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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Estilo e santidade
Há dois santos chamados Simeão Estilista. Simeão Estilista, o Antigo, e Simeão Estilista, o Moço, também conhecido como São Simeão da Montanha Admirável. Estilista vem da palavra grega "stylos", que significa coluna. Era no topo de uma coluna que Simeão, o Antigo, vivia, pregando e jejuando, preso por uma corrente. Quer-se dizer, hoje em dia trabalharia numa discoteca da moda. E o outro também.
O Bô da Bomba, já vos contei, nunca se apartou completamente do velho e honrado ofício de sapateiro com que se iniciara na vida. Ele e José de Freitas Nogueira foram, digamos assim, colegas de carteira nesses primeiros passos dados na arte do bate-sola, o Zé de Freitas acabou depois em multimilionário sacrista e o meu avô foi quarteleiro dos Bombeiros de Fafe, não tenho, quanto a isso, razões de queixa. Enquanto pôde, num cantinho por baixo das escadas que subiam para "o salão" do quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, onde os finalistas da Escola Industrial levavam à cena a sua récita anual, o Bô manteve banca privada e fez, com desenho próprio, as sandálias e sapatos que calçavam a família. A família lá de casa, quero dizer, mulher e filhos, porque o meu avô não era homem de dar, nem sequer para a família além-soleira, que éramos nós, o meu pai e a minha mãe, os meus irmãos e eu. O máximo que o avô dava aos netos de fora eram os bons-dias, não me lembro se também algum cachaço, talvez
a bênção e variadas ordens, mas exigia o troco até ao último tostão e o recibo com número de contribuinte e todos os améns.
Em todo o caso, fui semanticamente injusto quando chamei sapateiro ao meu avô da Bomba. Sapateiro. Nestes tempos em que nem os cegos são cegos - são invisuais -, agora que já nem há mentirosos - mas inverdadeiros ou faltadores à verdade, como se sugere na política -, nos dias em que nem os bois são chamados pelos nomes - têm números -, chamar sapateiro ao Bô da Bomba é praticamente um insulto, e estou muito arrependido, que me desculpem os sapateiros propriamente ditos e os atamancadores em geral.
Se escrevesse hoje - e, nem de propósito, é o que faço agora -, eu diria que o meu avô da Bomba era um mestre do artesanato, um artífice do calfe, uma sumidade da sovela, uma Joana Vasconcelos por antecipação, e fazia-lhe um museu, se mo pagassem; diria que o meu avô era uma
start-up em pessoa e metia-o na Bolsa de Nova Iorque, se me deixassem; diria que o meu avô era um criador de sapatos e enchia-o de massa do PRR, se ma dessem; diria que o meu avô era um caso exemplar do empreendedorismo nacional e pendurava-lhe mais uma medalha no 10 de Junho, se mandasse; diria que o meu avô era um estilista, um
designer de calçado, e acompanhava-o à Feira de Milão, assim a agenda mo permitisse. Exactamente. Se escrevesse hoje, eu diria que, para todos os efeitos, o meu avô era um
designer, um estilista,
um artista - sobretudo um artista. Ai isso era.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe)