quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Aí para as curvas

Foto Tarrenego!

O chamado calo no cu
A sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata também.

Uma vez, em 1991, Basílio Horta foi candidato à Presidência da República e fazia frio em Portugal, porque era Janeiro e o tempo naquela altura não era ainda tão tolo e incerto como é agora. O tempo. O Doutor Horta, que já vai nos oitenta e, entre outros afazeres, é um filósofo, quero dizer, um filósofo praticamente como eu, explicou em entrevista ao Expresso que realmente "há quem olhe para a vida como uma linha reta", mas ele não. "Eu não abdiquei das curvas", enfatizou o ex-União Nacional do tempo do fascismo, fundador do CDS e actual militante do PS, ministro em quatro governos, pela direita, conselheiro de Estado, deputado, embaixador na OCDE, presidente da AICEP, pela esquerda, e hoje em dia presidente da Câmara de Sintra em final do terceiro e último mandato, dizia eu, enfatizou, como quem não quer a coisa, como quem oferece ao jornalista o título para a prosa e não se fala mais nisso.
Quanto à fotografia, bem, Basílio Horta, ao centro, avança determinado para o comício nocturno na cidade de Braga, por entre meia dúzia de bandeiras da AD, da AD verdadeira, mas que naquela altura já não havia nem o apoiava, e o jornalista a vê-los passar, a tomar conta, bem à direita, o que não deixa de ser paradoxal e embaraçoso, mãos nos bolsos, estantio, olhar enfastiado e bem agasalhado, porque, é o que eu digo, o tempo naquele tempo ainda era de confiança, e fazia frio em Portugal. Frio à moda de Fafe.
A seguir, se bem me lembro, abandonei discretamente a "caravana" basilista e fui ao velho Restaurante Maia, no Sameiro, comer por minha conta e consolar-me com o inevitável bacalhau com natas, que era então uma verdadeira especialidade.

Para que conste. A comida oficial da política portuguesa é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma desgraça. Canja, lombo e musse de chocolate. Assim. Se calhar até em Fafe, terra da melhor vitela assada do mundo. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu lombo todos os dias, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar. Lombo assado, e é um pau. Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhai, por exemplo, o Professor Marcelo. Também já comi lombo de porco com ele, diga-se em abono da verdade, mas logo que pulou para Presidente a coisa passou a fiar mais fino. No almoço cerimonial da tomada de posse, a primeira, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado. E no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, em 2016, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também um desconsolo, realmente, mas ao menos não é lombo de porco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A mãozinha encarnada

Hoje é Dia da Mão Vermelha. E muita gente considera que a efeméride comemora a "mão de Vata" com que o Benfica derrotou o Marselha (1-0), apurando-se para a final da Taça dos Campeões Europeus de 1990. Mas não. O Dia da Mão Vermelha, exigência mundial a todos os líderes políticos e militares para deixarem de recrutar crianças para a guerra, é assinalado a 12 de Fevereiro, foi o que eu disse, enquanto o golo de Vata com a mão, que valeu, festeja-se a 18 de Abril. Uma coisa, porém, é certa: naquele tempo não havia VAR, mas havia respeito.

P.S. - Hoje é Dia da Mão Vermelha.

A vidinha a andar para trás

Eu andava com grandes esperanças. Num dia achei um cêntimo e no dia seguinte dei de caras com dez cêntimos, assim sem mais nem menos. As caminhadas matinais à beira-mar estavam mesmo a fazer-me bem, o velho Dickens que me desculpe o trocadalho, e eu pus-me à tabela, sempre a olhar para o chão mal colocava o pé na rua e com a cabeça a fazer contas de multiplicar. A seguir seria um euro, depois dez euros, cem euros, mil euros, dez mil euros, cem mil euros e assim sucessivamente. Contava ficar rico em menos de uma semana. Mas durante uns dias, nada, nem um tostão para amostra, e eu já estava a desmoralizar, confesso. Até que ontem achei cinco cêntimos e hoje encontrei um cêntimo. Ainda fiquei pior, porque, assim inesperadamente a desmultiplicar, suponho que mais dia menos dia sou eu a perder dinheiro. E portanto deixei de sair de casa. Para além disso, estou farto de me esbarrar nas pessoas...

P.S. - Hoje é, paradoxalmente, Dia da Moeda Perdida.

Planeta dos macacos

Uma equipa de cientistas britânicos descobriu aqui há anos que os ninhos dos orangotangos são autênticas obras de engenharia. E de "engenharia complexa", é preciso que se note. Em retaliação, uma equipa de engenheiros argentinos descobriu que um casal de chimpanzés do Uganda estava a trabalhar numa nova vacina contra a covid.
Entretanto, na pacata vila de Borneo Apes, na Indonésia, chorava-se baba e ranho pela partida de Pony, a prostituta preferida que durante anos a fio satisfez os, por assim dizer, homens da população. Pony era uma orangotanga, se me permitem a expressão, estrela da casa de putas da terreola e finalmente resgatada pela Associação Protectora dos Orangotangos, após um ano intenso de tentativas frustradas de salvamento.
Darwin tinha razão. O que ele certamente não sabia é que era tanta e tão retorcida.

P.S. - Hoje é Dia de Darwin.

Atão, mano...

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Lágrimas por Marcelo

A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...

Junho de 1973. De visita a Londres, Marcelo é recebido por uma manifestação de protesto contra a presença de Portugal nas então chamadas províncias ultramarinas e, de uma forma geral, contra a, por assim dizer, política africana do Governo português. "Portugal no more massacres. Get out of Africa now!", lê-se em alguns cartazes de más-vindas. Eu nem queria acreditar. Fiquei de todo. Os meus olhos, virgens e patrióticos como eu inteiro, viam a preto-e-branco o que se passava no televisor do bar dos Bombeiros de Fafe, que eu tinha só para mim naquela clandestina hora do meio-dia, e a revolta transformava-se-me inesperadamente em choro. Chorei de raiva, dorido pelo Senhor Presidente do Conselho. Como se atreviam aqueles gajos?! Que vergonha! Que falta de respeito! Angola é nossa e ponto final, ainda que o caso fosse particularmente Moçambique.

No regresso a Lisboa, Marcelo foi, graças a Deus, surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas.
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se quereis que vos diga (e ainda que não queirais), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, miúdo, ignorante, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Fazendo pela vida

O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.
 
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Doente. E Dia Europeu do 112.