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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Não quer dizer nada

- Este ano o Silva não vem...
- Vem, vem! Vem todos os anos!
- Mas o Silva morreu em Março.
- E o que é que isso tem a ver?

P.S. - Pois é. Está na altura de almoçar ou jantar com os amigos de uma vez por ano.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Educado e exemplar tomador de medicações

- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas. 
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca. 
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. A Faculdade de Medicina do Porto (chamando-se Régia Escola de Cirurgia) foi fundada no dia 29 de Janeiro de 1825. 

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Jornalistas

Perguntaram-lhe:
- Profissão?
- Jornalista.
- Imprensa, televisão, rádio, agência noticiosa ou multimédia?
- Câmara municipal.  

P.S. - Hoje, 2 de Novembro, é Dia internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes Contra Jornalistas.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O tipo do mito urbano e o mito do tipo rústico

- Faz favor de desculpar, o senhor é o tipo do mito urbano, não é?
- Mito quê?
- Mito urbano. Urbano. Citadino, civilizado, cortês, polido, gafonha, urbanita, urbícola, correcto, afável, aprazível, fruitivo, lisonjeiro, mavioso, amorável, charmoso, peralta, lhano, tirone, refinado, esticadinho, delicioso, educado...
- O que são as palavras, veja lá o senhor. Não, não sou o tipo do mito urbano. Na verdade fiz-me homem em Valnogueiras, Vila Real de cima, sou portanto e pelo contrário, se me está a acompanhar, o mito do tipo rústico.
- Tipo quê?
- Tipo rústico. Rústico. Rusticano, rural, aldeão, camponês, campino, campesino, campesinho, campestre, campónio, agrário, casca-grossa, labrego, parolo, lavrador, grosseiro, bruto, boçal, besta, bronco, grunho, labrego, malcriado...
- Realmente o que são as palavras. Mas é tão parecido com ele...
- Porém, não sou ele. Por favor, não me comprometa. Se o senhor disser que eu sou ele, eu nego. Ene-é-gê-ó. Nego!
- Palavra de honra, aqui que ninguém nos ouve, o senhor nunca foi o tipo do mito urbano nem por um bocadinho? Ande lá...
- Nunca, meu caro senhor. Aliás, se me permite, desafio qualquer um a recordar alguma intervenção ou escrito que eu tenha tido nesse sentido e que, de uma ou outra forma, me possa conectar a essa lamentável problemática. Desafio. Eu sou o mito, não sou o tipo, e ponto final. 

P.S. - Hoje, 13 de Setembro, é Dia Mundial do Agrónomo. Sobretudo no Brasil.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

A língua portuguesa...

- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas. 
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca. 
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. Hoje, 19 de Maio, é Dia Mundial do Médico de Família.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Diz-me Baudelaire, meu amor!...

- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Oh! meu amor, arrebenta-me toda...
- Arrebentando, oh! minha querida, mas era preciso desconversar?...

P.S. - Publicado originalmente no dia 15 de Maio de 2015. Charles-Pierre Baudelaire, poeta boémio, simbolista, dandy, flâneur e teórico da arte francesa, nasceu no dia 9 de Abril de 1821.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Botar é a direito e um beber cívico

- Botas tu ou boto eu?
- Bota tu, mas bota de alto.
- Boto em consciência.
- Então bonda, que já esborda.
- E agora?
- Agora dou-lhe um beijinho, mando-lhe uma pescoçada, e a seguir boto eu.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A questão coimbrã

- A menina dança?
- Não, muito obrigado.
- Não tem nada que agradecer.
- Mas eu faço questão.
- Coimbrã?
- Oliveira do Hospital, mais concretamente. 

P.S. - A Questão Coimbrã teve o seu início no dia 2 de Novembro de 1865, com a publicação da violenta carta-opúsculo "Bom Senso e Bom Gosto" que Antero de Quental dirigiu a António Feliciano de Castilho.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

sábado, 26 de setembro de 2020

A língua portuguesa...

- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas. 
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca. 
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Dezembro de 2012. Hoje, 26 de Setembro, é Dia Europeu das Línguas.

Não me dê lume, por favor

Foto Tarrenego!

Os que deixaram de fumar 
Bonifácio Terrafunda era coveiro no cemitério da Junta de Freguesia de Sabugal do Meio há mais de quarenta anos. Funcionário exemplar, pai de duas famílias. Um dia, para o que lhe havia de dar, resolveu dividir o campo-santo em dois talhões devidamente assinalados, um para "Fumadores" e outro para "Não fumadores", como nos aviões antigamente. A coisa veio nos jornais, quer-se dizer, no Correio da Manhã. Anacleto Boavida, jovem presidente da autarquia, passou-se dos carretos, instaurou inquérito e competente processo disciplinar, meteu advogado e testemunhas, imagens do YouTube, e o velho coveiro foi inapelavelmente remetido para o olho da rua, por indecente e má figura, isto é, despedido com justa causa. "É que não se admite, com os mortos não se brinca - justificava o fulgurante autarca, alto e bom som, para quem o quisesse ouvir, que era a esposa. - Aquela gente, se lá está, é porque, por definição, deixou toda de fumar."
 
Algo de definitivo
Havia algo de definitivo no que ele dizia. Ele dizia: - Já não se fazem cigarros como antigamente...
 
Uma questão de respeito
- Nunca fumei à frente do meu pai.
- Porquê?
- Por uma questão de respeito.
- Mas o teu pai sabe que tu fumas?
- Sempre soube. Há que anos...
- E então?
- É uma questão de respeito.
- E o teu filho sabe que tu fumas?
- Claro que sabe.
- E tu fumas à frente do teu filho?
- Claro que fumo. Desde sempre...
- Porquê? 
 
Love is in the air
Parzinho de namorados. Romântico e fumador. O rapaz dá uma passa no respectivo cigarro e a seguir lança ao ar uma imensa nuvem de fumo. A rapariga dá uma passa no respectivo cigarro e a seguir o rapaz lança ao ar uma imensa nuvem de fumo. O que é extraordinário.
 
P.S. - Hoje, 26 de Setembro, é Dia Europeu do Ex-Fumador. Muitos parabéns!

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Num certo sentido

- Num certo sentido, o caro amigo é um bocado parvo!
- Mas em que sentido, concretamente?
- No sentido Lisboa-Porto.
- Ao quilómetro 143?
- Nem mais.
- Também já andava desconfiado...

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Diz-me Baudelaire, meu amor!...

- Oh! meu amor...
- Oh! minha querida...
- Diz-me Baudelaire, meu amor...
- Baudelaire, meu amor, minha querida....
- Oscula-me, meu amor...
- Osculando, minha querida...
- Amplexa-me, meu amor...
- Amplexando, minha querida...
- Afaga-me, meu amor...
- Afagando, minha querida...
- E agora coita-me, meu amor...
- Coitando, minha querida...
- Oh! meu amor, arrebenta-me toda...
- Arrebentando, oh! minha querida, mas era preciso desconversar?...

P.S. - Publicado originalmente no dia 15 de Maio de 2015. Charles-Pierre Baudelaire, poeta boémio, dandy, flâneur e teórico da arte francesa, morreu no dia 31 de Agosto de 1867.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Se soubesse o que sei hoje

- Tem razão, senhor doutor juiz: se eu soubesse o que sei hoje...
- E então o que é que sabe?...
- Eu, senhor doutor juiz? Eu? Eu não sei nada...

domingo, 12 de julho de 2020

As duas senhoras

- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques, estas ladainhas altifalantadas, estes tambores, este sol, este povo...
- O nosso povo, não é?
- No dia do anho parece que sim, de resto nunca sei dele...
- Mas a senhora está muito bem.
- E a senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas, vá indo que eu vou do meu vagar...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.

P.S. - Publicado originalmente no dia 8 de Julho de 2018. Hoje, segundo domingo de Julho de 2020, é dia da Senhora de Antime. Mas, por causa do coronavírus, não há arraial nem romaria. Nem sequer procissão - uma decisão triste mas imperiosamente sensata. Portanto também não há o encontro das duas senhoras. A procissão da Senhora de Antime, digo-o aqui para quem não sabe, é provavelmente a melhor procissão do mundo. É o povo que desce inteiro com as senhoras, primeiro à vila, agora à cidade. É uma procissão tremenda e comovente, multitudinária e única, uma procissão a sério - A Procissão -, como costumo explicar aqui aos meus vizinhos que ficam banzados com a meia dúzia de almas penadas e a dúzia e meia de cabeçudos da Câmara que todos os anos acompanham a imagem do Senhor de Matosinhos pelas ruas da cidade, num deserto que só visto. Pode ser que para o ano...