sábado, 21 de março de 2026

Perfume de mulher

E foi lavar-se
A velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.

Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Isto é, tinham ou emanavam um certo e determinado cheiro. Não como o extraordinário Padre Clementino ou o Secónego, casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Perfume.)

A n.º 10 de Tomás Ribeiro Street

Foto Hernâni Von Doellinger

À porta do meu prédio tenho uma árvore, tenho uma árvore à porta do meu prédio. Nunca poderei esquecer este acontecimento, com licença de Carlos Drummond de Andrade. A minha árvore é a número 10. Não sei por que razão as árvores são agora numeradas e etiquetadas. Nem percebo como é que as florestas antigas conseguiram salvar-se sem serem numeradas e etiquetadas. Sou um simples: acredito que tudo tem o seu propósito e contento-me com as coisas conforme elas se me apresentam. Para além disso, o número 10 parece-me um bom número.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Árvore. E Dia Internacional da Floresta, mas floresta não tenho.

Um dia em cheio

Hoje é, pelo menos, Dia Internacional de Nowruz, Dia Internacional das Florestas, Dia Mundial da Árvore, Dia do Tiramisu, Dia Internacional do Perfume, Dia Mundial dos Glaciares, Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial, Dia Europeu da Criatividade Artística, Dia Internacional da Síndrome de Down, Dia Mundial da Marioneta e Dia Mundial da Poesia. É também, cá em casa, dia de darmos a nossa voltinha.

Mexendo os cordelinhos

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 20 de março de 2026

A felicidade acaba à meia-noite

Hoje, 20 de Março, é Dia Internacional da Felicidade. Eu sei que é uma chatice, mas são ordens da ONU.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.

Dia da Felicidade e assim sucessivamente

Hoje é Dia da Felicidade. E também da Clementina, da Adelaide, da Iracema, da Adosinda, da Felisberta, da Miquelina, da Leocádia, da Emerenciana, da Umbelina, da Hortênsia da Perpétua e assim sucessivamente. Aquele gajo tem uma agenda realmente de fazer inveja...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.

Eis a (verdadeira) questão

A felicidade é questão de um gajo se habituar.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Felicidade.