sexta-feira, 24 de abril de 2026

O milagre das pombas

Foto Hernâni Von Doellinger

Evasão
- Mais vale só do que mal acompanhado - disse o recluso n.º 14.112. E fugiu.

Todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, dias úteis ou dias inúteis. Todas as manhãs, de saquinho na mão, ele sai de Matosinhos atravessando o Passeio Atlântico de uma ponta à outra, em passo leve e decidido, e entra breve no Porto. No saquinho leva comida para os pássaros - milho para as pombas e pedaços de pão para os patos mas pouco, para os corvos-marinhos às vezes e para as vorazes e cagonas gaivotas. Sim. Para as gaivotas, raça tão desprestigiada hoje em dia, vítima de perseguição e tentativa de genocídio perpetradas por alguns autarcas aqui da beira-mar. Ele, o homem do passo leve e decidido, dá-lhes o almoço.
E todas as manhãs acontece o extraordinário: por alturas da Rotunda da Anémona, fronteira municipal, as pombas saem-lhe da cartola, materializam-se do nada, fazem-lhe bando por cima da cabeça e acompanham-no em revoadas dançarinas até à distribuição geral, no charco mais ocidental do Parque da Cidade, à porta da abandonada Kasa da Praia. As pombas reconhecem o seu benfeitor? Identificam o saquinho? Vão apenas ao cheiro? Serão, por assim dizer, o Espírito Santo em pessoa? Não sei - mas aquilo comove-me. Espanta-me. Fosse em Fátima, e seria certamente milagre.
Servido o festim, o cuidador de pássaros volta para casa pelo mesmo caminho, sempre com uma pequena reserva de pão e de milho no fundo do saco, prevenindo emergências, que as há. Pomba tresmalhada ou retardatária, gaivota de asa caída ou manca ou qualquer outra ave freelance também têm direito à sua dose individual, no respeito do espaço de cada qual. É. Os solitários entendem-se...

Pois durante a pandemia, pela menos, o gentil alimentador da passarada desapareceu-me da vista. E a mim, caramba, fez-me diferença, porque eu dava-lhe valor. Fui também, no meu tempo de miúdo, em Fafe, um razoável pensador de galinhas e coelhos, e portanto havia ali qualquer coisa que me dizia respeito, que me enternecia e, verdade seja dita, também me abria o apetite, e vinha-me à cabeça o franguinho guiado pela minha avó de Basto na panela de ferro apurando ao borralho.
Felizmente o senhor das pombas voltou, e em grande forma. Uma sorte para ele, para os pássaros e também para mim, que estou sempre a ligar umas coisas às outras e sou tão dado a nostalgias, e se for à mesa melhor...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Milho.

O Animal do Laboratório

O Silveira trabalhava no ramo da pesquisa e dos testes científicos. Quer-se dizer: era homem de ciência, cientista, investigador, professor doutor, passava a vida enfiado na bata branca e em ensaios extraordinários. Era praticamente um génio, nas suas próprias palavras. E, rodeado de mulheres às vezes moças, gostava muito de levar a conversa para o picante e de meter a mãozinha onde ela não era chamada. Aliás, era conhecido, inter pares, como o Animal do Laboratório, mas essa parte ele não sabia.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Animal de Laboratório.

Residência artística

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Como uma vaca espanhola

Hoje é Dia da Língua Espanhola. E também é Dia da Língua Inglesa. O que não deixa de ter piada. Porque a segunda coisa mais bonita do mundo é ouvir um espanhol a falar inglês. A primeira coisa mais bonita do mundo é, como toda a gente sabe, ouvir um italiano a falar inglês.

P.S. - Hoje é Dia da Língua Inglesa e Dia da Língua Espanhola.

As mulheres de Pedro Arroja

É de homem
Homem que é homem não quer nada com mulheres.

Passa das nove e um quarto. Quatro mulheres esperam junto aos portões fechados do palacete-escritório de Pedro Arroja no número 282 da Avenida de Montevideu, na Foz selecta, Porto rico com vista para o mar. Quatro mulheres evidentemente trabalhadoras. Espanto-me. Penso. Não pode ser, não acredito que o Sr. Arroja tenha mulheres ao seu serviço. A escangalharem o quê?, as mulheres. Na empresa do Sr. Arroja até as senhoras da limpeza devem ser homens, tenho a certeza. Continuo a pensar. As mulheres enganaram-se, foi o que foi, e logo as quatro, porque quando as mulheres se ajuntam ainda é pior, desnorteiam-se. Extraviaram-se, é o mais certo. Querem entrar noutro palacete qualquer, uns números à frente ou atrás, mas não sabem. Às tantas era para apresentarem-se no Palacete de Fafe e perderam a Mondinense. Bem o observara em devido tempo o Sr. Arroja, famoso economista e comentador televisivo: as mulheres padecem deveras dessa idiossincrasia tão incorrigivelmente feminil que é a total ausência de sentido de orientação. Não têm tino, as mulheres. Pois se não têm pénis nem testículos, como poderiam?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje, tomai bem nota, é Dia Internacional das Raparigas nas Tecnologias de Informação e Comunicação. Palavra de honra!)

Os livros de Jorge Luis Borges

Os meus livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.


"A Rosa Profunda", Jorge Luis Borges

(Hoje é Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor)

E resultou?

Foto Hernâni Von Doellinger