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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O tipo do mito urbano e o mito do tipo rústico

- Faz favor de desculpar, o senhor é o tipo do mito urbano, não é?
- Mito quê?
- Mito urbano. Urbano. Citadino, civilizado, cortês, polido, gafonha, urbanita, urbícola, correcto, afável, aprazível, fruitivo, lisonjeiro, mavioso, amorável, charmoso, peralta, lhano, tirone, refinado, esticadinho, delicioso, educado...
- O que são as palavras, veja lá o senhor. Não, não sou o tipo do mito urbano. Na verdade fiz-me homem em Pedraído, Fafe, sou portanto e pelo contrário, se me está a acompanhar, o mito do tipo rústico.
- Tipo quê?
- Tipo rústico. Rústico. Rusticano, rural, aldeão, camponês, campino, campesino, campesinho, campestre, campónio, agrário, simples, simplório, casca-grossa, labrego, parolo, lavrador, grosseiro, bruto, boçal, besta, bronco, grunho, labrego, malcriado...
- Realmente o que são as palavras. Mas é tão parecido com ele...
- Com quem?
- Com o tipo.
- Mas sou o mito.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Música Country.)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Entre a bonomia e a canalhice

Já chega?
Mandaram-no abaixo de Braga e ele foi. Quando entrou em Celeirós, ligou a perguntar se já chegava...

Uma vez eu era chefe, como fui quase toda a minha vida, e um chefe mais chefe do que eu telefonou-me, de Lisboa evidentemente, dando-me ordens urgentes e precisas para "fazer a folha" a uma certa e determinada pessoa de quem eu era chefe, mas menos, no Porto. E eu disse que não. Que não "fazia a folha". Primeiro, porque não se "faz a folha" a pessoas, ainda que fossem incertas e indeterminadas. Segundo, porque eu não "faço a folha" a ninguém, por uma questão de princípio e, suspeito, de religião. Terceiro, porque eu resolveria facilmente o assunto sem "fazer a folha" a um camarada de trabalho, jornalista e pai de família como eu, embora talvez um bocadinho mais resmungão e preguiçoso do que eu. Quarto, porque eu não admitiria nem mais uma sugestão, insinuação sequer, daquele género.
O chefe que era mais chefe do que eu e estava evidentemente em Lisboa, comunista medalhado e, foi-se a ver depois, cúmplice envergonhado numa monumental leva de despedimentos colectivos, acusou-me de "bonomia", enquanto, por outro lado, baixava a crista e metia o rabinho entre as pernas, pelo menos tanto quanto me deu para ver no teclado nojento do velho telefone de serviço. "Bonomia", eu? Fiquei piurso com o gajo! Só me faltava essa agora, "bonomia". Ou por outra. Fui ao dicionário procurar a palavra e afinal achei muito bem.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 6 de setembro de 2026

Ele não podia ver sangue

As encomendas como as bombas
Começou com a pandemia e veio para ficar. As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.

Há homens realmente assim, hematofóbicos por natureza ou acidente, ainda que não o saibam e nem sequer conheçam a palavra. Por exemplo, Avelino Ferreira Torres (1945-2019). Personalidade polémica, com coutadas no futebol e na política, pelo menos, mais que provável introdutor do "populismo" em Portugal e eminente prometedor de lamparinas, foi presidente da Câmara do Marco de Canaveses durante mais de duas décadas. Teve nome em estádio e em vida, participou no reality show Quinta das Celebridades, da TVI, por onde também passou o nosso grande Tino de Rans, e esteve envolvido no processo Apito Dourado.
Paradigma rústico do quero, posso e mando, irascível, provocador, feitio rufião, sempre com uma ameaça na ponta da língua e disponível para resolver todas as questões à estalada, suspeito de ligação à rede bombista de extrema-direita (MDLP) no pós-Abril de 1974, Ferreira Torres passava a vida nos tribunais, acusado de tudo e de mais alguma coisa. De incitar à violência num jogo de futebol, de peculato e peculato de uso, com condenação, de falsificação de assinatura, de abuso de poder, de gestão danosa, de enriquecimento ilícito, de corrupção, de extorsão e até de ter ordenado a morte, não concretizada, de um ex-colaborador.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem:
- Que me mostrem onde é que eu mandei matar alguém. Mostrem! A partir de certa altura, eu deixei de poder ver sangue, valha-me Deus. Quando era criança, via e até ajudava a matar as galinhas e os porcos lá em casa, mas agora, se vejo sangue, viro logo a cara para o lado. É logo! Eu sou incapaz de matar uma mosca..." - disse ele.
- E duas? - insisti eu.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 29 de agosto de 2026

Eles sabem tudo e não deixam nada

Filosofices
Era um homem culto. Aliás, costumava dizer: não me descartes, não me aristóteles, não me sócrates, não me parménides, não me pitágoras, não me diógenes, não me tales de mileto e assim sucessivamente...

Os que sabem tudo sobre futebol são os mesmos que sabem tudo sobre política, os mesmos que sabem tudo sobre cultura, os mesmos que sabem tudo sobre agricultura, os mesmos que sabem tudo sobre incêndios florestais, os mesmos que sabem tudo sobre justiça, os mesmos que sabem tudo sobre economia, os mesmos que sabem tudo sobre corrupção, os mesmos que sabem tudo sobre molduras penais, os mesmos que sabem tudo sobre racismo, os mesmos que sabem tudo sobre identidade de género, os mesmos que sabem tudo sobre saúde, os mesmos que sabem tudo sobre guerra, os mesmos que sabem tudo sobre poeiras africanas, os mesmos que sabem tudo sobre judeus sefarditas, os mesmos que sabem tudo sobre gastronomia, os mesmos que sabem tudo sobre limites do humor, os mesmos que sabem tudo sobre violência doméstica, os mesmos que sabem tudo sobre mudança da hora. Os mesmos que sabem tudo sobre saber tudo de tudo. Sempre os mesmos. Olhai bem para as vossas televisões, de manhã à noite, aquilo é que é sabedoria. Fosga-se, parecem barbeiros! Como se dizia antigamente na minha terra, e sem ofensa para os presentes, vá lá saber tudo ao caralho...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 22 de agosto de 2026

Mestre Nelo Barros

Tácticas
- Olhe que eu meto-lhe um processo!
- Defensivo ou ofensivo?
- De transição...

Tive a sorte de conhecer Nelo Barros. Manuel Coelho de Barros (1917-2007) foi um grande treinador de futebol e um mestre de treinadores de futebol. Nunca fez primeiras páginas de jornais, porque sempre se recusou a deixar o emprego no escritório da que era então a maior fábrica de Fafe e uma das maiores do País. Equipas da 1.ª divisão chamavam por ele, ano após ano, pediam-lhe disponibilidade total, trabalho a tempo inteiro, mas ele nunca quis ir por aí. O Nelinho era assim.
Pessoa excelentíssima, homem elegante, distinto, culto, carismático, Nelo Barros era reconhecidamente um catedrático da táctica, sabia muito de bola e dava gosto ouvi-lo falar de futebol. Ele entusiasmava-se e entusiasmava. O futebol de Nelo Barros tinha pessoas e histórias dentro. O futebol contado por Nelo Barros era simples, percebia-se à primeira vista, batia certo, era lindo!
Uma noite, no velho salão dos Bombeiros, então ainda instalados na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes, o mestre encantou uma plateia à pinha que o foi ouvir falar de desporto e de futebol, de jogadores e de jogos, de treinadores e de tácticas, como nunca se tinha ouvido falar por estas bandas. O Nelinho falou como de costume, sem tabus, sem grandes teorias, sem peneiras, falou simples mas com convicção. Até eu, que era um rapazola, entendi tudo. E fiquei a gostar ainda mais de futebol.
Perguntaram-lhe o que é que era preciso para se ser um bom treinador. Nelo Barros, provavelmente um dos melhores treinadores portugueses de todos os tempos, respondeu assim lapidarmente, que esta cá me ficou: "Não há bons treinadores. Os bons jogadores é que fazem os bons treinadores". E depois desenvolveu, desmontou a aparente contradição, mas nem era preciso.
Eu gostava tanto de ouvir Nelo Barros, que ia assistir a todos os treinos, que eram sempre ao fim da tarde, por causa do tal emprego do treinador na fábrica. Uma vez, o jogo em preparação era contra o Riopele. E digo contra de propósito, porque aquele era um tempo de rivalidades à moda antiga, dentro e fora do campo, acabando quase sempre tudo à trolha.
Mas, voltando ao treino, o Nelinho reuniu os jogadores à sua volta e deu a táctica. E eu por perto, de radar ligado. Fiquei deslumbrado: eram indicações precisas para cada um dos jogadores, para o funcionamento da defesa, para o desempenho do meio-campo, para o trabalho dos avançados, para as movimentações da equipa como um todo, as trocas, as compensações, até o Berto Magalhães ia jogar como médio vadio para secar os criativos riopelenses. O Berto era um suplente muito fraquinho, mas generoso e com um pulmão se faz favor, para além disso mandava-me cá um bigode que metia realmente respeito. Nas palavras do mestre, tudo encaixava, tudo fazia sentido. E tudo dito com tanta certeza, que no domingo só podia dar certo.
Mas não deu. Do outro lado estava uma equipa poderosíssima, histórica. Se a memória não me atraiçoa, no Riopele jogariam, por essa altura, o Piruta, o Vital, o Barros, o Albano, o João e o Luís Pereira, todos craques, treinados por outro que também a sabia toda: Ferreirinha. Saímos de Pousada de Saramago vergados a uma pesada derrota, já não sei por quantos, mas eu não perdi a fé no nosso Nelo Barros. Pelo contrário. Na humilhação da goleada, aprendi a beleza original do futebol, tal como o mestre o ensinava: onze contra onze e uma bola que é redonda. O resto é treta.

Hoje, uma nova raça de treinadores, colunistas, comentadores, ex-treinadores-comentadores e ex-comentadores-treinadores, todos paineleiros enfim, quer fazer-nos acreditar que o futebol é praticamente uma ciência oculta, só percebida por uns poucos predestinados que, modéstia à parte, são eles próprios. E inventam palavras e expressões para complicar o que é simples. E já não há bola nem futebol. Eles, que sabem inglês, "inventaram" o jogo. O jogo. Pois, pela parte que me cabe, parabéns à prima! Sou um simples já com razoável uso. E tenho é saudades de ouvir o Nelinho, treinador e cavalheiro, a falar de bola. De bola simplesmente.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

domingo, 16 de agosto de 2026

A hora de Serafim d'Eiteiro

O despertar do filósofo
- A vida é uma imensa linha recta cheia de curvas, e cada subida concomita-se numa irrefutável descida, vice-versando - disse o filósofo, ao pequeno-almoço.
- Chega-me o açúcar - disse a mulher do filósofo.

Serafim d'Eiteiro tinha uma sombria loja de fazendas em Cima da Arcada, por baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina, um figurão com o seu quê de filósofo. O apelido "d'Eiteiro" suponho que fosse natural corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense, ou seriam pelo menos os seus ancestrais. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua provecta e indesmentível sabedoria - mas estou apenas a deitar-me a adivinhar.
Alto, magricela, de fato todos os dias, Serafim d'Eiteiro frequentava a sala das traseiras do Peludo, onde, naquela horinha após almoço, se jogavam umas bilharadas iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e (aqui que ninguém nos ouve) até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Era ali o fim do mundo, havíeis de ver! Em Fafe, naquele tempo, era tudo de arrebenta.
E uma vez foi demais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: - Ide todos para o caralho! Todos!
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, teve um rebate de consciência e resolveu abrir uma honrosa excepção: - Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si -, corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, lado esquerdo, no canto por baixo do velho rádio Philips dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do ininterrupto cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria: - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que eu não fico. Se é para ir, eu também vou...
E era assim a vida.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Filósofo. No Brasil. Em Portugal não há. E também é Dia de Contar Uma Piada.)

terça-feira, 28 de julho de 2026

A táctica do duplo pivô

- Ora muito bem: vamos jogar com dois pivôs, quatro caninos, três incisivos e um molar, e sobretudo com muito siso - disse o treinador aos seus rapazes. Era um treinador em part-time, dentista encartado a tempo inteiro.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Assistente Dentário.)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quem sai aos seus

Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cérebro.)

quinta-feira, 25 de junho de 2026

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Bombistas de secretaria

A última palavra
- Senhor deputado, tem vosselência direito à última palavra.
- Muito obrigado, senhor presidente. Senhor presidente, senhoras e senhores deputados: zus!

"... o MDLP estava compartimentado. Havia uma parte política, o gabinete político que fazia análise política diária para o general Spínola. Havia as FAE [Forças de Acção Externa] que estavam preparadas para o caso de as coisas correrem mal e haver uma tomada de poder por parte do Partido Comunista ou da extrema-esquerda ou de ambos, então era uma reserva de intervenção. E havia a RAI (Rede de Acção Interna) que cobria o território a nível distrital, recolhia informações e aquelas que interessavam à parte militar mandavam para a parte militar e aquelas que interessavam à parte política mandavam para o gabinete político e depois, digamos, era encaminhado para o general Spínola."
Ninguém diria que o bando de bombistas sacristas de 1975-1976, que também andou aqui por Fafe a rebentar, era uma organização assim tão excel, tão parcimoniosa e higiénica, após 566 acções violentas e mais de uma dezena de mortes, 123 assaltos a sedes de partidos de esquerda, 116 ataques bombistas, 31 incêndios, 8 atentados a tiro, 8 espancamentos e 6 apedrejamentos, de acordo sobretudo com a Wikipédia, mas foi daquela maneira singela que Diogo Pacheco de Amorim apresentou a coisa, em Dezembro de 2024, numa aprazível entrevista concedida à rádio TSF.
Diogo Pacheco de Amorim é o ideólogo do partido Chega, deputado da Nação e vice-presidente da Assembleia da República. Foi, no MDLP, do tal "gabinete político" e não admite que digam que sabia das bombas. Estava na secretaria.
Lembro-me do Pacheco de Amorim, jovem jornalista e todo menino-bem, naquele seu andar armante mas decidido, vigoroso, passeando ou talvez marchando pelos corredores de O Primeiro de Janeiro, em Santa Catarina, e eu a pensar, fino como um alho e se calhar invejoso, "este tipo, se não o agarram, ainda vai longe", e meu dito meu feito. Diz que lhe deram um carro no Parlamento e até tem motorista.

No extinto O Primeiro de Janeiro, é curioso, coincidi, em momentos e circunstâncias diferentes, com outros três jornalistas que deram em deputados. Outros três, pelo menos, porque não me apetece puxar pela cabeça à procura de mais. Em todo o caso, que bela escola o velho jornal! Ainda por aí anda, eleito pelo PCP, o activíssimo Alfredo Maia, com quem acamaradei também, anos mais tarde, no grupo do JN. Recordo-me, como se fosse hoje, da chegada do Maia à profissão, da sua entrada triunfal no nobre edifício que hoje alberga o shopping ViaCatarina. Corria o ano de 1981, se não me engano. O Maia era tudo, menos comunista.
O grande Costa Carvalho, "meu caro", "caríssimo", vinha de deputado do PRD de Ramalho Eanes, entre 1985 e 1987, tinha um feitio desgraçado e, jornalisticamente falando, foi meu mestre e mentor. Eu era-lhe uma espécie de projecto pessoal, ele ensinou-me tudo o que naquela altura havia para aprender sobre edição e direcção de redacção, agenda, titulagem e primeiras páginas, isto é, o ABC de um chefe em construção. Também me ensinou Juca Chaves e Enrico Caruso. José Rodrigo Carneiro da Costa Carvalho faleceu há meia dúzia de meses, aos 91 anos. Passaram-se quatro longas décadas, já não vou a tempo de devolver-lhe as "Nuevas odas elementales", de Pablo Neruda, que guardo agora finalmente sem culpa e como se fossem uma relíquia do Santo Lenho.
Mas o mais pândego e inesperado de todos os meus ex-colegas do Janeiro que "chegaram" a deputados terá sido, certamente, o obscuro porém famoso "deputado Batman", António Coimbra, eleito pelo PSD, pelo círculo Fora da Europa, igualmente lá pelos finais da década de 1980, e que ganhou escusada notoriedade devido às viagens que não fez, umas atrás das outras, sem tempo sequer para parar em casa. Quer-se dizer. Tantas foram as viagens, pelas contas que apresentou no Parlamento para reembolso, que podia ter dado uma volta ao mundo. Mas não deu. Digamos que o pobre Coimbra, bode expiatório do lastimável caso das "viagens-fantasma", não foi a lado nenhum. O dinheiro era para distribuir pela família, o que, na minha modesta opinião, só lhe diz bem a respeito.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Uma palavra à esquina

Leporídeos
- Colhões ou coelhões?
- Testículos.
- E era preciso ser malcriado?...

A palavra apareceu-me à esquina pela pena do cronista Ferreira Fernandes, que eu tando respeito e admiro, embora lastime que ele tenha amouchado perante o, por assim dizer, novo acordo ortográfico - mas nem é aqui o caso. A palavra é "pissada" e foi há coisa de onze anos. Fiquei surpreendido, não a conhecia com aquele aspecto. Mas, escrita por quem foi, tive de a levar a sério (à séria, se lido em Lisboa). Andei então à procura dela e não a vi em sítio de respeito, em local de idoneidade gramatical que me obrigasse a pensar: sim, "pissada" é mesmo assim. Mas, pronto, que seja "pissada", porque, na verdade, encontrei duas ou três "pissas" em dicionários alternativos. Eu, porém, não vou por aí. Pela parte que me toca, continuarei a piçar com toda a potência, sem medo de que me achem malcriado ou tarado da cedilha. Piçarei, aliás, até que a vós vos doa. Dar uma piçada, levar uma piçada, deixemo-nos de hipocrisias, bem sabemos de onde é que a coisa vem. De resto, confundir "pissada" com piçada pode, consoante as circunstâncias, ser até caso de extrema gravidez.

Agora, soube outro dia pelo jornal Público que existe por aí um podcast suponho que de cultura e comédia que se chama "Livros da Piça". Olha, pensei eu, antes assim, porque, lá está, voltando à minha, "Livros da Pissa" não me pareceria tão bem.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 24 de maio de 2026

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O mundo é pequeno (e um bocado parvo)

- Perdoar-me-á que o interpele assim sem mais nem menos, sem o conhecer de lado nenhum, mas o caro senhor é um bocado parvo, não é?
- Sou, com efeito, um bocado parvo, mas como é que o caro senhor adivinhou?
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado parvo.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente família...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado parvo por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado parvo por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado parvo mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! De repente, quase que éramos irmãos, não é?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Família.)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A 14 de Maio, na Cova da Iria

O peregrino chegou a Fátima, a mais de mil à hora, seriam talvez umas cinco da manhã, ainda a religião nem tinha aberto. Estacionou chiando pneus e perguntou, desnorteado e ofegante, como se tivesse ido a pé: - Nossa Senhora já apareceu?
- Isso foi ontem. - informou o segurança.
- E hoje?... - insistiu o peregrino.
- Não está previsto. - reportou o segurança.
- Nem um bocadinho?... - tentou o peregrino.
- Nicles batatóides! - confirmou o segurança.
- Vim de tão longe... - lamuriou-se o peregrino.
- Não posso fazer nada... - desculpou-se o segurança.
- Tenho a mulher e os putos no carro... - protestou o peregrino.
- Realmente é uma pena... - condescendeu o segurança.
- Carago!... - protestou o peregrino.
- É a vida... - filosofou o segurança.
O peregrino cabisbaixou finalmente, disse "Prontos!..." como se isso o animasse, mas não animou e ainda por cima dizer "Prontos!..." é uma rematada estupidez, deixou o número de telemóvel ao segurança, desse-se o caso de Nossa Senhora aparecer mais tarde, talvez em horário de expediente, encolheu os ombros, fez meia volta, meteu-se outra vez no carro, resmungou à família e desandou para cima, nas calmas, vidro aberto, braço de fora, Mira de Aire, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Figueira da Foz, Coimbra, Buçaco, Luso e Curia até à Mealhada. E ao leitão. O leitão, graças a Deus, aparece sempre.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Poesia a peso

- Era dois poemas de trinta gramas, se faz favor!
- Os dois?
- Cada.
- Sessenta gramas de poemas...
- Exactamente.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Arte.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Indelicadeza, por ordem da gerência

Para cus quadrados
Saio pouco. Outro dia levaram-me ao restaurante da moda e quase morri de espanto quando fui à casa de banho e descobri a sanita rectangular. Pensei, ensarilhado nas ideias e nas calças arriadas, antes de fugir pela janela, redonda por sinal: - Será que os cus mudaram de feitio e o meu não foi avisado?

Aflitíssimo, entrei no café e pedi: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? -. Estava preparado para receber uma de duas respostas, "sim" ou "não", mas deram-me a terceira: - Vai tomar alguma coisa? - Eu disse que beberia uma água e tornei a pedir: - Por favor, dá-me licença de utilizar a casa de banho? - Que assim sim. Utilizei então a casa de banho, isto é, urinei com parcimónia, fiz uma descarga de autoclismo, a mais pequena, limpei do chão duas pingas que se perderam pelo caminho e lavei as mãos. Evidentemente eu poderia sair da casa de banho do café e vir-me embora como se nada fosse, mas dirigi-me ao balcão para tomar a água contratada. Aproveitei para explicar calmamente ao jovem e educado funcionário que um dia, quando ele for mais velho, talvez da minha idade, vai ficar tipo fodido por lhe fazerem a ele o que ele me fez a mim. O jovem e educado funcionário disse-me que é desta maneira que ali se trabalha, por ordens da gerência. Paguei um euro e meio pela água e estou arrependido: não sei se o dinheiro chegava, mas, em vez de beber a puta da água, devia ter comido um biju. A água pôs-me outra vez à rasca no caminho até casa. Vim a correr e a saltar, a apertar-me, e, com vossa licença, mijei-me pernas abaixo mal consegui abrir a porta...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Era apenas um copo de água

O leitmotiv
O "leitmotiv", por exemplo. Tenho dúvidas. É gordo, magro, meio-gordo, achocolatado, integral, dourado, desnatado, em pó, condensado, vegetal, enriquecido, de soja, de burra, de barata, de camelo, de tigre, de aveia, de amêndoa, de coco, desmaquilhante, adelgaçante, reafirmante, derramado, leite-creme, leite-de-cal, leite-de-galinha, leite-de-pato ou de colónia? E quanto a calorias?

Entrou, sentou-se e pediu um copo de água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, dois bolinhos de bacalhau, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho-verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango frito, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja, uma fatia de bolo, meia dúzia de amendoins, um par de noivos, uma intoxicação alimentar, um café e um bagaço. "Ó faxavor, eu só pedi um copo de água - copo de água", disse ele, atrapalhado. "Ai desculpe, eu percebi um copo-d'água - copo-d'água", assumiu o diligente funcionário, por certo doutorado em semântica, arrumando imediatamente o hífen e o apóstrofe e dirigindo-se à torneira.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 17 de março de 2026

A tensão, muita a tensão!

- Temos tomado a nossa medicação? - pergunta-me ela.
- Temos, temos, senhora doutora - respondo eu, que sou uma pessoa educada e um exemplar tomador de medicações.
- Temos feito o nosso exerciciozinho diário?
- Todos os dias, senhora doutora.
- Temos moderado a nossa alimentação?
- Que remédio, senhora doutora. O dinheiro já só dá para cascas de batatas.
- Ora ainda bem. Vamos lá ver como que é temos a nossa tensão - diz-me ela.
- Vamos a isso, senhora doutora, nem é tarde nem é cedo - digo eu, tirando o casaco e arregaçando a manga da camisa.
Vimos a tensão.
- Temo-la um bocadinho alta - informa-me ela, sem esconder a preocupação.
- Um bocadinho pouco ou um bocadinho muito, senhora doutora? - pergunto eu, também já um bocadinho muito à rasca.
- Bastante, bastante. Vamos meter este comprimidozinho debaixo da língua e vamos deitar um bocadinho ali - diz-me ela.
- Vamos lá então, senhora doutora. A senhora doutora primeiro, que eu gosto de ficar por cima - digo eu, que, repito, sou uma pessoa educada e exemplar tomador de medicações.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe, da série Diálogos fafenses. Hoje é Dia da Confiança Entre Médico e Paciente.)

terça-feira, 3 de março de 2026

Aguardente? Ouvi perfeitamente!

No reino dos eufemismos
Se o cego é invisual, então o surdo é insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual.

Sabeis, uma daqueles carrinhas tipo rulote transformada em consultório para testes auditivos? Era uma dessas, logo pela manhã, e cá fora um jovem técnico vestindo bata branca, telemóvel na mão esquerda e papeleta na mão direita, afanava-se à procura de insonoros candidatos, mas sem sorte nenhuma. Eu terminava o meu footing diário e o meu caminho habitual até passava pelas traseiras da carrinha, mas de repente resolvi fazer um desvio para alegrar o dia ao diligente porém desanimado funcionário.
Fui-me a ele. Mal me viu assim nesta idade, até os olhos se lhe riram, abeirando-se-me imediata e decididamente:
- Bom dia. Então como é que estamos de audição? - perguntou ele.
- Faz favor de dizer... - disse eu.
- A audição como está? - perguntou ele.
- Desculpe, eu não... - disse eu.
- A audição. Ouve bem? - perguntou ele.
- Como disse?... - perguntei eu.
- A audição! - disse ele.
- O quê?... - perguntei eu.
- Tem uma boa audição? - perguntou ele.
Não é que eu estivesse com pressa, mas desisti, sorrindo:
- Não ligue, eu estava a brincar. O amigo não percebeu?...
- Percebi. E a audição como é que está?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)