Mudançar
Repor
na planta da cor brancura
em pedra solicitada
Reler
por vacilação das sílabas
em escuridão afundada
Rever
por olho areado com águas
a imagem contaminada
Reter
no músculo oxigenado vaso
areal terra aterrada
Resistir
ao cântico suado no temor
a evolução revoltada
Reaver
do padre eterno esquecido
fé febril equivocada
Rematar
pontilhados no voo manual
asa de vazio blindada
Reacordar
quando o tempo do morto é
vício pele reciclada
Recomeçar
linguajar contínua marcha
vivente reinventada.
"Cá & Lá", Fernando Lemos
(Fernando Lemos nasceu no dia 3 de Maio de 1926. Morreu ontem.)
Mostrar mensagens com a etiqueta literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta literatura. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Luís Pimentel 6
Enterro do neno pobre
Punteiros de gaita
acompañabano.
O pai de negro;
no mar, unha vela
branca.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
Abaixo, o mar;
o camiño no aire
a mañá.
Il iba de camisa limpa
e zoquiñas brancas.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
"Sombra do Aire na Herba", Luís Pimentel
(Luís Pimentel nasceu no dia 18 de Dezembro de 1895. Morreu em 1958.)
Punteiros de gaita
acompañabano.
O pai de negro;
no mar, unha vela
branca.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
Abaixo, o mar;
o camiño no aire
a mañá.
Il iba de camisa limpa
e zoquiñas brancas.
Os amiguiños levabano.
Non pesaba nada.
"Sombra do Aire na Herba", Luís Pimentel
(Luís Pimentel nasceu no dia 18 de Dezembro de 1895. Morreu em 1958.)
Etiquetas:
cultura,
Enterro do neno pobre,
literatura,
livros,
Luís Pimentel,
poesia,
poetas,
série Escritores,
Sombra do Aire na Herba
Xoán Manuel Casado 4
O outro día vin na ópera un episodio significativo. Transcorría o segundo acto e os dous protagonistas representaban unha escena bucólica. Eu asistía, gañado por esa impresión de artificiosidade da que, pese á miña inercia de espectador, rara vez consigo ceibarme. De sócato, algo chamoume a atención á metade dun dúo: desde a miña localidade inmediata e lateral ao escenario, a postura da soprano, sentada no chan, permitíame apreciar con claridade que non gastaba roupa interior. O efecto da descuberta foi detonante. A escena adquiriu, para min, unha intensidade da que carecía momentos antes e aquel canto, cen veces escoitado sen maior interiorización, soaba único e mancante nesta oportunidade. Pasara que a representación artística se transfigurara en experiencia vital.
"Diario de Entretempo", Xoán Manuel Casado
(Xoán Manuel Casado nasceu no dia 18 de Dezembro de 1949. Morreu em 2002.)
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
Afrânio Peixoto 7
Herança
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto
(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
"Missangas - Poesia e Folklore", Afrânio Peixoto
(Afrânio Peixoto nasceu no dia 17 de Dezembro de 1876. Morreu em 1947.)
Etiquetas:
Afrânio Peixoto,
cultura,
herança,
literatura,
livros,
Missangas - Poesia e Folklore,
poesia,
poetas,
série Escritores
Erico Veríssimo 7
Gota de orvalho
na corola dum lírio:
jóia do tempo.
Erico Veríssimo
(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)
na corola dum lírio:
jóia do tempo.
Erico Veríssimo
(Erico Veríssimo nasceu no dia 17 de Dezembro de 1905. Morreu em 1975.)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
Olavo Bilac 7
Delírio
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Olavo Bilac
(Olavo Bilac nasceu no dia 16 de Dezembro de 1865. Morreu em 1918.)
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Olavo Bilac
(Olavo Bilac nasceu no dia 16 de Dezembro de 1865. Morreu em 1918.)
Xoán Manuel Pintos 4
Fermoso labrador que sin cansazo
Fas recachar o mundo, e mil primores
Germolla a feixes por un mar de frores
Con sò quencelo ti dend' o teu pazo:
Ti que o calor difundes po lo espazo
Brillante Febo que de côte giras
Cheo de luz po lo alto firmamento,
Sin que as, edades fagan decremento
No fòco, imnenso de que fógo, tiras:
Notorio, decumento,
Froron dourado po lo azul dos cèos
Que así confunde a impios com' a atéos
Ti que benino a miña terra miras
Carís lle póndoalégre de contento,
A Deus lle pide por un breve instante
Que lle dé forza a meu cativo alento
Porque louores a Galicia cante.
[...]
"A' Galiza", Xoán Manuel Pintos
(Xoán Manuel Pintos nasceu no dia 16 de Dezembro de 1811. Morreu em 1876.)
Fas recachar o mundo, e mil primores
Germolla a feixes por un mar de frores
Con sò quencelo ti dend' o teu pazo:
Ti que o calor difundes po lo espazo
Brillante Febo que de côte giras
Cheo de luz po lo alto firmamento,
Sin que as, edades fagan decremento
No fòco, imnenso de que fógo, tiras:
Notorio, decumento,
Froron dourado po lo azul dos cèos
Que así confunde a impios com' a atéos
Ti que benino a miña terra miras
Carís lle póndoalégre de contento,
A Deus lle pide por un breve instante
Que lle dé forza a meu cativo alento
Porque louores a Galicia cante.
[...]
"A' Galiza", Xoán Manuel Pintos
(Xoán Manuel Pintos nasceu no dia 16 de Dezembro de 1811. Morreu em 1876.)
domingo, 15 de dezembro de 2019
Marcos Konder Reis 4
Mapa
Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.
O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país.
Mapa azul da infância:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.
Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,
Preto e branco e girando: andorinha e terral.
Depois a noite de cristal e tria,
A noite das estrelas e das súbitas sanfonas afastadas,
Tontura de esperanças: essa mistura de beijos e de danças pela estrada
Numa eterna chegada ao condado do Amor.
"Armadura do Amor", Marcos Konder Reis
(Marcos Konder Reis nasceu no dia 15 de Dezembro de 1922. Morreu em 2001.)
Ao norte, a torre clara, a praça, o eterno encontro,
A confidência muda com teu rosto por jamais.
A leste, o mar, o verde, a onda, a espuma,
Esse fantasma longe, barco e bruma,
O cais para a partida mais definitiva
A urna distancia percorrida em sonho:
Perfume da lonjura, a cidade santa.
O oeste, a casa grande, o corredor, a cama:
Esse carinho intenso de silêncio e banho.
A terra a oeste, essa ternura de pianos e janelas abertas
A rua em que passavas, o abano das sacadas: o morro e o cemitério e as glicínias.
Ao sul, o amor, toda a esperança, o circo, o papagaio, a nuvem: esse varal de vento,
No sul iluminado o pensamento no sonho em que te sonho
Ao sul, a praia, o alento, essa atalaia ao teu país.
Mapa azul da infância:
O jardim de rosas e mistério: o espelho.
O nunca além do muro, além do sonho o nunca
E as avenidas que percorro aclamado e feliz.
Antes o sol no seu mais novo raio,
O acordar cotidiano para o ensaio do céu,
Preto e branco e girando: andorinha e terral.
Depois a noite de cristal e tria,
A noite das estrelas e das súbitas sanfonas afastadas,
Tontura de esperanças: essa mistura de beijos e de danças pela estrada
Numa eterna chegada ao condado do Amor.
(Marcos Konder Reis nasceu no dia 15 de Dezembro de 1922. Morreu em 2001.)
Marcos Prado 4
O sol
o sol
do outro lado
da cidade
parecia
iluminar
a china
simples:
abri
a cortina
Marcos Prado
(Marcos Prado nasceu no dia 15 de Dezembro de 1961. Morreu em 1996.)
o sol
do outro lado
da cidade
parecia
iluminar
a china
simples:
abri
a cortina
Marcos Prado
(Marcos Prado nasceu no dia 15 de Dezembro de 1961. Morreu em 1996.)
sexta-feira, 13 de dezembro de 2019
Reynaldo Jardim 4
Receituário
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
Reynaldo Jardim
(Reynaldo Jardim nasceu no dia 13 de Dezembro de 1926. Morreu em 2011.)
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
Reynaldo Jardim
(Reynaldo Jardim nasceu no dia 13 de Dezembro de 1926. Morreu em 2011.)
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
Alberto de Serpa 6
Espectáculo
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há-de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados...
Alberto de Serpa
(Alberto de Serpa nasceu no dia 12 de Dezembro de 1906. Morreu em 1992.)
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há-de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados...
Alberto de Serpa
(Alberto de Serpa nasceu no dia 12 de Dezembro de 1906. Morreu em 1992.)
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Manuel Rodríguez López 6
A emigrante
Onte chegaches pra pedir traballo
á gran cidade; que deixaches, dona,
os cativiños e o marido lonxe
nunha casoupa.
No asfalto e no rebumbio mergullada,
ninguén enxoita as bágoas que che escoan,
ninguén cavila na tristura infinda
á gran cidade; que deixaches, dona,
os cativiños e o marido lonxe
nunha casoupa.
No asfalto e no rebumbio mergullada,
ninguén enxoita as bágoas que che escoan,
ninguén cavila na tristura infinda
que te aferrolla.
A túa ialma esnaquizada zuga
o fel acedo do emigrante sino,
e a todas horas, soia en terra allea,
A túa ialma esnaquizada zuga
o fel acedo do emigrante sino,
e a todas horas, soia en terra allea,
soñas cos fillos.
Il non ten saúde; que a perdeu moi novo
tronzando toros, removendo pedras,
rozando toxos e cavando a bouza
Il non ten saúde; que a perdeu moi novo
tronzando toros, removendo pedras,
rozando toxos e cavando a bouza
na probe aldea.
Somentes quedan os teus brazos rexos
pra erguer a casa asulagada en tebras;
coitados nenos, de farrapos cheos...
Somentes quedan os teus brazos rexos
pra erguer a casa asulagada en tebras;
coitados nenos, de farrapos cheos...
como langrean!
II
Da noite roubas horas de descanso
e fas roupiña prós meniños teus;
comes codelos pra aforrar os cartos
do longo mes.
Non es ti soia! Se somentes ti
o fel beberas da inxusticia moura,
que abura un pobo, que atanaza a raza,
que nos esfola...
Donas e mozas a milleiros fuxen
a terra estraña, percurando o pan;
que as leis non valen pra sandar as chagas
II
Da noite roubas horas de descanso
e fas roupiña prós meniños teus;
comes codelos pra aforrar os cartos
do longo mes.
Non es ti soia! Se somentes ti
o fel beberas da inxusticia moura,
que abura un pobo, que atanaza a raza,
que nos esfola...
Donas e mozas a milleiros fuxen
a terra estraña, percurando o pan;
que as leis non valen pra sandar as chagas
do probe lar.
Fica ermo o pobo. Soio quedan vellos,
homes eivados, silvas, corgas, nenos...
Galicia é fonte que somentes deita
prantos tristeiros.
III
Non canto á dona que no pazo folga.
Non louvo, non, a enseñoreada lurpia
nen a burguesa que esqueceu a lingua
e a caste súa.
O meu poema, mesturado en sangue,
alauda a probe e a emigrante cansa
do vieiro longo, do camiño choído,
desfeita en bágoas.
Eu canto á dona que en lonxanos eidos
soña os seus nenos!
Eu canto á moza que en cidade allea
soña coa aldea!
Eu canto á avoa que acanea a filla
da súa filla!
Fica ermo o pobo. Soio quedan vellos,
homes eivados, silvas, corgas, nenos...
Galicia é fonte que somentes deita
prantos tristeiros.
III
Non canto á dona que no pazo folga.
Non louvo, non, a enseñoreada lurpia
nen a burguesa que esqueceu a lingua
e a caste súa.
O meu poema, mesturado en sangue,
alauda a probe e a emigrante cansa
do vieiro longo, do camiño choído,
desfeita en bágoas.
Eu canto á dona que en lonxanos eidos
soña os seus nenos!
Eu canto á moza que en cidade allea
soña coa aldea!
Eu canto á avoa que acanea a filla
da súa filla!
"Soldada Mínima", Manuel Rodríguez López
(Manuel Rodríguez López nasceu no dia 11 de Dezembro de 1934. Morreu em 1990.)
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Arquimedes da Silva Santos
O guardador de pombas
Livra-as pela tardinha
E voam e revoam
Círculos espirais
Ruflam céleres
E tornam e retornam
Graves ao pôr do sol
Retombam nos pombais
Por fios de assobios
Ó guardador de pombas
Livra-as pela tardinha
E voam e revoam
Círculos espirais
Ruflam céleres
E tornam e retornam
Graves ao pôr do sol
Retombam nos pombais
Por fios de assobios
Ó guardador de pombas
"Cantos Cativos", Arquimedes da
Silva Santos
(Arquimedes da
Silva Santos nasceu no dia 28 de Junho de 1921. Morreu no passado domingo.)
Etiquetas:
Arquimedes da Silva Santos,
Cantos Cativos,
literatura,
livros,
poesia,
poetas,
Rapsódia da Guerra,
série Escritores
Clarice Lispector 7
[...]
Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais - que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.
- Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloquente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: "Pelo menos noventa anos", pensou melancólica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora.
Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, ereta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.
"Todos os Contos", Clarice Lispector
(Clarice Lispector nasceu no dia 10 de Dezembro de 1920. Morreu em 1977.)
Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais - que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.
- Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloquente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: "Pelo menos noventa anos", pensou melancólica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora.
Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, ereta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.
"Todos os Contos", Clarice Lispector
(Clarice Lispector nasceu no dia 10 de Dezembro de 1920. Morreu em 1977.)
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
Aníbal Machado 3
[...]
Ora, todo mundo sabe que Zequinha fugiu com a mulher do vereador. Jogava tão bem, que ela fugiu com ele...
Os rapazes só contavam agora com a mediação de Dona Maria que não estava bem, depois que lhe nascera a criança.
Daí por diante, nunca mais se bateu bola no cemitério. Reforçada a vigilância, meus fantasmas não apareciam.
Fiquei mais triste. Agora, nem para voar até o arraial tenho força. Para nada, aliás, tenho mais forças.
Já não percebo bem o que se passa atrás dos muros. A paisagem se dissolve ao meu olhar que está se apagando.
Parece que ainda resta para os ouvidos um canto de lavadeira batendo roupa. Tão longe...
Mas está acontecendo qualquer coisa lá na entrada. O portão se abriu todo! O povo chegando!...
Ah, é a senhora?! Pois entre, a casa é sua... Eu, sozinho, já não podia responder por todo este cemitério. Estou sumindo... O espaço endureceu. Meu prazo terminou.
Só vejo figuras opacas imobilizadas no gesto de chutar a bola. E essa coisa fixa, mancha final de luz remota que deve ser o Sol.
"O defunto inaugural - Relato de um fantasma", Aníbal Machado
(Aníbal Machado nasceu no dia 9 de Dezembro de 1894. Morreu em 1964.)
domingo, 8 de dezembro de 2019
Florbela Espanca 7
Passeio ao campo
Meu Amor! meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! -
Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...
E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...
"Charneca em Flor", Florbela Espanca
(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)
Meu Amor! meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
- Vamos correr e rir por entre o trigo! -
Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...
E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...
"Charneca em Flor", Florbela Espanca
(Florbela Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894. Morreu em 1930.)
Fernanda de Castro 6
Os anos são degraus
Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.
São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.
Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.
Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?
"Asa no Espaço", Fernanda de Castro
(Fernanda de Castro nasceu no dia 8 de Dezembro de 1900. Morreu em 1994.)
Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.
São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.
Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.
Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?
"Asa no Espaço", Fernanda de Castro
(Fernanda de Castro nasceu no dia 8 de Dezembro de 1900. Morreu em 1994.)
Etiquetas:
Asa no Espaço,
cultura,
Fernanda de Castro,
literatura,
livros,
Os anos são degraus,
poesia,
poetas,
série Escritores
sábado, 7 de dezembro de 2019
Ary dos Santos 8
Nona Sinfonia
É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
"O Sangue das Palavras", Ary dos Santos
(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)
É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
"O Sangue das Palavras", Ary dos Santos
(Ary dos Santos nasceu no dia 7 de Dezembro de 1936. Morreu em 1984.)
Soledade Summavielle 8
Paz
Não a dou, não a tenho, nem a quero.
A vida é lume, é luta permanente.
Prefiro, à paz e à calma, um marulhar,
uma inquietação de água corrente.
Sem combate, sem anseio e sem paixão,
descansarei na morte eternamente.
"Tumulto", Soledade Summavielle
(Soledade Summavielle nasceu no dia 7 de Dezembro de 1907. Morreu em 2000.)
Não a dou, não a tenho, nem a quero.
A vida é lume, é luta permanente.
Prefiro, à paz e à calma, um marulhar,
uma inquietação de água corrente.
Sem combate, sem anseio e sem paixão,
descansarei na morte eternamente.
"Tumulto", Soledade Summavielle
(Soledade Summavielle nasceu no dia 7 de Dezembro de 1907. Morreu em 2000.)
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
José Carlos Schwarz 4
Os novos heróis
Digo-te que os novos heróis chegarão
Marchando ao compasso do nosso hino
Em que se entoam as esperanças,
Daqueles que com o seu sangue generoso regaram
A Pátria que hoje pisam os seus continuadores
Marchando ao compasso do nosso hino
Em que se entoam as esperanças,
Daqueles que com o seu sangue generoso regaram
A Pátria que hoje pisam os seus continuadores
Chegarão vindos dos campos, das bolanhas, das minas
A terra será livre na sua entrega amorosa e fecunda
Sem temer a violação de bombas criminosas,
A conspurcação de botas mercenárias.
Chegarão, a paz temperando-se no sal do seu suor
A terra será livre na sua entrega amorosa e fecunda
Sem temer a violação de bombas criminosas,
A conspurcação de botas mercenárias.
Chegarão, a paz temperando-se no sal do seu suor
Dentre os tempos novamente pioneiros
- Pois que serão as metas atingidas
Senão novos pontos de partida, novos desafios? -
Dentre ventos soalheiros a aumentar a produção,
Virão verticais e seguros das suas raízes
- Pois que serão as metas atingidas
Senão novos pontos de partida, novos desafios? -
Dentre ventos soalheiros a aumentar a produção,
Virão verticais e seguros das suas raízes
Das fábricas modelando novos horizontes às tabancas,
Para que as culturas ancestrais transbordando as nascentes
Galguem novos espaços, ganhem novas alturas.
Estes homens serão colheita e sementeira, gérmen e fruto
Da sociedade nova porque se forjam e morrem os heróis!
Para que as culturas ancestrais transbordando as nascentes
Galguem novos espaços, ganhem novas alturas.
Estes homens serão colheita e sementeira, gérmen e fruto
Da sociedade nova porque se forjam e morrem os heróis!
"Momentos Primeiros da Construção", José Carlos Schwarz
(José Carlos Schwarz nasceu no dia 6 de Dezembro de 1949. Morreu em 1977.)
Etiquetas:
cultura,
José Carlos Schwarz,
literatura,
livros,
Momentos primeiros da construção,
Os novos heróis,
poesia,
poetas,
série Escritores
Subscrever:
Mensagens (Atom)