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segunda-feira, 27 de julho de 2026

O esperanto em português suave

A mim ninguém me leva!
Quem frequenta regularmente oftalmologistas, optometristas e oculistas, sabe muito bem: os óculos estão pela hora da morte. Um par de óculos de apenas razoável qualidade custa-nos os olhos da cara. O que se paga por uns óculos dá para comprar um carro em segunda mão. Ou, em alguns casos, até dois carros em segunda mão. E foi o que eu fiz: desisti dos óculos, que a mim ninguém me leva, peguei no dinheiro que lhes tinha destinado e adquiri pela internet uma viatura "em razoável estado de conservação e óptimo consumo". Fiquei muito bem servido. Por outro lado, não sei conduzir, o automóvel nem sequer pega e eu praticamente não vejo.

O turista estrangeiro aproximou-se do vendedor de óculos de sol de beira de praia. Era obviamente um turista estrangeiro, só eu e os turistas estrangeiros é que sabemos malvestir tão bem, nunca me engano a esse respeito. O vendedor de óculos de sol de beira de praia é português dos quatro costados, conheço-o de ginjeira, Verão atrás de Verão, monta banca todos os dias ali em baixo e quando chove é vendedor de guarda-chuvas de beira de praia. É, além disso, ambulante, mas apenas para fugir à polícia municipal, e um grande fala-barato, fala que se desunha, inclusive pelos cotovelos, é um chato, "Olha os óculos, freguês, toalhinha prà praia, olha os óculos, olha a toalhinha, óculos, toalhinha, freguês...", e faz gestos explicativos, como quem comunica com índios ou talvez com surdos. Ele também percebeu logo que o cliente era estrangeiro. Mas pensais que se atrapalhou, que se encolheu? Era o que faltava! Nós os portugueses temos connosco esta habilidade extraordinária de nos desenrascarmos sempre, seja em que situação for, cá em casa, lá fora ou pelo caminho, mesmo debaixo de água ou na estratosfera, aprendemos línguas, copiamos hábitos, camaleonizamo-nos, universalizamo-nos, se calhar nós é que inventámos o esperanto, não foi nada o polaco Ludwig Zamenhof, que por acaso também era oftalmologista. Possuímos, sem dúvida, este superpoder de desembaraço, improvisação e adaptação que tomaram muitos, até os americanos, e que fez dos portugueses assim ditos um povo das sete partidas do mundo por excelência. E nem é preciso ir mais longe: olhemos por nós abaixo, os fafenses, nesta acalorada época do ano, as nossas esplanadas rebentam pelas costuras e a língua oficial é o francês, toda a gente fala francês, mesmo quem não sabe falar francês, e até parece que estamos na Póvoa de Varzim.

Ou por outra. Era no passeio à beira-mar, mas podia ser em Cima da Arcada. Portanto, o turista estrangeiro abeirou-se do vendedor de óculos português e perguntou: - The glasses, how much?... (Estais a ver como eu tinha razão? Era ou não era um turista estrangeiro?).
E foi um clique, um cagagésimo de segundo bastou para que o rapidíssimo cérebro do nosso vendedor português mudasse o chip, fazendo um entre parênteses na língua do Camões e virando-se imediatamente para Shakespeare, para a língua inglesa. Cheio de segurança e enorme poliglotismo, respondeu ao camone, marcando ostensivamente as sílabas no mais escorreito acento oxfordiano: - Quali? Quali qui tu quieres?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi Dia do Esperanto. E hoje é Dia de Levar as Plantas a Passear, palavra de honra.)

domingo, 24 de maio de 2026

Parque natural

Era um parque natural. Um excelente parque natural, diga-se em abono da verdade. Descampado, chão de terra, pedra e erva, e nem precisou de obras. Cabiam ali, bem à vontade, para cima de cem carros. Era um parque natural.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

No mecânico

- Posso pedir um disco?
- Pode.
- E pastilhas?
- Na farmácia aqui ao lado...

P.S. - Hoje é Dia do Disco, também conhecido como Dia do Disco de Vinil.

segunda-feira, 16 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Motorista em teletrabalho

A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada. 

Entreguei a carteira profissional de jornalista e agora sou motorista de TVDE. Não tenho carro, não tenho carta, não sei conduzir e vejo-me à rasca com as novas tecnologias, mas motorista de TVDE é o que está a dar. Liberdade, autonomia, independência e flexibilidade no emprego. Regalo-me de passear. E nem preciso de sair de casa. Sou motorista de TVDE em regime de teletrabalho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Para quem já viu um porco a andar de bicicleta

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Olá, boneca!

Ah!, o amor moderno...
Jovem par de namorados. Abraçam-se, beijam-se, apalpam-se efusivamente nas intimidades, parece-me até que copulam. Sim, copulam. E vão consultando os respectivos telemóveis.

Factos reais como punhos. Manhã de sábado, A28, direcção Matosinhos-Viana do Castelo, um pouco antes da saída para Vila do Conde, por onde costumo atalhar para Fafe. À minha frente segue uma velha carrinha Renault 4L, de um cor-de-rosa altamente suspeito e vagaroso. Aproximo-me, com o fastio próprio dos condutores domingueiros que já não têm paciência para os condutores domingueiros, mas arrebita-se-me a atenção quando, mesmo em cima dela, leio os dizeres da viatura. São uns dizeres sugestivos e muitos, reclames açucarados a um loja de prazeres - sex-shop, como se diz e escreve em português moderno.
E vejo finalmente os ocupantes, ainda por trás: é o do volante e, ao lado, uma louraça de fazer parar o trânsito. Mas eu avanço. Avanço cuidadosamente para a ultrapassagem, olho para o condutor e o condutor sorri malandro. E eu continuo a olhar e o condutor continua a sorrir. Atenção: eu posso olhar e continuar a olhar, porque eu não conduzo, não sei conduzir, nem sequer tenho carta. Vou de pendura. Brincalhão, o condutor. A rapariga não sorri, não me liga nenhuma, segue impávida e serena, olha sempre em frente, tomando talvez sentido à estrada, ainda mais loura do que há bocado e, reparo agora, tem uns lábios vermelhos e escarrapachados, desafiadores.
A minha mulher desliga o pisca e então é que se me faz luz. A indivídua da catrel é uma boneca. Uma boneca mesmo, de plástico, com pipo, uma boneca insuflável, de carregar pela boca. O condutor olha para mim e sorri cada vez mais, no gozo, satisfeitíssimo, completo, não sei onde é que a moça levava as mãos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Fetiche.)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O novo administrador

Ele tomou posse e imediatamente operou uma revolução completa na frota da empresa. Os veículos passaram a chamar-se viaturas.

P.S. - Hoje é Dia Nacional da Desburocratização.

sábado, 20 de setembro de 2025

À escolha

Hoje é Dia do Panda Vermelho. Amanhã poderá ser, quem sabe, Dia do Clio Azul.

P.S. - Hoje é Dia do Panda Vermelho.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Mobilidade, é uma forma de dizer

"Atenção, Braga. Semana Europeia da Mobilidade vai condicionar trânsito", avisa o jornal O Minho, em título estrondoso. E explica, logo a seguir: "A Câmara de Braga informou, esta sexta-feira, que devido à realização da Semana Europeia da Mobilidade 2025, várias ruas vão estar condicionadas ao trânsito automóvel."
Eu, palavra de honra, era capaz de jurar que há qualquer coisa aqui que não bate certo, encrencar o trânsito para promover a "mobilidade", mas os doutores da Câmara decerto é que sabem...