sábado, 24 de outubro de 2026

Quando íamos aonde elas

Trocado por miúdos
O divórcio aos cinquenta anos foi-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima, trocado por dois rapazes de vinte e cinco.

No tempo em que dois mais dois eram catro e crescer era crecer e descer era decer e fruta era fruita e homem era home e ferrugem era ferruge e água era auga e ontem era onte e ordem era orde e depois era apois e bom era bô e quando era cando e entre, preposição, era antre, nesse tempo, no nosso velho Minho agalegado, nós íamos aonde elas. Assim de dizia, a minha mãe ainda diz, felizmente, e por acaso adoro ouvi-la dizer. Ir aonde ela ou ir aonde ele significava, isto é, significa, ir ter com ela ou com ele ao sítio onde ela ou ele estão, sobretudo quer dizer ir a casa dela ou a casa dele.
Coisa muito diferente, porventura mais impetuosa, e envolvendo pelo menos outras responsabilidades e consequências sociais, era ir para onde elas. Isso, ir para onde elas, porque também se verificava, a verdade é para ser dita. Ir para onde ela ou ir para onde ele correspondia a ir para casa dela ou ir para casa dele, creio que me faço entender, e usava-se frequentemente em casos da adultério, casamentos infelizmente escangalhados ou evidentes amantizações finalmente assumidas, divórcios é que não, porque em Fafe não havia.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A guerra em tempo de paz

A murro
Batata a murro apresentou queixa por violência doméstica.

Podeis não acreditar, mas eu também fui de comboio para a guerra, e já a guerra tinha acabado. O comboio é que ainda não. Isto é, naquele tempo até nem era nada de extraordinário ir-se de comboio para a guerra, porque Fafe tinha comboio, mas aqui fica o registo, a nota pessoal. Deram-me, portanto, uma guia de marcha. Embarquei em Fafe num domingo à noite, quase ainda fim de tarde, bem bebido, e cheguei à Amadora na segunda-feira de manhã, sóbrio, a bater à porta da guerra mesmo à hora de abertura do expediente. Era um comboio sobrelotado e verde, quer-se dizer, a esbordar de magalas fardados e sonolentos. Fafe-Amadora, ligação "rápida" e praticamente "directa", com os necessários sobressaltos na Trindade, São Bento e Campanhã, no Porto, e em Santa Apolónia e Rossio, em Lisboa. E de borla. A Pátria tratava-nos bem. Levava-se merendeiro de casa, evidentemente.

Eu fui à guerra e comi 21 gafanhotos de uma vez, uns atrás dos outros. Isso. Quando fiz 21 anos, num infeliz dia de Outubro, comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me estou a queixar, embora tenha sido uma canseira andar a persegui-los e a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltinhos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, os insultos do tenente, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos no dia exacto e triste em que fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Mas os gafanhotos. Os gafanhotos eram absolutamente essenciais, alimentavam heróis em construção, forjavam homens de aço, oleavam máquinas de guerra que haveríamos de ser. Eram, repito, absolutamente essenciais, naturalmente curriculares. Os gafanhotos e a pancada.
O meu encontro gastronómico com os gafanhotos teve como cenário os bélicos campos e montes de Santa Margarida durante a chamada "semana maluca" dos Comandos, em que o dia é noite e a noite é dia, com horários e afazeres trocados, incluindo as refeições e a instrução, manobras ainda por cima abrilhantadas pelas famosas prova da sede, prova de choque ou prova de sobrevivência. Famosas e às vezes fatais. Quer-se dizer: pancada, pancada e mais pancada.

Assim eram os Comandos, tropa dita de elite para onde não fui voluntário. "Mais logo afocinharemos!", ameaçava o tenente por tudo e por nada, só porque lhe apetecia. E afocinhávamos. Passávamos a vida a afocinhar. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugos descontrolados e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quase cinquenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que, uma vez por outra, "as coisas correm mal". Há mortes, mesmo no intervalo da guerra. O treino não podia ser mais completo.
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou explodindo em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor desajeitado. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana e no seguinte, e eu cheio de saudades de Fafe e da namorada no Porto.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche decerto marchariam melhor. Pelo menos parece ser esse o entendimento da nossa Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, que anunciou em Junho de 2021 a autorização para a produção, comercialização e utilização na alimentação em Portugal de sete espécies de insectos - duas de gafanhotos, duas de grilos, duas de larvas e um besouro.

Por aquela altura, no meu breve tempo de Comandos, eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com o trágico David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro Juca Chaves (1938-2023) e que, se bem me lembro, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Exército Português.)

Poderosíssima

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O cotrinismo 3

"Isto do movimento cívico-político "apartidário", o Movimento 2031, lançado ontem por Cotrim de Figueiredo à pala dos 900 mil votos que recolheu nas eleições presidenciais do passado domingo, cheira-me que vai acabar mal. É apenas um palpite, mas logo se vê." Escrevi eu, aqui, no passado dia 24 de Janeiro.

"Mais de três meses após ter anunciado a criação de uma iniciativa cívico-política, no embalo das presidenciais, João Cotrim Figueiredo continua sem dar novidades sobre o movimento. Não há eventos previstos, nem tampouco são conhecidos os membros da direção que integram o movimento. O site está parado, sem mais informações - além do breve manifesto inicial e do espaço para inscrição -, e as redes sociais quase não são alimentadas com conteúdos." Escreveu nos primeiros dias de Maio o semanário Expresso.

"Anunciado em Janeiro, prometido para Setembro: movimento de Cotrim continua na gaveta. Em Julho, eurodeputado disse que o "Portugal em Frente", anunciado durante as presidenciais, seria apresentado "na rentrée política após o Verão", remetendo novidades para Setembro. Mas não chegaram." - Escreve hoje o jornal Público.

Os "aitens" da Senhora Presidenta

Artista que é artista
Ia tocar à Casa da Música, no Porto, e destinaram-lhe a Sala Suggia. Sentiu-se desconsiderado, insultado, chamou de urgência o "manager" e mandou dizer: ou Sala Limppia ou nada...

Fará agora dois anos, mas ainda me dói como se fosse hoje. Comentava-se o Orçamento de Estado na rádio Antena 1, à hora do almoço. Luísa Salgueiro, presidenta da Câmara de Matosinhos, foi convidada a dar a sua opinião, na qualidade, então, de também presidenta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses - ANMP. Como se tivesse lido o documento de ponta a ponta mesmo antes de ele ter sido entregue na Assembleia da República, a, na altura, autarca de todos os autarcas falou, falou, falou, aliás como costuma falar. E referiu-se, nomeadamente, aos "aitens" do Orçamento, aos diversos e variados "aitens", eu ia buscar uma maçã à cozinha, o rádio estava aceso e, palavra de honra, obliterei-me como que atingido por um raio, trouxe mais um jarro de água, porque entretanto perdi-me, e eu queria comer, não era beber. Perdi-me nos "aitens" da Senhora Presidenta. 
"Aitens"? Mas quais "aitens"? "Aitens"? A sério? A palavra item era um advérbio latino. Latino, não germânico ocidental ou anglo-frísio. E assim ficou em português. A forma correcta de pronunciar a palavra item é "íteme", à maneira latina, ou, parece-me melhor, "ítem", na forma aportuguesada. O plural de item é itens, dizendo-se "ítens".
A Senhora Presidenta disse "aitens" e eu, claro, lembrei-me de Salazar, da velha anedota de quando o ditador foi de visita a Inglaterra, segundo me contaram em Fafe, era eu mocico. Resumindo, e sem ofensa para os novos fascistas, do Chega ou não: Salazar, que usava vaso de noite e viajou acompanhado pelo seu mordomo Francisco, não sabia falar inglês, mas disseram-lhe que era fácil, o português era igualzinho ao inglês, bastava trocar o "i" por "ai". A meio da noite, apertadinho, o presidente do Conselho chamou, com o mais perfeito sotaque londrino - Ó Chaico, traz-me o penaico!
Era apenas uma anedota, um bocado ingénua, talvez oposicionista, se calhar Salazar até sabia falar muito bem inglês, basta ouvir António Guterres hoje em dia, mas foi dela, da anedota, e dele, Salazar, que eu me lembrei ao ouvir os "aitens" da Senhora Presidenta.
Eu sei que Luísa Salgueiro não está sozinha quando assim manifesta esta espécie de analfabetismo chique (aliás, "chaique"). Os "aitens" andam por aí de boca em boca, na boca de toda a gente, repetidos, normalizados, modernos, na moda, como se a patacoada já fosse regra gramatical. Não é. E, confesso, incomodou-me, doeu-me, envergonhou-me particularmente ouvir a Senhora Presidenta a asnear ali na rádio nacional, à vista do país inteiro. Fiquei sentido por ser ela. Tocou-me como se fosse comigo. Porque, a verdade é só uma, moro em Matosinhos, a Senhora é a minha Presidenta, passa-me uma vez por ano por baixo da varanda, a acenar, na procissão, e eu, ainda por cima, faço-lhe muito gosto.

(Agora outra coisa, que não tem nada a ver. As velhas anedotas de Salazar, que certamente ele também terá herdado de outro figurão que eu não sei, passaram depois para Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente. E assim sucessivamente.)

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Compras na net 2

Hoje é Dia de Compras na Net. Mas tenha muito cuidado! Olhe para os dois lados, atravesse a rua e vá ao Lidl.

P.S. - Hoje é Dia de Compras na Net.

Compras na net

Hoje, 23 de Outubro de 2026, é Dia de Compras na Net. Tenha juízo! Veja lá no que se mete...

P.S. - Hoje é Dia de Compras na Net.