domingo, 3 de maio de 2026

O sorriso do Zé Carlos Estantio

Com o riso não se brinca
Tomem-se todas as precauções. O riso é altamente contagioso. Recomenda-se o uso de máscara.

Consultei o catálogo. Há dezanove tipos de sorriso, dizem os entendidos, mas apenas seis são considerados sinal de felicidade ou alegria e somente um é avaliado como genuíno ou verdadeiro - o famoso sorriso de Duchenne, conhecido como "sorriso com os olhos", embora também envolva a boca. Vêm depois, por exemplo, o sorriso social, o sorriso de satisfação, o sorriso sorrateiro ou talvez malicioso, o sorriso de desprezo, o sorriso falso, o sorriso forçado, o sorriso sedutor, o sorriso triste, o sorriso de medo, o sorriso de resignação, o sorriso coquete e o sorriso amarelo. Dois sorrisos amarelos correspondem, evidentemente, a um sorriso vermelho. Junto-lhes eu, de borla, e não tendes nada que agradecer, o sorriso Pepsodent, o sorriso da Mona Lisa e, dentro do género, o sorriso do Zé Carlos Estantio.
O nosso Zé Carlos Estantio. Em Fafe, perguntai por ele aos mais velhos, que vos contem, e descobrireis, prometo-vos, uma figura estimável e singular. Um cromo da vila antiga, um mouro de trabalho, sempre a alombar de um lado para o outro, envolto numa nuvem de farinha, uma jóia de moço, desde que não se metessem com ele, uma cara personalizada, inesquecível. Não era por acaso que o Estantio se chamava Estantio.
O adjectivo estantio é um regionalismo baixo-minhoto, portanto nosso, que quer dizer estacado, pasmado, assarapantado. E o Zé Carlos era isso permanentemente, ao natural, a cara chapada do sorriso Duchenne, o tal que envolve os olhos e a boca, quer dizer, o músculo zigomático maior e o músculo orbicular do olho, para que melhor nos entendamos.
Os especialistas assinalam que um sorriso genuíno, a sério, ou à séria, se o sorriso for em Lisboa, pode implicar a contracção de dezassete músculos faciais. Postulado não aplicável, evidentemente, ao Zé Carlos Estantio, que exibia o sorriso Duchenne em todo o seu esplendor, de manhã à noite, e suponho que também durante o sono, sem esforço nenhum, isto é, sem mexer uma palha, quanto mais um músculo. A cara do Estantio estava formatada de nascença, predeterminada num sorriso quiçá difícil de entender, mas honesto e eterno. Livre. Hoje em dia, aliás, o sorriso de Duchenne poderia chamar-se, mais propriamente, sorriso do Zé Carlos Estantio, o que seria uma honra para Fafe e para todos os fafenses, termos o nosso sorriso na cara das outras pessoas, inclusivamente estrangeiras e até americanas, para não irmos mais longe.
Para todos os efeitos, a cara do Estantio, com o seu sorriso estampado, indelével, irrevogável, podia, por outro lado, ser considerada uma cara de gozo, de desafio. Podia e era perigoso. Lembrais-vos, aqui atrasado, quando o Sr. Sérgio Conceição estava de treinador do FC Porto e foi castigado com 30 dias de suspensão e mais de dez mil euros de multa por causa do seu "sorriso jocoso". E da outra vez em que foi expulso de um jogo derivado ao seu "olhar fulminante"? Um sorriso deslocado ou mal interpretado, em quantas tragédias já descambou? Pois é: a sorte do Zé Carlos é que nunca foi treinador do FC Porto e era de Fafe, uma terra de mansos costumes e bastante respeito, pelo menos às vezes.
O Estantio partiu e foi um sorriso que se perdeu, uma estrela que se apagou no firmamento local. Fafe ficou mais pobre. E nem vou falar do Chico Cereja, porque isso já é outro assunto, mais profundo, fica para outra maré. Isto, às tantas, cheirará a conversa de velho, e será, mas eu digo que Fafe tinha mais piada antigamente, no tempo dos fafenses excelentíssimos, e o Zé Carlos, parecendo que não, fazia parte dessa extraordinária elite. Havia sorrisos.
Agora há risos, a verdade também tem de ser dita. Chovem comediantes no Teatro-Cinema, à ordem dos dois ou três por mês, e são sempre um sucesso. Porreiro, porque rir faz bem à saúde, faz bem ao fígado, faz bem à pele, faz bem ao coração, faz bem à pituitária, faz bem à próstata, faz bem à alma, faz bem na gravidez, enfim, rir é o melhor remédio. Ainda bem que Fafe ri.
No fafês de antanho havia, se não estou em erro, expressões idiomáticas, ou idiotismos, como também se diz, que pressagiavam os tempos artificialmente alegres que hoje vivemos. Usavam-se nos cumprimentos à distância, nas saudações para o outro lado da rua, ou passando de carro, ditas entredentes a acompanhar o sorriso hipócrita e o aceno de mão automático, como se fosse "bom dia!" ou "boa tarde!", "olá, viva, como é que está!?", algo do género. Lembro-me daquela, muito batida - E se te fosses rir prò caralho? Ou da outra, utilizada regularmente pelo meu tio Américo e igualmente assertiva - Vai-te rir pra quem te monta!
Era. Os antigos sabiam muito! E havia educação.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Riso.)

A invenção da cruz

Hoje, 3 de Maio, a Igreja Católica celebra o Dia da Invenção da Santa Cruz. Da invenção, valha-me Deus! Convenhamos que, assim de repente, o nome da efeméride não parece lá grande espingarda, pois não? Quero dizer: não é de confiança. Então a cruz foi inventada? E, ainda por cima, um mês e picos depois da Páscoa, altura em que ela, a cruz, segundo a tradição, teria sido realmente precisa? Acho isto tudo muito suspeito. Cheira a batota, trafulhice...

P.S. - Hoje é Dia da Invenção da Santa Cruz. Também é Dia da GNR, Dia da Liberdade de Imprensa, Dia do Riso e Dia da Mãe, que isto anda tudo ligado.

Ó da guarda!

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 2 de maio de 2026

É preciso ter lata

O confinamento imposto pela pandemia fez dele um verdadeiro especialista em atum, preparando-o para toda a espécie de apagões. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Atum.

O feitiço contra o feiticeiro

Quando o Feitiço se virou contra o Feiticeiro, o Feiticeiro resmungou: - Mal agradecido...

P.S. - Hoje é Dia Internacional de Harry Potter.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Tocavam os sinos da torre da igreja

Foto Hernâni Von Doellinger
 
Advérbios
Há oras felizes e aliás também.

Naquele tempo, Fafe dispunha de dois razoáveis tocadores de sinos: o Zé Sacristão, na Igreja Nova, e o Mudo, na Igreja Matriz. Ambos autodidactas, biscateiros, rabugentos, mas artistas de mão cheia. O Sr. José era sacristão, como o próprio nome indica, e importante autoridade eclesiástica local, logo a seguir ao Sr. Arcipreste e à Irmã do Sr. Arcipreste, só depois é que vinham os outros padres e a comissão fabriqueira. Para além disso, era também muito amigo e principal vítima das anedotas e partidas do meu avô da Bomba e do Sr. Ferreira do Hospital, que lhe davam cabo da cabeça por uma questão de princípio. O Mudo era engraxador e sportinguista de alto gabarito, irredutível fiscal antiborlas e segurança atrás das balizas, primeiro no Campo da Granja e depois no Estádio, hoje, com a mania dos eufemismos sem sentido, chamar-lhe-iam steward e talvez Infonador ou Insonoro. Mantinha ponto no cruzamento da Rua Montenegro com a Rua António Cândido, do lado do Asilo, em frente ao Cândido Mota.
A torre da Igreja Nova dava as horas a prestações, automaticamente, comandando a toque de caixa a vida na vila antiga. Para músicas mais elaboradas, em ocasiões especiais, os sinos eram tocados a partir da sacristia. Imediatamente após as escadas e a porta, quem entrava por fora, logo à mão esquerda, antes do armário que guardava casulas e estolas, capas e outras alfaias litúrgicas mais pesadas, havia uma espécie de cofre cravado na parede e sempre fechado à chave. O interior continha um teclado de meia dúzia de notas, eventualmente as sete básicas mais um ou outro sustenido ou bemol, não tenho a certeza, e era ali, carregando nas teclas com um pauzinho tipo régua, uma de cada vez, na ordem certa, de ouvido, como quem escreve à máquina só com um dedo, que o Sr. Zé Sacristão, ou Zé Fogata, executava as duas ou três modinhas religiosas que sabia, regra geral sem enganos de maior nem improvisações dignas de registo, naturalmente dependendo da hora a que decorria o recital. Entre o toque seco na tecla e a resposta do sino respectivo demorava sempre um bocadinho, um quase nada, mas eu, menino de ajudar à missa, percebia aquilo muito bem, era o tempo que a nota levava a chegar lá acima, porque a electricidade naquela altura não era tão rápida e instantânea como é agora a dos computadores.
Estes concertos eram dados principalmente em dias de festa religiosa, antes e no final de missa solene, nas saídas ou chegadas de compassos e procissões - e lembram-me sol, manhãs límpidas e alegres. Estavam previstos, pertenciam à liturgia oficial. Pela parte que lhe tocava, e muito, o Sr. José também aceitava encomendas particulares, para assinalar condignamente casamentos e baptizados mais faustosos, por assim dizer, mas isso já era pago por fora - se é que me faço entender.
Na Igreja Matriz, o Mudo fazia igualmente pela vida, aproveitando sobretudo os funerais. Estou em crer que o seu serviço constava na folha de pagamentos dos dois cangalheiros fafenses originais, fora as sempre bem-vindas gorjetas dadas pelos familiares do defunto, que assim cuidavam de marcar lugar no céu. Na Matriz exigia-se ao sineiro um desempenho mais atlético e menos melodioso, os sinos eram da geração anterior, tocados à mão, directamente, puxando cordas e badalos, nos velhos compassos, plangentes, com alma, do dobrar de finados. Lá em cima, na torre, ser surdo deveria revelar-se de uma extrema comodidade.
Era o que tínhamos. E dávamos-lhe muito bom uso, não é para nos gabar. Agora. Diz-se que Portugal tem desde 2005 o segundo maior carrilhão da Europa. Em Alverca, com 72 sinos, alguns dos quais pesam várias toneladas, e todos geralmente calados. É o terceiro carrilhão construído em Portugal, depois dos famosos carrilhões instalados, no século XVIII, no Convento de Mafra e na Torre dos Clérigos, no Porto. Os Carrilhões de Mafra são considerados, aliás, o maior conjunto de carrilhão fixo do mundo, com 120 sinos em duas torres. E o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo é também português, o Lvsitanvs, com 63 sinos e cerca de 12 toneladas, sediado em Constância mas a poder viajar por todo o país em cima de um semi-reboque, segundo leio.
De carrilhões realmente até nem estamos mal servidos. Há quem diga que é preciso tê-los, e nós temos. E quem diz carrilhões, diz órgãos. Órgãos de tubos. Como, por exemplo, o avantajado órgão de tubos da portuense Igreja da Lapa, que é considerado "o maior órgão de tubos da Península Ibérica", e olé!, e o poderoso órgão de tubos da Basílica da Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, que é considerado "o maior órgão de tubos de Portugal". Há qualquer coisa aqui que não bate certo, é verdade, mas eu não sei o que é. Os medidores de instrumentos não se entendem e desconhecem os contornos da geografia, mas o livro da antiga 4.ª classe, contas simples de somar e uma fita métrica bastariam para acabar de vez com a confusão, se o assunto fosse em Fafe. Isto com os órgãos para o Guinness não é questão de opinião ou desempenho. O tamanho importa, mesmo!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O carrilhão de Alverca, considerado o segundo maior carrilhão da Europa, foi inaugurado no dia 1 de Maio de 2005.)

A tuba no meio da turba

Foto Hernâni Von Doellinger