| Foto Hernâni Von Doellinger |
sexta-feira, 26 de junho de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
A tuba no meio da turba
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Rhapsody in Blue
terça-feira, 28 de abril de 2026
domingo, 26 de abril de 2026
O tempo da fressura e dos verdinhos
Um povo que só dá despesa
São cada vez mais os portugueses que procuram a sobrevivência no fundo de um contentor do lixo. As pessoas precisam de ajuda, pedem. Para a escola, para a farmácia, para o emprego, para a casa, para a boca. Os políticos têm razão: somos um povo que só dá despesa.
As pessoas compram fressura como se fosse para dar de comer aos cães. Mas é para a mesa das pessoas. Pessoas de pele e osso. São os novos velhos tempos. As pessoas andam com fome e, no anonimato das grandes superfícies, pedem a fressura. E na peixaria compram verdinhos, "para os gatos", mas é para a mesa das pessoas, não há dinheiro para marmotas. Nas lojas de congelados, as cabeças de pescada foram cortadas ao meio e as caras de bacalhau saem como pãezinhos quentes. As pessoas, que andam com fome e nunca na vida cozinharam (e não sabem cozinhar), agora olham para umas postas esquisitas, de peixes nunca vistos, perguntam "que peixe é este?, é bom para quê?", os funcionários dos frigoríficos fazem o papel que lhes compete, para isso é que são pagos se também querem comer, inventam no momento um nome qualquer para o peixe em apreço e dizem que "é bom para o forno, para fritar, para a brasa, para estufar, para caldeirada, é bom, muito bom", e o peixe é realmente uma merda mas as pessoas querem acreditar que é bom, muito bom, porque é multifunções e muito mais barato do que peixe a sério e estão com fome. E levam. E são levadas. E está bem: o polvo e as lulas agora são potas. Filhos da puta que nos puseram assim. Nos talhos, o fígado para iscas e os ossos da suã são hits nacionais. Os pescoços de frango também e as patas e as asas é um ar que se lhes dá. As pessoas estão sem dinheiro e têm fome. As pessoas não têm emprego e, as que têm, trabalham para pagar impostos e remédios e jogar na raspadinha.
E em miúdo até era eu quem ia ao talho, bem ensaiado pela minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Sabeis: fressura são as vísceras comestíveis de um animal. Éramos pobres, já vos disse. Tão pobres, que a nossa fressura só tinha um esse, não havia dinheiro para mais. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. E casava muito bem com massa, que era também alimento de quem apenas sobrevivia. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, microbife, é preciso que se note, ainda assim bife, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de multiplicação, operava milagres domésticos. A minha mãe, do nada, fazia comida muito boa e, não vamos mais longe, devia ter sido aproveitada para ministra das Finanças e da Economia, talvez governadora do Banco de Portugal.
A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que nos aconteceu a todos. Isso e os títulos do FC Porto, que antes eram, a bem dizer, proibidos. A minha mãe não admite marcha-atrás no regime, apesar de todas as dificuldades. "O povo é tolo! Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. A minha mãe defende a democracia com unhas e dentes. Estamos de volta à fressura e aos verdinhos, é verdade, mas a minha mãe garante que a democracia não tem culpa. Diz que é preciso ser muito burro e ter muita lata para atirar pedras à democracia e ao 25 de Abril, com o povo que somos e os políticos que temos e escolhemos. E se a minha mãe o diz...
sábado, 25 de abril de 2026
O bom do 25 de Abril
Isto está perigoso
terça-feira, 21 de abril de 2026
A Arte de Roubar Fruta, de Francisco Duarte Mangas
"A Arte de Roubar Fruta", mais recente livro de Francisco Duarte Mangas, é apresentado na próxima sexta-feira, dia 24 de Abril, a partir das 21 horas, no Auditório Germano Silva da Biblioteca Municipal de Penafiel. O evento celebra simultaneamente o Dia Mundial do Livro e as comemorações do 25 de Abril. Apresentação a cargo do jornalista Valdemar Cruz.
Um romance violento cheio de ternura. "Em Vilar de Piscos, um lavrador abastado é abatido em casa por elementos das guerrilhas antifranquistas. O atentado dos guerrilheiros em território português provoca uma ação conjunta das polícias políticas de Salazar e Franco: culmina, dois dias antes do Natal de 1946, no cerco e bombardeamento de Cambedo, povoação da raia, onde se refugiam os comandantes das guerrilhas. Em paralelo a esta narrativa, uma outra se desenrola, em S. Bento das Gavieiras, no período do «Verão Quente». Como é vivida a Revolução numa aldeia do Minho? Como se movimenta a Rede Bombista de extrema-direita nas geografias do fim do mundo? As narrativas cruzam-se, algumas personagens atravessam os dois tempos históricos. Porque a maldade é intemporal, diz Armindo Pega, o homem das palavras estranhas, amigo de Justiniano, criado de servir, aterrorizado com os comunistas que lhe querem comer a orelha esquerda. A Arte de Roubar Fruta, onde a paixão das palavras está sempre presente, é um romance sobre a coragem - de homens e mulheres que resistiram à violência fascista, em Portugal e no país vizinho."
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Canção do Salgueiro (Maia)
Esta recebi-a do Jaime Froufe Andrade. Foi num Abril, no tempo dela, e vale a pena lembrá-la hoje. E amanhã. E sempre! No blogue Campainha Eléctrica, li que "o tema "Canção do Salgueiro" tem música e letra de Carlos Tê, que também assegura a produção ao lado de Mário Barreiros e Pedro Vidal. Barreiros é responsável pela mistura e masterização, pela bateria, guitarra eléctrica e teclados, cabendo a Pedro Vidal, director musical de Jorge Palma e parceiro dos Blind Zero e Wraygunn, outra guitarra acústica e eléctrica e também o banjo. Na canção participam ainda Rui David na voz, Patrícia Lestre na voz e violino, Paulo Gravato, saxofonista de Pedro Abrunhosa ou dos Azeitonas, e Rui Pedro Silva no trompete. A voz principal é de Carlos Monteiro." A canção pode ser ouvida aqui. E a letra do Tê diz assim:
Canto agora ao salgueiro
Que um dia abriu os olhos
E viu reinar o vampiro
Sobre a lezíria cansada
De tanto choro e suspiro
E gente tão aviltada
Saiu em fúria da margem
E foi bradar ao terreiro
No seu cavalo de ferro
Pediu contas ao vampiro
E ali lhe fez o enterro
Sem disparar um só tiro
Ai ó meu velho salgueiro
Dá-me a tua sombra amiga
Se há bom tronco lusitano
És da cepa mais antiga
Ai ó meu velho salgueiro
Estás aí tão mudo e quedo
És filho dum ferroviário
Que fez um manguito ao medo
E depois voltou à margem
E ficou a salgueirar
Junto ao Tejo em Santarém
Onde as Tágides vão dançar
Quando a lua harpeja as águas
Certas noites de luar
No poleiro da capital
Cantiga logo esquecida
Mas tu estás de pedra e cal
Mesmo em terra batida
Alto é teu pedestal
Ai ó meu velho salgueiro
Dá-me a tua sombra amiga
Se há bom tronco lusitano
És da cepa mais antiga
Ai ó meu velho salgueiro
Estás aí tão mudo e quedo
És filho dum ferroviário
Que fez um manguito ao medo
Poema a Salgueiro Maia, de Manuel Alegre
E dentro dele uma voz
Ele ia de Santarém
Ele ia de Santarém
Era um cavaleiro andante
Manuel Alegre
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Lágrimas por Marcelo
A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...
No regresso a Lisboa, Marcelo foi, graças a Deus, surpreendido por uma manifestação espontânea muito bem organizada, uma manifestação a bem da Nação, de desagravo pessoal e de apoio às políticas africanas do Governo, uma manifestação contra as manifestações de Londres, mas com muito mais povo, muitas mais camionetas, muitos mais letreiros, muitos mais garrafões de vinho e salpicões e muitos mais Vivas!, toma lá ò camone a ver se gostas.
De certeza que foi gente de Queimadela. Queimadela estava sempre presente! "Não esperava esta manifestação, mas compreendo-a", dizia Marcelo, modestíssimo, do alto da varanda do Palácio de São Bento, rodeado pelos pândegos mandadores de Vivas!, assim à moda do nosso Velhinho, o Castro Mendes de Travassós, o trabalhista fafense, "ide por esses tascos abaixo, comei, bebei e pagai". E depois Marcelo falou de política, mas isso já não me interessava. Eu estava outra vez comovido, ranhoso, mas agora de auto-satisfação nacionalista, de respeitoso respeito a Sua Excelência. Quem me dera estar lá também com o garrafão. Ainda por cima eu nunca tinha ido a Lisboa e o vinho, certamente como a viagem, devia ser também de graça. Chorei, pois claro que chorei, e as lágrimas já me toldavam o preto-e-branco do aparelho, mas saí dali de alma lavada e, se quereis que vos diga (e ainda que não queirais), também eu algo desagravado. E então ri-me. Junho de 1973. O Marcelo era Caetano e eu, miúdo, ignorante, burro como uma porta, pensando que sabia tudo, ainda não sabia nada.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
As paredes tinham ouvidos
Isto sou eu a falar
"Mas isto sou eu a falar", disse inesperadamente. E era. Realmente era ele a falar, sem qualquer sombra de dúvida. Mas que revelação extraordinária!
No tempo em que as pessoas falavam, as paredes tinham ouvidos. E os soalhos também. E os tectos. Mas as pessoas falavam, mulheres e homens, porque era preciso, falar era respirar, era prova de vida, e não vai assim há tanto tempo. Os cafés, as mesas de restaurante costumavam ser sítios de conversa, de tertúlia, de crítica, de protesto, de esgrima de argumentos. De vida. Ainda os nunos rogeiros e os marcelos rebelos de sousas não tinham sido inventados pela televisão e já nós sabíamos tudo de tudo, primeiro no Peludo e depois no Peixoto, cafés evidentemente em Fafe, que era o centro do mundo. Guerra, França, futebol, política, Mário Soares e Álvaro Cunhal, pesca e caça, religião, padres fodilhões, música, alterações climáticas, vinho, teoria da relatividade, teorias da conspiração, medicamentos, bolo com sardinhas, gajas e automóveis, festival da canção, rácios bolsistas e sobretudo motorizadas, Zundapp vs. Sachs, sabíamos na ponta da língua e cada qual dava a opinião que se impunha, a opinião definitiva. Fumava-se provisórios.
O 25 de Abril de 1974 veio realmente liberalizar o paleio à roda do cimbalino, mas nós nem precisávamos. Já há muito que falávamos pelos cotovelos e comíamos tremoços. Ou cascas, cascas de tremoços, à falta de conteúdo e de dinheiro no bolso. Mas não interessava - a conversa, para nós, era tudo.
Portanto, agora dá-me pena: de conversa, que é livre e de graça, estamos conversados - acabou-se, até no café, parece-me impossível. Eu, que actualmente não frequento, passo pelas montras e vejo: uma pessoa em cada mesa, cabeça enfiada no computador portátil, telemóvel colado ao ouvido ou à frente dos queixos, como se fosse um microfone, dedo saltitante a gatafunhar mensagens analfabetas e com carinhas redondas e amarelas e corações e dedos assim ou assado, ninguém conhece ninguém, ninguém fala com ninguém, parece que estão todos proibidos uns dos outros. Que desperdício de liberdade!
Nos restaurantes, o mesmo desconsolo. A família senta-se à mesa e ninguém pia. Vai-se ao bolso, rapa-se do telemóvel (permiti-me que continue com a generalização, para mim aqueles aparelhos que não distingo são todos telemóveis) e ignora-se com assinalável obstinação o irmão do lado direito, o padrinho do lado esquerdo, o pai e a mãe em frente, a avó na cabeceira para pagar a conta, ainda por cima. E não são só os miúdos. Também os graúdos, nomeadamente graúdas, cinquentonas, casadas assim assim ou tias praticamente por estrear, esfregando, esfregando o ecrã da lamparina mágica à procura de namoro e talvez sexo, vai ser desta que vão ser felizes.
Mas tornando à mesa do café. As cascas de tremoços eram roubadas da mesa do lado e são, é preciso que se note, o melhor que há logo a seguir aos tremoços propriamente ditos, sobretudo em caso (e era o caso) de cotão nos bolsos. Melhor, só mesmo lamber e raspar com os dentes o papel do pão-de-ló, que era a segunda coisa melhor logo a seguir ao pão-de-ló propriamente dito, que eu via ao longe uma ou duas vezes ao ano.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
A (verdadeira) guerra das rosas
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Os do 28 de Maio
quinta-feira, 24 de abril de 2025
O Governo e o 25 de Abril
Por falar em hipocrisia. O Governo estava mortinho por não celebrar o 25 de Abril. E a morte do Papa veio-lhe mesmo a calhar. Embora eu não perceba o que é que o cu tem a ver com as calças.

