Um carro despistou-se, voou dizem que dez metros e caiu em cima dos escadórios do Bom Jesus, em Braga. Poucas horas após o acidente, a Confraria do Bom Jesus do Monte já fazia contas aos prejuízos, projectava indemnizações e dizia à agência Lusa. "Partiu muro, degraus, calçada, os danos são grandes, mas vai ter de ser feito um levantamento ao pormenor com muito rigor. Depois vamos fazer participação ao seguro do veículo sinistrado". Gente competente, graças a Deus. Quem estraga, paga. Com língua de palmo, se possível, porque, lá está, "os danos são grandes". Que pena a Conferência Episcopal Portuguesa não ter entregue à Confraria do Bom Jesus do Monte a responsabilidade pelo processo de reparação das vítimas de abusos sexuais da Igreja Católica...
Tarrenego!
domingo, 4 de outubro de 2026
Soba! Soba! Soba!
Sete cães a um osso"Os cães passam e a caravana ladra", dizia sempre que os via. Realmente, estava farto de políticos e de campanhas eleitorais
Assobar é, evidentemente, o mesmo que açular, isto é, estimular, instigar, provocar, acirrar, incitar, irritar, atiçar, estimular, excitar, enraivar, mandar morder ou atacar. E como é que isso se fazia? Como é que isso, se calhar, ainda se faz? Colocando os cães frente a frente, focinho contra focinho, ou ao pé das pernas do homem-alvo, empurrando os animais, chibatando-os, apontando ao "inimigo" e gritando a palava de ordem "Soba! Soba! Soba!", que havia de significar "Ataca! Ataca! Ataca!", e terá sido assim que a coisa começou, de soba para assobar ou vice-versa, sei lá, estabelecendo-se enfim na gramática do povo.
E é curioso, isto do falar dos velhos. Os cães, eu já os tinha metido no "Torna! Torna! Torna!", não sei se vos lembrais, e agora, por maioria de razão e direito próprio, entram neste "Soba! Soba! Soba!". Pois é. Como dizia o saudoso Eduardo Guerra Carneiro e eu não me canso de repetir à minha mulher: isto anda tudo ligado.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Animal e Dia do Médico Veterinário. E Dia de São Francisco de Assis. E começa a Semana Mundial do Espaço.)
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sábado, 3 de outubro de 2026
Dá Deus dentes... e é uma chatice
Oh, my dicky ticker!
Eu tinha um cardiologista por acaso porreirinho e visitava-o de quatro em quatro meses. A pagar. Falávamos de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto, que nos interessava a ambos. Acto médico é que nada, mas no intervalo medíamos a tensão, o que é extraordinário! Deixei. Deixei também o urologista, os toques rectais não me seduzem, e fiquei-me somente com o dentista, que me sevicia de meio em meio ano, fora os inopinados, como por exemplo agora mesmo que ando arreliado das gengivas e vou ao castigo de dois em dois meses, lá se me vai o pé-de-meia. É a crise, é a vida. Um destes dias morro de repente, do coração, mas com uma boca que é uma categoria, e ainda vão dizer que foi por por causa de eu ter deixado de falar de jornais, de jornalistas, de política, de bons restaurantes secretos e fora de mão e sobretudo do FC Porto com o meu ex-cardiologista.
Cheguei muito tarde ao dentista. Logo eu que tomo horas para tudo, cheguei tarde ao dentista. Quero dizer: já passava dos quarenta. Evidentemente não sou exemplo para ninguém, também neste departamento da vida, mas a verdade é que, apesar de tantos anos de aparente desmazelo odontológico, eu tinha uma cremalheira que era um mimo - foi o que me disse o doutor, muito admirado e elogioso, quando lhe arreganhei a tacha pela primeira vez. Palavras para quê? Eu usava Pasta Medicinal Couto. Os meus problemas com os dentes começaram, portanto, quando fui ao dentista.
E estreei-me em grande, numa célebre extracção de um siso, que, não é para me gabar, correu que foi uma desgraça. O dente estava muito apegado a mim, eram décadas de convívio e recusava-se a sair, compreendo-o. Anestesia atrás de anestesia, o dentista escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, pedia desculpa, que nunca tinha acontecido, inventava alavancas que não alavancavam nada, fazia o pino, o quatro e o oito, trinta por uma linha, tentou o flique-flaque à retaguarda e o mergulho empranchado de braços abertos, escarafunchava e puxava, o homem suava copiosamente e eu sem guarda-chuva nem limpa pára-brisas, parava para se desfazer das cambras, ralhava com as afogueadas assistentes que pareciam baratas tontas, pedia outra vez desculpa, que nunca tinha acontecido, e elas, quase em lágrimas e em coro: nunca tinha acontecido, mandou vir um escadote, a escada Magirus dos Bombeiros, uma marreta da obra em frente, o fogueteiro de Arões, o grupo de zés-pereiras de Regadas e um velho bombista do Verão Quente de 1975, por esta exacta ordem, escarafunchava e escarafunchava, puxava e puxava, desculpe, nunca tinha acontecido, e nada. Que daqui não saio, daqui ninguém me tira, insistia o filho da puta do dente, agarrado à gengiva como uma lapa, e já me estava a meter nervos.
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.
(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)
O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
Eu era uma poça de sangue. A minha boca era já duas, derivado ao escarrapacho forçado. Tinha a boca pior que o chapéu de um pobre - e foi ali que eu percebi na carne o significado da infeliz expressão. Se eu pudesse falar, gritaria: "chama-me um carro!", como se dizia em Fafe, mas eu não podia falar, porque não sentia a boca e isso até era do mal o menos.
(Por outro lado, o dentista passa muito bem sem a nossa opinião. Já reparastes que o dentista só faz perguntas depois de nos atafulhar a boca com metade dos móveis do consultório e a mangueira do jardim? Respondemos como? Só se for pelo nariz, mas isso é número arriscado e praticável apenas em caso de profunda constipação. E já destes fé que a gente vai lá queixar-se do dente de baixo e o dentista trata do dente de cima? E que geralmente acerta?)
O dente cedeu, por implosão controlada, ao fim de uma manhã inteira de pancadaria. O dente era eu. E eu era um destroço, um sobrevivente inesperado de Alcácer Quibir. Vi-me ao espelho: tinha os lábios esgaçados de orelha a orelha, parecia o Joker do Jack Nicholson. Para me confortar, o dentista disse-me que ainda ia ficar pior. E ficou. No dia seguinte: os cantos da boca em ferida, a cara inteira feita num bolo, inchada e negra. É. Eu tinha uma cara nova, irreconhecível, parecia que tinha passado pelo programa de protecção de testemunhas do FBI. Ou pelo menos pelo Botched do canal E!...
Por causa da dose cavalar de anestesia, andei semana e meia a babar-me e com um falar esquisito. A minha mulher queria internar-me. Safei-me por uma unha negra à consulta externa do Hospital Magalhães Lemos.
Mas isso passou. A sintomatologia física desapareceu. A memória da carnificina é que não. Padeço de stress pós-traumático. Ainda hoje é uma tortura ir ao barbeiro. Sim, ao barbeiro. Entro em pânico. Estais a ver? A mesma espera, a mesma televisão ligada na Praça da Alegria, a mesma bata branca, a cadeira, a babete, os utensílios cromados, pontiagudos e cortantes, o zzzzzzzzz assobiado do secador que parece o zzzzzzzzz assobiado de uma broca, a televisão desviada para as inundações, estais a ver? Estais a ouvir? Estais a perceber a minha agonia?
Isto é: houve aqui uma transferência qualquer que eu não sei explicar. Porque com o meu dentista corre tudo muito bem, farto-me de o recomendar a toda a gente. Dou-o de conselho. É, aliás, o meu conselho odontológico, como gosto de dizer. Na verdade, o sanguinolento episódio do dente do siso não passou disso e ganhei esta bonita história para contar aos netos de quem é avô. Na próxima sexta-feira vai lá a minha mulher por mim e portanto adeus até ao meu regresso.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Dentista.)
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sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Desarmado em parvo
Era tão pacifista, tão pacifista, tão objector de consciência, tão objector de consciência, tão não-violento, tão não-violento, que havia quem dissesse que ele andava constantemente desarmado em parvo.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Não Violência.)
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De que riem os portugueses?
O humorista brasileiro Juca Chaves costumava contar mais ou menos assim, pondo as palavras na boca do guia do jardim zoológico: "E aqui temos a hiena. A hiena, que é um animal que ri muito. Alimenta-se das fezes dos outros animais e tem relações sexuais com a sua fêmea apenas uma vez por ano". "Mas, se come merda e só fode uma vez por ano, ri de quê?", pergunta o visitante.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Sorriso.
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