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quarta-feira, 5 de novembro de 2025

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Low cost e sem bicho

Na beira da estrada, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros, avisava, fluentemente bilingue: "Fruta low cost". Era a primeira vez que eu via semelhante. Estávamos em plena EN 13, entre Vila Nova de Cerveira e Valença, mais próximos de São Pedro da Torre. Interessou-me.
Parei. Perguntei:
- Low cost, diz. Esta fruta é mesmo low cost?
- Lowcostíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- A caixa?
- A caixa.
- Com fruta?
- Com fruta.
- Com bicho?
- Sem bicho.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Mas com bicho...
- Sem bicho.
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como diz o nosso povo: às vezes o low cost sai high cost...
- Que interessante conversa! Agora que já nos entendemos, diga-me lá sinceramente: cinco euros a caixa, com fruta, sem bicho, é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria outra vez com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Adeus, ó vai-te embora!...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Maçã.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Low cost e sem bicho

Na beira da estrada, nacional treze, topo de Portugal, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros: "Fruta low cost".
Parei. Perguntei:
- Esta fruta é mesmo low cost?
- Lowcostíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- A caixa?
- A caixa.
- Com fruta?
- Com fruta.
- Com bicho?
- Sem bicho.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Mas com bicho... 
- Sem bicho.
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como diz o nosso povo: às vezes o low cost sai high cost...
- Que interessante conversa! Agora que já nos entendemos, diga-me lá sinceramente: cinco euros a caixa, com fruta, sem bicho, é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria outra vez com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Não venhas tarde...  

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Fevereiro de 2017. Hoje, 25 de Novembro, é Dia de Lembrança das Compras.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Low cost e sem bicho

Na beira da estrada, nacional treze, topo de Portugal, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros: "Fruta low cost".
Parei. Perguntei:
- Esta fruta é mesmo low cost?
- Low costíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- A caixa?
- A caixa.
- Com fruta?
- Com fruta.
- Com bicho?
- Sem bicho.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Mas com bicho... 
- Sem bicho.
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como diz o nosso povo: às vezes o low cost sai high cost...
- Que interessante conversa! Agora que já nos entendemos, diga-me lá sinceramente: cinco euros a caixa, com fruta, sem bicho, é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria outra vez com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Não venhas tarde...  

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Fevereiro de 2017. Hoje, 21 de Outubro, é Dia Internacional da Maçã.

sábado, 8 de maio de 2021

O low cost chegou à fruta

Na beira da estrada, nacional treze, o letreiro em cartão canelado castanho recortado às três pancadas e infantilmente colorido, porém sem erros: "Fruta low cost".
Parei. Perguntei:
- Esta fruta é mesmo low cost?
- Low costíssima, meu caro senhor. Se encontrar fruta mais low cost, devolvemos-lhe o dinheiro. É o lema da casa...
- Qual casa?
- A carrinha, o toldo...
- E a como é o quilo?
- Da carrinha ou do toldo?
- Da fruta low cost...
- Cinco euros a caixa.
- Com fruta?
- Com fruta.
- Francamente, não acho lá muito low cost...
- Olhe que mais low cost do que isto não há...
- Por acaso, ali atrás, coisa de quinhentos metros, era mais low cost...
- Dou isso de low cost, quer-se dizer, mas é preciso ver a qualidade do produto. Como diz o nosso povo: às vezes o low cost sai high cost...
- Que interessante conversa! Agora que já nos entendemos, diga-me lá sinceramente: cinco euros a caixa, com fruta, é mesmo o mais low cost que me pode fazer?
- É preço de tabela, indexado à cotação do Brent, meu caro senhor. Amigos amigos, negócios à parte: se eu lhe levasse mais low cost, entraria em deficit, certamente em default, e estaria outra vez com a troika à perna, isto é, à leg...
- Nesse caso, arrivederci!
- Não venhas tarde...  

P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Fevereiro de 2017. Hoje, segundo sábado de Maio, é Dia Mundial do Comércio Justo.

Prato do dia

O reclame impresso sem erros em papel A4 e colado na portinha de vidro do minúsculo restaurante dizia em letras garrafais "Prato do Dia - 3,50 euros". E em letras pequeninas esclarecia "Só prato". Manobras publicitárias à parte, prato com comida era realmente uma bocadinho mais caro...

Barato

Barato, barato é trabalhar em Portugal. 

Do preço do brushing ao Império dos Sentidos

Disseram-me que me faziam um brushing por quatro euros e meio. O panfleto metido na caixa do correio sugere que se trata de uma promoção para o "Mês do Amor", e eu acho que compreendo, embora seja um gajo antigo, do tempo em que nem havia Dia dos Namorados. Quatro euros e meio são novecentos escudos: sinceramente não sei se isto é uma pechincha ou marketing enganador, estou por fora do mercado, não ando por aí a apreçar o brushing, e ainda não decidi se gosto que mo façam em salding, mas percebo a ideia.
Ao contrário do que os falsos moralistas defendem, o brushing é uma coisa como outra qualquer. Faz parte. Por exemplo: muitas mulheres gostam e têm muita pena de não fazerem brushing por causa do atraso de vida dos seus maridos, que só admitem o brushing na cabeça das outras e gabam-se. São fariseus de carregar pela boca.
O panfleto oferece também "Nuances", por quinze euros e meio, "Extensões" por trinta euros e meio, e "Alisamento (tudo incluído)", por trinta e cinco euros e meio. Colocada assim a questão, não digo que não vá lá, embora precise de pedir um empréstimo ao banco. Trinta e cinco euros e meio são sete contos e quinhentos, mas, valha-me Deus, é "alisamento" e com "tudo incluído".
Oito euros e meio custa o "brushing+corte". Preços comparados, até parece barato, mas nesse é que não me apanham - vi uma vez num filme, chamava-se "O Império dos Sentidos". Dasse!...

P.S. - Publicado originalmente no dia 8 de Fevereiro de 2014. Não sei como estão actualmente os preços.

O explicador de baixo custo

Sob a eloquente divisa "A alegria e o prazer de aprender", o panfleto introduzido na minha caixa do correio promete apoio ao estudo "em ambiente acolhedor e familiar", para os 1.º, 2.º e 3.º ciclos. Promete também "Preços Low Cost". Vê-se logo que o douto explicador estima particularmente a língua portuguesa.  

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Genericamente falando

Fui à farmácia comprar o antibiótico. A senhora doutora farmacêutica perguntou-me:
- Marca ou genérico?
- O mais barato, se faz favor. Pode ser de saldo, se tiver, ou mesmo em segunda mão, se for em conta - respondi.
Veio o antibiótico. Genérico.
- São seis euros e setenta e nove - informou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Seis euros e setenta e nove? - espantei-me. - Mas o senhor doutor médico escreveu aqui na receita que, e passo a citar, "esta prescrição custa-lhe, no máximo, 77 cêntimos, a não ser que opte por um medicamento mais caro"...
- Pois, mas não ligue a isso. É o que eles têm lá no sistema. O preço muda ao fim de três meses - disse-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a receita é de hoje, fresquíssima - atalhei.
- Pois, mas é o sistema - reiterou a senhora doutora farmacêutica.
- E o sistema "deles" não é o mesmo sistema das farmácias? Entre 77 cêntimos e seis euros e setenta e nove vai uma diferença de quase dez vezes mais, como é que isto é possível? - inquiri e tornei a inquirir.
- Faça o favor de ver aqui no computador. Na verdade há mais barato, este de três euros e quinze, mas que hoje, por acaso, até já custa cinco euros e trinta e sete, e não temos - explicou-me a senhora doutora farmacêutica.
- Mas a custar 77 cêntimos é que nada - insisti.
- Nem de perto nem de longe, é o sistema - insistiu, por seu lado, a senhora doutora farmacêutica.
- E os senhores doutores médicos sabem? - eu.
- Sabem, sabem - a senhora doutora farmacêutica.
- Desculpe voltar ao mesmo: mas então porque é que os senhores doutores médicos escrevem estes preços nas receitas se sabem que estão a enganar os doentes?
- É para pressionar as farmácias - segredou-me a senhora doutora farmacêutica, chegando-se-me ao ouvido.
- E tem resultado, não tem? - devolvi-lhe eu, no mesmo tom confidencial. 


P.S. - Publicado originalmente no dia 16 de Agosto de 2014, então sob o título "Os médicos, as farmácias e o sistema". Os medicamentos genéricos começaram a ser vendidos em Portugal no dia 8 de Julho de 1992. A propósito: em Fevereiro de 2015 os jornais noticiaram que a Administração Regional de Saúde do Norte descobriu que havia "farmácias a vender genéricos demasiado caros". Vamos em 2020 e as farmacêuticas continuam comerciando à Lagardère com a saúde das pessoas. Mas porque é que ninguém me pergunta?...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O que é verdade ao domingo pode não ser à sexta

Domingo, 25 de Maio de 2008 - Pedro Passos Coelho, candidato à liderança do PSD, apela ao Governo de José Sócrates para que desça urgentemente o imposto sobre os combustíveis, a fim de evitar um "colapso económico".
Sexta-feira, 13 de Abril de 2012 - Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, garante que o Governo não irá interferir no preço dos combustíveis, justificando que o contrário criaria "défices tarifários" que teriam de ser compensados com os impostos dos contribuintes.