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terça-feira, 27 de outubro de 2026

A problemática do bairro problemático

Prò maneta
Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.

Não se pode dizer negro, não se pode dizer cigano, não se pode dizer anão, não se pode dizer maneta, não se pode dizer drogado, não se pode dizer gatuno, não se pode dizer pedinte, não se pode dizer pistoleiro, não se pode dizer sexo. Mas problemático pode dizer-se. A CMTV é especialista em problemático, sabe tudo sobre a problemática do problemático, e as outras cmtv também. Ainda agora, agora mesmo, olhei para a televisão e verifiquei que foi falecido a tiro um jovem de 24 anos num "bairro problemático". Um bairro problemático, querem eles dizer, é um bairro onde moram negros, ciganos, anões, manetas, drogados, gatunos, pedintes, pistoleiros e gajos e gajas que se dedicam à indústria do género. Mas isto que não saia daqui.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia dos Jornalistas pela Paz.)

sábado, 24 de outubro de 2026

O Emplastro, usa-se e deita-se fora

Foto Maria João Gala / Jornal de Notícias
 
Aquela altura do ano
Uma vez em Agosto. "Cão deixado no lixo dentro de um saco gera onda de solidariedade em Vila Real", anunciava o jornal. Acrescentando: "Plataforma Proanimal alerta que nesta altura do ano há mais animais abandonados e menos pessoas disponíveis para os acolher." Verdade como punho, ontem como hoje. Embora não gere nenhuma "onda de solidariedade", está curiosamente a acontecer o mesmo com os velhos e com os recém-nascidos, por assim dizer, humanos - cada vez mais abandonados e com cada vez menos pessoas disponíveis para os acolher. É. Vivemos realmente uma "altura do ano" perigosíssima. Mas os cãezinhos, Senhor...

O cidadão Fernando Alves. O Animal, chamam-lhe, ou o Emplastro, que, segundo o semanário Expresso, foi contratado por agências turísticas para acompanhar os passeios pelo menos bêbados de mais de 15 mil finalistas universitários portugueses a Espanha, isto só em 2008. Quinze mil doutores, em dinheiro de hoje em dia, e devem estar todos agora a mandar no país. O extraordinário Emplastro que até foi ao Herman SIC e teve direito a dentes novos, dados por um desinteresseiro benemérito, ó que publicidade tão bem empregue.
Eu sei que há guerras por esse mundo fora, cá em casa Portugal arde, o país é assumidamente racista, já sem pedir desculpa, as crianças nascem na rua ou nas ambulâncias, bebés são deitados ao lixo e velhotes também, os ministros enrodilham-se em contas malfeitas e histórias mal contadas, os novos fascistas medram como cogumelos, as mulheres regressam à cozinha, até Deus anda metido com indivíduos da pior espécie, mas o campeonato de futebol começou e, portanto, o nosso Fernando apresentou-se ao serviço. A televisão sem ele é uma seca, e com ele também, mas o Fernando tem pinta. Tudo continua normal, normalíssimo, e cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas, como dizia Sérgio Godinho, o escritor de canções. O pior é mesmo o defeso futebolístico, que, felizmente, já lá vai. No defeso, como o próprio nome indica, ninguém quer saber se o Fernando é herdeiro do Pinto da Costa ou filho do Luís Filipe Vieira, ou pai do Frederico Varandas ou sócio do António Salvador, e então o que é que se passa? Isto: sem câmaras de televisão para preencher, o Emplastro monta base à porta de um restaurante de Matosinhos, não sei se convidado ou somente tolerado pela gerência, e abrilhanta, à saída, copos de brutos, hic!, quero dizer, fotos de grupos, gente bem. Nos intervalos das suas pertinentes intervenções (faz cara de Emplastro, só lhe pedem isso), o Fernando deita-se na soleira da porta ao lado e então faz papel de famélico de Calcutá, o que lhe fica um bocado mal, estando ele gordo como um chino. E pede, se vê uma máquina fotográfica, "Uma moedinha, é para comer, é para comer..." - o número do costume. Não sei quem é que actualmente lhe está a cuidar da imagem e da carreira, o superagente Jorge Mendes não é de certeza, mas há ali qualquer coisa que não bate certo. Eu sei, já disse, é no defeso, mas isso não explica tudo.
O Fernando fez-se Emplastro a pulso, porque não é tolo nenhum - ao contrário do que muitas pessoas possam pensar -, mas também deu jeito a certas e determinadas televisões que ele fosse assim. E aos jornais. E às revistas. Pois se até o "entrevistavam" e lhe fizeram o "perfil"! Por outro lado, também já mete um bocado de nojo, não é verdade? Às tantas ainda o mandam para a Arábia Saudita.
Posso dar um palpite? Posso e é o seguinte: ninguém vai querer saber do Emplastro, quando o Fernando estiver deitado na soleira e for a sério (à séria, se lido em Lisboa). Nem os comensais arrotantes nem os estudantes terminais. Quem ousará sobressaltar-se quando o Animal for realmente abandonado?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Texto original publicado em Junho de 2015. Afinal, lá em cima, à direita, na excelentíssima foto de Maria João Gala, o nosso indispensável Emplasto, o verdadeiro falso sem-abrigo português, é que foi dar força à malta. Isto, sim, é altruísmo, e certamente também foi um belo momento de televisão. A fotografia, se não me enganaram, é da acampada-aconchada-arruada "pelo direito à habitação" desta tarde, na cidade do Porto.)

Quando íamos aonde elas

Trocado por miúdos
O divórcio aos cinquenta anos foi-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima, trocado por dois rapazes de vinte e cinco.

No tempo em que dois mais dois eram catro e crescer era crecer e descer era decer e fruta era fruita e homem era home e ferrugem era ferruge e água era auga e ontem era onte e ordem era orde e depois era apois e bom era bô e quando era cando e entre, preposição, era antre, nesse tempo, no nosso velho Minho agalegado, nós íamos aonde elas. Assim de dizia, a minha mãe ainda diz, felizmente, e por acaso adoro ouvi-la dizer. Ir aonde ela ou ir aonde ele significava, isto é, significa, ir ter com ela ou com ele ao sítio onde ela ou ele estão, sobretudo quer dizer ir a casa dela ou a casa dele.
Coisa muito diferente, porventura mais impetuosa, e envolvendo pelo menos outras responsabilidades e consequências sociais, era ir para onde elas. Isso, ir para onde elas, porque também se verificava, a verdade é para ser dita. Ir para onde ela ou ir para onde ele correspondia a ir para casa dela ou ir para casa dele, creio que me faço entender, e usava-se frequentemente em casos da adultério, casamentos infelizmente escangalhados ou evidentes amantizações finalmente assumidas, divórcios é que não, porque em Fafe não havia.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Uma casa na padaria

Ainda me lembro...
Sou uma pessoa muito antiga. Eu sou do tempo em que padaria era uma loja que fabricava e vendia pão.

Há uma senhora que mora na minha padaria. E não é a proprietária. Digo que mora na minha padaria porque, seja qual for a hora a que eu lá vá - oito, onze, meio-dia, quatro ou seis da tarde -, a senhora está lá, na mesa do canto, ao lado do balcão, quem vai para os lavabos. É exactamente para esse endereço que as Finanças lhe mandam as contas dos impostos: Dona Fulana de Tal, Mesa do Canto Ao Lado Do Balcão Quem Vai Para Os Lavabos, 4450-275 Matosinhos.
A nossa padaria em Fafe era na Rua Monsenhor Vieira de Castro, lado direito, com o Largo pelas costas e o cruzamento do Santo Velho mesmo à frente do nariz. Ficava por baixo da casa dos pais do Paulinho, que eram os donos do estabelecimento, entre as lojinhas da Dona Vitória capelista, que era uma santa, e da Aurorinha Maia, que era um vulcão, não desfazendo. Era a padaria do Sr. Rodrigues, mas, para todos os efeitos, chamava-se apenas Padaria. Depois tivemos de mudar para o Assento e a Padaria Moura ficou-nos mais à mão, mas nesse tempo já eu andava por fora a dar água sem caneco. Lembro-me, ainda assim, que as padarias vendiam bijus, bicas e pães-de-leite para os ricos, broa grossa, broa fina, às vezes sêmeas e regueifas ou roscas principalmente pela Páscoa. Enfim, vendiam pão. Isso eram as padarias.
Mas hoje em dia as padarias são tudo: café, salão de chá, pastelaria, cervejaria, restaurante, casa de pasto, tasco, pensão, centro de convívio, sociedade recreativa, quiosque, tabacaria, meeting point, posto de turismo, guiché de informações variadas. E vendem de tudo, até pão, o que é curioso. São os tempos que correm: o meu talho também vende ovos, azeite, queijo, vinho, peixe congelado, feijão, ananás e pêssego enlatados. E a minha frutaria apareceu ontem com o aviso - "Temos ostras".
Sendo tudo e muito concorrida, a minha padaria tem televisão e, portanto, milhões de opiniões. A campeã do palpite é a cliente residente, cuja, para mal dos meus pecados, padece de uma voz deveras agreste e guinchada uma oitava acima como se fosse comentadora desportiva na CMTV. Nunca a apanhei calada.
"Não. O meu filho não gosta de andar!...", anunciava um destes dias a senhora que mora na minha padaria. "Parabéns à prima!", disse eu cá para mim. "Um marmanjo com mais de trinta anos e não gosta de andar. Está bem, Alfreda! Se calhar quer colo, o menino...", continuei com os meus botões.
Mas ela insistia, repetia até à exaustão, cheia de orgulho no calaceiro: - O meu filho não gosta de andar. Não. Não gosta de andar...
Eu ia falar. Palavra de honra, eu ia dizer qualquer coisa a respeito do assunto e ia ser ali o fim mundo, uma epifania em cuecas. Porque, na minha padaria, eu passo por mudo. Há anos que está assim assente. Um velho mudo sorridente que sabe dizer "Bom dia!" e "Obrigado!", de resto peço por sinais e pago com dinheiro certo, que a minha mulher me dá. Eu ia destoar, estender-me ao comprido, dar cabo do meu tão precioso disfarce, quando a senhora que mora na minha padaria fez questão de rematar, mesmo em cima da hora: - Não gosta de andar. Uma casa, nem que fosse pequenina, mas com tudo, o meu filho preferia. Uma casinha. Andar, não!
Ai era isso! Ufa, safei-me por pouco...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Padeiro.)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O quinto dos infernos

O futuro está no teletrabalho
Tem sido um sucesso o apoio domiciliário em teletrabalho a idosos sozinhos e acamados. O Governo pretende alargar a experiência aos transportes públicos e à construção civil.

Moro num terceiro andar. Direito. E, como bom fafense exilado, dou-me muito bem com todos os vizinhos do prédio, que agora se chamam condóminos, isto é, não me dou de todo com vizinho nenhum, que é a melhor maneira de nos darmos todos bem. O meu vizinho do quinto entrou em obras, ou por outra, resolveu deitar a casa abaixo da porta para dentro e fazer lá dentro uma casa nova, isso é lá com ele. Paredes, soalhos, tectos, canalizações, instalações eléctricas, louças e móveis de casa de banho e cozinha, tudo destruído sem dó nem piedade, deitado abaixo à força de camartelos pneumáticos, sonoras rebarbadoras, explosões de dinamite, buldózeres, bolas de aço e outra maquinaria pesada de demolição, que eu bem a ouço lá em cima em manobras, um chinfrim medonho, um basqueiro insuportável, incessante, eu e a minha mulher já só falamos um com o outro por SMS para nos ouvirmos, é pó por todos os lados, sufocante e cego, a porta da rua sempre escancarada, de manhã à noite, os elevadores impraticáveis, o chão um nojo, é o inferno, o fim do mundo mesmo em cima das nossas cabeças em água, ouradas, doridas, cansadas, apenas com os vizinhos do quarto-direito de permeio, esses, coitados, completamente à beira da loucura e já em tribunal, com a casa a tremer-lhes como varas verdes e episódios bidiários de histeria conjugal.
A duração da obra está estimada em quatro meses, pelos melhores cálculos, a fazer fé no aviso gentilmente afixado lá em baixo, no placar de cortiça do condomínio. E não me posso queixar, ou ainda me mandam para a minha terra. De acordo com a missiva do vizinho do quinto, a empreitada "decorre tal como permite o quadro legal em vigor", dando "cumprimento ao estipulado nos n.ºs 1 e 2 do art.º 16.º do Regulamento Geral do Ruído, aprovado pelo decreto-lei n.º 9/2007 de 17 de Janeiro". Ainda bem. Assim, estou muito mais descansado...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia  Europeu do Vizinho.)

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Uma casa na padaria

Sou uma pessoa muito antiga. Eu sou do tempo em que padaria era uma loja que fabricava e vendia pão.

Há uma senhora que mora na minha padaria. E não é a proprietária. Digo que mora na minha padaria porque, seja qual for a hora a que eu lá vá - oito, onze, meio-dia, quatro ou seis da tarde -, a senhora está lá, na mesa do canto, ao lado do balcão, quem vai para os lavabos. É exactamente para esse endereço que as Finanças lhe mandam as contas dos impostos: Dona Fulana de Tal, Mesa do Canto Ao Lado Do Balcão Quem Vai Para Os Lavabos, 4450-275 Matosinhos.
A nossa padaria em Fafe era na Rua Monsenhor Vieira de Castro, lado direito, com o Largo pelas costas e o cruzamento do Santo Velho mesmo à frente do nariz. Ficava por baixo da casa dos pais do Paulinho, que eram os donos do estabelecimento, entre as lojinhas da Dona Vitória capelista, que era uma santa, e da Aurorinha Maia, que era um vulcão, não desfazendo. Era a padaria do Sr. Rodrigues, mas, para todos os efeitos, chamava-se apenas Padaria. Depois tivemos de mudar para o Assento e a Padaria Moura ficou-nos mais à mão, mas nesse tempo já eu andava por fora a dar água sem caneco. Lembro-me, ainda assim, que as padarias vendiam bijus, bicas e pães-de-leite para os ricos, broa grossa, broa fina, às vezes sêmeas e regueifas ou roscas principalmente pela Páscoa. Enfim, vendiam pão. Isso eram as padarias.
Mas hoje em dia as padarias são tudo: café, salão de chá, pastelaria, cervejaria, restaurante, casa de pasto, tasco, pensão, centro de convívio, sociedade recreativa, quiosque, tabacaria, meeting point, posto de turismo, guiché de informações variadas. E vendem de tudo, até pão, o que é curioso. São os tempos que correm: o meu talho também vende ovos, azeite, queijo, vinho, peixe congelado, feijão, ananás e pêssego enlatados. E a minha frutaria apareceu ontem com o aviso - "Temos ostras".
Sendo tudo e muito concorrida, a minha padaria tem televisão e, portanto, milhões de opiniões. A campeã do palpite é a cliente residente, cuja, para mal dos meus pecados, padece de uma voz deveras agreste e guinchada uma oitava acima como se fosse comentadora desportiva na CMTV. Nunca a apanhei calada.
"Não. O meu filho não gosta de andar!...", anunciava um destes dias a senhora que mora na minha padaria. "Parabéns à prima!", disse eu cá para mim. "Um marmanjo com mais de trinta anos e não gosta de andar. Está bem, Alfreda! Se calhar quer colo, o menino...", continuei com os meus botões.
Mas ela insistia, repetia até à exaustão, cheia de orgulho no calaceiro: - O meu filho não gosta de andar. Não. Não gosta de andar...
Eu ia falar. Palavra de honra, eu ia dizer qualquer coisa a respeito do assunto e ia ser ali o fim mundo, uma epifania em cuecas. Porque, na minha padaria, eu passo por mudo. Há anos que está assim assente. Um velho mudo sorridente que sabe dizer "Bom dia!" e "Obrigado!", de resto peço por sinais e pago com dinheiro certo, que a minha mulher me dá. Eu ia destoar, estender-me ao comprido, dar cabo do meu tão precioso disfarce, quando a senhora que mora na minha padaria fez questão de rematar, mesmo em cima da hora: - Não gosta de andar. Uma casa, nem que fosse pequenina, mas com tudo, o meu filho preferia. Uma casinha. Andar, não!
Ai era isso! Ufa, safei-me por pouco...

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O PSD e o negócio das casas

Quem é que no PSD - do Governo ao Parlamento, passando pelas autarquias - não é dono ou sócio de pelo menos uma empresa imobiliária? Se houver alguém, que se acuse.

Por outro lado. O problema da habitação em Portugal não precisa de ser tratado a nível de Governo ou na Assembleia da República. Basta convocar um congresso extraordinário do PSD, e resolve-se o assunto.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Quatro paredes caiadas

Foto Hernâni Von Doellinger

Só nos primeiros seis meses de 2019 foram apresentados 166 novos projectos de hotéis em Portugal, contavam então os jornais e são os números mais actualizados e credíveis que sei, porque depois meteu-se a pandemia. Cento e sessenta e seis, repito e por extenso, que a enormidade do número faz por merecer. Dezoito investimentos em carteira para o Porto e treze para Lisboa. Vila Nova de Gaia vai ter a maior obra do País e a minha rua, em Matosinhos, já é ela por ela entre indígenas e alojamento local.
Nos princípios de 2018 havia 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Havia mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal havia - e há - cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios, às vezes. Em Portugal não há dinheiro para ajeitar a vida dos portugueses. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. É. O País constrói-se para as visitas. Visitas gold, é preciso que se note.
Portugal de luxo, Portugal de lixo. Um site oficial do Governo exultava: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Prestigiada e exclusiva, luxuosa, outra vez prestigiada e sofisticada. A Pousada. Um mundo...
Portugal tinha então cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e em 2012 era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal havia mais de 40 hotéis de luxo. Hoje em dia devem ser mais que as mães.
E há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados ou mais, entre os registados e os desarriscados, milhares e milhares e milhares de sem-abrigo, ninguém sabe ao certo quantos, e um imenso número calado de trabalhadores imigrantes tratados como escravos, ignorados farisaicamente pelo país em peso, quando não lançados sem dó nem piedade para o redondel dos cães fascisto-racistas.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Habitat.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Eu e as correntes de ar

As pessoas vivem fechadas em caixotes. Em caixinhas dentro de caixotes. E cada caixinha tem um respiradouro chamado varanda. E as pessoas fazem marquises e esganam as varandas.
No prédio onde eu moro, o meu apartamento é o único que não tem marquise ou paramarquise na varanda. Dá nas vistas, é verdade, destoa, incomoda os vizinhos, aliás condóminos, e todos os dias tenho a caixa de correio assediada por uns quantos panfletos em quadricromia e papel couché que me oferecem o sufoco a xis euros o metro quadrado. Muito agradecido, mas passo: a varanda é-me de toda a conveniência tal qual está. E não a tapo, pelo menos enquanto a falta de ar for apenas opcional.
Gosto de correntes de ar, que hei-de fazer? Gosto de terra e gosto de mar. E gosto de levar com a terra e com o mar nas ventas. Gosto dos cheiros. Gosto de pensar (ou de pensar que penso), gosto de refrescar ideias. A minha varanda é o meu retiro. E é o meu quintal, a minha esplanada, o meu posto de vigia. Gosto de semear, de regar os vasos, de espreitar o nanocrescimento dos coentros, da salsa e do tomilho, e até tenho um loureiro e um carvalho, já lá não fumo a minha cachimbada nem bebo o meu CRF "em balão previamente aquecido", por penúria e indicação médica. Gosto de ver passar navios. A isto estou condenado, a ver navios, mas eu gosto. E sou um gajo cheio de sorte: moro mesmo em frente ao mar, se me puser de lado.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Manigâncias

O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas ao banco por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuaram.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros.

P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Novembro de 2012. O meu banco insiste que eu seja Cliente Prestige mas eu não quero, não sou. De castigo, o meu banco ferrou-me com uma multa mensal de 5,41 euros a que chama "comissão de manutenção".  

O banco levou-lhe a casa

Foto Hernâni Von Doellinger