Tarrenego!
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Os pontos nos ee
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Saúde Sexual.)
O pior que se pode dizer a um filho
O psicólogo Eduardo Sá disse uma vez no Diário de Notícias que "divórcio" é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho. Eu, sem o saber e a experiência de Eduardo Sá, não concordo, embora ninguém me tenha perguntado nada. Acho que "sopa" é que é a coisa mais violenta que se pode dizer a um filho.
Outras coisas mais violentas do que "divórcio" que se podem dizer a um filho: "cama, já!", "esse telemóvel serve muito bem!", "uma semana sem sair!", "um mês sem tablet!", "meio ano sem gomas!", "come uma banana!", "peixe é bom", "não, ela não pode dormir cá!", "acabou-se a mesada!", "podes ajudar aqui?", "empresta à tua irmã!", "dá um beijinho à avó!", "pergunta ao pai!", "pergunta à mãe!", "o pai morreu", "a mãe morreu"...
Outras coisas mais violentas do que "divórcio" que se podem dizer a um filho: "cama, já!", "esse telemóvel serve muito bem!", "uma semana sem sair!", "um mês sem tablet!", "meio ano sem gomas!", "come uma banana!", "peixe é bom", "não, ela não pode dormir cá!", "acabou-se a mesada!", "podes ajudar aqui?", "empresta à tua irmã!", "dá um beijinho à avó!", "pergunta ao pai!", "pergunta à mãe!", "o pai morreu", "a mãe morreu"...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional do Psicólogo.)
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quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Provavelmente a melhor vitela assada mundo
Assim e assado
- Há dias assim.
- E dias assado?
- Assado? Foi tempo...
Eu às vezes temo pelo futuro da nossa vitela assada. A existência da confraria respectiva não me sossega e por acaso até já me preocupou. Isto é, não sei se a nossa vitela assada à moda de Fafe está realmente em boas mãos. O circo chegou à cozinha. Lembro-me das nossas Feiras Francas de 2013 e de uma programação toda modernaça que até meteu workshopping, showcasing e showcooking, e esta parte afligiu-me desde logo. Anunciava-se "a tradição e a inovação de mãos dadas", prometia-se a "elaboração de pratos tradicionais recriando com inovação", e eu, à rasca, só pedia aos Céus: - Com a nossa vitela, não! Senhor, fazei com que eles deixem estar tudo como está, que está tão bem, graças a Deus! São Lourenço, padroeiro dos cozinheiros, segundo uns, rogai por nós! São Benedito, padroeiro dos cozinheiros, segundo outros, rogai por nós! Minha rica Senhora de Antime, livrai-nos dos estragadores e salvai a nossa vitela assada, amém!
É. Eu sou muito religioso, embora amiúde não pareça, e levo a comida muito a sério, mas isso já se sabe. A honesta vitela assada à moda de Fafe até poderá ter os dias contados, porque os comedores de rúcula e outros tofus ainda nos vão proibir o consumo de carne, mas, enquanto não é crime, eu faço questão que a deixem em paz. Uma simples rodela de laranja a enfeitar, ainda que com a melhor das intenções, pode deitar tudo a perder.
E por isso digo e redigo: não mexam na nossa vitela assada! A vitela assada à moda de Fafe é o que é. É à moda mas não há modas. É, sem tirar nem pôr. Não tem variações, não admite inovações, dispensa recriações ou até interpretações. É vitela assada à moda de Fafe. Tal e qual como a recebemos dos nossos avós e dos avós dos nossos avós. Assim.
Sei muito bem o que fizeram à lampreia. A lampreia é, para mim, o supra-sumo da melhor gastronomia alto-minhota. Uma gastronomia apurada, robusta, variada, generosa, com personalidade, como eu gosto e como é, no geral, toda a honesta cozinha tradicional portuguesa. Há o arroz de lampreia, há a lampreia à bordalesa. E até admito mais duas ou três bondosas variantes (como a lampreia fumada, a lampreia recheada ou a lampreia assada), mas que, não desmerecendo, já não me são a mesma coisa. Eu fico-me pela arrozada a fugir do prato a todo o vapor e pela bordalesa intensa e substancial - embora, como a maioria dos portugueses, já só coma lampreia praticamente de memória.
No Alto Minho, a lampreia é justamente considerada "um prato de excelência" e de tradição. Sim, de tradição. "Para confeccionar um produto de qualidade com paixão e arte, nada melhor que as mãos de afamadas cozinheiras que receberam os testemunhos e segredos de gerações passadas, com raízes na ancestral tradição culinária do Vale do Minho", lia-se, uma vez, num opúsculo que chamava visitantes e promovia o consumo do apreciado ciclóstomo nos restaurantes da região.
E até aqui tudo bem. Só que, na capa do tal prospecto, a lampreia era apresentada num empratamento aguado e triste, desenxabido, somítico, obra certamente de um daqueles famosos jovens chefs da televisão que não cozinham nada mas têm muito jeito para as artes plásticas. Resultou assim uma coisa de snack-bar cantineiro, algures entre Nova Iorque e Bogotá, sem passar por Bouças, espécie de nouvelle cuisine pretensiosa e escusada, que envergonha a velha lampreia e a tradição gastronómica alto-minhota. Uma desgraça.
Assusta-me que venha a passar-se o mesmo com a nossa vitela. Quer-se dizer: temos provavelmente a melhor vitela assada do mundo, vamos agora inventar o quê?...
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quarta-feira, 2 de setembro de 2026
O último pedido
Vinham o padre, o presidente da câmara, o chefe da polícia, o sargento da GNR, o Emplastro, o comandante dos bombeiros, a fanfarra dos escuteiros, uma gaiola com pombas brancas e o director da prisão. Parecia uma procissão. O carcereiro, que vinha também, desatarraxou a porta da cela e o director da prisão, solene, com voz de padre, informou o condenado: - Tens direito a um último pedido. O condenado pensou um bocado e disse: - Pode ser o "Pica do 7", do António Zambujo?...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A Penitenciária de Lisboa foi inaugurada no dia 2 de Setembro de 1885.)
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