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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Cada um tinha a sua cruz

Macaquinhos no sótão
Ele tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.

Levava um banquinho de madeira e sentava-se em Cima da Arcada, de guarda-sol aberto, em dias assim-assim, geralmente pouco nublados, e um caderninho de folhas quadriculadas, todos os dias. Se por acaso invernasse, o guarda-sol chamava-se guarda-chuva. Mas ele. Ele espertava os olhos cansados, via sair, e tomava nota. Saíam do Mário da Louça, do Damião Monteiro, do Império, do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Talho Novo, do Romeu, da Caixa, do Martins da Avenida, do Rabeca, da Câmara, do Café Avenida, da Peninsular, do Moniz Rebelo, das camionetas do João Carlos Soares, da Juditinha, do Sanica, do Casinhas, da Senhora Eufémia, do Américo das Bicicletas, do Alfredo Sapateiro, das Lobas, do Club, da Pacata, da Loja Nova, da Casa da Cera, dos Armazéns Cunha, do Banco, do Martins Relojoeiro, da Electra, do Manel do Campo, até saíam do Escondidinho. Saíam, e ele registava a lápis lambido, mão trémula porém infalível.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Santa Cruz.)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Época de incêndios, como manda a lei

No sítio errado à hora errada
Chegam os incêndios, e os bombeiros vão logo para as televisões, comentar.

De que se queixa este povo? Estamos em plena "Época de incêndios", e atenção que não fui eu quem lhe pôs o nome e a agendou para esta altura do ano - foi o Governo, foi Portugal! Portanto, estamos na "Época de incêndios", legítima, de papel passado, dentro do prazo, no tempo certo, como se fosse obrigatória, ai dela se não viesse depois do dinheiro que foi gasto, e queriam o quê? Inundações?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial de Prevenção de Incêndios Florestais.)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O Silva dos plásticos

Fui à peixaria. Pedi meio quilo de fanecas e a senhora meteu-mas num saco de plástico; pedi meio quilo de lulas e a senhora meteu-mas num saco de  plástico; pedi dois carapaus e a senhora meteu-mos num saco de plástico; pedi meia dúzia de marmotinhas e a senhora meteu-mas num saco de plástico; pedi uma mão-cheia de petinga e e senhora meteu-ma num saco de plástico; pedi uma solha e a senhora meteu-ma num saco de plástico. A senhora:
- Que mais?
- É tudo.
- Quer um saco?
- Como sempre.
- São dez cêntimos.
- Este peixe todo?
- O saco é que custa dez cêntimos.
- Porquê?
- Porque é de plástico.
- E?
- É para proteger o ambiente.
- E os seis saquinhos com o peixe?
- São de graça.
- Não são de plástico?
- São.
- E só o sétimo é que prejudica?
- Não sei. Pergunte ao Moreira da Silva.

P.S. - Publicado originalmente no dia 24 de Fevereiro de 2015. Jorge Moreira da Silva é do PSD. Foi ministro do Ambiente no tempo de Pedro Passos Coelho e, exactamente em 2015, pôs os sacos de plástico a pagar imposto, com um sucesso que só visto. Hoje é Dia Internacional Sem Sacos de Plástico.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O ambiente tem dias

No Parque da Cidade do Porto há cisnes-mudos, guarda-rios, gansos-bravos, gansos-do-egipto, patos-reais, galinhas-d'água, galeirões-comuns, guinchos-comuns, piscos-de-peito-ruivo, gaivotas-argênteas, gaivotas-d'asa-escura, melros-pretos, marçaricos-das-rochas, rolas-do-mar, chapins-reais, garças-brancas-boieiras, garças-reais, corvos-marinhos, mergulhões-pequenos, pardais-comuns e pegas, enguias-europeias, gambúsias, peixes-gatos, percas-sol e pimpões. Esta é a população oficialmente recenseada. Mas também há coelhos e toupeiras, tartarugas, gatos e cães vadios, pombas e pombos, galinhas que eu bem as vejo, papagaios e outros benfiquistas, corredores, andadores e passeadores afins, rãs, sapos e salamandras, lesmas e caracóis, grilos e gafanhotos, borboletas a certa hora, sardaniscas e lambisgóias, sardões com e sem rabo, espreitas e bicicletas, cavalos-republicanos às vezes, burros de um modo geral. E mais de cem espécies vegetais, nomeadamente muito erva e muitas flores, que apreciam particularmente, tanto quanto se sabe, a quietude e o devaneio que lhes são de natureza.
No tempo do Primavera Sound, que, nem de propósito, é agora e rebenta com toda a potência já daqui a meia dúzia de dias, no Parque da Cidade do Porto há também camiões, guindastes e contentores, dezenas de geradores, quilómetros de fios e cablagens, megapalcos, supertendas, barracas, tonéis de cerveja cheios e esvaziados vezes sem conta nem medida, toneladas de lixo e pés, decibéis à solta, ameaços de terramotos, aluimentos, quem dera que não chova, Deus queira que não caia. Há vedações e avisos, pedimos desculpa pela interrupção, o parque segue dentro de dias, prometemos deixar tudo como estava. E quem estiver mal, que se mude.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Ambiente.

Meio ambiente

Pergunto: o ambiente não seria melhor se fosse inteiro?

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Ambiente.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Jardins perdidos

Traz uma árvore também
Era uma localidade um bocadinho estranha, naturalmente austera porém exuberantemente moderna e cosmopolita. Nas suas principais entradas, a autarquia colocara frondosas tabuletas que avisavam os forasteiros: "Se quiser sombra, traga a sua própria árvore".

Os jardins era uma coisa que existia antigamente. Como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides e assim. Era uma coisa muito antiga, do tempo dos romanos, basta ver que Deus, quando criou o mundo, o mundo era um jardim, mais ou menos como a Madeira, mas chamava-se Éden, como o velho cinema de Lisboa, ou Jardim do Éden ou Jardim das Delícias ou Paraíso Terreal ou simplesmente Paraíso, como o novo cinema de Palazzo Adriano. O plural de Éden é édenes, convém não esquecer.
E corria tudo bem no Paraíso. Quer-se dizer: corria tudo na paz do Senhor. Poder-se-ia até afirmar, creio que sem forçar demasiado a nota, que o Paraíso era, naquele tempo, um autêntico paraíso. Estava escrito, porém, que Adão e Eva tinham de asnear. Podiam ter cometido um pecado qualquer, um pecadinho de nada, um pecado repetido, copiado, um que estivesse na moda. Mas não! - quiseram ser originais. E foram. Adão e Eva cometeram o pecado original e deu na merda que deu. Até hoje.
Eu sou desse tempo. Do tempo em que ainda havia jardins. Não se sabe bem se foi por causa dos traques dos dinossauros ou derivado ao impacto de um asteróide gigante, eventualmente do tamanho de uma cidade, a verdade é que coisas antigas como os castelos, as pinturas rupestres, as pirâmides, os jardins e assim foram regra geral varridas da face da Terra, restando hoje em dia apenas algumas amostras assumidamente raras e razoavelmente arqueológicas.
Para que a Humanidade tenha pelo menos uma vaga ideia de como era o mundo em Portugal antes do apocalipse é que Portugal descobriu Vila Nova de Foz Côa, por exemplo, e Fafe mantém às vezes de porta aberta o vetusto Jardim do Calvário, que nos seus tempos mais pré-históricos até teve crocodilos, e bem barulhentos, isso toda a gente sabe.
Os jardins antigos, os jardins entretanto desaparecidos, foram substituídos por urbanismo, é assim que se chama a nova coisa. E como é que isso se fez? Como é que isso se faz?

Desta maneira simples. Pegue-se num bom pedaço de terreno relvado, com árvores e com sombras, e arrase-se tudo. O terreno, a relva, as árvores e as sombras. O urbanismo não quer sombras. Encha-se o espaço de alcatrão, cimento, placas de granito e mármore, pedregulhos aparelhados fazendo de conta de bancos e estacas de alumínio a imitarem árvores ou, quem sabe, a imitarem esculturas muito inteligentes e indecifráveis, de preferência com esguichos mas sem água derivado à seca e à poupança. Isto é urbanismo! Pegue-se no jardim da cidade, arranquem-se as flores e os arbustos, envenene-se o verde, construam-se desertos em forma de praça e mandem-se as pessoas para casa. Isto é urbanismo! Pegue-se num monte, sítio de memórias, de brincadeiras da infância, santuário de locais secretos e míticos, reserva de saúde e natureza, e corte-se-lhe a crista, cape-se, desarborize-se, desfaune-se, terraplene-se, enxote-se a bicharada, cale-se o incómodo do chilreio dos pássaros, ergam-se moradias de preferência com feitio de caixote, altas, pegadas e muitas, fechadas, e muros e portões e alarmes e estradas e carros e escapes e buzinas e estampanços e atropelamentos e antenas parabólicas e fios e postes de alta ou remediada tensão. Isto é urbanismo!

Resumindo e concluindo: roubam-nos os jardins e dão-nos esplanadas desamparadas e escaldantes, arrancam-nos as árvores e impingem-nos guarda-sóis publicitários. E, se nos queixamos, dizem-nos que não percebemos nada do assunto. Mas qual assunto? Viver?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional dos Jardins.)

As árvores

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 24 de maio de 2026

Parque natural

Era um parque natural. Um excelente parque natural, diga-se em abono da verdade. Descampado, chão de terra, pedra e erva, e nem precisou de obras. Cabiam ali, bem à vontade, para cima de cem carros. Era um parque natural.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)

Frescuras

- E o que vai ser?
- Um parque.
- Fresco? 
- Natural, se faz favor.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Turistas de natureza

Mal rompeu o dia, e não foi bem um romper, foi um aparecer pé ante pé, saltaram aos magotes para o Passeio Atlântico, ali em baixo. São fáceis de identificar, famílias inteiras vestidas de fato-treino de domingo e telemóvel armado em máquina fotográfica, só lhes falta o merendeiro. Querem saber com os próprios olhos se a Praia de Matosinhos foi engolida pelo temporal que deu nas televisões, se pura e simplesmente desapareceu do mapa. Ficam desiludidos: a praia ali estava normalíssima da silva, descansada da vida, inteira, cheia de areia e de gente a jogar beach tennis, que é o que está a dar. Os magotes desmobilizam, as famílias tornam a casa, telemóveis murchos, num desgosto que só visto. Vão comer frango de churrasco, comprado a meio caminho, e assistir à desgraça como deve ser nas televisões. As televisões não falham. Para a semana, se Deus quiser, vão de bicicleta visitar um eucaliptal que é uma categoria. São turistas de natureza. Quero dizer: de natureza... duvidosa.

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Biodiversidade.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O meu banco explora-me

Serei o único?
Eu acho estranho. Quanto mais faço o serviço do banco, mais o banco me cobra pelo serviço que não faz. É só comigo?

O meu banco escreve-me um email e diz-me: "Junto enviamos o seu extrato em formato digital. Pode agora consultar de forma rápida, cómoda e ecológica os movimentos do mês passado." O meu banco mente-me com quantos dentes lá guarda. O formato digital não é a forma mais rápida de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; o formato digital não é a forma mais cómoda de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; e não acredito que o meu banco tenha um cêntimo sequer de preocupação ecológica.
E que se segue? Indiferente aos meus mais veementes protestos e sucessivos atestados de velhice e antiguidade, o meu banco deixou mesmo de gastar papel comigo e, três anos depois, sem dizer água vai, passou a cobrar-me 5,41 euros mensais de "comissão de manutenção". E agora, sei lá se por derradeira vingança, obriga-me a ser eu próprio a realizar todo o (pouco) trabalho que antes fazia por mim. Quer-se dizer: para além de me mentir, o meu banco também me explora. Eu não me parece bem, lá isso não. Mas vou-me queixar a quem? Ao Totta? O meu banco é o Millennium, valha-me Deus...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Flores ao solheiro

A invenção da sogra
Consta que os muçulmanos introduziram a nora em Portugal. Gostaria de saber: e quem terão sido os espertinhos que nos introduziram a sogra?

Um restinho de sol e lá se sentavam elas comparando doenças e façanhas de netos havidos ou inventados. Rosa, Violeta, Hortênsia, Camélia, Margarida, Dália, Açucena - evidentemente no jardim imaginário, ao entardecer da vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Sogra.)

segunda-feira, 30 de março de 2026

O Ativista maiúsculo mas sem cê

Entre a inteligência artificial e a estupidez natural, o Ativista não tinha a menor dúvida: estupidez natural, sempre! 

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Resíduo Zero. 

sábado, 21 de março de 2026

A n.º 10 de Tomás Ribeiro Street

Foto Hernâni Von Doellinger

À porta do meu prédio tenho uma árvore, tenho uma árvore à porta do meu prédio. Nunca poderei esquecer este acontecimento, com licença de Carlos Drummond de Andrade. A minha árvore é a número 10. Não sei por que razão as árvores são agora numeradas e etiquetadas. Nem percebo como é que as florestas antigas conseguiram salvar-se sem serem numeradas e etiquetadas. Sou um simples: acredito que tudo tem o seu propósito e contento-me com as coisas conforme elas se me apresentam. Para além disso, o número 10 parece-me um bom número.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Árvore. E Dia Internacional da Floresta, mas floresta não tenho.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Motorista em teletrabalho

A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada. 

Entreguei a carteira profissional de jornalista e agora sou motorista de TVDE. Não tenho carro, não tenho carta, não sei conduzir e vejo-me à rasca com as novas tecnologias, mas motorista de TVDE é o que está a dar. Liberdade, autonomia, independência e flexibilidade no emprego. Regalo-me de passear. E nem preciso de sair de casa. Sou motorista de TVDE em regime de teletrabalho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando a água é uma merda

Foto Hernâni Von Doellinger

O estuário da ribeira da Riguinha e Carcavelos é a principal atracção turística da Praia de Matosinhos. E tem um valor ecológico incalculável. Mas não está legalmente protegido e essa omissão é um perigo, uma ameaça. Vamos admitir que, por absurdo, algum maluco episodicamente com poder se lembrava de subterrar ou desviar o curso de águas, introduzindo-o directamente no oceano, em alto mar, ou encarreirando-o, ainda antes disso, para uma ETAR: assim se destruiria um dos mais interessantes e bem frequentados gaivotais da costa portuguesa. Estais a ver o desastre?
Mais uma pergunta, já agora, e esta dirigida a quem manda, mas upa upa: para quando a criação da Reserva Natural do Gaivotal da Praia de Matosinhos? Era uma garantia, ficava o assunto resolvido.
A chamada ribeira da Riguinha - Riguinha e Carcavelos Stream, na placa propositada para camones - desce pelos intestinos da Circunvalação, chega à praia, atravessa a praia e entra no mar, à vista de toda a gente. A este santuário, estrategicamente localizado mesmo aos pés da famosa Anémona, resvés com a portuense Praia Internacional, as gaivotas acorrem aos milhares e ao cheiro. Porque a Riguinha cheira. Quase diariamente vistoriado pelos técnicos cheiradores das câmaras do Porto e Matosinhos, o estuário da Riguinha e Carcavelos parece a desembocadura de um esgoto. A Riguinha tem tudo para ser um bom esgoto, mas é uma ribeira de papel passado. Quando chove, a ribeira alimenta-se das sarjetas das ruas imundas e as gaivotas agradecem. As águas são gordurosas e amiúde recheadas, são ora pretas ora castanhas, sobretudo castanhas. E as gaivotas apreciam. E todo este património não se pode perder.
As gaivotas, que têm merda na barriga mas não na cabeça, não se acreditam que a Riguinha é uma ribeira. Acham que é um esgoto. E eu até as compreendo.

P.S. - Publicado aqui originalmente em Dezembro de 2012. Sim, há tanto tempo! Por estes dias, a Praia de Matosinhos está em risco de deixar de ser considerada zona balnear. É a única das cerca de 370 praias da orla marítima de Portugal continental que está nessa situação. Sobretudo por causa da Riguinha, mas não só.

Matosinhos perdeu a bandeira, e depois?

Foto Hernâni Von Doellinger

A Praia de Matosinhos perdeu a Bandeira Azul. A Praia de Angeiras Sul também, mas a mim interessa-me mais a de Matosinhos propriamente dita, por ser aqui no meu quintal. Aviso já que não sou praieiro, não compreendo os praieiros e nunca liguei à treta da Bandeira Azul. Os praieiros também não ligam, querem lá saber. O que eles querem é água com coliformes, a pele a derreter, areia nos olhos e boladas nos tomates. E são felizes assim. Eles gostam de sofrer.
A Bandeira Azul não é importante, não faz diferença nenhuma às pessoas, podeis crer. O povo vai na mesma para a praia. Nesse aspecto, a autarquia tem razão. Matosinhos perdeu a bandeira, e depois? Ainda por cima era azul (e branca). Até eu, que sou portista, achava que aquele farrapo esvoaçante era uma espécie de provocação e até insulto aos matosinhenses em geral. Vamos mas é pôr lá a bandeira do Leixões.

P.S. - Este textinho é Maio de 2012. Mas. A Praia de Matosinhos está, por estes dias, em risco de deixar de ser considerada zona balnear. É a única das cerca de 370 praias da orla marítima de Portugal continental nessa situação. E não saímos disto.

sábado, 20 de setembro de 2025

Não há dinheiro, não há praia!

Hoje, terceiro sábado de Setembro, é Dia Internacional da Limpeza Costeira. Limpeza costeira, ora bem. Decerto era a isso que a Senhora Dona Paula Bobone, essa colossal cabeça, se referia aqui atrasado quando opinou em entrevista que "a entrada nas praias deveria ser paga, para se fazer uma certa selecção".

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Limpeza Costeira.