Há mais de dez anos que se sabe que o americano se dopava. E ele negou sempre.
Armstrong teve mais de dez anos e milhões de oportunidades para confessar a sua fraqueza - e nada. Em inquéritos oficiais, em investigações policiais, em comissões especiais, nos tribunais, em entrevistas a sério ou ao espelho pela manhã - e nada. Preferiu fazer-se de vítima de conspiração internacional e insistiu na fuga em frente.
Armstrong, que, durante mais de dez penosos anos, desprezou os sítios certos para dizer a verdade, vai aparecer amanhã no espectáculo de Oprah Winfrey para pôr tudo em pratos limpos. O programa foi gravado na passada segunda-feira, consta que o ex-ciclista admite finalmente o recurso ao doping e a famosa apresentadora de televisão já garantiu que ele "deu as respostas que as pessoas querem ouvir".
Oprah é isso: o que as pessoas (os americanos) querem ouvir. E o entalado Armstrong aproveita. Será um programa de lavagem a quatro mãos. Com lágrimas.

P.S. - Textos publicados originalmente nos dias 23 de Agosto de 2017 e 16 de Janeiro de 2013, respectivamente, não desfazendo de outro importante Armstrong, o Neil, astronauta americano que foi o primeiro homem a pisar a Lua e que faria amanhã anos. Fui buscá-los por causa do Armstrong que mais me interessa: o músico ímpar, o fabuloso Louis, que nasceu no dia 4 de Agosto de 1901.

Na minha rua passa o mar 85

Foto Hernâni Von Doellinger

Rei morto, rei morto

Cuidado com o sebastianismo! Este é "um mito perigoso", na opinião do professor catedrático e historiador Francisco Ribeiro da Silva. "A expectativa messiânica de um rei (de um ser poderoso) vindo de fora do tempo e que resolverá os problemas do País pode levar à demissão e à desistência de lutar proactivamente pela resolução dos problemas, na esperança de que eles acabarão por resolver-se", justificava o reputado académico, citado num trabalho que escrevi na revista do jornal 24horas sobre "Os 10 maiores mitos da História de Portugal", em Março de 2007.
O Desejado ou Encoberto, o regresso de D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, para salvar a Nação do domínio espanhol de todos os tempos, "é uma ideia muito negativa para o País", alertava também Hélder Pacheco, escritor e historiador portuense. "Desde D. Sebastião que estamos sempre à espera do salvador, quando a salvação nacional está em nós, na nossa energia e no nosso esforço", acrescentava.
A lenda místico-secular do sebastianismo cresceu em Portugal na segunda metade do século XVI: D. Sebastião morreu com apenas 24 anos, na Batalha de Alcácer-Quibir, mas o povo não quis acreditar. Virou os olhos para as costas de África e sentou-se à espera do rei morto que haveria de voltar vivo. Até hoje.

P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Novembro de 2016, com o segundo lugar na série "As dez maiores tangas da História de Portugal". A Batalha de Alcácer-Quibir foi travada no dia 4 de Agosto de 1578.

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Foto Hernâni Von Doellinger

Orlando Mendes 4

História

Diz a História que descendo
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não propriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.


Orlando Mendes 

(Orlando Mendes nasceu no dia 4 de Agosto de 1916. Morreu em 1990.)

Dar banho ao dono

Foto Hernâni Von Doellinger

Raul Bopp 3

Tapuia 

As florestas ergueram braços peludos para esconder-te com ciúmes do sol
A tua carne triste se desabotoa nos seios
recém-chegados do fundo das selvas.
Pararam no teu olhar as noites do Amazonas
mornas e imensas
E no teu corpo longo
ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro.
O mato acorda no teu sangue
sonhos de tribos desaparecidas
- filha de raças anônimas
que se misturam em grandes adultérios!
E erras sem rumo assim pelas beiras do rio
que os teus antepassados te deixaram de herança.
O vento desarruma os teus cabelos soltos
e modela o vestido na intimidade do teu corpo exato.
À noite o rio te chama.
Chamam-te vozes do fundo do mato.
Então te entregas à água
demoradamente
como uma flor selvagem
ante a curiosidade das estrelas.

Raul Bopp

(Raul Bopp nasceu no dia 4 de Agosto de 1898. Morreu em 1984.)

Music was my first love 73

Foto Hernâni Von Doellinger

Bacon, Bacon & Bacon

Antes de ser toucinho fumado ou gordura subcutânea do porco, Bacon tinha um primeiro nome: Francis. Foi político, estadista, filósofo e ensaísta inglês durante os séculos XVI e XVII, sendo considerado um dos fundadores da ciência moderna. Mais tarde, nos finais do século XVIII, fez-se John e escultor, e já no século XX, outra vez Francis, dedicou-se à pintura figurativa...

P.S. - Bacon, John, o escultor britânico, morreu no dia 4 de Agosto de 1799.

Vidas... 11

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

A Catrel cor-de-rosa e a boneca dos prazeres

Manhã de sábado, A28, direcção Matosinhos-Viana do Castelo, um pouco antes da saída para Vila do Conde. À minha frente segue uma velha carrinha Renault 4L, de um cor-de-rosa altamente suspeito e vagaroso. Aproximo-me, com o fastio próprio dos condutores domingueiros que já não têm paciência para os condutores domingueiros, mas arrebita-se-me a atenção quando, mesmo em cima dela, leio os dizeres da viatura. São uns dizeres sugestivos e muitos, reclames açucarados a um loja de prazeres - sex-shop em português.
E vejo finalmente os ocupantes, ainda por trás: é o do volante e, ao lado, uma louraça da fazer parar o trânsito. Mas eu avanço. Avanço cuidadosamente para a ultrapassagem, olho para o gajo e o gajo sorri. E eu continuo a olhar (eu posso olhar e continuar a olhar, porque não conduzo, não sei conduzir, nem sequer tenho carta) e o gajo continua a sorrir. A gaja não sorri, não me liga nenhuma, olha sempre em frente, tomando sentido à estrada, ainda mais loura do que há bocado e, reparo agora, tem uns lábios vermelhos e escarrapachados.
A minha mulher desliga o pisca e então é que se me faz luz. A gaja da Catrel é uma boneca. Uma boneca mesmo, de plástico, uma boneca insuflável, de carregar pela boca. O gajo olha para mim e sorri cada vez mais, está a gostar da coisa. Não sei onde é que a gaja tem a mão.

Foi há oito dias, palavra de honra. E até vou ver se ela anda por lá hoje. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 12 de Dezembro de 2012, então sob o título "Uma boneca da festas boas", devido à época. O Renault 4L, para sempre apelidado de R4, ou Catrel para os amigos, foi apresentado no dia 3 de Agosto de 1961, no Salão Automóvel de Paris.

Só destas, tenho sete 141

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 219

O chichi e a discriminação de género
Antigamente as mulheres urinavam de pé. Não vou explicar pormenores, a não ser que me peçam muito, mas urinavam de pé. De pé, como as falecidas árvores da Senhora Dona Palmira Bastos. De pé, como as vítimas da fome. De pé, como os homens em geral. De pé! Homens e mulheres eram iguais. Depois as mulheres resolveram amouchar para o acto e vão aos pares à casa de banho. Hoje em dia as mulheres queixam-se de discriminação de género.

Joie de vivre
Sabem aqueles indivíduos que têm a certeza de que, mais hora menos hora, lhes vai acontecer uma desgraça qualquer, um furo ou um cancro, por exemplo, e que por isso andam sempre com o credo na boca e o colete reflector vestido? Ele não era desses. Viveu descansado e feliz até aos 123 anos, e só se queixou uma vez, mesmo antes do último suspiro: - Agora que me sentia tão bem...

O filósofo
Ensinava: o pior da morte é que a vida deixa de fazer sentido.

Manjeriquices
Como todos os anos, o meu manjerico de São João foi atacado pela lagarta, dezenas de lagartas sorrateiras e gordas. Como todos os anos, tratei do assunto deitando uma panela de água a ferver sobre o manjerico. Como todos os anos, as lagartas morreram todas. E o manjerico também, como todos os anos. Não percebo...

Mulher amiga...
Com esta caloraça, a mulher comprou-lhe um pijama de Verão por acaso bastante jeitoso. Chamou-o ao quarto e disse-lhe: - Estás a ver? Gostas? Fica aqui guardadinho para quando fores para o hospital...

Como quem não quer a coisa

Foto Hernâni Von Doellinger

Leporídeos

- Colhões ou coelhões?
- Testículos.
- E era preciso ser malcriado?...

Vida de cão 513

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 2 de agosto de 2020

Eu, as Turicas e um par de mamas

Situemo-nos: Fafe, finais da década de sessenta do século passado. A cidade triste e ausente de hoje em dia era então uma vila buliçosa, boémia e próspera. As Turicas moravam numa enorme e decadente casa aburguesada da Rua Monsenhor Vieira de Castro, mesmo em frente ao Toninho da Luísa, do lado direito de quem desce para o Picotalho ou para a Recta, depois do cruzamento do Santo Velho e, infalivelmente, dos tascos do Paredes e do Zé Manco. Nem cinquenta metros antes, resvés com o prédio do Café Chinês em construção e a longa entrada para a casa das Jerónimas na outra berma da estrada, perigosamente sem passeio, moravam as Grilas. Irmãs, duas, se não me engano, velhas no meu critério de criança, solteironas, desgrenhadas, professoras e misteriosas. Raramente vistas na rua, espreitavam apenas à porta, defendida por um portão baixinho em ferro forjado, e quando meteram telefone em casa ligaram ao meu avô a perguntar se o telefone dos Bombeiros "também tocava em português" como o delas. Que se segue: derivado à proximidade geográfica entre as duas distintas famílias, havia e há quem, mesmo entre os especialistas e seus derivados, confunda as Turicas com as Grilas - o que é uma vergonha e de uma intolerável ignorância numa terra tão prenhe de historiadores e simpatizantes como a minha.
Mas as Turicas, que foi ao que eu vim. As Turicas também eram irmãs e também eram duas, tanto quanto me lembro. Pequeninas e idosas, resmungonas e prendadas para os mais delicados lavores, faziam renda de bilros sentadas num banquinho junto às imponentes portadas que davam para a rua. No rés-do-chão do ancestral casarão entretinham-se com uma loja mais antiga do que elas e que cheirava a um mofo muito bom. Vendiam botões e tafetás, fitas de nastro, fechos, linhas, lãs, chitas, agulhas e flanelas. Vendiam também vinho ao garrafão nas traseiras do estabelecimento, com vistas para um exuberante quintal sem fundo. As boas senhoras mantinham uma "criadita" que abria a porta a quem ia comprar vinho. E a miúda tinha umas mamas. Uma vez a minha mãe mandou-me ao vinho e eu pedi à rapariga se me deixava apalpar-lhe as mamas. Ela não deixou e eu apalpei. As mamas eram de papel e foi-me um desgosto muito grande.

P.S. - Este é um excerto bastante revisto e aumentado de um texto publicado originalmente no dia 20 de Fevereiro de 2013. Hoje, 2 de Agosto, é Dia das Rendilheiras. As minhas homenagens sinceras e póstumas às boas Senhoras Donas Turicas!

Mobiliário urbano (propriamente dito) 188

Foto Hernâni Von Doellinger

Fruta da época

Os melões são como as cerejas. Distinguem-se apenas derivado ao caroço.

Também faço isto muito bem 454

Foto Hernâni Von Doellinger

Nauro Machado 4

Fila indiana 

Um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, continuam

(a conduzir seus madeiros
na perícia dos próprios dramas)

um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, e de novo

um atrás do outro, atrás um do outro,
até a surdez final do pó.


"O Calcanhar do Humano", Nauro Machado

(Nauro Machado nasceu no dia 2 de Agosto de 1935. Morreu em 2015.)

Estacionamento privativo

Foto Hernâni Von Doellinger

José Afonso 5

Teresa Torga 

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala

Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela

Teresa Torga Teresa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha


José Afonso

(José Afonso nasceu no dia 2 de Agosto de 1929. Morreu em 1987.)

Music was my first love 72

Foto Hernâni Von Doellinger