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segunda-feira, 30 de março de 2026

Proibições que são convites

Foto Hernâni Von Doellinger

Embora já andassem de Mercedes e/ou BMW, aqui há uns anos os senhores empreiteiros viam-se à rasca para perceberem onde podiam despejar o lixo que faziam nas demolições ou esburacamentos de início de obra. Não havia sítios de lei, largavam-no onde calhava, à noite, e fugiam. Atentas à insustentável situação e superpreocupadas com a defesa do ambiente e o bem-estar das populações, as autarquias portuguesas correram a criar uma rede de locais apropriados para o efeito nos montes à roda das vilas e cidades, de norte a sul do País. Em cada um desses locais jeitosos, os nossos preclaros autarcas mandaram colocar uma placa que avisava mais ou menos assim: "Proibido lançar entulho neste local - Coima até duzentos contos". E, pronto, os senhores empreiteiros ficaram a saber que era ali mesmo que podiam deitar o lixo.

O que é porreiro, porque, como se sabe, os senhores empreiteiros são muito amigos das autarquias e as autarquias são muito amigas dos senhores empreiteiros, e assim é que está bem, porque, já dizia o inventor das orgias, com respeito da palavra, isto temos de ser uns para os outros.

Agora. Os meus amigos que batem umas cartas ali em baixo, naquela cantinho abrigado à beira-mar, têm uma preocupação naftalínica que eu compreendo. Arriscar bisca com cheiro a mijo deve ser uma merda. Por isso puseram um letreiro novo, melhoramento infelizmente sem inauguração pela senhora presidenta da Câmara de Matosinhos, mas "sinalética" em material nobre, upgrade como manda a sapatilha, passando do cartão canelado para a esferovite, e com uma mensagem indubitavelmente mais assertiva e acutilante. E no entanto, como na história dos senhores empreiteiros, "Atenção - Não urinar neste local - Obrigado", se formos a ver, só quer dizer, pelo contrário, WC...

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Resíduo Zero.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando a água é uma merda

Foto Hernâni Von Doellinger

O estuário da ribeira da Riguinha e Carcavelos é a principal atracção turística da Praia de Matosinhos. E tem um valor ecológico incalculável. Mas não está legalmente protegido e essa omissão é um perigo, uma ameaça. Vamos admitir que, por absurdo, algum maluco episodicamente com poder se lembrava de subterrar ou desviar o curso de águas, introduzindo-o directamente no oceano, em alto mar, ou encarreirando-o, ainda antes disso, para uma ETAR: assim se destruiria um dos mais interessantes e bem frequentados gaivotais da costa portuguesa. Estais a ver o desastre?
Mais uma pergunta, já agora, e esta dirigida a quem manda, mas upa upa: para quando a criação da Reserva Natural do Gaivotal da Praia de Matosinhos? Era uma garantia, ficava o assunto resolvido.
A chamada ribeira da Riguinha - Riguinha e Carcavelos Stream, na placa propositada para camones - desce pelos intestinos da Circunvalação, chega à praia, atravessa a praia e entra no mar, à vista de toda a gente. A este santuário, estrategicamente localizado mesmo aos pés da famosa Anémona, resvés com a portuense Praia Internacional, as gaivotas acorrem aos milhares e ao cheiro. Porque a Riguinha cheira. Quase diariamente vistoriado pelos técnicos cheiradores das câmaras do Porto e Matosinhos, o estuário da Riguinha e Carcavelos parece a desembocadura de um esgoto. A Riguinha tem tudo para ser um bom esgoto, mas é uma ribeira de papel passado. Quando chove, a ribeira alimenta-se das sarjetas das ruas imundas e as gaivotas agradecem. As águas são gordurosas e amiúde recheadas, são ora pretas ora castanhas, sobretudo castanhas. E as gaivotas apreciam. E todo este património não se pode perder.
As gaivotas, que têm merda na barriga mas não na cabeça, não se acreditam que a Riguinha é uma ribeira. Acham que é um esgoto. E eu até as compreendo.

P.S. - Publicado aqui originalmente em Dezembro de 2012. Sim, há tanto tempo! Por estes dias, a Praia de Matosinhos está em risco de deixar de ser considerada zona balnear. É a única das cerca de 370 praias da orla marítima de Portugal continental que está nessa situação. Sobretudo por causa da Riguinha, mas não só.

Matosinhos perdeu a bandeira, e depois?

Foto Hernâni Von Doellinger

A Praia de Matosinhos perdeu a Bandeira Azul. A Praia de Angeiras Sul também, mas a mim interessa-me mais a de Matosinhos propriamente dita, por ser aqui no meu quintal. Aviso já que não sou praieiro, não compreendo os praieiros e nunca liguei à treta da Bandeira Azul. Os praieiros também não ligam, querem lá saber. O que eles querem é água com coliformes, a pele a derreter, areia nos olhos e boladas nos tomates. E são felizes assim. Eles gostam de sofrer.
A Bandeira Azul não é importante, não faz diferença nenhuma às pessoas, podeis crer. O povo vai na mesma para a praia. Nesse aspecto, a autarquia tem razão. Matosinhos perdeu a bandeira, e depois? Ainda por cima era azul (e branca). Até eu, que sou portista, achava que aquele farrapo esvoaçante era uma espécie de provocação e até insulto aos matosinhenses em geral. Vamos mas é pôr lá a bandeira do Leixões.

P.S. - Este textinho é Maio de 2012. Mas. A Praia de Matosinhos está, por estes dias, em risco de deixar de ser considerada zona balnear. É a única das cerca de 370 praias da orla marítima de Portugal continental nessa situação. E não saímos disto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Banhos de acento, recomendam-se

Banho ao cão
Mandaram-no dar banho ao cão, e ele deu. Aproveitou para limpar e lubrificar as estrias, o ferrolho e o gatilho.

Era sábado, ao cair da folha, pela manhãzinha. Felizmente não chovia e faltava uma semana para as eleições autárquicas. Joel Cleto, historiador e estrela da televisão, ia falar aos seus discípulos. Estávamos no princípio do Passeio Atlântico, à beira da Anémona, o Porto ao lado, e uma pequena multidão com saquinhos com o logótipo da Câmara de Matosinhos às costas, numa mão sempre o telemóvel e noutra os auriculares, esperava a vinda. Pacientemente. Não os contei um a um, mas, assim por alto, seriam duas ou três dezenas de "irredutíveis socialistas" - foi desta forma que me apeteceu imaginá-los, tendo em conta o festival de iniciativas que naquela maré varria o País, com as câmaras e juntas, todas as câmaras e juntas, a gastarem os últimos cartuchos em excursões, passeios e passeatas, comezainas, cantorias, artistas da televisão, pão e circo para o povo, todo o tipo de iniciativas culturais ou nem por isso. Esta, segundo li depois, tinha inscrições limitadas e seria uma caminhada através da variante do Caminho Português de Santiago, pela frente marítima, até à Praia de Angeiras. Com Joel Cleto como guia, embora as explicações ao longo do percurso talvez já estivessem apalavradas numa aplicação predeterminada.
Cleto, que não é alto, chegou, empoleirou-se no pequeno muro do Passeio, pigarreou e disse: - Recomendo que liguem [a tal app]. Não demora mais do que dois segundos e é "gratuíto"...
"Gratuíto", valha-me Deus, foi o que o historiador disse. "Gratuíto" com acento no "í"! Havia necessidade?...
Eu, passando casualmente, arrepiaram-se-me os pêlos das pernas perante semelhante, e não resisti. Virei-me para trás e gritei: - É gratuito! Gratuito! A palavra gratuito não tem acento!...
Dois casais do grupo ouviram-me. Ficaram a rir-se de mim, do velho barbudo em calções e de mochila, que seguiu em frente e certamente é tolinho. A minha mãe continua a ter razão: estou sempre a destoar.

Agora. Gratuito é uma palavra grave e não leva acento gráfico. A sílaba tónica é constituída pelo ditongo ui. A pronúncia da palavra gratuito é, portanto, "gratúito" e não "gratuíto". Assim como se diz "fortúito" e não "fortuíto", "circúito" e não "circuíto", "intúito" e não "intuíto".
O bom Joel Cleto, que eu estimo, não está sozinho na gafe, infelizmente. Telejornais e noticiários radiofónicos abundam e redundam no erro, neste e noutros da mesma raça. A palavra rubrica, por exemplo, nunca se escreve com acento, mas lê-se sempre como palavra grave. A sílaba tónica é a penúltima, "bri". Isto é, e passo a fazer o desenho, diz-se sempre "rubríca", como se tivesse acento no i, e nunca "rúbrica", como se tivesse acento no u. Quer signifique assunto específico ou título de capítulo determinado, quer se refira a assinatura abreviada. É sempre rubrica, rubrica, rubrica. Dizendo-se sempre "rubríca", "rubríca", "rubríca".
E, já agora, é período que se diz e não "periúdo". Período, sempre, em todos os múltiplos significados da palavra, inclusive os mais íntimos. E diz-se medíocre, tal qual se escreve, e não "mediúcre". É medíocre.
O mesmo se aplica à palavra escrita "proíbido", mas ao contrário. "Proíbido" não existe, é proibido.

Felizmente há instrução. "Instrução" é uma palavra antiga que significava saber ler e escrever e por aí acima ou adiante. Educação era outra coisa. "Instrução", para além da tropa, era também o conjunto de aulas teóricas ou práticas para tirar a carta de condução ou para se aprender a ser bombeiro, em Fafe, mas não é isso que vem aqui ao caso. Havia quem tivesse mais ou menos instrução, havia quem não tivesse instrução nenhuma, era muita gente assim naquele Portugal ressesso, povo que nunca pôde ir à escola, os analfabetos, mais de 25 por cento da população, sobretudo mulheres, no tempo de Salazar, começavam a trabalhar aos sete/oito anos de idade, as meninas postas "a servir" pelos pais pobres e ignorantes, e assinavam de cruz. "O vinho é que induca, o fado é que instrói", dizia-se, mas os sábios do fascismo diziam muitas outras parvoíces do género e mandavam encaixilhar, como, por exemplo, "quem não é do Benfica não é bom chefe família".
A bitola da "instrução" era a Escola Primária, o Exame da Quarta e ponto final. Aprendia-se o essencial, incluindo os acentos nas palavras, os acentos faziam parte. Coisa simples, escrever e dizer as palavras como elas devem ser escritas e ditas. As novas gerações são hoje, felizmente, muito mais instruídas, tituladas, copiosas em licenciaturas, mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos, mas amiúde não sabem de acentos, desprezam as concordâncias, ensarilham-se nas vírgulas, confundem palavras, escrevem "exitou" quando a ideia era escrever hesitou, ainda ontem vi isso num jornal, e fartam-se de conjugar o verbo "tar".
Um bom banho de acento é o que lhes recomendo. Do fundo do coração. Se fosse herpes genital, hemorróidas, ardências, dores ou comichões nas partes, então recomendaria o outro, o velho banho de assento. De caras.

(Versão revista, actualizada e bastante aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 5 de outubro de 2025

É gratuito, Joel Cleto, gratuito!

Foto Hernâni Von Doellinger

Um sábado qualquer, por acaso ontem, cerca das 8h15. Joel Cleto, historiador e estrela da televisão, ia falar aos seus discípulos. Era o princípio do Passeio Atlântico, à beira da Anémona, e uma pequena multidão com saquinhos com o logótipo da Câmara de Matosinhos às costas, numa mão sempre o telemóvel e noutra os auriculares, esperava a vinda. Não os contei um a um, mas, assim por alto, seriam duas ou três dezenas de "irredutíveis socialistas" - foi desta forma que me apeteceu imaginá-los, tendo em conta o festival de iniciativas autárquicas que por aí vai, aqui e em todo o lado, nas vésperas das eleições do próximo domingo. Esta, segundo li depois, com inscrições limitadas, seria uma caminhada através da variante do Caminho Português de Santiago, pela frente marítima, até à Praia de Angeiras. Com Joel Cleto como guia, embora as explicações ao longo do percurso talvez já estivessem apalavradas numa aplicação predeterminada.
Cleto, que não é alto, chegou, empoleirou-se no pequeno muro do Passeio, pigarreou e disse: - Recomendo que liguem [a tal app]. Não demora mais do que dois segundos e é "gratuíto"...
"Gratuíto", valha-me Deus, foi o que o historiador disse. "Gratuíto" com acento no "í"! Havia necessidade?...
Eu, passando casualmente, arrepiaram-se-me os pêlos das pernas perante semelhante, e não resisti. Virei-me para trás e gritei: - É gratuito! Gratuito! A palavra gratuito não tem acento!...
Dois casais do grupo ouviram-me. Ficaram a rir-se de mim, do velho barbudo em calções e de mochila, que seguiu em frente e certamente é tolinho. A minha mãe continua a ter razão: estou sempre a destoar.

Agora. Gratuito é uma palavra grave e não leva acento gráfico. A sílaba tónica é constituída pelo ditongo ui. A pronúncia da palavra gratuito é, portanto, "gratúito" e não "gratuíto". Assim como se diz "fortúito" e não "fortuíto", "circúito" e não "circuíto", "intúito" e não "intuíto".
O bom Joel Cleto, que eu estimo, não está sozinho na gafe, infelizmente. Telejornais e noticiários radiofónicos abundam e redundam no erro, neste e noutros da mesma raça. A palavra rubrica, por exemplo, nunca se escreve com acento, mas lê-se sempre como palavra grave. A sílaba tónica é a penúltima, "bri". Isto é, e passo a fazer o desenho, diz-se sempre "rubríca", como se tivesse acento no i, e nunca "rúbrica", como se tivesse acento no u. Quer signifique assunto específico ou título de capítulo determinado, quer se refira a assinatura abreviada. É sempre rubrica, rubrica, rubrica. Dizendo-se sempre "rubríca", "rubríca", "rubríca".
E, já agora, é período que se diz e não "periúdo". Período, sempre, em todos os múltiplos significados da palavra, inclusive os mais íntimos. E diz-se medíocre, tal qual se escreve, e não "mediúcre". É medíocre.
O mesmo se aplica à palavra escrita "proíbido", mas ao contrário. "Proíbido" não existe, é proibido.

domingo, 31 de agosto de 2025

De rapina, mas pouco

Foto Hernâni Von Doellinger

Saiu em todos os jornais e deu em todas as televisões. A Câmara de Matosinhos contratou duas águias para afastar as gaivotas daquele bocado de praia que vai desde a Anémona ao Paredão. Rico emprego. "Todos os dias, das 7h00 às 9h00 e, depois, das 17h00 às 21h00, até ao fim do Verão", diziam as notícias. Grande tanga!
Quer-se dizer. As águias lá andam diariamente dependuradas nos braços dos "tratadores", muito sossegadas, muito envergonhadas, passeando de uma ponta à outra do areal, de cu tremido, dando nas vistas como atracção turística, tirando fotos com os praieiros, espreguiçando as asas de vez em quando, calaceiras até mais não, mas vigiar gaivotas é que nada, afugentar gaivotas é que nada, afastar gaivotas é que nada, enxotar gaivotas é que nada. As gaivotas estão em casa, chegaram primeiro, dali não saem, dali ninguém as tira! Agora, na Praia de Matosinhos, são as gaivotas do costume mais duas águias, de visita, compinchas, em mansa confraternização, em amena cavaqueira, conversando talvez a respeito das eleições de 12 de Outubro.
As gaivotas riem-se e eu também. Eu sou pelas gaivotas.

sábado, 10 de maio de 2025

Senhor de Matosinhos 2025


Festas do Senhor de Matosinhos, de 23 de Maio a 15 de Junho. Este ano, concertos com Matias Damásio, Richie Campbell e Dino D'Santiago. O cartaz das festas é da autoria do escritor Valter Hugo Mãe. Programa completo e toda a informação, aqui.

domingo, 22 de dezembro de 2024

O Natal do ano que vem

Foto Hernâni Von Doellinger

Estou em condições de revelar em primeira mão: o Natal de 2025 vai ser assim em Fafe. Esta será a iluminação principal, na avenida da Câmara. Pelo menos se se cumprir a tradição. Porque esta é a iluminação deste ano em Matosinhos e a iluminação do Natal de Matosinhos costuma servir para Fafe no ano seguinte. Repito: se isto é importante? Não, não é. Mas chateia-me.

sábado, 21 de dezembro de 2024

Um Natal atrás do outro

Foto Município de Fafe

Ponto prévio: sou de Fafe e moro em Matosinhos. E agora, a esse respeito, o seguinte: a principal iluminação do Natal deste ano em Fafe, na avenida da Câmara Municipal, é a mesma iluminação do Natal do ano passado em Matosinhos, no jardim da Câmara Municipal. Se isto é importante? Não, não é. Mas chateia-me.

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 13 de outubro de 2024

Os "aitens" da Senhora Presidenta

Foto Hernâni Von Doellinger

Comentava-se o Orçamento de Estado na rádio Antena 1, à hora do almoço. Luísa Salgueiro, presidenta da Câmara de Matosinhos, foi convidada a dar a sua opinião, na qualidade de também presidenta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses - ANMP. Como se tivesse lido o documento de ponta a ponta mesmo antes de ele ter sido entregue na Assembleia da República, a autarca de todos os autarcas falou, falou, falou, aliás como costuma falar. E referiu-se, nomeadamente, aos "aitens" do Orçamento, aos diversos e variados "aitens", eu ia buscar uma maçã à cozinha, o rádio estava aceso e, palavra de honra, obliterei-me como que por relâmpago, trouxe mais um jarro de água, porque entretanto perdi-me, e eu queria comer, não era beber. Perdi-me nos "aitens" da Senhora Presidenta. 
"Aitens"? Mas quais "aitens"? "Aitens"? A sério? A palavra item era um advérbio latino. Latino, não germânico ocidental ou anglo-frísio. E assim ficou em português. A forma correcta de pronunciar a palavra item é "íteme", à maneira latina, ou, parece-me melhor, "ítem", na forma aportuguesada. O plural de item é itens, dizendo-se "ítens".
A Senhora Presidenta disse "aitens" e eu, claro, lembrei-me de Salazar, da velha anedota de quando o ditador foi de visita a Inglaterra. Resumindo, e sem ofensa para os novos fascistas, do Chega ou não: Salazar, que usava vaso de noite e viajou acompanhado pelo seu mordomo Francisco, não sabia falar inglês, mas disseram-lhe que era fácil, o português era igualzinho ao inglês, bastava trocar o "i" por "ai". A meio da noite, apertadinho, o presidente do Conselho chamou, com o mais perfeito sotaque londrino - Ó Chaico, traz-me o penaico!
Era apenas uma anedota, um bocado ingénua, talvez oposicionista, se calhar Salazar até sabia falar muito bem inglês, basta ouvir António Guterres hoje em dia, mas foi dela, da anedota, e dele, Salazar, que eu me lembrei ao ouvir os "aitens" da Senhora Presidenta.
Eu sei que Luísa Salgueiro não está sozinha quando assim manifesta esta espécie de analfabetismo chique (aliás, "chaique"). Os "aitens" andam por aí de boca em boca, na boca de toda a gente, repetidos, normalizados, modernos, como se a patacoada já fosse regra gramatical. Não é. E incomodou-me, doeu-me, envergonhou-me particularmente ouvir a Senhora Presidenta a asnear ali na rádio nacional, à vista do país inteiro. Fiquei sentido por ser ela. Tocou-me como se fosse comigo. Porque, a verdade é só uma, moro em Matosinhos, a Senhora é a minha Presidenta e eu, ainda por cima, faço-lhe muito gosto.

(Agora outra coisa, que não tem nada a ver. As velhas anedotas de Salazar, que certamente ele também terá herdado de outro figurão que eu não sei, passaram depois para Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente. E assim sucessivamente.)

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Adeus e até ao meu regresso

Foto Hernâni Von Doellinger

A ponte móvel de Leixões, em Matosinhos, vai fechar para obras. Isto é, vai fechar outra vez para obras. Desde que foi inaugurada, em 2007, fechar para obras é, podemos dizer assim, o estado normal da também chamada ponte móvel de Leça. Foi feita para isto, é a sua vocação. A ponte, que custou 14 milhões de euros, abriu, por assim dizer, para estar fechada, tantas as avarias que vem registando ao longo dos anos, derivado sobretudo a um arreliador problema de rótulas, doença crónica e talvez hereditária, e ninguém a leva ao ortopedista.
Desta vez, segundo anúncio em Diário da República, a ponte vai estar em obras durante pelo menos 14 meses, três dos quais, no mínimo, completamente fechada. Exactamente, 14 meses no estaleiro, se não chover, e este tempo anda deveras incerto. Devo, no entanto, declarar, em abono da verdade: a mim, que moro aqui ao lado e preciso diariamente da ponte, 14 meses nem me parece nada de mais, não me atrevo sequer a criticar. Se fossem, vamos dizer por exemplo, 14 anos, aí então, se calhar, querendo eu ser picuinhas, já poderia ter alguma razão de queixa, mas assim não. O que é que são 14 meses? Assim está tudo bem...

sexta-feira, 22 de março de 2024

O dia da árvore (vir abaixo)

Foto Hernâni Von Doellinger

Afinal o dia da árvore é hoje, e não foi ontem, pelo menos para o carro do vizinho que acaba de levar com uma em cima. A prevaricadora é a árvore número 12, apenas duas adiante da minha, e finalmente começo a perceber porque é que elas agora são numeradas e etiquetadas. Assunção de responsabilidade civil. Já cá estão a polícia, os bombeiros e funcionários da autarquia, a área foi devidamente selada pelas autoridades forenses, a rua está cheia de mirones, turistas, romeiros e foliões. Há teorias e palpites. Para além das tradicionais poeiras africanas, anda por aqui uma praga de joaninhas e meia árvore desabou inopinadamente numa manhã sem vento. De podre terá caído - como o PS, por assim dizer. Já ouço as motosserras oficias. A 12 vai para lenha, e é muito bem feito. Espera-se a todo o momento a chegada da senhora presidenta da Câmara, da CMTV e da CNN. Matosinhos é uma festa!