Mostrar mensagens com a etiqueta António Rebordão Navarro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Rebordão Navarro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de março de 2025

António Rebordão quê?...


Uma vez, há catorze ou quinze anos, eu tive a sorte de almoçar com o escritor António Rebordão Navarro. Eu e mais três amigos e velhos camaradas de ofício, dos jornais, num acidental e feliz reencontro à beira-Douro, lá na Ribeira de Gaia. Falámos sobretudo de banalidades risíveis, como convém à mesa, mas era fatal chegarmos aos livros. Meti conversa, como quem não quer a coisa:
- Sabe que fomos praticamente vizinhos durante alguns anos? O senhor doutor ainda mora lá para a nossa Foz?...
O senhor doutor era para mim senhor doutor porque Rebordão Navarro era formado em Direito e chegou a exercer de advogado e de delegado do Ministério Público, antes de se entregar de corpo e alma à escrita, como ficcionista, poeta e editor. Já quanto à resposta, às respostas que eu, molageiro, lhe pedia, disse-me que não e que sim. Que não sabia que fôramos vizinhos, que aliás não me conhecia de lado nenhum nem isso lhe fazia falta, mas que realmente continuava pela Foz, embora já não na Praça de Liège.
Porém era ali que eu queria chegar. Com esta minha notável capacidade para fazer figuras tristes, que já então se manifestava exuberantemente, eu estava mortinho por demonstrar mais uma vez quão sólido é o cuspo com que argamasso os meus pindéricos alicerces culturais. E acrescentei, todo vaidoso:
- Sabe, eu tenho o livro, tenho "A Praça de Liège". Se soubesse que me ia encontrar com o senhor doutor, até o tinha trazido para que me fizesse o favor de uns sarrabiscos, de um autógrafo. Tenho o livro, está lá em casa...
- Ai tem o livro? Mas eu escrevi mais livros, escrevi para aí uns catorze... - cortou Rebordão Navarro, sem disfarçar o sorriso malandro como o arrozinho de feijão e legumes que lhe acompanhava os bolinhos de bacalhau com que se deliciava.
A minha primeira reacção foi largar o meu habitual "Eu sei!" com que tento sair das enrascadas em que por mania me meto, e recitar ali mesmo, de cor e salteado, da trás para a frente e da frente para trás, por ordem alfabética e depois por ordem cronológica, os outros treze títulos do reputado autor que tinha à minha frente de faca em punho, mas a verdade é esta: eu só conhecia "A Praça de Liège". Optei, portanto, por tornar pública a minha segunda reacção, que também me saiu uma boa merda e que foi "Pois faço ideia, mas lamentavelmente não tenho acompanhado a carreira do senhor doutor"...

"A Praça de Liège" foi um sucesso tremendo aquando da sua publicação, em 1988. Era o livro da moda (pois se até eu o comprei!) e ganhou o Prémio Literário Círculo de Leitores. Na altura em que me encontrei com o autor, contou-me o próprio, no Círculo de Leitores já não sabiam quem ele era, quem era o escritor António Rebordão Navarro. Alguém do Círculo contactou a irmã do escritor por uma razão qualquer, a senhora falou do irmão e do famigerado prémio e obteve como resposta um lamentável
- Quem? Rebordão quê? Não conheço...
Pois é: a memória! As empresas enxotam quem sabe da poda, despedem os funcionários pelas mãos dos quais passaram os factos e as pessoas, preferem juniores renováveis e analfabetos, verdes como os recibos, fiam-se no Google e na inteligência artificial mas não vão lá. E depois ninguém sabe nada de nada, por manifesta estupidez natural.
Há anos que está a acontecer o mesmo nas redacções dos jornais portugueses e até se contam algumas saborosas anedotas a esse respeito. São de rir tanto, as anedotas, que às tantas até são verdade.

No que me diz respeito, e como penitência pela minha ignorância àquela data quanto à dimensão da obra literária de António Rebordão Navarro, que afinal era qualquer coisinha mais do que catorze títulos, aqui deixo o registo essencial, com sinceros votos de que faça também bom proveito à rapaziada do Círculo de Leitores: poesia - "Longínquas Romãs e Alguns Animais Humildes", 2005; "A Condição Reflexa", 1989; "27 Poemas", 1988; "Aqui e Agora", 1961; teatro - "Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique", 1995; "O Ser Sepulto", 1972; crónica - "Estados Gerais", 1991; ensaio - "Juro Que Sou Suspeito", 2007; conto "Dante Exilado em Ravena", 1989; romance - "As Ruas Presas às Rodas", 2011; "A Cama do Gato", 2010; "Romance com o Teu Nome", 2004; "Todos os Tons da Penumbra", 2000; "Amêndoas, Doces, Venenos", 1998; "A Parábola do Passeio Alegre", 1995; "As Portas do Cerco", 1992; "Mesopotâmia", 1984; "A Praça de Liège", 1988; "O Parque dos Lagartos", 1981; "O Discurso da Desordem", 1972; "Um Infinito Silêncio", 1970; "Romagem a Creta", 1964.

P.S. - António Rebordão Navarro morreu no dia 22 de Abril de 2015. E Portugal adormecido parece que já não sabe quem é que ele foi, quem é que ele é, o que significa. Actualmente, acho isso mal. Para ignorante, bastava eu. Em todo o caso, hoje é Dia do Livro Português.

sábado, 1 de agosto de 2020

António Rebordão Navarro 6

Não saibas tu de cor os meus poemas
mas vê antes nas ruas e nos barcos
no fumo dos cafés, nos bancos de avenida
a poesia que eu quero

António Rebordão Navarro

(António Rebordão Navarro nasceu no dia 1 de Agosto de 1933. Morreu em 2015.)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

António Rebordão Navarro 5

As mulheres da Cantareira

Naturalmente, antes de as manhãs
pegarem fogo a todas as palmeiras,
gastaram elas os perfumes nas rochas,
levaram os seus seios para as ondas,
lavaram os sexos no rio,
lavraram os limos com os lábios.

Anteriores às gaivotas,
desenharam o seu voo nas águas,
descrevendo na areia
o coleante deambular dos vermes,
vendidos no termo das semanas
aos amantes da pesca.

Virtualmente, antes de o Inverno
lhes mudar o semblante,
comer à sua mesa e violá-las,
elas eram só música,
trazendo, levando, conduzindo
todos os barcos pelo mar do seu corpo.

Mais antigas que os ventos e a paisagem,
muitas vezes fizeram de sereias,
de estrelas breves consumidas
em vinho ou em cerveja,
outras de frio aço e aguardente,
alguns momentos de tabaco loiro.

(São putas? São fidalgas? São senhoras?
Netas bastardas de Raul Brandão?)

Meigas, transparentes, adejantes,
antes de os elementos
cismarem em criá-las,
já elas eram feitas
como deusas cumpridas
em fumo, mito e névoa.

Como estátuas fenícias?
Como estátuas.

António Rebordão Navarro

(António Rebordão Navarro nasceu no dia 1 de Agosto de 1933. Morreu em 2015.)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

António Rebordão Navarro 4

Sabia-se que num ventoso e sombrio fim de tarde, junto ao edifício onde eram tratados os esgotos, o Luís das Gargalhadas fora encontrado em mísero estado pelo engenheiro Gervásio Cordeiro que voltava no seu automóvel marca Singer para casa e logo o conduzira ao hospital. Tinham-no sovado violentamente, enchendo-lhe o ânus com piche derretido.

"A Praça de Liège", António Rebordão Navarro

(António Rebordão Navarro nasceu no dia 1 de Agosto de 1933. Morreu em 2015.)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

António Rebordão Navarro 3

Poema quase triste

Os homens passam sem darem por nada
carregados assim como eles vão
com suas sombras a ganharem gibas,
com os seus olhos a ficarem baços,
cheios de presbitia e astigmáticos.
Não lhes importa que nos frutos estejam
confissões de poetas e de heróis.
Os homens passam e não vêem nada,
olham apenas para as suas vidas,
para a filha doente ou para os filhos mortos.
Não se apercebem das árvores e das rochas,
sangue e nervos da terra.
Seguem tristes e com os seus olhares
voltados para dentro,
para os seus crimes ou para os seus sonhos.
Não param a escutar o coração da terra
que bate, tranquilo, sob o chão.
Tristemente aguardam os eléctricos
que os hão-de levar a suas casas
de paredes forradas pelos retratos
dos fantasmas antigos e até próximos.
É sem amor que trincam os frutos
coloridos no sangue de todos os mortos
e nem pensam que a terra se abrirá
a seus corpos alheios, certo dia.
Procuram suas chaves
e, de cabeça baixa, penetram em casa,
sentam-se à mesa e choram
com suas mulheres, livros, diários íntimos,
mas não falam sequer à Natureza
que lhes oferece, em vão,
todos os seus segredos e mistérios.
Deitam-se sonolentos,
fecham a luz e dão-se aos pesadelos
ou aos sonhos de quando eram meninos...
Embriagam-se ou matam-se
e entregam-se aos vícios ou às lágrimas...
Tristes os homens passam
sem verem que a terra lhes oferece
juntamente com frutos e canções.

"A Condição Reflexa", António Rebordão Navarro

(António Rebordão Navarro nasceu no dia 1 de Agosto de 1933. Morreu em 2015.)

sábado, 29 de julho de 2017

Bolinhos de bacalhau no Tarrenego! 2

Mais um quartilho para a mesa do canto
Durante muito tempo cuidei que se chamavam assim por causa das vacas que ficavam cá fora presas pela soga às argolas da parede, ruminando uma pouca de palha ou erva, enquanto os donos enchiam a mula lá dentro. "Casa de Pasto - Bons Vinhos e Petiscos", dizia a tabuleta, geralmente de madeira, numa letra desenhada às três pancadas e desbotada pelo uso do olhar. Já lá vão tantos anos, mas juro que até hoje ainda não encontrei coisa mais linda de se ler.
Nas décadas de sessenta, setenta e um cheirinho de oitenta do século passado, a vila de Fafe era o céu na terra para os devotos dos comes e bebes. Tascos, tabernas, casas de pasto, pensões e outros arraçados de restaurante, havia-os de vários feitios e para todos os gostos e bolsos, quase porta sim, porta não. O Escondidinho, o Alberto Coveiro, a Silvina Monteiro, na Rua Montenegro, o Sanica, o Marinho, o Guarda-Fios, o Vale D'Estêvão, o Manel Bigodes, da Granja, o Quinzinho e o Tanoeiro, ambos em Santo Ovídio, a Rapa e o Ferrador, os dois na Feira Velha, o Feira Velha, na Rua Visconde Moreira de Rei, o Jaime Biró, da Rua de Baixo, o Toninho da Ponte do Ranha, o Neca do Hotel, o Toninho Pires, o Zeca Batata, o Magalhães da Olímpia e o Matazana, só estes são mais do que as estações de uma via-sacra e havia quem entrasse para molhar a palavra em todos eles. Religiosamente.
Mais ou menos no meu raio de acção, centrado ali no Santo Velho, havia ainda o Peludo, o Zé Manco e o Paredes, mesmo ao pé da porta, o Chupiu, as pataniscas do Miranda, a Quiterinha, ou Texas, a Adega dos Vasinhos e as mãos de ouro da Juditinha, o vinho branco e bacalhau frito (há lá melhor mata-bicho!) no Lameiras da Rua de Baixo, o bolo com sardinhas da Brecha, a Dinâmica, o insubstituível Nacor, o Zé da Menina, que também fazia sandes da famosa vitela, a Esquiça, que ainda faz das tripas coração, a Adega Popular, ou Fernando da Sede, que está aí para as curvas, e o Manel do Campo, onde uma vez o meu querido tio Américo, que me iniciou nestas vidas, me levou a comer um arroz de ervilhas de quebrar com fanecas fritas que estava de se lhe cantar um Te Deum.
O Manel do Campo, propriamente dito, era um homem imenso, o homem mais gordo do mundo, aos meus olhos de miúdo. Mas ia de bicicleta e suspensórios de casa para o trabalho e do trabalho para casa, naquela pedalada lenta e pesada que parece que estás aqui estás a malhar, cantando a plenos pulmões, numa voz grave, o "Marina, Marina, Marina" do Rocco Granata. Quem se lembra, que levante o braço.

Os tascos e casas de pasto de Fafe eram lugares de culto. Instituições de serviço público, monumentos de interesse nacional, património da humanidade. Ali praticava-se a fraternidade. Ali, do doutor ao sapateiro, como então se dizia, com os queixos numa caneca que passa de mão em mão, os homens (e as mulheres, que também as havia) eram todos iguais. Eram irmãos. O coitado que levava a caneca ao fim, mandava vir a próxima...
Nenhum recém-chegado começava a beber sem antes erguer a caneca aos presentes:
- São servidos, meus senhores?
- Estamos no mesmo - respondiam, à volta.
Este cerimonial, creio, ainda se pratica.
O vinho, a qualidade do vinho, era a pedra-de-toque para o sucesso de uma casa. Um sucesso traidor, de ida e volta. Sabia-se que em certo sítio havia pipa nova, de pinga de estalo, e era a invasão. A pipa chegava às últimas e todos lhe viravam costas, mesmo antes de ela exalar o derradeiro suspiro. Os apreciadores procuravam novo poiso, onde a história de amor e traição se repetia.
Era inevitável. Claro que também se apanhavam umas cardinas. E de caixão à cova. Eu não vou dizer nomes, mas podem acreditar no seguinte: por causa das coisas, havia uns bebedores muito conhecidos e prevenidos que, consoante os casos, tinham burro, bicicleta e até motorizada de tal maneira amestrados que podiam ir para casa de olhos fechados. E iam. Os bichos, incluindo os de duas rodas, já sabiam o caminho...

Isto é a minha memória, a memória dos meus. E a minha homenagem sumária e porque sim. Os tascos da minha terra têm uma história e histórias que deviam ser contadas ao detalhe por quem as saiba procurar e contar, com o rigor e a graça que os ilustres nomes dos tasqueiros de antanho justificam e merecem. No meio de tanta treta que se edita, patrocina, apresenta e promove em Fafe, ora cá está um livrinho que até eu era capaz de ler. Enquanto espero, sentado, venha mais um quartilho para a mesa do canto...

P.S. - Escrito e publicado originalmente no dia 30 de Setembro de 2011.

Memória (António Rebordão Navarro)
Ontem tive a sorte de almoçar com o escritor António Rebordão Navarro. Eu e mais três amigos. Falámos sobretudo de banalidades risíveis, como convém à mesa, mas era fatal chegarmos aos livros. Perguntei:
- O senhor doutor (Rebordão Navarro é formado em Direito e chegou a exercer como advogado e delegado do Ministério Público, antes de se entregar de corpo e alma à escrita) ainda mora lá para a Foz?
Mora. Mas já não na Praça de Liège e era aí que eu queria chegar. Com esta minha notável capacidade para fazer figura de urso, eu estava mortinho por demonstrar mais uma vez quão sólido é o cuspo com que argamasso os meus pindéricos alicerces culturais. E disse, todo vaidoso:
- Sabe, eu tenho o livro, tenho "A Praça de Liège". Se soubesse que me ia encontrar com o senhor doutor, até o tinha trazido para me fazer o favor de uns sarrabiscos. Tenho o livro, está lá em casa...
- Ai tem o livro? Mas eu escrevi mais livros, escrevi para aí uns catorze... - cortou-me a vaza Rebordão Navarro, sem disfarçar o sorriso malandro como o arrozinho de feijão e legumes que acompanhava os bolinhos de bacalhau.
A minha primeira reacção foi largar o habitual "Eu sei!" com que tento sair das enrascadas em que me meto, e recitar ali mesmo, de cor e salteado, da trás para a frente e da frente para trás, por ordem alfabética e depois por ordem cronológica, os outros treze títulos do autor que tinha à minha frente de faca em punho, mas a verdade é que... eu só conhecia "A Praça de Liège". Optei, portanto, por tornar pública a minha segunda reacção, que também me saiu uma boa merda e que foi "Pois faço ideia, mas lamentavelmente não tenho acompanhado a carreira do senhor doutor"...

"A Praça de Liège" foi um sucesso tremendo aquando da sua publicação, em 1988. Era o livro da moda (pois se até eu o comprei!) e ganhou o Prémio Literário Círculo de Leitores. Hoje, no Círculo de Leitores não sabem quem é António Rebordão Navarro. Alguém do Círculo contactou a irmã do escritor, a senhora falou do irmão e do prémio e obteve como resposta um lamentável
- Quem? Rebordão quê? Não conheço...
Pois é: a memória! As empresas enxotam quem sabe da poda, despedem os funcionários pelas mãos dos quais passaram os factos e as pessoas, preferem juniores renováveis, fiam-se no Google mas não vão lá. E depois ninguém sabe nada de nada.
Ouvi dizer que está a acontecer o mesmo nas redacções dos jornais e até me contaram algumas anedotas. São de rir tanto que às tantas até são verdade...

No que me toca, e como penitência pela minha ignorância quanto à globalidade da obra literária de António Rebordão Navarro, que afinal é qualquer coisinha mais do que catorze títulos, aqui deixo o registo essencial, com sinceros votos de que faça também bom proveito à rapaziada do Círculo de Leitores: poesia - "Longínquas Romãs e Alguns Animais Humildes", 2005; "A Condição Reflexa", 1989; "27 Poemas", 1988; "Aqui e Agora", 1961; teatro - "Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique", 1995; "O Ser Sepulto", 1972; crónica - "Estados Gerais", 1991; ensaio - "Juro Que Sou Suspeito", 2007; conto "Dante Exilado em Ravena", 1989; romance - "As Ruas Presas às Rodas", 2011; "A Cama do Gato", 2010; "Romance com o Teu Nome", 2004; "Todos os Tons da Penumbra", 2000; "Amêndoas, Doces, Venenos", 1998; "A Parábola do Passeio Alegre", 1995; "As Portas do Cerco", 1992; "Mesopotâmia", 1984; "A Praça de Liège", 1988; "O Parque dos Lagartos", 198; "O Discurso da Desordem", 1972; "Um Infinito Silêncio", 1970; "Romagem a Creta", 1964.

P.S. - Escrito e publicado originalmente no dia 3 de Agosto de 2011. António Rebordão Navarro morreu no dia 22 de Abril de 2015. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

António Rebordão Navarro 2

Post scriptum

Se a solidão nos rói os ossos,
se temos de negar
e é forçoso viver
entre paredes que não crescem nem mingam,
caminhar e sorrir e criar com esforço
urgentes intervalos para a dor,
em papéis sem mistério
faremos nossa história
tão simples como o bom e o mau tempo.
Entretanto,
falamos, discutimos,
cuspimos na paisagem,
desafiamos a tristeza
e mordemos o corpo da alegria.


(Não sei se tu me vês
quando a insónia te envia
anjos de roxos olhos
que te impelem, atraem
e, súbito, te deixam.
Não quero dizer que te ouço cantar,
porque não ouço,
quando os muros se apertam,
quando encho grandes dias
de silêncio e mais nada.)

Escrevo-te estas linhas de verdade
porque sei que não choras
quando a vida to ordena,
porque sei que és livre
a desprezares
a gordura dos dias.

(Não te dou minhas mãos,
sento-me contigo à mesa que puseste,
que sempre pões em qualquer sítio,
- nos barcos, nos cafés, onde tu estás -
tua ternura é uma longa mesa
onde se sentam todos os vagabundos.)

Dou-te vinte séculos de fome sobre o mundo,
vários milhões de cruzes e cadáveres nos campos,
inumeráveis dramas conjugais,
pavores de toda a espécie
e o esforço que minha mãe faz para não chorar.

Só te envio
o que guardei das quedas mais terríveis,
o olhar para trás, o reter uma lágrima,
o ter trazido na minha mão direita
o frio que cobria a mão de meu pai morto.

Não te falo de coisas ociosas
que nunca possuiremos,
não te falo de roteiros fingidos
nem te envio palavras pelo vento.
Não te peço para me dares a paz
que nunca tive
nem mesmo a que julgava ter e me levaste.

Não te ofereço o único e perfeito
lugar do mundo aonde
talvez ainda exista a felicidade,
mas junto as minhas ruas
de crianças, eléctricos e caixotes de lixo
às tuas ruas de ladrões, prostitutas,
máquinas e polícias.
Mais livre
(ou menos livre?)
do que dantes,
mais sereno
no entanto,
embora
a garganta
se encha
de acerados punhais
e uma ruga
recente
denuncie
que, às vezes,
num só instante
o mundo cresce
mais do que
em milénios,
abro todas as portas
e todas as janelas,
abro todas as veias
ao teu sangue,
vou contigo
por um caminho
por demais luminoso.


"Aqui e Agora", António Rebordão Navarro

(António Rebordão Navarro nasceu no dia 1 de Agosto de 1933. Morreu em 2015.)

sábado, 1 de agosto de 2015

António Rebordão Navarro

As janelas abriam-se às manhãs coruscantes, às salobras manhãs em que um mar leitoso de névoa ia do chão ao céu, descia dele, entrava nas narinas, picava a pele com pontinhas invisíveis de sal. As pessoas saíam das casas vestidas de costumes úteis ou necessários. Às vezes, as gaivotas sulcavam os espaços habitados, pouco seguras dos seus voos, transtornadas. O ar, subtil ou de roldão, agitava cortinas, cortinados, dissipava os aromas confundidos, os inúteis vapores, as profundas, misteriosas, emanações dos corpos que a noite acumulara. De súbito, podia ouvir-se uma cantiga, um repicar de trálá-lás, a melopeia plangente de um fragmento de auto ou de comédia trazida dos longes da província, a cançoneta trauteada de um filme português, de um quadro de revista, misturada aos rumores de pregas alisadas, sacudir de panos, desfraldar de colchas, abanar de colchões, roupa a lavar nas pias. Podia, também, inopinadamente, escutar-se um borborigmo penetrado de silvos, de alguma telefonia demorando a aquecer, a transmitir vozes e ritmos sobrelevando, por instantes breves, os demais.
As ruas começavam a mexer-se nos perfis indecisos das manhãs, fazendo explodir em centelhas vibrantes os azulejos das fachadas, brilhar as suas tintas, incendiar a sua cal, ou enredando-as num véu pardo, inconsútil, abafando vozes, gritos, ruídos.

"A Praça de Liège", António Rebordão Navarro

(António Rebordão Navarro nasceu no dia 1 de Agosto de 1933. Morreu no passado mês de Abril.)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Memória

Ontem tive a sorte de almoçar com o escritor António Rebordão Navarro. Eu e mais três amigos. Falámos sobretudo de banalidades risíveis, como convém à mesa, mas era fatal chegarmos aos livros. Perguntei:
- O senhor doutor (Rebordão Navarro é formado em Direito e chegou a exercer como advogado e delegado do Ministério Público, antes de se entregar de corpo e alma à escrita) ainda mora lá para a Foz?
Mora. Mas já não na Praça de Liège e era aí que eu queria chegar. Com a minha notável capacidade para fazer figura de parvo, eu estava mortinho por demonstrar mais uma vez quão sólido é o cuspo com que argamasso os meus pindéricos alicerces culturais. E disse, todo vaidoso:
- Sabe, eu tenho o livro, tenho "A Praça de Liège". Se soubesse que me ia encontrar com o senhor doutor, até o tinha trazido para levar uns sarrabiscos. Tenho o livro, está lá em casa...
- Ai tem o livro? Mas eu escrevi mais livros, escrevi para aí uns catorze... - cortou-me a vaza Rebordão Navarro, sem disfarçar o sorriso malandro como o arrozinho de feijão e legumes.
A minha primeira reacção foi largar o habitual "Eu sei!" com que tento sair das enrascadas em que me meto, e recitar ali mesmo, de cor e salteado, da trás para a frente e da frente para trás, por ordem alfabética e depois por ordem cronológica, os outros treze títulos do autor que tinha à minha frente de faca em punho, mas a verdade é que... eu só conhecia "A Praça de Liège". Optei, portanto, por tornar pública a minha segunda reacção, que também me saiu uma boa merda e que foi "Pois faço ideia, mas lamentavelmente não tenho acompanhado a carreira do senhor doutor"...

"A Praça de Liège" foi um sucesso tremendo aquando da sua publicação, em 1988. Era o livro da moda (pois se até eu o comprei!) e ganhou o Prémio Literário Círculo de Leitores. Hoje, no Círculo de Leitores não sabem quem é António Rebordão Navarro. Alguém do Círculo contactou a irmã do escritor, a senhora falou do irmão e do prémio e obteve como resposta um lamentável
- Quem? Rebordão quê? Não conheço...
Pois é: a memória! As empresas enxotam quem sabe da poda, despedem os funcionários pelas mãos dos quais passaram os factos e as pessoas, preferem juniores renováveis, fiam-se no Google mas não vão lá. E depois ninguém sabe nada de nada.
Ouvi dizer que está a acontecer o mesmo nas redacções dos jornais e até me contaram algumas anedotas. São de rir tanto que às tantas até são verdade.

No que me toca, e como penitência pela minha ignorância quanto à globalidade da obra literária de António Rebordão Navarro, que afinal é qualquer coisinha mais do que catorze títulos, aqui deixo o registo essencial, com sinceros votos de que faça também bom proveito à rapaziada do Círculo de Leitores:

Poesia
"Longínquas Romãs e Alguns Animais Humildes", 2005
"A Condição Reflexa", 1989
"27 Poemas", 1988
"Aqui e Agora", 1961

Teatro
"Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique", 1995
"O Ser Sepulto", 1972

Crónica
"Estados Gerais", 1991

Ensaio
"Juro Que Sou Suspeito", 2007

Conto
"Dante Exilado em Ravena", 1989

Romance
"As Ruas Presas às Rodas", 2011
"A Cama do Gato", 2010
"Romance com o Teu Nome", 2004
"Todos os Tons da Penumbra", 2000
"Amêndoas, Doces, Venenos", 1998
"A Parábola do Passeio Alegre", 1995
"As Portas do Cerco", 1992
"Mesopotâmia", 1984
"A Praça de Liège", 1988
"O Parque dos Lagartos", 1981
"O Discurso da Desordem", 1972
"Um Infinito Silêncio", 1970
"Romagem a Creta", 1964