terça-feira, 18 de agosto de 2026

E tudo começou no Campo da Granja

Tempo e resultado
Na sacramental ronda pelos vários campos, o pivô da emissão radiofónica pergunta ao repórter de serviço: - Tempo e resultado? O repórter de serviço informa, conciso e preciso: - O tempo está bom e o resultado mantém-se.

Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. A AD Fafe teria então cinco ou seis anos de vida, tantos como eu, calhava bem. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena para ricos apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas, o povo. Os balneários, coisa rudimentar de que nem fazeis ideia, estavam no outro topo do campo, ao lado da entrada principal e do caminho de terra com portão desengonçado que ligava à subida da Avenida da Granja. A subida da Avenida da Granja, no fim do prélio, era descida, e ainda bem, porque os jogos eram à tarde e o campo tinha um canto chamado "bar", à beira do mijadoiro. Esta parte, que fique registado, não nos dizia respeito. Eu e o meu pai cortávamos caminho, atravessávamos os milheirais do Santo, entre poças e urtigas, e quem quisesse saber de nós até ao escurecer, era ali: víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava sobremaneira a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time, que era assim que se dizia. Também havia quipers, beques, corners, lainers e ofessaides. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias de todos os tempos. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa, e é preciso que se note que os altifalantes são um acontecimento muito importante na minha vida. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, isto é, morreu sem mais nem menos, "na flor da idade", como disse num pranto o meu avô da Bomba, quando recebemos a notícia, e eu continuei.
O Campo da Granja, porém, desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados que eu vi instalar. E foi bom para todos em Fafe. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros, nem de propósito para mim. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Com o Pimenta, o Sérgio Lopes, o Valdemar Galego e outros que tais, isso lhes devo, frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram. A Associação era o Fafe, o Fafe era a Associação, não havia nada que confundir.
Quando mudei a minha vida para o Porto, ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a Mi ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, era parte do nosso amor, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro, à moda de Fafe: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, mandadas vir evidentemente do Peixoto, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia aqui ao Estádio Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados acamaradava com o Lopes e puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no claustrofóbico campo do Infesta, que me dava falta de ar. Sempre que podia, levava comigo o Kiko, meu filho, que tinha a quem sair e gostava muito de ir lanchar aos campos de futebol. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Dei a volta a Portugal, fui espreitar ao estrangeiro, e tudo começou no Campo da Granja. Mas depois chegaram as sades e as claques organizadas, e eu vim-me embora. Bandidos, polícia de choque, petardos, emboscadas, navalhadas, carneiradas, jaulas "de segurança", mortes, sei que não incomodam a maioria, mas são merdas que me chateiam. Nos últimos anos, voltei aos estádios apenas por obrigação profissional, em serviço, mas até isso felizmente terminou. Recuso-me a ir ao futebol como quem vai para a guerra.

Às vezes tenho saudades. Tenho saudades do tempo do futebol ingénuo, em estado quase puro, futebol asseado, sem sades, sem ceos e sem administradores e consultores e assessores pornograficamente remunerados e premiados no final do ano ainda que não ganhem nada em campo, ainda que destruam a equipa de futebol e ainda que levem o clube à falência. Do tempo em que os clubes de futebol eram clubes de futebol, associações, colectividades, agremiações, e eram dos sócios, e os sócios eram os sócios. Do tempo em que os presidentes e os directores dos clubes de futebol punham dinheiro do próprio bolso e ainda biscatavam graciosamente arranjos e obras ou, como o Fernando da Sede ou o Chester, carregavam botijas de gás às costas até aos balneários para que nada faltasse aos seus "meninos". Do tempo em que dirigentes pagavam bifes a jogadores à rasca da vida. Do tempo dos espectadores, da massa associativa, dos adeptos, dos apaniguados, dos grupos excursionistas, das comissões de auxílio, das rusgas espontâneas de apoio, com bombos e até gigantones e cabeçudos, que não eram poucos. Era o futebol, e o futebol era uma festa! Confesso: às vezes tenho saudades - mas não torno!
O meu pai compreenderá.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

A Associação, a Desportiva e o Fafe


Quando o Sporting deu 7-1 ao Benfica
Catorze de Dezembro de 1986. Em Alvalade o velho, num épico jogo de futebol: Sporting 7 - Benfica 1. Ainda hoje há quem diga que, a haver um vencedor, tinha de ser o Benfica.

Suspeito que seja caso único, talvez a nível mundial. Um importante clube de futebol que pode ter, e tem, quatro nomes autónomos e cada um deles suficiente e correcto, utilizando apenas as três palavras que lhe servem de identificação registada, portanto sem precisar de recorrer a alcunhas postiças, tipo águias, leões ou dragões, encarnados, verdes-e-brancos ou azuis-e-brancos, lampiões, lagartos ou andrades. E esse clube, tomai bem nota, é exactamente o nosso: a Associação Desportiva de Fafe, isto é, a Associação, aliás, a Desportiva, quer-se dizer, o Fafe. Um, dois, três, quatro.
Eu sou do tempo da Associação, era assim que dizíamos na minha geração - sou pela Associação, fui ver a Associação, golo da Associação! -, mas os mais velhos do que eu chamavam-lhe Desportiva - sou pela Desportiva, fui ver a Desportiva, golo da Desportiva! E, no entanto, ia tudo dar ao mesmo. Com a famosa "fusão" ainda fresca, creio que, em Fafe, havia um certo pudor em chamar Fafe ao Fafe, que era palavra comum aos dois históricos emblemas que se apagaram, o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe, para darem à luz a Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Naqueles primórdios, terá sido certamente boa ideia não incendiar rivalidades antigas e violentas com o nome "Fafe" atirado logo à cabeça, para que ninguém pensasse que os adeptos e ex-jogadores de um eram mais Fafe do que os adeptos e ex-jogadores do outro, isto é, que a nova colectividade pertencia mais a uns do que aos outros ou que se estaria a prolongar a vida de uma das partes à custa da extinção da outra, o que então seria o fim do mundo. Chamando-lhe "Associação" ou "Desportiva", e o povo assim fez, fino como um alho, o novo clube era mesmo a estrear, de todos por igual, estava tacitamente aceite, universalmente subentendido, evitava-se ferir susceptibilidades, abanar o vespeiro. Lembro-me muito bem desse ambiente ainda extremado, escorregadio e frágil como camada de gelo, e que amiúde explodia em discussões infindáveis e perigosas nos nossos tascos e cafés.
Fafe foi entrando aos poucos, prudentemente, já na minha juventude, e aí está. Um clube masculino e feminino, com quatro nomes e um só amor. O Fafe, a Desportiva, a Associação, a Associação Desportiva de Fafe, consoante a idade, a memória e o comprimento da língua de quem o diz. Já quanto aos "justiceiros", essa novidade de carregar pela boca, vou ali e venho já...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Época de incêndios, como manda a lei

No sítio errado à hora errada
Chegam os incêndios, e os bombeiros vão logo para as televisões, comentar.

De que se queixa este povo? Estamos em plena "Época de incêndios", e atenção que não fui eu quem lhe pôs o nome e a agendou para esta altura do ano - foi o Governo, foi Portugal! Portanto, estamos na "Época de incêndios", legítima, de papel passado, dentro do prazo, no tempo certo, como se fosse obrigatória, ai dela se não viesse depois do dinheiro que foi gasto, e queriam o quê? Inundações?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial de Prevenção de Incêndios Florestais.)

A humana graça natural

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 16 de agosto de 2026

A hora de Serafim d'Eiteiro

O despertar do filósofo
- A vida é uma imensa linha recta cheia de curvas, e cada subida concomita-se numa irrefutável descida, vice-versando - disse o filósofo, ao pequeno-almoço.
- Chega-me o açúcar - disse a mulher do filósofo.

Serafim d'Eiteiro tinha uma sombria loja de fazendas em Cima da Arcada, por baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina, um figurão com o seu quê de filósofo. O apelido "d'Eiteiro" suponho que fosse natural corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense, ou seriam pelo menos os seus ancestrais. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua provecta e indesmentível sabedoria - mas estou apenas a deitar-me a adivinhar.
Alto, magricela, de fato todos os dias, Serafim d'Eiteiro frequentava a sala das traseiras do Peludo, onde, naquela horinha após almoço, se jogavam umas bilharadas iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e (aqui que ninguém nos ouve) até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Era ali o fim do mundo, havíeis de ver! Em Fafe, naquele tempo, era tudo de arrebenta.
E uma vez foi demais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: - Ide todos para o caralho! Todos!
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, teve um rebate de consciência e resolveu abrir uma honrosa excepção: - Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si -, corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, lado esquerdo, no canto por baixo do velho rádio Philips dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do ininterrupto cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria: - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que eu não fico. Se é para ir, eu também vou...
E era assim a vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filósofo. No Brasil. Em Portugal não há. E também é Dia de Contar Uma Piada.)

Et al.

Foto Hernâni Von Doellinger

Não me descartes, não me aristóteles, não me sócrates, não me parménides, não me pitágoras, não me diógenes, não me tales de mileto e assim sucessivamente...

P.S. - Hoje é Dia do Filósofo. No Brasil. Em Portugal não há. E também é Dia de Contar Uma Piada.

Filósofos à moda de Fafe

"Souvenir"
Ainda hoje guardo religiosamente a mão com que uma vez, há mais de trinta anos, cumprimentei mestre Agostinho da Silva.

Eu ouvia-os. Ouvia-os atentamente. E aprendia. O Sr. Ferreira do Hospital, o Sr. José do Santo, o Lininho Leite, o David Alves, o Zé Manel Carriço, o Mola, o Sr. Lem, o Landinho Bacalhau, o Sr. Aristeu da Loja Nova, o Aristides Carteiro, o Tónio da Legião, o Sr. Saldanha, o Cunha da Fazenda, o Zé de Castro, o Manel da Pinta, Nélson Fafe, o Guia, o Júlio Barbeiro, o Zé do Registo, o Quinzinho da Farmácia, Nelinho Barros, o professor Alberto Alves, o Carlos Alberto, o Pimenta, o Toninho da Luísa, o Varinho Dantas, Serafim d'Eiteiro. Era. Eu ouvia-os. Atenta e reverentemente. E aprendia vida. Mas ainda não sabia que eles eram filósofos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filósofo. No Brasil. Em Portugal não há. E também é Dia de Contar Uma Piada.)

Sócrates até começou bem

Sócrates começou como filósofo em Atenas e jogou na selecção brasileira de futebol. Anos mais tarde foi primeiro-ministro de Portugal. Estragou tudo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filósofo. No Brasil. Em Portugal não há. E também é Dia de Contar Uma Piada.)

O meu jugo é suave e o meu fardo é leve

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 15 de agosto de 2026

Caracol

Ca... ra... col... ... ... ...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Animal Abandonado.)

Riminha

O caracol
leva a casa
a tiracol.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Animal Abandonado.)

Animais de tiro... e queda

O peito às balas
Um dia ele resolveu dar o peito às balas. Que descanse em paz.

Animal ou besta de tiro: animal que puxa um carro, na definição simplificadora do dicionário. Ou, desenvolvendo um bocadinho, animal utilizado como tracção para o transporte de pessoas e mercadorias, aparelhos agrícolas como, por exemplo, o arado, ou como motor de noras e moinhos. Chamam-se em Espanha moinhos de sangue.
Os principais animais de tiro são os cavalos, as mulas e os burros, os bois e as vacas, os ónagros, os camelos e dromedários, os iaques, os búfalos de água, os lamas, os alces e as renas do Pai Natal, os elefantes, as avestruzes e... os cães. Os cães: que antigamente tiravam só praticamente no Alasca e para o cinema, e agora, no Parque da Cidade, também puxam por jovens ciclistas e skaters radicais e manifestamente preguiçosos.

Outros animais de tiro, mas por diversa razão, são, aqui que ninguém nos ouve: o coelho-bravo, a lebre, a raposa e o saca-rabos; a perdiz-vermelha, o faisão, o pombo-da-rocha, o gaio, a pega-rabuda e a gralha-preta; o pato-real, a frisada, a marrequinha, o pato-trombeteiro, o marreco, o arrabio, a piadeira, o zarro-comum, a negrinha, a galinha-d'água, o galeirão, a tarambola-dourada, a galinhola, a rola-comum, a rola-turca, a codorniz, o pombo-bravo, o pombo torcaz, o tordo-zornal, o tordo-comum, o tordo-ruivo, a tordeia, o estorninho-malhado, a narceja-comum e a narceja-galega; o javali, o gamo, o veado, o corço e o muflão. Em Fafe, também, por princípio ou mera distracção, sinais de trânsito e placas indicativas de localidades.
Para não saberem que vão morrer, a estes animais de tiro chamam-lhes espécies cinegéticas. É preciso que se note que o melro saiu da lista dos abatíveis em 2011, por ordem de Daniel Campelo, o do queijo, então secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural. Uma medida que seguramente marcou um extraordinário mandato, posto que breve.

Já os caracóis são obviamente animais de tiro porque puxam pela própria casa, andam com a rulote às costas (o que não acontece com as primas lesmas, essas viscosas sem-abrigo e nudistas descaradas), mas, pelos vistos, gostavam de ser ainda mais. Em 2015, uma campanha em nome destes simpáticos moluscos gastrópodes terrestres foi lançada pelos seus representantes legais, uma rapaziada bem disposta que sobretudo não quer que eles, os caracóis, sejam cozidos vivos. Seria, portanto, de lhes enfiar um balázio na cabeça, aos caracóis como aos garranos que invadem estradas, e, então sim, metê-los na panela. Aos caracóis.
Com a coitada da lagosta é que ninguém se importa. Se calhar por ela ser podre de rica e pelar-se por uma sauna bem suada. Invejosos de merda...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Animal Abandonado.)

Vestida toda de branco

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Tramado pelos socos

Dores artroses
Ele padecia de "dores artroses". E também de evidente analfabetismo.

Fafe tinha tudo. Fafe até teve um anão que esteve quase a ir para Lisboa e ser famoso. Não foi por pouco, lá nos meados do século passado, mas só em 2011 é que eu soube da história, em boa hora recuperada pelo blogue Falaf - Revista Cultural de Fafe, creio que de Jesus Martinho e que entretanto encerrou actividade ou mudou de instalações. O homem em foco, o nosso pequeno grande herói, como se diz agora, chamava-se José Nogueira, era natural da freguesia de Golães e teve direito a prosa e retrato na edição de 1947 do Almanaque Ilustrado de Fafe.
Num artigo muito à época, com o desajeitado título de "Um exemplar raro", o Almanaque falava do "petiz de 59 anos" que passou ao lado de uma grande carreira derivado a dois pormenores que hoje não teriam importância nenhuma: a ignorância e o calçado. O anão de Fafe, que "nos seus tempos fazia serenatas, mas não casou", nasceu lamentavelmente com pelo menos 80 anos de avanço. Fosse ele do nosso tempo e ninguém sabe se não estaria, por exemplo, à frente de um partido e a dar todos os dias nas televisões.
Porque faltou muito pouco para que o nosso José Nogueira se tivesse transformado numa espécie de atracção de feira a nível nacional, numa celebridade, e é preciso que se note que na altura não havia reality shows nem CMTV, nem TVI, nem Now, nem CNN Portugal, nem comentadores, nem paineleiros, nem YouTube, nem influencers. O "petiz" era mesmo o máximo por si próprio, era sucesso garantido. E Paulo Portas, não vamos mais longe, também foi pelas feiras que começou.
Segundo rezava o Almanaque, o ilustre fafense José Pinto Bastos "andou para levar" o nosso anão "ao grande Coliseu dos Recreios de Lisboa, pelo que teve entendimentos com o benemérito Empresário Ricardo Covões". A coisa, tomai nota, só não foi avante por causa de José Nogueira, tornando ao Almanaque, "ser analfabeto e estar afeito a usar socos e, lá, precisar de usar calçado de polimento, fraque e luvas."
Os socos... Os socos é que o lixaram. O analfabetismo foi desculpa, pelo menos é o que eu acho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O Coliseu dos Recreios de Lisboa foi inaugurado no dia 14 de Agosto de 1890.)

Tinhas vento em teus cabelos

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Cruzes, canhoto!

Sismando
Ao contrário do que o próprio nome indica, o Happy Centro é um sítio deveras perigoso.

O canhoto é o diabo. O demónio. Satanás. O que escreve com a mão esquerda. O que chuta com o pé esquerdo. O canhestro. Ou o desajeitado. Ou o talão que não se destaca no livro de recibos, guias ou cheques. Ou o pedaço de lenha para a fogueira, o pau torto, grosso ou nodoso. Em Fafe, é também o arrocho, o toro, o tronco, o toco, a pernada decepada, o cepo. E a mulher do canhoto é a canhota. Que é uma variedade de amêndoa algarvia, de fruto arredondado, com casca dura e miolo elíptico alargado de tonalidade clara. Ou um moinho de água, uma azenha. Ou a espingarda, na tropa. É. A língua portuguesa pela-se por uma boa brincadeira.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Canhoto.)

Malagueña salerosa

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Se um elefante

Celebra-se hoje o Dia Mundial do Elefante. Pegue no seu, tire-o da sala, faça-o sair de casa, leve-o a apanhar ar, a dar um passeio, a ver as montras. O dia é dele, caramba! Deixe-o entrar numa loja de porcelanas. Os elefantes adoram.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Hoje é Dia Mundial do Elefante.)

Adopte um e leve dois

Ouça lá! Porque é que não adopta um elefante? Eles andam aí pelos cantos, coitadinhos, depois de terem sido despedidos do circo derivado ao politicamente correcto, modernidades. São desempregados, pobres, abandonados, sujos, aleijados, excluídos, maltratados, elefantes. E agora ninguém lhes pega, por causa da má publicidade: diz que incomodam muita gente. Homessa, Cavaco Silva também, e, mais, não falta quem ande com ele ao colo! Vá lá, hoje é o dia certo, adopte um elefante, ou, olhe, melhor ainda, adopte um casal de elefantes e sinta-se bem a respeito da sua excelente pessoa, é só uma questão de organizar o espaço em casa. E os elefantes ainda hão-se ser moda...

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Elefante.

O filho do meio

Hoje é Dia do Filho do Meio. E está bem. É um Dia De tão aceitável e tão palerma como a maioria do Dias De. Parece-me, em todo o caso, um Dia De algo injusto e até um desperdício para as famílias com número par de filhos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filho do Meio.)

O mar enrola na areia

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eu não quero ver o eclipse, posso?

Vem aí o eclipse. O eclipse solar total. Dizem que é de hoje a oito dias, ao fim da tarde. Jornais tidos geralmente como sérios e institutos científicos de elite, governamentais, martelam-nos de hora a hora, há quase um mês, acerca de como devemos observar o fenómeno, sobre a sua extravagância e significado, aliás significados, os cuidados a ter, onde ir, o que comer ao jantar, os óculos a usar, certificados, próprios para o efeito - óculos de eclipse.
Está certo. Mas a minha questão é outra: eu não quero ver o eclipse, o eclipse não me interessa para nada, não é que tenha mais que fazer, que não tenho, mas, a verdade é só uma, nunca fui muito de eclipses. Portanto, o que eu precisava de saber era: é mesmo obrigatório ver o eclipse? Ou por outra: posso não ver o eclipse, sem temer castigo ou represálias, oficiais ou espontâneas? Convirá, pelo sim e pelo não, meter baixa ou requerer objecção de consciência para não ver o eclipse. Finalmente: com que óculos devo não ver o eclipse?

P.S. - Publicado originalmente na passada quarta-feira.

O homem e o cão (e vice-versa)

O melhor amigo do cão
Havia um cão que tinha um dono muito bem mandado. Um dono obediente, brincalhão, carinhoso, esperto - só lhe faltava ladrar.

Todas as manhãs o homem e o cão passeiam pela praia, naquela incerta linha de sobe e desce onde o mar enrola na areia e acaba Portugal. Par pândego, havíeis de ver. O homem atira a velha bola de ténis e o cão, dez-réis de cão, rasteirinho e de raça incerta, corre e salta, como uma bala, como uma mola, abocanhando-a, à bola gasta e sebenta, ainda no ar. Cão danado para a brincadeira. E habilidoso. "Bem, muito bem, espectáculo!", diz o homem. E o cão regressa e larga a bola, e corre e salta à volta do homem, e ladra no verdadeiro ladrar que não morde, e abana o rabo, abana, que quer dizer "Obrigado, estou muito contente, mais, quero mais!...", e põe a língua de fora, que quer dizer "Ainda havemos de fazer isto mas ao contrário".
Um quadro enternecedor. Homem e cão, numa simbiose perfeita. O amigo dos animais e o melhor amigo do homem. Fossem eles polícias, o homem e o cão da bola de ténis, matinais frequentadores de oceanos, e estaríamos na presença de um binómio exemplar e definitivo. Decerto já vistes nas notícias: binómio é um polícia e um cão que são colegas de trabalho. Já um carteiro e um cão, se coincidirem, são um perónio. Um perónio partido e o fundilho das calças esgaçado.

(Lembro-me agora. Aquilo de passear o canídeo à beira-mar, eu bem o tentara em Fafe, nos meus vinte anos, com o Buck, o nosso cão na Rua do Assento. A beira-mar que tínhamos mesmo à mão, e por acaso bem jeitosa, se não fossem as silvas e outro restolho jurássico, eram as bordas do rio de Pardelhas, quando levava água, mas o Buck nunca me deu hipótese. O cão era quase do meu tamanho, muito mais forte do que eu e completamente dono do seu nariz. Saímos apenas uma vez. No seu habitat natural, o Buck, um enorme pastor alemão abastardado, era manso para as pessoas de dentro e particularmente amável com as crianças. Sim, era lerdinho, porém destrambelhado. Gostava muito de brincar com gatos e galinhas, às vezes matava dois ou três frangos, mas era sem querer, diga-se em abono da verdade, fruto da loucura do momento, no descontrolo e afã da brincadeira. Íamos então passear, eu e o cão. A coleira do Buck parecia a soga de um boi. Coloquei-lhe a poderosíssima trela, feita por encomenda e medida, própria para bisontes e elefantes, custou uma fortuna, dei-lhe calmamente a primazia, pus o pé fora de porta, todo lampeiro, e, como um raio ou talvez uma enorme marretada, num safanão sem preliminares nem precedentes, fui imediatamente arrastado de cangalhas para o empedrado, levantei-me como e quando pude, sempre de zorra, o Buck galopava a seu bel-prazer, sem parar sequer para cheirar ou alçar a perna, e eu atrás, agarrado à trela como quem se agarra à vida, aos solavancos, aos repelões, aos trambolhões, contra esquinas, árvores de pequeno e médio porte, tabuletas de trânsito e demais mobiliário urbano, o caralho do cão andou a exibir-me e a enxovalhar-me por onde lhe apeteceu, a vila inteira à janela a rir-se de mim, a fazer pouco do moço tolo, o filho da viúva da Bomba que andou para padre, tornei a casa feito num oito, num cristo, quando sua excelência achou que já chegava, e portanto nunca mais.)

Todas as manhãs, dizia, tornando à praia atlântica. Eu também por ali ando comigo pela trela e por isso é que sei o que estava a contar, mas ninguém me atira a bola, e antes assim. Ontem desatei a rir com o raio do cão, que realmente tem jeito, parece do circo o lingrinhas, um autêntico brinca-na-areia. Entre uma acrobacia e outra, o cão tendia a enfiar-se na água, coisa de cão certamente, e o homem dizia "Sai daí, Rex, anda cá, Rex, já vais levar, Rex!...", nem de propósito Rex, eu seja cão se estou a inventar. O cão chamava-se mesmo Rex, como o cão actor, o cão artista da televisão, e, sem terem nada a ver um como o outro, por acaso até vinha a propósito. O homem, que tomara nota do meu riso, decidiu pôr-me ao corrente, quisesse eu ou não: "É todos os dias isto, a mesma merda, ele gosta, o filhadaputa do cão mete-se no mar e eu depois é que me fodo a dar-lhe banho, secar e escovar, olha, lá vai ele outra vez, ó corno!, ó boi!, não adianta, fode-me sempre..."

O cão resolveu apanhar a última, mas sem boca. Estava-se a armar para mim, eu dei fé, creio que lhe percebi até um certo piscar de olho. Dominou a bola com o peito e, sem deixar cair, rematou em grande estilo e foi golo, palavra de honra que foi golo. Depois colocou o açaime ao homem e levou-o para casa.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia de Brincar na Areia.)

A brincar, a brincar...

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Daniel, dos leões às causas sociais

Aliás e há leões
Homem que é homem não teme leão. Já se forem ratos...

Daniel foi mediano profeta e consta da Bíblia no, exactamente, Livro de Daniel. Também lhe chamaram Beltessazar, mas um nome assim era uma desgraça para o marketing e foi imediatamente esquecido. Daniel trabalhou na Babilónia como vidente e porventura cartomante, interpretando sonhos e visões, e tinha três amigos esquisitamente chamados Sadraque, Mesaque e Abednego. Foi também domador de leões, com um anjo como partenaire, dando início a essa lamentável e actualmente proibida tradição circense.
Daniel estabeleceu-se em Fafe, com loja de fazendas, malhas, pronto-a-vestir e moda em geral, mesmo ao lado da tipografia do Sr. Dias do Tribunal, e dedicou-se, discreta e afincadamente, ao associativismo e às causas sociais. Se não estou em erro, foi um dos fundadores da Cercifaf e o seu primeiro presidente, e isto, creio, já é dizer alguma coisa acerca da sua bondade. A fama chegara-lhe em 1972, quando entrou numa canção de Elton John.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Leão.)

A moça mostrava a coxa

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 9 de agosto de 2026

O papel e o papelão

O (des)interesseiro
- Eu quero é que o dinheiro se foda! - dizia. Acrescentando: - E que procrie, evidentemente...

O gestor de projectos instalou-se em Fafe, vindo ninguém sabe donde, e foi ao banco pedir um empréstimo. Quantia avultada. Pretendia construir e montar de raiz uma fábrica de cartão canelado e pós de perlimpimpim, exactamente no sítio onde fora outrora a velha Fábrica do Papelão, no rio Ferro, em Cavadas, a seguir ao extinto monte de Castelhão, entre as pontes de Ranha e de São José, investimento para cima de diversos milhões de euros e emprego garantido para cerca de 23 pessoas, talvez 24 ou 25, ainda não sabia ao certo, isto tudo, bem entendido, antes da chegada em barda das grandes superfícies, que entretanto tomaram conta do lugar. O senhor do banco pediu-lhe a identificação de gestor de projectos, e o gestor de projectos respondeu prontamente: "Não tenho. Ainda estou a começar. Este é o meu primeiro negócio, mas toco muito bem ocarina". O senhor do banco tomou devida nota e observou, arguto e rindo: "Fábrica de cartão canelado, nesta altura do ano? Vê-se logo que é golpe, vigarice das antigas". "Golpe, não, caríssimo senhor, e faça o favor de reparar que eu disse caríssimo sem saber sequer a taxa de juro que aqui se pratica. Em todo o caso, se eu fosse mesmo vigarista, e dos antigos, como vosselência fez questão de caracterizar, ter-lhe-ia indicado que precisava do dinheiro para abrir um banco e não uma fábrica", ripostou o gestor de projectos, sem se rir, e foi roubar carteiras para outro lado.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Coworking.)

Génio empresarial

Foi uma revolução completa na frota da empresa. Os veículos passaram a chamar-se viaturas.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Coworking.)

Unicórnios e gazelas

"Existem 1.203 "empresas gazela" em Portugal, 85 das quais no distrito de Braga. Este tipo de empresa, assim designada, cria mais de 10 empregos nos primeiros cinco anos de atividade, representando um "elevado crescimento económico" para os padrões nacionais" - li uma vez no jornal O Minho. Empresas gazela, que nome catita. Gazela. Para abater mais adiante...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Coworking.

E ali dançaram tanta dança

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 8 de agosto de 2026

O saco de gatos

Fábula em 99 caracteres (com espaços)
No tempo em que os animais falavam, o cão disse: ão, ão, ão. E o gato perguntou: és gago ou quê?...

Em Fafe, no meu tempo, as pessoas gostavam muito de animais, como por exemplo gatos. Quase todos os lares tinham o seu gato ou a sua gata de companhia, principalmente derivado aos ratos, que também eram muitos e caseiros, mas recebiam visitas. Evidentemente estou a falar da parte de Fafe que me diz respeito e conheço, Fafe dos pobres. Ora, havendo gatos e gatas, havia também ninhadas, porque as coisas são como são e até os bichinhos gostam. Mas alimentar um ou dois gatos, mesmo com sobras, é uma coisa, outra coisa é sustentar uma família inteira de tarecos, ainda por cima largam pêlo como o caralho e nos primeiros tempos, antes de levarem naquele focinho para aprenderem, coitadinhos, cagam e mijam em todo o lado sem respeito nenhum. Que se segue? As pessoas gostavam muito de animais e pegavam na ninhada, deixavam um gatito de reserva, o mais bonito e esperto, e enfiavam os outros todos numa saca de sarapilheira bem fechada e bem atada a uma pedra bem pesada e pegavam na pedra, na saca e nos gatos e atiravam tudo ao rio, que eram vários mas lingrinhas. Não sei se Fafe conserva esta bonita tradição. E quem diz Fafe, diz Portugal regra geral.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Gato.)

Dance me to the end of love

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Chamavam-lhes "Águias-Clok"

Mal comparando
A lampreia é um ciclóstomo. João Almeida é um ciclístomo.

No tempo do Valença, do Castro, do Cândido, do Leitão ou do Albano, só para nomear alguns, chamavam "Águias-Clok" à equipa de reservas da AD Fafe, isto é, aos crónicos suplentes e outros supranumerários que, a meio da semana, faziam o habitual "treino de conjunto" contra os titulares. "Águias-Clok", chamavam-lhes, era no gozo, dito e repetido até à exaustão, uma espécie de praxe para deixar bem vincada, de cima para baixo, a diferença de estatuto e classe entre os jogadores de futebol, os verdadeiros jogadores de futebol, e os "ciclistas", os "jogadores de futebol" que apenas corriam, atrevidos a quem a bola eventualmente estorvava, isto lá na gramática deles, e todos se entendiam, que remédio, sobretudo do lado dos mais novos.
Na verdade, para quem não saiba ou não se lembre, Águias-Clok foi uma equipa de ciclismo que existiu mesmo, ligada ao histórico Clube Desportivo "Os Águias", de Alpiarça, com o patrocínio da cerveja Clok, Águias-Clok, portanto, um projecto desportivo meteórico que apareceu em 1977, fez a Volta a Portugal de 1978, com resultados até bastante interessantes, mas desfez-se logo no final desse mesmo ano. E não penseis que era um grupo de aleijados, nada disso, daquele plantel irrepetível faziam parte nomes tão marcantes da velocipedia nacional como Marco Chagas, Alexandre Rua, António Marçalo, Joaquim Carvalho, Joaquim Andrade ou Jacinto Paulinho, entre outros.
Pois em Fafe, no campo de futebol, "Águias-Clok" eram os mais fracos, os ciclistas da bola, os das reservas, ex-juniores e outros jovens, maioritariamente fafenses, à procura ou à espera de uma oportunidade, de um lugar ao sol. A brincar, a brincar, o rótulo fora-lhes colado pelos mais velhos, os "craques" da equipa principal, quer-se dizer, os instalados da vida, sei lá eu se com receio de que algum dos miúdos, mais capaz e afoito, se lembrasse de repente de lhes roubar o lugar e as mordomias concomitantes.
Lembro-me do Moreno e do Tintas. Lembro-me de muitos mais jovens e promissores jogadores desse tempo, na nossa AD Fafe, mas prefiro passar os olhos apenas pelas histórias do Moreno e do Tintas, a título de exemplo e porque eram ambos vagamente das minhas confianças. Que injustiça chamar-lhes "ciclistas"! Eram bons de bola, os dois, ainda que completamente diferentes um do outro, o Moreno, médio levezinho, com visão, habilidade e passe, e o Tintas, defesa lateral, mais físico e irreverente, às vezes rematador. O Moreno, se não estou em erro, ainda passou pelo Vianense e voltou, e o Tintas, que chegou a prestar provas no FC Porto ou andou por lá perto, era a vítima preferida do treinador Júlio Teixeira, que também padecia de uma grande pancada, chutava descalço, falava pelos cotovelos e dava a táctica para a bancada.
Se o Tintas e o Moreno engataram depois um percurso particularmente brilhante como jogadores de futebol, coisa constada, pelo menos ao nível dos cinco nomes lá de cima? Isso parece-me que não, ou então estarei mal informado. O Moreno e o Tintas tinham todas as capacidades físicas e técnicas para o sucesso, para altos voos, mas faltava-lhes, estou em dizer, um bocadinho de vocação. Um bocadinho assim. Talvez, ao fim e ao cabo, eles não estivessem realmente para ali virados.
Se, por causa do futebol, o Moreno e o Tintas foram, em última análise, dois excelentes ciclistas que se perderam? Não creio. Atleticamente falando, o Tintas desembaraçava-se com assinalável destreza no bilhar do Café Arcada, disso recordo-me muito bem, mas também não sei se seguiu carreira de taco na mão...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Cerveja.)

Dá-me o teu melhor sorriso!

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Lostras, sostras e ostras

Lamparinas bem dadas
Quando, no meio da discussão e dos encontrões, lhe ofereceram um par de lamparinas, ele aceitou de bom grado e até aproveitou para deitar abaixo a ligação à EDP.

Talvez por ter nascido em Fafe, e pobre, e nos finais da década de cinquenta do século passado, conheci primeiro as lostras e as sostras e só mais tarde é que soube das ostras. Não estou a queixar-me da minha sorte, é apenas uma confissão que eu precisava de fazer há tantos anos, e agora, dito isto, fiquei em paz. Na verdade, "as ostras", "as lostras" e "as sostras" até são expressões aparentemente parónimas - ora tentai lá pronunciá-las, uma e depois a outra e depois a outra, a ver se não soam à mesma coisa -, mas resultam muito diferentes no que significam.
Comecei naturalmente pelas lostras, ou não fosse eu filho da minha mãe, que nos chegava a roupa ao pêlo com assinalável pertinácia. Bufardos, sopapos, bofetadas, bofetões, galhetas, lamparinas, estampilhas, lostras para todos os efeitos, aprendi isso tudo à minha custa, mesmo antes de entrar para a escola, que em nossa casa era uma fartura pelo menos nesse departamento e eu era muito bom para sinónimos.
Sostras, eu também sabia. Desde pequenino, isto é, desde que tive noção. Sostras. Mulheres sujas e preguiçosas, badalhocas, regra geral o que elas se chamavam umas às outras quando disputavam homem ou coisa parecida. Putas, putéfias, vacas, vaconas, cabras, coirões, coironas. Fazia parte do léxico fafense metido a cotio, era o fafês no seu melhor. Aliás, a palavra sostra, para mim, já naquela idade, trazia com ela qualquer coisa de sexual, de lascivo, de atesoante, dito simplesmente. E, a esse respeito, é preciso que se note que eu, apesar de padreca, fui aquilo que se diz um rapaz precoce, outra palavra que por acaso também me arrebitava sobremaneira, mas eu, não desfazendo, ficava incomodado por tudo e por nada.
Já ostras, o mais parecido que eu lhes conhecia por aquela altura, sem sequer ter ideia dessa estranha ligação, eram sardinhas fritas com arroz de tomate, e que bem que me sabiam. Assim pessoalmente, as ostras foram-me apresentadas teria eu 24 anos, em Bordéus, França. Casado de fresco, cheio de vaidade, fui lá mostrar a minha bela mulher às minhas queridas tias São e Dores, que não puderam vir ao nosso casamento. Levei também a minha mãe e o meu irmão Orlando e merendeiro para um regimento, fomos de comboio, de wagons-lits, num expresso do oriente para remediados e cagarolas, isto é, no Sud Expresso, e tivemos todos um Natal bem porreiro.
Foi por aqueles gloriosos dias que eu finalmente provei as ostras, essa requintada francesice, assim achava, vinham nuns cestinhos muito jeitosos, deram-me a ferramenta para a mão, aprendi a abri-las sem desastre e a comê-las de imediato só com um esguicho de limão, coisa tão boa, coisa tão mar, em Bordéus, França, com champanhe evidentemente, o que eu andei para ali chegar, 24 anos de vida, e as ostras eram de Setúbal, Portugal, estava lá escrito, se calhar foram comigo no comboio, é preciso ser-se muito parolo, eu. E a verdade é só uma: as ostras eram realmente tão extraordinárias como sardinhas fritas com arroz de tomate, nem mais nem menos, sardinhas compradas na Mocha, com sítio à beira da estrada, em frente ao tasco do Paredes e ao lado do Zé Manco, dividindo praça com os tremoços da Marrequinha e as castanhas assadas da Maria Barraca, consoante a época. Foi logo ali, no estrangeiro, que eu percebi pela primeira vez a inegável superioridade moral das nossas sardinhas e a sorte que tenho por ter nascido em Fafe naquele tempo e, ainda por cima, no Santo Velho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Ostra e portanto vou assar bacalhau no forno, como fazia a minha mãe e como faz tão bem o minha irmã Nanda. Comidinha caseira, antiga, farta, saborosa graças a Deus. Limpinha. À moda do tempo em que as palavras eram livres de serem ditas...)

Na praia de coisas brancas

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Perguntai-me por Ceuta, que eu sei tudo

O Magalhães da Circunvalação
Ouço amiúde a pergunta, entre o Porto e Matosinhos, à porta dos liceus, nas galerias de arte, nos cafés, nas esquinas, nas praias, nos autocarros, no metro e até nas trotinetas partilhadas: - Mas afinal quem foi esse Fernando Magalhães?...
Vou então esclarecer. O navegador Fernão de Magalhães, nascido provavelmente em Ponte da Barca, Alto Minho, no dia 3 de Fevereiro de 1480, morreu no dia 27 de Abril de 1521, nas Filipinas. Entre uma coisa e outra, descobriu a Circunvalação, e a Circunvalação, minhas senhoras e meus senhores, passo por lá todos os dias, é realmente um mundo.

Ceuta foi tema da minha tese de doutoramento no exame da Quarta Classe. Na prova oral, depois de meia dúzia de contas no quadro, recitação de duas ou três tabuadas e uma ida aos mapas para identificar províncias, apontar linhas de caminhos de ferro e cantar rios e seus afluentes, calhou-me a lição de D. Fernando, o Infante Santo. E eu sabia tudo na ponta da língua. Sabia de D. João I e Dona Filipa de Lencastre, sabia da Ínclita Geração, dos infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, mas também Dona Isabel, D. João e, por maioria de razão, do desgraçado D. Fernando. Sabia da bandeira. Sabia de mouros, infiéis. Sabia de Ceuta, Arzila, Tânger, Fez e Alcácer-Ceguer. Sabia também de Alcácer Quibir, mas isso foi só azar. Sabia realmente de tudo. E tudo conforme me ensinaram: a versão vigente, heróica e santa, épica como convinha, A Bem da Nação. E fiz um figuraço, dei show.
Isto passou-se na velha Escola Conde Ferreira, em Fafe, andaríamos pelos finais da década de sessenta. Éramos da sala da frente, um grupo porreiro, alunos do magnífico Toninho da Cafelândia, que nos tinha muito bem preparados. O examinador foi o professor Costa Brasileiro, da sala das traseiras, moçarada com um ou dois anos de avanço, parecia um grande brincalhão e ficou razoavelmente impressionado com o nosso desempenho.
O professor Costa Brasileiro era português de Fafe e morava num tasco, vamos dizer assim, mesmo no centro da vila, em frente à Loja Nova, e eu dava-lhe muito valor por isso. Gostava de o ver entrar e sair de casa, consoante o horário, como se fosse para os copos ou viesse dos copos, mas não era nada disso, ele não tinha culpa nenhuma, eram coisas de família. Vestia fato leve, quase sempre azul ou porventura cinzento, era um homem largo mas ágil, pesado mas elástico, tanto que até jogava voleibol pelo Grupo Nun'Álvares, o qual, aproveitai mais esta, terá sido o primeiro campeão distrital da modalidade, em 65/66, e se calhar ele fazia parte dessa histórica equipa, com óculos e tudo, ou então estaria para a guerra, mas isso não sei, a sério.
O Grupo Nun'Álvares tinha então a sua sede atrás do Jardim do Calvário, no casarão fidalgo da hoje chamada Casa do Calvário, na Rua Visconde Moreira de Rei, onde, se não estou em erro, a Misericórdia de Fafe veio a instalar-se com o seu primeiro lar de idosos. O voleibol jogava-se num campo de terra batida inventado mesmo ao lado direito do vetusto edifício, quem o olhasse de frente, com uma bela ramada-alameda a servir-lhe de bancada central sem degraus. Os jogos eram geralmente nocturnos, à média luz, à luz que havia, como se fosse para fados, se não chovesse, mas era o tempo do conjunto Pimpinela, que ensaiava lá em cima...

Que é como quem diz. Não garanto nada do que aqui recordo. Isto não é História, são as minhas histórias. Os meus arquivos sou eu, falível e tendencioso, imperfeito que até dá gosto. Escrevo de cabeça e de coração, decerto às vezes também com os pés. Mas é tudo verdade. Ou por outra. Uma coisa é a verdade que eu conto, a minha verdade, a verdade de que gosto e quero, outra coisa poderá ser a verdade verdadeira, a verdade de como as coisas de passaram, independentemente da minha memória.
Se me provarem que estou redondamente enganado, prometo que tornarei aqui e onde for preciso para repor a verdade dos factos. Mas, insisto, só se me provarem que estou redondamente enganado. Redondamente! Quadradamente não serve. E se, em todo o caso, a verdade dos factos for demasiado desinteressante e me desengraçar a prosa, então ficamos mesmo assim, que não estamos mal servidos.

Ora bem. Ceuta está outra vez aí, na ordem do dia. Uma vergonha, uma tristeza, uma tragédia! E era só isto que eu tinha para vos dizer: se quereis saber de Ceuta, perguntai-me, que eu explico. Eu sei tudo de Ceuta e assim.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Pastelaria graças a Deus

Comeu um cardeal, dois jesuítas e três seminaristas. Bebeu quatro taças de Casal Garcia, persignou-se e deu graças a Deus.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Cookie.)

Bate na areia e desmaia

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Capoeirista, eu?...

Banho de sangue
Mandaram-no fechar a matraca e ele fechou. Fechou também a ponta-e-mola, a borboleta e a porta.

A sério. Não sei se posso ser considerado um verdadeiro capoeirista. A minha mãe mandava-me realmente dar de comer às galinhas e ver se havia ovos, recomendando-me sempre todo o cuidado ao entrar e ao sair do galinheiro, mas será isso suficiente?
E que se segue? O Dia do Capoeirista está aí à porta, e eu, sinceramente, não sei se deva festejar...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Capoeirista.)

A ninfa e o telemóvel

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 2 de agosto de 2026

Com cem mil coiotes!

Branca e radiante
Branca de Neve brincava às casinhas com a casa dos sete anões. Com os anões ela brincava aos médicos. Mas não sei se, hoje em dia, isto se pode dizer.

Conheci muito bem Walt Disney. Ele falava brasileiro e dava aos sábados ou domingos à tarde no televisor a preto e branco do café Peludo, em Fafe. O Sr. Walt Disney, que tinha um bigodinho à Peter Sellers com bigode, isto é, à inspector Clouseau, não só falava muito bem brasileiro como, para mim, era mesmo brasileiro, por isso é que se chamava Walt Disney, nome próprio de jogador de futebol, talvez centroavante, e podia muito bem ter vindo jogar para Portugal, mas parece que não veio. Uma coisa é certa: foi ele quem me apresentou a figuras extraordinárias e tão importantes para a minha vida como o Zé Carioca, o Professor Pardal e o Lampadinha, os Irmãos Metralha, o Tio Patinhas, o Pato Donald e os sobrinhos trigémeos Huguinho, Zezinho e Luisinho, todos também a falarem muito bem a língua portuguesa, quero dizer, o brasileiro, o que me enchia realmente de orgulho.
Tive bons mestres. O Sr. Walt Disney e o nosso Marreca, é esse o nome que trago na memória, esperto alfarrabista das mil e uma coboiadas estabelecido naquele "coté" encravado debaixo das escadas da Arcada, do lado do Club Fafense, minúsculo quiosque de um janelo só que era porta aberta para o mundo. "Mundo de Aventuras", "Condor Popular", "Ciclone", "O Falcão". Luís Euripo, Mandrake e Lotário, Tarzan, Kalar, Cisco Kid, Texas Kid, Kit Carson, Fantasma, Buck Jones, Major Alvega, Matt Dillon e Chester, velhos companheiros de jornada, heróis de trazer para casa. Os livrinhos, depois de lidos e relidos, levávamo-los de volta, para a troca, em perfeito estado de conservação, o que só os valorizava, num sistema que funcionava muito bem, entregávamos, por exemplo, seis e trazíamos, por exemplo, três, o negócio era feito a olho, mas mesmo assim valia a pena, principalmente para o quiosqueiro, isso também era fácil de ver.
Aprendi bastante. Foi por estas e por outras que eu fiquei a saber que forasteiros são pessoas que vêm de fora, no faroeste, e portanto deviam era ser faroesteiros, deve ter havido engano, fiz a proposta de alteração aos dicionários, em devido tempo, mas, como sempre, ninguém me ligou. Foi nestas leituras que eu me enriqueci com expressões tão magníficas e úteis ao nosso dia-a-dia como, para não irmos mais longe, "Por Manitu!", "Saca, cão!" ou "Com cem mil coiotes!", e está é a minha preferida. Nos livros aos quadradinhos, Walt Disney já era a cores e ensinou-me, por outro lado, palavras bem portuguesas e bonitas como cadê, sgrunf!, pilantra e sobretudo carona, de que eu gostava muito, quase tanto como gosto ainda hoje da palavra parreca, que eu já conhecia de ginjeira das nossas feiras e romarias, desde pequenino, parece impossível...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Livro de Colorir.)

Não vás ao mar, Tonho

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 1 de agosto de 2026

A "selfie" de Pedro Proença

Reunidos em Tomar, os árbitros "chamaram Pedro Proença de madrugada para que este se retratasse". Pedro Proença foi e, vaidoso como é, retratou-se. Ficou bastante mal no retrato, realmente, mas há que lhe dar o devido desconto: era de madrugada...

Uma coisa ruim

O estresse
"O estresse provoca o câncer!", não se cansava de repetir o clarividente defensor do acordo ortográfico.

Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Evidentemente eu não posso dizer se Fafe era uma terra mais ou menos hipócrita do que as outras terras, porque eu só conhecia Fafe, mas que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita, disso tenho a certeza absoluta, porque eu estava lá e não sou parvo. Provavelmente Portugal completo era um país um bocadinho hipócrita, se calhar inteiramente hipócrita, mas disso eu não sabia ainda, não fazia sequer ideia, porque, é como digo, eu estava em Fafe, e em Fafe desconhecia-se o mundo abaixo de Arões, sobretudo derivado àquilo de que Fafe era uma terra um bocadinho hipócrita. Mas, verdade seja dita, éramos razoavelmente felizes e saudáveis.
Em Fafe, por exemplo, ninguém padecia de cancro. Ninguém morria de cancro. Porque em Fafe não existia a palavra cancro. Cancro. A palavra cancro não se dizia. O cancro era crime e castigo. Pecado e culpa. Vergonha, tabu. O cancro estava proibido. Dizia-se que Fulano ou Sicrana tinham - aqui baixando a voz ao nível do cicio, do sussurro, do segredo ao ouvido, do cochicho maledicente, da coscuvilhice beata - um bzzzbzzz. Um bzzzbzzz murmurado com sinal da cruz e tudo. Sim, estava no hospital, no Porto, com um bzzzbzzz, muito malzinha ou malzinho, consoante fosse Sicrana ou Sicrano, Deus lhe perdoe. Muitos fafenses morreram, naquele tempo, com bzzzbzzz, mas nunca ninguém morreu com cancro. E não havia Sicranes. E, aliás, nem se morria, falecia-se, que era uma situação muito mais cómoda, muito menos dolorosa, muito menos definitiva...
E mamas? Mamas, dizia-se. Havia mama e havia mamas em Fafe, embora não fosse geral, como já aqui informei com todo o rigor. Tanto quanto me lembro, predominava um certo convencimento de que as raparigas e mulheres de Fafe possuíam realmente mamas, porém nem todas queriam que isso se soubesse. Mas cancro e mamas ou mama é que nunca poderiam coincidir numa mesma frase: cancro da mama, vamos um supor, seria impossível, desde logo porque é obsceno, e a pornografia constava que era só em Guimarães, e, em todo o caso, como se viu, a palavra cancro não existia em Fafe. Bzzzbzzz da mama, com todo o respeito, até admito que possa ter havia, mas eu nunca ouvi dizer, devo confessar.
E depois do cancro, a sida, a mesma hipocrisia, a mesma pequena hipocrisia, a mesma enorme ignorância. Ignorância e indizível maldade. Naquele tempo, o cancro esteve para a sida como João Baptista serviu para Jesus Cristo, mas não adiantou, ninguém acreditou, essa parte não vinha no catecismo de sacristia, rançoso e cruel, e bondade e compaixão eram apenas palavras da boca para fora. Como bzzzbzzz ou, deixemo-nos de merdas, "uma coisa ruim", "uma doença má", "doença prolongada"...
Assim eram as coisas nos bons velhos tempos, e eu limito-me a contá-las tal qual as sei. Fafe está aqui como mero pretexto, mais nada. Fafe é hoje uma terra completamente diferente e absolutamente igual. Porque Fafe, sendo talvez às vezes uma terra um bocadinho hipócrita, é com certeza e sempre a melhor terra do mundo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cancro do Pulmão.)

Espelho meu...

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 31 de julho de 2026

As Turicas e um par de mamas

Poema
Seios
sei-os
ceio-os.

Situemo-nos: Fafe, finais da década de sessenta do século passado. A cidade triste e ausente de hoje em dia era então uma vila buliçosa, boémia e próspera. As Turicas moravam numa enorme e decadente casa aburguesada da Rua Monsenhor Vieira de Castro, mesmo em frente ao Toninho da Luísa, do lado direito de quem desce para o Picotalho ou para a Recta, depois do cruzamento do Santo Velho e, infalivelmente, dos tascos do Paredes e do Zé Manco. Nem cinquenta metros antes, resvés com o prédio do Café Chinês em construção e a longa entrada para a casa das Jerónimas na outra berma da estrada, perigosamente sem passeio, moravam as Grilas. Irmãs, duas, se não me engano, velhas no meu critério de criança, solteironas, desgrenhadas, professoras e misteriosas. Raramente vistas na rua, espreitavam apenas à porta, defendida por um portão baixinho em ferro forjado, e quando meteram telefone em casa ligaram ao meu avô a perguntar se o telefone dos Bombeiros "também tocava em português" como o delas. Que se segue: derivado à proximidade geográfica entre as duas distintas famílias, havia e há quem, mesmo entre os especialistas e seus sucedâneos, confunda as Turicas com as Grilas - o que é uma vergonha e de uma intolerável ignorância numa terra tão prenhe de historiadores e simpatizantes como a nossa.
Mas as Turicas, que foi ao que eu vim. As Turicas também eram irmãs e também eram duas, tanto quanto me lembro. Pequeninas e idosas, talvez surdas, beatas, resmungonas e prendadas para os mais delicados lavores, faziam renda de bilros sentadas num banquinho junto às imponentes portadas que davam para a rua. Rendas de bilros em Fafe, isso mesmo. No rés-do-chão do ancestral casarão, as Turicas entretinham-se com uma loja mais antiga do que elas e que cheirava a um mofo muito bom. Subornada e ensaiada pela Maria Barraca, a moçarada do Santo costumava ir lá espreitar à porta e gritar "Quatro tostões de turicas e o resto de catarruchas!", fugindo depois a sete pés, às vezes catorze.
As Turicas vendiam botões e tafetás, fitas de nastro, fechos, colchetes, linhas, lãs, chitas, agulhas e flanelas, sobretudo monos, tudo armazenado há que séculos numas prateleiras altas, enegrecidas e carunchosas. E davam conselhos. Sorrateiramente, vendiam também vinho ao garrafão nas traseiras do estabelecimento, com vistas para um exuberante quintal sem fundo. Era um vinho muito fraquinho, aguado, "fisga" mas "purinho", como se dizia no nosso falar, e devia ficar em conta. As boas senhoras, certamente latifundiárias não sei onde, mantinham uma criadita que abria a porta a quem ia comprar vinho. E a miúda tinha umas mamas. Uma vez a minha mãe mandou-me ao vinho com dinheiro certo e tempo contado, e eu pedi à rapariga se me deixava apalpar-lhe as mamas numa pressinha. Ela não deixou e eu apalpei. As mamas eram de papel e foi-me um desgosto muito grande. Até hoje.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi Dia Mundial do Bordado. E hoje é, pela primeira vez, Dia Nacional da Vinha e do Vinho.)

Em Portugal seria impossível

A coisa foi notícia, veio nos jornais. Aqui há uns anos, na Suazilândia, actual Reino de Essuatíni, mais de 80 mil virgens dançaram para o rei. Com as purezas praticamente ao léu, as jovens concorriam ao lugar de noiva de Mswati III, um felizardo que na altura já aquecia os pés com doze esposas e pode sempre escolher mais uma.
Em Portugal tal cerimónia seria impossível. Não por falta de virgens, evidentemente. Mas não temos rei.

P.S. - Hoje é Dia Internacional das Mulheres Africanas. Mswati III, 58 anos, goza actualmente de quinze esposas, de acordo com a última contagem conhecida.

E se de repente... outonasse

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Amigo do peito

Ele tinha 36 anos e gostava muito de mamar. A namorada despediu-se do emprego para poder amamentá-lo de duas em duas horas. Palavra de honra. Veio nos jornais.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Amigo ou Dia Internacional da Amizade. E depois de amanhã é Dia Mundial da Amamentação.

Carolino, sempre!

Os amigos são para as ocasiões
Um amigo de infância, em Fafe, mandou-me uma SMS. Dizia-me que precisava de falar urgentemente comigo. Moro em Matosinhos, mas não pensei duas vezes. Nem três. Meti-me no carro e lancei-me na auto-estrada a mais de 180 à hora. Só ao chegar a Arões é que me lembrei que não tenho carro nem sei conduzir...

O Naninho Carolino, que é solteiro militante e uma jóia de moço, chama-se Carolino por causa da avó, que era a Senhora Carolina, casada com o extraordinário Zé de Castro, o nosso poeta cauteleiro, que uma vez mandou a mulher para o hospital com uma sacholada na cabeça, excessos de artista. E teve a sorte de nascer filho da querida São Machica, que era um furacão, e do Sr. Zé Manel, que era um anjo, isso mesmo, um anjo, e talvez também o melhor calceiro de Fafe. Calceiro, para quem não sabe, é o alfaiate especializado em fazer calças. O Naninho, os avós, os pais, os irmãos, o tio Luís Mário, meu amigo, tudo gente de categoria do nosso Santo Velho. De resto, o Naninho até se chama Hernâni Ferreira Castro, pertenceu à ínclita geração dos Sexy Rannas e era um dos heróicos resistentes que iam mantendo viva a Associação Desportiva de Fafe, o seu verdadeiro caso de amor, e digo "era" e "iam" porque, tanto quanto julgo saber, o Fafe faleceu aqui atrasado e agora é outra coisa. E o que é que acontece? Quando se fala em arroz, lembro-me sempre do Naninho a soprar pelo canto da boca ao peidinho do penteado. Carolino ou agulha, eis geralmente a questão, e eu, palavra de honra, não percebo onde é que está a dúvida.
Tomai nota, antes de mais, desta pescadinha de rabo na boca: o arroz carolino é um produto português, nado e criado nos estuários dos rios Sado, Tejo e Mondego, e Portugal é auto-suficiente na produção de arroz carolino. Já o arroz agulha é de origem asiática, quase todo importado. Não vou entrar em contradição com o que já escrevi outras vezes noutros lados, não tenho nada contra o que é estrangeiro, sobretudo se for melhor. Mas a verdade é que, se todos comêssemos do nosso arroz, e nós comemos arroz como se fôssemos chineses, dávamos um bom empurrão aos produtores nacionais e até podia ser que o preço ao consumidor baixasse.
Mas, patriotismos à parte, o fundamental é que o carolino é o arroz ideal para os pratos tradicionais da cozinha portuguesa. Com uma cozedura mais demorada e a exigir maior presença e atenção, é certo, mas mais cremoso e aveludado na calda final, e absorvendo melhor os condimentos e os paladares dos outros ingredientes, o carolino é a base indispensável para os nossos mais deliciosos arrozes, os malandros: do arroz de polvo ao arroz de tomate, do arroz de marisco ao arroz de bacalhau, do arroz de feijão ao arroz de peixe, do arroz de grelos ao arroz de cabidela, do arroz de sarrabulho ao arroz de lampreia, e fico-me por aqui, que isto assim também é um castigo...
Quanto ao agulha, é absolutamente recomendado para quem não sabe cozinhar (por exemplo, os novíssimos chefs do arroz de atum, de lata, que lata!) ou para quem, como agora se diz, não tem tempo para estar na cozinha, que é a mesma coisa.
Portanto: carolino, sempre! E um grande abraço para o Naninho!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Amigo ou Dia Internacional da Amizade. E Dia Mundial do Bordado.)

Pode o mar ser mais belo?

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Moelas de coelho só no Peixoto!

O requinte e o requente
A diferença entre requintado e requentado passa quase despercebida. No arroz de marisco é que se nota mais. E na sanita, consequentemente.

Embora notoriamente os coelhos não tenham moelas, devo informar que ninguém as cozinhava tão bem como o meu amigo Peixoto, em Fafe. Uma verdadeira especialidade! O Peixoto tinha mãozinha amestrada para a plancha e para a cozinha em geral. Eram famosos os seus pregos, em pão ou aos trambolhões, as suas francesinhas chamavam pessoas de fora, o seu marisco, ou "meterial", estava sempre muito bem trabalhado, uma categoria, mas as moelas de coelho suplantavam tudo o que é possível imaginar. Eram incomparáveis, exclusivas, únicas, um pitéu digno de deuses, indesmentível ambrosia do ramo dos salgados e afins. As moelas de coelho e os ovos cozidos, ovos de galo, às vezes, mas que na semana da Páscoa eram evidentemente ovos de coelha, e lá estavam expostos em cima do balcão, com o cu enfiado em sal grosso como manda a tradição, ao lado da terrina das moelas prontas a aquecer.
Eu ia a Fafe e ia ao Peixoto, como se fosse uma religião. A Mi também ia e era muito bem tratada. E o nosso filho foi ensinado a ir ao Peixoto desde pequenino. Quando eu ia lá com amigos, tantas e tantas vezes, geralmente a horas escusadas, o Peixoto perguntava-me sempre pela família e mandava-me trazer "cumprimentos para a esposa e para o menino". E eu trazia.
(E é curioso. Porque, pensando bem, o Sr. Peixoto dispensava-nos, a mim e à minha família, um certo tratamento de excepção, uma gentileza indubitavelmente sincera mas que, na verdade, não era lá muito do seu feitio...)
Pois aqui há coisa de quatro ou cinco anos, talvez mais ou talvez menos, eu e o tempo agora não andamos certos, fui a Fafe e fui ao Peixoto, de fugida, para lhe dar um abraço e duas de letra, mas Peixoto de grilo. Foi um choque muito grande, uma tristeza que ainda me dói. Porque o Peixoto faz-me falta. O malandro passou o negócio, e decerto encheu-se de massa, mas não me avisou. Na verdade, ninguém me avisou. E devia ter saído em edital camarário, com voto de louvor e medalha: afinal, o Peixoto era uma instituição, dizia eu.
Mas lá está, o que eu digo não se escreve, e muito menos em Fafe, a não ser que seja eu próprio a fazê-lo. E portanto cá está.

Por outro lado. A ciência ainda não encontrou uma resposta plausível e, pelo menos, isenta de misoginia acerca de porque é que os ovos de galo são maiores do que os ovos de galinha, mas não é isso que interessa aqui agora. Lembrei-me foi do seguinte: se existe o Dia Internacional do Coelho, que se assinala anualmente no último sábado de Setembro, eu acho que Fafe, pelo menos Fafe, devia festejar o Dia Mundial das Moelas de Coelho, já que as inventámos. E a criação de uma, digamos assim, Confraria Gastronómica das Moelas de Coelho à Moda de Fafe, o seu a seu dono, também não estaria mal vista. A minha terra, diga-se em abono da verdade, é muito dada a isto das confrarias e dos dias internacionais ou mundiais. Lembro-me, por exemplo, que o Dia Internacional do Tigre, que não sei se já tinha sido descoberto para o dia 29 de Julho, era celebrado quando calhava, exactamente no Peixoto, pela madrugada dentro e já com as portas encerradas e vidros tapados. Íamos do Porto, de propósito, eu e a minha equipa, depois do fecho do jornal, e não podia ser de outra forma. O "meterial" era um bom "meterial", mas o molho secreto do Peixoto fazia-o ainda melhor. É claro que estou a falar de camarões, dos enormes, tigres, abertos em dois, grelhados na chapa, e o Peixoto, que me avisava quando os recebia, era realmente um desembaraçado domador. Na hora de pagar, por minha conta e com todo o gosto, lá se ia praticamente a entrada para a compra de uma casa, mas éramos novos e tolos, e o que é que se havia de fazer?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Tigre. E Dia Mundial da Lasanha.)

Como as cobras

Era mau como as cobras. E como as moscas tsé-tsé e como os cães domésticos e como os escorpiões e como os crocodilos e como os hipopótamos e como os elefantes e como os tigres e como os leões. Era realmente do piorio.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Tigre.)

O domador

Era um desembaraçado domador de camarões-tigres. Até os comia...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Tigre.)

Trunfo é paus...

Quatro tigres-de-bengala. Jogam sueca e contam dos netos na fresquinha do jardim.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Tigre.)

És, mulher, um pedaço de mar

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 28 de julho de 2026

A táctica do duplo pivô

- Ora muito bem: vamos jogar com dois pivôs, quatro caninos, três incisivos e um molar, e sobretudo com muito siso - disse o treinador aos seus rapazes. Era um treinador em part-time, dentista encartado a tempo inteiro.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Assistente Dentário.)

Natureza de conserva

Ele era um acérrimo defensor da conservação da natureza. Em lata, mas sobretudo em frasco e em plástico.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional e Mundial da Conservação da Natureza.)

A menina e o cão

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O esperanto em português suave

A mim ninguém me leva!
Quem frequenta regularmente oftalmologistas, optometristas e oculistas, sabe muito bem: os óculos estão pela hora da morte. Um par de óculos de apenas razoável qualidade custa-nos os olhos da cara. O que se paga por uns óculos dá para comprar um carro em segunda mão. Ou, em alguns casos, até dois carros em segunda mão. E foi o que eu fiz: desisti dos óculos, que a mim ninguém me leva, peguei no dinheiro que lhes tinha destinado e adquiri pela internet uma viatura "em razoável estado de conservação e óptimo consumo". Fiquei muito bem servido. Por outro lado, não sei conduzir, o automóvel nem sequer pega e eu praticamente não vejo.

O turista estrangeiro aproximou-se do vendedor de óculos de sol de beira de praia. Era obviamente um turista estrangeiro, só eu e os turistas estrangeiros é que sabemos malvestir tão bem, nunca me engano a esse respeito. O vendedor de óculos de sol de beira de praia é português dos quatro costados, conheço-o de ginjeira, Verão atrás de Verão, monta banca todos os dias ali em baixo e quando chove é vendedor de guarda-chuvas de beira de praia. É, além disso, ambulante, mas apenas para fugir à polícia municipal, e um grande fala-barato, fala que se desunha, inclusive pelos cotovelos, é um chato, "Olha os óculos, freguês, toalhinha prà praia, olha os óculos, olha a toalhinha, óculos, toalhinha, freguês...", e faz gestos explicativos, como quem comunica com índios ou talvez com surdos. Ele também percebeu logo que o cliente era estrangeiro. Mas pensais que se atrapalhou, que se encolheu? Era o que faltava! Nós os portugueses temos connosco esta habilidade extraordinária de nos desenrascarmos sempre, seja em que situação for, cá em casa, lá fora ou pelo caminho, mesmo debaixo de água ou na estratosfera, aprendemos línguas, copiamos hábitos, camaleonizamo-nos, universalizamo-nos, se calhar nós é que inventámos o esperanto, não foi nada o polaco Ludwig Zamenhof, que por acaso também era oftalmologista. Possuímos, sem dúvida, este superpoder de desembaraço, improvisação e adaptação que tomaram muitos, até os americanos, e que fez dos portugueses assim ditos um povo das sete partidas do mundo por excelência. E nem é preciso ir mais longe: olhemos por nós abaixo, os fafenses, nesta acalorada época do ano, as nossas esplanadas rebentam pelas costuras e a língua oficial é o francês, toda a gente fala francês, mesmo quem não sabe falar francês, e até parece que estamos na Póvoa de Varzim.

Ou por outra. Era no passeio à beira-mar, mas podia ser em Cima da Arcada. Portanto, o turista estrangeiro abeirou-se do vendedor de óculos português e perguntou: - The glasses, how much?... (Estais a ver como eu tinha razão? Era ou não era um turista estrangeiro?).
E foi um clique, um cagagésimo de segundo bastou para que o rapidíssimo cérebro do nosso vendedor português mudasse o chip, fazendo um entre parênteses na língua do Camões e virando-se imediatamente para Shakespeare, para a língua inglesa. Cheio de segurança e enorme poliglotismo, respondeu ao camone, marcando ostensivamente as sílabas no mais escorreito acento oxfordiano: - Quali? Quali qui tu quieres?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi Dia do Esperanto. E hoje é Dia de Levar as Plantas a Passear, palavra de honra.)