Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar,
correu tudo bem. Despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu
contava passar a tarde
inteira refastelado numa das cadeiras partidas das instalações de
Alferes Malheiro, embora tivesse
marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem
saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal
minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa do Porto...
Ameaçava ameaçar chover.
Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu
nariz, no largo da estação de metro da Trindade, e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva
mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se
sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e muitos e os quarenta e
poucos, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:
- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial
literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer
melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que
se chama Pepe Carvalho, detective privado, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas versão séculos XX-XXI.
- Então é conhecido em Espanha...
-
Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar.
Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um
ou dois livros do Montalbán, quer ver?
Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho
que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam,
após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o
"Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera
desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:
- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras,
pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até
uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí...
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...
Ia
gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil
funcionária quem é Patxi Andión, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos
dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:
- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o
Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
-
Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada...
- devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.
Cientificamente provado: a ignorância faz bem à pele. Por outro lado, as
bifanas estavam di-vi-nais, como diria o meu irmão Nelo. E o Lopes, que parece que é bruxo,
trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho
quem me goze...
P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Julho de 2016, então sob o título "A ignorância faz bem à pele e as bifanas também". Patxi Andión,
que vem a Portugal desde o tempo do Zip Zip e da sua amizade com Ary
dos Santos e Zeca Afonso, celebra os seus 50 anos de carreira lançando o
disco "La Hora Lobicán". Em Setembro cá tornará, a Lisboa e ao Porto.
Bom para aprender quem ele é.)
(O texto adendado de cima publiquei-o no passado dia 11 de Março de 2019. Patxi Andión morreu hoje.)
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Fernando Lemos
Mudançar
Repor
na planta da cor brancura
em pedra solicitada
Reler
por vacilação das sílabas
em escuridão afundada
Rever
por olho areado com águas
a imagem contaminada
Reter
no músculo oxigenado vaso
areal terra aterrada
Resistir
ao cântico suado no temor
a evolução revoltada
Reaver
do padre eterno esquecido
fé febril equivocada
Rematar
pontilhados no voo manual
asa de vazio blindada
Reacordar
quando o tempo do morto é
vício pele reciclada
Recomeçar
linguajar contínua marcha
vivente reinventada.
"Cá & Lá", Fernando Lemos
(Fernando Lemos nasceu no dia 3 de Maio de 1926. Morreu ontem.)
Repor
na planta da cor brancura
em pedra solicitada
Reler
por vacilação das sílabas
em escuridão afundada
Rever
por olho areado com águas
a imagem contaminada
Reter
no músculo oxigenado vaso
areal terra aterrada
Resistir
ao cântico suado no temor
a evolução revoltada
Reaver
do padre eterno esquecido
fé febril equivocada
Rematar
pontilhados no voo manual
asa de vazio blindada
Reacordar
quando o tempo do morto é
vício pele reciclada
Recomeçar
linguajar contínua marcha
vivente reinventada.
"Cá & Lá", Fernando Lemos
(Fernando Lemos nasceu no dia 3 de Maio de 1926. Morreu ontem.)
Presunção e água-benta
Entrou na pequena capela e persignou-se com toda a presunção. É que não havia água-benta.
Luís Pimentel 6
Enterro do neno pobre
Punteiros de gaita
acompañabano.
O pai de negro;
no mar, unha vela
branca.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
Abaixo, o mar;
o camiño no aire
a mañá.
Il iba de camisa limpa
e zoquiñas brancas.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
"Sombra do Aire na Herba", Luís Pimentel
(Luís Pimentel nasceu no dia 18 de Dezembro de 1895. Morreu em 1958.)
Punteiros de gaita
acompañabano.
O pai de negro;
no mar, unha vela
branca.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
Abaixo, o mar;
o camiño no aire
a mañá.
Il iba de camisa limpa
e zoquiñas brancas.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
"Sombra do Aire na Herba", Luís Pimentel
(Luís Pimentel nasceu no dia 18 de Dezembro de 1895. Morreu em 1958.)
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Sombra do Aire na Herba
Xoán Manuel Casado 4
O outro día vin na ópera un episodio significativo. Transcorría o segundo acto e os dous protagonistas representaban unha escena bucólica. Eu asistía, gañado por esa impresión de artificiosidade da que, pese á miña inercia de espectador, rara vez consigo ceibarme. De sócato, algo chamoume a atención á metade dun dúo: desde a miña localidade inmediata e lateral ao escenario, a postura da soprano, sentada no chan, permitíame apreciar con claridade que non gastaba roupa interior. O efecto da descuberta foi detonante. A escena adquiriu, para min, unha intensidade da que carecía momentos antes e aquel canto, cen veces escoitado sen maior interiorización, soaba único e mancante nesta oportunidade. Pasara que a representación artística se transfigurara en experiencia vital.
"Diario de Entretempo", Xoán Manuel Casado
(Xoán Manuel Casado nasceu no dia 18 de Dezembro de 1949. Morreu em 2002.)
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
Microcontos & outras miudezas 186
Assassinado por formigas
Quando saiu a notícia de que Cícero foi assassinado em Fórmias, edição de 7 Dezembro de 43 antes de Cristo, houve logo quem percebesse que o ilustre político, escritor, orador e filósofo romano fora devorado por formigas. Hoje em dia na nossa comunicação social o lamentável equívoco persiste. Porque os jornais digitais e até os analógicos não têm tempo para.
Walt Disney, o da carona
Conheci muito bem Walt Disney. Falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café. Nos livros aos quadradinhos é que já era a cores e ensinou-me a palavra carona, de que eu gostava muito, quase tanto como da palavra parreca, que eu já sabia das feiras e romarias. Se fosse vivo, o velho Walt teria hoje 118 anos, o que, convenhamos, constituiria façanha digna de registo.
Frank Zappa, coincidência fatal
No dia 4 de Dezembro de 1971, em Montreux (Suíça), um incêndio provocado pelo disparo de um foguete de localização destruiu o casino onde tocavam Frank Zappa e os Mothers of Invention. A visão do incêndio foi fonte de inspiração da icónica canção "Smoke on the Water" dos Deep Purple, que assistiam ao concerto de Zappa, na plateia, mesmo em frente ao palco.
No dia 4 de Dezembro de 1993, Frank Zappa morreu vítima de cancro na próstata, pouco antes de completar 53 anos.
A língua brasileira
A língua brasileira, também designada brasileiro, é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o brasileiro é a quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.
A língua portuguesa, também designada português, é falada e escrita por uns quantos velhos e irredutíveis como eu.
Os três reis magos eram quantos afinal?
Os três reis magos eram não se sabe quantos, e na verdade nem eram reis nem eram magos. Provavelmente inexistiram. Ou então seriam moët & chandon. Mas isso não interessa. O certo é que, depois de terem adorado o Menino Jesus, em Belém, e de lhe terem oferecido ouro, incenso, mirra, um tambor e um carrinho de bombeiros, dedicaram-se à bola: Gaspar brilhou no Rio Ave, Baltasar fez seis épocas no Sporting e Belchior jogou na selecção de futebol de praia.
Quando saiu a notícia de que Cícero foi assassinado em Fórmias, edição de 7 Dezembro de 43 antes de Cristo, houve logo quem percebesse que o ilustre político, escritor, orador e filósofo romano fora devorado por formigas. Hoje em dia na nossa comunicação social o lamentável equívoco persiste. Porque os jornais digitais e até os analógicos não têm tempo para.
Walt Disney, o da carona
Conheci muito bem Walt Disney. Falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café. Nos livros aos quadradinhos é que já era a cores e ensinou-me a palavra carona, de que eu gostava muito, quase tanto como da palavra parreca, que eu já sabia das feiras e romarias. Se fosse vivo, o velho Walt teria hoje 118 anos, o que, convenhamos, constituiria façanha digna de registo.
Frank Zappa, coincidência fatal
No dia 4 de Dezembro de 1971, em Montreux (Suíça), um incêndio provocado pelo disparo de um foguete de localização destruiu o casino onde tocavam Frank Zappa e os Mothers of Invention. A visão do incêndio foi fonte de inspiração da icónica canção "Smoke on the Water" dos Deep Purple, que assistiam ao concerto de Zappa, na plateia, mesmo em frente ao palco.
No dia 4 de Dezembro de 1993, Frank Zappa morreu vítima de cancro na próstata, pouco antes de completar 53 anos.
A língua brasileira
A língua brasileira, também designada brasileiro, é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o brasileiro é a quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.
A língua portuguesa, também designada português, é falada e escrita por uns quantos velhos e irredutíveis como eu.
Os três reis magos eram quantos afinal?
Os três reis magos eram não se sabe quantos, e na verdade nem eram reis nem eram magos. Provavelmente inexistiram. Ou então seriam moët & chandon. Mas isso não interessa. O certo é que, depois de terem adorado o Menino Jesus, em Belém, e de lhe terem oferecido ouro, incenso, mirra, um tambor e um carrinho de bombeiros, dedicaram-se à bola: Gaspar brilhou no Rio Ave, Baltasar fez seis épocas no Sporting e Belchior jogou na selecção de futebol de praia.
Afrânio Peixoto 7
Herança
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto
(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto
(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)
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Erico Veríssimo 7
Gota de orvalho
na corola dum lírio:
jóia do tempo.
Erico Veríssimo
(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)
na corola dum lírio:
jóia do tempo.
Erico Veríssimo
(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
Um "santo Natal", dizem os incréus
Rais parta a moda dos votos de "santo Natal". Rais parta o vírus. Parece
que não chegava o desejo de "feliz Natal", a encomenda de "bom Natal",
parece que não era suficiente. Não, agora pregam-me com o "santo Natal",
esfregam-mo no focinho. Está certo os meus dois amigos padres que me
fazem sempre questão de "santo Natal", são padres, é-lhes de direito e
de ofício, estão perdoados. Agora outros, certos e determinados, venais,
filisteus, alguns até concubinados, criaturas que não vão à missa, que
não rezam o terço, que não fazem novenas, que não põem os pés nas
procissões, que não abrem a porta ao compasso, que vão a Fátima por
causa do leitão na Mealhada, que acham que o Te Deum jogava no Sporting,
que pensam que a besta do Apocalipse é um gajo muito burro chamado
Apocalipse, que
tampouco sabem quantas são as pessoas da Santíssima Trindade, virem-me
com o "santo Natal", sem sequer suspeitarem do que a coisa quer dizer,
isso eu não deixo passar. E portanto aqui fica o meu mais veemente
protesto, amém.
Olavo Bilac 7
Delírio
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Olavo Bilac
(Olavo Bilac nasceu no dia 16 de Dezembro de 1865. Morreu em 1918.)
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Olavo Bilac
(Olavo Bilac nasceu no dia 16 de Dezembro de 1865. Morreu em 1918.)
Xoán Manuel Pintos 4
Fermoso labrador que sin cansazo
Fas recachar o mundo, e mil primores
Germolla a feixes por un mar de frores
Con sò quencelo ti dend' o teu pazo:
Ti que o calor difundes po lo espazo
Brillante Febo que de côte giras
Cheo de luz po lo alto firmamento,
Sin que as, edades fagan decremento
No fòco, imnenso de que fógo, tiras:
Notorio, decumento,
Froron dourado po lo azul dos cèos
Que así confunde a impios com' a atéos
Ti que benino a miña terra miras
Carís lle póndoalégre de contento,
A Deus lle pide por un breve instante
Que lle dé forza a meu cativo alento
Porque louores a Galicia cante.
[...]
"A' Galiza", Xoán Manuel Pintos
(Xoán Manuel Pintos nasceu no dia 16 de Dezembro de 1811. Morreu em 1876.)
Fas recachar o mundo, e mil primores
Germolla a feixes por un mar de frores
Con sò quencelo ti dend' o teu pazo:
Ti que o calor difundes po lo espazo
Brillante Febo que de côte giras
Cheo de luz po lo alto firmamento,
Sin que as, edades fagan decremento
No fòco, imnenso de que fógo, tiras:
Notorio, decumento,
Froron dourado po lo azul dos cèos
Que así confunde a impios com' a atéos
Ti que benino a miña terra miras
Carís lle póndoalégre de contento,
A Deus lle pide por un breve instante
Que lle dé forza a meu cativo alento
Porque louores a Galicia cante.
[...]
"A' Galiza", Xoán Manuel Pintos
(Xoán Manuel Pintos nasceu no dia 16 de Dezembro de 1811. Morreu em 1876.)
domingo, 15 de dezembro de 2019
Ben-u-ron, uma questão de fé
A minha sogra gosta muito do Ben-u-ron. Reclama "o meu Banuronzinho" por tudo e por nada, geralmente só para marcar posição de doente diplomada, inscrita na ordem e com as cotas em dia, questão de princípio, mas também para a insónia ou para a sonolência, para a garganta seca ou molhada, para o catarro e para a ausência do mesmo, para o frio e para o calor, para as correntes de ar e para o mau-olhado, para a diarreia ou para a prisão de ventre, para os arrotos e para os espirros, para a flatulência ou para a surdez ou para a anosmia, para as unhas encravadas ou para os pêlos do nariz. A minha sogra só não quer Ben-u-ron para as dores de que se queixa como quem reza o terço em latim ou para a febre que nunca tem por mais que meta o termómetro. Para o resto - isto é, para aquilo que não diz respeito ao Ben-u-ron - a miraculosa pastilha é trigo limpo, farinha amparo. "Tenho muita fé no Banuron!", justifica a minha sogra. E eu, verdade seja dita, questões de fé não discuto...
P.S. - Este texto não teve o patrocínio da Bene Farmacêutica, Ld.ª. Infelizmente.
P.S. - Este texto não teve o patrocínio da Bene Farmacêutica, Ld.ª. Infelizmente.
Marcos Konder Reis 4
Mapa
Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.
O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país.
Mapa azul da infância:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.
Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,
Preto e branco e girando: andorinha e terral.
Depois a noite de cristal e tria,
A noite das estrelas e das súbitas sanfonas afastadas,
Tontura de esperanças: essa mistura de beijos e de danças pela estrada
Numa eterna chegada ao condado do Amor.
"Armadura do Amor", Marcos Konder Reis
(Marcos Konder Reis nasceu no dia 15 de Dezembro de 1922. Morreu em 2001.)
Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.
O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país.
Mapa azul da infância:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.
Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,
Preto e branco e girando: andorinha e terral.
Depois a noite de cristal e tria,
A noite das estrelas e das súbitas sanfonas afastadas,
Tontura de esperanças: essa mistura de beijos e de danças pela estrada
Numa eterna chegada ao condado do Amor.
(Marcos Konder Reis nasceu no dia 15 de Dezembro de 1922. Morreu em 2001.)
Marcos Prado 4
O sol
o sol
do outro lado
da cidade
parecia
iluminar
a china
simples:
abri
a cortina
Marcos Prado
(Marcos Prado nasceu no dia 15 de Dezembro de 1961. Morreu em 1996.)
o sol
do outro lado
da cidade
parecia
iluminar
a china
simples:
abri
a cortina
Marcos Prado
(Marcos Prado nasceu no dia 15 de Dezembro de 1961. Morreu em 1996.)
sábado, 14 de dezembro de 2019
Encontro de espíritos
Reuniram-se os espíritos no seu tradicional encontro de fim de ano. E
lá estavam: o espírito de equipa, o espírito empreendedor, o espírito
indomável, o espírito desportivo, o espírito de entreajuda, o espírito
de sacrifício, o espírito positivo, o espírito de finura, o espírito
geométrico, o espírito da lei, o espírito al negro, o espírito de 45 e o espírito santo de orelha, que
presidia aos trabalhos e perguntou: - Está tudo? Podemos começar?...
Que não. Era melhor esperar um bocadinho. Faltava o espírito natalício...
Que não. Era melhor esperar um bocadinho. Faltava o espírito natalício...
Ainda quanto aos coelhos
Ainda relativamente a esta problemática, dar-me-ia algum jeito que os especialistas se resolvessem de uma vez por todas: os coelhos são uma praga ou, completamente pelo contrário, estão em risco de extinção?
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
Sérgio Conceição não pára
| Foto Hernâni Von Doellinger |
No dia seguinte a talvez ter salvo o emprego e no mesmo dia em que, não sei, terá dado folga ao plantel, como dizem os peritos, Sérgio Conceição, treinador da principal equipa de futebol do FC Porto, lá andava pelas nove da matina a puxar pelo cabedal, certamente preparando o próximo combate.
Ui, sexta-feira 13!...
Sexta-feira, dia 13 de Dezembro de 2019. Seis mais um é sete, mais três é dez, mais dois é doze, mais zero é doze, mais um é treze, mais nove é vinte e dois, menos nove é treze. Ui, treze! Concentremo-nos no ano: dois mais zero é dois, mais um é três. É claro: três! Três mais nove é doze, noves fora três. Três, estão a ver?! Zero mais um é um e mais nove é dez, noves fora um. Um, evidentemente! Dois mais nove é onze, noves fora dois, e, curiosamente, nove mais dois é onze, noves fora dois. Atenção, dois! Temos, portanto, dois, zero, um e nove, mais três, mais doze, mais dez, mais onze, o que dá quarenta e oito, quatro e oito doze, noves fora três. Três, eu avisei! Mais revelador ainda: o contrário de 2019 é 9102, some-se-lhe, por exemplo, 898 e dá exactamente 10000. Dez mil certos! O que é extraordinário. Agora, sexta-feira 13. Seis mais um é sete, sete mais três é dez, noves fora um. Cá estamos, um! Seis mais três é nove, noves fora nada. Nada! Seis mais treze é dezanove, um mais nove é dez, noves fora um. Cuidado! Um mais três é quatro, adicione-se-lhe um número qualquer ao acaso, seja 9994, e dá exactamente 10000. Brrr!... Isto realmente anda tudo ligado.
Estou pronto para o Natal
Estou preparadíssimo para o
Natal: "Quo Vadis", "As Sandálias do
Pescador", "A
Bíblia", "Barrabás", "Ben-Hur", "Os Dez Mandamentos", "A Túnica", "A
Última Tentação de Cristo", "Jesus de Nazaré", "Jesus Cristo Superstar",
"A Paixão de Cristo", "Spartacus", "Demétrio, o Gladiador", "Sansão e
Dalila", "O Sinal da Cruz", "O Evangelho Segundo São Mateus" - venham,
que eu estou à espera. "Sozinho em Casa" um, dois, três, quatro, cinco,
"Grinch" um, dois, três, "O Amor Acontece", "O Amor Não Tira Férias",
"Regresso ao Futuro" um dois, três quatro, cinco, "Tubarão" um, dois,
três quatro, cinco e seis cabeças, "Parque Jurássico" um, dois, três,
"Momento da Verdade", "O Último Tango em Paris", "Garganta Funda" ou "O
Diabo na Carne de Miss Jones", estou por tudo.
E, se quiserem, mandem também "Sete Noivas para Sete Irmãos", "A Máscara do Ranger", "E Tudo o Vento Levou", "Um Violino no Telhado", "Música no Coração", "O Feiticeiro de Oz", "Citizen Kane", "O Prisioneiro de Alcatraz", "Cinema Paraíso", "As Pontes de Madison County", "A Ponte do Rio Kwai", "O Expresso de Von Ryan", "Mamma Mia!", "Os Canhões de Navarone", "Rambo" um, dois, três, quatro, cinco, "Doze Indomáveis Patifes", "O Bom, o Mau e o Vilão" ou "A Vida de Brian". Nosso Senhor é como o Sol, quando nasce é para todos.
E, se quiserem, mandem também "Sete Noivas para Sete Irmãos", "A Máscara do Ranger", "E Tudo o Vento Levou", "Um Violino no Telhado", "Música no Coração", "O Feiticeiro de Oz", "Citizen Kane", "O Prisioneiro de Alcatraz", "Cinema Paraíso", "As Pontes de Madison County", "A Ponte do Rio Kwai", "O Expresso de Von Ryan", "Mamma Mia!", "Os Canhões de Navarone", "Rambo" um, dois, três, quatro, cinco, "Doze Indomáveis Patifes", "O Bom, o Mau e o Vilão" ou "A Vida de Brian". Nosso Senhor é como o Sol, quando nasce é para todos.
Reynaldo Jardim 4
Receituário
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
Reynaldo Jardim
(Reynaldo Jardim nasceu no dia 13 de Dezembro de 1926. Morreu em 2011.)
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
Reynaldo Jardim
(Reynaldo Jardim nasceu no dia 13 de Dezembro de 1926. Morreu em 2011.)
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
Os coelhos não se evaporam
Quitério, que também não tem emprego, já estava farto de armazenar cotão nos bolsos e de jogar à sueca no Jardim do Marquês. Portanto resolveu começar a contar coelhos no Parque da Cidade. Uma actividade por certo ainda não remunerado, é preciso que se note, mas que o nosso homem tem uma enorme fezada de que virá a sê-lo a breve trecho, na sequência do projecto que conta apresentar antes do Natal ao Dr. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, e que, no âmbito do Quadro Comunitário de Apoio Portugal 2020, vai enviar sem falta às primeiras horas do próximo dia 1 de Janeiro ao ministro da Economia, Pedro Siza Vieira. Entretanto mandou o currículo para a National Geographic. Se nem sequer acusarem a recepção, é sinal de que a conceituada revista já passou para as mãos de patrões e editores portuguesa, o que é bom para o País.
Todas as manhãs, depois de espreitar a primeira página de O Jogo, Quitério arranca para o Parque da Cidade, bloco de notas, lápis e maçã em punho. A maçã é muito importante, porque às vezes dá-lhe fome.
Quitério olha e vê com olho clínico, hospitalar, regista, compara, assinala as diferenças e as similitudes, escreve sessenta vezes a palavra similitudes porque gosta muito dela, desenha gráficos e tabelas, depois deita tudo fora e remata com a inconfidência da notazinha pessoal. E sempre em horário completo. Por isso, ele é hoje em dia e sem favor a voz mais autorizada para dissertar sobre a problemática do coelho nacional, ao qual (fruto de uma lamentável confusão fonético-etimológia) atribuiu o nome científico de Cunnilingus Lusitannus, exactamente para o diferenciar do chamado coelho comum, que os especialistas denominam de Laparus Normallissimus. Os especialistas são ele.
Mas não se cuide que é tarefa fácil, ofício para paisanos: "Com os coelhos, como em tudo na vida, há dias e dias". A frase não é minha, saiu da sábia pena de Quitério, que às vezes fecha a loja sem ter visto um coelho que seja, ou uma coelha, vá lá, para na vez seguinte ter que se desunhar com os verbetes de mais de vinte avistamentos no breve espaço de um quarto de hora.
"A ciência tudo explica”, costuma dizer Quitério, batendo com o lápis no bloco de apontamentos. "E está aqui tudo"...
Segundo Quitério, aos sábados de manhã ninguém põe a vista em cima do CL - passemos a chamar-lhe CL, afrontando embora o rigor da ciência, mas precatando compreensíveis susceptibilidades. O especialista defende que "esta é a prova provada de que o coelho nacional costuma passar a noite de sexta-feira nos copos e/ou no sexo". E sexo, com os coelhos, já se sabe como é...
Outro resultado do estudo, ainda segundo Quitério: "O coelho nacional almoça em casa. Entre o meio-dia e a hora e meia da tarde, não há nem um para amostra em campo aberto. O Lusitannus, como também é tratado entre amigos, está à mesa com a família, não tem graveto para mais. Ou então foi para a praia, que é de borla e ali ao pé".
Interessante curiosidade: com mau tempo, chuva principalmente, o coelhame vem todo cá para fora. "Conclusão a tirar: as casas metem água". Um reparo que Quitério já antecipou em pré-relatório enviado há coisa de três semanas aos serviços municipais de habitação.
Quitério tem tudo registado. Ele conhece-lhe os hábitos, as suas idiossincrasias (e escreve idiossincrasias mais cinquenta e nove vezes), ele até já traçou o perfil psicológico do CL, bicho assustadiço e campeão de atletismo. E no entanto não há dia em que o nosso cientista não se apanhe surpreendido por um novo ângulo, pelo nunca visto ou cogitado.
Ainda anteontem, por exemplo: estava Quitério analisando, de perto, o comportamento de um belo exemplar, preto e branco, malhadinho, quando...
(o melhor é ser o próprio Quitério a contar)
... "a minha atenção se desfocou por uns milésimos de segundo na pista de um par de mamas que passava por mim todo saltitão. Foi coisa de milésimos de segundos, palavra de honra! Quando torno à procura do láparo, já ele lá não está. Bateu asas e voou"...
(Ora bem: impõe-se aqui um novo entre parênteses, desde logo para pedir desculpa ao leitor acidental por esta contumaz fraqueza de Quitério pelos feminis seios, a que o autor do texto é obviamente alheio, mas também para dar nota da camada de cepticismo com que esta inesperada revelação foi acolhida na mesa de café onde ele costuma calistar. Foi um torcer de nariz geral e o mete-nojo do Silveira ainda torceu um tornozelo, só para dar nas vistas.)
Todas as manhãs, depois de espreitar a primeira página de O Jogo, Quitério arranca para o Parque da Cidade, bloco de notas, lápis e maçã em punho. A maçã é muito importante, porque às vezes dá-lhe fome.
Quitério olha e vê com olho clínico, hospitalar, regista, compara, assinala as diferenças e as similitudes, escreve sessenta vezes a palavra similitudes porque gosta muito dela, desenha gráficos e tabelas, depois deita tudo fora e remata com a inconfidência da notazinha pessoal. E sempre em horário completo. Por isso, ele é hoje em dia e sem favor a voz mais autorizada para dissertar sobre a problemática do coelho nacional, ao qual (fruto de uma lamentável confusão fonético-etimológia) atribuiu o nome científico de Cunnilingus Lusitannus, exactamente para o diferenciar do chamado coelho comum, que os especialistas denominam de Laparus Normallissimus. Os especialistas são ele.
Mas não se cuide que é tarefa fácil, ofício para paisanos: "Com os coelhos, como em tudo na vida, há dias e dias". A frase não é minha, saiu da sábia pena de Quitério, que às vezes fecha a loja sem ter visto um coelho que seja, ou uma coelha, vá lá, para na vez seguinte ter que se desunhar com os verbetes de mais de vinte avistamentos no breve espaço de um quarto de hora.
"A ciência tudo explica”, costuma dizer Quitério, batendo com o lápis no bloco de apontamentos. "E está aqui tudo"...
Segundo Quitério, aos sábados de manhã ninguém põe a vista em cima do CL - passemos a chamar-lhe CL, afrontando embora o rigor da ciência, mas precatando compreensíveis susceptibilidades. O especialista defende que "esta é a prova provada de que o coelho nacional costuma passar a noite de sexta-feira nos copos e/ou no sexo". E sexo, com os coelhos, já se sabe como é...
Outro resultado do estudo, ainda segundo Quitério: "O coelho nacional almoça em casa. Entre o meio-dia e a hora e meia da tarde, não há nem um para amostra em campo aberto. O Lusitannus, como também é tratado entre amigos, está à mesa com a família, não tem graveto para mais. Ou então foi para a praia, que é de borla e ali ao pé".
Interessante curiosidade: com mau tempo, chuva principalmente, o coelhame vem todo cá para fora. "Conclusão a tirar: as casas metem água". Um reparo que Quitério já antecipou em pré-relatório enviado há coisa de três semanas aos serviços municipais de habitação.
Quitério tem tudo registado. Ele conhece-lhe os hábitos, as suas idiossincrasias (e escreve idiossincrasias mais cinquenta e nove vezes), ele até já traçou o perfil psicológico do CL, bicho assustadiço e campeão de atletismo. E no entanto não há dia em que o nosso cientista não se apanhe surpreendido por um novo ângulo, pelo nunca visto ou cogitado.
Ainda anteontem, por exemplo: estava Quitério analisando, de perto, o comportamento de um belo exemplar, preto e branco, malhadinho, quando...
(o melhor é ser o próprio Quitério a contar)
... "a minha atenção se desfocou por uns milésimos de segundo na pista de um par de mamas que passava por mim todo saltitão. Foi coisa de milésimos de segundos, palavra de honra! Quando torno à procura do láparo, já ele lá não está. Bateu asas e voou"...
(Ora bem: impõe-se aqui um novo entre parênteses, desde logo para pedir desculpa ao leitor acidental por esta contumaz fraqueza de Quitério pelos feminis seios, a que o autor do texto é obviamente alheio, mas também para dar nota da camada de cepticismo com que esta inesperada revelação foi acolhida na mesa de café onde ele costuma calistar. Foi um torcer de nariz geral e o mete-nojo do Silveira ainda torceu um tornozelo, só para dar nas vistas.)
E
Quitério, ofendidíssimo: - Mas estão a pôr em dúvida a seriedade do meu
trabalho? Também me querem mandar para presidente do Sporting? Eu lido com as
hipóteses, eu verifico as evidências. Então como é que explicam o
desaparecimento do coelho? O coelho evaporou-se, não? Ridículo! Toda a
gente sabe que os coelhos não se evaporam. Bateu asas e voou, foi o que
foi.
P.S. - Texto publicado originalmente no dia 1 de Julho de 2011. Os jornais noticiaram anteontem a última actualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza. São mais de trinta mil espécies ameaçadas de extinção, entre as quais, pela primeira vez, o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus). Quitério era realmente um adiantado mental.
P.S. - Texto publicado originalmente no dia 1 de Julho de 2011. Os jornais noticiaram anteontem a última actualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza. São mais de trinta mil espécies ameaçadas de extinção, entre as quais, pela primeira vez, o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus). Quitério era realmente um adiantado mental.
Alberto de Serpa 6
Espectáculo
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há-de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados...
Alberto de Serpa
(Alberto de Serpa nasceu no dia 12 de Dezembro de 1906. Morreu em 1992.)
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há-de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados...
Alberto de Serpa
(Alberto de Serpa nasceu no dia 12 de Dezembro de 1906. Morreu em 1992.)
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Como será o mundo sem coelhos?
Atenção, muita atenção! Os coelhos
do Parque da Cidade estão a desaparecer a olhos vistos. Alguém ou algo lhes está a acabar com a raça, e logo aos coelhos, que, como se sabe, procriam como coelhos. Há ali massacre em massa. Ou, talvez mais provável, em arrozada. Em todo o caso, creio estarmos inequivocamente perante a nefanda perpetração de um a todos os títulos condenável coelhocídio.
Ora bem, para princípio de conversa: eu
também sou frequentador, também tenho direito, aprecio o petisco, portanto muito gostaria de saber
onde é que são as tainadas e agradeço que me chamem para a próxima.
Os coelhos do Parque da Cidade do Porto, que é deles, realmente? Eles eram às centenas, se calhar milhares, e agora nem um para amostra. Ainda uma destas manhãs passei por lá, chovia, portanto estava um rico dia para a prática, e nada. O que é que aconteceu ali? O que é que nos anda a ser escondido? Uma matança ordenada pela própria autarquia? Fugiram todos para o Presépio, convencidos de que estamos na Páscoa? Cresceram e já não são coelhos, serão agora coelhões? O Passos Coelho saiu e eles, solidários, também? Reaparecerão a tempo das eleições no PSD? Quem é que os anda a comer?
Procuro, e não encontro. Pergunto, e nada. Bato a todas as portas, e nada. Ou um balde de água choca pela cabeça abaixo de vez em quando.
Eu parece-me grave que ninguém queira saber do que aconteceu aos coelhos do Parque da Cidade, que se desvaneceram, como que por artes mágicas e negras, duma noite para o dia. A Câmara do Porto não liga, a de Moimenta da Beira também não, tampouco a Câmara de Ar, as jotas dos partidos políticos, sempre tão atesoadas para se agarrarem com ambas as mãos a temáticas fracturantes, têm esta aqui tão jeitosa mas viram-lhe o cu e manda-na foder. E até o Bloco de Esquerda e o PAN, amiguinhos dos animais como não há, só se preocupam com os coelhos se eles tiverem cornos e forem toureados no Campo Pequeno, em Lisboa.
Ninguém me tira a ideia, para mim houve coelhocídio no Parque.
P.S. - Síntese de vários textos publicados originalmente entre Setembro de 2011 e Março de 2012. Os jornais noticiaram ontem a última actualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza. São mais de trinta mil espécies ameaçadas de extinção, entre as quais, pela primeira vez, o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus). Eu não avisei?
Os coelhos do Parque da Cidade do Porto, que é deles, realmente? Eles eram às centenas, se calhar milhares, e agora nem um para amostra. Ainda uma destas manhãs passei por lá, chovia, portanto estava um rico dia para a prática, e nada. O que é que aconteceu ali? O que é que nos anda a ser escondido? Uma matança ordenada pela própria autarquia? Fugiram todos para o Presépio, convencidos de que estamos na Páscoa? Cresceram e já não são coelhos, serão agora coelhões? O Passos Coelho saiu e eles, solidários, também? Reaparecerão a tempo das eleições no PSD? Quem é que os anda a comer?
Procuro, e não encontro. Pergunto, e nada. Bato a todas as portas, e nada. Ou um balde de água choca pela cabeça abaixo de vez em quando.
Eu parece-me grave que ninguém queira saber do que aconteceu aos coelhos do Parque da Cidade, que se desvaneceram, como que por artes mágicas e negras, duma noite para o dia. A Câmara do Porto não liga, a de Moimenta da Beira também não, tampouco a Câmara de Ar, as jotas dos partidos políticos, sempre tão atesoadas para se agarrarem com ambas as mãos a temáticas fracturantes, têm esta aqui tão jeitosa mas viram-lhe o cu e manda-na foder. E até o Bloco de Esquerda e o PAN, amiguinhos dos animais como não há, só se preocupam com os coelhos se eles tiverem cornos e forem toureados no Campo Pequeno, em Lisboa.
Ninguém me tira a ideia, para mim houve coelhocídio no Parque.
P.S. - Síntese de vários textos publicados originalmente entre Setembro de 2011 e Março de 2012. Os jornais noticiaram ontem a última actualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza. São mais de trinta mil espécies ameaçadas de extinção, entre as quais, pela primeira vez, o coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus). Eu não avisei?
Quando Ben-Hur foi impedido de entrar no Presépio
Ben-Hur queria entrar no Presépio. Chamou o grupinho do costume -
Spartacus, Maximus, Maciste, Hércules, Sansão, Demétrio, Ursus, Tarzan Taborda e evidentemente Nuno
Salvação Barreto, não fosse a coisa dar para o torto. E lá foram. O
Pescador do Laguinho, que sabia kung fu por correspondência e era segurança em part-time,
impediu-lhes terminantemente o acesso: - Noite temática, meus senhores,
hoje é só anjos, pastores e reis magos. Ordens de cima. Apareçam pela
Páscoa...
Manuel Rodríguez López 6
A emigrante
Onte chegaches pra pedir traballo
á gran cidade; que deixaches, dona,
os cativiños e o marido lonxe
nunha casoupa.
No asfalto e no rebumbio mergullada,
ninguén enxoita as bágoas que che escoan,
ninguén cavila na tristura infinda
á gran cidade; que deixaches, dona,
os cativiños e o marido lonxe
nunha casoupa.
No asfalto e no rebumbio mergullada,
ninguén enxoita as bágoas que che escoan,
ninguén cavila na tristura infinda
que te aferrolla.
A túa ialma esnaquizada zuga
o fel acedo do emigrante sino,
e a todas horas, soia en terra allea,
A túa ialma esnaquizada zuga
o fel acedo do emigrante sino,
e a todas horas, soia en terra allea,
soñas cos fillos.
Il non ten saúde; que a perdeu moi novo
tronzando toros, removendo pedras,
rozando toxos e cavando a bouza
Il non ten saúde; que a perdeu moi novo
tronzando toros, removendo pedras,
rozando toxos e cavando a bouza
na probe aldea.
Somentes quedan os teus brazos rexos
pra erguer a casa asulagada en tebras;
coitados nenos, de farrapos cheos...
Somentes quedan os teus brazos rexos
pra erguer a casa asulagada en tebras;
coitados nenos, de farrapos cheos...
como langrean!
II
Da noite roubas horas de descanso
e fas roupiña prós meniños teus;
comes codelos pra aforrar os cartos
do longo mes.
Non es ti soia! Se somentes ti
o fel beberas da inxusticia moura,
que abura un pobo, que atanaza a raza,
que nos esfola...
Donas e mozas a milleiros fuxen
a terra estraña, percurando o pan;
que as leis non valen pra sandar as chagas
II
Da noite roubas horas de descanso
e fas roupiña prós meniños teus;
comes codelos pra aforrar os cartos
do longo mes.
Non es ti soia! Se somentes ti
o fel beberas da inxusticia moura,
que abura un pobo, que atanaza a raza,
que nos esfola...
Donas e mozas a milleiros fuxen
a terra estraña, percurando o pan;
que as leis non valen pra sandar as chagas
do probe lar.
Fica ermo o pobo. Soio quedan vellos,
homes eivados, silvas, corgas, nenos...
Galicia é fonte que somentes deita
prantos tristeiros.
III
Non canto á dona que no pazo folga.
Non louvo, non, a enseñoreada lurpia
nen a burguesa que esqueceu a lingua
e a caste súa.
O meu poema, mesturado en sangue,
alauda a probe e a emigrante cansa
do vieiro longo, do camiño choído,
desfeita en bágoas.
Eu canto á dona que en lonxanos eidos
soña os seus nenos!
Eu canto á moza que en cidade allea
soña coa aldea!
Eu canto á avoa que acanea a filla
da súa filla!
Fica ermo o pobo. Soio quedan vellos,
homes eivados, silvas, corgas, nenos...
Galicia é fonte que somentes deita
prantos tristeiros.
III
Non canto á dona que no pazo folga.
Non louvo, non, a enseñoreada lurpia
nen a burguesa que esqueceu a lingua
e a caste súa.
O meu poema, mesturado en sangue,
alauda a probe e a emigrante cansa
do vieiro longo, do camiño choído,
desfeita en bágoas.
Eu canto á dona que en lonxanos eidos
soña os seus nenos!
Eu canto á moza que en cidade allea
soña coa aldea!
Eu canto á avoa que acanea a filla
da súa filla!
"Soldada Mínima", Manuel Rodríguez López
(Manuel Rodríguez López nasceu no dia 11 de Dezembro de 1934. Morreu em 1990.)
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Arquimedes da Silva Santos
O guardador de pombas
Livra-as pela tardinha
E voam e revoam
Círculos espirais
Ruflam céleres
E tornam e retornam
Graves ao pôr do sol
Retombam nos pombais
Por fios de assobios
Ó guardador de pombas
Livra-as pela tardinha
E voam e revoam
Círculos espirais
Ruflam céleres
E tornam e retornam
Graves ao pôr do sol
Retombam nos pombais
Por fios de assobios
Ó guardador de pombas
"Cantos Cativos", Arquimedes da
Silva Santos
(Arquimedes da
Silva Santos nasceu no dia 28 de Junho de 1921. Morreu no passado domingo.)
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