Mostrar mensagens com a etiqueta crise. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crise. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Monólogo do barbeiro

Foto Hernâni Von Doellinger

"Cabeleireiro masculino". Olho para o reclame e fico sempre naquela. Mas quê, será masculino porque é homem? Ou será masculino porque atende homens, isto é, barbeiro? E se o cabeleireiro masculino for mulher, não deveria dizer-se, sem ofensa, cabeleireira masculina? E se o cabeleireiro for feminino, o que é que temos a ver com isso? E se o barbeiro for mulher, não vamos mais longe, porque é que não é barbeira? E em caso de indefinição ou escolha múltipla, coisa absolutamente natural, poderá ser, por exemplo, barbeire? Cabeleireire? São problemas assim que de facto me afligem - quero lá saber de outras guerras.

Eu e o meu barbeiro comunicamos por sinais. Ele sabe que comigo não há conversa: entro no estabelecimento, levanto a mão direita em saudação índia mas não digo "Ugh!", sento-me na zona de espera, espero, varejo O Jogo, olho com fastio para as folhas do Jornal de Notícias, vejo as figuras da revista Volta ao Mundo, coço a cabeça e eventualmente os testículos, espreito-me aos espelhos, que realmente me favorecem, espero, espero, levanto-me quando chega a minha vez, que me é indicada pelo meu barbeiro com um aceno de cabeça, coisa cá entre os dois, aproveito os três passos de caminho para apontar se é só barba ou se é barba e cabelo, sento-me e está tudo dito. São muitos anos!
Conversa de barbeiro é uma seca. E um perigo. Os barbeiros sabem de tudo e nós, simples e indefesos clientes, não. Portanto, de navalha em punho, eles começam a falar na crise dos mísseis de Cuba de 1962 e só terminam, uma hora depois, já a socar-nos o tralhame com a escova, quando chegam ao caso do dono do café ao lado que tem a mania de deixar a janela do carro aberta, "Qualquer dia ainda se fode, com sua licença, Senhoreee...", e, depois de termos saído e já irmos longe, ainda vão à porta gritar: - O Senhoreee... também deixa a janela do carro aberta? Deixa? Ai é motorizada? Pois, nesse caso...
Ai de quem se atreva a conversar com o seu barbeiro, nem sabe no que se está a meter! Porque os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Pasmados, à volta do cliente, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas, dizem que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível", "A sério?", "A sério?", "É o país que temos", "Pois, hoje em dia", "Tem toda a razão", "Senhoreee...", "Senhoreee...". O nosso barbeiro nunca sabe o nosso nome, somos todos "Senhoreee..."
O meu barbeiro, treinei-o à minha feição. Nem um pio! Comigo, nem se atreve a pegar no espelho mostra-carecas para me perguntar, no final do serviço, se está tudo bem. Já sabe que comigo não vale a pena, até porque não me consta que se possa descortar cabelo. Vamos direitos ao assunto, quero dizer à máquina registadora, espreito os numerozinhos verdes a ver se ainda é o mesmo preço, é, pago, recebo o troco, levanto a mão direita em saudação índia e saio novamente sem dizer "Ugh!", que ele não estranha. Aliás, o meu barbeiro ficou bastante admirado quando, uma vez, eu lhe disse que não sou mudo.
Mas, para chegarmos a este superior estádio de entendimento silencioso, tácito, a esta combinação tão antiga e cómoda, precisei de me começar a impor logo no princípio, há mais de quarenta anos, quando cheguei de Fafe, habituado a barbeiros para homens de barba rija, e que hoje em dia, afinal, também já não passam de suspeitíssimos "salões de beleza"...

Ora bem. Não sei o que deu ao meu barbeiro, que, sem mais nem menos, resolveu falar. Comigo! E eu, de boca fechada e dentes cerrados, perante semelhante fenómeno ou talvez traição - falta de respeito, pelo menos -, mandei-o calar com os olhos, quase o fulminei. Mas ele fez-se de ceguinho e continuou com o relambório. Os barbeiros de um modo geral são assim, falam sempre, mesmo que a gente não lhes responda. Como os dentistas. E o meu barbeiro, parecia possuído, estava igual aos outros barbeiros, abriu o livro. Porque conversa de barbeiro tem técnica.
O meu barbeiro começou pela política, quer-se dizer: pelo Ventura, que vai meter estes mamões todos na ordem. O que até me veio a calhar para eu continuar calado, porque não percebo nada de política e, além disso, não gosto de dizer palavrões em público nem chamar nomes a ausentes. Perante o meu militante silêncio, o meu barbeiro passou para o futebol, quer-se dizer: Luís Filipe Vieira, gangues, facadas, polícia, e eu, nada. O meu barbeiro tentou-me, então, com o Trump, agora é que o vão apanhar. Valha-me Deus, antes de almoço não, lá se me ia o apetite. E o funeral da rainha, que foi uma categoria? E eu a pensar que o real evento, se foi mesmo uma categoria, esteve certamente a cargo do nosso Baptista de Antime, mas moita-carrasco! E as notícias? Quer-se dizer: o Manuel Luís Goucha que mandou a Teresa Guilherme para a prateleira. E a Cristina Ferreira, que foi de fim-de-semana a Sevilha. E a Fátima Lopes que deslumbrou em biquíni. E o Malato que diz que dá para os lados todos como as circunferências. E a Sónia Araújo, e o Jorge Gabriel, e o João Baião. Também não. Nem assim. Mantive-me irredutível, irrevogável, calado como uma porta, mudo como um herói.
O meu barbeiro pareceu desistir. Silenciou-se, magoado. E assim esteve, pareceu-me, durante uma boa meia hora. Até que, indo ao fundo da sua alma, arrancou um imenso suspiro, pôs a cara mais sofrida do mundo, suspendeu a tesoura trabalhadeira num gesto teatral e atirou-me, certeiro: - E este tempo, hã?! Isto está...
Ah!, bom, o tempo. Falando do tempo, assim já nos entendemos: tivemos ali conversa até à hora de almoço e ligámos um ao outro, à tarde, para esclarecermos dois ou três pontos.

É claro que eu não vou ao barbeiro há mais de dez anos, derivado à crise. Se deixei de ir ao cardiologista, para poupar dinheiro, por que razão havia de continuar a ir ao barbeiro? É a Mi quem me corta o cabelo e a barba cá em casa, na varanda sem marquise que temos mesmo em frente ao mar, se nos pusermos de lado. Mas eu e o meu barbeiro éramos exactamente assim. Praticamente assim. Entretanto a minha mulher aprendeu na Internet a realizar cateterismos, e cá nos vamos arranjando.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 6 de novembro de 2022

Rafa, tira, deixa, põe

Há cada vez mais portugueses pobres ou no limiar da pobreza e da exclusão social. São quase metade da população. Os mais ricos estão mais ricos e os mais pobres estão mais pobres. O número de pessoas em situação de sem-abrigo também aumentou: são agora quase dez mil, só os de papel passado, mandará o bom senso de quem anda todos os dias na rua que lhes acrescentemos pelo menos outros tantos. A fome é o pão nosso de cada dia. O desemprego é um modo de vida. Sobreviver está pela hora da morte. Não há dinheiro para a electricidade, não há dinheiro para o gás, não há dinheiro para a água, não há dinheiro para a farmácia, não há dinheiro para a lata de atum. Nos transportes públicos são cada vez mais os passageiros que, apanhados pela fiscalização, exibem imediatamente e por iniciativa própria o cartão de cidadão em vez do título de viagem que não têm, para serem competente e inutilmente identificados e multados, e querem lá saber. Os governantes atolam-se em patranhas e trafulhices, e querem lá saber. As oposições organizam torneios internos de tiro aos pés, e querem lá saber. O Presidente da República fala geralmente sem saber do que fala, e quer lá saber. Os portugueses só têm quem os foda, e querem lá saber. O que os portugueses querem saber é: e o Rafa, como é que vai ser? 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Um país sem tintins

Tintim fez 92 anos em Janeiro. E bem fodido estaria se fosse português. Provavelmente com uma reforma de miséria e esmolada ao cêntimo, encaixotado num lar de idosos clandestino, proibido de ir estorvar para a hemodiálise ou de sequer bater à porta das urgências. Teria certamente fome e vergonha por ver o seu país entregue à banca corrupta e a escritórios de advogados e contabilistas estrangeiros e mentecaptos. Choraria com o triste espectáculo dado pelos mal-amanhados títeres que fazem de conta que são governo e oposição em Lisboa e nem um orçamento conseguem parir. Pediria a morte medicamente assistida, se pudesse pagar, mas não pode.
A sorte de Tintim é que ele é belga. Em Portugal não há tintins. 

domingo, 25 de outubro de 2020

A minha mãe avisou: o povo é tolo e estamos de volta à fressura

Há pelo menos uma grande superfície do Porto que está a vender fressura às pessoas como se fosse para dar de comer aos cães. Mas é para a mesa das pessoas. As pessoas andam com fome e pedem a fressura. Nas lojas de congelados, as cabeças de pescada foram cortadas ao meio e as caras de bacalhau saem como pãezinhos quentes. As pessoas, que andam com fome e nunca na vida cozinharam (e não sabem cozinhar), agora olham para umas postas esquisitas, perguntam "que peixe é este?, é bom para quê?", os funcionários dos frigoríficos fazem o papel respectivo, inventam no momento um nome qualquer para o peixe e dizem que "é bom para o forno, para fritar, para a brasa, para estufar, para caldeirada, é bom, muito bom", e o peixe é uma merda mas as pessoas querem acreditar que é bom, muito bom, porque é multifunções e muito mais barato do que peixe a sério e estão com fome. E levam. E são levadas. E está bem: o polvo e as lulas agora são potas. Filhos da puta que nos puseram assim. Nos talhos, o fígado para iscas e os ossos da suã são hits nacionais. Os pescoços de frango também e as asas é um ar que se lhes dá. As pessoas estão sem dinheiro e têm fome. As pessoas não têm emprego e as que têm trabalham para pagar impostos e remédios.
A ver se me faço compreender: sempre fui praticante de asas e pescoços de frango, de ossos da suã, de iscas de fígado, de caras de bacalhau e de cabeça de pescada, se for inteira. Fui e sou. Sei dar-lhes o valor e as voltas: cá em casa são petiscos. Ainda não necessidade. À fressura (deixem-se lá de malícias) é que nunca mais tornei.
E em miúdo até era eu quem ia ao Talho, a mando da minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Só havia um talho na vila, e por isso era com maiúscula, e não há uma mãe como a minha. Se acham que é lugar-comum, isto da minha mãe, estão redondamente enganados. Perguntem em Fafe, chama-se Alexandrina e vão ficar admirados. Mas a minha mãe hei-de explicá-la como deve ser mais lá para diante.
Já sabem que éramos pobres. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. E casava muito bem com massa, que era também comida de quem apenas sobrevivia. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, microbife, é preciso que se note, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de economia. A minha mãe fazia comida muito boa e devia ser ministra das Finanças.

A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e os títulos do FC Porto, que eram, a bem dizer, proibidos. A minha mãe não admite marcha-atrás. "O povo é tolo! Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. Mas, ó mãe, deixe lá o relato só por um bocadinho: estamos de volta à "fresura"?...

P.S. - Hoje, 25 de Outubro, é Dia Mundial das Massas.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Lay-off

Quando foi mandado de lay-off perguntou aos patrões "Posso dizer lá em casa que é temporário?" e os patrões responderam "Podes, podes..." e partiram-se a rir.

sábado, 5 de julho de 2014

O Papa Francisco vs. Passos Coelho

O Papa Francisco disse hoje que "o problema de não trabalhar não é deixar de ganhar dinheiro para comer". Há organizações, nomeadamente no seio da Igreja, que nos podem dar alimentos. "O problema - explica Francisco - é não poder levar o pão para casa, é perder a dignidade". Exactamente. O Papa ensina que o desemprego significa a perda da dignidade humana.
A 11 de Maio de 2012, Pedro Passos Coelho explicou muito bem explicado aos portugueses que "estar desempregado não pode ser um sinal negativo". Exactamente. O alegado primeiro-ministro de Portugal prometeu o desemprego como janela de oportunidade para a plena realização pessoal e profissional.
Católico, desempregado e sem janela, estou como o tolo no meio da ponte. Francisco ou Pedro? Francamente, não sei em quem acreditar...

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Portugal de luxo, Portugal de lixo

Foto Hernâni Von Doellinger

Leio num site oficial do Governo de Portugal: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Cheguei à exclusiva, luxuosa, sofisticada e duas vezes prestigiada novidade com meia dúzia de dias de atraso. Mas sei que em Janeiro as notícias diziam que Portugal tinha cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e que, em 2012, era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados e milhares de sem-abrigo. No Portugal de lixo multiplicam-se os chalés de luxo como o da foto acima. Ontem, no espaço de menos de cem metros, passei por três. E só espero que os deixem ficar. É o que resta a estes desgraçados: a ilusão de terem um tecto.

domingo, 4 de maio de 2014

A tal saída limpa

Foto Hernâni Von Doellinger

São cada vez mais os portugueses que procuram a sobrevivência no fundo de um contentor do lixo. Sei, porque ando na rua. Ainda há bocado, de Matosinhos até à Foz, no Porto, passei por nove pontos de contentores de lixo: em seis deles estavam pessoas à cata dos nossos melhores restos. Não eram "drogados", nem "alcoólicos", nem "arrumadores" fora das horas de expediente - se querem saber. Eram pessoas como nós, certamente com mais azar na vida do que nós. Vi, por exemplo: uma família inteira, que podia ser a minha família; uma senhora arranjada e digna, puxando um carrinho de compras que ia compondo com critério, e podia ser a minha mãe; um cavalheiro com o velho orgulho alquebrado, que me olhou com olhos de pedir desculpa por necessitar, e quase posso jurar que ele era eu.
É. Portugal está pronto para a saída limpa. Os portugueses que afocinhem.

(O texto é do passado dia 26 de Abril - chamava-se Portugueses low-cost. A fotografia fi-la há um minuto, em honra de Passos Coelho na televisão.)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O glorioso Dia do Desempregado

Hoje é 1.º de Maio, Dia do Desempregado em Portugal. Somos milhão e meio e estamos todos de parabéns. Haverá caldo-verde e iogurte de manga na sopa dos pobres, para quem chegar cedinho. A Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet proferirá uma simpática alocução alusiva à efeméride.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Devia ser proibido escrever proíbido

A minha junta de freguesia, que agora se chama de Matosinhos e Leça da Palmeira, parece nome de nobreza, colocou ali em baixo um contentor para recolha de roupa e calçado usados. É uma boa ideia. Mas o contentor, sendo novo em folha, veio com defeito de fabrico. Traz palavras que não existem na língua portuguesa: diz que "É proíbido o acesso ao interior" do dito e alerta para a "Afixação proíbida" no mesmo. "Proíbido"? "Proíbida"? Onde caralho foram buscar o acento? Isto não é distracção, é apenas um dos erros mais comuns do famigerado analfabetismo institucional - é burrice. Porque, se pensarmos um bocadinho e não fizer doer muito a cabeça, dá mais trabalho pôr o acento do que não pôr. O acento que não é preciso é, então, intencional. Trata-se, portanto, de ignorância militante. Oficial e registada.
E era tão fácil perceber que é proibido e proibida. Antes até da gramaticazinha, bastava ouvir o que se escreve...

Em todo o caso, realce-se a pertinência do aviso contra a "Afixação". Está bem visto. Olhar afixamente seja para onde for e sem pestanejar faz realmente muito mal aos olhos.

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 26 de abril de 2014

Portugueses low-cost

São cada vez mais os portugueses que procuram a sobrevivência no fundo de um contentor do lixo. Sei, porque ando na rua. Ainda há bocado, de Matosinhos até à Foz, no Porto, passei por nove pontos de contentores de lixo: em seis deles estavam pessoas à cata dos nossos melhores restos. Não eram "drogados", nem "alcoólicos", nem "arrumadores" fora das horas de expediente - se querem saber. Eram pessoas como nós, certamente com mais azar na vida do que nós. Vi, por exemplo: uma família inteira, que podia ser a minha família; uma senhora arranjada e digna, puxando um carrinho de compras que ia compondo com critério, e podia ser a minha mãe; um cavalheiro com o velho orgulho alquebrado, que me olhou com olhos de pedir desculpa por necessitar, e quase posso jurar que ele era eu.
É. Portugal está pronto para a saída limpa. Os portugueses que afocinhem.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O futebol realmente

Foto Hernâni Von Doellinger

1. Aos domingos de manhã eles lá estão e são os meus ídolos. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture. Jogam a sério, estão organizados, tenho visto assembleias gerais antes dos prélios. Há os da praia seca e, no quintal dos fundos, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra. Estes homens nunca se disporiam a ir à Madeira apenas para passear camisolas, teriam vergonha. E a ilha podia afundar.

X. Os jornalistas portugueses estão muito preocupados e preocuparam o País por causa dos ex-jogadores profissionais de futebol que já não são ricos. Falam de Jorge Cadete, de António Veloso, de Fernando Mendes, o magro, de Porsches, de mais de 17 mil euros por mês, de ganhos de um milhão de euros numa carreira, de Rendimento Social de Inserção, da esmola de amigos. E recomendam-nos que sejamos culpados e tenhamos pena.

2. O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol prepara um documento de apoio aos jornalistas portugueses que são despedidos às carradas e passam fome.

P.S. - Não é para me gabar, mas a foto é mesmo um mimo: até tem bola! No tempo do jornalismo, ter bola era condição sine qua non para um boa fotografia de um jogo de futebol. Se não havia bola, ia-se buscar o esférico a outro retrato qualquer e colava-se na fotografia que seguia para publicação. Era o photoshop na ponta da tesoura.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Mais vale mal acompanhado

Serafim d'Eiteiro tinha uma loja de fazendas em Cima da Arcada, por baixo do Club, e era homem de voz grave e piada fina. Frequentava a sala das traseiras do Peludo, onde, após almoço, se jogavam umas bilharadas iglantónicas. Aquilo era coisa constada, só para artistas diplomados e até metia apostas a dinheiro, reunindo sempre uma pequena multidão de espectadores dados ao palpite e a gozar o parceiro. Em Fafe era assim.
E uma vez foi de mais. Eu era puto e estava lá. Um dos jogadores, desgraçadamente em dia não e alvo único e reiterado da chacota geral, perdeu de repente as estribeiras e, varando com os olhos a plateia ali à roda, atirou, cheio de raiva e perdigotos: Ide todos para o caralho! Todos...
Mas nisto encarou o respeitável comerciante, pessoa de outra idade e estatuto, e resolveu abrir uma honrosa excepção: Todos, não. Faz favor de desculpar, senhor Serafim, não é para si - corrigiu o bilharista azarado e despeitado porém atencioso, botando giz no taco.
Sentado logo à entrada depois do degrau, no canto por baixo do velho rádio dos relatos domingueiros, Serafim d'Eiteiro disfarçou um sorriso maroto atrás do fumo do cigarro sem filtro e respondeu naquela maneira vagarenta de falar que dava ares de sabedoria - Muito obrigado pela deferência, mas aqui sozinho é que não fico. Se o amigo não leva a mal, eu também vou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros foi à Alemanha dizer que está "muito orgulhoso" com a "postura dos portugueses" perante a crise. Um elogio que, naquela boca, é um insulto. E eu estou como o Serafim d'Eiteiro. Não quero que Paulo Portas tenha orgulho em mim. Dispenso. Não aceito a consideração de Portas. A falsa consideração de Portas, jogador da política, incomoda-me, faz-me comichão, deve ser do giz. Recuso a deferência. E, se estou lá, exijo ser imediatamente retirado da lista dos portugueses com postura deste ministro impostor.

(Texto escrito e publicado no dia 19 de Setembro de 2012, por toleima política. Tinha o título de "Desarrisquem-me da lista do Portas". Mas façam-me o favor: desleiam o último parágrafo, o Portas não merece, o Portas não interessa para nada. O senhor Serafim d' Eiteiro é que sim, merece e interessa. Por isso torno a ele. A história é verdadeira, uma de muitas do figurão. O apelido "d'Eiteiro" seria uma corruptela de "do Outeiro". Lugar do Outeiro, Antime, donde creio que era este ilustríssimo fafense. Serafim do Outeiro igual a Serafim d'Eiteiro, assim terá decidido o povo, na sua indesmentível sabedoria.)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Os pobres

Foto Hernâni Von Doellinger

Ser pobre é fodido. Mas, para quem não sabe o que é a pobreza, "pobre" é apenas título de jornal, cinco caracteres sem pessoas dentro. Pessoas de pele e osso. O Público diz que os "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Vejam bem o que se escreve em Portugal e já vamos no século vinte e um, o tal que nem deveria existir se houvesse respeito pelas profecias: os "pobres" têm outra vez direito à senhazinha da sopa dos ditos. Se os pobres morrerem de fome é porque não deram o nome. Ou então porque não sabem o que quer dizer take away. Problema deles. Os pobres não são leitores do Público.

Havia o clero, havia a nobreza e havia o povo. E isto estava muito bem percebido. Depois apareceu a burguesia, que meteu um bocado de nojo, amantizando-se com o clero, com a nobreza e com o povo, consoante, porque a burguesia é muito dada a certas e determinadas promiscuidades. E a seguir, mas isto já foi um a seguir que demorou muito tempo e ainda está a doer, veio o proletariado, lá do fundo do fundo do clero, da nobreza, do povo e da burguesia que estava distraída a chá e torradas. E do sarro dos pés do proletariado, tipo cogumelos, renasceram os pobres, que aqui atrasado eram uns desgraçados que em dias certos batiam à porta da nossa casa, em Fafe, a pedirem "uma esmolinha, por alma de quem lá tem". Porque nós éramos pobres, mas menos pobres do que eles.
O Público titula que "pobres passam a ter acesso a refeições take away em 950 cantinas em todo o país". Os pobres. Nós. Os que, hoje em dia, não somos nem clero, nem nobreza, nem burguesia, nem povo, nem sequer proletariado, nem jornalistas. Nem somos os pobres que damos esmola. Somos os pobres que a pedimos. Somos outra vez os pobres de papel passado e, isto sim é notícia, vítimas do insulto patarata que também já esbordou da política para o alegado jornalismo.
Eu sou pobre e estou aqui, deste lado. A rapaziada que escreve as tolices que a mandam escrever e os tituladores que acham que são mais finos do que os outros, essa é gente que não sabe de que lado está. Um destes dias cortam-lhes as respectivas comissões de serviço de três meses, escravidão, recibo verde, pouca vergonha e pouca conversa. Talvez então a rapaziada e os tituladores pataratas percebam que afinal somos todos do mesmo: portugueses, pobres, na fila da sopa, apesar de uma vez na vida termos sido serralheiro especializado ou jornalista simpatizante.

(Texto escrito e publicado no dia 16 de Fevereiro de 2012)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Janelas de pressão

Foto Hernâni Von Doellinger

No dia em que lhe roubaram o emprego, disseram-lhe: "Se calhar até foi bom, vais ver. Por cada porta que se fecha, há sempre uma janela que se abre". E de facto. Há cinco anos que Leonilde lá está, de braços cruzados no peitoril, a contar natais e a ver a vida passar. Manda currículos, rega os vasos e tem uma almofadinha de croché para não magoar os cotovelos escanzelados pela fome.