domingo, 8 de novembro de 2026

A miúfa e a cagufa

Luta de classes
Na luta de classes, os da 4.ª ganhavam sempre.

Miúfa e cagufa são palavras antigas, sinónimas, gémeas, unha com carne desde os bancos da escola. Eram palavras corriqueiras, na ponta da língua, fáceis, mais fáceis do que a própria tabuada do 2, faziam parte do vocabulário essencial, do prontuário de sobrevivência infantil. Seriam talvez redundantes, uma funcionaria como reforço da outra e vice-versa, nunca lhes percebi diferença ou eventual gradação, porque realmente ambas significavam e significam o mesmo: medo, receio, susto, cobardia, cagaço. Miúfa também se dizia miaúfa, mas em Fafe não. Cagufa também se dizia cagunfa, inclusive em Fafe, mas só às vezes e por engano. Exprimindo sem dúvida a ideia de fraqueza, cagufa e miúfa eram, paradoxalmente, usadas como palavras de ataque, armas de arremesso, quase sempre dos maiores para os mais pequenos, era essa a lei - Tens mas é cagufa! Tens mas é miúfa! -, isto para desafiar ou humilhar publicamente, chamando medroso a alguém, ao lingrinhas. E estes poderosíssimos insultos eram geralmente acompanhados pelo respectivo gesto, universal e sem legendas, palma na mão direita voltada para cima e as pontas dos dedos juntando-se no alto, até formarem um olhinho do cu palpitante, bem apertadinho, isto é, onde não coubesse sequer um feijão. - Ó! Ó! Ó!...
Passadas ao plural, as palavras miúfa e cagufa ganhavam estatuto de adjectivo, força de nome feito. O cagufas, cagunfas ou miúfas, tanto fazia, era o cobarde, o cagarolas, o medricas, enfim, o caguinchas. - Olha o cagufas! És um miúfas! Hehehe! Ora isto não se chama impunemente a um homem, sobretudo se esse homem for um cavalheiro com sete ou oito anos de idade, com eles pequeninos mas no sítio e a honra praticamente por estrear. Exigia-se então a desagravo, impunha-se logo ali o duelo franco e regenerador ou pelo menos a promessa de espera, a coiada de mão escondida e pé ligeiro, ainda hoje não se sabe de onde é que a pedra apareceu. E foi desta maneira, em Fafe, que começaram as cabeças rachadas em Portugal.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

O roxis e o Sr. António Maneta

Fazendo pela vida
O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.

O roxis, quereis saber o que é? Então cá vai. O roxis é da família do taco, mas muito mais antigo, e é sinónimo de chapa, porque ir fazer um roxis ou ir fazer uma chapa era exactamente a mesma coisa. O Hospital de Fafe, no tempo em que quem lá mandava era a "Mamer", tinha uma máquina de roxis muito velha, numa sala muito escura ao lado da urgência, que era o banco, e da escadaria interior que levava à capela, que era também salão nobre. Sob as escadas, porta com porta, num quartinho para anões muito arrumadinho, morava o Toninho, ou seja, o Sr. António do Hospital, a quem também chamavam Maneta, Sr. António Maneta ou Toninho Maneta, isto dito com mais burrice do que malícia, e que era, para além de telefonista e porteiro, fumador obstinado e habilidoso, havíeis de o ter visto a manusear a caixa de fósforos, e um dos maiores apaixonantes da Banda de Revelhe, honra lhe seja. Gravava concertos, com um gravador de cassetes enfiado no coreto por baixo do naipe de clarinetes. Apesar da sua estratégica localização, ali entre a vida e a morte, e mesmo em frente ao Toninho, o aparelho de roxis tinha dia certo e horário de expediente para funcionar. A sua operacionalidade dependia, se não estou em erro, da indispensável presença ou pelo menos orientação do Dr. Mota Prego, que tinha um nome assim de categoria e vinha de propósito de Guimarães para tratar destes assuntos.
Quer-se dizer, o Dr. Mota Prego era o nosso especialista em roxis, e uma vez ele e o Dr. Antero, creio, trataram-me muito bem de uma clavícula partida que era a minha vaidade na escola primária e hoje em dia ainda me dói. E o Sr. António carregava no erre quando me chamava Herrenâni...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Radiologia.)

Este é que a leva!...

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 7 de novembro de 2026

Casas que ninguém vê

Fino como um alho
Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?...

O maior arranha-céus do mundo está localizado no Dubai, Emirados Árabes Unidos, e chama-se Burj Khalifa. Conta com 163 andares acima do solo e atinge uma altura de 828 metros. Foi inaugurado no dia 4 de Janeiro de 2010. Três anos depois, em Setembro de 2013, as notícias anunciavam que o primeiro arranha-céus invisível iria ser construído em Seul, capital da Coreia do Sul. O que é verdadeiramente extraordinário, porque podia muito bem ser em Lisboa, Portugal. Estamos no final de 2026, não sei se a obra foi mesmo feita e se o prédio já estará concluído, mas também ninguém sabe. E será bonito?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A sesta do avô da Bomba

Foto Hernâni Von Doellinger

O faquir
Homem que é homem não dorme. Passa pelas brasas. E sem ais nem uis!

Eu ainda não sabia que aquela meia horinha se chamava assim, mas o primeiro adulto que eu vi a fazer a sesta foi o meu avô Manuel, o 17 da Bomba, que não era terrorista e ganhara a explosiva alcunha derivado a ser o bombeiro número 17 e quarteleiro dos Bombeiros de Fafe. O meu avô morava no quartel dos bombeiros, que, para todos os efeitos, na nossa terra, era a Bomba, portanto era o avô da Bomba, e, pronto, sem fazermos mal a uma mosca, levamos com a CIA em cima e não há quem nos acuda. E era "avô da Bomba" também para se distinguir do meu "avô de Basto".
Naquela casa, isto é, na Bomba, só se comia e bebia do bom e do melhor, embora regrado. Muito regrado. Depois do almoço, o meu avô descia até à camarata e estendia-se numa das camas, a primeira à entrada do lado esquerdo, tapando a cara com o Jornal de Notícias. O JN era naquela altura um jornal grande, quase um lençol, muito jeitoso para a sesta, e o meu avô, contrariando a regra geral, gostava de dormir sob e não sobre aqueles assuntos.
As minhas tarefas de neto em relação à sesta do meu avô eram ir buscar o JN e passar de vez em quando pela camarata para, se necessário, corrigir a posição do jornal. O meu avô deitava-se de barriga para cima, mãos cruzadas sobre o peito, e ressonava com assinalável perseverança. As notícias nem sempre se aguentavam em cima dele, contra tantos ventos e marés. Restava-me uma terceira obrigação, não editorial, que era andar em bicos de pés e de bico calado.
O Jornal de Notícias do meu avô era comprado a meias com o Senhor Ferreira do Hospital, que o lia primeiro, e depois eu ia buscá-lo, ou então ficava cada um com metade das páginas e a uma certa hora da manhã eu fazia a troca, já não me lembro bem.
O Senhor Ferreira do Hospital e o meu avô foram amigos e cúmplices toda a vida. Eram unha com carne, apesar de diferentes como a água e o vinho: o Senhor Ferreira era comunista, tinha estado preso, e o meu avô... antes pelo contrário. Para além de comunista, o Senhor Ferreira era um homem bom, íntegro, sábio, um grande Homem que eu admirava e gostava de ouvir. Anos passados, aos domingos, eu à beira de ir para a tropa e portanto sem emprego, o Senhor Ferreira cumprimentava-me com uma nota de 20 escudos escondida e imperativa na mão tremente. Depois de cegar, o Senhor Ferreira conhecia-me pela voz, mesmo sem eu abrir a boca, quase que só pela presença ou talvez pela respiração, não sei o truque. Já casado e jornalista, no Porto, eu ia frequentemente a Fafe, entrava no Nacor, então transplantado para as megalómanas porém inóspitas instalações em frente ao tasco original, eu ainda à porta, limpando os pés, o Senhor Ferreira, sentado ao enorme balcão, lá ao fundo, com a sua malguinha à frente, adivinhava-me e atirava logo: - Está aí o Hernâni? Aquilo comovia-me tanto, enchia-me tanto a alma, eu ficava tão orgulhoso, que não fazeis ideia! Eu estava realmente ali, e ganhava o dia, palavra de honra! Pelo menos uma tardada de abraços e revigorante conversa. E ainda hoje fico à rasca quando me lembro disto.
Mas o meu avô. O meu avô da Bomba era um incansável fazedor de sestas, e fazia-as muito bem, não é para o gabar. Era perfeito, irrepreensível, um mestre, um guru, de sestas e habilidades similares. O meu avô da Bomba passava pelas brasas com uma categoria digna de faquir. Naquele tempo ainda não era moda dizer-se que a sesta faz bem à saúde, o que até viria mesmo a calhar ao meu avô, que era "uma pessoa muito doente". Era também preguiçoso, como vim a concluir mais tarde, o que me livrou do divã do psiquiatra e despesas adjacentes, uma vez que consegui perceber sozinho que tenho bem a quem sair. E, evidentemente, ressono...
Quando éramos miúdos, o meu avô punha-nos a bulir como gente grande, a mim e ao meu irmão Nelo. Eu era pau para toda a colher: limpava e polia os capacetes e outros amarelos com solarine Coração e uma espécie de pó de talco, lavava as viaturas, verificava o óleo e colocava água nos radiadores, anotava as quilometragens, lavava, punha a secar e enrolava as mangueiras depois dos incêndios, metia baterias à carga, enchia as baterias com água da chuva colhida num garrafão com funil que estava no telhado, ia chamar motoristas para as saídas urgentes de ambulância, servia de bombeiro, varria o "parque do material", levava avisos a casa dos bombeiros, atendia o telefone, tocava a sirene (era a parte de que eu mais gostava), hasteava as bandeiras aos domingos e dias de festa, ia à cave buscar vinho, "sempre a assobiar!", segundo ordens superiores. Enfim, eu é que era o verdadeiro Bomba. E não saía de lá. Também porque naquela casa só se comia e bebia do bom e do melhor - já disse.

Tenho-me esquecido de ir buscar o jornal para o meu avô da Bomba e também já há muito que não estou com o Senhor Ferreira do Hospital - gostava de lhe pedir um retrato. Aqueles dois nem devem ter reparado. Estão entretidos a meterem-se um com o outro, foram sempre assim, ou então dormem uma bela sesta, cada qual com a sua metade de JN sobre o rosto. Eu também já durmo a sesta, percebo-os agora. Quando nos voltarmos a encontrar, os três, ainda nos havemos de rir disto tudo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 8 de Outubro de 2011. Hoje é Dia Internacional da Preguiça.)

O palácio e o mendigo

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O dr. Castro e o dr. Vinagre

Pecando por defeito
Ele pecava muito por defeito. E que queriam? Que pecasse por virtude?...

O dr. Castro resolveu desancar no dr. Vinagre. Já lá vão quatro anos, numa espécie de artigo de opinião, no DN, a propósito dos dois rapazes de Famalicão que, por ordem dos pais, faltavam às aulas de Cidadania. O texto tinha por título singelo "O dr. Vinagre". O dr. Castro, José Duarte de Almeida Ribeiro e Castro, é ex-secretário de Estado, ex-líder do CDS e antigo vice-presidente do Benfica. O dr. Vinagre, António José Vinagre de Sousa, era magistrado do Ministério Público e tomava conta em tribunal daquele tão famoso caso, que ainda dá que falar.
O dr. Castro não foi manso. Chamou de tudo ao dr. Vinagre, apenas sugerindo ou pintando a manta com as letras todas. Argumentação é que nada. Sustentaçãozinha é que viste-la! Palavras e só palavras umas atrás das outras, palavras verrinosas, incisivas, destratantes, numa linguagem jurídico-tasqueira raiando a onzenice e muito mais própria para ser utilizada por mim, que não sou dr. nem sou nada e percebo tanto de direito quanto o dr. Castro percebe de futebol - isto é: zero.
Ainda assim, tenho de admitir que no meio daquela tralha toda o dr. Castro possa ter acertado sem querer numa coisinha acerca do dr. Vinagre. Uma coisinha somente, mas é de justiça que aqui se diga. O tiro de sorte poderá ter acontecido quando o dr. Castro acusa o dr. Vinagre de ser "um comediante". Isso. Um comediante.
Ora bem. Eu não conheço o dr. Vinagre, e confesso que tal me causa um certo desgosto, mas conheci satisfatoriamente o Vinagre. Lembro-me muito bem, lembrei-me hoje, por acaso com saudades, e é por isso que o trago agora aqui. Também o trouxe a Fafe, pelo menos uma vez, éramos moços, para ouvir a Banda de Revelhe no Jardim do Calvário e merendarmos uns petisquinhos preparados pela minha mãe, no Assento. Posso portanto testemunhar, e a verdade é só uma: o Vinagre era realmente um pândego. Um brincalhão. Um cómico. Enfim, um indivíduo dado à pilhéria e à representação. Chegámos a partilhar o palco, eu evidentemente como protagonista. E quer-se dizer: sem saber ler nem escrever, o dr. Castro, que às tantas é uma criatura triste, até parece que bateu no ponto, e contra isso nada...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 17 de Julho de 2022.)