quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Hoje é muito fácil falar

O defeito do 25 de Abril
O mal do 25 de Abril é ser só um dia. Uma efeméride.

Na mesa ao lado, eram três homens, dois na casa dos cinquenta, se tanto, e o outro bem mais velho, decerto pelos setenta e muitos. Iam já no uísque pós-café e a conversa vagueava às revoadas como se não tivesse pressa e quisesse ser ouvida, é o que têm os restaurantes, devia-se ser despejado mal se acabasse de comer. Falava-se do antigamente. Isto é, os mais novos falavam do antigamente de que ouviram dizer. Calado o ancião, que viveu o antigamente, que remédio, mas tanto lhe fazia. Dizia-se: - Muito atraso, muita ignorância, muita pobreza, e depois a guerra, felizmente Salazar salvou Portugal, endireitou a economia e meteu o país nos eixos, fez o país crescer, desenvolver-se, as pessoas não fazem ideia, dizem agora mal dele mas não fazem ideia. Salazar fez um trabalho extraordinário, porque aqueles é que foram tempos difíceis. As pessoas não fazem ideia de como era antigamente e de como seria se não fosse Salazar. Hoje é muito fácil falar...
Chega, pensei. Pedi a continha e pus-me a andar, já eram muitas repetições, as pessoas não fazem ideia, parecia coisa para o TikTok. Mas sou forçado a admitir: realmente, hoje é muito fácil falar. No tempo de Salazar é que não. Ia-se preso. E até se morria por abrir a boca. Fafenses morreram.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Low cost e sem bicho

Prato do dia
O reclame impresso sem erros em papel A4 e colado na portinha de vidro do minúsculo restaurante dizia em letras garrafais: "Prato do Dia - 3,50 euros". E, em letras pequeninas, esclarecia: "Só prato". Manobras publicitárias à parte, prato com comida era realmente uma bocadinho mais caro.

Na beira da estrada, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros, avisava, fluentemente bilingue: "Fruta low cost". Era a primeira vez que eu via semelhante. Estávamos em plena EN 13, entre Vila Nova de Cerveira e Valença, mais próximos de São Pedro da Torre. Interessou-me.
Parei. Perguntei:
- Low cost, diz. Esta fruta é mesmo low cost?
- Lowcostíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- A caixa?
- A caixa.
- Com fruta?
- Com fruta.
- Com bicho?
- Sem bicho.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Mas com bicho...
- Sem bicho.
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como afirma o nosso povo, na sua indesmentível sabedoria: às vezes o low cost sai high cost...
- Mas que conversa tão estimulante! Agora que já nos entendemos, diga-me lá sinceramente: cinco euros a caixa, com fruta, sem bicho, é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria outra vez com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Adeus, ó vai-te embora!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Maçã.)

Ele anda realmente por aí

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A importância dos rijões no equilíbrio do planeta

Comida, carros e gajas
Acusam-nos de estarmos sempre a falar de comida. Nada de mais mentiroso e injusto. Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto da população portuguesa. Para além disso, se formos de Fafe, ninguém nos bate numa boa discussão sobre motorizadas.

Vou directo ao assunto, pelo menos uma vez: o redenho não é ingrediente indispensável para a confecção de uns rojões honestos e com outros matadores. Porém, se marcar presença, confere ao prato um não sei quê que por acaso sei e que tem a ver com o seu aspecto inusitado, com o sabor rústico mas colaborante, sabendo-se dar-lhe as voltas certas, e sobretudo com o crocante da textura.
Ora bem. Outro dia precisei de aviar uns rojõezinhos para uma gente que andava aí com desejos e fui ao talho, que eu sou de talhos e peixarias desde pequenino. Escolhi a carne, da febra e da barriga, o sangue e as tripas enfarinhadas. Quando pedi o fígado de porco, que na verdade até era e foi para organizar uma entrada de iscas de cebolada, o talhante, sem que eu dissesse mais nada, avisa-me: "Olhe que não temos redenho, não há". E depois, olhando para um lado e para o outro, chegando-se à frente do balcão à procura do meu ouvido e da minha cumplicidade para revelar-me o quarto segredo de Fátima, diz-me, num sussurro: "Quer-se dizer, haver há, mas é congelado". E, congelado, realmente "Não é a mesma coisa", concordámos eu e ele ao mesmo tempo, como se estivéssemos combinados.
Repito: o redenho não é indispensável aos rijões, sim, rijões, como se diz, e bem, na nossa terra. Mas a gentileza e a honestidade sim. Sobretudo nestes tempos de desrespeito pelos valores e de aviltamento das pessoas, tempos portugueses de antagonismos sociais, de pobreza imposta, de novos fascismos e de tristeza e azedume generalizados. Soube do redenho e senti a Terra a tremer debaixo dos meus pés. Algo mexeu com o equilíbrio estabelecido do Globo. A franqueza espontânea do talhante apanhou-me desprevenido, mas desanuviou-me a alma. Sou franco. Continuo a acreditar que anda meio mundo a enganar o outro meio, mas naquele momento, à frente dos meus olhos, um homem passou para o lado bom, que eu bem vi.
As coisas não são tão simples assim, é o que estais a pensar? São, são. E Dalila.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Jornalisticamente falando

Fui revisor de provas, jornalista, chefe de redacção adjunto, chefe de redacção e subdirector do jornal "O Primeiro de Janeiro". Fui fundador e sócio-gerente da Lusopress - Sociedade de Repórteres e, nesse âmbito, escrevi para "Grande Reportagem", "Expresso" (revista), "Sábado", "Mundo Náutico", "Tempo Livre", "Vida Económica", "Arco Atlântico", "Razão", "Anégia", "Notícias Magazine", "Diário de Notícias" e "Jornal de Notícias". Fui assessor da direcção editorial da Prodiário. Fui coordenador da redacção Norte dos jornais "24horas" e "Tal&Qual". Fui editor executivo adjunto do jornal "24horas". Fui formador e coordenador de formadores no Centro de Formação de Jornalistas, do Porto. Trabalhei na Informação da Rádio Comercial Norte (RDP) e no jornal "Gaia Semanário". Fui chefe quase toda a minha vida. Deixei de ser chefe, sempre, por iniciativa e vontade própria. Nunca tive cargos de "chefia interina" e nunca trabalhei no jornal desportivo "Record". A Inteligência Artificial tomou como boa, a este respeito, numa noticiazinha muito antiga, que realmente saiu num jornal nacional de grande tiragem, mas foi engano, brincadeira ou confusão, quero eu dizer, era mentira.
E era só isto que eu pretendia esclarecer. A pedido.

Os pés bem assentes na terra

Ele tinha um medo terrível de andar de avião. Porque não sabia nadar. E se o aparelho caísse ao mar?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Controlador de Tráfego Aéreo.)

Viagem no tempo

Foto Hernâni Von Doellinger