Tristeza moleA tristeza, é o que tem, só dói enquanto dura.
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
O meu pai foi dado à troca
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.
E se o Natal for mentira?
Era uma vez a notícia: "Idoso morreu sozinho em casa com hipotermia. Morreu Fulano de Tal, 68 anos, deficiente motor, residente em Pombal, Alfândega da Fé, que há vários meses vinha pedindo a institucionalização num lar de idosos. Perdeu a vida, na sexta-feira, após ter dado entrada no hospital em situação de hipotermia."
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Parecia-me uma figura de Fafe, um dos meus cromos antigos. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas pequeninas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias, por deveres ou opções que não vêm aqui ao caso. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo e melhorado muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho, sem uma mão dada, uma palavra mansa ao ouvido, um céu com estrelas para olhar. Já basta o que basta: morrer, ainda que de velho, já deve ser fodido que chegue, regra geral. E confesso que não sei se o Menino Jesus tinha precisamente 84 anos, foi o que me constou. Os jornais do dia seguinte talvez tivessem dado a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas, breves. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Versão revista e aumentada do texto escrito e publicado originalmente aqui no dia 9 de Maio de 2012.)
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
O segundo dia da vida do Menino Jesus
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
O Menino Jesus nasceu ontem nas palhinhas de Belém, há 2024 anos, e hoje, 26 de Dezembro, celebra-se o seu segundo dia de vida. Embora, segundo historiadores e especialistas, Jesus tenha nascido provavelmente entre o ano 4 e o ano 6 antes de Cristo, talvez a 13 de Abril, talvez a 14 de Outubro, talvez a 3 de Julho, não se sabe ao certo, datas que na verdade também não existiam na altura. Em todo o caso, o Menino Jesus terá nascido quatro, cinco ou seis anos antes de ter nascido, o que quer dizer que não pode ser inscrito nos juniores.
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
O Menino Jesus morreu
Estais a ver? Estais a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos como agora se usam, mas eram à boca-de-sino? O senhor que apanhava o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa do Porto? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às crianças criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, durante mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Digamos que era um com-abrigo. Ali mesmo, em Nevogilde, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passava lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu no mês de Maio de 2012 e continua a morrer por aí. O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta, morrer já deve ser fodido que chegue. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais do dia seguinte decerto deram a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário, em contramão com a vida.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2024
Uma cunha ao Pai Natal
Ora bem. Hoje é Dia de São Nicolau, que dizem que é o Pai Natal, mas não é. Porque São Nicolau, isto é, São Nicolau de Mira, também conhecido como São Nicolau de Bari, existiu mesmo no século III, foi bispo e é padroeiro da Rússia, da Grécia, da Noruega e de Beit Jala, na Palestina. É patrono dos guardas-nocturnos na Arménia e dos ajudantes de missa na cidade italiana de Bari. E é também padroeiro dos estudantes, como muito bem se aprende em Guimarães, mas nunca trabalhou para a Coca-Cola. Já quanto ao Pai Natal, não quero com isto escangalhar certas e determinadas crenças infanto-comerciais, mas eu prefiro o Menino Jesus!
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
O Menino Jesus era português
As coisas em que a gente acredita quando é miúdo! Eu, por exemplo, acreditava piamente que o Menino Jesus era português, nosso - morra já aqui se estou a mentir. Eu ia à missa, ajudava, ouvia com gosto aqueles bocadinhos de Bíblia e fazia a conexão que se impunha: se Nossa Senhora é de Antime, se São José é no Lombo, se os pastorinhos são de Fátima e a Samaritana é de Coimbra, se o Moisés é de Fafe e o Abraão também, se o João Baptista tem altifalantes, se os apóstolos são todos portugueses, sobretudo pescadores da Póvoa e de Matosinhos, é só ver os nomes - João e Tiago, filhos de Zebedeu, Pedro, André, Filipe, Mateus, Tomé, Bartolomeu, e por aí fora -, se o Jordão é em Guimarães e o Calvário é à beira do posto da Polícia de Viação e Trânsito e do Hotel, se a Avenida de Roma é em Lisboa, se Nazaré e Belém são obviamente em Portugal, se Damasco é alperce, se até o Espírito Santo saiu à casa, e deu no que deu, então o Menino Jesus também é daqui, aqui nasceu e cresceu, por aqui andou, faleceu e ressuscitou, também é português, um de nós. Deus é nosso. Se Deus quiser, até joga pela Selecção. Era o que eu pensava. Já grande, e após alguns anos de desengano e reeducação religiosa nos trabalhos forçados do seminário, passei a olhar com um certo carinho e determinada melancolia para esta minha crença infantil e patriótica. Depois veio Cavaco Silva, em 2006, e eu, após profunda reflexão, deixei finalmente de acreditar. Dediquei-me à exegese, à hermenêutica, à toponímia, à topogígia, à geografia e à natação sincronizada sob chuveiro, sem ofensa para os presentes e apenas às segundas sextas-feiras de cada mês, de três em três meses, dez minutos antes de me deitar. E é hoje.
sábado, 9 de dezembro de 2023
Querido Pai Natal
Ocorreu esta semana o Dia de São Nicolau, que dizem que é o Pai Natal, mas não é. Porque São Nicolau, isto é, São Nicolau de Mira também conhecido como São Nicolau de Bari, existiu mesmo no século III, foi bispo e é padroeiro da Rússia, da Grécia, da Noruega e de Beit Jala, na Palestina. É patrono dos guardas-nocturnos na Arménia e dos ajudantes de missa na cidade italiana de Bari. E é também padroeiro dos estudantes, como muito bem se aprende em Guimarães, mas nunca trabalhou para a Coca-Cola. Já quanto ao Pai Natal, não quero com isto escangalhar certas e determinadas crenças infanto-comerciais, mas eu prefiro o Menino Jesus!
quarta-feira, 8 de junho de 2022
Jesus nasceu ali para os lados dos Jerónimos
domingo, 20 de dezembro de 2020
Naquele tempo o Menino Jesus era nosso
As coisas em que a gente acredita quando é miúdo! Eu, por exemplo, acreditava piamente que o Menino Jesus era português - morra já aqui se estou a mentir. Eu ia à missa, ajudava, ouvia com gosto aqueles bocadinhos de Bíblia e fazia a conexão que se impunha: se a Samaritana é de Coimbra, se os apóstolos são todos portugueses, é só ver os nomes - João e Tiago, filhos de Zebedeu, Pedro, André, Mateus, Tomé, Bartolomeu, e por aí fora -, se o Jordão é em Guimarães e o Calvário em Fafe, se Roma é uma avenida em Lisboa, se Nazaré e Belém são nossos, então o Menino Jesus também é. Deus é nosso. Se Deus quiser até joga na Selecção e marca os golos que Lhe apetecer. Já grande, e após alguns anos de desengano e reeducação religiosa nos trabalhos forçados do seminário, passei a olhar com um certo carinho e determinada melancolia para esta minha crença infantil e patriótica. Depois veio Cavaco Silva, em 2006, e eu deixei finalmente de acreditar. Dediquei-me à exegese, à hermenêutica, à toponímia, à topogígia, à geografia e à natação sincronizada sob chuveiro, sem ofensa para os presentes e apenas às primeiras quartas-feiras de cada mês, de três em três meses, dez minutos antes de me deitar.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2019
Popota e Leopoldina vs. Pai Natal e Menino Jesus
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Popota e Leopoldina vs. Pai Natal e Menino Jesus
Não me interpretem mal, por favor. Eu gosto do Natal. Isto é: não gosto do Natal, mas a minha mulher e o meu filho gostam muito, e portanto eu gosto do Natal, esse estranho paradoxo que alegra e deprime, e que é também um equívoco: marcado para o dia 25 de Dezembro, toda a gente sabe que é na noite de 24 do mesmo.
O Natal dá-me saudades do Menino Jesus e do meu pai. Não acredito na Popota nem na Leopoldina, mas também nunca acreditei no Pai Natal, embora que o há há, ou ho ho, e não gosto de Coca-Cola. Velhos com barbas brancas bastamos euzinho cá em baixo e o Imenso lá em cima. Quanto ao xarope, fico-me pelo da tosse, muito agradecido. O Menino Jesus sim, diz-me respeito, e ainda hoje acredito. O Menino Jesus e o meu pai deviam ser da corda, porque era o meu pai quem me punha no sapatinho as avelãs, os chocolatinhos e o par de meias que o Menino Jesus me dava, isso eu sabia. Tão unha com carne deveriam ser os dois que o Menino Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro e o meu pai, tudo combinado lá entre eles para nos fazerem surpresa, morreu de véspera.
As árvores. As árvores acendem-se, tremeluzem como se estivessem bêbadas, e é o que ouço na rua às pessoas que comem palavras, ainda que palavras pequenas, palavras ínfimas, as pessoas comem o artigo definido à falta de alimento substantivo, comem migalhas, palavras de uma letra só, e mais vale comer palavras, ainda que resumidas e insossas, do que não comer nada. Ouço, como se fossem dois pré-cegos:
- Então, se não voltar a ver, um bom Natal e feliz ano novo...
- Para si também, se não voltar a ver, um Natal feliz e muitas prosperidades...
Dá-me para isto ultimamente, para os abraços e para perguntar aos meus amigos: - Andas feliz? És feliz? - Pergunto acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas (há quem acumule), dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, das ideias, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falo de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha que eu cozinhei está boa. Porque. A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Os meus amigos interessam-me muito e por isso é que são sem aspas e sem Facebook. Somos amigos cara a cara, de abraço de carne e osso, e uma boa meia dúzia.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Naquele tempo o Menino Jesus era português
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
O Menino Jesus morreu sozinho. Tinha 84 anos.
Estão a ver? Estão a ver aquele senhor esquisito e careca que vestia sempre um casaco de cabedal preto quase até aos pés, tipo Gestapo, Deus lhe perdoe, pasta na mão e calças zangadas com os sapatos? O que apanhava, em Nevogilde, o autocarro que vai do Castelo do Queijo até à Baixa? Estão a ver? Exactamente: era esse o Menino Jesus, que também ninguém sabe dizer-me porque se chamava assim, só se fosse por ser um bocado extraordinário como o Outro.
O Menino Jesus foi engenheiro e solteiro. Viveu sempre com a mãe, mas a mãe morreu antes dele e isso fez-lhe diferença. São tragédias a que raramente ligamos, porque, adultos como somos, achamos que as mães só fazem falta às criancinhas criancinhas, erro crasso. Quando passou a viver sozinho, há mais de vinte anos, o Menino Jesus preferiu desviver até ao fim. Ali mesmo, num dos largos mais ruralmente nobres da cidade do Porto, zona de ricos.
Sou pobre, mas passo lá quase todos os dias. Vi uma vez uma equipa da polícia a bater-lhe à porta. A PSP e a GNR andam a fazer um trabalho inestimável de identificação e encaminhamento dos idosos que moram sós e em risco. Acredito que têm salvo muitas vidas e só peço que se lembrem de mim se chegar a minha vez. Mas sei que a porta do Menino Jesus nunca se abriu.
O Menino Jesus morreu sozinho. E não devia. Não por ser Menino Jesus e "rico", mas porque ninguém deve morrer sozinho. Já basta o que basta. E tenho de confessar que não sei se o Menino Jesus tinha exactamente 84 anos. Os jornais de mais logo darão a idade certa do homem, porque às vezes falam verdade nas notícias pequenas. Ou então morreu apenas mais um octogenário.
(Texto escrito e publicado originalmente no dia 9 de Maio de 2012)

