- Vem, vem! Vem todos os anos!
- Mas o Silva morreu em Março.
- E o que é que isso tem a ver?
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. A Faculdade de Medicina do Porto (chamando-se Régia Escola de Cirurgia) foi fundada no dia 29 de Janeiro de 1825.
- Faz favor de desculpar, o senhor é o tipo do mito urbano, não é?
- Mito quê?
- Mito urbano. Urbano. Citadino, civilizado, cortês, polido, gafonha,
urbanita, urbícola, correcto, afável, aprazível, fruitivo, lisonjeiro,
mavioso, amorável, charmoso, peralta, lhano, tirone, refinado,
esticadinho, delicioso, educado...
-
O que são as palavras, veja lá o senhor. Não, não sou o tipo do mito
urbano. Na verdade fiz-me homem em Valnogueiras, Vila Real de cima, sou
portanto e pelo contrário, se me está a acompanhar, o mito do tipo
rústico.
- Tipo quê?
- Tipo rústico. Rústico. Rusticano,
rural, aldeão, camponês, campino, campesino, campesinho, campestre, campónio, agrário,
casca-grossa, labrego, parolo, lavrador, grosseiro, bruto, boçal, besta, bronco, grunho, labrego, malcriado...
- Realmente o que são as palavras. Mas é tão parecido com ele...
- Porém, não sou ele. Por favor, não me comprometa. Se o senhor disser que eu sou ele, eu nego. Ene-é-gê-ó. Nego!
- Palavra de honra, aqui que ninguém nos ouve, o senhor nunca foi o tipo do mito urbano nem por um bocadinho? Ande lá...
- Nunca, meu caro senhor. Aliás, se me permite,
desafio qualquer um a recordar alguma intervenção ou escrito que eu
tenha tido nesse sentido e que, de uma ou outra forma, me possa conectar
a essa lamentável problemática. Desafio. Eu sou o mito, não sou o tipo,
e ponto final.
P.S. - Hoje, 13 de Setembro, é Dia Mundial do Agrónomo. Sobretudo no Brasil.
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
-
Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu
gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e
exemplar tomador de medicações.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. Hoje, 19 de Maio, é Dia Mundial do Médico de Família.
- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Oh! meu amor, arrebenta-me toda...
- Arrebentando, oh! minha querida, mas era preciso desconversar?...
P.S. - Publicado originalmente no dia 15 de Maio de 2015. Charles-Pierre Baudelaire, poeta boémio, simbolista, dandy, flâneur e teórico da arte francesa, nasceu no dia 9 de Abril de 1821.
- Botas tu ou boto eu?
- Bota tu, mas bota de alto.
- Boto em consciência.
- Então bonda, que já esborda.
- E agora?
- Agora dou-lhe um beijinho, mando-lhe uma pescoçada, e a seguir boto eu.
- Que grande tragédia, meu senhor: morreram todos e só fiquei eu para contar...
- E então como é que foi?
- Matei-os.
- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. Hoje, 26 de Setembro, é Dia Europeu das Línguas.
| Foto Tarrenego! |
- Num certo sentido, o caro amigo é um bocado parvo!
- Mas em que sentido, concretamente?
- No sentido Lisboa-Porto.
- Ao quilómetro 143?
- Nem mais.
- Também já andava desconfiado...