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terça-feira, 3 de março de 2026

Aguardente? Ouvi perfeitamente!

No reino dos eufemismos
Se o cego é invisual, então o surdo é insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual.

Sabeis, uma daqueles carrinhas tipo rulote transformada em consultório para testes auditivos? Era uma dessas, logo pela manhã, e cá fora um jovem técnico vestindo bata branca, telemóvel na mão esquerda e papeleta na mão direita, afanava-se à procura de insonoros candidatos, mas sem sorte nenhuma. Eu terminava o meu footing diário e o meu caminho habitual até passava pelas traseiras da carrinha, mas de repente resolvi fazer um desvio para alegrar o dia ao diligente porém desanimado funcionário.
Fui-me a ele. Mal me viu assim nesta idade, até os olhos se lhe riram, abeirando-se-me imediata e decididamente:
- Bom dia. Então como é que estamos de audição? - perguntou ele.
- Faz favor de dizer... - disse eu.
- A audição como está? - perguntou ele.
- Desculpe, eu não... - disse eu.
- A audição. Ouve bem? - perguntou ele.
- Como disse?... - perguntei eu.
- A audição! - disse ele.
- O quê?... - perguntei eu.
- Tem uma boa audição? - perguntou ele.
Não é que eu estivesse com pressa, mas desisti, sorrindo:
- Não ligue, eu estava a brincar. O amigo não percebeu?...
- Percebi. E a audição como é que está?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)

domingo, 7 de abril de 2024

sábado, 29 de outubro de 2022

Não batas mais no mouquinho

Sabem, uma daqueles carrinhas tipo rulote transformada em consultório para testes auditivos? Era uma dessas, logo pela manhã, e cá fora um jovem técnico vestindo bata branca, telemóvel na mão esquerda e papeleta na mão direita, afanava-se à procura de insonoros candidatos, mas sem sorte nenhuma. Eu terminava o meu footing diário e o meu caminho habitual até passava pelas traseiras da carrinha, mas de repente resolvi fazer um desvio para alegrar o dia ao diligente porém desanimado funcionário.
Fui-me a ele. Mal me viu assim nesta idade, até os olhos se lhe riram, abeirando-se-me imediata e decididamente:
- Bom dia. Então como é que estamos de audição? - perguntou ele.
- Faz favor de dizer... - disse eu.
- A audição como está? - perguntou ele.
- Desculpe, eu não... - disse eu.
- A audição. Ouve bem? - perguntou ele.
- Como disse?... - perguntei eu.
- A audição! - disse ele.
- O quê?... - perguntei eu.
- Tem uma boa audição? - perguntou ele.
Não é que eu estivesse com pressa, mas desisti, sorrindo:
- Não ligue, eu estava a brincar. O amigo não percebeu?...
- Percebi. E a audição como é que está?

domingo, 23 de outubro de 2022

A concha

Perguntam-me: mas afinal o que é a concha? E eu respondo: concha pode ser colher para servir sopa, prato de balança, parte das chaves de instrumentos musicais de sopro, peça de lagar, espécie de puxador de gavetas, pavilhão auricular, couraça, invólucro calcário que protege o corpo de moluscos e braquiópodes, isto é, conchinha do mar. Mas não. Concha era tampa metálica das garrafas de cerveja e refrigerantes, era cápsula, sameira, carica, chapinha como se diz no Brasil. E era brinquedo de menino pobre. Em Fafe, evidentemente.

sábado, 28 de maio de 2022

No meu tempo havia respeito

As crianças hoje em dia só aprendem porcarias. É a televisão, é o computador, é a internet, é o face, é o tablet, é o android, é o ipod tudo. Mas só aprendem porcarias, é uma pouca-vergonha. Não há educação, não há respeito, não há tabuada, não há catequese nem mocidade portuguesa. No meu tempo, em Fafe, era outra louça, vinho de outra pipa: jogávamos à macaca, ao moche e ao mamã-dá-licença, brincávamos ao esconde-esconde e aos médicos, íamos às uvas, matávamos pardais, corríamos à coiada os moços das outras ruas, íamos para a porta do hospital ver chegar a ambulância, levávamos umas reguadas, rezávamos padre-nossos, cantávamos os reis de porta em porta, os mais velhos ensinavam-nos coisas bonitas, apresentáveis, lengalengas e versinhos didácticos, alguns até com música, para ficarem no ouvido, e ficaram. Lembro-me, por exemplo:

- Preta, mulata, nariz de batata, rouba galinhas e mete prà saca.
- Ruço de mau pêlo, quer casar, não tem cabelo.
- Viva quem tem pêlos na barriga, e quem os abaixo tem que viva também.
- Enganei-te, enganei-te, com uma pinga de leite, à porta da missa, a comer uma chouriça.
- Três vezes nove, vinte e sete, quem morreu foi o valete, enterrado na retrete.
- Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu, encontrei um burro morto a cagar e a mijar prò primeiro que falar.
- Pipa nova, pipa velha, foi ao mar, não afogou, com licença, meus senhores, aqui está quem se cagou.
- O Manel e a Maria foram ambos passear, o Manel deu um peido e mandou a Maria ao ar.
- Vinho na pipa, couves na horta, se não nos der nada, cagamos na porta.
- Cagarim, cagarou-se, há dois modos de cagar, se o cagalhoto foi grosso, fica o cu a fumegar.
- Ó Mila, o teu pai tem pila; se não fosse a pila, não havia a Mila.
- Sanica o cu, sanica a gaita; sanica o cu e a serigaita.
- Afina a guitarra, a viola toca, afina a guitarra e também a piroca.
- Quem te fosse ao cu e não te pagasse.
- Sexta-feira, sexta-feira, tararam tararam, sexta-feira da paixão, tararam tararam, foram dar com os padres todos, tararam tararam, a ir ao cu ao sacristão. Tararam tararam. Eram sete matulões, tararam tararam, com bigodes no colhões. Tararam tararam. Pontapés e bofetadas, tararam tararam, nas parrecas das criadas. Tararam tararam.
- A puta da minha amiga não tinha que pôr na mesa, cortou as beiças da cona, fez cozido à portuguesa.

Isto, sim, é cultura. É tradição. Antigamente é que era. Era tudo muito bonito. Pérolas como as supracitadas deviam ser aprendidas pelos novos fafenses desde os bancos da escola, para que não se percam. Deviam constar de um mais ou menos opúsculo a disponibilizar gratuitamente aos mais velhos e aos forasteiros de todas as idades no Posto de Turismo, na Casa da Cultura, na Biblioteca Municipal e em todos os balcões da especialidade, mas quê, a Câmara não quer saber...
Ai que saudades, rapaziada! No meu tempo havia respeito, instrução. Brincavam-se brincadeiras educativas, respeitosas e saudáveis. Quer-se dizer: brincava-se A Bem da Nação e conforme manda a Santa Madre Igreja.

P.S. - Publicado originalmente no dia 25 de Julho de 2015. Hoje é Dia Internacional ou Mundial do Brincar.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Recreações históricas

Faço ideia: levar à cena a "recriação histórica" de uma lenda deve ser obra desenganada. Porque a lenda, até prova em contrário, conta um acontecimento que nunca aconteceu. Não existiu. E, no entanto, por ser "histórica", a "recriação" implica que ela seja contada rigorosamente tal qual não foi. Estão a ver a real impossibilidade da empreitada?
E no entanto. No entanto, o arqueólogo e historiador televisivo Joel Cleto faz isso muito bem em Matosinhos. Ele é especialista em recriações históricas de faz de conta. Quer-se dizer, em recreações históricas...