terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Prò maneta
sexta-feira, 10 de setembro de 2021
Teremos sempre a Póvoa
A Póvoa estava cheia, como costuma acontecer nesta época do ano, certamente por causa do tempo. Mas há cada vez mais andares e apartamentos para vender e quartos por alugar, de acordo com os letreiros. A língua oficial da Póvoa de Varzim, entre os meses de Junho e Agosto, é o francês com caralhos no meio. Eu e a minha mulher foi como se estivéssemos no estrangeiro, embora com caralhos no meio, e ainda há um bocadinho tínhamos saído de Matosinhos. Por falar nisso, liguei à vizinha para saber se estava tudo bem. E estava.
Aproveitámos as férias em cheio. Olhámos para o casino e para o Cego do Maio, fomos espreitar as montras com bolos, a praia, os banhos e as banhas. Fomos às piscinas, ao museu, à biblioteca, à praça de toiros e ao estádio, sempre pelo lado de fora, para não incomodar. Não percebo quem diz que não tem dinheiro para ir de férias. Eu e a minha mulher fomos e às 17h45 já estávamos outra vez em casa. Mais: resolvi fazer um prolongamento extraordinário das férias e demo-nos ao luxo de jantar. Dois bijus, um para cada.
As minhas férias ficaram-me por 10,65 euros. Ora portanto, 24 cêntimos dos dois pães do almoço, dez euros de dois andantes Z5 (cartões incluídos) para as viagens Matosinhos-Póvoa de Varzim e Póvoa de Varzim-Matosinhos, mais os 24 cêntimos dos papos-secos do jantar, uma extravagância, e 17 cêntimos da chamada para a vizinha. Total: 10,65 euros, com todas as taxas incluídas. Um bocado puxado, é verdade, e não dá para descontar no IRS, mas é uma questão de nos organizarmos durante o resto do ano. O que é preciso é saber fazer "uma boa aplicação dos recursos" que temos, como filhodaputamente dizia, no seu tempo de troika, o então alegado primeiro-ministro.
A minha mulher ainda quis ir a uma agência de viagens, para ver se a coisa nos saía mais em conta. Como se nós fôssemos uns necessitados! Mandei-a dar uma volta e ela passou as férias todas sem me falar.
A propósito de férias: as únicas pessoas que eu e a minha mulher conhecemos que nunca foram ao Brasil somos nós os dois. Mas já está resolvido: para o ano, se Deus quiser, vamos outra vez à Póvoa...
quarta-feira, 17 de março de 2021
A máscara e o cigarro
terça-feira, 16 de março de 2021
sexta-feira, 5 de março de 2021
Testes em massa
quarta-feira, 3 de março de 2021
Em lata
O confinamento fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.
P.S. - Hoje, 3 de Março, é Dia Internacional do Ómega-3.
terça-feira, 2 de março de 2021
Quem dera que chova!
| Foto Hernâni Von Doellinger |
O sentido de responsabilidade dos portugueses em relação às normas de confinamento mede-se pela chuva. Chove, e o país inteiro fica em casa, na cama, fazendo de conta que teletrabalha. Faz sol, e toda a gente salta para a rua, aos magotes, autênticos ranchos, sem máscara nem distância. O resto é treta.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Notícias da retaguarda 5
Era uma pessoa muito dada. Contra todas as recomendações, acolheu de braços abertos o novo coronavírus. Que descanse em paz!
A importância do retrovisor no combate à pandemia
O espelho retrovisor central é um instrumento da máxima importância dentro de um veículo automóvel. Serve para pendurar coisas. Não coisas quaisquer, à sorte, mas coisas próprias de pendurar num retrovisor. Por exemplo, seria impensável pendurar num retrovisor uma gabardina molhada ou um guarda-chuva aberto, porque o retrovisor não é um cabide, é um retrovisor. E no retrovisor penduraram-se, ao longo da história, terços e senhoras de Fátima fosforescentes, relíquias sagradas da Terra Santa contrafeitas, árvores mágicas ambientadoras, castanholas, galhardetes dos Bombeiros de Montalegre, da Junta de Canas de Senhorim, da Câmara de Nelas, do Real Madrid e do Benfica, fitinhas vermelhas do Leixões, miniaturas de casais minhotos e folclóricos, óculos de sol e óculos de chuva, porta-chaves, porta-aviões, trevos de quatro folhas, estrelas de cinco pontas, cornos de besouro ou escaravelho e cornos em geral, patas de coelho, figas, ferraduras, CD, mesmo largos anos depois de ter passado a novidade, e agora penduram-se as máscaras. Exactamente: o sítio da máscara higiénica e sanitárica que nos protege da pandemia e da morte é o retrovisor, o que só lhe medra a relevância - ao retrovisor.
Ora bem: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já perceberam o meu ponto de vista: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Portanto não tenho retrovisor.
Chegados aqui - de transporte público, evidentemente -, a grande dúvida que se me coloca é a que se segue: onde é que eu penduro a máscara? Na cara com certeza que não, porque me corta o ar e ainda ontem estive para morrer três vezes quando fui à peixaria, uma, e à padaria, duas. Por outro lado, e agora é uma dúvida mais pequena, alguém me saberá informar se haverá alguma brecha legal que me permita, vá lá, dar a volta às normas da Direcção-Geral da Saúde (DGS, como a pide), dispensando-me liminarmente do uso da máscara sufocante e substituindo-a, digamos, por um CD, com o nariz enfiado no buraco, o que já seria algum arejo? Haverá? Era o que eu gostava de saber...
P.S. - Mais sobre retrovisor, mas de outro ângulo, aqui.
A verdade é estas: os cães já não conseguem aguentar mais um confinamento. Estão exaustos! Regra geral nunca tinham saído de casa.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
Notícias da retaguarda 4
Mas e a nossa nova padaria? Que nos serviu tão satisfatoriamente em tempos de crise, bem sei que apenas durante menos de dois meses. Íamos agora voltar-lhe costas, muitíssimo obrigadíssimo, estava tudo muito bem mas já não precisamos, e façam favor de desculpar?
Não somos capazes de semelhante. Passámos a ter duas padarias. A minha mulher e eu dividimo-nos nas visitas. Porque a memória é fundamental mas a gratidão também.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2021
Notícias da retaguarda 3
Lay-off
Quando foi mandado de lay-off perguntou aos patrões "Posso dizer lá em casa que é temporário?" e os patrões responderam "Podes, podes..." e partiram-se a rir.
Intrigado com a novidade estrangeira que de repente tomou conta das portas, janelas e montras dos restaurantes da cidade, entrou na velha casa de pasto, sem vez, sem distância e sem máscara, porque "era só para fazer um pergunta", e perguntou:
- Aquilo do Take away é o quê?
- Quer dizer que vendemos para fora.
- Há mais de trinta anos que todos os sábados venho aqui buscar um tachinho de tripas. Qual é a diferença agora?
- O coronavírus...
Os restaurantes reabriram e o arrumador de automóveis saltou imediatamente para a rua, apresentando-se ao serviço. Estava farto de orientar estacionamentos a partir de casa...
Teledesemprego
"Isto sem público nos estádios, o teledesemprego é uma seca!", queixava-se o Acúrsio, e suponho que com razão.
Teledesemprego 2
Está em casa em teledesemprego. Faz horário das dez da manhã às oito da noite. Perguntem-lhe sobre programação da RTP1! Sabe tudo.
Telessexo
É muito à frente, ele. Não esperou pela pandemia nem precisou das indicações do Governo. Há mais de trinta anos que pratica, e com resultados francamente satisfatórios.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Notícias da retaguarda 2
Para evitar contactos pessoais, as encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.
Farto de tanta falta de respeito
Estava farto de tanta falta de respeito. Falta de respeito pela pandemia, falta de respeito pelo estado de emergência, falta de respeito pelo estado de calamidade, falta de respeito pela fila para a vacina, falta de respeito pelo estado a que isto chegou, falta de respeito pela quarentena, falta de respeito pelo confinamento, falta de respeito pela linha da frente, falta de respeito pela linha do tua, falta de respeito pelo desconfinamento, falta de respeito pela falta de respeito. Estava farto, farto, farto! E era hoje!...
Distanciou-se metro e meio da própria sombra, colocou a máscara, empunhou a bisnaga de álcool gel, subiu o lanço de escadas, aproveitou a porta apenas encostada, contou até três, entrou de rompante e gritou: mãos ao ar, isto é um assalto! Ficou admirado. O que ele queria dizer era: alto e pára o baile - desesperado com aquele forrobodó todas as noites mesmo por cima da cabeça, mais de vinte energúmenos, eles e elas, em sucessivas festas ilegais, estrondosas e orgíacas. Mas estava dito, estava dito: desceu com um LCD de 100 polegadas, uma mesa de DJ, seis colunas de som surround, um globo espelhado, oito CD do Quim Barreiros, dois tablets, quatro telemóveis, sete relógios - um de sala -, seis pulseiras, cinco colares, doze pares de brincos, dois pacotes de batatas fritas, meia piza familiar de cogumelos e fiambre, um pacote de Sugus morango e framboesa, nove gramas de haxixe, garrafa e meia de vodka, duas canecas de sangria, vazias, três garrafas de Casal Garcia, treze cartões de crédito, um vale de reforma e 837 euros em numerário.
Em lata
O confinamento fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.
Sim, os víveres, evidentemente os víveres. E os mórreres?...
Goze o confinamento
Aproveite a bênção da quarentena, sobretudo se for realmente mais do que quinzena. Fique em casa, leia, escreva, pense, e todas as tardes durma um sono, ou dois, consoante a disposição e a companhia, e dormir é aqui uma forma de dizer. E ouça a chuva a bater à janela. Mas não abra se bater leve, levemente, que a chuva não bate assim: é de certeza o Neves, e o Neves é um chato do caralho.
sábado, 30 de janeiro de 2021
Notícias da retaguarda
Encontrei ontem por acaso o Asdrúbal, o velho Asdrúbal, o grande Asdrúbal - aos anos que não nos víamos! Recordámos os tempos antigos, falámos das nossas vidas, da família, dos filhos, dos netos, dos amigos que já morreram, do coronavírus, do velho Marega, dos novos fascistas-racistas, de projectos para o futuro. Enfim, pusemos a conversa em dia e à distância. Despedimo-nos calorosamente trocando abraços da boca para fora e números de telemóvel e apalavrando a marcação de um almoço para quando se Deus quiser. Cada qual seguiu para o seu lado, e só então é que eu reparei que aquele não é o Asdrúbal, nem sequer é parecido com o Asdrúbal, apesar da máscara. Na verdade, tenho agora a certeza absoluta de que não conheço este indivíduo de lado nenhum. Em todo o caso, gostei muito de falar com o Asdrúbal.
Pratico quarentena há três anos e quinze dias, faz hoje exactamente. E não sabia que estava a fazer uma coisa extraordinária...
O fim do mundo
Quando lhe disseram que vinha aí o fim do mundo, comprou setecentos e noventa e três rolos de papel higiénico e declarou: - Estou preparada!
Denunciado por ter tossido em casa, foi detido pela polícia, presente ao juiz e metido em prisão preventiva. O vizinho delator morreu de caganeira naquele mesmo dia.
Um gajo anda mais ou menos porreiro, uma dorzita aqui, uma pontada acolá, um bocadinho de falta de ar, ouras e fastio às vezes, coisas de nada, coisas da vida, se calhar do tempo ou, vá lá, da idade. Um gajo anda mais ou menos porreiro. Até que um dia, empurrado ou de livre vontade, vai ao médico. Análises, exames, diagnósticos, prognósticos, agnósticos, cancro, coração, rins, fígado, coluna, internamento, cirurgia, hemodiálise, quimioterapia, antipatia, utente, paciente, despistagem, despessoamento, isolamento, transferência, circunferência, alta, baixa, alta, baixa, piso 1, piso 2, piso 10, piso 1, doente da cama 13, bactérias, vírus, infecção, pneumonia, silêncio, cave. Um gajo andava mais ou menos porreiro. No competente certificado há-de constar, obitamente e por ser verdade: "Causa provável de morte - ida ao médico"...
Na sombra
Fechou-se em casa, com medo de ser contaminado. E manda a sombra fazer-lhe os recados.
sábado, 17 de outubro de 2020
Isto é um povo que só dá despesa
São cada vez mais os portugueses que procuram a sobrevivência no fundo
de um contentor do lixo. Sei, porque às vezes ando na rua. Aqui atrasado, de
Matosinhos até à Foz, no Porto, passei por nove pontos de contentores de
lixo: em seis deles estavam pessoas à cata dos nossos melhores restos.
Não eram "drogados", nem "alcoólicos", nem "arrumadores" fora das horas
de expediente - se querem saber. Eram pessoas como nós, certamente com
mais azar na vida do que nós. Vi, por exemplo: uma família inteira, que
podia ser a minha família; uma senhora arranjada e digna, puxando um
carrinho de compras que ia compondo com critério, e podia ser a minha
mãe; um cavalheiro com o velho orgulho alquebrado, que me olhou com
olhos de pedir desculpa por necessitar, e quase posso jurar que ele era
eu.
É. Portugal prepara-se para enfrentar a pandemia e a crise, mas de lado. Com StayAway e de máscara, os portugueses que afocinhem. Que façam pela vida! E depois que morram como lhes compete, porque isto é um povo que só dá despesa...
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
Nem cinco nem cinquenta
Por causa da pandemia, o Governo proibiu ajuntamentos de mais de cinco pessoas na rua. Em casamentos e baptizados podem ser cinquenta. Alguém me sabe explicar?...
domingo, 4 de outubro de 2020
terça-feira, 15 de setembro de 2020
sexta-feira, 4 de setembro de 2020
A rendição de Jerónimo
Jerónimo, um dos derradeiros, secretário-geral do Partido Comunista Português, não se rende às evidências instaladas e leva a sua Avante!, após noventa e nove anos de luta.
sábado, 22 de agosto de 2020
Conjunto Outono-Inverno 2020
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| Desenho NESTINHO |
Os primeiros pingos de chuva deste Inverno em pleno Verão assustaram-me inusitadamente. Isto é: para além dos pés, molharam-me a máscara, e a verdade é que eu não sei se as máscaras molhadas também funcionam ou se gripam, e depois ainda é preciso pô-las a secar e esperar que venha o sol e esperar que sequem. Ou não? Húmidas será melhor, como com os incêndios e com o fumo e com o sexo? E não haverá maneira de fazer máscaras à prova de água (ou waterproof, como se diz em português contemporâneo)? E no Carnaval como é que vão ser as máscaras? Máscaras com máscaras? Estão a ver a minha angústia, o meu medo de morrer de nariz ao léu, e a máscara a pingar?...
Então o que é que eu fiz? Peguei e desatei a correr de volta para casa e nunca mais saí para ir à padaria. Há mais de quinze dias que aqui não entra pão, comemos as sardinhas assadas e o bacalhau frito com bolachas Maria. Torradas.
Por outro lado, liguei ao meu amigo Ernesto Brochado a pedir-lhe ajuda. O Nestinho costuma acudir-me satisfatoriamente em semelhantes aflições. Expliquei-lhe o meu problema, a minha ânsia, trocámos algumas ideias, e saiu esplendorosa a solução que hoje damos a conhecer ao mundo, num rigoroso exclusivo Tarrenego! Entretanto, registámos a patente e já temos milhões de encomendas em carteira.
A máscara
Adaptou-se razoavelmente ao uso da máscara. Para comer é que era uma desgraça. Um chiqueiro...
O anormal do novo normal
Entro na padaria por quinze segundos. Sou atendido imediatamente, levo dinheiro certo, não preciso de falar e até faço apneia. Quinze segundos. Mas sou obrigado a usar máscara. Ao meu lado, atrás de mim, grupos organizados de senhoras desocupadas e alcoviteiras ocupam as mesas da padaria durante manhãs inteiras ou tardes inteiras ou manhãs e tardes inteiras, falam, gritam, riem, engasgam-se, tossem, pigarreiam, espirram e assoam-se, distribuindo generosos perdigotos pelas redondezas. Mas não usam máscara. Alguém me sabe explicar?...
O anormal do novo normal 2
Chega à porta do café e coloca a máscara. Entra. Senta-se na mesa do café e retira a máscara. E faz bem: é a norma. A máscara é apenas o bilhete de entrada no estabelecimento. Alguém me sabe explicar?...
Contrafeitas
Eram máscaras contrafeitas. Preferiam ser toalhetes.
A importância do retrovisor na luta contra a pandemia
O espelho retrovisor central é um instrumento da máxima importância dentro de um veículo automóvel. Serve para pendurar coisas. Não coisas quaisquer, à sorte, mas coisas próprias de pendurar num retrovisor. Por exemplo, seria impensável pendurar num retrovisor uma gabardina molhada ou um guarda-chuva aberto, porque o retrovisor não é um cabide, é um retrovisor. E no retrovisor penduraram-se, ao longo da história, terços e senhoras de Fátima fosforecentes, relíquias sagradas da Terra Santa contrafeitas, árvores mágicas ambientadoras, castanholas, galhardetes dos Bombeiros de Montalegre, da Junta de Canas de Senhorim, da Câmara de Nelas, do Real Madrid e do Benfica, fitinhas vermelhas do Leixões, miniaturas de casais minhotos e folclóricos, óculos de sol e óculos de chuva, porta-chaves, porta-aviões, trevos de quatro folhas, estrelas de cinco pontas, cornos de besouro ou escaravelho e cornos em geral, patas de coelho, figas, ferraduras, CD, mesmo largos anos depois de ter passado a novidade, e agora penduram-se as máscaras. Exactamente: o sítio da máscara higiénica e sanitárica que nos protege da pandemia e da morte é o retrovisor, o que só lhe medra a relevância - ao retrovisor.
Ora bem: eu não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. E faço questão de elencar estas três fundamentais asserções, porque elas, as asserções, parecendo sinónimas e redundantes, não o são, não o são. Não o são. Na verdade, há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; há quem não tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro; há quem tenha carta de condução, não saiba conduzir e não tenha carro; há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e não tenha carro; e até há quem tenha carta de condução, saiba conduzir e tenha carro - o que é uma raríssima coincidência. O mais certo é eu não ter esgotado todas as variáveis possíveis, mas desconfio que já perceberam o meu ponto de vista: não tenho carta de condução, não sei conduzir e não tenho carro. Portanto não tenho retrovisor.
Chegados aqui - de transporte público, evidentemente -, a grande dúvida que se me coloca é a que se segue: onde é que eu penduro a máscara? Na cara com certeza que não, porque me corta o ar e ainda ontem estive para morrer três vezes quando fui à peixaria, uma, e à padaria, duas. Por outro lado, e agora é uma dúvida mais pequena, alguém me saberá informar se haverá alguma brecha legal que me permita, vá lá, dar a volta às normas da Direcção-Geral da Saúde (DGS, como a pide), dispensando-me liminarmente do uso da máscara sufocante e substituindo-a, digamos, por um CD, com o nariz enfiado no buraco, o que já seria algum arejo? Haverá? Era o que eu gostava de saber...
P.S. - Mais sobre retrovisor, mas de outro ângulo, aqui.
Homem que é homem coça os coisos. Mas com máscara!
Esse gesto tão masculino de coçar o escroto enquanto se conversa com o amigo. Aliás, coçam os dois, cada qual coça o respectivo, porque são ambos muito homens. E esse outro gesto tão masculino de, acabada a conversa e a ecuménica coçadela, darem-se uma mãozada forte e bem abanada, machos até mais não, "um destes dias temos de ir jantar". Eu, se me dão licença, proporia um terceiro momento de afirmação varonil nestes (re)encontros entre velhos compinchas: findo o parlapiê, sossegados os tomates e despachado o cumprimento, que cada um cheire a mão do outro, e então, sim, "adeus e até à próxima". Mas com máscara...
terça-feira, 18 de agosto de 2020
Ninguém passa cartão à Sra. Dra. Presidente?
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Praia de Matosinhos. O letreiro decreta, implacável: "AVISO - No âmbito das medidas previstas no Plano de Contingência Municipal para o COVID19, informa-se que, por determinação da Sra. Presidente da Câmara, este equipamento encontra-se encerrado por tempo indeterminado."
A proclamação está assinada pela "Presidente da Câmara, Dra. Luísa Salgueiro".
E eu não sei em quem acredite: se nas ordens categóricas e cristalinas da Sra. Dra. Presidente, se nas dezenas ou centenas de pessoas que diariamente se borrifam para a tabuleta autárquico e utilizam aquele "equipamento", sem qualquer tipo de afastamento social ou físico e sem quaisquer normas de limpeza e higienização...
