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sábado, 24 de outubro de 2026

O Emplastro, usa-se e deita-se fora

Foto Maria João Gala / Jornal de Notícias
 
Aquela altura do ano
Uma vez em Agosto. "Cão deixado no lixo dentro de um saco gera onda de solidariedade em Vila Real", anunciava o jornal. Acrescentando: "Plataforma Proanimal alerta que nesta altura do ano há mais animais abandonados e menos pessoas disponíveis para os acolher." Verdade como punho, ontem como hoje. Embora não gere nenhuma "onda de solidariedade", está curiosamente a acontecer o mesmo com os velhos e com os recém-nascidos, por assim dizer, humanos - cada vez mais abandonados e com cada vez menos pessoas disponíveis para os acolher. É. Vivemos realmente uma "altura do ano" perigosíssima. Mas os cãezinhos, Senhor...

O cidadão Fernando Alves. O Animal, chamam-lhe, ou o Emplastro, que, segundo o semanário Expresso, foi contratado por agências turísticas para acompanhar os passeios pelo menos bêbados de mais de 15 mil finalistas universitários portugueses a Espanha, isto só em 2008. Quinze mil doutores, em dinheiro de hoje em dia, e devem estar todos agora a mandar no país. O extraordinário Emplastro que até foi ao Herman SIC e teve direito a dentes novos, dados por um desinteresseiro benemérito, ó que publicidade tão bem empregue.
Eu sei que há guerras por esse mundo fora, cá em casa Portugal arde, o país é assumidamente racista, já sem pedir desculpa, as crianças nascem na rua ou nas ambulâncias, bebés são deitados ao lixo e velhotes também, os ministros enrodilham-se em contas malfeitas e histórias mal contadas, os novos fascistas medram como cogumelos, as mulheres regressam à cozinha, até Deus anda metido com indivíduos da pior espécie, mas o campeonato de futebol começou e, portanto, o nosso Fernando apresentou-se ao serviço. A televisão sem ele é uma seca, e com ele também, mas o Fernando tem pinta. Tudo continua normal, normalíssimo, e cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas, como dizia Sérgio Godinho, o escritor de canções. O pior é mesmo o defeso futebolístico, que, felizmente, já lá vai. No defeso, como o próprio nome indica, ninguém quer saber se o Fernando é herdeiro do Pinto da Costa ou filho do Luís Filipe Vieira, ou pai do Frederico Varandas ou sócio do António Salvador, e então o que é que se passa? Isto: sem câmaras de televisão para preencher, o Emplastro monta base à porta de um restaurante de Matosinhos, não sei se convidado ou somente tolerado pela gerência, e abrilhanta, à saída, copos de brutos, hic!, quero dizer, fotos de grupos, gente bem. Nos intervalos das suas pertinentes intervenções (faz cara de Emplastro, só lhe pedem isso), o Fernando deita-se na soleira da porta ao lado e então faz papel de famélico de Calcutá, o que lhe fica um bocado mal, estando ele gordo como um chino. E pede, se vê uma máquina fotográfica, "Uma moedinha, é para comer, é para comer..." - o número do costume. Não sei quem é que actualmente lhe está a cuidar da imagem e da carreira, o superagente Jorge Mendes não é de certeza, mas há ali qualquer coisa que não bate certo. Eu sei, já disse, é no defeso, mas isso não explica tudo.
O Fernando fez-se Emplastro a pulso, porque não é tolo nenhum - ao contrário do que muitas pessoas possam pensar -, mas também deu jeito a certas e determinadas televisões que ele fosse assim. E aos jornais. E às revistas. Pois se até o "entrevistavam" e lhe fizeram o "perfil"! Por outro lado, também já mete um bocado de nojo, não é verdade? Às tantas ainda o mandam para a Arábia Saudita.
Posso dar um palpite? Posso e é o seguinte: ninguém vai querer saber do Emplastro, quando o Fernando estiver deitado na soleira e for a sério (à séria, se lido em Lisboa). Nem os comensais arrotantes nem os estudantes terminais. Quem ousará sobressaltar-se quando o Animal for realmente abandonado?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Texto original publicado em Junho de 2015. Afinal, lá em cima, à direita, na excelentíssima foto de Maria João Gala, o nosso indispensável Emplasto, o verdadeiro falso sem-abrigo português, é que foi dar força à malta. Isto, sim, é altruísmo, e certamente também foi um belo momento de televisão. A fotografia, se não me enganaram, é da acampada-aconchada-arruada "pelo direito à habitação" desta tarde, na cidade do Porto.)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Quando os bombeiros, palermas, eram voluntários

Foto Miguel A. Lopes/Lusa - Expresso

O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. É uma questão de marialvismo, orgulho macho. E então arrebitam e continuam a arder lampeiramente uma semana depois de terem sido decretados dominados aos microfones da CMTV, e a CMTV fica toda contente, porque a CMTV é do ramo do sarrabulho e do fumeiro - disso vive, em lume brando. Os oficiais da Protecção Civil, doutores da mula ruça, porém pessoas muito honradas e de boina, que antes deste rico emprego nunca tinham posto os pés num incêndio, tiraram um curso relâmpago de Teatro de Operações, vulgo TO, Forças no Terreno, Frentes Activas, Meios Aéreos & Pontos de Ignição e gostam de dar na televisão: o mais que dizem é que os incêndios de manhã, se não estão já dominados, vão entregar-se às autoridades a meio da tarde. Os oficiais da Protecção Civil e os políticos que os pariram inventaram um novo dicionário, especializaram-se em semântica, graduaram-se em eufemística e falam muito do que não sabem.
Os bombeiros estão lá no centro do vulcão a derreter, mas a eles agora ninguém lhes pode perguntar. E ainda bem, porque lá dentro faz muito calor e o calor dilata os copos. O senhor da boina e galões no camião de Fórmula 1 com ar condicionado é que sabe, e bebe águas das pedras. Geladas. E há briefings bidiários com groselha.

Quando o monte ardia, os bombeiros iam e pronto. Os bombeiros voluntários. Naquele tempo ninguém sequer sonhava ganhar dinheiro por fazer de conta que apaga incêndios - eram uns tolos. Tolos, porém despachados e íntegros. Não havia rede, satélites, parabólicas ou fibra óptica, ainda não havia radiotelefones ao serviço, os telemóveis ainda não tinham sido inventados e nem sequer havia cabinas telefónicas nos montes. Parece impossível, mas lá em cima, no meio da penedia e das giestas, no Portugal das cabras e dos cabrões, não havia telefone de espécie nenhuma. E não havia SIRESP, graças a Deus. Que se segue: se eram precisos reforços, alguém vinha de motorizada dar o recado ao quartel.
Pelo menos em Fafe era assim, e não havia razão de queixa.

O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. Freud explicaria muito melhor do que eu, mas eu, de momento, não tenho o Freud aqui à mão, perdi-lhe o número do telemóvel. Por outro lado, os incêndios estão desgostosos por lhes terem trocado o nome e mudado o objecto social. Objecto social, sim: o fogo é hoje em dia um negócio como outro qualquer - como a guerra, como a droga ou como a cirurgia plástica, por exemplo -, com múltiplas plataformas de exploração e sinergias que não param de exponenciar-se, a jusante e a montante, um extraordinário negócio que distribui transversalmente milhões e milhões e milhões de euros ou dólares consoante o paraíso, uma indústria em que todos ganham e em que apenas Portugal e os portugueses do rés-do-chão ficamos a perder.

Chamavam-se fogos antigamente e eram para apagar. Exactamente, fogos. E para apagar. Velhos tempos, coisas simples: Portugal ardia menos e não havia tanto teatro... de operações.

Até aqui, mais ou menos, escrevi eu no dia 7 de Agosto de 2016. E ao tempo que ia o tempo dos bombeiros voluntários. Agora, até os bombeiros voluntários são profissionais. Ser voluntário é profissão, o amadorismo é anedota, se não são bombeiros voluntários é porque são bombeiros obrigados, e então, já que aqui estamos e não somos menos do que os outros, reivindicam-se salários, aumentos, reformas, regalias, políticas, governos e tempo de antena, que já Chega!, e que já Chega! Os "soldados da paz" partiram para a guerra, regra geral, levados, levados sim. Os sapadores vão à frente, alumiando o caminho, com tochas, petardos e encontrões.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Activistas?

Dizem que são activistas. E o que é que fazem? Sentam-se, alapam-se, deitam-se, enrolam-se, aconchegam-se, colam-se, pregam-se, amarram-se, acorrentam-se, plantam-se, e dali não saem dali ninguém os tira. Sem menosprezo pelos seus meritórios serviços, eu parece-me que, em rigor, melhor fariam se se chamassem, antes pelo contrário, passivistas ou, vá lá, paradistas...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sentido de oportunidade

O Governo anunciou que vai criar cursos mais curtos nos institutos politécnico. Nenhum dos cursos deverá ultrapassar o quarto de hora.
Relacionado: Miguel Relvas foi convidado para encerrar uma conferência sobre o futuro do jornalismo. O ministro das ameaças aos jornalistas do Público e da liquidação da RTP era o convidado da TVI. O evento decorria no ISCTE, em Lisboa. Claro, a vedeta só podia ser um professor doutor com provas dadas - o Relvas. Mas não o deixaram falar. Um desperdício de sapiência e experiência académica.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Quantos eram? Quantos eram?

"Eu não evito protestos nenhuns", disse Passos Coelho depois de ter fugido aos manifestantes que o esperavam esta manhã em Braga. É de homem.