quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Provavelmente a melhor vitela assada mundo

Assim e assado
- Há dias assim.
- E dias assado?
- Assado? Foi tempo...

Eu às vezes temo pelo futuro da nossa vitela assada. A existência da confraria respectiva não me sossega e por acaso até já me preocupou. Isto é, não sei se a nossa vitela assada à moda de Fafe está realmente em boas mãos. O circo chegou à cozinha. Lembro-me das nossas Feiras Francas de 2013 e de uma programação toda modernaça que até meteu workshopping, showcasing e showcooking, e esta parte afligiu-me desde logo. Anunciava-se "a tradição e a inovação de mãos dadas", prometia-se a "elaboração de pratos tradicionais recriando com inovação", e eu, à rasca, só pedia aos Céus: - Com a nossa vitela, não! Senhor, fazei com que eles deixem estar tudo como está, que está tão bem, graças a Deus! São Lourenço, padroeiro dos cozinheiros, segundo uns, rogai por nós! São Benedito, padroeiro dos cozinheiros, segundo outros, rogai por nós! Minha rica Senhora de Antime, livrai-nos dos estragadores e salvai a nossa vitela assada, amém!
É. Eu sou muito religioso, embora amiúde não pareça, e levo a comida muito a sério, mas isso já se sabe. A honesta vitela assada à moda de Fafe até poderá ter os dias contados, porque os comedores de rúcula e outros tofus ainda nos vão proibir o consumo de carne, mas, enquanto não é crime, eu faço questão que a deixem em paz. Uma simples rodela de laranja a enfeitar, ainda que com a melhor das intenções, pode deitar tudo a perder.
E por isso digo e redigo: não mexam na nossa vitela assada! A vitela assada à moda de Fafe é o que é. É à moda mas não há modas. É, sem tirar nem pôr. Não tem variações, não admite inovações, dispensa recriações ou até interpretações. É vitela assada à moda de Fafe. Tal e qual como a recebemos dos nossos avós e dos avós dos nossos avós. Assim.

Sei muito bem o que fizeram à lampreia. A lampreia é, para mim, o supra-sumo da melhor gastronomia alto-minhota. Uma gastronomia apurada, robusta, variada, generosa, com personalidade, como eu gosto e como é, no geral, toda a honesta cozinha tradicional portuguesa. Há o arroz de lampreia, há a lampreia à bordalesa. E até admito mais duas ou três bondosas variantes (como a lampreia fumada, a lampreia recheada ou a lampreia assada), mas que, não desmerecendo, já não me são a mesma coisa. Eu fico-me pela arrozada a fugir do prato a todo o vapor e pela bordalesa intensa e substancial - embora, como a maioria dos portugueses, já só coma lampreia praticamente de memória.
No Alto Minho, a lampreia é justamente considerada "um prato de excelência" e de tradição. Sim, de tradição. "Para confeccionar um produto de qualidade com paixão e arte, nada melhor que as mãos de afamadas cozinheiras que receberam os testemunhos e segredos de gerações passadas, com raízes na ancestral tradição culinária do Vale do Minho", lia-se, uma vez, num opúsculo que chamava visitantes e promovia o consumo do apreciado ciclóstomo nos restaurantes da região.
E até aqui tudo bem. Só que, na capa do tal prospecto, a lampreia era apresentada num empratamento aguado e triste, desenxabido, somítico, obra certamente de um daqueles famosos jovens chefs da televisão que não cozinham nada mas têm muito jeito para as artes plásticas. Resultou assim uma coisa de snack-bar cantineiro, algures entre Nova Iorque e Bogotá, sem passar por Bouças, espécie de nouvelle cuisine pretensiosa e escusada, que envergonha a velha lampreia e a tradição gastronómica alto-minhota. Uma desgraça.
Assusta-me que venha a passar-se o mesmo com a nossa vitela. Quer-se dizer: temos provavelmente a melhor vitela assada do mundo, vamos agora inventar o quê?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O XI Festival Gastronómico da Vitela Assada à Moda de Fafe decorre de 2 a 5 de Outubro, sexta a segunda-feira, aproveitando o feriado da Implantação da República. Para os participantes na Mostra de Produtos Locais, estão abertas as inscrições, até ao próximo dia 15 de Setembro. Quanto aos apreciadores da santa vitelinha, visitantes ou locais, basta marcar na agenda. Mais informação, aqui.)

E o mar enrola na areia...

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O último pedido

Vinham o padre, o presidente da câmara, o chefe da polícia, o sargento da GNR, o Emplastro, o comandante dos bombeiros, a fanfarra dos escuteiros, uma gaiola com pombas brancas e o director da prisão. Parecia uma procissão. O carcereiro, que vinha também, desatarraxou a porta da cela e o director da prisão, solene, com voz de padre, informou o condenado: - Tens direito a um último pedido. O condenado pensou um bocado e disse: - Pode ser o "Pica do 7", do António Zambujo?...

(Do meu blogue Mistérios de FafeA Penitenciária de Lisboa foi inaugurada no dia 2 de Setembro de 1885.) 

Ora é o céu que é um mar

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Quem vê caras não vê orações

Branco mais branco
Deu o braço a torcer. E depois pô-lo a corar. Era uma pessoa muito limpa.

Um daqueles famosos restaurantes de peixe na brasa aqui ao lado, na Rua Heróis de França, Matosinhos à beira-mar, estais a ver, já vos chegou o cheiro? Ainda é cedo. Pouco passa das oito da manhã, uma velhinha varre cerimoniosamente a esplanada que por acaso é passeio ocupado com ordem municipal, os peões têm de andar pela estrada, toureando carros felizmente em sentido único. Asseada como se fosse domingo, como se fosse Natal, a velhinha, corpo franzino, cabelos brancos de neve, ajeitados à moda da televisão, da telenovela, uma carinha doce, redonda como um minúsculo sol resplandecendo bondade, olhos apontados ao chão, espertos, criteriosos, os olhos, a velhinha varre varre, vagarosa e competente. Varre varre vassourinha, se varreres bem dou-te um vintém, se varreres mal dou-te um real. Se os anjos varressem e fossem velhinhas, e competentes, eram ela certamente e varreriam assim mais ou menos. Lembro-me de velhinhas tais quais no meu tempo de criança, em Fafe, as saudades doem-me na zona do fígado, estou também a ficar velho. A rua naquele sítio àquela hora éramos a velhinha e eu. Eu, que venho de mercar sardinhas madrugadoras e vivas, eventualmente clandestinas, estremeço de comoção. Trauteio distraidamente a lengalenga mansa e antiga, brincada à rodinha no Santo Velho, de mãos estendidas, mãos dadas, meninas e meninos sem distinção, recordo-os a todos e a todas, componho-lhes as caras, dou-lhes os nomes, turva-se-me a vista de repente e, carago, são lágrimas...
Varre varre a velhinha doce e cerimoniosa, olhos espertos e belos. Olhos que não enganam. Bondosos. Cara de sol, de anjo. E, eu a passar-lhe pelas costas em pezinhos de lã, para não incomodar, para não estragar cena tão encantadora, diz a velhinha, completamente distraída de mim, como se fosse um mantra ou, vá lá, a recitação atabalhoada do terço, à tardinha, na nossa Igreja Matriz, antes da bênção do Santíssimo: - Filhos da puta! Era mas é fodê-los! Mandá-los a todos prò caralho! À puta que os pariu!...
É. Ninguém diga que está livre, amém!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.)

Inventei a dança para me disfarçar

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Atrás de Mário Soares

O candidato 
O candidato agarrou, pois, no microfone, coçou-lhe a cabecinha com a unhaca da cera, soprou-lhe o pó num imenso e sonoro perdigoto e, sem mais delongas, disse: - Alô, chape, chape, um, dois. Um, dois, três, microfone, experiência. Chape, chape, um, dois. Um, dois, três, quatro, microfone...
E a multidão irrompeu em aplausos.

Era uma vez campanha eleitoral e saí do trabalho, na tripeiríssima Rua de Santa Catarina, com a ideia de apanhar o autocarro 37, no Largo dos Lóios, com destino à Foz. Havia sol para mais meia dúzia de horas. E quando cheguei à Avenida dos Aliados, que era a meio caminho entre Santa Catarina e os Lóios, esbarrei num enorme ajuntamento que, percebi mais tarde, rodeava e seguia um Carocha de tecto de abrir, e aberto, aquilo parecia o cortejo da Queima das Fitas, mas em sóbrio, por assim dizer. Era muito povo, povo a dar com um pau, agitando bandeiras e gritando palavras decerto de ordem mas tão desordenadas e esdrúxulas que eu não percebia o que é que as pessoas diziam. Aproximei-me, chamado pela curiosidade ou não sei mais por quê, entranhei-me conforme pude, usei o cabedal e o treino dos Comandos, provoquei decerto várias baixas à passagem, furei pelo meio daquele fervor todo e consegui chegar ao carro. Quem é que lá estava de cabeça de fora e braço em modo limpa-pára-brisas acenando à multidão como se fosse Mário Soares ou talvez o Papa? Por acaso não era o Papa, palavra de honra, era mesmo ele, muito melhor, Mário Soares em pessoa.
Eu fiquei a um metro do homem. E deixei-me ficar. O Volkswagen careca andava devagar. E eu deixei-me ir. Mas só percebi depois, muito depois. O maralhal desceu à Praça, subiu a Rua dos Clérigos, passou pelos Leões e pelo Hospital de Santo António, entrou na Rua D. Manuel II e, quando dou fé, Mário Soares está em frente ao Palácio de Cristal, que era assim que se chamava. O esquisito, o inexplicável, é que eu também lá estava. Ainda a um metro do homem. Eu fui atrás dele e não sabia. E já não me lembro como é que afinal cheguei a casa, noite cerrada e atrasado para o jantar, o mais certo é que fosse de táxi, que remédio.
Foi no ano de 1986 e é a história que eu costumo contar quando quero explicar o que é o carisma. Carisma é aquilo: aquele íman, aquele poder sobre as massas, mesmo sem abrir a boca, aquela força invisível que uns poucos têm de aglutinar e empolgar tudo e todos à sua volta, até a mim, que sou um cínico e já tinha andado atrás de Soares pelo menos outra vez, moço ainda, em Fafe, do Largo para o Grémio da Lavoura e, por falta de espaço para tanta gente, do Grémio novamente para o Largo, à procura de sítio onde o comício coubesse.

A Vida, que me tem sido tão boa, concedeu-me, vinte anos mais tarde, nas Presidenciais de 2006, a prenda extraordinária de poder acompanhar no terreno, profissionalmente, a última verdadeira campanha eleitoral de que Portugal deve ter memória. E com Mário Soares, que se borrifava cada vez mais para os soundbites, para os assessores de imprensa e até para o seu ausente director de campanha, que ele frequentemente não sabia muito bem quem era. Em vez de apelar ao voto, em vez de criticar a concorrência, Soares contava histórias, contava História em pequenos auditórios vagamente frequentados, falava de António Sérgio, de Álvaro Cunhal, de Agostinho da Silva, de Camilo Castelo Branco (lembro-me, em Famalicão), de Antero de Quental. Contava Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Carlos Queiroz, Adolfo Casais Monteiro, Manuel da Fonseca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Alberto Lacerda, Ruy Belo, amigos ou conhecidos em graus diversos. E eu regalado. O meu jornal, que era o estrambólico 24horas, mandara-me à procura das proverbiais gafes e partes gagas do velho leão, então já com uns bem vividos 82 anos. Eu consolei-me com o resto.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. No dia 31 de Agosto de 2005, Mário Soares anunciou a candidatura à Presidência da República.)