terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ele tinha um ouvido gourmet

Finura
Era de uma educação requintada. Dizia: "Tem progenitor que é invisual". Dizia: "Em terra de invisuais, quem possui um olho é monarca". Dizia: "O pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar". Dizia: "A palavras loucas, pavilhões auriculares insonoros".

Ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido conhecedor, apreciador, sofisticado, apurado, selectivo, esquisito, delicado, requintado. Requinta, por falar nisso, é pequeno clarinete ou flauta transversal, como a galega, ou viola braguesa de reduzida dimensão, mas desculpai-me o devaneio. Fixemo-nos no fundamental: ele tinha um ouvido gourmet. Um ouvido famoso, aclamado, respeitado, procurado, absoluto, definitivo. O esquerdo. Do direito, era magnificamente surdo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Dia Europeu sem, mas com

Hoje é o Dia Europeu sem Carros. Ora espreite lá para fora, para a rua, para a estrada, veja pelo retrovisor. É ou não é?

P.S. - Hoje é o Dia Europeu sem Carros.

Eu me perco em carícias de água

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Temeroso, temerário ou timorato?

Caixa do Evaristo
Quando abriram a caixa de Pandora, saiu de lá de dentro o Evaristo. Pandora ia morrendo de vergonha...

Não falta quem, infelizmente, chegue ao sítio da palavra e não saiba qual usar com precisão - temeroso, temerário ou timorato -, confundindo intenções e significados. E, no entanto, nada mais simples. Temeroso é cobarde, medroso, medricas, tímido, fraco, cagarolas, caguinchas. Temerário é, pelo contrário, arrojado, atrevido, audacioso, destemido, bravo, aventureiro, imprudente. E Ti Morato é alentejano, obviamente, como Ti Odoro, Ti Noco, Ti Móteo, Ti Betana, Ti Ófilo, Ti Jolo, Ti Ara, Ti Pógrafo, Ti Mor, Ti Juca, Ti Midez, Ti Quetaque, Ti Quetoque, Ti Búrcio e Ti Biotársica. Estais a ver que fácil?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A guerra dos dias

Hoje é Dia Internacional da Paz. O Dia Mundial da Paz foi no dia 1 de Janeiro. E não é pacífica a discussão sobre qual é, das duas, a data mais importante e vice-versa.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Paz. E Dia Mundial da Gratidão.

Levo-te como se me levasses

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 20 de setembro de 2026

A madama e os saralhotos

O povo a falar
Dizia o povo, e com razão: cagarim, cagarou-se, há dois modos de cagar, se o cagalhoto for grosso, fica o cu o fumegar.

Matosinhos à tarde. Sol que é um consolo. Puxado pela trela do pequeno cocker, o casal desce a rua, a minha, em direcção ao mar ali à beira. Eis senão quando, porventura desarranjado pelo strogonoff de vitela ou pelo leite-creme que lhe serviram ao almoço, o aflito canídeo arreia as calças e caga ali mesmo em pleno passeio, com evidente alívio pessoal e grande satisfação dos babados papás. Acabada a obra, a madama, higiene e civismo acima de tudo, vai à carteira de marca e retira um lenço de papel de um branco imaculado, abre-o, ao lenço casto, provavelmente perfumado, e volta a dobrá-lo, liturgicamente, agora apenas em dois, baixa-se, quase que me parece que se benze, e limpa o cu ao cão. Isso, limpa o cu do cão. Depois amarrota o papel e lança-o para junto do saralhoto. E ali fica o serviço. No meio do passeio. Do meu. E lá seguem os três para o mar e para o sol, dois deles puxados pela trela.
A autarquia agradece. Faz colecção. No brasão de Lisboa desenharam corvos, no de Matosinhos deveriam figurar saralhotos. A cidade de Matosinhos, para além de muitas coisas boas que tem, é isto: não há passeios que cheguem para tanta merda de cão. E a culpa não é do cão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Limpeza.)