Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".
Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.
E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.