domingo, 28 de junho de 2026

A Associação, a Desportiva e o Fafe


Quando o Sporting deu 7-1 ao Benfica
Catorze de Dezembro de 1986. Em Alvalade o velho, num épico jogo de futebol: Sporting 7 - Benfica 1. Ainda hoje há quem diga que, a haver um vencedor, tinha de ser o Benfica.

Suspeito que seja caso único, talvez a nível mundial. Um importante clube de futebol que pode ter, e tem, quatro nomes autónomos e cada um deles suficiente e correcto, utilizando apenas as três palavras que lhe servem de identificação registada, portanto sem precisar de recorrer a alcunhas postiças, tipo águias, leões ou dragões, encarnados, verdes-e-brancos ou azuis-e-brancos, lampiões, lagartos ou andrades. E esse clube, tomai bem nota, é exactamente o nosso: a Associação Desportiva de Fafe, isto é, a Associação, aliás, a Desportiva, quer-se dizer, o Fafe. Um, dois, três, quatro.
Eu sou do tempo da Associação, era assim que dizíamos na minha geração - sou pela Associação, fui ver a Associação, golo da Associação! -, mas os mais velhos do que eu chamavam-lhe Desportiva - sou pela Desportiva, fui ver a Desportiva, golo da Desportiva! E, no entanto, ia tudo dar ao mesmo. Com a famosa "fusão" ainda fresca, creio que, em Fafe, havia um certo pudor em chamar Fafe ao Fafe, que era palavra comum aos dois históricos emblemas que se apagaram, o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe, para darem à luz a Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Naqueles primórdios, terá sido certamente boa ideia não incendiar rivalidades antigas e violentas com o nome "Fafe" atirado logo à cabeça, para que ninguém pensasse que os adeptos e ex-jogadores de um eram mais Fafe do que os adeptos e ex-jogadores do outro, isto é, que a nova colectividade pertencia mais a uns do que aos outros ou que se estaria a prolongar a vida de uma das partes à custa da extinção da outra, o que então seria o fim do mundo. Chamando-lhe "Associação" ou "Desportiva", e o povo assim fez, fino como um alho, o novo clube era mesmo a estrear, de todos por igual, estava tacitamente aceite, universalmente subentendido, evitava-se ferir susceptibilidades, abanar o vespeiro. Lembro-me muito bem desse ambiente ainda extremado, escorregadio e frágil como camada de gelo, e que amiúde explodia em discussões infindáveis e perigosas nos nossos tascos e cafés.
Fafe foi entrando aos poucos, prudentemente, já na minha juventude, e aí está. Um clube masculino e feminino, com quatro nomes e um só amor. O Fafe, a Desportiva, a Associação, a Associação Desportiva de Fafe, consoante a idade, a memória e o comprimento da língua de quem o diz. Já quanto aos "justiceiros", essa novidade de carregar pela boca, vou ali e venho já...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe celebra hoje 68 anos.)

Só de ida

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 27 de junho de 2026

O palito e os amorfos

Coração de ouro
Tinha um coração de ouro. Pô-lo no prego e comprou um carro em segunda mão.

O palito faz falta. Faz falta e faz parte. O palito faz parte de um português bem vestido, muito mais do que, por exemplo, o próprio chapéu, que já quase não se usa, ou a bengala, que foi praticamente abolida, e o palito lá está, malabarista, a bailar entre os dentes, de um lado ao outro da boca, para cima e para baixo, sem mãos, só à força de lábios e de língua, fazendo justiça à cabritada que o antecedeu, ainda que sejam apenas sete da manhã. O palito é, por assim dizer, indumentária, adereço de luxo, roupa de domingo metida a cotio. Sapatinho dirópito, meiinha branca, fatinho com colete, raminho de alfádega na orelha, gravata ou não, mas palito, o palito dançarino, rapioqueiro, às vezes palito e cigarro sem filtro, mais difícil ainda, porque são precisos dois para dançar o tango, assim se apresenta o português que se preza, o tuga à moda antiga, em dia de coisa e tal. E o palito realmente presta-se.
Basta ver. Temos a Olívia Palito, que é a namorada do Popeye. Temos a Manuel Palito, que matou duas mulheres e andou 34 dias a monte. Temos A Vaca Que Ri Palitos. Temos os palitos la reine, mais conhecidos como biscoitos de champanhe. E temos Valery Gergiev, amigo do peito de Vladimir Putin e renomado maestro russo que dirige orquestras com um palito a fazer de batuta. Opalito também pode ser pedra sintética translúcida, espécie de opala de imitação muito usada na joalharia e em terapias de cristal, segundo leio.
O palito guarda-se no paliteiro. Ou no bolso do peito do casaco ou do colete ou da camisa. Ou atrás da orelha, junto ao cigarro meio fumado ou à alfádega, sempre a postos para usos futuros. Os paliteiros do Miranda, em Fafe, são provavelmente os mais famosos paliteiros do mundo, mas hoje em dia só existem de memória e não é geral.
Aqui por estes lados, nas nossas aldeias, tínhamos também o palhite, que não era palito para escarafunchar os dentes ou fazer figura, mas mais propriamente fósforo para acender a candeia, que era "a luz". Os palhites ou palitos de fósforo podem chamar-se amorfos ou fósforos vermelhos. Amorfos, dizem os entendidos, porque só se inflamam a alta temperatura.
O palito, quando aos pares, incomoda um bocadinho o entrar em casa. Isto é, tem de se entrar de lado. Neste tão popular contexto, os palitos chamam-se cornos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Índios da minha praia

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Somos pó

"Lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó hás-de voltar", diz a Bíblia logo na terceira página, ainda as coisas estavam a começar a compor-se. Convenhamos: a Bíblia não é lá muito inspiradora para os cocainómanos em recuperação...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Luta Contra o Uso e Tráfico Ilícito de Drogas.

Ó meu cachimbo! Amo-te imenso!

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 25 de junho de 2026