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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Com tomates até às orelhas

Foto Tripadvisor

O grande reclamador
Reclamava Camões, reclamava Pessoa, reclamava Sophia, reclamava Eugénio, reclamava Drummond, reclamava Vinicius, reclamava Baudelaire, reclamava Lorca e reclamava Neruda. Reclamava até Eliot e Shakespeare. Era, enfim, um grande reclamador.

Corria satisfatoriamente o ano de 2018, quando, do pé para a mão, o tomate pelado Guloso começou a aparecer-me com pele. Estranhei. Na minha ideia, um nudista vestido não é coisa que se apresente. Seria pudor? Frio? Questão de moda? Censura? Parvoíce do wokismo? Fiquei com a pulga atrás da orelha. Farto de ser levado na conversa, aproveitei a última década para passar de bovino come e cala a guerrilheiro da reclamação, e não me tenho dado mal. Dei-me até muito bem, por exemplo num gramático protesto enviado a uma importante cadeia de supermercados a respeito de uma lamentável alheira de caça que comprei e à qual faltava quase tudo, inclusive a cedilha.
Portanto, o que é que eu fiz? Resolvi contactar o Sr. Guloso ele próprio, perguntando-lhe, preocupado e mais respeitosamente era impossível, se por acaso não estaria o Excelentíssimo passando por alguma crise de escrotal decoro (há que chamar as coisas, neste caso os coisos, pelo nome), e aproveitei para me queixar do cada vez maior verdor e da cada vez maior acidez do produto em questão. O tomate pelado, não esqueçamos.
O meu e-mail teve resposta em quinze dias. Uma resposta profissional, simpática e, pareceu-me descortiná-la, com uma pitada de ironia no estrugido, que foi o que melhor me soube. Fui informado de que os tomates reclamados tinham sido produzidos "na campanha de 2017, que, por condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio), se traduziu em tomate mais ácido, com menos cor e que se separa da pele com mais dificuldade."
Como forma de "atenuar a imagem menos positiva" que em mim lamentavelmente provocara, o Sr. Guloso revelou a intenção de enviar-me "um cabaz de produtos da marca, incluindo pelado da campanha de 2018, na expetativa de me "fazer chegar um tomate pelado mais condizente com o nome". E cá está a piadinha...
Obviamente, agradeci e recusei a generosa oferta, não gosto de almoços grátis, hábito antigo do velho ofício.
Agora. Estamos no ano de 2025. A Guloso celebra o seu octogésimo aniversário e o tomate pelado continua a chegar-me a casa com pele, verde e ácido, rigorosamente como o da famigerada e defeituosa colheita de 2017. Conclusão, das duas uma: em Portugal os anos são todos de "condições extremas do tempo (chuvas em final de Abril e Maio)", pelo menos para os tomates, ou então há quase uma década que todos os anos são 2017. O que seria extraordinário, embora eu já tenha visto algo do género num filme com Bill Murray e Andie MacDowell.
Por outro lado, fui ao calendário e descobri o uso que hei-de dar à montanha de embalagens cheias de tomate pelado Guloso que realmente não o é e que acumulei ao longo dos últimos anos na despensa por não me servirem para nada na cozinha. O Dia da Tomatina, ou Dia de La Tomatina, na cidade valenciana de Buñol, está aí à porta, na última quarta-feira de Agosto, como manda a tradição, e não perde pela demora. Estou a caminho, hermanos míos, com tomates até às orelhas. E olé!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Desenvolvimento Rural.)

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Realmente

viva o rei
dos leitões, do cachorro quente, dos queijos e dos beijos
da sardinha assada, do churrasco, do carvão, dos frangos, dos galos
de barcelos
das bolas de berlim, do vinho e da cerveja, dos presuntos, das bifanas
do caracol, das castanhas, das batatas, do pernil
do cabrito e dos cabrões
do bacalhau, da picanha, da laranja, das tripas, dos bitoques
das migas, das caldeiradas
do marisco, das carnes, do cozido, frito, assim e assado
do caldo verde, dos croissants, dos bolos e dos tolos

viva
viva o rei
dos fogões e dos balões, da louça, dos móveis, dos candeeiros
dos tapetes, das alcatifas, dos relógios, dos tecidos, das fardas
dos sapatos, das meias, das malhas, das samarras
dos guarda-chuvas, das luvas, dos chapéus e dos bonés
das gravatas, dos fatos e dos factos
dos sofás

do ioió, do sexo, dos gnomos, do crime, dos filmes
da noite, do jet-set
da pornografia
dos pássaros e das pássaras
das cópias, das fotocópias
dos livros e dos livres 

viva
viva o rei
dos óculos, das limas, das ferramentas, dos salvados, da sucata, do pneu
das tintas e dos tintos
da rádio
do fado, do gado, do rock'n'roll, do baião, do malato, do kuduro, do forró
das flores
do butão e do fecho-éclair

viva
viva o rei
de espadas
de ouros
sobre azuis
de copas
de copos
e de paus
mandados
reispectivamente

viva
viva o rei
dos cartões amarelos e de crédito
das bolas paradas e das assistências
das pole positions e dos afundanços

vivam
vivam
rei pelé, ray charles, ray liotta, rei zinho, rei naldo, rei nunido

vivam
vivam os reis
com o rei na barriga
rei morto, rei posto

viva o rei dos catalisadores

vivam os reis dos cartuchos
dos carimbos, dos caramelos
e dos carburadores

vivam os reis
sem rei nem roque
vivam o roque e a amiga
viva o rock em stock
viva, viva a rei nação
o rato roeu a rolha da garrafa do rei da rússia

vivam
vivam
o rei da selva, o rei-do-mar, o rei pescador
e o rei taxidermista, o rei da montanha
mais o rei dos ares
condicionados

vivam
vivam
o rei momo, o reigrilo
o armindo rei, o dos reis almeida
o rei tor manietador e o reisparta

vivam
vivam
o rei do universo
o cristo-rei
o rei dos reis
o bolo-rei

e os reis
belchior, baltasar e gaspar
magos

(fresquinho, no Peixoto, pela passagem de ano)

vivam o rei
maila sua ex-celsa com sorte
vivam

tchim
tchim

P.S. - Duarte Nuno de Bragança, pretendente ao trono português e pai do nosso actual Duarte Pio, nasceu no dia 23 de Setembro de 1907. No dia 23 de Setembro de 1930, curiosamente, nasceu um Ray a sério - Ray Charles.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

sexta-feira, 12 de julho de 2024

A filha do pai

Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Leonor de Borbón y Ortiz, 18 anos, princesa das Astúrias e herdeira da coroa espanhola, foi condecorada pelo nosso Presidente da República com a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo.
"É uma homenagem a vossa alteza, ao Reino de Espanha, à nossa amizade para sempre", declarou Marcelo Rebelo de Sousa, na ocasião, explicando o penduricalho à infanta.
A Ordem Militar de Cristo destina-se a distinguir destacados serviços prestados ao País no exercício de funções de soberania.
Tanto quanto percebo, Leonor foi condecorada porque é espanhola e filha do pai dela. Sinceramente, não me parece um serviço por aí além...

terça-feira, 25 de julho de 2023

O que eu sei de Alberto Feijóo

Sobre o líder do PP espanhol, o galego Alberto Núñez Feijóo, vencedor derrotado das eleições do passado domingo no país vizinho, eu sei o seguinte: ele gosta muito da costelinha assada e do bacalhau na brasa da Casa Álvaro, em Valença, e come os dois pratos à mesma refeição. Bebe verde tinto, que traça eventualmente com uma seven up, e creio que assim fica tudo explicado. Não são de confiança os indivíduos que misturam vinho bom com seven up...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Guerra da Restauração

Quando a Guerra da Restauração entre Portugal e Espanha terminou e pediu a continha, em 1668, foi deveras porreiro. Os espanhóis começaram a vir comer bacalhau a Valença e os portugueses passaram a ir às bandejas de marisco a Vigo. Foi bom para o negócio e, entre mortos e feridos, salvaram-se consideráveis estabelecimentos.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Fafe na História de Portugal

Se me dão licença, eu creio que não está devidamente estudado o papel de Fafe e dos fafenses ou pré-fafenses na fundação da nacionalidade. E esta é uma lacuna particularmente repreensível numa terra que exabunda de historiadores e simpatizantes, amiúde galardoados.
Entendamo-nos. A mim nem me passa pela cabeça que Portugal tenha nascido em Guimarães, ali a menos de três léguas ou, vá lá, digamos a quatrocentos tiros de besta, em qualquer caso perto e bom caminho, e quase sempre a descer depois de Paçô Vieira, nem me passa pela cabeça, dizia, que Portugal tenha nascido em Guimarães, que é do que eles se gabam, e que em Fafe, ao mesmo tempo, não tenha acontecido nada. É impossível. Portugal de certeza que nasceu também em Fafe, nem que tenha sido só um bocadinho, mas os historiadores - são, infelizmente, os historiadores que temos - ainda não deram fé.
Eu lembro-me muito bem, e posso testemunhar, se for preciso, que, enquanto jovens e antes do futebol, os manos Pimenta Machado, ilustres fidalgos vimaranenses, passavam a vida em Fafe. Ora, se os Pimenta Machado, que eram quem eram e possuíam um considerável estabelecimento em frente às camionetas do João Carlos Soares, cujo escritório ficava praticamente ao lado do Café do Franklin que é o Café Vitória, na parte de fora do mercado de Guimarães, se os Pimenta Machado, enfatizo, não nos desamparavam a loja, o mais certo é que, antes deles, o próprio Afonso Henriques desse também as suas voltas pelos nossos lados, nem que fosse só para desenfastiar, nada mais natural.

A Batalha de São Mamede, por exemplo. A Batalha se São Mamede de que aqui falei ontem e que, aviso já, nunca me convenceu. Custa-me a aceitar que sítios como Creixomil ou Cano (Cáno, como dizem os locais) possam ser mais importantes no que nos é contado como História de Portugal do que, por exemplo, e não vamos mais longe, Arões ou Cepães, ali mesmo ao pé, mas do lado de Fafe. Duvido, de resto, que Guimarães tivesse naquele tempo equipamentos, nomeadamente hoteleiros, para acomodar aquela espanholada toda e ainda por cima recinto preparado e certificado para a pancadaria. É que, parecendo que não, um evento desta natureza, uma batalha com cavalos e tudo, implica muita logística. Olhem só a confusão que são hoje em dia as chamadas feiras medievais...
Eu cuido que Fafe teria recebido muito mais condignamente a Batalha de São Mamede. Olho para a zona de Rilhadas, vamos um supor, e vejo a batalha ali. Vejo claramente vista. Uma zona devidamente infra-estruturada e onde sobejam as condições e comodidades para a organização de uma batalha com todos os matadores e que certamente não envergonharia ninguém.
As pistas estão aí. Há que repor a verdade dos factos. Fafe não pode continuar à porta, nas bordas da História. De uma vez por todas, Fafe deve ocupar o lugar a que tem direito. Se São Mamede foi em Rilhadas, isto é, se a Batalha de São Mamede foi de facto levada a efeito em Rilhadas? É o desafio que eu deixo aos historiadores encartados, particularmente aos intrépidos historiadores fafenses, se a tanto os ajudar o engenho e arte. E não me venham dizer que a História é omissa. Omissa? Homessa!

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Assim nasceu Portugal

Afonso Henriques, esse gabiru de estilo motoqueiro que gostava de vestir saias e há quem diga que batia na mãe, tinha uma espada que pesava toneladas e não cabia no guarda-vestidos e nem sequer existiu. O espadalhão, entendamo-nos. Já o jovem Afonso ficou na história da moda por ter sido o criador da maxissaia. Morava geralmente no austero Castelo de Guimarães e tinha um anexo charmoso chamado Paço dos Duques onde dava as suas festas que eram sobremaneira constadas. No dia 24 de Junho de 1128, tomai nota, depois de uma dessas iglantónicas farras, noitada de São João ainda por cima, Afonsinho do Condado acordou digamos maldisposto, bebeu um copo de água da mina com bicarbonato, mandou chamar o pessoal e os cavalos e derrotou a progenitora, Dona Teresa de Leão, mailo seu amante galego, Fernão Peres de Trava, na Batalha de São Mamede, levada a efeito ali mesmo nos arredores, para evitar deslocações e despesas, que o País ainda estava a começar.
Isto explica mais ou menos o que ouvi uma vez no Parque da Cidade do Porto. Foi apenas um momento, o tempo de nos cruzarmos, mas deu para perceber que a conversa ia animada. De mão dada com a mãe, o miúdo, de seis ou sete anos se tanto, perguntou, cheio de certeza na resposta a vir: - Ó mãe, a Espanha já deve ter sido de Portugal, porque D. Afonso Henriques ganhou a Espanha, não ganhou?...
Já não escutei o que lhe respondeu a mãe, mas deve-lhe ter dito que não, que não é bem assim. E no entanto...

P.S. - O Tratado de Alcanizes, definindo as fronteiras entre Portugal e Castela, foi assinado no dia 12 de Setembro de 1297

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Guerra da Restauração

Quando a Guerra da Restauração entre Portugal e Espanha terminou e pediu a continha, em 1668, foi deveras porreiro. Os espanhóis começaram a vir comer bacalhau a Valença e os portugueses passaram a ir às bandejas de marisco a Vigo. Foi bom para o negócio e, entre mortos e feridos, salvaram-se consideráveis estabelecimentos.

Os defenestráveis

O que eu gosto mais no 1.º de Dezembro é do episódio do defenestrado. O traidor à Pátria que, com a revolução à porta, escondeu-se no armário e acabou crivado de balas e lançado janela fora. Miguel de Vasconcelos era odiado pelo povo, porque, sendo português, andava a mando do estrangeiro e castigava Portugal com pesados impostos. 
E hoje, se Portugal de repente se tornasse independente, como seria?...

sábado, 14 de agosto de 2021

Portugal, país de doutores e bastardos

Os portugueses têm mais doutorados e mais filhos fora do casamento do que aqui os vizinhos espanhóis, os quais, por seu lado, vivem mais tempo e navegam mais na Internet. Melhor para eles! Eu não faço ideia para que é que estas estatísticas comparativas servem, mas a verdade é que elas não nos largam, pondo-se depois a jeito para as leituras que mais nos apetecerem. Organismos dos dois países confrontaram indicadores e chegaram à conclusão de que, por exemplo, há quatro espanhóis para cada português. O que também não quer dizer absolutamente nada, como ficou cabal e historicamente demonstrado em Aljubarrota.
Ah!, mas dizem que morremos do mesmo em ambos os lados da fronteira: tumores e doenças dos aparelhos circulatório e respiratório são as principais causas de morte apuradas, nos dois países, pelos minuciosos estatísticos. Fossem eles um pouco mais longe e se calhar descobririam que em França também. E na Alemanha. E em Itália. E na Suíça. E na Hungria. E espantariam o mundo com a novidade. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 5 de Abril de 2012. Os números dizem respeito a essa altura e não sei como é que estão as coisas actualmente. A Batalha de Aljubarrota decorreu no final da tarde de 14 de Agosto de 1385. Para aproveitar a fresca, digamos assim...

segunda-feira, 24 de maio de 2021

E assim nasceu Portugal

Afonso Henriques, esse gabiru de estilo motoqueiro que gostava de vestir saias e há quem diga que batia na mãe, tinha uma espada que pesava toneladas e não cabia no guarda-vestidos e nem sequer existiu. O espadalhão, entendamo-nos. Já o jovem Afonso ficou na história da moda por ter sido o criador da maxissaia. Morava geralmente no austero Castelo de Guimarães e tinha um anexo charmoso chamado Paço dos Duques onde dava as suas festas que eram sobremaneira constadas. No dia 24 de Junho de 1128, tomai nota, depois de uma dessas iglantónicas farras, noitada de São João ainda por cima, Afonsinho do Condado acordou digamos maldisposto, bebeu um copo de água da mina com bicarbonato, mandou chamar o pessoal e os cavalos e derrotou a progenitora, Dona Teresa de Leão, mailo seu amante galego, Fernão Peres de Trava, na Batalha de São Mamede, levada a efeito ali mesmo nos arredores, para evitar deslocações e despesas, que o País ainda estava a começar.
Isto explica mais ou menos o que ouvi uma vez no Parque da Cidade do Porto. Foi apenas um momento, o tempo de nos cruzarmos, mas deu para perceber que a conversa ia animada. De mão dada com a mãe, o miúdo, de seis ou sete anos se tanto, perguntou, cheio de certeza na resposta: - Ó mãe, a Espanha já deve ter sido de Portugal, porque D. Afonso Henriques ganhou a Espanha, não ganhou?...
Já não escutei o que lhe respondeu a mãe, mas deve-lhe ter dito que não, que não é bem assim. E no entanto...

sexta-feira, 3 de julho de 2020

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sardinha luso-espanhola mete ano sabático

Foto Hernâni Von Doellinger

A ameaça era de quinze anos de nem vê-la, mas, vá lá, os cientistas do mar que aconselham a Comissão Europeia afinal exigem apenas que Portugal e Espanha deixem de pescar sardinha, nem uma!, durante um ano. Da maneira que as sardinhas andam, realmente uma merda, trinta anos se calhar também não estaria mal...
Mas depois há outro assunto: e os pescadores?...