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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Os livros estavam em boas mãos

E apeteceu-me dar-lhe um abraço
O homem caminhava vagarosamente ao lado da mulher. Curvado pelo peso de, fiz as contas, setenta e tantos anos, caminhava ainda assim com uma dignidade evidente. O homem velho, de casaco antigo, asseado, pé ante pé até ao café de praia e ao milagre do sol-pôr, levava as mãos atrás das costas. E nas mãos, reparei, um livrinho da Colecção Vampiro, a antiga: "O Imenso Adeus", de Raymond Chandler. Caramba!, és cá dos meus - pensei. E apeteceu-me dar-lhe um abraço.

A mania dos livros apanhei-a em Fafe, mal aprendi a somar letras, na biblioteca que na altura se chamava da Gulbenkian. Lembro-me muito bem da carrinha Citroën cinzenta em chapa canelada, a biblioteca itinerante, que frequentei uma ou duas vezes, estacionada à beira do Manel do Campo, mas o meu sítio já era edifício, do outro lado do Largo, em frente, creio que um primeiro-andar entre a loja do Damião Monteiro e a sapataria da esquina que dava para o beco da Polícia e em cima ou por baixo da Legião Portuguesa, o que certamente justificaria que fosse ali mesmo a meta de partida e de chegada da corrida de jericos dos 16 de Maio. Comecei pelas figuras, evidentemente. Depois procurei-me nos livros. E ia lá quase todos os dias. Em miúdo, ainda em tempo de escola primária, parece-me que sob a orientação rigorosa mas gentil do Senhor Alves, pai, espero não estar a dizer uma asneira muito grande, e depois já em moço, no meu regresso a casa pós-25 de Abril e pós-seminário, beneficiando da cumplicidade generosa e vanguardista do Professor Alberto Alves, que me abriu os olhos para um mundo inteiro que eu não sabia. Foi a minha sorte. Os livros são armas poderosas. E, em Fafe, estavam em boas mãos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)

domingo, 25 de outubro de 2026

As "repostas" eram para levar

Os senhores do tempo
A meteorologia é muito importante porque a meteorologia é que nos dá o tempo. Se não fosse a meteorologia não teríamos tempo e morríamos todos mais cedo, regra geral, ou nem sequer houvéramos nascido, que ainda podia ser pior.

Havia as respostas e havia, evidentemente, as "repostas", que eram respostas sem ésse no meio e queriam dizer outra coisa. As "repostas" eram um veículo de comunicação específico, personalizado, comunitário e geralmente eficaz. Funcionava boca a boca, como a respiração de emergência e os beijos como devem ser. Isto pelo menos em Fafe, mas suspeito que seria o mesmo por todo este baixo Minho interior aqui à roda, zona tão atreita à boa influência do velho dizer galego. Naquele tempo não existiam telemóveis e os telefones eram poucos. As respostas pediam-se, davam-se. As "repostas" mandavam-se, levavam-se. Isso mesmo, as "repostas" eram para levar. Iam de bicicleta, se fosse longe, e as mais prementes voavam de motorizada, a mil à hora e sem capacete. Era uma rede social, vamos dizer, que ia num pé e vinha no outro, às vezes já com a resposta à "reposta".
As respostas eram respostas. Davam-se sobretudo às perguntas. Respondia-se. Na escola, ao professor ou à professora, no exame de código, para a carta de condução, no médico da Caixa, para a baixa, à polícia fardada ou à paisana, por tudo e por nada, à mãe e ao pai, em casa, a toda a hora, respeitinho e bola baixa, às vezes os filhos eram um bocadinho "respondões", davam "má resposta" aos velhotes e, na passada, levavam um par de estalos, talvez dois ou três, o que, naquelas circunstâncias, não desfazendo, até seria a coisa mais natural do mundo. Para aprenderem a não "responder torto"...
As "repostas" eram recados, mensagens, avisos, urgências que se mandavam por alguém. Ia-se a casa das pessoas, aos empregos, à fábrica, à loja, à feira, à poça. Dizer-lhes que, dizer-lhes para. "Fulano mandou dizer que", "Sicrana mandou dizer para". Eram telegramas falados, e-mails entregues de viva voz, ordens para todos os efeitos. Avisava-se de vinho novo ou de funeral, convidava-se para a desfolhada ou para o casamento, informava-se da consulta do Porto e do preço do frete do carro de praça, enviava-se conta ou orçamento de obras feitas ou pensadas, entregava-se dinheiro vivo ou molhos de couves, pedia-se a assadeira emprestada para a vitela de domingo, mandava-se vir ao telefone a tal hora, que o filho ia ligar de França. Ou da guerra.
Também se ia buscar "repostas".
Tínhamos, graças a Deus, especialistas em levar e trazer "repostas", mensageiros de confiança, muito procurados e adequadamente gratificados. Porque às vezes o Diabo tecia-as. Às vezes o recado era mal dado ou mal compreendido, armavam-se terríveis confusões, metiam-se pessoas ao barulho, inventavam-se tragédias desnecessárias por causa de um nome trocado, de uma palavra errada, de uma falha de compreensão, felizmente depois tudo se esclarecia e voltava à paz do Senhor, beba mais um copo e não se fala mais nisso. Tanta dor, tanta alegria, tantas lágrimas, tantos gritos, tantas graças, tantas ameaças, amiúde até alguns tiros, e afinal era tudo para deitar fora. Foi engano.
Não tivemos essa sorte naquela manhã fria de Dezembro, há quase sessenta anos. A "reposta" foi mandada pelo Bô da Bomba à nossa casinha amarela, no Santo Velho, era só descer a rua. Que o nosso pai tinha morrido, assim nos disseram. E nunca mais veio o desmentido.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sábado, 24 de outubro de 2026

Quando íamos aonde elas

Trocado por miúdos
O divórcio aos cinquenta anos foi-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima, trocado por dois rapazes de vinte e cinco.

No tempo em que dois mais dois eram catro e crescer era crecer e descer era decer e fruta era fruita e homem era home e ferrugem era ferruge e água era auga e ontem era onte e ordem era orde e depois era apois e bom era bô e quando era cando e entre, preposição, era antre, nesse tempo, no nosso velho Minho agalegado, nós íamos aonde elas. Assim de dizia, a minha mãe ainda diz, felizmente, e por acaso adoro ouvi-la dizer. Ir aonde ela ou ir aonde ele significava, isto é, significa, ir ter com ela ou com ele ao sítio onde ela ou ele estão, sobretudo quer dizer ir a casa dela ou a casa dele.
Coisa muito diferente, porventura mais impetuosa, e envolvendo pelo menos outras responsabilidades e consequências sociais, era ir para onde elas. Isso, ir para onde elas, porque também se verificava, a verdade é para ser dita. Ir para onde ela ou ir para onde ele correspondia a ir para casa dela ou ir para casa dele, creio que me faço entender, e usava-se frequentemente em casos da adultério, casamentos infelizmente escangalhados ou evidentes amantizações finalmente assumidas, divórcios é que não, porque em Fafe não havia.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A guerra em tempo de paz

A murro
Batata a murro apresentou queixa por violência doméstica.

Podeis não acreditar, mas eu também fui de comboio para a guerra, e já a guerra tinha acabado. O comboio é que ainda não. Isto é, naquele tempo até nem era nada de extraordinário ir-se de comboio para a guerra, porque Fafe tinha comboio, mas aqui fica o registo, a nota pessoal. Deram-me, portanto, uma guia de marcha. Embarquei em Fafe num domingo à noite, quase ainda fim de tarde, bem bebido, e cheguei à Amadora na segunda-feira de manhã, sóbrio, a bater à porta da guerra mesmo à hora de abertura do expediente. Era um comboio sobrelotado e verde, quer-se dizer, a esbordar de magalas fardados e sonolentos. Fafe-Amadora, ligação "rápida" e praticamente "directa", com os necessários sobressaltos na Trindade, São Bento e Campanhã, no Porto, e em Santa Apolónia e Rossio, em Lisboa. E de borla. A Pátria tratava-nos bem. Levava-se merendeiro de casa, evidentemente.

Eu fui à guerra e comi 21 gafanhotos de uma vez, uns atrás dos outros. Isso. Quando fiz 21 anos, num infeliz dia de Outubro, comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me estou a queixar, embora tenha sido uma canseira andar a persegui-los e a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltinhos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, os insultos do tenente, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos no dia exacto e triste em que fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Mas os gafanhotos. Os gafanhotos eram absolutamente essenciais, alimentavam heróis em construção, forjavam homens de aço, oleavam máquinas de guerra que haveríamos de ser. Eram, repito, absolutamente essenciais, naturalmente curriculares. Os gafanhotos e a pancada.
O meu encontro gastronómico com os gafanhotos teve como cenário os bélicos campos e montes de Santa Margarida durante a chamada "semana maluca" dos Comandos, em que o dia é noite e a noite é dia, com horários e afazeres trocados, incluindo as refeições e a instrução, manobras ainda por cima abrilhantadas pelas famosas prova da sede, prova de choque ou prova de sobrevivência. Famosas e às vezes fatais. Quer-se dizer: pancada, pancada e mais pancada.

Assim eram os Comandos, tropa dita de elite para onde não fui voluntário. "Mais logo afocinharemos!", ameaçava o tenente por tudo e por nada, só porque lhe apetecia. E afocinhávamos. Passávamos a vida a afocinhar. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugos descontrolados e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quase cinquenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que, uma vez por outra, "as coisas correm mal". Há mortes, mesmo no intervalo da guerra. O treino não podia ser mais completo.
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou explodindo em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor desajeitado. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana e no seguinte, e eu cheio de saudades de Fafe e da namorada no Porto.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche decerto marchariam melhor. Pelo menos parece ser esse o entendimento da nossa Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, que anunciou em Junho de 2021 a autorização para a produção, comercialização e utilização na alimentação em Portugal de sete espécies de insectos - duas de gafanhotos, duas de grilos, duas de larvas e um besouro.

Por aquela altura, no meu breve tempo de Comandos, eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com o trágico David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro Juca Chaves (1938-2023) e que, se bem me lembro, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Exército Português.)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Os "aitens" da Senhora Presidenta

Artista que é artista
Ia tocar à Casa da Música, no Porto, e destinaram-lhe a Sala Suggia. Sentiu-se desconsiderado, insultado, chamou de urgência o "manager" e mandou dizer: ou Sala Limppia ou nada...

Fará agora dois anos, mas ainda me dói como se fosse hoje. Comentava-se o Orçamento de Estado na rádio Antena 1, à hora do almoço. Luísa Salgueiro, presidenta da Câmara de Matosinhos, foi convidada a dar a sua opinião, na qualidade, então, de também presidenta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses - ANMP. Como se tivesse lido o documento de ponta a ponta mesmo antes de ele ter sido entregue na Assembleia da República, a, na altura, autarca de todos os autarcas falou, falou, falou, aliás como costuma falar. E referiu-se, nomeadamente, aos "aitens" do Orçamento, aos diversos e variados "aitens", eu ia buscar uma maçã à cozinha, o rádio estava aceso e, palavra de honra, obliterei-me como que atingido por um raio, trouxe mais um jarro de água, porque entretanto perdi-me, e eu queria comer, não era beber. Perdi-me nos "aitens" da Senhora Presidenta. 
"Aitens"? Mas quais "aitens"? "Aitens"? A sério? A palavra item era um advérbio latino. Latino, não germânico ocidental ou anglo-frísio. E assim ficou em português. A forma correcta de pronunciar a palavra item é "íteme", à maneira latina, ou, parece-me melhor, "ítem", na forma aportuguesada. O plural de item é itens, dizendo-se "ítens".
A Senhora Presidenta disse "aitens" e eu, claro, lembrei-me de Salazar, da velha anedota de quando o ditador foi de visita a Inglaterra, segundo me contaram em Fafe, era eu mocico. Resumindo, e sem ofensa para os novos fascistas, do Chega ou não: Salazar, que usava vaso de noite e viajou acompanhado pelo seu mordomo Francisco, não sabia falar inglês, mas disseram-lhe que era fácil, o português era igualzinho ao inglês, bastava trocar o "i" por "ai". A meio da noite, apertadinho, o presidente do Conselho chamou, com o mais perfeito sotaque londrino - Ó Chaico, traz-me o penaico!
Era apenas uma anedota, um bocado ingénua, talvez oposicionista, se calhar Salazar até sabia falar muito bem inglês, basta ouvir António Guterres hoje em dia, mas foi dela, da anedota, e dele, Salazar, que eu me lembrei ao ouvir os "aitens" da Senhora Presidenta.
Eu sei que Luísa Salgueiro não está sozinha quando assim manifesta esta espécie de analfabetismo chique (aliás, "chaique"). Os "aitens" andam por aí de boca em boca, na boca de toda a gente, repetidos, normalizados, modernos, na moda, como se a patacoada já fosse regra gramatical. Não é. E, confesso, incomodou-me, doeu-me, envergonhou-me particularmente ouvir a Senhora Presidenta a asnear ali na rádio nacional, à vista do país inteiro. Fiquei sentido por ser ela. Tocou-me como se fosse comigo. Porque, a verdade é só uma, moro em Matosinhos, a Senhora é a minha Presidenta, passa-me uma vez por ano por baixo da varanda, a acenar, na procissão, e eu, ainda por cima, faço-lhe muito gosto.

(Agora outra coisa, que não tem nada a ver. As velhas anedotas de Salazar, que certamente ele também terá herdado de outro figurão que eu não sei, passaram depois para Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente. E assim sucessivamente.)

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Os missionários era como se fossem cobóis

Jesus bem fala, mas ninguém liga
Num dos seus inusitados momentos de imodéstia, Jesus Cristo disse: - A minha vida dava um filme! E deu. Deu até vários filmes. Quer-se dizer, deu centenas de filmes, alguns deles musicais. Jesus tinha dito "um filme". Mas, cá está, ninguém faz o que Ele manda...

Por falar em missionários, e aqui, como se diz no subtítulo do cabeçalho, fala-se. E com razão. Os missionários têm realmente que se lhes diga. Outubro é o Mês das Missões e o penúltimo domingo de Outubro é Dia Mundial das Missões, também chamado, às vezes, Dia Internacional das Missões. Estamos, portanto, no tempo. E isso traz-me boas memórias. Os missionários fizeram muito parte do meu imaginário infanto-juvenil. Embora o meu seminário fosse rigorosamente diocesano - e quando digo rigorosamente quero dizer mesmo rigorosamente, a doer -, eu acompanhava-lhes as aventuras através da literatura especializada, nas revistas Além-Mar e Audácia, pelo menos. Os missionários eram também interessantes personagens de romance e artistas de cinema, heróis e mártires, que eu já conhecia desde Fafe, porque em Fafe sabia-se tudo, até se sabia de leprosos, que o Senhor Abade ensinava e eu aprendia, ele era muito pelas vocações e eu queria muito ser padre. Isso, os missionários, Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Andrew Garfield, Adam Driver, os pancrácios Terence Hill e Bud Spencer, Deus lhes perdoe, e até Javier Escrivá, muito lá atrás, no tempo do preto e branco, fazendo um Padre Damião que, naquela idade, me impressionou para toda a vida. Ser missionário devia ser porreiro, porque os missionários davam nos filmes e, no fim, iam para o Céu como quem cavalga em direcção ao pôr do sol. Os missionários era como se fossem cobóis, xerifes, valentes e talvez bons, amiúde nem lhes faltava a rapariga. Que histórias tão bonitas. Inspiradoras e edificantes.
Pedindo meia dúzia de palavras emprestadas a Emmanuel Carrère, do seu livro "O Reino", os missionários, quando começaram e durante séculos, foram, por outro lado, umas criaturas que a Igreja mandou por esse mundo fora para baptizar os selvagens sem lhes pedir opinião.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Hoje é muito fácil falar

O defeito do 25 de Abril
O mal do 25 de Abril é ser só um dia. Uma efeméride.

Na mesa ao lado, eram três homens, dois na casa dos cinquenta, se tanto, e o outro bem mais velho, decerto pelos setenta e muitos. Iam já no uísque pós-café e a conversa vagueava às revoadas como se não tivesse pressa e quisesse ser ouvida, é o que têm os restaurantes, devia-se ser despejado mal se acabasse de comer. Falava-se do antigamente. Isto é, os mais novos falavam do antigamente de que ouviram dizer. Calado o ancião, que viveu o antigamente, que remédio, mas tanto lhe fazia. Dizia-se: - Muito atraso, muita ignorância, muita pobreza, e depois a guerra, felizmente Salazar salvou Portugal, endireitou a economia e meteu o país nos eixos, fez o país crescer, desenvolver-se, as pessoas não fazem ideia, dizem agora mal dele mas não fazem ideia. Salazar fez um trabalho extraordinário, porque aqueles é que foram tempos difíceis. As pessoas não fazem ideia de como era antigamente e de como seria se não fosse Salazar. Hoje é muito fácil falar...
Chega, pensei. Pedi a continha e pus-me a andar, já eram muitas repetições, as pessoas não fazem ideia, parecia coisa para o TikTok. Mas sou forçado a admitir: realmente, hoje é muito fácil falar. No tempo de Salazar é que não. Ia-se preso. E até se morria por abrir a boca. Fafenses morreram.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 20 de outubro de 2026

A importância dos rijões no equilíbrio do planeta

Comida, carros e gajas
Acusam-nos de estarmos sempre a falar de comida. Nada de mais mentiroso e injusto. Na verdade, nós, os do Norte, somos tão capazes de manter conversas interessantes e profundas sobre gajas e carros como o resto da população portuguesa. Para além disso, se formos de Fafe, ninguém nos bate numa boa discussão sobre motorizadas.

Vou directo ao assunto, pelo menos uma vez: o redenho não é ingrediente indispensável para a confecção de uns rojões honestos e com outros matadores. Porém, se marcar presença, confere ao prato um não sei quê que por acaso sei e que tem a ver com o seu aspecto inusitado, com o sabor rústico mas colaborante, sabendo-se dar-lhe as voltas certas, e sobretudo com o crocante da textura.
Ora bem. Outro dia precisei de aviar uns rojõezinhos para uma gente que andava aí com desejos e fui ao talho, que eu sou de talhos e peixarias desde pequenino. Escolhi a carne, da febra e da barriga, o sangue e as tripas enfarinhadas. Quando pedi o fígado de porco, que na verdade até era e foi para organizar uma entrada de iscas de cebolada, o talhante, sem que eu dissesse mais nada, avisa-me: "Olhe que não temos redenho, não há". E depois, olhando para um lado e para o outro, chegando-se à frente do balcão à procura do meu ouvido e da minha cumplicidade para revelar-me o quarto segredo de Fátima, diz-me, num sussurro: "Quer-se dizer, haver há, mas é congelado". E, congelado, realmente "Não é a mesma coisa", concordámos eu e ele ao mesmo tempo, como se estivéssemos combinados.
Repito: o redenho não é indispensável aos rijões, sim, rijões, como se diz, e bem, na nossa terra. Mas a gentileza e a honestidade sim. Sobretudo nestes tempos de desrespeito pelos valores e de aviltamento das pessoas, tempos portugueses de antagonismos sociais, de pobreza imposta, de novos fascismos e de tristeza e azedume generalizados. Soube do redenho e senti a Terra a tremer debaixo dos meus pés. Algo mexeu com o equilíbrio estabelecido do Globo. A franqueza espontânea do talhante apanhou-me desprevenido, mas desanuviou-me a alma. Sou franco. Continuo a acreditar que anda meio mundo a enganar o outro meio, mas naquele momento, à frente dos meus olhos, um homem passou para o lado bom, que eu bem vi.
As coisas não são tão simples assim, é o que estais a pensar? São, são. E Dalila.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A minha mãe foi à Lua e gostou

Mãe há só uma
Chamavam-lhe filho desta e filho daquela, chamavam-lhe filho de muitas mães. Ele defendia-se, num suspiro: - Mãe há só uma...

Quase a cumprir os 92 anos, a minha mãe foi pela primeira vez ao Planetário do Porto. Visitara, uns meses antes, o aquário do Sea Life no Castelo do Queijo, mas o Planetário é que lhe encheu as medidas. Viu estrelas, mesmo no meio delas, viajou pelo sistema solar até às galáxias mais distantes, esteve na superfície de Marte, orbitou um buraco negro, saiu de lá nas nuvens, deslumbrada, com um empolgamento a que é pouco dada e que eu já não lhe via há que séculos.
Contou-me tudo, maravilhada, fez questão. Isto é, contou-me o aqui e ali de que se lembrava, logo no dia seguinte, falou-me das estrelas que estamos a ver agora, no nosso agora, mas que não é o agora delas, o agora das estrelas, tantas e tão longínquas que nem fazemos ideia, não temos contas que cheguem para as estrelas todas, é um agora que já foi há muitos anos, anos-luz, e o universo é tão bonito, tão grandioso, que eu havia de ter visto para perceber, para dar valor, disse-me a minha mãe.
Tão entusiasmada e tão desgostosa, naquele inusitado transbordar de alma. Porque, lamentou-se, não me sabia "desplicar" a beleza completa do que vira na véspera, do que realmente sentira e pensara, as palavras necessárias não lhe acudiam à boca. Se fosse em nova! Mas agora "a cabeça já não ajuda". Esclareço. "Desplicar" quer dizer "explicar", evidentemente, e é um dos inúmeros atalhos linguísticos da minha mãe, que só me enternecem. São, regra geral, erros de pronúncia, facilitações ou adaptações orais, lógicas e compreensíveis, uma espécie de galaico-português tardio e rural, pontual, muletas de vida para quem nunca foi à escola e não lê nem escreve.
Eu nunca fui ao Sea Life nem ao Planetário do Porto. Prefiro que a mãe me conte. Adoro ouvi-la a "desplicar".

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 18 de outubro de 2026

Chester, para todo o serviço

Lembrais-vos do futebol de salão? O que é que me vinha à cabeça quando se falava de futebol de salão? O salão. Uns cavalheiros vestidos de fraque e com um número nas costas e umas cavalheiras despidas nas costas e no resto, agarrados uns às outras e rodopiando pelo salão nobre do Teatro-Cinema como Fred Astaire e Ginger Rogers e uma bola pequenina no meio, um árbitro e o apito, um júri e tabuletas com pontuações. Para evitar ambiguidades, o futebol de salão passou a chamar-se futsal, joga-se em polidesportivos, como, por exemplo, no pavilhão do Grupo Nun'Álvares, e é o sucesso que se sabe...

Matt Dillon era o xerife de Dodge City, e Chester o seu leal escudeiro. Naquele tempo todos queriam ser Tarzan ou Mandrake, Buck Jones ou Fantasma, Mascarilha ou Cisco Kid. Os "artistas". Mas o Álvaro escolheu modestamente ser Chester, actor secundário, e assim se rebaptizou num involuntário equívoco cheio de ironia: na verdade, Álvaro Moreira Mendes nasceu para ser primeira figura, protagonista. E foi. No seu ofício de indústria, no movimento associativo, na intervenção cívica, na amizade fraterna e íntegra, foi sempre dos melhores, um fafense excelentíssimo, um homem maior do que o próprio nome, maior do que a alcunha sacada dos livrinhos de cobóis, maior do que o lugar que lhe queiram dar os menestréis da história recente de Fafe, tão desperdiçada em umbiguismos, capelinhas e bagatelas, maior do que melhor ou pior pensem dele. Acerca da opinião dos outros a seu respeito, creio, aliás, que o Chester, ajudante do xerife, não se coibiria de dizer, alto e bom som: caguei!!! E diria alto e bom som e assim com três pontos de exclamação porque ele não sabia falar de outra maneira.
Onde o Álvaro chegasse, constava. Ele encarregava-se de avisar logo à entrada, por entre raios e coriscos, avançando como um tornado de grau cinco, a enorme mão calejada e aberta desbravando caminho, oferecendo-se para um abraço, para uma palmada nas costas à moda antiga. Ser imperfeito como todos nós, mas menos imperfeito do que a maioria de nós, e muito menos imperfeito do que eu, por exemplo, o Chester tinha um coração enorme, desmesurado, e uma boca do tamanho do coração. Tinha o raio de um feitio, o homem, fazia inimigos com o dobro da facilidade com que fazia amigos. E também deu alguns pontapés na vida.
O Chester era generoso, impulsivo, excessivo e puro. E amiúde foi a primeira e principal vítima da sua generosidade sem peso nem medida. Era um bom selvagem, uma força da natureza, pau para toda a obra.
Era meu amigo. Forjámos a nossa cumplicidade no tasco, evidentemente. Nas tardadas de Inverno passadas à volta da braseira na cozinha da Dona Isabel, no Toninho Nacor, onde eu, com os bolsos cheios de cotão, ia levado pelo tio Américo. Em 1976, Barcelos acolheu o Campeonato da Europa de Hóquei Patins Sub-21 (juniores, chamavam-se então). O Chester falou do assunto. Comprámos duas assinaturas para o torneiro inteiro, e todas as noites lá íamos de Vauxhall até Barcelos por estrada nacional, que era o que havia, víamos os dois ou três jogos do programa, regressávamos a Fafe e eu chegava a casa já de madrugada. Fomos campeões.
Mais ou menos por essa altura, o Grupo Nun'Álvares estava instalado no edifício que fora posto da GNR, em frente à Igreja Matriz, e que hoje é, creio não estar enganado, casa paroquial. Ali foi construído um rinque em cimento e organizado, em 1977, o primeiro torneiro de futebol de salão em Fafe. Salão ao ar livre, é preciso que se note. Nunca falhei um jogo. Um dia vou à bilheteira comprar o bilhete do costume, está lá o Chester (o Chester tinha o seu quê de Deus, também estava em toda a parte) e entregou-me um livre-trânsito passado em meu nome e que dizia "Convidado da Organização - Prémio Assiduidade". Coisa inventada por ele, que era a alma daquilo tudo. Resultado: deixei de pagar para entrar e guardo religiosamente aquele cartão, como se fosse um santinho, uma relíquia da Terra Santa.
Quando terminei a minha felizmente efémera passagem pela tropa, o Álvaro foi a primeira pessoa a oferecer-me um emprego a sério e até já tinha tratado de tudo para eu tirar a carta de condução. Apareceu-me melhor, o Álvaro incentivou-me a aceitar a outra proposta, e ainda hoje não tenho carta nem sei conduzir.
O Chester alegrava-se quando me via em Fafe. Fazia questão que se soubesse que gostava muito de mim. E a verdade é que eu também gostava muito dele. E no entanto falhei-lhe miseravelmente na altura da vida em que por certo ele mais precisou dos amigos...
O Álvaro era, regra geral, do contra. Era um inquieto espírito de contradição. Tanto que, só para chatear, resolveu deixar-me a falar sozinho, quando tínhamos ainda tanto para conversar.

Felizes os ignorantes: quem não conheceu o Chester, não sabe o que perdeu. Trabalhador incansável, empreendedor contumaz, homem dos sete instrumentos e de mil causas, o Chester é uma história extraordinária e isto aqui é apenas um humilde lembrete, um quase nada. Grande, grande era ele. Álvaro Moreira Mendes. Chester, para todos os efeitos e para todo o serviço. Uma vida que dava um livro, um nome que merece rua. Em Dodge City já teria.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa.)

sábado, 17 de outubro de 2026

De cama em cama

Comidinha a sério
Felizmente também há em Portugal quem saiba, pratique, ensine e divulgue a cozinha tradicional portuguesa. Cozinha a sério (à séria, se lido em Lisboa), rica, recompensadora, essa, sim, assunto cultural. Já não temos a Senhora Dona Filipa Vacondeus ou o Chefe Silva, mas ainda se arranja qualquer coisa...

Adoro ver na televisão o trabalho dos jovens e famosos chefs da nouvelle cuisine portuguesa. Adoro!
Adoro ver aquele modo de confecção improvável, os ingredientes inovadores, variados e mínimos, o requinte e a cerimónia, o circo com a faca, a delicadeza no gesto, a anorexia na dose, a obra de arte final, aquela espécie de ilha cubista no meio do prato em branco, adornada com bagas, com ervas inventadas, com sucos e espumas, com salpicos e rabiscos de geleias coloridas. Salpicos e rabiscos aparentemente displicentes, ao calhas, porém profundamente cultos, sábios, cosmopolitas, científicos. Adoro!
Adoro ouvir aquelas palavrinhas francesas, parecem palavras mágicas, nominhos de perlimpimpim. Adoro!
Tudo muito confitado, muito braseado, muito abisnagado, muito resumido, muito em cama de. Adoro!
E a frescura?, ui, sobretudo muita frescura! Adoro!
Mal termina o programa, e enquanto não me esqueço, salto para a cozinha, enfio dois bolinhos de bacalhau da véspera dentro de meio biju ressesso, beberico um copo de verde branco, atiro-me à galinha de arroba que a minha mãe me mandou de Fafe e faço a boa e ancestral arrozada de cabidela. A cabidela monumental e histórica. E vai para a mesa no panelão, fumegante como velha locomotiva a vapor. Ei, rapazes, então é que eu me consolo...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Ser pobre é uma chatice

A fome, por uma boa razão
Só, desempregado e sem casa, não comia regularmente. Passava fome. Mas tinha vergonha de admitir a pobreza. Dizia que era de propósito, opção, livre vontade. Que desconfiava da segurança dos alimentos...

Ser pobre é lixado. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, vaga ideia, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O respeitável jornal Público anunciava, no tempo da troika: os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vede bem o que se escrevia e escreve em Portugal e já vamos no século XXI, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles, culpa deles, fossem para a Universidade, aprendessem Inglês. Os pobres não são leitores do Público.

Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é deveras dada a promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha por alma de quem lá tem". Pediam-nos a nós, porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles. E tínhamos casa.

Sei muito bem como tudo isto já funcionou em Portugal. Antes do 25 de Abril de 1974. E era desde os bancos da escola - da Escola Primária - que se aprendia, na carne, e com a crueldade própria daquela idade, a diferença entre ricos e pobres. A diferença entre os que tinham tudo e os que não tinham nada. A diferença entre a pasta de cabedal e a sacola de pano. A diferença entre os que escreviam em cadernos e os que ainda usavam a lousa. A diferença entre os meninos ricos que nunca apanhavam do professor e os miúdos pobres que levavam pancada de criar bicho. A diferença entre o sapatinho de verniz e as chancas ou o pé descalço. A diferença entre os que traziam lanchinho com pãezinhos com manteiga e marmelada e os que pediam a senha para ir comer uma sopinha. Pediam.
Exactamente: a sopa e a senha. Naquele tempo - no tempo em que os rapazes não se misturavam com as raparigas e os ricos também não se misturavam com os pobres -, as escolas não tinham cantina e havia muita fome. Havia uma espécie de cozinha, às vezes num edifício anexo ou próximo, e ali servia-se uma sopa. Assim acontecia na minha Escola Conde Ferreira. Era só atravessar a estrada, mesmo em frente.
Para terem direito à sopa, os miúdos pobres pediam todos os dias uma senha, que era um pequeno quadrado de papel com um carimbo e um sarrabisco feito pelo professor armado em médico. Pôr um  carimbo vitalício na testa de todos os pobres, dos pobres pobres, para que o aparelho do Estado pudesse saber imediata e inequivocamente quem podia ou não comer a sopa, teria sido talvez uma melhor ideia, mas a verdade é que a coisa não foi por aí.
Claro que já então - no antes do 25 de Abril de 1974, repito, que de verdade existiu - havia quem tivesse vergonha de ser pobre, quem tivesse vergonha de ser apontado publicamente como pobre, e preferia passar fome. Eu sei que não falta por aí quem sustente que fome é um conceito muito relativo, mas eu acho que é cada vez mais uma realidade copulativa, não sei se me faço entender.

Para quem não sabe ou não se lembra. No casarão onde era servida a sopa às crianças pobres da escola de Fafe, em condições sem condições nenhumas, funcionaram também, que me recorde e não sei se coincidindo, a Câmara Municipal, o centro de saúde e os serviços municipalizados de água e electricidade. Fui lá uma vez, à sopa, para ver como era. E não gostei.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Sei de sítios

Povo que apetece abraçar
Depois do almoço, perfeito, sento-me à porta do cafezinho ao lado, fumando a velha cachimbada e bebendo o meu CRF "em balão previamente aquecido", mas só de memória, porque há muito me deixei de tabaco e aguardentes. Entretenho-me a catalogar o "dégradé" de azuis das serranias à volta e tento dar sentido aos desenhos atabalhoados das nuvens. Ali estamos, eu e a Mi, felizes, em paz, abençoados. As pessoas da terra passam, reconhecem-nos, de nos verem amiúde, saúdam-nos, fazem-nos festa. - Já cá não vêm há muito! Têm de aparecer mais vezes! Gostamos de os ter cá! -, dizem-nos. É, há povo assim, povo que apetece abraçar.

Sou devoto dos prazeres da mesa, da santa trincadeira, como lhe chamava mestre Aquilino. Gosto da liturgia de uma boa refeição, em família ou com amigos, gosto de comer, gosto do que é bom, e sei o que é bom. Também sei fazer, e até bastante bem, tenho essa vantagem. Todos os dias há missinha em casa, ao almoço e ao jantar. Sou um apaixonado pela boa e honesta cozinha portuguesa. Gosto da cozinha portuguesa tal qual ela é, na sua pureza original: tradicional, apurada, robusta, variada, generosa. Um bom prato, uma especialidade daquelas de trás da orelha, é capaz de me fazer andar duzentos ou trezentos quilómetros pelo prazer de o degustar. Sei de sítios como quem sabe de ninhos. Sei de sítios que não conto a ninguém, nem sob tortura, e se a tortura não for a da fome. Sei de sítios que vão morrendo pouco a pouco, uns atrás dos outros, abandonados por quem não sabe. Uma desgraça.
Vim habituado ao bom desde Fafe. Enquanto posso (e posso cada vez menos, como a maioria dos portugueses), vou a esses sítios onde já há muito eu e a Mi somos tratados como amigos ou família, com direito a mimos especiais, mas tenho de admitir que é sobretudo a comida que lá me leva. Vou pelo gosto, pelo paladar, é este o meu parâmetro de aferição e escolha fundamental.
Mas respeito quem se deixa seduzir por outras variáveis gastronómicas ou paragastronómicas, como, por exemplo, essa coisa tão vaga ou talvez não como é "o serviço" ou "o atendimento". Sim, aprecio a boa educação, e pratico, gosto que me tratem nas palminhas, não entro em filas, nunca aguardo por vez, nunca, e detesto esperar à mesa. Mas interessa-me principalmente a qualidade da comida. O asseio, a limpeza e, lá em cima da escala, sempre, a rica comidinha.
Ah!, dizem-me, em tal restaurante o serviço é excelente, está-se muito bem. Acredito. Mas isso também nos spas, segundo suponho, e nem por isso vou lá comer.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Deus lhe conserve a vistinha!

Órgãos no mercado
Comprar órgãos no mercado, embora possa salvar vidas, é crime, dá dez anos de prisão. Concertinas ou acordeões, vá que não vá...

Havia um cego que tinha olho. Era de fora, o cego, não me lembro de onde é que vinha nem quem o trazia, mas ele fazia a feira de Fafe, todas as semanas, e safava-se satisfatoriamente, segundo me parecia. Às quartas-feiras, sem falta, parava à beira da minha rua, o Santo Velho, entre o tasco do Zé Manco e a loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, encostado à parede das casas sem passeio, decerto para aproveitar também as revoadas de povo da Fábrica de Ferro que por ali passava obrigatoriamente nas horas de troca de turnos. Eu bem disse, o homem era cego, mas tinha olho.
Vinham o cego e a mobília, isto é, a bengala de madeira pintada às listas brancas e vermelhas como a camisola do Leixões, mas na horizontal, um banco velho e o acordeão. Era um cego cantor. Cantor, pobre e pedinte, como a maioria dos cegos portugueses daquele tempo. O nosso prodigioso Augusto Fera, poeta e telefonista, era uma honrosa excepção. E o nosso Belinho, empresário e campeão do rockabilly, outro que tal. De resto, as saídas profissionais dos cegos, naquela altura, resumiam-se, regra geral e lotarias à parte, às esquinas e às cantigas, de preferência acompanhadas à sanfona. O acordeão fazia parte do curso de cego. O cego das nossas quartas-feiras cantava em tons trágicos e rima fácil aquelas estórias de amor e ciúme, faca e alguidar, que anos mais tarde são agora o ganha-pão das nossas televisões e dos nossos jornais. E, se bem me lembro, vendia folhetos impressos com os tenebrosos versos das tragédias reveladas e ainda com mais pormenores, mais desenvolvimento, a papelada presa por alfinetes ao casaco remendado e grande. Era o cordel, como ainda hoje se usa no Brasil.
Muito gostava eu de o ouvir! Éramos praticamente amigos, eu e o cego. Falávamos. Sabia-lhe as cantorias todas de cor, menos as novas, sempre dependentes da mais recente e escabrosa actividade criminal. O cego era, à sua maneira e para meu enlevo, mais uma atracção de feira, um espectáculo, Deus me perdoe. E apreciava-lhe também os intervalos repentinos, cirúrgicos, mal se precatava de passos à distância, e então, teatralmente, estendia a mão à caridade e declamava em voz arrastada, dramática, pungente, martelando sílaba a sílaba, e com potência de megafone: - Uma esmolinha ao ceguinho! Uma esmolinha!! Senhor! Senhora! Olhe que é muito triste não poder ver...
Caía a esmola ou não, o cego às vezes não sabia, por razão de força maior, mas rematava sempre, num golpe de mestre: - Muito obrigado, senhor! Muito obrigado, senhora! Deus lhe conserve a vistinha!
Eu apetecia-me aplaudir. E, mais, já tinha visto Laurence Olivier trabalhar no cinema e na televisão.
Ceguinho. Isso. O cego dizia "olhe", molageiro. Provocador, castigador. "Olhe", porque pode, eu é que não - sou cego. A minha mãe tinha razão. A minha mãe tinha sempre razão, e agora ainda tem mais, derivado à idade, e portanto nem admite contraditório seja do que for, e eu para lá vou. Mas então. A minha mãe não me deixava chamar cego ao cego, era O Ceguinho, olha o respeito!, e quem for de Fafe sabe muito bem a estima que colocamos no sufixo inho/inha, que tão amiúde utilizamos ou pelos menos utilizávamos. Até O Ceguinho, coitadinho, dizia que era cego, ceguinho, mas hoje em dia estaria enganado e seria severamente corrigido, parece tolo o raio do cego! Não. Pessoas de bem, modernas, civilizadas, cultas, vigilantes, palavristas, dir-lhe-iam que agora é invisual, não há cá cegos nem ceguinhos, isso só para os árbitros de futebol e devagarinho.
Dizem-me que o cego é invisual, e eu não me acredito. Ou então, se o cego é invisual, o surdo é insonoro, sim, insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual. É! Uma geral, nem mais nem menos. Aqui não há filhos e enteados. Esta terra de invisuais e quem possui um olho é monarca, já foi chão que deu uvas. Ou há moralidade ou comem todos. E só não vê isto quem não quer. Mas lá está, como diz o povo e com razão, o pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Bengala Branca.)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Dom Vilaça, senhor de Paredes de Coura

Foto Fernando Veludo

Mais vale quase do que realmente
A família é uma coisa muito estranha. Já reparastes que o mais forte laço familiar acaba por ser aquele que une as pessoas que "é como se fossem da família"?

Aquilino Ribeiro (1885-1963) percebia de comida, segundo consta e deixou escrito. E seria provavelmente um bom garfo. Na cozinha e à mesa, o escritor de Sernancelhe gostava do que era bom e sabia o que era bom. Perdia-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), apreciava caldo-verde, adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia as "dez" maneiras de cozinhar truta, assim e assado, e fazia questão de explicar ao detalhe como tudo devia ser trabalhado antes, durante e depois do lume. Por estas e por outras, há até quem diga que existe uma certa "gastronomia aquiliniana". E eu sei lá.
Ora, havia um sítio e um homem em Portugal que guardavam e serviam a cozinha e as palavras de Aquilino como se a tarefa lhes tivesse sido encomendada por quem de direito, e por acaso nunca foi. Era de livre e espontânea vontade. Podeis crer: a gastronomia aquiliniana de carne e osso, a que realmente existiu, foi inventada por outro, muitos anos depois da morte do próprio Aquilino Ribeiro. E o outro era Manuel Vilaça Pinto, o homem extraordinário que, nos bons velhos tempos, levava tanto povo a Paredes de Coura como o famoso festival de música - e a terra talvez não o tenha reconhecido suficientemente, pelo menos em tempo útil. O sítio era o seu Restaurante Conselheiro, espetado no coração da vila, mesmo em frente à Câmara Municipal.
O restaurante chamava-se Conselheiro derivado a outro figuraço local, o Conselheiro Miguel Dantas (1836-1905), com nome de rua, estátua e tudo, mas toda a gente ainda hoje pensa que era por causa do Sr. Vilaça propriamente dito. O Sr. Vilaça era, com efeito, conselheiro para todo o serviço. De comidas e de vidas. E um bom amigo. Querido e saudoso amigo. Tratava-me por "Amigo Hernâni", um "Amigo Hernâni" muito nasalado, que a Mi ainda hoje imita tão bem, sentava-se à mesa connosco, no nosso cantinho reservado, bebia um copo, enchia-nos de mimos gastronómicos, às vezes, no fim, recusava-se a receber, não dava hipótese, conversávamos entretanto de jornalismo, de política, de "famosos" da televisão e de gajas boas como o milho, que era o seu assunto predilecto. Era amiúde "um bocadinho" inconveniente, sobretudo na presença de senhoras, mas o que se havia de fazer, aquele era o nosso Dom Vilaça, como eu o tratava, não o reconheceríamos de outra maneira. Falávamos também de futebol, evidentemente, do seu Sporting, que só lhe dava desgostos, dos presidentes e treinadores pataratas que só o envergonhavam. Era um sportinguista de berço, inteiro e militante. Sofredor e adiado, como é todo o bom sportinguista. O jovem Manuel Vilaça tinha sido um prometedor praticante de atletismo em Alvalade, medalhado, internacionalizado, lá pela segunda metade da década de 1950, e a pancada ficou-lhe. Perdoava o meu portismo, mas Pinto da Costa é que não. Tinha-lhe uma osga tão grande que não sei se não foi disso que o velho papa-títulos morreu.
No Conselheiro restaurante, inimitável santuário gastronómico do Alto Minho interior, é que nasceu a "cozinha tradicional" de Paredes de Coura, isso posso garantir. A feijoada do Corno do Bico, a panela de cozido, o cozido frito, o bolo no tacho, o cabrito avinhado em verde tinto, o bacalhau alto de cebolada com lasca de presunto e broa frita, as pataniscas com arroz de feijão branco, as trutas de escabeche. "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer antecipado de mestre Aquilino. Foi tudo ali congeminado, desculpai-me a rudeza da descrição, os nomes assim tão crus, sem confitados nem emulsões, sem camas de, mas era apenas comida, coisinhas boas e apetitosas, nada de números de circo ou arte surrealista. E o Conselheiro era único até nisto: promovia Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. E o Sr. Vilaça encarregava-se de ensinar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferecia aos seus clientes um livrinho cheio de citações do autor de "Terras do Demo", palavrinhas que tinham a ver com o que se acabara de comer. E era tudo tão bom - a comida e as palavras...
Vinha gente de Lisboa e de mais além, vinham de propósito. Por ali passaram inúmeros figurões da praça nacional. Só eu contei, por acaso, o escritor Mário Cláudio, habitual freguês do estabelecimento, a actriz Paula Guedes, os actores e encenadores Diogo Infante e José Martins, o actor Pedro Giestas, o historiador e político Fernando Rosas, o jovem humorista Bruno Nogueira, o comendador Rui Nabeiro (1931-2023), família e entourage, o treinador de futebol Vítor Oliveira (1953-2020), o jornalista Alberto Serra e Miguel Veiga (1936-2016), advogado e co-fundador do PSD no Porto, os dois nas andanças de um programa da RTP precisamente sobre Aquilino Ribeiro, a respeito do livro "A Casa Grande de Romarigães".
Um dia eu deixei de poder ir ao Conselheiro. E parece que se passou o mesmo com toda a gente. De repente, Portugal inteiro ficou em casa a tomar conta dos velhos. O restaurante fechou. E esta é a história da minha vida: eu deixo de aparecer, e as casas fecham. Isto já vem desde o tempo do Cinema de Fafe e passou-se outra vez ultimamente com o Restaurante Cruzeiro, em Santa Maria do Bouro, Amares. Palavra de honra, fico com um sentimento de culpa de que nem fazeis ideia. Mas o Conselheiro. Dom Vilaça foi descansar para o Algarve, junto da filha, que o acompanhava há anos. Estava, de facto, bastante doente e amargurado. Eu costumava ligar-lhe todas as semanas e ele comovia-se muito, alegrava-se, desfazia-se em agradecimentos que só me envergonhavam. Depois, não sei dizer quando, o telefone deixou de atender-me...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Tocavam sempre duas vezes

Marques do Correio
O Marques do Correio aposentou-se ao fim de quase 50 anos de serviço nos CTT. Figura popular e generosa, profissional de uma competência insuperável, admirado e estimado dentro e fora do serviço, em Portugal e até no estrangeiro, o velho Marques ficou conhecido sobretudo por ter inspirado uma bonita cantiga celebrizada pela voz extensa e quente de Alberto Ribeiro e intitulada, nem de propósito, "Marques do Correio", derivado exactamente ao nosso Marques propriamente dito.

Os carteiros de Fafe eram homens poderosos. Traziam dinheiro, levavam notícias e, sobretudo, sabiam tudo de toda a gente. A vida toda. A situação económica, a saúde, o casamento, os filhos, as inclinações políticas, desportivas e religiosas, sabiam de quem saltava o muro ou mijava fora do penico. Sabiam de mortos e de vivos. De virgindades, desconsolos, infidelidades e viúvas. Isso, de viúvas é que eles sabiam! E eram casamenteiros, espertos promotores de segundas núpcias. Viesse algum homem de fora à procura de uma viúva fafense ainda em uso para casar, era só perguntar ao carteiro. Ele levava o pretendente à porta certa. "Nova, jeitosa, trabalhadora e limpa", prometia, na melhor das intenções. À minha mãe foi-lhe oferecido um abastado batateiro transmontano, tinha camioneta e tudo, mas ela optou pela viuvez para o resto da vida. Foi pena. Estaríamos hoje todos muito bem...
Mas era assim. Para os nossos carteiros, não havia segredos na vila e arredores. Seriam um perigo, se por acaso não fossem também boas pessoas - e realmente eram-no.
A Polícia daquele tempo vestia uma farda de terilene cinzento, que era a cor da Autoridade e do País. Os carteiros também vestiam de cinzento, com boné e tudo, mas em cotim. A outra diferença é que os carteiros eram nossos amigos. Gente de categoria, profissionais prestáveis, pessoas decentes. Fafenses excelentíssimos, sem dúvida e sem favor.
Lembro-me do João da Quintã, irmão do Avelino do Café e casado com a Deolinda do Tónio Quim Calçada, o João que depois desistiu de ser carteiro e foi com a família para o Canadá, se não estou em erro. Lembro-me do António Cunha, também bombeiro e assíduo camarada de conversa. Lembro-me do bom Belarmino Freitas, casado com a Licinha Mota da Casa Satierf, que queria dizer Freitas ao contrário. Lembro-me evidentemente do pândego Aristides e estou em crer que ainda me lembro também do pai do Aristides, o carteiro Egídio, se a memória não me atraiçoa. Deveria decerto lembrar-me de mais ilustres carteiros da nossa terra, parece-me até que estou a vê-los, os rostos, as figuras, o modo de andar, mas infelizmente não me ocorrem os nomes que lhes correspondam. E peço desculpa pela involuntária omissão.
Para além de poderosos, eram intrépidos os nossos carteiros. Valentes. A calcantes, de bicicleta chocolateira ou numa velha motorizada de serviço, saca de couro a tiracolo, enfrentavam as mais violentas intempéries e até cães. E eram persistentes. Tocavam sempre duas vezes, como no cinema, e três e quatro e cinco e seis, tantas vezes quantas fossem necessárias para serem atendidos, se sabiam - e sabiam sempre - se havia gente em casa. Eles é que decidiam o que era urgente e o que podia esperar para o dia seguinte. Se fosse preciso, tratando-se de dinheiro ou de documentação importante com prazos a respeitar, diligências melindrosas que não podiam nem deviam ficar ao cuidado de vizinhos, então eles próprios, os carteiros, extrapolando obrigações e abandonando a rota determinada, iam à procura dos destinatários aos sítios alternativos do costume, aos locais mais extraordinários mas já conhecidos, habituais, na feira, na poça, no tanque público, no rio, nos campos, no café, no tasco, no campo da bola, à porta da igreja, palavra de honra, era mesmo assim que as coisas se passavam.
"Que nós bem, graças a Deus", dizíamos nas cartas que mandávamos aos nossos entes queridos, e estava certo, quero acreditar. Graças a Deus, que tudo sabe e por todos olha. Mas também graças aos carteiros. Pelo menos os de Fafe não Lhe ficavam muito atrás. E por eles esperávamos, ansiosos mas confiantes, "até à volta do correio"...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. "O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes" é um dos mais famosos romances do jornalista e escritor norte-americano James M. Cain. Adaptado para o cinema por David Mamet, deu origem ao filme homónimo de Bob Rafelson, com Jack Nicholson e Jessica Lange. Hoje é Dia Mundial dos Correios.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Homem que é homem joga "de mane"

Bilhar de bolso
O bilhar de bolso, é preciso que se note, não se chama assim por ser jogado numa mesa pequenina e talvez portátil.

Em Fafe jogava-se "de mane", e às vezes forte e feito. Desafiar alguém para um jogo "de mane", ó meus amigos, era caso sério, provocação do piorio, aviso de trovoada, podia-se até morrer, pelo menos de vergonha. Jogar "de mane" era assunto para homens de barba rija, nem que fossem crianças ou mulheres. E era também malandrice, sim. Era um repente, palavra de honra, mas que parecia uma eternidade. Um momento suspenso no tempo, é assim que me lembro e creio que digo bem. - Vai um joguinho? - dizia um, de olhos faiscantes, nervoso, coçando o coldre. - Contigo, só se for "de mane"... - respondia o outro, manhoso, pendurando o casado e ajeitando as partes, e fazia-se um silêncio inteiro na sala, um silêncio com fundo, até parecia que tocava "Il Triello" de Ennio Morricone mas só para dois mais eu, que, campeoníssimo dos acasos, estava sempre presente nestas ocasiões, quanto mais não fosse para ouvir a música imaginária, creio aliás que era o único que tinha essa estranha capacidade, e nesse sentido, às tantas, até fazia falta ao enredo. Para além disso, eu entendia-os como mais ninguém, legendava-lhes a conversa com pronúncia e entoação de livrinhos de cobóis, isto na minha cabeça, e depois contava assim aos adultos, que achavam um piadão ao "caralho do moço".
Jogava-se, portanto, a dinheiro. Era isso que "de mane" queria dizer. A expressão era auto-suficiente, valia só por si, mas era isso que implicada: dinheiro em jogo, aposta. Às vezes uma coroa, três tostões, cinco coroas, numa lerpa furtiva entre miúdos, ao domingo à tarde, atrás da esquina, só para começar carreira. Por norma vinte escudos, cinquenta ou cem, cada um, em todo o caso eram fortunas, para maiores de idade e chefes de família, uma nota em cima da outra, dobradas e depositadas maldisfarçadamente sob a tabela do bilhar, ali à vista de toda a gente e à espera do vencedor.
Que se segue. "Mane" afinal seria money, a palavra inglesa para dinheiro, aportuguesada às três pancadas, simplificada aos trambolhões para a nossa linguagem de rua, de feira, mas isso em Fafe não se sabia, não havia essa noção naquela época, era o que eu então supunha, porque a mim esta correspondência tão evidente passou-me completamente ao lado, e eu tinha a mania que era fino. E também não sei como é que se construiu a expressão completa "de mane", significando "a dinheiro", sendo certo que realmente me parece que agrada muito mais ao nosso ouvido ouvir dizer "de mane" do que "a mane".
Acredito que "de mane" era talvez fafês puro, original, e posso estar redondamente enganado. Não encontrei a expressão noutro lado, aliás em lado nenhum, nem em Fafe, verdade seja dita, mas também não me esforcei por aí além. Estou aberto ao desmentido e à correcção, se for esse o caso.
Eu era mocico, maluco por cinema e livros, sobretudo aos quadradinhos, entregava-me de alma e coração aos meus afazeres de mirone desimpedido, permanentemente em cima do acontecimento, fora as vezes em que a minha mãe me ia buscar pelas orelhas, e foram tantas. A minha mãe parecia que tinha radar. E eu tinha ideias e teorias. Para mim, na minha gloriosa ignorância, a expressão "de mane" vinha mas é de mano a mano, de homem para homem, cara a cara, face a face ou arca por arca, como também se falava antigamente. Indicava um confronto directo, proporcional, um duelo, uma luta ou uma competição entre duas pessoas em igualdade de condições, como anotam hoje os dicionários e tal qual como no desafio do bilhar, estais a ver, por isso, que, apesar de provavelmente errado, não era assim tão tolo o meu pensar naquela altura.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A esfera armilense

Carlota Joaquina, Teolinda Joaquina de Sousa Lança (aliás, Linda de Suza), Joaquina de Vedruna, Mariana Joaquina Apolónia da Costa Pereira de Vilhena Coutinho, Joaquina Lapinha, Joaquininha, a minha sogra, e a Quininha "Varandas", de Fafe. Sete Quinas, como dizia o outro. 

A esfera armilar só pode ter sido inventada em Armil, talvez no tempo dos romanos, que é um tempo do mais antigo que pode haver. Mais antigo do que o tempo dos romanos, só o tempo dos dinossauros, que, no entanto, não eram um povo assim tão evoluído. Mas quanto à invenção da esfera, que não haja dúvidas: em Armil, como o próprio nome indica, armilar, para não dizer armilense, e nem é de admirar, tendo em conta que a História de Portugal e até de outros países mais ou menos estrangeiros passou-se bastante aqui em Fafe, basta ver as batalhas de São Mamede e de Castillon, para não irmos mais longe.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional dos Castelos.)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A peita

Os ausentes
Sim, ele gosta muito de presentes. Mas os ausentes falam-lhe mais ao coração...

Peita. Dádiva ou promessa com o fim de subornar, suborno, antigo tributo pago pelos que não eram fidalgos - é o que dizem os dicionários. E peitar, seguindo esta linha de raciocínio, será, então, subornar com peitas, corromper, aliciar com dádivas e promessas. Talvez. Mas a peita, naquele tempo, ao menos em Fafe, era mais que um simples suborno e muito menos que um simples suborno. Até podia ser pagamento de favores, reais ou imaginários, simulacro de cunha, mas ia para além e ficava aquém disso. Não era corrupção tal como hoje a entendemos e usamos, era, isso sim, uma manifestação quase folclórica de uma certa subalternidade social mansamente aceite e assumida pelo pé-descalço, resquícios decerto medievais do tal imposto popular, numa gratidão imensa e sem sentido pelos de cima. Enfim, sabujice e lambe-botismo em todo o seu esplendor, os pobres davam aos ricos, não sei explicar de outra maneira, e assim funcionava o regime.
O meu avô, por exemplo. O meu avô da Bomba gostava muito de ser doente e adorava ir ao Porto "ao especialista". Era uma coisa constada. Íamos "ao especialista" como se fosse uma romaria, uma excursão familiar na catrel de três velocidades do meu padrinho Américo. Íamos, mas todos com a perfeita noção da solenidade do momento e da compostura que se exige numa ida "ao especialista" e ainda por cima ao Porto. Era um cardiologista na Rua de Sá da Bandeira, que por acaso também era médico do poeta Pedro Homem de Mello, que nós conhecíamos da televisão a preto e branco, e eu ficava muito emocionado por estar ali à beira daquela grande figura, na sala de espera, a cores, mas evidentemente sem abrir o bico, para não destoar e às tantas até "incomodar" o meu avô. O meu avô da Bomba, e este era um ponto de que toda a família estava avisada e o resto de Fafe também, "incomodava-se do coração".
Quando ia "ao especialista", o Bô da Bomba levava-lhe sempre um bom quilinho da melhor vitela de Fafe, traço seleccionado e cortada pelas sábias mãos do Sr. Abreu do Talho, embrulhado em imaculado papel costaneira e impecavelmente atado e laçada com fio norte de qualidade superior. Era a peita, o regalo, é claro que o meu avô não podia ir ao Porto com consulta marcada e aparecer "ao especialista" de mãos a abanar...
As peitas aos médicos eram, aliás, aparentemente consensuais e obrigatórias, e creio saber que hoje em dia ainda há quem por aí as pratique. E não se pense que se tratava de um pagamento de consulta em géneros. Não. Era um pagamento em cima do pagamento em dinheiro vivo, pagas e não bufas, um extra, uma gratificação, uma gorjeta de mãos largas, sei lá bem por que carga de água. Em Fafe havia um médico muito famoso por receber peitas, tantas e tantas, material de luxo, belas peças de caça, dúzias de ovos caseiros, salpicões, presuntos, cabos de cebolas, rasas de milho ou feijão, frangos, capões, coelhos, cabritos, mortos e vivos, e não sei se também porcos, peitas, tantas e tantas, dizia eu, que o senhor doutor aceitava alegremente e depois vendia, inclusive aos açougueiros locais, tudo passado a patacos. Isso, o médico rico fazia negócio com as esforçadas oferendas dos seus doentes pobres, tinha até uma "criada" destinada quase exclusivamente a esse ofício. Toda a gente sabia do cambalacho, na vila e nos arredores. Alguém de bolsos mais abonados andava com desejos de uma perdiz de escabeche, precisava de um coelho-bravo para dar ao patrão, queria um pato à moda antiga para uma tainada das tais, não tinha nada que enganar, era só ir ao médico...

A peita, para ser considerada e aceite como tal, deveria ser praticada de chapéu na mão e espinha vergada, balbuciando-se no acto da entrega, reverente e agradecido, muitos "obrigados!", diversos "desculpe por ser pouquinho!", um singelo e envergonhado "semos probes!", e já à porta, sempre andando às arrecuas, um derradeiro e definitiva "desculpe"...

O Natal era uma época especialmente porreira para as peitas. Consoada não é só o banquete de Natal, a reunião da família à mesa, na noite de 24 para 25 de Dezembro. Consoada é também a prenda que se dá a alguém pelo Natal, dias antes, e esse uso da palavra era então muito comum em Fafe.
Nas férias de Natal, era costume os meninos da escola primária levarem a consoada, isto é, a peita, a casa das professoras ou professores. Uma oferta simples, chocolates, rebuçados, alguma mercearia essencial, como se fosse para o Banco Alimentar, um gesto bonito, dir-se-ia, se não estivesse desde logo ferido de uma profunda injustiça social. Havia aqui, no exercício da peita escolar, qualquer coisa de insensato, algo de paradoxal, uma gritante subversão de valores - afinal, os miúdos éramos sobretudo filhos de operários, caixeiros de baixo salário, pequenos lavradores aflitos, tarefeiros incertos, proletários de uma forma geral, e os professores, apesar do infinito desprezo de Salazar, eram professores, quer-se dizer.
Havia professoras ou professores que levavam a mal e tomavam de ponta os alunos que não lhes dessem nada. Havia professoras ou professores que aceitavam simpaticamente o mimo e entregavam às crianças uns docinhos para a troca. Havia professoras ou professores que agradeciam muito o gesto, mas pediam aos meninos que voltassem a levar as coisinhas para casa, onde faziam muito mais falta. E havia o meu professor e a esposa do meu professor.
O meu professor, melhor dito, o meu excelentíssimo professor era o Toninho da Cafelândia, o Professor Correia, que morava, se não me engano, na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, ali logo nas redondezas do Jardim do Calvário e do Tribunal. Fui lá uma vez levar a peita. Talvez um quilo de açúcar, do melhor, talvez um quilo de arroz, do melhor, ajeitados não em cartuchos normais, cinzentos, grosseiros, mas nuns cartuchos coloridos, alegres, finos, eventualmente até com fitinhas. A minha mãe caprichou.
Toquei a campainha e fui acolhido pela esposa do meu professor. Perguntou-me quem é que eu era, não precisei de explicar muito, sabia de nós, da nossa situação, a senhora agradeceu sinceramente os meus dois cartuchos, pegou neles com um sorriso, pediu-me para esperar um bocadinho à porta e foi lá dentro. A casa tinha umas escadas. A esposa do meu professor voltou num lampo e, quando voltou, vinha mais carregada do que quando foi. Trazia nas mãos, para me dar, um saquinho com rebuçados e um saco com quatro cartuchos dentro, talvez arroz, talvez açúcar, mas eram outros os cartuchos e a dobrar, para eu entregar à minha mãe e que lhe dissesse muito obrigado e que lhe mandava cumprimentos.
A boa senhora solucionara facilmente o paradoxo. E eu, todo contente, aprendi a lição da gentileza e da generosidade, do respeito pela dignidade do pobre que dá.

Por outro lado, convém não esquecer, o assunto aqui era a peita. A peita, de uma forma geral. A peita, isto é, a mama, a grandessíssima mama.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Professor. Viva a peita! Vivam os peitos! Vivam os nossos queridos professores! E viva a República!)

domingo, 4 de outubro de 2026

Soba! Soba! Soba!

Sete cães a um osso
"Os cães passam e a caravana ladra", dizia sempre que os via. Realmente, estava farto de políticos e de campanhas eleitorais

Nunca se deve fazer isso: assobar os cães. Para além de estúpido, é perigoso. Mas fazia-se, e muito. Sou testemunha. Em Fafe, portanto no Baixo Minho interior, e pelo menos também em Trás-os-Montes, segundo li e faz sentido, as pessoas tinham essa mania tola de assobarem os cães. Em Fafe, aliás, assobava-se bastante. - Olha que eu assobo-te o cão! Era um aviso, uma ameaça. Uma burrice. Assobar, verbo regional, oralizado, rústico, antigo e actual, queria e quer dizer provocar uma briga, uma bulha, uma luta, um ataque entre cães, ou então lançá-los contra humanos, eventuais invasores de propriedade, dissidentes de café ou apenas vizinhos de quem não se gosta.
Assobar é, evidentemente, o mesmo que açular, isto é, estimular, instigar, provocar, acirrar, incitar, irritar, atiçar, estimular, excitar, enraivar, mandar morder ou atacar. E como é que isso se fazia? Como é que isso, se calhar, ainda se faz? Colocando os cães frente a frente, focinho contra focinho, ou ao pé das pernas do homem-alvo, empurrando os animais, chibatando-os, apontando ao "inimigo" e gritando a palava de ordem "Soba! Soba! Soba!", que havia de significar "Ataca! Ataca! Ataca!", e terá sido assim que a coisa começou, de soba para assobar ou vice-versa, sei lá, estabelecendo-se enfim na gramática do povo.
E é curioso, isto do falar dos velhos. Os cães, eu já os tinha metido no "Torna! Torna! Torna!", não sei se vos lembrais, e agora, por maioria de razão e direito próprio, entram neste "Soba! Soba! Soba!". Pois é. Como dizia o saudoso Eduardo Guerra Carneiro e eu não me canso de repetir à minha mulher: isto anda tudo ligado.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Animal e Dia do Médico Veterinário. E Dia de São Francisco de Assis. E começa a Semana Mundial do Espaço.)