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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Manuel Cintra (1956-2020)

Estado de emergência

Foi ontem. Ou talvez antes. Ou logicamente depois de amanhã.
Eu ia a descer a rua. Ando a coxear, mas como em vez disso
seguro na trela da cadela, funciona como bengala, ou tripata,
e não se nota.


Havia pessoas a subir a rua. Na verdade, talvez não fossem pessoas. Acho que eram mortos, ou o que deles restava. Vinham todos de máscara, e com as cabeças embrulhadas em redes anti-sociais.

Um dia, quando tirassem a rede e a máscara, já não teriam rosto. Seriam uma espécie de bolas de golfe gigantes, sem destino nem apetite.

Na verdade, olhando melhor, nem eram pessoas nem mortos:
apenas alguns ossos, teimando em subir a rua, só para me irritar. Houve um osso que gritou ao chocalhar contra outro. Mas não passava de falso alarme.


Tentei sorrir. Vi que no meio desta triste confusão, também a subir a rua, vinha um beijo. Vestido a preceito, com fato chique completo.

Mas nem isso lhe valeu. Perverso como sou, decidi recebê-lo.

Manuel Cintra (8 de Maio de 2020)

(Manuel Cintra nasceu no dia 1 de Março de 1956. Morreu só, "presumivelmente durante o fim-de-semana", rezam hoje as notícias.)

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A estupidez não é doença, mas é viral

A gripe espanhola, ou pneumónica, apareceu em 1918, e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Absolutamente viral, como hoje se diria. Viral. Isto é: um verdadeiro caso de sucesso, um êxito tremendo...

A gripe ou peste pneumónica foi uma pandemia provocada pelo vírus influenza. Só em Portugal continental matou mais de 60 mil pessoas. Um vírus é geralmente causador de doenças graves. A estupidez não é doença, mas é viral, e fica muito bem nas chamadas redes sociais, onde se rompem as palavras sem cuidar de se saber o que elas querem dizer. Viral acima, viral abaixo, tudo é viral, e os jornais todos iguais, que não querem ser menos estúpidos do que os outros, copiam e amplificam as tolérias da ditas redes sociais, tudo em nome de um clique, tudo em busca da audiência perdida. Agora, com o novo coronavírus à perna, pode ser que uns e outros, os simpatizantes e os encartados, aprendam - se souberem aprender e se conseguirem perceber o que se lhes passa à volta - o real poder da palavra viral e a guardem bem guardada para o que infelizmente lhe diz respeito.

P.S. - As primeiras sete linhas publiquei-as originalmente no dia 5 de Julho de 2016. É curioso...

sábado, 25 de abril de 2020

25 de Abril, sempre!

25 de Abril e coisa e tal
Vinte e cinco de Abril sempre, nem que seja só às vezes. 

A dúvida dos conspiradores
Os conspiradores tinham apenas uma dúvida: marcar para quando o 25 de Abril? 

O 25 de Abril e o feriado
Por acaso o 25 de Abril calha sempre num ferido, e isso é porreiro para o povo que faz questão. Este ano é indiferente...

O bom do 25 de Abril
O bom do 25 de Abril é que se realizou no dia certo. Imaginem que tinha sido a 24...

O mal do 25 de Abril
O mal do 25 de Abril é que amanhã é outra vez 28 de Maio. O ano inteiro.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O Filhodeputa anda de máscara

Foto Hernâni Von Doellinger

Já aqui falei dele. Do indivíduo que andava pelas ruas das minhas redondezas à cata de piriscas e que, filho da puta, batia na companheira que lhe fazia o serviço. A franzina senhora desapareceu de cena. De tão sumária e submissa que me parecia, temo, sinceramente temo, que lhe tenha acontecido o pior, só para não atrapalhar. Mas o bronco continua por aí, agora solitário e sempre bandalho, enfim obrigado a vergar a mola se quer matar o vício. Com o encerramento coronavírico de cafés e restaurantes, no chão da porta dos quais costumava abastecer-se, a vida corre-lhe mal, e é o que lhe estimo.
Continua, portanto, às piriscas, no outro dia sem mais nem menos malcriou com a minha mulher, que não lhe liga mas tem medo dele, mais cedo ou mais tarde vou ter de lhe foder o focinho, ao porco. O indivíduo continua às piriscas, que fuma acto contínuo, mas, actualizado com os tempos da pandemia, anda de máscara. A máscara padece de evidentes sinais de que foi sacada ao lixo. Mas de máscara, o burgesso. É outra limpeza, outra segurança.

25 de Abril sempre!, porque é preciso...

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 19 de abril de 2020

sábado, 18 de abril de 2020

Em lata

A quarentena fez dele um verdadeiro especialista em atum. Bom Petisco à segunda, Ramirez à terça, Tenório à quarta, Minerva à quinta, Pitéu à sexta e Inês ao sábado. Ao domingo, sardinha em tomate, evidentemente.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Lay-off

Quando foi mandado de lay-off perguntou aos patrões "Posso dizer lá em casa que é temporário?" e os patrões responderam "Podes, podes..." e partiram-se a rir.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O beijo de narciso no sinal-da-cruz

Foto Tarrenego!

Quem viu o Sporting-Braga na TVI deve ter reparado: depois de apitar para dar início ao jogo, o árbitro Marco Ferreira benzeu-se. Fez o sinal-da-cruz, versão resumida, "Em nome do Pai", mão direita na testa, "do Filho", mão no peito ou barriga, "e do Espírito", mão no ombro esquerdo, "Santo. Amém", mão no ombro direito. Tudo mais ou menos como manda a Santa Madre Igreja. Mas depois acrescentou-lhe o beijinho na mão propriamente dita, em seu nome pessoal, numa espécie de auto-adoração canonicamente desautorizada, para não lhe chamar outra coisa. Coisa feia.
São os árbitros, são os jogadores, são os treinadores. Não passam sem a chupadelazinha no dedo, que - perdoem-me que lhes diga - vale tanto no Céu como a entrada em campo com o pé direito. Deus está realmente à coca, mas vê pouco futebol e também é Pai do pé esquerdo.
E não é só no futebol. Nas nossas igrejas, com cada vez menos fregueses, esta entorse litúrgica vem passando de geração em geração e os fiéis de hoje até acreditam que foi sempre assim, que é assim. Mas não é: o beijo em mão própria está a mais, não faz parte do sinal-da-cruz.
Eu acho que sei como é que isto tudo começou. No tempo em que a missa era em latim e o povo, que já se via à rasca para perceber o português, aproveitava para ir rezando terços atrás de terços enquanto o padre, de costas voltadas para o mundo, se ocupava naqueles Dominus vobiscum que eram lá um assunto entre ele e o pobre do sacristão, que ajudava o melhor que sabia sem saber muito bem a quê.
Parece que ainda ouço. (As igrejas ecoam, sabiam?) O terço era sonoramente ciciado por mulheres enfiadas em bigodes e lenços pretos, bzzz, bzzz, bzzz, num cochicho ao despique remetido directamente a Nosso Senhor, embora devesse levar Nossa Senhora no endereço. O comendador Santos da Cunha, que era governador civil de Braga e ia a Fafe aos casamentos e funerais dos ricos do regime, também fazia bzzz, bzzz, bzzz, mas com voz de trombone, de terço na mão ostensiva, durante a missa inteira, e já ela era praticamente toda em português. E se o senhor comendador fazia, e fazia que se soubesse, é porque era a Bem da Nação - naquele tempo não havia dúvidas a esse respeito.
Ora bem. No fim da reza, e independentemente do que o padre estivesse a fazer lá à frente e do ponto em que a missa fosse, as pessoas benziam-se e beijavam respeitosamente o crucifixo do terço, que levavam aos lábios entre o dedo polegar e o indicador. Beijavam a cruz, não a mão, fiz-me explicar? Mas estão a ver a confusão que dali saiu? E por falar em Braga: narcisismos, só se meterem bacalhau, está bem?

P.S. - Publicado originalmente no dia 13 de Maio de 2012. Hoje, 13 de Abril, é Dia Internacional do Beijo ou Dia do Beijo ou Dia Mundial do Beijo - uma sorrateira ironia nestes estranhos tempos de afastamento profiláctico. António Maria Santos da Cunha (1911-1972) foi presidente da Câmara de Braga durante doze anos, governador civil do distrito e deputado à Assembleia Nacional. Ia muito a Fafe e era amigo do Mendes Ribeiro da Fábrica do Ferro e de outros figurões locais da situação fascista. Santos da Cunha tem um monumento na Cidade dos Arcebispos, mas não tem retratos no Google. A fotografia lá em cima, feita em Fafe, nos Bombeiros, descobri-a e trabalhei-a eu. A sua estreiteza não faz justiça à largura do homem. Ah! Aos beijos, guarde-os para já com todo o carinho: ainda nos vão fazer um jeitaço, desejo que mais cedo do que tarde...

domingo, 12 de abril de 2020

O almocinho de domingo, aleluia!

Um dominguinho como de costume e Deus manda. Missinha das onze, homiliazinha com palavrinhas a abater e um que outro puxãozinho de orelhas para temperar, uns acenozinhos ao rebanho, umas lambidelas recebidas na mão santa, a do cachucho, e depois... o almocinho. O almocinho de dominguinho: três pratos, tal qual a Santíssima Trindade e o outro assunto que não vem ao caso. Duas horas à mesa e sempre a dar-lhe, como se fosse castigo, penitência. "Ui! Comi que nem um abade" - desabafou, num arroto final. "Nada de modéstias, Vossa Excelência Reverendíssima Senhor Dom, afinal de contas sois Bispo, Bispo" - acudiu o solícito secretário, jovem presbítero, com as maiúsculas bajuladoras numa mão e o bicarbonato de sódio na outra. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Julho de 2016. Derivado ao coronavírus e à encomenda do afastamento social, os afazeres de hoje resumem-se ao almocinho. Deo gratias!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O denunciante

Denunciado por ter tossido em casa, foi detido pela polícia, presente ao juiz e metido em prisão preventiva. O vizinho delator morreu de caganeira naquele mesmo dia.

sábado, 4 de abril de 2020

Microcontos & outras miudezas 200

Ovos de galo
A ciência ainda não encontrou uma resposta. Porque é que os ovos de galo são maiores do que os ovos de galinha?

O mistério dos ovos de coelha
As coelhas, como se sabe, são malucas por truca-truca. Passam a vida naquilo. E no entanto só põem ovos por alturas da Páscoa. É um mistério...

Da estupidez
Incomoda-me a estupidez. Sobretudo a minha.

Em álcool
Ele explicava: conservava-se em álcool derivado ao coronavírus. E sentia-se muito bem. Bêbado de manhã à noite, de segunda a sexta-feira, e ao fim-de-semana ainda era pior. Quer-se dizer, melhor...

Serei o próprio?
O entregador de encomendas toca à porta, abro, bom-dia!, passa-me a caixa para as mãos e pergunta: - É o próprio?
- Da última vez que me vi ao espelho, sou! - respondo, com uma segurança já bem ensaiada e fingida.
Mas fico à rasca, na dúvida, e, depois de, obrigado!, com licença..., fechar a porta delicadamente, corro como um tolo para a casa de banho, exigindo mais provas ao espelho.

Onde é que eu vou?
A minha mulher vestiu o meu roupão, vi-a sair mansamente do quarto, e pensei: - Porra!, onde é que eu vou, assim pequenino, que estava tão bem aqui na cama?...

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Em quarentena há dois anos e dois meses

Pratico quarentena há dois anos e dois meses, chegarei aos dois anos e três meses no próximo dia 15, se Deus quiser. E não sabia que estava a fazer uma coisa extraordinária...