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sábado, 23 de maio de 2026

A sagrada liturgia das sardinhas

Estamos fritos
Comprou três quarteirões de sardinha miúda. Passou a manhã na sertã. E a tarde em Figueiró dos Vinhos.

Eu costumava ter pena das pessoas que comem sardinhas assadas pelos santos populares, tão cedo, em pleno mês de Junho. Deixei-me disso, porque, depois dos meus sucessivos avisos, só cai nessa quem quer. Por aquela maré do ano, as sardinhas geralmente ainda não prestam, são secas, estupidamente caras e amiúde do dia anterior, pelo menos, quando não (mal) descongeladas. Mas as pessoas gostam, dizem que é tradição, e eu realmente não tenho nada com isso. Seja! Posso é informar que elas andam razoáveis agora, com Agosto à porta, já maduras, e em Setembro, se Deus quiser, é que hão-de estar perfeitas. A seguir, se correr bem, ainda lhes dou mais dois meses de vida, aqui fica o lamiré para quem estiver interessado.
Aquilo dos antigos de que as melhores sardinhas são as dos meses sem "r" e que pelo São João pinga a sardinha no pão, não ligueis: os antigos, a verdade também é só uma, fartavam-se de dizer asneiras e mandar encaixilhar. Não. A melhor época para comer sardinhas assadas, sardinhas inequivocamente saborosas, se quereis saber, insisto, ainda ides a tempo, estamos a um mês dela, Setembro e Outubro e às vezes até Novembro. As sardinhas são analfabetas, não diferenciam vogais de consoantes nem lês de rês. E até metem raiva de boas, como diria o meu sogro quando era vivo e elas também. Sardinhas "do nosso mar", cá de cima, mais torneirinhas, que quer dizer pequenas e cheias, batoques, de olho esperto, limpo, e, chegadas à brasa, a esvaírem-se no seu próprio "azeite".
Trago de Fafe a sagrada liturgia das sardinhas. Assadas e, normalmente, comidas no quintal, ao finzinho da tarde, partilhadas com os vizinhos em cima de um bom naco de broa, que se passava para o outro lado da rede, e isto assim dito até parece ténis, coisa de ricos, mas não, era apenas a pobreza a ser honrada. No Assento, à roda do fogareiro, a família inteira reunida, noras e genros incluídos, primos e primas, ninguém faltava à chamada, porque eram sardinhas, tinha saído edital, e a minha mãe, que não era para brincadeiras, marcava faltas. As crianças não gostavam de sardinhas e portavam-se mal - comiam uns calduços e ficava o assunto resolvido.
Na segunda metade do ano, cá em casa, todas as sextas-feiras são dia de sardinhada para a Mi e para mim, dia santo. Vantagem de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca, vou buscar as sardinhas praticamente ao barco, acabadas de chegar, trago-as vivinhas da silva, como se ainda rabiassem, e acomodo-as debaixo de um pano molhado, à espera da hora para serem assadas por quem sabe, isto é, eu próprio, passe a imodéstia. Sardinhas de prata e com mar dentro, salada de pimento assado, vermelho e carnudo, azeitonas pretas e azedas, broa fresca e vinho tinto, mais nada. Em memória do tempo antigo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Migração dos Peixes.)

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Cobras e lagartos

Ele dizia cobras e lagartos. E dizia sanguessugas e borboletas e gaivotas e cangurus e macacos e sardinhas assadas com salada de pimentos vermelhos, nomeadamente. Enfim, dizia o que lhe apetecia...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Cobra.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Sardinhas de Setembro

Eu costumava ter pena das pessoas que comem sardinhas assadas pelos santos populares, no mês de Junho. Deixei-me disso, porque, depois dos meus sucessivos avisos, só cai nessa quem quer. Por aquela maré do ano, as sardinhas geralmente não prestam, são secas, caras e amiúde do dia anterior, pelo menos, quando não (mal) descongeladas. Mas as pessoas gostam, e eu realmente não tenho nada com isso. Posso é informar que boas, boas andam elas agora, agora mesmo, em Setembro, hoje, e dou-lhes de vida, se correr bem, mais dois meses, quem quiser que aproveite.
Aquilo dos antigos de que as melhores sardinhas são as dos meses sem "r" e que pelo São João pinga a sardinha no pão, não liguem, os antigos, a verdade é só uma, fartavam-se de dizer asneiras e mandar encaixilhar. Não. A melhor época para comer sardinhas assadas estamos nela, Setembro e Outubro e às vezes até Novembro - as sardinhas são analfabetas graças a Deus, não diferenciam vogais de consoantes nem lês de rês. E até metem raiva, como diria o meu sogro no tempo dele e delas. Sardinhas "do nosso mar", mais torneirinhas, de olho esperto e a esvaírem-se no seu próprio "azeite".
Sexta-feira, cá em casa, é dia de sardinhada para dois, dia santo. Já cá estão, vivinhas da silva, como se ainda rabiassem, acomodadas debaixo de um pano molhado, à espera de serem assadas por quem sabe, isto é, eu. Sardinhas de prata e com mar dentro, salada de pimento assado, vermelho e carnudo, azeitonas pretas e azedas, broa fresca e vinho tinto, mais nada. E não servimos para fora.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

As amigas de Peniche

As sardinhas saíram atrasadas este ano. Quero dizer, as nossas, as sardinhas do nosso mar, cá em cima, que são as minhas predilectas. No ano passado abri a época logo no dia 29 de Abril, e com satisfatórios resultados, como já aqui contei, mas este ano, eu sempre em cima delas, só arrisquei trazê-las para a mesa no dia 12 de Maio, para desougar, e, coitadinhas, eram mínimas, desenxabidas e secas como bacalhau da peça. Um desconsolo! Tive de suspender e apostatar, se queria salvar as minhas, nossas, sextas-feiras. É. Logo que entrados no tempo delas, sexta-feira ao jantar é dia de sardinhada cá em casa. Sardinhas de prata e com mar dentro, salada de pimento assado, vermelho e carnudo, azeitonas pretas e azedas, broa fresca e vinho tinto, mais nada. Portanto. Valeram-me as amigas de Peniche, sardinhas lá de baixo, mais robustas e já apaladadas, regulares, que a boa Dona Augusta, a minha fiel sardinheira há mais de trinta anos, me foi orientando, como quem não quer a coisa, para que pelo menos não me caísse a pirângula. E não caiu.
Comi 243 sardinhas assadas, no ano passado. Com este atraso que levo, não faço ideia de quantas vou comer este ano. E o ano das sardinhas, para mim, afrontando o que diz a chamada sabedoria popular, vai até Setembro e Outubro, que são os melhores meses, e às vezes até Novembro.
Entretanto, as nossas sardinhas, as do nosso mar, já se encontram finalmente em aceitáveis condições, de tamanho, gordura e gosto. Prometem. As nossas sardinhas de São João, comemo-las ontem à noite, a minha mulher e eu, assadas como sempre por quem sabe, isto é, por mim, e, digo-vos uma coisa, foram baratas, eram frescas como água e estavam bem boas. Assunto resolvido.
Porque já se sabe. Eu e a minha mulher não comemos sardinhas assadas nos dias mesmo dos festejos dos santos populares. Não comemos, porque geralmente as sardinhas não são das nossas, nem frescas. Não comemos, porque não gosto de balbúrdias, por um lado, nem de me meter em filas, em peixeiradas, por outro. E não comemos, por uma questão de princípio, devido à indecência do preço a que costumam ser vendidas por estes dias. É a lei da vida, a procura estraga a oferta. E então o que é que eu faço? Pelo São João, já há alguns anos, alugo um jacto particular, pego na mulher e vamos ao Maine, EUA, comer lagostas à ganância. As lagostas ficam-nos muito mais em conta do que as sardinhas e ainda trazemos para casa num taparuere.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Comer 243 sardinhas é muito?

Comi 243 sardinhas assadas! Isso, duzentas e quarenta e três. Não foi para o Guinness, portanto não as comi todas de uma vez, mas ao longo da época de 2022, que dei por encerrada faz hoje oito dias. E como é que eu cheguei a esse número tão quadrado sem ter de as contar uma a uma? É fácil. Logo que entrados no tempo delas, sexta-feira ao jantar é dia de sardinhada cá em casa. Sardinhas, salada de pimento vermelho assado, azeitonas, broa e vinho tinto, mais nada. Este ano abrimos as hostilidades no dia 29 de Abril e fechámos a loja, como já disse, a 25 de Novembro. Foram trinta e uma sextas-feiras. Se a estas tirarmos quatro, derivado ao mau tempo, a feriado ou a santo popular, ficamos com vinte e sete sextas-feiras limpas. Tendo em atenção que eu como, em média, nove sardinhas assadas por refeição, é só fazer as contas, como dizia o Guterres, e dá 243. Sim, duzentas e quarenta e três.
Sempre sardinhas aqui do nosso mar, mais pequenas mas mais saborosas, e vou buscá-las praticamente ao barco. Elas não se cansam a esperar por mim. Eu é que espero por elas, vivinhas que até metem raiva. E este ano as sardinhas foram outra vez excelentíssimas - abençoado defeso, que no-las devolveu à moda antiga.
Os antigos diziam que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada, mas não são. Como eu costumo lembrar, os antigos sabiam tudo e morriam muito. As sardinhas daqueles meses, dos meses sem "r", apesar de geralmente comestíveis e até agradáveis, ainda não estão maduras. A lengalenga popular é engodo para apedeutas. Eu também aprecio a novidade, mas, em bom rigor, as melhores sardinhas estão guardadas para Setembro e Outubro, aguentando-se às vezes até Novembro. Eu monitorizo-as sexta a sexta, e faço por parar ainda em bom, prevenindo o indesejável porém fatal desgosto. Foi o que fiz mais uma vez. Parei. Agora, sardinhas assados, só para o ano. E entretanto arquivo na memória um gosto bom que faço render contando histórias de crescer água na boca. Assim que tal, Abril ou Maio, os meus amigos do mar hão-de avisar-me para a urgência da retoma...

Uma vez, na peixaria da Dona Augusta, seria exactamente mês de Abril aqui há uns anos, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela minha peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". Por acaso não estavam, naquele ano de colheita medíocre, lembro-me bem, mas a peixeira tem de fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Nós comíamos as sardinhas acomodados às três pancadas ao lado do assador, no nosso quintal da casa de pedra da Rua do Assento. Seriam poucas as sardinhas, mas a verdade é que davam para partilhar com os vizinhos e ninguém ficava com fome.
Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia eu e uma solha metemo-nos numa luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

Descobri recentemente que a minha peixeira, que é a melhor peixeira do mundo, a impagável Dona Augusta, tem pelo menos um cliente que vem propositadamente de Fafe. Encontrei outro dia o Toni, que, contou-me, todas as terças-feiras vem buscar peixe para o sobrinho e, já agora, para o meu amigo Tónio Cá Te Espero, que tem tasco de categoria na Recta, que parece que se chama Taberna do Cates, ali à beira de virar para a casa da minha irmã, e de momento, felizmente, também da minha mãe. E eu, palavra de honra, quase me comovi ao saber disto.
E agora, quer-se dizer. Não sei se repararam lá em cima, mas eu não como sardinhas assadas por ocasião dos santos populares. Não como, porque geralmente não são das nossas, nem frescas. Não como, porque não gosto de balbúrdias, por um lado, nem de me meter em filas, por outro. Não como enfim, por uma questão de princípio, devido à indecência do preço a que costumam ser vendidas nesses dias. É. A procura estraga a oferta. Pelo São João, já há alguns anos, alugo um jacto particular, pego na mulher e vamos ao Maine, EUA, comer lagostas à ganância. Sempre nos fica mais em conta do que as sardinhas...

P.S. - Ontem foi Dia da Restauração. Aqui fica a minha singela homenagem ao sector.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

sábado, 4 de dezembro de 2021

Cobras e lagartos

Dizia cobras e lagartos. E dizia sanguessugas e borboletas e gaivotas e cangurus e macacos e sardinhas assadas com salada de pimentos vermelhos, nomeadamente.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Cobras e lagartos

Dizia cobras e lagartos. E dizia sanguessugas e borboletas e gaivotas e cangurus e macacos e sardinhas assadas com salada de pimentos vermelhos, nomeadamente.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Em lata

O confinamento fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

P.S. - Hoje, 28 de Julho, é Dia Nacional e Dia Mundial da Conservação da Natureza.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Cobras e lagartos

Dizia cobras e lagartos. E dizia sanguessugas e borboletas e gaivotas e cangurus e macacos e sardinhas assadas com salada de pimentos vermelhos, nomeadamente.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Lagostas de São João

Andei um ano inteiro a poupar para meiaduzinha de sardinhas de São João - mas não chegou. Pedi um empréstimo ao banco, para acrescentar - e nem assim. Que se segue: desisti das sardinhas e comprei trinta e seis quilos de lagosta americana, do Maine, que vem ainda viva de avião e sempre me saiu mais em conta... 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sardinhamente falando

Foi um bom ano. Óptimo! Em tempo de balanço, há que dizer com toda a frontalidade que as sardinhas da época 2020 foram excelentíssimas, e sei de prova tirada que as de 2021 também prometem. Abençoada proibição. Finalmente, ao fim de quase dez anos, enfrentei-me com sardinhas competentes, maiores ou menores, sabendo e cheirando a mar e pingando no pão, como manda a tradição.
Por acaso eu às tradições até nem ligo. Cá em casa só começamos a assar sardinhas depois de passados os santos populares e tenho um contrato assinado com os meus amigos pescadores e com a minha querida peixeira que me proíbe de explicar porquê. Mas em 2020 comemos sardinhas assadas do nosso mar todas as sextas-feiras após o São João e até aos princípios de Novembro, com Setembro e Outubro em grande forma, apesar de serem meses que sardinhamente falando, padecem de "r".
É. A sabedoria popular ensina, e genericamente bem, que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada. Mas a Dona Dina, que Deus tem, dizia-me que de Junho a Dezembro eu podia comer as suas sardinhas à confiança, e eu comia e ela tinha razão. A Dona Dina era uma pessoa muito boa e a melhor assadeira de sardinhas do mundo. As sardinhas assadas da Dona Dina eram não mais do que douradas e traziam sempre o mar dentro.
Eu ando lá perto...

Uma vez, na peixaria da Dona Augusta, seria mês de Abril, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela minha peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". É claro que não estavam, e logo em ano de colheita medíocre, mas a peixeira tem de fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia tive com uma solha uma luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

sábado, 21 de novembro de 2020

Nem tudo o que vem ao peixe é rede

Sardinhamente falando
Foi um bom ano. Óptimo! Em tempo de balanço, há que dizer com toda a frontalidade que as sardinhas da época 2020 foram excelentíssimas. Abençoada proibição. Finalmente, ao fim de quase dez anos, enfrentei-me com sardinhas competentes, maiores ou menores, sabendo e cheirando a mar e pingando no pão, como manda a tradição.
Por acaso eu às tradições até nem ligo. Cá em casa só começamos a assar sardinhas depois de passados os santos populares e tenho um contrato assinado com os meus amigos pescadores e com a minha querida peixeira que me proíbe de explicar porquê. Mas este ano comemos sardinhas assadas do nosso mar todas as sextas-feiras após o São João e até há coisa de três semanas, com Setembro e Outubro em grande forma, apesar de serem meses que "sardinhamente falando", padecem de "r".
É. A sabedoria popular ensina, e genericamente bem, que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada. Mas a Dona Dina, que Deus tem, dizia-me que de Junho a Dezembro eu podia comer as suas sardinhas à confiança, e eu comia e ela tinha razão. A Dona Dina era uma pessoa muito boa e a melhor assadeira de sardinhas do mundo. As sardinhas assadas da Dona Dina eram não mais do que douradas e traziam sempre o mar dentro.
Eu ando lá perto...

Uma vez, na peixaria da Dona Augusta, seria mês de Abril, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela minha peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". É claro que não estavam, e logo em ano de colheita medíocre, mas a peixeira tem de fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia tive com uma solha uma luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

Fanecamente falando
Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que durante a quase década baixa da sardinha, uma desgraça, a faneca comportou-se sempre com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Regalei-me.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do meu saudoso amigo Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se a nojeira serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca, comia-te toda!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andaram e andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

Matosinhos tresanda a Matosinhos
Agosto de 2019. Matosinhos cheira mal. Faz parte. E aos domingos mete nojo. Os restaurantes de peixe rebentam pelas costuras e pelas esplanadas, e isso é bom para o IVA, mas fedem e fumegam num alucinante aviso do que decerto será o fim do mundo de um modo geral. Aos domingos, Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo deitado alegremente à rua sem norma nem excepção. Cheira também aos escapes bronquíticos dos incendiários autocarros da Resende. Quer-se dizer: Matosinhos cheira mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Com vista para o mar se me puser de lado, moro há mais de trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos vapores e malinas gastronómicas matosinhenses. Por estes dias a Rua Heróis de França está praticamente impraticável, pelo menos desde Tomás Ribeiro até às funduras da Lota, mas suponho que depois da Lota continua. Ecopontos e contentores tresandam perigosamente, mesmo à distância: nauseabundam a comida estragada, a peixe podre, a vomitado, a fermentado, a ranço, a lavadura para porcos, a ácido, a tóxico, a bagaço, a estrume, a bosta. Matosinhos World’s Best Fish, iniciativa da Câmara Municipal para inglês ver, só pode ser um equívoco, uma piada. E o fedor corre pela rua e entranha-se nas casas e nas roupas. Nos pulmões.
O Senhor Varredor que se ocupa de Heróis de França e faz um trabalho impecável, e com quem dou, sempre que podemos, dois dedos de conversa, pediu-me que eu fosse deitando os olhos ali às redondezas dos ecopontos novinhos em folha, porque se calhar um destes dias lá estará ele estendido ao comprido, evidentemente gaseado por aquele fedor que não se aguenta.
Claro que Matosinhos não tem o melhor peixe do mundo. Tem um peixe honestinho, com que me vou regalando cá em casa, e não é peixe de restaurante. É outro peixe, de que a publicidade não sabe, e ainda bem para mim. Por outro lado, Matosinhos terá provavelmente o melhor pior fedor do mundo. Entre o peixinho e o fedor, às tantas nem me queixo. Na verdade, confesso, gosto de Matosinhos assim.

P.S. - Hoje, 21 de Novembro, é Dia Mundial da Pesca.

sábado, 18 de abril de 2020

Em lata

A quarentena fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Câmara de Matosinhos padece de fantosmia

Foto Hernâni Von Doellinger

A Câmara de Matosinhos diz, no seu excelente sítio na Internet, que a cidade "já cheira a chocolate". Mas não cheira. Fui agora mesmo à varanda e Matosinhos cheira ao que costuma cheirar em todos os meses de Fevereiro, e neste Fevereiro por maioria de razão e proibição de pesca: Matosinhos cheira a sardinhas mal descongeladas e a grelhas que não vêem água desde a grande seca de 1948. Cheira também a lixo esquecido e podre nas bordas dos "ecopontos" esquecidos e podres. Cheira também aos escapes bronquíticos dos autocarros da Resende. Quer-se dizer: cheira mal, fede ao natural e ao gasóleo, tresanda a Matosinhos.
Se a Câmara afirma que Matosinhos cheira a chocolate é porque padece de parosmia/disosmia - isto é, interpreta distorcidamente os odoros; ou então sofre de agnosia - isto é, está incapacitada para classificar seja que cheiro for; ou então tem fantosmia - isto é, enreda-se em alucinações olfactivas. A oposição que tome nota: pelo menos de cheiros a Câmara de Matosinhos não percebe nada. Também não percebe de rotundas e higiene urbana, mas isso já não é para aqui chamado.
Moro há trinta anos ao dobrar da esquina da restaurantíssima e concorridíssima Rua Heróis de França, no epicentro exacto dos fumos e malinas gastronómicas matosinhenses. Não me queixo: gosto de Matosinhos assim. Mas, por favor, não me tornem a dizer que esta merda cheira a chocolate...