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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Quatro paredes caiadas

Foto Hernâni Von Doellinger

Só nos primeiros seis meses de 2019 foram apresentados 166 novos projectos de hotéis em Portugal, contavam então os jornais e são os números mais actualizados e credíveis que sei, porque depois meteu-se a pandemia. Cento e sessenta e seis, repito e por extenso, que a enormidade do número faz por merecer. Dezoito investimentos em carteira para o Porto e treze para Lisboa. Vila Nova de Gaia vai ter a maior obra do País e a minha rua, em Matosinhos, já é ela por ela entre indígenas e alojamento local.
Nos princípios de 2018 havia 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Havia mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal havia - e há - cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios, às vezes. Em Portugal não há dinheiro para ajeitar a vida dos portugueses. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. É. O País constrói-se para as visitas. Visitas gold, é preciso que se note.
Portugal de luxo, Portugal de lixo. Um site oficial do Governo exultava: "A Pousada do Porto, instalada no Palácio do Freixo, acabou de entrar na prestigiada e exclusiva rede The Leading Hotels of the World. Só os mais luxuosos, prestigiados e sofisticados hotéis são admitidos na referida listagem de apenas 430 unidades em todo o mundo."
Prestigiada e exclusiva, luxuosa, outra vez prestigiada e sofisticada. A Pousada. Um mundo...
Portugal tinha então cinco hotéis na lista dos 100 melhores do mundo, e em 2012 era português o melhor hotel da Península Ibérica e o melhor pequeno hotel de luxo da Europa era em Lisboa. Em Portugal havia mais de 40 hotéis de luxo. Hoje em dia devem ser mais que as mães.
E há também mais de três milhões de pobres, meio milhão de trabalhadores a salário mínimo, um milhão e meio de desempregados ou mais, entre os registados e os desarriscados, milhares e milhares e milhares de sem-abrigo, ninguém sabe ao certo quantos, e um imenso número calado de trabalhadores imigrantes tratados como escravos, ignorados farisaicamente pelo país em peso, quando não lançados sem dó nem piedade para o redondel dos cães fascisto-racistas.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Habitat.

sábado, 20 de março de 2021

Reinaldo Ferreira 5

Nasci poeta abstruso

Nasci poeta abstruso.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.

Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.

Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.

"Um Voo Cego a Nada", Reinaldo Ferreira

(Reinaldo Ferreira nasceu no dia 20 de Março de 1922. Morreu em 1959.)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Reinaldo Ferreira 4

O futuro

Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos

Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.


"Um Voo Cego a Nada", Reinaldo Ferreira

(Reinaldo Ferreira nasceu no dia 20 de Março de 1922. Morreu em 1959.)

quarta-feira, 20 de março de 2019

Reinaldo Ferreira 3

Receita para fazer um herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.


"Um Voo Cego a Nada", Reinaldo Ferreira

(Reinaldo Ferreira nasceu no dia 20 de Março de 1922. Morreu em 1959.)

terça-feira, 20 de março de 2018

Reinaldo Ferreira 2

O essencial é ter o vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:

O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo

Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.

"Um Voo Cego a Nada", Reinaldo Ferreira

(Reinaldo Ferreira nasceu no dia 20 de Março de 1922. Morreu em 1959.)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Menina dos olhos tristes

Foto do arquivo pessoal do ex-pára-quedista fafense ÁLVARO MAGALHÃES

O poema é de Reinaldo Ferreira e a música é de Zeca Afonso. A canção foi gravada inicialmente, em 1964, por Adriano Correia de Oliveira.

Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,
É que nos pode informar
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Reinaldo Ferreira (Repórter X)

Davam as 11 horas na Igreja de S. Agostinho, patrono da Silvânia, quando o coronel Rodolfo entrou no Palácio Presidencial. O sol, coando-se pelos vitrais da claraboia e salpicando os degraus com mil arabescos coloridos, parecia transformar a escadaria num manto real, feito de mármore e bordado de luz.
- Sua Excelência ainda está recolhido - informou um lacaio.
O coronel desceu a pálpebra direita, numa piscadela intencional, e perguntou:
- Mulheres, hein?

"O Presidente da República", Reinaldo Ferreira

(Reinaldo Ferreira, o Repórter X, nasceu no dia 10 de Agosto de 1897. Morreu em 1935.)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Reinaldo Ferreira

O ponto

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

"Poemas", Reinaldo Ferreira

(Reinaldo Ferreira nasceu no dia 20 de Março de 1922. Morreu em 1959.)