segunda-feira, 13 de abril de 2026

Um beijo, é o que te estimo

Dizem-me que as palavras já não valem nada. Mentira. As palavras são cada vez mais poderosas, as palavras dominam as nossas vidas. As palavras até tomaram o lugar dos factos, dos afectos, dos carinhos. Reparai. Antigamente davam-se beijos, davam-se abraços. Agora dizem-se beijos, dizem-se abraços. O gesto ancestral e puro, carnal, verdadeiro, foi substituído pela retórica etiquetada, o contacto físico acabou vergado ao esboço da intenção - ao simulacro, à simulação. À dissimulação?
Dizemos "Beijinhos", dizemos "Abraço", dizemos olá de boca, e assim ficamos. Pelas palavras. Beijos e abraços são só vocábulos, paleio. Mantemos uma distância alegadamente higiénica entre nós, os alegados amigos uns dos outros. Amigos por computador. Dizemos. Enviamos. Remetemos. Aproveitamos a oportunidade para. Ao telefone, por escrito, ao vivo na pressa da rua, cara a cara, na patetice dos emojis. Dar a sério (à séria, se lido em Lisboa) é que não. Ninguém dá nada a ninguém - nem sequer beijos, nem sequer abraços. Fazemos votos de. "O que lhe estimo é um magnífico beijo", "Desejo-lhe um excelentíssimo abraço". E nisto estamos.
É. Olhai bem à vossa volta: as palavras estão em alta, navegam de vento em popa. As palavras. O falatório. Nunca tanto se palavrou. Nunca se falou tanto, nunca se mentiu tanto. Isso. Fala-se demais. O que verdadeiramente está em crise, por abuso, é a palavra, a palavra singular e definitiva, essa vaga memória de uma honra démodée que se arrasta pelas ruas da amargura - abandonada, pobre, cega e nua. Mas isto, claro, sou eu a dizer, e são apenas... palavras, palavras, palavras.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Beijo.

Um minuto o nosso beijo

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 12 de abril de 2026

Rabichas, foguetes e foguetões

Cheira a Natal
Já cheira a Natal - alguém disse. Ele, atrapalhado, explicou - Não fui eu.

Não sei se vos lembrais: Eurico da Fonseca (1921-2000) foi o principal especialista português em astronáutica, e creio que ainda é, embora já não exerça por razão de força maior. Praticamente autodidacta, nomeado investigador por decreto-lei e oficialmente equiparado a professor catedrático, colaborou com a NASA e conheceu os principais responsáveis pelo Programa Apollo. Notabilizou-se entre nós como divulgador de assuntos científicos. Na rádio, acompanhou em directo, na então Emissora Nacional, a chegada do homem à Lua e comentou os voos espaciais norte-americanos e soviéticos. Mas era na RTP que eu gostava de o ouver. Ouver, escrevi bem. O primeiro passo de Neil Armstrong também deu na televisão e, eu bem vi, a Lua era em câmara lenta.
Pois foi com Eurico da Fonseca na televisão - na televisão evidentemente a preto e branco do café Peludo - que eu aprendi que, quando se fala de um lançador espacial, deve dizer-se foguete e não foguetão. Foguete. Tal como na meia de vidro com fio puxado. Foguete. Tal como o velho comboio Porto-Lisboa que era praticamente um luxo e chegava aos cem à hora. Foguete. Tal como no Santo António da minha rua em Fafe, com girândolas, diabos-encaixados, bombinhas, estalinhos e bichas-de-rabear, ou rabichas, como por cá se chamavam. Foguete. E outro especialista em foguetes e apetrechos correlativos era o nosso Rates, raríssimo cromo de almanaque. Foguete. Eurico da Fonseca explicava, apenas insinuando, que foguetão é outra coisa: por exemplo, coisa gasosa, eventualmente sonora e, por norma, fedorenta. Quer-se dizer: um peido, uma bufa, um traque, um flato, uma farpa, um pum, com vossa repetida licença, e isso já seria matéria da alçada do nosso Moisés...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Voo Espacial Tripulado ou, como dizem os russos, Dia do Cosmonauta.)

sábado, 11 de abril de 2026

O homem de licra e o boião perdido

Foto Hernâni Von Doellinger

Da frente para trás
Ao contrário de todos os outros atletas, ele gostava de correr da frente para trás. Tácticas. Provocava muita confusão e inúmeros acidentes, realmente, mas cada um é que sabe da sua vida.

Estais a ver esses maratonistas bissextos mas cheios de intenção que treinam a prestações aos domingos de manhã artilhados com todos os matadores, como por exemplo aquele cinto tipo canivete suíço onde acomodam boiãozinhos de várias cores e feitios, barras energéticas, géis, bananas, ananases, pepinos, couves-galegas, sandes de marmelada com tulicreme, tremoços, caldo de nabos, as chaves de casa, do carro, do totobola e do euromilhões, um par de algemas, um bastão extensível, lingerie de senhora e um spray de pimenta forte? Estais a ver? Pois era um desses com um daqueles.
O homenzarrão de calções de licra pelo joelho passou por mim no Parque da Cidade, junto à Torre do Relógio, e naquele exacto momento, mais minuto menos minuto, despencou-se-lhe do extraordinário cinto multifunções um dos frasquinhos de plástico. Caiu aos meus pés, como se fosse um dádiva e só me arranjou problemas. Eu, que me pelo por ajudar, gritei "Olhe, caiu-lhe um boião!", vergando-me para apanhar a garrafinha e levá-la ao dono, e bem me custou, que já não estou em idade para semelhantes acrobacias. O superatleta, talvez apenas cinco metros à minha frente, ouviu-me, sempre correndo, virou levemente a cabeça e sobretudo o braço direito num gesto redondo e grande, creio que metendo-nos no mesmo saco a mim e ao vasilhame perdido, para tonitruar, macho a cem por cento, desportista até mais não:
- Que se foda!...
E lá foi para casa, naquela roupinha de bailarina, coçando sobremaneira as partes, coisa de homens, cheio de pressa para bater o seu próprio "recor". Era dia de tripas e talvez vitela assada, perceba-se por isso a urgência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Eu aplaudo, tu tocas, eles correm

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Indelicadeza, por ordem da gerência

Para cus quadrados
Saio pouco. Outro dia levaram-me ao restaurante da moda e quase morri de espanto quando fui à casa de banho e descobri a sanita rectangular. Pensei, ensarilhado nas ideias e nas calças arriadas, antes de fugir pela janela, redonda por sinal: - Será que os cus mudaram de feitio e o meu não foi avisado?

Aflitíssimo, entrei no café e pedi: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? -. Estava preparado para receber uma de duas respostas, "sim" ou "não", mas deram-me a terceira: - Vai tomar alguma coisa? - Eu disse que beberia uma água e tornei a pedir: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? - Que assim sim. Utilizei então a casa de banho, isto é, urinei com parcimónia, fiz uma descarga de autoclismo, a mais pequena, limpei do chão duas pingas que se perderam pelo caminho e lavei as mãos. Evidentemente eu poderia sair da casa de banho do café e vir-me embora como se nada fosse, mas dirigi-me ao balcão para tomar a água contratada. Aproveitei para explicar calmamente ao jovem e educado funcionário que um dia, quando ele for mais velho, talvez da minha idade, vai ficar tipo fodido por lhe fazerem a ele o que ele me fez a mim. O jovem e educado funcionário disse-me que é desta maneira que ali se trabalha, por ordens da gerência. Paguei um euro e meio pela água e estou arrependido: não sei se o dinheiro chegava, mas, em vez de beber a puta da água, devia ter comido um biju. A água pôs-me outra vez à rasca no caminho até casa. Vim a correr e a saltar, a apertar-me, e, com vossa licença, mijei-me pernas abaixo mal consegui abrir a porta...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

E se o céu for impossível?

Foto Hernâni Von Doellinger