sexta-feira, 22 de maio de 2026

Turistas de natureza

Mal rompeu o dia, e não foi bem um romper, foi um aparecer pé ante pé, saltaram aos magotes para o Passeio Atlântico, ali em baixo. São fáceis de identificar, famílias inteiras vestidas de fato-treino de domingo e telemóvel armado em máquina fotográfica, só lhes falta o merendeiro. Querem saber com os próprios olhos se a Praia de Matosinhos foi engolida pelo temporal que deu nas televisões, se pura e simplesmente desapareceu do mapa. Ficam desiludidos: a praia ali estava normalíssima da silva, descansada da vida, inteira, cheia de areia e de gente a jogar beach tennis, que é o que está a dar. Os magotes desmobilizam, as famílias tornam a casa, telemóveis murchos, num desgosto que só visto. Vão comer frango de churrasco, comprado a meio caminho, e assistir à desgraça como deve ser nas televisões. As televisões não falham. Para a semana, se Deus quiser, vão de bicicleta visitar um eucaliptal que é uma categoria. São turistas de natureza. Quero dizer: de natureza... duvidosa.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Biodiversidade.

Quando a memória é de plástico

Tornei a Fafe e fui à minha procura. Queria revisitar e mostrar o sítio exacto de onde a extraordinária matriarca dos Summavielles me atirava o retrato de Salazar, que na verdade era o "burro" de um baralho de cartas, como já aqui contei. Queria registar a frontaria que sei de cor da casa principal da família rica, um belíssimo palácio brasileiro que eu conheci por dentro e de boca aberta numa Páscoa em que fiz calos com a sineta do compasso. (Leio num interessante texto do blogue Sala de Visitas do Minho que o edifício da Rua Monsenhor Vieira de Castro foi construído em 1862. Idade de respeito.)
A famosa sacada ainda lá está. O meu passeio também. O resto não. Não sei há quanto tempo nem porquê e não me interessa por culpa de quem, a casa-mãe dos Summavielles está tapada por duas telas pintadas ao mau gosto dos piores cenários de teatrinho de escola do século passado. E mesmo em frente à nova jóia da coroa cultural da autarquia, o renovado Teatro-Cinema.
Se pensam que é uma crítica, estão enganados. Até porque, repito, não sei o que se passa e os gostos são relativos, como os pronomes. Só tive pena. Também pena de não poder fazer o retrato. Fiz isto:

Foto Hernâni Von Doellinger

O textinho de abertura e a fotografia publiquei-os no meu blogue Tarrenego! no dia 20 de Abril de 2012. Há dez anos, portanto. Consegui saber nessa altura que haveria um projecto arquitectónico para salvar o histórico imóvel, mas os seus autores ou representantes deixaram-me sem mais informações. Dez anos passaram e leio hoje no Expresso de Fafe que a Casa de José Florêncio Soares, assim se denominará oficialmente o edifício, estará actualmente "num estado calamitoso de degradação" e que há um trabalho premiado contendo "propostas" para a sua "reabilitação e requalificação". Fico mais descansado.
Marcamos então encontro para daqui a mais dez anos. Entretanto, aos alegados responsáveis pelo património fafense, estimo-lhes as melhoras.

P.S. - Publicado, no meu blogue Fafismos, no dia 7 de Outubro de 2022. Acabo de saber, pelo jornal O Minho, que parte da casa histórica e simbólica, talvez até icónica porém abandonada, ruiu ontem e foi preciso chamar os bombeiros e a polícia. Evidentemente.

Escritor e tudo

É um autor impaciente e impulsivo. Publicou o seu primeiro livro sem sequer o ter escrito, e a obra revelou-se o sucesso que se vê: vai na décima sétima edição e já ganhou quatro prémios literários - um, internacional. E continua a surpreender o mercado, à média de três novos livros por ano. Para além disso, é também pintor, performer, crítico de cinema, prefaciador, antiquário, amigo n.º 1 de Manuel António Pina, forcado amador, talhador de trasorelhos, apresentador de variedades e prepara-se para lançar o seu segundo disco de originais.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Autor Português.)

Que puta de vida!

Foto Hernâni Von Doellinger

O Lopes ofereceu-me pelo aniversário os "Mistérios de Fafe", de Camilo Castelo Branco. Uma "edição popular" de 1969 da Parceria A. M. Pereira Ld.ª, "8.ª edição, conforme a 2.ª, última revista pelo autor", Camilo, que avisa desde logo: "Esta novela contém adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais", portanto Fafe no seu melhor. Prendinha bem catita, que nisto de livros o Lopes nunca dá ponto sem nó, e foi apenas a cereja em cima do bolo, um mimo, porque a prenda principal foi outra - outro livro, evidentemente. Os meus melhores livros, aliás, são-me regularmente dados pelo Lopes e pelo meu irmão Orlando, honra lhes seja.
Mas o Lopes. O Lopes é um bom caralho! Aqui atrasado ofereceu-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista", para mim, estais a ver a malandrice? Porque o Lopes parece que está sempre no gozo. O Lopes chama-se Luís Lopes, é jornalista, escritor, argumentista e fafense amador, tantas as vezes que me acompanhou nos meus periódicos e mais ou menos nocturnos regressos à terra. O seu primeiro livro, publicado pela Vega em 1997, tem por título "Que Puta de Vida!", e quem ainda não leu, não sabe o que anda a perder. É coisa que se lê num lampo ou, melhor dizendo, no tempo de uma gargalhada. Ou de um espirro. Alguns raros exemplares poderão ainda ser encontrados, creio, nas melhores casas da especialidade.

Já agora, o seguinte. À medida que nos formos conhecendo melhor, ides perceber que eu levo os telemóveis muito a sério (à séria, se lido em Lisboa). Se o meu telemóvel toca, e é raro, eu atendo. Sempre. Ainda ontem: eu estava aqui nas traseiras, a escrevinhar qualquer coisa, por acaso sem o telemóvel à mão, e ouvi-o tocar na cozinha, virada para a rua. Fui lá a correr: não era o telemóvel, era a máquina de lavar roupa, que as máquinas de lavar roupa agora também tocam. O que é que eu fiz? Atendi a máquina de lavar roupa, evidentemente. E era o Lopes...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Autor Português)

Minha casa, minha cabana

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O meu banco explora-me

Serei o único?
Eu acho estranho. Quanto mais faço o serviço do banco, mais o banco me cobra pelo serviço que não faz. É só comigo?

O meu banco escreve-me um email e diz-me: "Junto enviamos o seu extrato em formato digital. Pode agora consultar de forma rápida, cómoda e ecológica os movimentos do mês passado." O meu banco mente-me com quantos dentes lá guarda. O formato digital não é a forma mais rápida de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; o formato digital não é a forma mais cómoda de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; e não acredito que o meu banco tenha um cêntimo sequer de preocupação ecológica.
E que se segue? Indiferente aos meus mais veementes protestos e sucessivos atestados de velhice e antiguidade, o meu banco deixou mesmo de gastar papel comigo e, três anos depois, sem dizer água vai, passou a cobrar-me 5,41 euros mensais de "comissão de manutenção". E agora, sei lá se por derradeira vingança, obriga-me a ser eu próprio a realizar todo o (pouco) trabalho que antes fazia por mim. Quer-se dizer: para além de me mentir, o meu banco também me explora. Eu não me parece bem, lá isso não. Mas vou-me queixar a quem? Ao Totta? O meu banco é o Millennium, valha-me Deus...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A censura, ao virar da esquina

Foto Hernâni Von Doellinger