quinta-feira, 23 de abril de 2026

As mulheres de Pedro Arroja

É de homem
Homem que é homem não quer nada com mulheres.

Passa das nove e um quarto. Quatro mulheres esperam junto aos portões fechados do palacete-escritório de Pedro Arroja no número 282 da Avenida de Montevideu, na Foz selecta, Porto rico com vista para o mar. Quatro mulheres evidentemente trabalhadoras. Espanto-me. Penso. Não pode ser, não acredito que o Sr. Arroja tenha mulheres ao seu serviço. A escangalharem o quê?, as mulheres. Na empresa do Sr. Arroja até as senhoras da limpeza devem ser homens, tenho a certeza. Continuo a pensar. As mulheres enganaram-se, foi o que foi, e logo as quatro, porque quando as mulheres se ajuntam ainda é pior, desnorteiam-se. Extraviaram-se, é o mais certo. Querem entrar noutro palacete qualquer, uns números à frente ou atrás, mas não sabem. Às tantas era para apresentarem-se no Palacete de Fafe e perderam a Mondinense. Bem o observara em devido tempo o Sr. Arroja, famoso economista e comentador televisivo: as mulheres padecem deveras dessa idiossincrasia tão incorrigivelmente feminil que é a total ausência de sentido de orientação. Não têm tino, as mulheres. Pois se não têm pénis nem testículos, como poderiam?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje, tomai bem nota, é Dia Internacional das Raparigas nas Tecnologias de Informação e Comunicação. Palavra de honra!)

Os livros de Jorge Luis Borges

Os meus livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.


"A Rosa Profunda", Jorge Luis Borges

(Hoje é Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor)

E resultou?

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Os convencidos da vida

Espelho meu
Ele era careca, completamente careca. Careca e vaidoso. Aliás, penteava-se de risca ao meio.

O problema dos ex-colegas. Sim, a chatice dos ex-colegas. Para um gajo a caminho dos setenta, embora em estado de praticamente novo, a questão dos ex-colegas é um aborrecimento quase tão grande como os calhamaços do José Rodrigues dos Santos se por acaso eu os lesse. Uma aflição. Os ex-colegas são uma pedra no sapato, e é por isso que há muitos anos só calço botas ou sapatilhas. Imaginem-me: com ex-colegas da minha rua e da escola primária, os melhores de todos, com ex-colegas do seminário, já lá irei, com ex-colegas do liceu que foram para doutores e foi um ar que se lhes deu, com ex-colegas dos Comandos que acham que são muito audazes e eu realmente não sou, com ex-colegas da fábrica de quem tenho tantas saudades, com ex-colegas dos jornais e da rádio que têm lá as suas vidas, vejo-me à rasca para os aturar a todos, mesmo quando eles não querem saber de mim, o que é regra geral. E quando querem saber de mim, então ainda é pior. O caso do seminário, e eu disse que vinha cá, é absolutamente paradigmático. Para quê? Digmático. Ninguém me mandou para o seminário, fui porque quis, porque queria ser padre, e às vezes ainda quero. A minha mulher sabe disso, desta minha impenitente inclinação, e, mais, somos felizes. No ano em que lá cheguei, ao seminário, éramos 136 crianças, eu tinha 11 anos e havia um documento de acção psicológica (isto anda tudo ligado) que rezava assim: "Começar é fácil. Recomeçar é de muitos. Chegar ao fim é de heróis. Nesta marcha ascensional é nosso dever caminhar! A empresa é difícil, mas fascinante O Ideal!"...
E há criaturas que acreditam nisto, os supra-sumos que chegaram ao "O Ideal!" e que, portanto, só podem imaginar que são os maiores, os "heróis". Se tivessem ido para os Comandos, esses supra-sumos, sumos sacerdotes, andariam agora por aí de boina vermelha e crachá, eventualmente de G3 a tiracolo se os deixassem, e, em vez de melancólicos ego te absolvo, diriam esfuziantes mama sumae! Estes rapazes tiveram os melhores mestres do mundo, o padre Fonseca e o padre João Aguiar, para não irmos mais longe, e afinal não aprenderam nada com eles, não perceberam nada da vida. Não percebem nada da vida.
Eu explico. Reencontrei-me ultimamente com ex-colegas do seminário que deram em padres. E até gostei, a princípio. Há aquela festa propedêutica, "ó pá, há que tempos, és mesmo tu, estás mais gordo, estás mais magro, está igualzinho, dá aí um abraço...", como pessoas normais, e depois os meus ex-colegas enfiam no cu um daqueles feijõezinhos milagrosos que lhes dão aquela voz sacrista e falseta, e, magníficos, condescendentes e compassivos, com a superioridade moral dos eleitos, dos exclusivos de Deus, perguntam sempre lá do alto, como se estivessem secretamente combinados uns com os outros, "e então, o que é que tens feito?"...
Fico atrapalhado. O que é que eu tenho feito? Começo a suar, a gaguejar, não sei o que hei-de dizer em minha defesa. Afinal estou perante um dos que chegaram ao topo do Kilimanjaro e eu nem sequer passei do sopé do Bom Jesus do Monte, onde o Secónego tinha uma casa. Conto o melhor que consigo: "ó pá, tenho sido sobretudo jornalista mas também trabalhei numa fábrica, sou casado há mais de quarenta anos, sempre com a mesma mulher, o que é censurável no meu ofício, porém continuo apaixonado, tenho um filho que é uma jóia e o meu maior orgulho, temos a casa e o carro pagos, damos umas voltinhas para arejar, eu não sei conduzir mas cozinho muito bem, tenho quatro amigos, pendurei a carreira profissional para tomar conta primeiro do meu sogro e depois da minha sogra, e não me lembro se já disse que sou jornalista"...
Mas não chega. Eu sei que não chega! E continuo aflito, gago e suado, mortinho por desaparecer por mim abaixo. Eu até acho que a classe dos ex-colegas está muito sobrevalorizada. Parece-me que a maioria das pessoas passa distraidamente ao lado do negativismo, da carga pejorativa que a própria expressão em si encerra. Ex-colega, ex-colegas. Se, por analogia, as pessoas pensarem no que pensam quando pensam em ex-amigo, em ex-amigos, em ex-mulher ou ex-mulheres, certamente compreenderão o que eu quero dizer. Mas não adianta. Isso não me salva. Os ex-colegas aparecem-me, realizadíssimos da vida, e eu, que sei que sou a desgraça que sou, a mediocridade em pessoa, encho-me de vergonha, só me apetece fugir...
Que raiva! Porque é que os nossos ex-colegas, mesmo os que não conhecemos de lado nenhum, estão todos melhor de vida do que nós? Tenho um desgosto muito grande.

Ou por outra, tinha. Porque aqui atrasado fui a Fafe a um funeral e mudei de táctica. Fui a Fafe, dizia, e esbarrei com um dos meus que deu em padre e que, ainda por cima, estava encarregado do serviço fúnebre. Conversámos na sacristia da Igreja Matriz, intermediados pelo meu sobrinho Geno, que me saiu um tipo bem porreiro. Como de costume, inquirido sacramentalmente, pelo ex-colega, "e então, o que é que tens feito?", confessei na mesma o "ó pá..." do parágrafo ali de cima, o "ó pá..." completo, porque tenho este defeito de informar, deformação decerto profissional, mas depois acrescentei, perguntando-lhe também, para livração da minha alma:
- E tu? Não fazes nada, não é? Quer-se dizer, nunca fizeste nada, pois não? És padre...

P.S. - Em todo o caso e nos tempos que correm, com o que vai aí de pedofilia e outros abusos eclesiásticos: como diria a minha mãe, que é sábia mas também queria um filho padre, "mais vale não fazer nada do que fazer asneiras"...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O padre Fonseca é o padre Albino da Conceição Fonseca, actual reitor do Santuário de Santa Luzia, Viana do Castelo, e o padre João Aguiar era o cónego João Aguiar Campos (1949-2023). Devo muito a ambos. O próximo domingo, 26 de Abril, Domingo do Bom Pastor, será Dia Mundial de Oração pelas Vocações.)

Vanitas vanitatum et omnia vanitas

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 21 de abril de 2026

Entre piçada e pissada, que escolha quem puder

A palavra apareceu-me à esquina pela pena do cronista Ferreira Fernandes, que eu tando respeito e admiro, embora lastime que ele tenha amouchado perante o, por assim dizer, novo acordo ortográfico. A palavra é "pissada". Andei à procura dela e não a vi em sítio de respeito, em local de idoneidade gramatical que me obrigasse a pensar: sim, "pissada" é mesmo assim. Mas, pronto, que seja "pissada", porque, na verdade, encontrei duas ou três "pissas" em dicionários alternativos. Eu, pela parte que me toca, continuarei a piçar com toda a potência, sem medo de que me achem malcriado ou tarado da cedilha. Piçarei, aliás, até que a vós vos doa. Dar uma piçada, levar uma piçada, deixemo-nos de hipocrisias, bem sabemos de onde é que a coisa vem. De resto, confundir "pissada" com piçada pode, consoante as circunstâncias, ser até caso de extrema gravidez.

Este textinho escrevi-o aqui em Setembro de 2015, título incluído. Onze anos passados, quase, o jornal Público acaba de revelar-me a existência de um podcast que se chama "Livros da Piça", e antes assim, porque, lá está, "Livros da Pissa" não me pareceria tão bem.

A Arte de Roubar Fruta, de Francisco Duarte Mangas


"A Arte de Roubar Fruta", mais recente livro de Francisco Duarte Mangas, é apresentado na próxima sexta-feira, dia 24 de Abril, a partir das 21 horas, no Auditório Germano Silva da Biblioteca Municipal de Penafiel. O evento celebra simultaneamente o Dia Mundial do Livro e as comemorações do 25 de Abril. Apresentação a cargo do jornalista Valdemar Cruz.
Um romance violento cheio de ternura. "Em Vilar de Piscos, um lavrador abastado é abatido em casa por elementos das guerrilhas antifranquistas. O atentado dos guerrilheiros em território português provoca uma ação conjunta das polícias políticas de Salazar e Franco: culmina, dois dias antes do Natal de 1946, no cerco e bombardeamento de Cambedo, povoação da raia, onde se refugiam os comandantes das guerrilhas. Em paralelo a esta narrativa, uma outra se desenrola, em S. Bento das Gavieiras, no período do «Verão Quente». Como é vivida a Revolução numa aldeia do Minho? Como se movimenta a Rede Bombista de extrema-direita nas geografias do fim do mundo? As narrativas cruzam-se, algumas personagens atravessam os dois tempos históricos. Porque a maldade é intemporal, diz Armindo Pega, o homem das palavras estranhas, amigo de Justiniano, criado de servir, aterrorizado com os comunistas que lhe querem comer a orelha esquerda. A Arte de Roubar Fruta, onde a paixão das palavras está sempre presente, é um romance sobre a coragem - de homens e mulheres que resistiram à violência fascista, em Portugal e no país vizinho."
Francisco Duarte Mangas nasceu em Rossas, Vieira do Minho. Jornalista, ficcionista, poeta e autor de livros para a infância, é um escritor premiado.