Mostrar mensagens com a etiqueta CTT. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CTT. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Tocavam sempre duas vezes

Marques do Correio
O Marques do Correio aposentou-se ao fim de quase 50 anos de serviço nos CTT. Figura popular e generosa, profissional de uma competência insuperável, admirado e estimado dentro e fora do serviço, em Portugal e até no estrangeiro, o velho Marques ficou conhecido sobretudo por ter inspirado uma bonita cantiga celebrizada pela voz extensa e quente de Alberto Ribeiro e intitulada, nem de propósito, "Marques do Correio", derivado exactamente ao nosso Marques propriamente dito.

Os carteiros de Fafe eram homens poderosos. Traziam dinheiro, levavam notícias e, sobretudo, sabiam tudo de toda a gente. A vida toda. A situação económica, a saúde, o casamento, os filhos, as inclinações políticas, desportivas e religiosas, sabiam de quem saltava o muro ou mijava fora do penico. Sabiam de mortos e de vivos. De virgindades, desconsolos, infidelidades e viúvas. Isso, de viúvas é que eles sabiam! E eram casamenteiros, espertos promotores de segundas núpcias. Viesse algum homem de fora à procura de uma viúva fafense ainda em uso para casar, era só perguntar ao carteiro. Ele levava o pretendente à porta certa. "Nova, jeitosa, trabalhadora e limpa", prometia, na melhor das intenções. À minha mãe foi-lhe oferecido um abastado batateiro transmontano, tinha camioneta e tudo, mas ela optou pela viuvez para o resto da vida. Foi pena. Estaríamos hoje todos muito bem...
Mas era assim. Para os nossos carteiros, não havia segredos na vila e arredores. Seriam um perigo, se por acaso não fossem também boas pessoas - e realmente eram-no.
A Polícia daquele tempo vestia uma farda de terilene cinzento, que era a cor da Autoridade e do País. Os carteiros também vestiam de cinzento, com boné e tudo, mas em cotim. A outra diferença é que os carteiros eram nossos amigos. Gente de categoria, profissionais prestáveis, pessoas decentes. Fafenses excelentíssimos, sem dúvida e sem favor.
Lembro-me do João da Quintã, irmão do Avelino do Café e casado com a Deolinda do Tónio Quim Calçada, o João que depois desistiu de ser carteiro e foi com a família para o Canadá, se não estou em erro. Lembro-me do António Cunha, também bombeiro e assíduo camarada de conversa. Lembro-me do bom Belarmino Freitas, casado com a Licinha Mota da Casa Satierf, que queria dizer Freitas ao contrário. Lembro-me evidentemente do pândego Aristides e estou em crer que ainda me lembro também do pai do Aristides, o carteiro Egídio, se a memória não me atraiçoa. Deveria decerto lembrar-me de mais ilustres carteiros da nossa terra, parece-me até que estou a vê-los, os rostos, as figuras, o modo de andar, mas infelizmente não me ocorrem os nomes que lhes correspondam. E peço desculpa pela involuntária omissão.
Para além de poderosos, eram intrépidos os nossos carteiros. Valentes. A calcantes, de bicicleta chocolateira ou numa velha motorizada de serviço, saca de couro a tiracolo, enfrentavam as mais violentas intempéries e até cães. E eram persistentes. Tocavam sempre duas vezes, como no cinema, e três e quatro e cinco e seis, tantas vezes quantas fossem necessárias para serem atendidos, se sabiam - e sabiam sempre - se havia gente em casa. Eles é que decidiam o que era urgente e o que podia esperar para o dia seguinte. Se fosse preciso, tratando-se de dinheiro ou de documentação importante com prazos a respeitar, diligências melindrosas que não podiam nem deviam ficar ao cuidado de vizinhos, então eles próprios, os carteiros, extrapolando obrigações e abandonando a rota determinada, iam à procura dos destinatários aos sítios alternativos do costume, aos locais mais extraordinários mas já conhecidos, habituais, na feira, na poça, no tanque público, no rio, nos campos, no café, no tasco, no campo da bola, à porta da igreja, palavra de honra, era mesmo assim que as coisas se passavam.
"Que nós bem, graças a Deus", dizíamos nas cartas que mandávamos aos nossos entes queridos, e estava certo, quero acreditar. Graças a Deus, que tudo sabe e por todos olha. Mas também graças aos carteiros. Pelo menos os de Fafe não Lhe ficavam muito atrás. E por eles esperávamos, ansiosos mas confiantes, "até à volta do correio"...

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. "O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes" é um dos mais famosos romances do jornalista e escritor norte-americano James M. Cain. Adaptado para o cinema por David Mamet, deu origem ao filme homónimo de Bob Rafelson, com Jack Nicholson e Jessica Lange. Hoje é Dia Mundial dos Correios.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Marques do Correio

O Marques do Correio aposentou-se ao fim de quase 50 anos de serviço nos CTT. Figura popular e generosa, profissional de uma competência insuperável, admirado e estimado dentro e fora do serviço, em Portugal e até no estrangeiro, o velho Marques ficou conhecido sobretudo por ter inspirado uma bonita cantiga celebrizada pela voz extensa e quente de Alberto Ribeiro e intitulada, nem de propósito, "Marques do Correio", derivado exactamente ao nosso Marques propriamente dito.

P.S. - Hoje é Dia Mundial dos Correios.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Já começou 2

Os carteiros são cada vez mais vítimas de ameaças, injúrias e agressões físicas por parte dos clientes, revoltados com a demora na recepção dos vales das reformas, abonos de família e Rendimento Social de Inserção. A denúncia é feita pelos sindicatos do sector, que acusam os CTT de estarem a atrasar de propósito a entrega do correio.
De acordo com Vítor Narciso, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações, "o correio está a ser deliberadamente atrasado porque houve decisão dos CTT de fazer uma distribuição segmentada". "A segmentação foi introduzida para diminuir o número de trabalhadores. Foi uma forma que a empresa arranjou de poupar dinheiro à custa dos trabalhadores e da população", acrescenta, por seu turno, Jorge Costa, dirigente da Comissão de Trabalhadores dos CTT, que acusa também a Administração dos Correios de querer eliminar cerca de 4.000 dos 11.500 postos de trabalho.
É mais lenha para a fogueira. E, nestes tempos de fome e revolta, "brincar" com os vales das reformas, dos abonos e do pessoal do rendimento mínimo é uma provocação quase suicidária. Isto vai acabar mal. E vai sobrar para os desgraçados dos carteiros, que não têm culpa nenhuma desta filhadaputice toda.

sábado, 2 de julho de 2011

Reclamar é bom

Eu não era assim. Eu era o típico português de come e cala, paga e não bufa. Mas as circunstâncias mudaram-me o feitio e agora ninguém me atura. No espaço de seis meses, já me peguei pelo menos com os CTT, dois bancos, quatro vozes ao telefone, uma concessionária de auto-estrada, um leitor do contador da água, um fabricante de alheiras, uma operadora de telecomunicações, uma editora, seis vendedores porta a porta, um supermercado, mais dois ou três institutos públicos, e tem sido muito bom. Eu agora sou assim.
E estou particularmente à coca com movimentos bancários e portagens. É. Cobrança abusiva de portagens, multas aplicadas por engano, pagamento de custas por serviços não prestados e até cobrança de anuidades gratuitas, tem-me acontecido de tudo. E eu reclamo. E eles devolvem-me a massa. Demoram, mas devolvem.
O que é preciso é estar atento. O mais certo é que eu andasse a ser levado há um ror de anos, mas não dava fé, não ligava. Ouvia dizer que andava meio mundo a roubar o outro meio e achava que era apenas azar estar sempre no lado errado do mundo. Palerma.
Agora estou sempre em cima deles. E, desde que reclamo, sinto-me um homem novo, embora o mercado de trabalho não seja da mesma opinião.
Mas isto é uma guerra. Temos que estar psicologicamente preparados e ter... uma paciência de Job. A táctica deles é milenar, do tempo do Sun Tzu: tentam vencer-nos pelo cansaço. Primeiro, começam por ignorar a nossa reclamação; depois, após mais 15 contactos, dizem que enviaram a reclamação para o departamento competente; depois, após mais 14 contactos, o departamento competente diz que vai analisar a situação; depois, após mais 13 contactos, o departamento competente diz que está a analisar a situação; depois, após mais 12 contactos, o departamento competente diz que o assunto passou para as mãos do coordenador; depois, após mais 11 contactos, informam que, sim senhor, estão finalmente prontos a devolver-nos os tais 5,32 euros. Aqui já se passaram quatro ou cinco meses, mas volta tudo ao princípio: lá temos que explicar outras 66 vezes, com desenhos e tudo, que são 27,76 euros e não 5,32 euros. E, pronto, um belo dia o nosso querido dinheirinho (27,76 euros) lá torna a casa, de onde nunca deveria ter saído. Simples, não é?
A táctica deve resultar com a maioria, porque até departamentos oficiais a usam. Há meses que estou à espera que SIEV (Sistema de Identificação Electrónica de Veículos) e InIR (Instituto de Infra-Estruturas Rodoviárias), dois organismo públicos, me respondam a um par de questões simples, tão simples que quase poderiam ser resolvidas com um sim ou com um não, mas nem sequer se dignam acusar a recepção dos meus e-mails. Um por mês, religiosamente.
Pois que tirem o cavalinho da chuva, de mim não se livram. Não tenho ganho sempre, mas já ganhei muitas vezes. E reclamar desopila.