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quarta-feira, 13 de maio de 2026

A sagrada comunhão

Os simples
Ele era um pregador muito terra a terra. Proclamava: - Bem-aventurados os bem-aventurados porque serão bem-aventurados.

Oremos. A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, isto é, a minha sogra, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costumava almoçar cerca das 11h30, nunca mais tarde, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem precisar sequer de deitar os olhos ao aparelho. Resolvi, ainda assim, espreitar à porta da sala e perguntar-lhe, a medo, num sussurro, se quereria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-me com rispidez, como sempre e como se por um segundo eu lhe tivesse interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio, como se tivesse avariado. Era a comunhão e a fila de comungantes não havia maneira de chegar ao fim. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, particularmente se lhe atrasam o tacho. Levantou-se então do trono, com aqueles ruídos que fazem parte, e ordenou a todos os seus súbditos, que sou apenas eu, miseravelmente eu: - Vamos mas é comer, que isto é povo sem jeito para a sagrada comunhão!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Nem tanto ao mar nem tanto à terra

À batatada
Há muito que andavam esquinudos. Um dia sentaram-se à mesa, barafustaram-se, cresceram-se, amansaram-se, tomaram-se de palavras espertas e resolveram tudo à batatada. Com bacalhau.
 
O meu sogro tinha uma máxima a respeito de bacalhau que talvez não seja de deitar fora. O Sr. Carvalho, que foi um garfo de primeira enquanto pôde, declarava, na sua infinita simplicidade: - Se me derem bacalhau todos os dias, para mim está muito bem e até agradeço.
E o meu sogro só sabia de meia dúzia das mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Mas não era esquisito, estava servido.
Já a minha sogra, que vai a caminho dos 94 anos e continua sem razões de queixa do apetite, tem uma visão mais ampla do universo, outra sabedoria. E defende que a vida é composta por três qualidades. Costuma filosofar, aliás, a esse propósito: - Nem sempre carne e nem sempre peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau.
Exactamente. Carne, peixe e bacalhau, as três espécies sobreviventes após a liquidação dos dinossauros. A minha sogra, que nunca na vida deixou o meu sogro ter razão, é que está certa. Este mundo não é só bacalhau. Ainda por cima ao preço a que ele está.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sogra.)

Ben-u-ron, uma questão de fé

Viciado em pastilhas
Tomava pastilhas atrás de pastilhas, mas não havia maneira de melhorar. Eram pastilhas de travão e ainda por cima davam-lhe gases. 

A minha sogra gosta muito do Ben-u-ron. Reclama "o meu Banuronzinho" por tudo e por nada, geralmente só para marcar posição de doente diplomada, inscrita na ordem e com as quotas em dia, questão de princípio, mas também para a insónia ou para a sonolência, para a garganta seca ou molhada, para o frio e para o calor, para as correntes de ar e para o mau-olhado, para a diarreia ou para a prisão de ventre, para os arrotos, soluços e espirros, para a flatulência ou para a surdez ou para a anosmia, para as unhas encravadas ou para os pêlos do nariz. A minha sogra só não quer Ben-u-ron para as dores de que se queixa como quem reza o terço em latim ou para a febre que felizmente quase nunca tem, por mais que meta o termómetro. Mas para o resto - isto é, para aquilo que não diz respeito ao Ben-u-ron -, a miraculosa pastilha é trigo limpo, farinha amparo. "Tenho muito fé no Banuron!", justifica a minha sogra. A Joaquininha decerto tem razão, vai a caminho dos 94 anos e, portanto, só pode ter razão. E eu, verdade seja dita, questões de fé não discuto...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sogra.)

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Então és tu, minha porca?!...

Meia dose de xenofobia
A chinesinha descia a rua em direcção à praia, e levava o cão pela trela. Achei aquilo tão esquisito! Como se eu levasse a passear um frango de churrasco...

Todos os santos dias, não sei se por promessa, havia um canídeo que, com vossa licença, cagava ao portão da minha sogra. Todos os santos dias. Ficava ali aquele montinho de merda, com vossa licença, às vezes dois ou três montinhos de merda, com vossa licença, ou quatro ou cinco, passeio adiante e organizados em filinha pirilau, porque o alegado canídeo devia ser animal para comer à tripa-forra e evacuava, com vossa licença, geometricamente organizado e por ordem alfabética.
A minha sogra, que me dirigia uma certa osga, cismava que era eu, para lhe fazer desfeita não sei de quê. E não foi fácil convencê-la de que aqueles saralhotos, com vossa licença, eram evidentemente souveniers de canídeo. E eu sou balança.
Uma vez quase apanhei o infractor com as calças na mão: a merda, com vossa licença, ainda a fumegar, mas o canídeo já a descer o fim da rua com a dona pela trela, e, dissesse eu o que dissesse, estaria a falar para a central. Calei-me, portanto.
Portanto, calei-me, mas pus-me à tabela, agarrei-me ao Excel, recolhi e cruzei informações, fiz um horário e aqui atrasado apanhei-os em flagrante. À horinha, nem mais cedo nem mais tarde, como diria o meu querido tio Zé da Bomba, abri de rompante o portão e lá estava a acontecer à minha frente: merda ao vivo, como eu previa e com vossa licença.
Fiz a cara de nojo que trazia ensaiada há mais de um ano, e disse:
- Então és tu, minha porca?!...
- Não é uma cadela, é um cão... - empertigou-se-me a dona, histericamente professoral.
- Mas eu não estava a falar para o canídeo, minha senhora... - disse eu, e fechei outra vez o portão, antes que ela percebesse.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nem tanto ao mar nem tanto à terra

Foto Hernâni Von Doellinger

O meu sogro, que estaria agora nos 95 anos se não me tivesse morrido nos braços num fim de tarde do fim de Novembro de 2015, declarava, na sua infinita simplicidade: - Se me derem bacalhau todos os dias, para mim está muito bem e até agradeço.
E o meu sogro só sabia de meia dúzia das mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. Mas não era esquisito, estava servido. E, mesmo no Natal, preferia a parte da asa.
Já a minha sogra, que vai a caminho dos 93 e continua sem razões de queixa do apetite, tem um visão mais ampla do universo, outra sabedoria. E defende que a vida é composta por três qualidades. Costuma filosofar, aliás, a esse propósito: - Nem sempre carne e nem sempre peixe. De vez em quando também é preciso comer um bocadinho de bacalhau.
Exactamente. Carne, peixe e bacalhau, as três espécies sobreviventes após a liquidação dos dinossauros. A minha sogra, que nunca na vida deixou o meu sogro ter razão, é que está certa. Este mundo não é só bacalhau. Ainda por cima, ao preço a que ele está.

P.S. - Viva o bacalhau! Viva o Natal!

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A minha sogra não dorme mas ressona muito bem

À meia-noite ressonava. Às duas ressonava. Às três ressonava. Às quatro ressonava. Às seis ressonava. E às sete ressonava. Quando foi acordada, a custo e ai que susto!, para o pequeno-almoço fidalgo, na cama, cerca das oito e não antes, derivado a não incomodar, a minha sogra queixou-se de que não tinha pregado olho, esteve para morrer toda a noite...

P.S. - Hoje é Dia do Festival do Sono. Palavra de honra!

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

O céu pode esperar, mas a mesa não

A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, isto é, a minha sogra, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvi ainda assim espreitar à porta da sala e perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-me com rispidez, como sempre e como se por um segundo eu lhe tivesse interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. Era a comunhão e a fila de comungantes não havia maneira de chegar ao fim. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se atrasarem o tacho. Levantou-se então do trono, com aqueles ruídos que fazem parte, e ordenou a todos os seus súbditos, que sou apenas eu, miseravelmente eu: - Vamos mas é comer, que isto é povo sem jeito para a sagrada comunhão!...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Televisão.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Ambos os dois

A minha sogra tem oitenta e sete anos e padece de um apetite voraz. Prato, sopa e sobremesa em quantidades que eu aqui não digo para evitar a abertura de um conflito diplomático com a Somália. Digamos apenas que a minha sogra é uma multidão a comer. No outro dia perguntei-lhe:
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim.

P.S. - Publicado originalmente no dia 18 de Novembro de 2019. A minha sogra tem actualmente 90 anos e continua a bombar.

A minha sogra, eu, o canídeo e a porca

Todos os santos dias, não sei se por promessa, há um canídeo que, com vossa licença, caga ao portão da minha sogra. Todos os santos dias. Fica ali aquele montinho de merda, com vossa licença, às vezes dois ou três montinhos de merda, com vossa licença, ou quatro ou cinco, passeio adiante e organizados em filinha pirilau, porque o referido canídeo deve ser animal para comer à tripa-forra e evacua, com vossa licença, como verdadeiro cagante andante.
A minha sogra pensava que era eu, para lhe fazer desfeita não sei de quê. E não foi fácil convencê-la de que, com vossa licença, aqueles saralhotos eram evidentemente, com vossa licença, saralhotos de canídeo. E eu sou balança.
Uma vez quase apanhei o infractor com as calças na mão: a merda, com vossa licença, ainda a fumegar, mas o canídeo já a descer o fim da rua com a dona pela trela, e dissesse eu o que dissesse estaria a falar para a central. Calei-me, portanto.
Portanto, calei-me, mas pus-me à tabela, agarrei-me ao Excel, recolhi e cruzei informações, fiz um horário e hoje apanhei-os em flagrante. À horinha, nem mais cedo nem mais tarde, abri de rompante o portão e lá estava a acontecer à minha frente: merda ao vivo, como eu previa e com vossa licença.
Fiz a cara de nojo que trago ensaiada há mais de um ano, e disse:
- Então és tu, minha porca?!...
- Não é uma cadela, é um cão... - empertigou-se-me a dona, histericamente professoral.
- Mas eu não estava a falar para o canídeo, minha senhora...

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Maio de 2015.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A imodéstia de Deus

Saio da cama praticamente de madrugada, vou ao peixe para a minha sogra que se desfez dos dentes e esconjura a carne com sortilégios que ignoro, cozinho o peixinho como manda a lei, assim e assado, com mais isto e mais aquilo, vario receitas, invento pratos, precato-me do sal, suprimo a gordura, provo, reprovo, rectifico, aprovo, ponho-lhe mesa lavada, ajeito travessa bonita, a minha sogra come, come, come para o guinness, faz barulhos mas não diz nada, porque ovelha que berra bocado que perde, sobremesa, café, termina, com licença, afinal fala, sai da mesa e volta para a televisão, benze-se e ouço-a: Obrigado, Senhor, bzzz, bzzz, bzzz. Afino! Quer-se dizer: eu acho que também fiz qualquer coisinha...

P.S. - Publicado originalmente no dia 17 de Fevereiro de 2019.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

A sagrada comunhão

Ano 2019. A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvi ainda assim perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-me com rispidez, como se por um segundo eu lhe tivesse interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se meterem rancho. Levantou-se então do trono e ordenou: - Vamos mas é comer, que isto é povo que nunca mais acaba para a sagrada comunhão!...

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

sábado, 10 de outubro de 2020

Cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas

Redacção: As orelhas
As orelhas. As orelhas são muito úteis. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para o YouTube. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram no YouTube.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. Se arderem as duas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo, à pala do Vasquinho da Anatomia. As orelhas, em casos extremos, servem também para a nossa alimentação. Em tempos de crise como os que vivemos recomenda-se com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é bom e deve-se às orelhas. Há governantes que não são governantes, porque não ouvem. Por exemplo: as orelhas dos alegados presidentes dos Estados Unidos da América e do Brasil são orelhas a fingir, orelhas de mercador. As orelhas do deputado Ventura, outro por exemplo, são orelhas de burro. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

Eufemisticamente falando
Sendo o cego invisual e o surdo insonoro, serão o manco impodal e o maneta imanual?
 
Um ouvido que só visto!
A minha sogra tem um ouvido que só visto e papa os programas todos da RTP1 desde a "Sónia e o Jorge" até ao "Gordo" ou "Senhor Fernando Mendes", consoante a disposição, passando pelo "Malato", pela "Tânia", pelo "Dr. Ramos", pela "Dina", pelo Calcitrin e pela frigideira mágica. Só se levanta da televisão para almoçar, e continua a ver. Nos intervalos às vezes há notícias e a minha sogra gosta de me pôr ao corrente. Diz-me, ainda ontem: - Lá estão eles, Hernâni, agora não sabem outra coisa, é Socras pra cima e Socras pra baixo, não deixam o homem em paz, está bem que se calhar ele não governou satisfatório, mas também já é demais...
Eu conto-lhe a verdade. Explico-lhe que é uma "notícia" em directo de Vila Verde e que estão a falar dos lenços de namorados derivado ao Dia dos Ditos que se realiza dentro em breve. Ela olha para mim com desprezo - sabe muito bem que lhe estou a "mentir"...
O aparelho de TV fala da Catalunha e de Carles Puigdemont, que parece (parece) ter desistido do seu independentismo - isto foi hoje -, e a minha sogra queixa-se-me: - Está a ver, Hernâni, você não se acredita no que eu lhe digo, olhe eles a malharem outra vez no Socras, coitado do pobre de cristo...
Há bocado chamou-me de repente, na abertura do Jornal da Tarde: - Olhe tantos que foram apanhados sem carta...
Eu olhei e era a "notícia" do juiz Rangel, do Benfica e do presidente do Benfica. De vigarices, portanto. Ia dizer "Ó Joaquininha..." mas não disse, nem abri a boca. Terem sido apanhados sem carta também é uma boa história...

Diz-me uma vez a minha sogra: - Ó Hernâni, veja o que quer esta carta da Caixa.
Eu vi e expliquei: - Isto não é da Caixa, Joaquininha, é um reclame daqueles aparelhos para ouvir, quer experimentar?
- Falta pagar? Eu tenho tudo em dia... - respondeu-me a minha sogra. E eu insisti, com o volume no máximo:
- Aqueles aparelhos para meter no ouvido, para ouvir melhor!...
- Para que é que preciso disso, parece tolo, eu ouço muito bem... - resolveu a minha sogra, e contra isso nada.

A minha mãe ouviu um too
Liguei esta manhã à minha mãe, para receber a indispensável bênção semanal, e a minha mãe disse-me que em Fafe estava um frio de rachar, daquele frio que parece que "já passou por muita neve", portanto fora de prazo, e que por volta das seis, sete horas ouviu um too. A minha mãe ficou muito admirada por ser só um. Ainda admitiu, a rir-se com os botões, que fosse uma bomba, mas não, o que ouviu foi mesmo um too, tinha a certeza.
É este falar antigo, escorreito, musical, tão galego nosso, que me apaixona tanto, e suspeito e lamento que sejam já poucos os que o guardam em Fafe. Atenção: a minha mãe falou bem. A minha mãe fala sempre bem. Toar é sinónimo de trovejar e portanto um trovão é um too. Lê-se e diz-se tôo e não tu, à estrangeira. A minha mãe ouviu um too e deram-me umas saudades desgraçadas. Porque é tão bom ouvir...
 
P.S. - Agora a sério (à séria, se inesperadamente lido em Lisboa): hoje, 10 de Outubro, é Dia Mundial do Audiologista. No Brasil, que desde 1990 é, não para mim, a matriz da língua que era nossa, dizem que é Dia Mundial do Fonoaudiólogo, e eu estimo-lhes as melhoras, aos brasileiros de nascença e aos portugueses correlativos. Saravá!

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Rangel e Vieira apanhados sem carta

A minha sogra tem um ouvido que só visto e papa os programas todos da RTP1 desde a "Sónia e o Jorge" até ao "Gordo" ou "Senhor Fernando Mendes", consoante a disposição, passando pelo "Malato", pela "Tânia", pelo "Dr. Ramos", pela "Dina", pelo Calcitrin e pela frigideira mágica. Só se levanta da televisão para almoçar, e continua a ver. Nos intervalos às vezes há notícias e a minha sogra gosta de me pôr ao corrente. Diz-me, ainda ontem: - Lá estão eles, Hernâni, agora não sabem outra coisa, é Socras pra cima e Socras pra baixo, não deixam o homem em paz, está bem que se calhar ele não governou satisfatório, mas também já é demais...
Eu conto-lhe a verdade. Explico-lhe que é uma "notícia" em directo de Vila Verde e que estão a falar dos lenços de namorados derivado ao Dia dos Ditos que se realiza dentro em breve. Ela olha para mim com desprezo - sabe muito bem que lhe estou a "mentir"...
O aparelho de TV fala da Catalunha e de Carles Puigdemont, que parece (parece) ter desistido do seu independentismo - isto foi hoje -, e a minha sogra queixa-se-me: - Está a ver, Hernâni, você não se acredita no que eu lhe digo, olhe eles a malharem outra vez no Socras, coitado do pobre de cristo...
Há bocado chamou-me de repente, na abertura do Jornal da Tarde: - Olhe tantos que foram apanhados sem carta...
Eu olhei e era a "notícia" do juiz Rangel, do Benfica e do presidente do Benfica. De vigarices, portanto. Ia dizer "Ó Joaquininha..." mas não disse, nem abri a boca. Terem sido apanhados sem carta também é uma boa história...

Diz-me uma vez a minha sogra: - Ó Hernâni, veja o que quer esta carta da Caixa.
Eu vi e expliquei: - Isto não é da Caixa, Joaquininha, é um reclame daqueles aparelhos para ouvir, quer experimentar?
- Falta pagar? Eu tenho tudo em dia... - respondeu-me a minha sogra. E eu insisti, com o volume no máximo:
- Aqueles aparelhos para meter no ouvido, para ouvir melhor!...
- Para que é que preciso disso, parece tolo, eu ouço muito bem... - resolveu a minha sogra, e contra isso nada.

P.S. - Publicado originalmente no dia 31 de Janeiro de 2018. Longa vai a procissão, e ainda nem saiu do adro. Sairá?...

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A sagrada comunhão

A minha sogra estava a ver na televisão a missa do 13 de Outubro no Santuário de Fátima. A santinha, que graças a Deus não padece de fastio, antes pelo contrário, costuma almoçar cerca das 11h30, mas a missinha tomara realmente conta dela, ensimesmada numa tremenda devoção, sem sequer deitar os olhos ao aparelho. Resolvemos ainda assim perguntar-lhe num sussurro se queria comer à horinha ou se esperávamos pelo fim das cerimónias. - No fim da santa missa!, respondeu-nos com rispidez, como se por um segundo lhe tivéssemos interrompido o Céu. Pronto: a mesa podia esperar.
Os ponteiros do relógio andaram um quarto de hora, mas a televisão não: a missa continuava no mesmo sítio. A minha sogra agitava-se, os impasses incomodam-na sobremaneira, especialmente se meterem rancho. Levantou-se então do trono e ordenou: - Vamos mas é comer, que isto é povo que nunca mais acaba para a sagrada comunhão!...

P.S. - Publicado originalmente no dia 14 de Outubro de 2019.

domingo, 26 de abril de 2020

Hoje não há umas vagenzitas?

Empratei o jantar da minha sogra: uma posta de bacalhau cozido com três dedos de altura por um palmo de comprimento, um ovo aberto ao meio, cinco batatas médias partidas em quartos, um dilúvio de azeite e duas pingas de vinagre branco, como ela gosta. A minha mulher colocou-lhe à frente aquela reprodução dos Himalaias em tamanho natural, e a minha sogra, 88 anos, mal-humorada por princípio e por prazer, resmungou: - Hoje não há umas vagenzitas?...
Não havia. Era segunda-feira e à segunda-feira cá em casa é assim, uma tradição que vem de Fafe. A minha sogra limpou o prato em menos de cinco minutos, mas sob protesto, que fique registado.

P.S. - Vagem, neste caso, é feijão-verde. Ou, melhor dito, vage. As vages, posso esclarecer, são ao almoço de quarta-feira para uma pessoa, com pescada quase sempre fresca. E outra coisa: com bacalhau, a minha sogra bebe um fundinho de vinho. Diz que é dado: bacalhau, portanto vinho. Mas isso é lá uma tradição dela...

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Em quarentena há dois anos e dois meses

Pratico quarentena há dois anos e dois meses, chegarei aos dois anos e três meses no próximo dia 15, se Deus quiser. E não sabia que estava a fazer uma coisa extraordinária...

quarta-feira, 4 de março de 2020

Como a minha sogra engana o sono

A minha sogra deixou de se deitar após a digestão do almoço porque senão, diz ela, depois não dorme nada à noite. Portanto dorme toda a tarde no sofá da sala em frente à televisão ligada.
Com uma curta pausa para o lanche, evidentemente.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ambos os dois

A minha sogra tem oitenta e sete anos e padece de um apetite voraz. Prato, sopa e sobremesa em quantidades que eu aqui não digo para evitar a abertura de um conflito diplomático com a Somália. Digamos apenas que a minha sogra é uma multidão a comer. No outro dia perguntei-lhe:
- E agora, quer fruta ou bolo?
- Pode ser - respondeu-me a minha sogra.
- Pode ser o quê? - insisti, até porque a minha sogra é um bocadinho surda quando quer.
- Fruta e bolo - esclareceu a minha sogra, sem sequer olhar para mim.