terça-feira, 13 de outubro de 2026

Dom Vilaça, senhor de Paredes de Coura

Foto Fernando Veludo

Mais vale quase do que realmente
A família é uma coisa muito estranha. Já reparastes que o mais forte laço familiar acaba por ser aquele que une as pessoas que "é como se fossem da família"?

Aquilino Ribeiro (1885-1963) percebia de comida, segundo consta e deixou escrito. E seria provavelmente um bom garfo. Na cozinha e à mesa, o escritor de Sernancelhe gostava do que era bom e sabia o que era bom. Perdia-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), apreciava caldo-verde, adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia as "dez" maneiras de cozinhar truta, assim e assado, e fazia questão de explicar ao detalhe como tudo devia ser trabalhado antes, durante e depois do lume. Por estas e por outras, há até quem diga que existe uma certa "gastronomia aquiliniana". E eu sei lá.
Ora, havia um sítio e um homem em Portugal que guardavam e serviam a cozinha e as palavras de Aquilino como se a tarefa lhes tivesse sido encomendada por quem de direito, e por acaso nunca foi. Era de livre e espontânea vontade. Podeis crer: a gastronomia aquiliniana de carne e osso, a que realmente existiu, foi inventada por outro, muitos anos depois da morte do próprio Aquilino Ribeiro. E o outro era Manuel Vilaça Pinto, o homem extraordinário que, nos bons velhos tempos, levava tanto povo a Paredes de Coura como o famoso festival de música - e a terra talvez não o tenha reconhecido suficientemente, pelo menos em tempo útil. O sítio era o seu Restaurante Conselheiro, espetado no coração da vila, mesmo em frente à Câmara Municipal.
O restaurante chamava-se Conselheiro derivado a outro figuraço local, o Conselheiro Miguel Dantas (1836-1905), com nome de rua, estátua e tudo, mas toda a gente ainda hoje pensa que era por causa do Sr. Vilaça propriamente dito. O Sr. Vilaça era, com efeito, conselheiro para todo o serviço. De comidas e de vidas. E um bom amigo. Querido e saudoso amigo. Tratava-me por "Amigo Hernâni", um "Amigo Hernâni" muito nasalado, que a Mi ainda hoje imita tão bem, sentava-se à mesa connosco, no nosso cantinho reservado, bebia um copo, enchia-nos de mimos gastronómicos, às vezes, no fim, recusava-se a receber, não dava hipótese, conversávamos entretanto de jornalismo, de política, de "famosos" da televisão e de gajas boas como o milho, que era o seu assunto predilecto. Era amiúde "um bocadinho" inconveniente, sobretudo na presença de senhoras, mas o que se havia de fazer, aquele era o nosso Dom Vilaça, como eu o tratava, não o reconheceríamos de outra maneira. Falávamos também de futebol, evidentemente, do seu Sporting, que só lhe dava desgostos, dos presidentes e treinadores pataratas que só o envergonhavam. Era um sportinguista de berço, inteiro e militante. Sofredor e adiado, como é todo o bom sportinguista. O jovem Manuel Vilaça tinha sido um prometedor praticante de atletismo em Alvalade, medalhado, internacionalizado, lá pela segunda metade da década de 1950, e a pancada ficou-lhe. Perdoava o meu portismo, mas Pinto da Costa é que não. Tinha-lhe uma osga tão grande que não sei se não foi disso que o velho papa-títulos morreu.
No Conselheiro restaurante, inimitável santuário gastronómico do Alto Minho interior, é que nasceu a "cozinha tradicional" de Paredes de Coura, isso posso garantir. A feijoada do Corno do Bico, a panela de cozido, o cozido frito, o bolo no tacho, o cabrito avinhado em verde tinto, o bacalhau alto de cebolada com lasca de presunto e broa frita, as pataniscas com arroz de feijão branco, as trutas de escabeche. "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer antecipado de mestre Aquilino. Foi tudo ali congeminado, desculpai-me a rudeza da descrição, os nomes assim tão crus, sem confitados nem emulsões, sem camas de, mas era apenas comida, coisinhas boas e apetitosas, nada de números de circo ou arte surrealista. E o Conselheiro era único até nisto: promovia Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. E o Sr. Vilaça encarregava-se de ensinar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferecia aos seus clientes um livrinho cheio de citações do autor de "Terras do Demo", palavrinhas que tinham a ver com o que se acabara de comer. E era tudo tão bom - a comida e as palavras...
Vinha gente de Lisboa e de mais além, vinham de propósito. Por ali passaram inúmeros figurões da praça nacional. Só eu contei, por acaso, o escritor Mário Cláudio, habitual freguês do estabelecimento, a actriz Paula Guedes, os actores e encenadores Diogo Infante e José Martins, o actor Pedro Giestas, o historiador e político Fernando Rosas, o jovem humorista Bruno Nogueira, o comendador Rui Nabeiro (1931-2023), família e entourage, o treinador de futebol Vítor Oliveira (1953-2020), o jornalista Alberto Serra e Miguel Veiga (1936-2016), advogado e co-fundador do PSD no Porto, os dois nas andanças de um programa da RTP precisamente sobre Aquilino Ribeiro, a respeito do livro "A Casa Grande de Romarigães".
Um dia eu deixei de poder ir ao Conselheiro. E parece que se passou o mesmo com toda a gente. De repente, Portugal inteiro ficou em casa a tomar conta dos velhos. O restaurante fechou. E esta é a história da minha vida: eu deixo de aparecer, e as casas fecham. Isto já vem desde o tempo do Cinema de Fafe e passou-se outra vez ultimamente com o Restaurante Cruzeiro, em Santa Maria do Bouro, Amares. Palavra de honra, fico com um sentimento de culpa de que nem fazeis ideia. Mas o Conselheiro. Dom Vilaça foi descansar para o Algarve, junto da filha, que o acompanhava há anos. Estava, de facto, bastante doente e amargurado. Eu costumava ligar-lhe todas as semanas e ele comovia-se muito, alegrava-se, desfazia-se em agradecimentos que só me envergonhavam. Depois, não sei dizer quando, o telefone deixou de atender-me...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Casa de praia

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Os dias inúteis

Sempre a dar-lhe
Esteve de baixa em Janeiro e Fevereiro, pelo seguro em Março e Abril, de quarentena em Maio, dispensado sem perda de salário em Junho, sob "lay-off" em Julho, chegou a Agosto e meteu férias.

Quem terá inventado a teoria dos "dias úteis" e das "horas de expediente"? Donde veio semelhante ciência? Porque é que, não vamos mais longe, os meus sábados, os meus domingos, os meus feriados e dias santos, as minhas férias, se eu as tivesse, hão-de ser considerados dias inúteis e, digamos assim, imprestáveis para a Nação?
Eu por acaso não concordo, e também sou Nação, segundo suponho. Pela parte que me toca, comigo isto dos dias úteis funciona exactamente ao contrário, foi sempre exactamente ao contrário. Os meus dias mais profícuos foram e são os fins-de-semana e afins, aproveito-os até ao tutano, todos os minutos e segundos, coisinhas de nada dão-me imenso prazer, gozo como um perdido, a minha mulher que o diga, que ela é que me leva, nós fazemos os dias de mão dada. Chamar-lhes inúteis, a estes meus dias esplendorosos e cheios, é uma estupidez rematada. É de quem não sabe o melhor.
São-me tão úteis os meus dias inúteis. De resto, não descansei enquanto não consegui transformar todos os "dias úteis" dos outros em "dias inúteis" para mim, para nós, isto é, reformei-me mal pude, logo que atingi a idade, nem mais um dia de emprego e horário, que trabalho é outro assunto, tenho agora finalmente um modo de vida completamente "inútil" e geralmente feliz. Ajudo pessoas, nas horas vagas. A inutilidade é uma coisa bastante útil, é só o que vos digo. Regalo-me.
Depois, chateiam-me as "horas de expediente", expressão tão prestável ao duplo sentido e que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. Fico a magicar no seguinte: será que, das 9 às 17, nas Finanças, no Registo, nas autarquias ou nos ministérios, o papel do funcionalismo passa por lançar mão de todos os truques e armadilhas possíveis e imagináveis, para nos infernizar a vida e sacar-nos tudo, até o cotão dos bolsos, a mando do Estado? Então mais vale ir lá bater à porta depois do fecho dos serviços. Pode ser que, fora de horas, sem a obrigação do "expediente", sejamos enfim atendidos com honradez.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Ó cavalinho, cavalinho!

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 11 de outubro de 2026

Ai rapariga, rapariga, rapariga

A jovem mãe aproveitou o inesperado bocanho da manhã farrusca e incerta para descer até ao passeio da praia com a filhinha pela mão. Que bonitas, as duas, tão frescas e mimosas, mas que belas raparigas! A jovem mãe apontou o areal e disse naquela maneira pateta de falar às criancinhas, como se as criancinhas fossem atrasadas mentais ou, vá lá, cãezinhos de colo:
- Ei!, tantas pombinhas, tantas pombinhas! Eeeiii! Ó pombinhas, ó pombinhas!...
A menina, pouco convencida porém obediente, correspondeu com um económico e timorato:
- Ei.
Tinha razão a pequena. Já suficientemente grande para saber a verdade das coisas. Eram gaivotas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Rapariga. Ou da Menina, no Brasil.)

Maria já não vai com as outras

Enquanto Maria ia com as outras, bem ia. O pior foi quando foi com o outro, só para provar. Resultou grávida de seis meses e agora as outras já não a deixam ir.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Rapariga.)

Passagem de testemunho

Foto Hernâni Von Doellinger